quinta-feira, 9 de maio de 2013

Janio de Freitas

folha de são paulo

Afinal de contas
O dinheiro do mensalão não tinha como figurar na contabilidade do PT, pois nunca foi do partido
A aprovação do Tribunal Superior Eleitoral às contas do PT relativas a 2003, ano do chamado mensalão, leva a alguns fundamentos relegados, e outros contorcidos, na engrenagem desse episódio.
A recente estranheza com a aprovação deve-se a que o dinheiro do mensalão não foi incluído nas contas, ainda assim validadas pelo corpo técnico do TSE e aceitas pela própria presidente do tribunal, ministra Cármen Lúcia. O reparo recaiu apenas em outro quesito, submetido a multa.
O possível espanto não pode resistir a este fato: o dinheiro do mensalão não tinha como figurar na contabilidade do PT, pela razão definitiva de que nunca foi do PT.
Fosse para "compra de apoios no Congresso", como afirmado na denúncia apresentada pelo procurador-geral da República e adotada pelo relator, ou fosse acerto de campanha eleitoral, quem pagou foi uma empresa de Marcos Valério.
Da origem aos destinos, o percurso dos cifrões passou como uma das partes não questionadas do julgamento. O dinheiro não saiