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domingo, 18 de agosto de 2013

'Brasil gastou sua poupança na Disney' Paulo Leme

folha de são paulo
'Brasil gastou sua poupança na Disney'
Paulo Leme diz que modelo baseado no consumo levou a deficit externo e a inflação e que correção está a caminho
Para economista, que comanda o Goldman Sachs no Brasil, país ficou mais vulnerável a guinadas no exterior
ÉRICA FRAGAMARIANA CARNEIRODE SÃO PAULOO Brasil tem um encontro marcado com o ajuste, afirma o economista Paulo Leme, 58.
No comando do banco de investimento americano Goldman Sachs no Brasil, o executivo prevê que vai chegar a conta do deficit nas contas externas --produzido pelo consumo interno turbinado.
Conhecedor da economia (e da política) brasileira, Leme afirma, contudo, que o processo será detonado pela mudança nos EUA e após as eleições no Brasil. Até aqui, diz ele, foi só o ensaio.
Folha - Qual sua expectativa para a economia brasileira?
Paulo Leme - Acho que o crescimento deve estar muito próximo a 2%. E, infelizmente, em razão de baixos investimentos e da queda na produtividade, o crescimento sustentável de longo prazo está próximo a 3%, provavelmente abaixo disso, o que é bem menos do que eu esperava há um ano.
O que é longo prazo?
De 3 a 10 anos. A economia mundial tem demorado mais a se recuperar, e a perspectiva de preço de commodities não é favorável.
Internamente, houve uma mudança na política econômica com a adoção de um modelo centrado na expansão da demanda doméstica.
Mas a oferta não está se expandindo. Então, esse aumento do consumo tem levado a um excesso de demanda por bens importados, o que provoca um aumento do deficit em conta-corrente e da inflação.
Qual a contribuição da política fiscal para a inflação?
A política fiscal está muito expansionista, o que aumenta a inflação e contribui para o deficit em conta-corrente. Em vez de gastar com hospitais, escolas, transporte público, o governo está gastando em salários, aposentadorias.
Esse modelo está levando a uma despoupança doméstica, que está sendo financiada por investidores estrangeiros.
Se você toma empréstimos no exterior ou atrai investimento direto estrangeiro e, com isso, investe em indústrias ou atividades que geram receitas em dólares no futuro, o pagamento dos juros dessa dívida está garantido.
No nosso caso, não, os empréstimos foram queimados com turismo da Disneylândia, malas cheias de bens vindas de Nova York ou Miami. Essa conta vai chegar.
E o que acontecerá?
Quando tivermos que pagar esse serviço da dívida, não teremos a receita dos investimentos porque ela foi consumida. Você vai ter que desacelerar a economia, reduzir o consumo e os salários reais, que são fonte da inflação, e isso ocorre através do aumento do desemprego.
Por último, você tem que desvalorizar o real, tornar a economia mais competitiva. Creio que, em 12 meses, o câmbio estará perto de R$ 2,50 e, em dois anos, de R$ 2,75.
Ainda não estamos no ajuste?
Temos o início de um ajuste, mas é pior porque não vai ser completo. Os problemas de falta de crescimento são estruturais, queda de produtividade, perda da competitividade, falta de investimentos. Sem resolver esses problemas, quanto mais você estimula, é como um carro com o afogador quebrado.
O que deverá ocorrer com o crescimento após as eleições?
Para reduzir a inflação e fechar o deficit externo, a economia crescerá pouco, quase estagnada, sem recessão, mas com o desemprego subindo acima de 6%.
Depende do cenário no exterior, e você fica muito vulnerável a grandes guinadas externas. Já tivemos um ensaio em junho, quando houve uma rapidez na saída de capitais do Brasil. O câmbio se desvalorizou rapidamente.
Quando de fato o Fed (banco central americano) resolver subir a taxa de juros, o mercado já terá antecipado isso, o que poderá levar a uma queda dos investimentos ou da capacidade das empresas brasileiras, que estão endividadas em dólar, de rolar sua dívida externa.
O que detonou o pessimismo com o Brasil? Tem a ver com os protestos?
Tanto os investidores quanto a população expressaram, de maneiras diferentes, coisas parecidas, que têm a ver com a perda de conectividade entre a política e os anseios do investidor e da população.
Depois dos protestos, não é difícil concluir que o ajuste econômico ortodoxo não seria muito bem-vindo nas televisões às oito da noite. Então, claramente encoraja uma política de mais riscos.
O que são políticas de risco?
Dobrar a aposta, continuar a aumentar o gasto público. Parte dos pleitos são investimentos em transporte, educação, saúde. É correto. Mas você tem que fazer escolhas, alocar recursos em uma coisa em detrimento de outra. Baixar o preço do transporte terá consequência orçamentária, que vai acabar sendo paga com inflação, que é um imposto que todos pagam.
Alguns economistas dizem que há pouco espaço para cortes de gastos do governo.
Os gastos discricionários são mesmo uma parcela pequena. Mexer na parte estrutural de fato é extremamente difícil, mas não é impossível.
A gente decidiu aumentar a participação dos funcionários do setor público, que é muito onerosa. O salário mínimo tem uma consequência fiscal e sobre a inflação. São escolhas. Não temos feito as melhores escolhas.
A economia pode interferir na perspectiva de reeleição da presidente Dilma Rousseff?
Se a gente relacionar as manifestações populares ao baixo crescimento, mas especialmente à falta de correspondência entre a carga tributária e os serviços públicos, isso já mudou a perspectiva eleitoral, em que parecia altamente provável a reeleição da presidente para um cenário que pode ser o de uma eleição bastante competitiva.
Qualquer que seja o próximo governo terá um primeiro ano difícil?
Sim, pode ser um pequeno desafio ou pode ser problemático. Acho que não teremos nenhum problema na escala como tivemos, por exemplo, em 1999, em 2002 para 2003, simplesmente porque as condições iniciais hoje são muito mais favoráveis do que foram nesses momentos. Você tem muito mais reservas internacionais, você não tem dívida fiscal dolarizada. Agora, tudo depende da reação desse governo e do seu sucessor.
    RAIO-X PAULO LEME, 58
    ATUAÇÃO
    É chairman do Goldman Sachs Brasil. Antes, foi um dos responsáveis pela análise econômica para a América Latina do banco, em Nova York, e economista sênior no FMI (Fundo Monetário Internacional)
    FORMAÇÃO
    Graduado em engenharia elétrica pela UFRJ e mestre em economia pela Universidade de Chicago
      Preocupação do BC com a taxa de câmbio se acentuou em junho
      Número de intervenções para conter dólar disparou naquele mês
      Copom eleva cotação da moeda americana no cenário de referência em 10% em três meses; Selic deve voltar a 9%
      DE BRASÍLIA
      A mudança no ritmo de atuação do Banco Central no mercado de câmbio em junho foi um dos primeiros sinais concretos da preocupação do governo com a cotação do dólar e seus efeitos na inflação.
      Para atenuar a flutuação da moeda norte-americana, o BC atuou 25 vezes naquele mês. De janeiro a maio, foram apenas seis operações.
      Em julho, a preocupação foi descrita em detalhes na ata da reunião do Copom (Comitê de Política Monetária). Os diretores do BC deixaram claro que a desvalorização do real causa uma forte pressão inflacionária no curto prazo e pode, se não for combatida, gerar mais inflação em 2014.
      O aumento da taxa básica de juros pode limitar os efeitos dessa desvalorização sobre os índices de preços, além de funcionar como uma espécie de atrativo para a entrada de dólares no país.
      Na reunião do mês passado, o Copom elevou a taxa Selic para 8,5% ao ano. Na próxima, no fim deste mês, a aposta é que ela chegue a 9% para tentar coibir repasses da desvalorização cambial para os preços.
      Entre as reuniões de maio e julho do Copom, os diretores do BC mudaram drasticamente a estimativa para a cotação da moeda americana usada em seus cálculos.
      Há três meses, o dólar usado no chamado cenário de referência do comitê estava em R$ 2,05. Em julho, esse valor subiu para R$ 2,25.
      ESTADOS
      Além da revisão das restrições à entrada de dólares no país e da elevação da Selic, alguns integrantes da equipe econômica consideram que a autorização dada pelo Tesouro Nacional para os Estados captarem recursos no exterior contribuiu para suavizar o impacto da alta do dólar.
      Mas essa opinião não é consensual. Dentro do próprio governo teme-se que uma alta ainda mais forte do dólar crie dificuldades financeiras para os governadores pagarem seus débitos.
      Uma das incógnitas que mais preocupam integrantes da equipe econômica é o que acontecerá com os juros dos papéis do Tesouro dos EUA.
      Esses títulos são considerados uma espécie de porto seguro pelos investidores.
      Mudanças na política do Fed (o BC dos EUA) podem elevar o rendimento dos papéis e, consequentemente, gerar uma onda de migração de recursos de mercados como o brasileiro para o americano, aumentando, assim, a escassez de dólares no Brasil.

      quarta-feira, 7 de agosto de 2013

      Dilemas da educação - Érica Fraga

      folha de são paulo
      Dilemas da educação
      Em meados do século 20, o reconhecimento da educação como importante motor do crescimento econômico estava longe de ser consensual.
      Estudiosos defendiam a ideia de que a melhora do capital humano de um país estava mais para consequência do que para causa do desenvolvimento. Desfeito o diagnóstico equivocado, o Brasil foi um dos países que tardaram a acordar para a necessidade de investir nessa área.
      Agora, defronta-se com a questão crucial sobre o que pode ser feito para melhorar a qualidade do ensino, após o aumento da escolaridade nas últimas décadas.
      A principal resposta política à demanda das ruas por educação melhor foi ressuscitar planos para ampliar investimentos. A discussão é controversa e pula uma etapa essencial do debate que deveria precedê-la: em que, afinal, é preciso investir?
      Salas de aula cheias, titulação insuficiente dos professores e carência de investimentos em tecnologia estariam entre as causas do ensino de baixa qualidade no país.
      Segundo o economista Eric Hanushek, da Universidade Stanford, que se dedica há décadas ao estudo dos fatores que têm impacto sobre o desempenho dos alunos, nada disso importa. Infraestrutura básica --como cadeiras, mesas, giz e biblioteca-- é parte do que faz a diferença, de acordo com o pesquisador.
      Sobre a formação dos professores, Hanushek diz que diplomas de pós-graduação não têm impacto na aprendizagem dos alunos, mas o conhecimento da disciplina ministrada sim. Essa conclusão aponta um entrave importante da educação no Brasil.
      Em estudo publicado em 2007, o Inep (instituto ligado ao MEC) ressaltou ser "evidente a carência de professores com formação adequada à disciplina que lecionam".
      A pesquisa, que não foi atualizada, mostrava que apenas 44,7% dos professores de matemática e 48,4% dos de geografia dos anos finais do ensino fundamental apresentavam bagagem apropriada.
      Estudos de outros especialistas oferecem pistas semelhantes às fornecidas por Hanushek. O economista Naercio Menezes, do Insper, também percebeu que o tamanho das turmas não afeta o desempenho dos alunos. Mas descobriu que, quanto mais tempo o aluno passa na escola, maior tende a ser sua aprendizagem. Sugere aumentar o número de horas de aula, ainda que isso resulte em mais alunos por sala.
      No Brasil, há casos como o do município de Sobral (CE), que conseguiu avanços significativos na aprendizagem com medidas como alocar os melhores professores para os alunos mais fracos.
      Essas descobertas mostram que, antes de pensar em aumentar gastos, é preciso aprender a administrá-los melhor.

      segunda-feira, 29 de julho de 2013

      ENTREVISTA DA 2ª JOSÉ ALEXANDRE SCHEINKMAN

      folha de são paulo
      Incompetência e ideologia do governo travam a economia
      Para economista, políticas equivocadas, como controle de preços, e aversão a reformas explicam baixa eficiência
      ÉRICA FRAGADE SÃO PAULOJosé Alexandre Scheinkman, um dos mais respeitados economistas brasileiros, concorda com o diagnóstico de um amigo seu: a incompetência explica tanto parte das ações equivocadas quanto a falta de atitudes importantes por parte do governo.
      Esse problema, somado à ideologia das administrações recentes contrária a reformas que poderiam aumentar a baixa eficiência da economia, ajuda a compreender as causas da desaceleração da atividade no país, segundo ele.
      Scheinkman, que vive nos EUA e virá ao Brasil nesta semana para participar de seminário do Insper sobre produtividade, falou à Folha na sexta-feira por telefone.
      O economista, dono de vasta produção acadêmica, deixará em setembro a Universidade de Princeton, onde se tornará professor emérito, rumo à Universidade Columbia.
      Folha - Que fatores têm se mostrado mais importantes para aumentar a produtividade do trabalho?
      José Alexandre Scheinkman - Todos os fatores têm importância, mas a evidência mostra um papel muito importante da educação. Para cada ano a mais de educação, a produtividade do trabalhador aumenta muito.
      Obviamente, um trabalhador com mais capital à sua disposição também vai produzir mais. Mas há menos variação de capital por trabalhador entre os países do que de quantidade de educação.
      Também sabemos que a qualidade da educação importa, mas temos dificuldade de medir essa qualidade.
      A saúde também é muito importante. Nos países que têm melhores indicadores de saúde, os trabalhadores são mais produtivos.
      Há outro aspecto da produtividade que não conseguimos explicar pela quantidade de fatores.
      Se você pega duas firmas da mesma indústria, usando trabalhadores com o mesmo nível de educação e o mesmo tipo de capital, essas empresas produzem quantidades diferentes.
      Isso é explicado pela eficiência no uso dos fatores, a chamada produtividade total dos fatores?
      Exatamente. Há hoje muita atenção nos EUA para tentar entender quais são os fatores que tornam as empresas mais produtivas.
      Como a eficiência da economia brasileira tem evoluído?
      A produtividade total dos fatores, que pode ser traduzida como grau de eficiência, está estagnada ao menos desde 1989 para a economia como um todo. Mas há setores da economia brasileira que tiveram grandes ganhos de eficiência. Um é a agricultura.
      Obviamente há fatores que influenciam todos os setores e toda a economia. Mas, para entender a eficiência, é importante olhar o que está acontecendo com cada setor e com as firmas de cada setor.
      Um fenômeno interessante brasileiro é a existência de empresas pequenas que muitas vezes são informais, muito ineficientes e só sobrevivem por não pagar impostos. Elas trazem a produtividade média do setor em que atuam para baixo.
      Mas a informalidade entre as empresas menores diminuiu.
      Sim, e essas empresas melhoram ao se tornar formais. Mas, como há um tamanho máximo de faturamento para ficar dentro das faixas de tributação no Brasil, há um desestímulo na busca por crescimento por parte dessas empresas e isso prejudica a eficiência da economia.
      O ideal seria diminuir os impostos para as firmas maiores e trazê-las mais perto das outras.
      Quais são as outras causas da baixa eficiência da economia brasileira?
      Há os casos de proteção setorial. As pessoas esquecem que a política setorial dificulta a vida das indústrias que usam o insumo do setor protegido. Elas acabam não podendo se tornar tão eficientes quanto as de países que têm acesso ao mesmo insumo a preço relativamente menor.
      A outra questão importante é o investimento em pesquisa e desenvolvimento. O Brasil tem uma estrutura científica bastante razoável se olharmos os números de doutorandos, as publicações em revistas científicas. Ainda não conseguimos criar uma estrutura de produção de pesquisa e desenvolvimento.
      Esse assunto já foi muito bem estudado pelos economistas. A taxa de retorno, ou seja, o aumento de produtividade gerado pelo investimento nessa área, é enorme. E isso ocorre porque quem investe em pesquisa e desenvolvimento e recebe o retorno não é a única pessoa a lucrar.
      Boa parte dos ganhos vai para outras empresas, concorrentes, outros setores que começam a se beneficiar da tecnologia desenvolvida.
      Até a absorção da tecnologia vinda de fora em um país onde você já tem toda uma estrutura de pesquisa e desenvolvimento é maior. E os governos têm papel fundamental no investimento em pesquisa e desenvolvimento.
      Se há tanta evidência desses benefícios, por que não se investe mais em pesquisa e desenvolvimento no Brasil?
      Um amigo meu diz --e eu concordo-- que um dos grandes problemas do governo brasileiro é a incompetência. Eu não consigo explicar isso por malevolência, por um pensamento de que o governo quer um país atrasado.
      Às vezes as políticas são extremamente prejudiciais ao país por incompetência --por exemplo, quando o governo controla o preço da gasolina. Isso levou ao aumento do congestionamento e da poluição e prejudicou uma das poucas tecnologias importantes criadas no Brasil, a da indústria do etanol.
      Não imagino que o governo decidiu gerar essas consequências. Mas alguém teve a brilhante ideia de, entre aspas, controlar a inflação mantendo o preço da gasolina estável e não pensou nas consequências.
      Há uma estagnação no processo de reformas importantes para o desenvolvimento econômico no Brasil?
      As reformas começam no início do governo Collor com a abertura comercial. Depois houve um período de paralisia. E voltaram a acontecer com Itamar, o Plano Real. Em seguida, outras reformas importantes foram feitas. Esse processo foi freado a partir do segundo governo Lula.
      Há seis, sete anos poucas coisas importantes estão sendo feitas. O governo tem se concentrado muito mais em políticas industriais, em intervir nos preços, em diminuir impostos setoriais e menos em resolver as grandes questões que poderiam melhorar a eficiência no Brasil, como as que eu já mencionei, e outras, como o investimento em infraestrutura.
      Essa letargia tem a ver com a questão da competência que o sr. mencionou?
      Há uma questão também de ideologia. Há reformas que precisavam ser feitas, mas que não atendiam à ideologia do governo. Acho que agora o governo entendeu que precisa trazer mais investimento privado para áreas como ferrovias, portos etc.
      Outro problema importante é a baixa taxa de poupança. Então, o governo cobra muito imposto, mas tem gastos enormes e pouca capacidade financeira para investir, além da falta de capacidade que eu já mencionei de competência do setor público.
      Esses fatores explicam a desaceleração econômica dos últimos anos?
      Acho que há várias causas. Em 2008 e em 2009 a resposta à crise com política fiscal mais solta fazia sentido. O que não fez sentido foi achar que isso poderia ser permanente mesmo depois de a economia ter começado a se recuperar.
      A outra é o excesso de intervenção, como o controle do preço da gasolina. Cada uma dessas intervenções, de forma isolada, pode passar a impressão de que seus efeitos não são tão graves, mas, se você junta todas, começa a ter efeito na economia. E isso é parte do que estamos vendo agora.
      Além disso, também estamos sentindo o efeito da desaceleração da China, que, no entanto, não deve ser exagerado.
        RAIO-X JOSÉ SCHEINKMAN, 65
        Cargo
        Professor de economia da Universidade de Princeton e pesquisador associado do NBER (National Bureau of Economic Research). Em setembro, irá para a Universidade Columbia
        Pesquisa
        Tem vasta produção acadêmica, recentemente focada no estudo de bolhas no sistema financeiro e no tamanho do setor. Também se dedica ao estudo da produtividade da economia brasileira

        segunda-feira, 17 de junho de 2013

        Entrevista da 2ª Alexandre Rands

        folha de são paulo
        Educação explica 100% da desigualdade de renda
        Economista diz que país erra ao não priorizar educação e que investimento atual mantém diferenças regionais
        ÉRICA FRAGADE SÃO PAULO
        "Estamos gastando muito ainda com políticas que não são adequadas, com financiamentos para investimento de empresa, subsidiando crédito, o que não é necessário. Você não tem política para mudança agressiva de desequilíbrios regionais
        "Como gastos em educação têm escala, quando você gasta menos nas regiões mais pobres, tem um impacto menor. Quando termina a escola no Nordeste, o aluno sai com a capacidade não muito superior a 50% da capacidade do estudante do Sudeste. Talvez pior do que isso
        Atrasos educacionais explicam 100% das desigualdades de renda entre diferentes regiões do Brasil.
        A conclusão é do economista Alexandre Rands, pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco, que tem uma vasta produção acadêmica sobre esse tema.
        Seu diagnóstico, se correto, significa que o país investe em políticas equivocadas há décadas.
        Segundo Rands, foi o caso de incentivos para o desenvolvimento da indústria de regiões mais pobres e continua sendo o caso de subsídios públicos a setores empresariais específicos.
        Ele argumenta que no mercado de capital físico o investimento funciona de forma razoavelmente eficiente.
        O mesmo não vale para o setor de capital humano. "Famílias em que os pais têm maior capital humano tendem a ter mais recursos para investir na educação dos filhos", afirma.
        Por isso, as desigualdades educacionais tendem a se perpetuar se não houver interferência do governo.
        Apesar de melhoras, com políticas que tentam compensar a baixa capacidade de investimento das regiões mais pobres, os avanços do Brasil nessa área têm sido insuficientes, diz Rands.
        -
        Folha - De onde vêm as desigualdades regionais?
        Alexandre Rands - Existem teorias diferentes. O meu entendimento hoje, com base nos estudos que tenho visto para alguns países, como os EUA, e nos meus próprios estudos para o Brasil, é que é possível explicar 100% das desigualdades só pelas diferenças em capital humano. Se você corrigir o nível médio de instrução da região Nordeste em relação à região Sudeste, você corrigirá a desigualdade entre essas regiões.
        Mas a desigualdade de renda caiu no país, certo?
        Você vê uma certa melhora da participação do Nordeste. Nossa estimativa é que hoje o PIB (Produto Interno Bruto) per capita do Nordeste deve estar perto de 50% da média nacional. Há cinco anos, era 45%. Então, melhorou, mas a desigualdade ainda é muito elevada.
        A remuneração por mão de obra qualificada continua sendo muito alta no país. Portanto, as regiões em que há gente com menos qualificação continuam com renda per capita muito mais baixa.
        Investimentos em educação seriam a solução para reduzir a desigualdade?
        Sim, essas são as políticas fundamentais para você eliminar as desigualdades regionais. Você precisa mudar o nível médio de educação --considerando qualidade e quantidade da educação-- nos municípios.
        Então o Brasil passou décadas indo na direção errada, investindo, por exemplo, em políticas de industrialização e desenvolvimento regional?
        Totalmente errada, porque partimos dos pressupostos equivocados. Colocando de forma bem simples, há na economia quatro fatores de produção: capital físico, capital humano, trabalho e recursos naturais.
        Toda a nossa política supôs que os mercados para capital humano, trabalho e recursos naturais funcionavam razoavelmente bem e que o problema estava no mercado para capital físico.
        Então, você teria que subsidiar o capital físico nas regiões mais pobres para poder aumentar sua rentabilidade e atrair mais investimentos. Essa é a base da tese de Celso Furtado, na qual se baseou a política regional brasileira.
        Se eu estiver certo, essa lógica está equivocada. Os mercados para capital físico, trabalho e recursos naturais funcionam razoavelmente bem. O que não funciona é o capital humano. É aí que precisamos ter investimentos públicos. Se tivéssemos feito isso na década de 60, hoje teríamos um país altamente equilibrado regionalmente.
        Continuamos com as políticas erradas atualmente?
        Estamos longe ainda. Estamos gastando muito ainda com políticas que não são adequadas, com financiamentos para investimento de empresa, subsidiando crédito, o que não é necessário.
        E hoje a nossa principal política para combater a desigualdade é por meio de transferência de renda para os mais pobres, o Bolsa Família. Este é um programa que tem mesmo de existir, mas você não tem uma política para mudança agressiva dos desequilíbrios regionais.
        Os gastos com educação nas regiões mais pobres ainda são muito inferiores aos no Sudeste. Ou seja, ainda estamos reproduzindo as desigualdades regionais.
        Mas o Brasil está corrigindo as desigualdades?
        O que a gente corrige hoje é praticamente nada. Como os gastos em educação têm escala, quando gasta menos nas regiões mais pobres, você tem um impacto menor.
        Quando termina a escola no Nordeste, o aluno sai com capacidade não muito superior a 50% da capacidade do estudante do Sudeste. Talvez até pior do que isso.
        Como as escolas aqui [no Nordeste] são muito ruins, então a qualidade do aluno que sai é muito ruim.
        A existência de desigualdade de renda em um país é necessariamente ruim?
        A desigualdade de oportunidades entre indivíduos é problemática. É o caso de indivíduos que, por seus atributos pessoais, teriam condição de prosperar muito e não o fazem por falta de oportunidades.
        Aí, há desperdício de potenciais talentos no país.
        Agora, a desigualdade de renda que ocorre depois de você ter dado oportunidade igual aos indivíduos não é prejudicial.
        Que países são exemplos de cada caso?
        Nos EUA, boa parte da população branca tem nível de oportunidade de se aprimorar e de chegar no mercado com potencial de renda alta semelhante ao que ocorre na Suécia, por exemplo.
        Só que o mercado de trabalho na Suécia equaliza rendas, tem sistema de impostos e possibilidades de carreira nas empresas que travam muito a geração de desigualdade a partir daí.
        Nos EUA, isso não ocorre. A economia americana promove a remuneração por trabalho adicional. É um mercado mais livre. Essa desigualdade americana é favorável a partir desse ponto.
        Por que é favorável?
        Porque leva a um maior esforço por parte das pessoas. Mas essa característica dos EUA só vale para os brancos. Se você considerar os negros e os latinos, até os 20 anos, você já gerou uma desigualdade brutal, que na Suécia não existe.
        Essa desigualdade até os 20 anos é ruim porque desperdiça muito talento potencial, prejudicando o crescimento da economia.
        Em qual desses contextos, a desigualdade brasileira se encaixa?
        O Brasil tem muita desigualdade, maior do que a americana até os 20 anos, de qualificação. E, depois dos 20 anos, temos uma economia razoavelmente livre, semelhante à americana.
        Investimentos em educação tiveram papel crucial na Coreia do Sul, onde a renda per capita deu um salto?
        Lá mais do que tudo foi capital humano. Há mais estudantes na Coreia do Sul indo para a universidade do que nos EUA. A Coreia chegou a ter uma situação que não ocorreu nem nos EUA, em que escolas públicas são melhores do que as privadas.
          RAIO-X ALEXANDRE RANDS
          IDADE
          50 anos
          FORMAÇÃO
          Economista graduado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com doutorado pela Universidade de Illinois (EUA)
          PRODUÇÃO ACADÊMICA
          "Desigualdades Regionais no Brasil" (ed.Elsevier, 2011)
          TRABALHO
          É professor de economia da UFPE e presidente da consultoria Datamétrica

            domingo, 28 de abril de 2013

            Para pesquisador, desnível nas notas é preço baixo a se pagar pela inclusão

            folha de são paulo

            Cotistas têm desempenho inferior entre universitários
            Estudos apontam que diferença vai até final dos cursos e é maior em exatas
            Foram avaliados mais de 160 mil alunos; para pesquisador, desnível nas notas é preço baixo a se pagar pela inclusão
            ÉRICA FRAGADE SÃO PAULOAlunos de graduação beneficiários de políticas de ações afirmativas, como cotas e bônus, têm apresentado desempenho acadêmico pior que os demais estudantes nas universidades públicas do país, mostram estudos recentes.
            As pesquisas também concluem que a diferença de notas perdura até o fim dos cursos e costuma ser maior em carreiras de ciências exatas.
            Universitários que ingressaram em instituições públicas federais por meio de ação afirmativa tiraram, em média, nota 9,3% menor que a dos demais na prova de conhecimentos específicos do Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), que avalia cursos superiores no país.
            No caso das universidades estaduais, cotistas e beneficiários de bônus tiveram nota, em média, 10% menor.
            Os dados fazem parte de estudo recente dos pesquisadores Fábio Waltenberg e Márcia de Carvalho, da UFF (Universidade Federal Fluminense), com base no Enade de 2008, que pela primeira vez identificou alunos que ingressaram por políticas de ação afirmativa.
            Foram analisados os desempenhos de 167.704 alunos que estavam concluindo a graduação nos 13 cursos avaliados em 2008, como ciências sociais, engenharia, filosofia, história e matemática.
            "Encontramos diferenças razoáveis. Não são catastróficas como previam alguns críticos das ações afirmativas, mas é importante registrar que existe uma diferença para não tapar o sol com a peneira", diz Waltenberg.
            Para ele, o desnível atual é um preço baixo a se pagar pela maior inclusão. Mas ele ressalta que, com a ampliação da política de cotas (que atingirão 50% das vagas das federais até 2016), é possível que o hiato entre as notas se amplie.
            EVASÃO MENOR
            Pesquisa recente feita pelo economista Alvaro Mendes Junior, professor da Universidade Cândido Mendes, sobre o resultado de ações afirmativas na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) revela que o nível de evasão entre os cotistas na universidade é menor do que entre outros estudantes.
            Mas os dados levantados por ele --que acompanhou o progresso de alunos que ingressaram em 2005 em 43 carreiras-- confirmam as disparidades de desempenho.
            O coeficiente de rendimento (média das notas) de alunos não beneficiários de ações afirmativas que se formaram até 2012 foi, em média, 8,5%, maior do que o dos cotistas. Em carreiras como ciência da computação e física essa diferença salta para, respectivamente, 43,2% e 73,2%.

              Aluno de escola federal leva vantagem
              Na federal de Juiz de Fora, esses estudantes têm rendimento igual ao dos formados em colégios particulares
              Nos cursos de direito e medicina, que são mais concorridos, eles ficam com cerca de 50% das vagas para cotistas
              DE SÃO PAULOAlunos egressos de escolas públicas federais têm desempenho igual ao dos formados em instituições particulares nos cursos de graduação da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).
              Já os estudantes saídos de escolas públicas estaduais e municipais ficam atrás em termos de rendimento.
              É o que revelam dados sobre 14 mil alunos que ingressaram na UFJF entre 2006 --ano de implementação das cotas-- e 2011.
              Nesse período, os alunos das escolas públicas federais, consideradas de melhor qualidade, ficaram com 25% das vagas destinadas a cotistas, embora representem menos de 2% dos concluintes do ensino médio em Minas Gerais.
              Nos cursos de medicina e direito, mais concorridos, os egressos da escolas públicas federais representam cerca de 50% das vagas reservadas para os cotistas.
              Outra parte das cotas da UFJF é destinada especificamente a negros egressos de escolas públicas, cujo desempenho na graduação é mais baixo que o dos não cotistas.
              Segundo Antonio Beraldo, professor de estatística da UFJF que estuda a política de ação afirmativa, a formação mais fraca nas escolas públicas estaduais e municipais tem se refletido na trajetória do desempenho acadêmico dos cotistas.
              "Essa defasagem existe em todas as áreas e é ainda mais evidente nos cursos de exatas", afirma Beraldo.
              O acadêmico escreveu recentemente em coautoria com Eduardo Magrone, pró-reitor de graduação da UFJF, uma avaliação sobre a política de cotas na universidade.

                Rendimento caiu com o passar do tempo
                Segundo pesquisadora, políticas de cotas revelam hoje desempenho de alunos 'mais próximo da realidade'
                Inclusão aumentou enquanto parcela de cotistas com notas mais altas diminuiu nas universidades
                DE SÃO PAULOPesquisa dos acadêmicos Delcele Queiroz e Jocélio Teles dos Santos sobre desempenho dos cotistas em 2005, ano de adoção da política na UFBA (Universidade Federal da Bahia), indicava "resultados bastante animadores".
                Os autores ressaltavam que em alguns cursos como engenharia civil e comunicação social, a fatia de cotistas com coeficiente de rendimento entre 7,6 e 10 era maior do que entre os demais alunos.
                Segundo Delcele, que é pedagoga e professora da Uneb (Universidade do Estado da Bahia), dados para anos subsequentes mostram um retrato menos favorável em termos da diferença de rendimento entre não cotistas e cotistas, embora confirmem o aumento da diversidade social e racial na universidade.
                Estudo recente de Delceles e de Santos mostra que, entre os que ingressaram na UFBA em 2006 e cursavam o sétimo semestre, a fatia de cotistas com notas médias entre 7 e 10 era menor que a dos demais alunos em 12 cursos muito concorridos, incluindo engenharia civil e comunicação.
                Delcele acredita que, quando foram adotadas, as cotas absorveram um estoque de alunos de escolas públicas com bom rendimento que não tentavam o vestibular ou ficavam muito próximos de serem aprovados.
                "Passado esse efeito, a situação em termos de desempenho que temos visto é mais próxima da realidade", diz.
                O desempenho acadêmico de cotistas ainda é pouco estudado no Brasil. A adoção de ações afirmativas pelas universidades começou a ganhar fôlego a partir de meados da década passada.
                Estudos de casos isolados costumavam indicar desempenho próximo entre beneficiários de ações afirmativas e demais alunos.
                Algumas pesquisas mais recentes têm revelado um quadro diferente, de rendimento pior de cotistas. O desempenho mais fraco é explicado por especialistas pela fragilidade na formação dos alunos de escolas públicas estaduais e municipais.
                BASE MAIS FRACA
                A estudante de Publicidade da UFF Priscylla Barros, 20, sente na graduação dificuldades herdadas de uma base fraca do ensino básico em escola pública estadual.
                "Eu vou bem nas disciplinas técnicas do curso, como desenho e criação gráfica, mas sinto dificuldades ligadas à base fraca em inglês, em conhecimentos gerais".
                A pesquisadora Delcele defende a política de cotas, mas afirma que as universidades têm falhado na adoção de políticas para "acolher os cotistas e contribuir para sua permanência e desempenho nos cursos".
                DIVERSIDADE
                Segundo Maria Eduarda Tannuri-Pianto, da UnB (Universidade de Brasília), a cota racial adotada pela instituição em 2004 atingiu o objetivo de promover a inclusão.
                Autora de um estudo em parceria com o pesquisador Andrew Francis, ela diz que apenas em 50% dos cursos "mais seletivos" da UnB pretos e pardos tinham rendimento "ligeiramente inferior" ao dos não cotistas.
                Ao longo do tempo, segundo ela, porém, o desempenho dos cotistas no vestibular tem piorado em relação ao dos primeiros cotistas beneficiados.

                  segunda-feira, 15 de abril de 2013

                  Entrevista da 2ª Marcos Lisboa

                  folha de são paulo

                  Infraestrutura e burocracia chegaram ao limite no país
                  UM DOS FORMULADORES DAS REFORMAS MICROECONÔMICAS DOS ANOS 2000, EX-SECRETÁRIO DO GOVERNO LULA DIZ QUE É PRECISO CRIAR ESTRUTURA PARA O BRASIL PROMOVER GRANDES OBRAS
                  ÉRICA FRAGAMARIANA CARNEIRODE SÃO PAULOA falta de estradas decentes e complicações para importar e exportar não serão temas exclusivos de empresários. Vão virar agenda social.
                  A previsão é do economista Marcos Lisboa, recém-saído do Itaú Unibanco, hoje no Insper. Um dos formuladores da "agenda positiva", ele diz que o lapso de infraestrutura chegou ao limite.
                  "Talvez tenha chegado num nível tal que não dá mais, como a violência nos anos 90", diz ele, nesta entrevista à Folha.
                  Em recente estudo com o economista Samuel Pessôa, colunista da Folha, Lisboa diz que reformas feitas nos anos 2000 estimularam o setor de serviços. Mas a indústria, dependente de grandes obras, ficou para trás.
                  -
                  Folha "" A tese de que o câmbio valorizado foi vilão da indústria é equivocada?
                  Marcos Lisboa - Acho que essa história sobre o câmbio --e sobre a macroeconomia em geral-- acaba tendo a importância exagerada porque o Brasil, durante muitas décadas, teve uma macroeconomia muito desequilibrada. Então o câmbio, assim como juros e inflação, ganharam importância no debate. Mas nos últimos anos, ele tem sido mais reflexo do que causa do andamento da economia.
                  O que afetou a indústria foi a falta de reformas? É correto dizer que estamos há dez anos sem reformas relevantes?
                  Eu não diria isso. Esses movimentos são mais lentos. Não são grandes reformas. Tivemos um processo de estabilização, de construção de uma institucionalidade para uma economia que passou muitos anos desequilibrada. Isso foi progressivo.
                  A partir da década passada, a gente começou a colher um pouco os benefícios dessas melhorias. Tivemos diversos setores no Brasil que cresceram muito bem nesse período e com grandes conquistas para a sociedade.
                  Que setores se saíram bem?
                  Todo esse Brasil urbano, que teve ganho de produtividade, dos serviços, de consumo, e que emprega muita gente. Com isso, as taxas de desemprego caíram para níveis que nunca imaginávamos. E a consequência foi uma queda da desigualdade.
                  Mas teve toda uma parte importante que não teve os mesmos benefícios. Nossa hipótese é que os setores para os quais são necessários investimentos complexos acabam mais penalizados pelas dificuldades do nosso marco regulatório.
                  É complicado exportar, importar, construir uma estrada, uma hidrelétrica. Isso significa custos maiores de produção, maior incerteza sobre o investimento.
                  Por que a agenda para esses setores travou?
                  Como envolve mais instâncias nos diversos níveis de governo, essa agenda acabou sem o foco ou o debate que poderia ter tido.
                  Acho que o país agora começa a discutir essa agenda, que não se esgota nos grandes debates. As dificuldades são os detalhes: quem autoriza determinado tipo de obra? Quem vai fiscalizar, qual é o critério de realização? Você vai fazer uma grande rodovia, as pessoas vão ter terrenos desapropriados, como será esse processo? Para nada disso temos uma estrutura.
                  A questão não é tornar mais fácil fazer a obra ou não. É tornar o processo mais eficiente e ter clareza do que pode e do que não pode fazer.
                  É uma agenda extensa de melhoras institucionais, que vai aperfeiçoar processos de autorização, de controle, de negociação de conflitos, que vai permitir a expansão dos investimentos e a redução do seu custo. Isso se traduz em eficiência para a economia.
                  A quantidade de problemas que têm aparecido tem tornado essa agenda ainda mais claramente necessária.
                  Que problemas o sr. ressalta?
                  Fornecimento de energia, construção de estradas, a parte logística. A nossa dificuldade de ter um avanço adequado na oferta de infraestrutura.
                  Essa "agenda perdida" explica a desaceleração de agora?
                  Acho que ela explica porque a gente cresce menos do que poderia. Na medida em que os problemas vão sendo enfrentados, isso tem impacto positivo sobre a taxa de crescimento de longo prazo. Na medida em que os problemas vão se agravando, ela tem um impacto negativo.
                  Há uma série de pequenos avanços que vão aperfeiçoando o funcionamento dos mercados. Quando essas medidas geram ganhos de produtividade nos setores onde estão ocorrendo, isso gera maior crescimento até que esses ganhos se esgotem.
                  Em que fase estamos?
                  A gente teve um ciclo bom de crescimento. Teve um choque externo em 2007 e 2008. E os setores que estavam na liderança desse crescimento têm tido expansão menor. O ciclo de produtividade tem uma vida e parece que está se esgotando nesses setores.
                  Então a economia está se afastando do crescimento alto, dos serviços, e convergindo para o baixo, da indústria?
                  O Brasil está tendo um crescimento sustentável, mas baixo. E acho que temos a oportunidade de crescer mais. Se o país mergulhar nessa agenda, há grande oportunidade de ter um ciclo longo de investimento. O Brasil tem condições de crescer não 3%, mas 4%, 5% ao ano, enfrentando seus desafios.
                  Com esse esgotamento, é preciso avançar em outras áreas?
                  Quando se tem uma agenda que melhora a infraestrutura, isso tem efeitos positivos sobre toda a economia.
                  Quando se consegue reduzir custos de energia porque houve ganhos de produtividade, quando se consegue melhorar eficiência no processo de importação e exportação --que passa por portos, mas também pela burocracia dos processos--, isso ajuda o investimento e a melhorar a qualidade do investimento.
                  Quando há mais clareza e definição do que pode e do que não pode e agilidade nesse processo, isso melhora a qualidade para se investir mais e nos lugares certos.
                  Com essa complexidade dos processos, o que acontece é que alguns investimentos começam e param em obstáculos, atrasam... e cada vez que isso ocorre, vira custo para os novos projetos.
                  Recuperar a produtividade é reduzir custos das empresas?
                  Tem de ser redução de custo para a economia. É uma diferença importante. Por exemplo, a tarifa de importação para um setor o protege de concorrência externa, mas aumenta os custos dos consumidores. Existe uma diferença grande entre medidas de proteção ou de estímulo que levem a transferências de recursos entre os setores e medidas que permitam ganho de produtividade para toda a economia.
                  É preciso reduzir salários para recuperar a produtividade?
                  Alguns setores tiveram ganhos de produtividade e esses setores são fortes empregadores. Os salários aumentaram e afetaram os setores que estavam com a produtividade crescendo menos. Agora, melhoras na produtividade, sobretudo em infraestrutura, têm impactos difusos sobre a economia. Você aumenta a capacidade de geração de renda como um todo.
                  Como o impacto é difuso, quem o sr. imagina que vá empunhar essa bandeira?
                  Exatamente por ser difusa é que ficamos tão atrasados nisso. Temas que têm benefícios muito localizados são mais fáceis de entrar no debate do que temas que têm efeitos sobre todos nós.
                  Mas acho que tem começado a entrar e talvez tenha chegado num nível tal que não dá mais. Foi um pouco como a violência nos anos 90. A violência no Brasil chegou num nível em que a sociedade começou a cobrar uma ação mais efetiva do Estado, como a nossa educação, como a política social.
                  Talvez a dificuldade seja que, no Brasil, a gente tenha que chegar no limite para tomar as providências.
                  Mas este tema pode virar uma demanda social?
                  Está virando. Quando você fala sobre a entrega da soja nos portos, o prazo, as filas e as complexidades, isso está virando um tema. Tanto é que o governo está entrando na discussão. Aí acho que a lei de acesso a informação pode ser útil. A transparência e o acesso a informação de forma periódica e regular permite que a sociedade cobre o que ela ache importante.
                  Toda vez que os problemas são trazidos à luz do dia, a sociedade se manifesta, a gestão ocorre e muitas vezes os problemas melhoram.

                    RAIO-X - MARCOS LISBOA
                    IDADE
                    48 ANOS
                    FORMAÇÃO
                    Graduado em economia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), doutor em Economia pela Universidade da Pensilvânia (EUA)
                    ATUAÇÃO
                    Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 2003 e 2005 e presidente do IRB-Brasil (Instituto de Resseguros do Brasil) de 2005 a 2006

                      quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

                      Entrevista Antonio Delfim Netto

                      folha de são paulo

                      Governo precisa corrigir 'tropeços' para que país possa crescer mais
                      Ex-ministro diz que manobra fiscal e atuação no câmbio abalaram confiança
                      ÉRICA FRAGADE SÃO PAULOO economista Antonio Delfim Netto garante que mantém seu aval a Dilma Rousseff. Mas passou a criticar o que classifica como tropeços do governo petista.
                      Em entrevista à Folha na manhã de ontem, o ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento criticou o modelo de concessões à iniciativa privada que fixa rentabilidade do investidor.
                      Segundo ele, isso leva o mercado a responder "com a porcaria que cabe em sua taxa de retorno".
                      Também na manhã de ontem, o governo anunciou mudanças nas regras para as concessões de projetos de infraestrutura. Melhorou as condições para os investidores, mas manteve o critério de taxa de retorno -embora a tenha aumentado.
                      Para Delfim, o "truque fiscal" para cumprir a meta de superavit primário gerou um efeito de catastrofismo, que "permitiu que se generalizasse a ideia de que o governo não sabe o que está fazendo".
                      Ele também é contra a recente tentativa do Banco Central de apreciar o real e os incentivos do governo à formação de oligopólios.
                      Mas o economista, que é colunista da Folha, elogia a continuação da política de redistribuição de renda pelo governo Dilma, que, para ele, vai na direção certa e só precisa fazer algumas correções.
                      -
                      Folha - O senhor adotou um tom mais crítico em relação ao governo. O que o levou a isso?
                      Antonio Delfim Netto - Não mudou o tom coisa nenhuma. Eu acho que a política do Lula era boa. Considero a Dilma uma tecnocrata de altíssima qualidade. Tudo o que ela está fazendo está na direção certa. Começando com aquela intervenção na poupança, a redução dos juros, a redução do custo de energia.
                      O que eu digo é o seguinte, a minha mudança...
                      Chamei a atenção para uma coisa que foi exagerada, a operação quadrangular entre Tesouro, BNDES, Caixa Econômica. Aquilo diminui a credibilidade da política. Você não precisava do superavit primário de 3,1% [do PIB]; com 2% você fazia o serviço.
                      Os investidores parecem estar menos confiantes no governo.
                      O governo não tem conseguido produzir leilões capazes de atrair a iniciativa privada. Tenta fixar coisas que não podem ser fixadas simultaneamente.
                      Você pode fixar a qualidade da concessão. E depois fazer um leilão competitivo em que é determinada a taxa de retorno. Esse é o modelo ideal. Ou você fixa a taxa de retorno e o mercado vai responder com a porcaria que cabe dentro da taxa de retorno. O governo não pode é fixar as duas coisas ao mesmo tempo. Se ele não se afastar desse modelo, a qualidade dos serviços não será a desejada.
                      E a infraestrutura do país continuará com problemas?
                      Sim, nossa infraestrutura continuará em dificuldades.
                      Isso impacta o crescimento?
                      Não há razão para o Brasil não poder crescer entre 3,5% e 4% neste ano. Mas vai depender do nível de investimento. Se você conseguir concessões com qualidade razoável e taxa de retorno adequada, vai atrair o investimento privado.
                      O que mais o governo pode fazer para recuperar a confiança do setor privado?
                      Há medidas como a desoneração da folha de pagamento junto com a relativa desvalorização do real que estão produzindo efeitos importantes na estrutura produtiva e na própria exportação.
                      Mas, quando o governo faz uma intervenção intempestiva no câmbio, aquelas pessoas que tomaram o risco de acreditar na política de desoneração e de câmbio entram em estado de estresse.
                      O sr. se refere à intervenção do BC [para valorizar o real]?
                      É. Essa ideia de que corrigir cinco centavos no câmbio muda a expectativa de inflação é absurda.
                      Produziu algum efeito terrível físico? Não. Mas produziu uma dificuldade na credibilidade do governo.
                      Não se pode estressar mais o setor industrial.
                      O sr. também tem criticado os incentivos a setores escolhidos por meio do BNDES.
                      É verdade, acho que essa não é uma política das mais inteligentes, formar oligopsônios [em que poucas empresas, de grande porte, compram determinado produto] e oligopólios com recursos do Tesouro, porque é óbvio que não são instrumentos eficientes no processo competitivo. São contra a competição. Mas isso vem de muito tempo. Não tem nada a ver com a Dilma.
                      Vem do governo Lula?
                      Sim, vem do governo Lula. Tanto quanto sei até hoje, essa não é uma coisa que termine bem.
                      Como termina?
                      Com mais inflação.
                      A inflação hoje é um risco?
                      Não acredito. A inflação vai flutuar um pouco. O BC continua com os instrumentos, tem autonomia. É um erro imaginar que não opere. Como é um erro imaginar que o governo não saiba administrar essa política econômica.
                      O que tem acontecido de melhor no país?
                      O lado bom é que as instituições estão muito mais fortes do que sempre estiveram. O Brasil é o emergente que tem as instituições mais sólidas, como prova esse julgamento do STF [do mensalão]. E, mesmo que tenha crescido pouco, temos crescido reduzindo a desigualdade. A redução da desigualdade é tão importante quanto o crescimento.
                      E estou convencido: se o governo corrigir essas pequenas coisas, vamos crescer entre 3,5% e 4%. Se não corrigir, vamos ter um crescimento menor. Mas não significa que o Brasil vai entrar em estagnação. Simplesmente vai ter crescimento menor.
                      Mas isso não seria ruim?
                      É claro que um crescimento maior é melhor, desde que acompanhado desse aumento de igualdade de oportunidade. Este é o ponto central: estamos construindo uma sociedade mais decente, dando à economia de mercado o que falta a ela, que é a redução da flutuação no nível de emprego e o aumento da oportunidade de igualdade. Não há razão para esse catastrofismo que se apropriou do país.
                      O erro do truque fiscal produziu esse efeito. Permitiu que se generalizasse a ideia de que o governo não sabe o que está fazendo. Duvido que o governo repita esse erro.

                        FRASES
                        "Não se pode estressar mais o setor industrial"
                        "Este é o ponto central: estamos construindo uma sociedade mais decente, dando à economia de mercado o que falta a ela, a redução da flutuação no nível de emprego e o aumento da oportunidade de igualdade"

                        RAIO-X: DELFIM NETTO
                        IDADE
                        84 anos
                        OCUPAÇÃO
                        Professor emérito da USP, sócio da Consultoria Ideias
                        FORMAÇÃO
                        Economia (USP)
                        CARREIRA
                        Foi ministro: Fazenda (1967-1974); Agricultura (1979); Planejamento (1979-1985). Foi deputado federal (1987-2007). Autor de vários livros.

                          quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

                          Entrevista Javier Solana

                          FOLHA DE SÃO PAULO

                          Crise deve resultar em uma geração perdida na Espanha
                          Ex-chanceler europeu diz que 'pântano geracional' afetará economia do país; para ele, grupo g20 deve ser mais atuante
                          ÉRICA FRAGADE SÃO PAULO
                          A crise europeia pode produzir uma geração perdida na Espanha: "Há um risco enorme de que os eventos atuais impeçam uma inteira geração de realizar seu potencial". O diagnóstico é de Javier Solana, ex-chanceler espanhol e da União Europeia.
                          Para Solana, que também já foi secretário-geral da Otan, os líderes europeus precisam adotar com urgência políticas que promovam o crescimento econômico.
                          Solana esteve em São Paulo no fim de novembro para participar de uma conferência sobre a importância das grandes regiões metropolitanas para o comércio global, promovida pelo Brookings Institution e pelo JP Morgan.
                          Leia os principais trechos da entrevista dele (atualmente, presidente do ESADE Center for Global Economy and Geopolitics) à Folha.
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                          Folha - Desde a crise global os governos se tornaram mais realistas, mais interessados em resolver seus problemas do que em perseguir uma agenda global. Como mudar isso?
                          Javier Solana -A crise econômica e a consequente conscientização sobre o grau de interdependência têm inspirado um ressurgimento do nacionalismo ao redor do mundo. Mas nos esconder dentro de nossas conchas ou introduzir medidas protecionistas não resolverá os problemas atuais.
                          Ao contrário, estou convencido de que a solução está nas oportunidades oferecidas pela maior abertura ao mercado global. Os riscos inerentes a essas ações podem ser mitigados em fóruns como a OMC.
                          Apesar dos recentes acordos em relação à Grécia, parece que a crise está longe de ser resolvida. Como o sr. avalia a ação dos líderes europeus?
                          Vamos ser claros: a crise tem sido um verdadeiro tranco para todos. Nenhum país estava totalmente preparado para as mudanças e situações dramáticas dos últimos anos.
                          Mas, considerando a dificuldade extrema da situação, acho que os líderes europeus responderam tão bem quanto podiam.
                          O desafio atual para a União Europeia é incorporar as causas e repercussões dos eventos econômicos extraordinários em formulação e ação política. Isso vai requerer movimentos corajosos e visionários por parte dos líderes europeus, e espero que essas ações se materializem.
                          A Espanha enfrenta taxas de desemprego muito elevadas. Por quanto tempo essa situação pode ser mantida sem resvalar em levantes sociais?
                          Meu país, a Espanha, está de fato sentindo o peso elevado da crise. Mas é também um país forte e muito desenvolvido, que é apoiado por uma rede de laços sociais densa. Essa rede robusta garante que as necessidades básicas sejam cobertas, especialmente nesta situação dramática de desemprego exorbitante.
                          O maior problema é um iminente pântano geracional: há um risco enorme que os eventos atuais impeçam uma inteira geração de realizar seu potencial.
                          E embora isso pareça um problema em nível individual, na verdade seu efeito será sentido em uma escala nacional. É imperativo que sejam tomadas atitudes para evitar uma geração perdida.
                          A Espanha está na direção correta para sair da crise?
                          Como a Espanha é um membro pleno da União Europeia, eu acredito que a solução para sua saída da crise tem de ser uma solução europeia. A grande pergunta, no entanto, é como migrar de políticas de austeridade para políticas que irão estimular o crescimento.
                          Embora a austeridade seja um ingrediente essencial, ela não consegue nos tirar sozinha da crise. Apenas o crescimento econômico pode nos fazer mover para cima e para frente. É fundamental que nos dediquemos a encontrar programas e políticas que promoverão o crescimento.
                          A crise fez com que o G20 tivesse papel proeminente na economia. Como o sr. avalia o desempenho desse grupo?
                          Concordo que o G20 teve um papel importante nessa crise. Nos estágios iniciais, os membros do fórum reagiram rapidamente e de forma determinada para evitar uma recessão global. Mas, depois dos encontros iniciais, parte desse ímpeto foi, infelizmente, perdido. O grupo encontrou dificuldade em coordenar políticas de crescimento, o que é uma pena.
                          Mas eu ainda acredito na promessa do G20. O papel forte desempenhado pelos países emergentes nesse fórum corresponde ao seu lugar na economia global.
                          O sr. acredita que o Ocidente deveria armar os rebeldes sírios ou promover alguma intervenção no país?
                          A situação na Síria é dramática e deplorável. A cada dia, fica mais claro que o conflito não pode continuar para sempre. Mais cedo ou mais tarde, o presidente (Bashar) Assad terá de reconhecer que não pode mais governar o país e, quanto antes ele admita isso, melhor.
                          No meio tempo, no entanto, é muito lamentável que a comunidade internacional não tenha sido capaz de cuidar dessa situação. Tem se mostrado impossível construir uma base de legitimidade para uma ação internacional. O impasse no Conselho de Segurança da ONU é revelador: ressalta as enormes e, algumas vezes, aparentemente intransponíveis dificuldades de governar um mundo cada vez mais multipolar.
                          Como o sr. avalia a estratégia na guerra do Afeganistão? A Otan pode deixar o país sem criar um vácuo de segurança?
                          A Otan está no Afeganistão há mais de dez anos, muito dedicada à sua missão em um país extremamente desafiador. Essa área é reconhecida por sua geografia excepcionalmente difícil e seus vizinhos muito complexos. Acho que é crucial que o Afeganistão coloque foco nos seus problemas internos. Depois de anos de ajuda internacional sob muitas formas, o país e seus líderes precisam entender que ajuda não é uma fonte eterna.


                          RAIO-X: JAVIER SOLANA, 70
                          NOME
                          Francisco Javier Solana de Madariaga
                          FORMAÇÃO
                          Doutor em física (Universidade Autônoma de Madri)
                          CARREIRA
                          Filiado ao PSOE (socialistas), foi chefe da diplomacia da União Europeia de 1999 a 2009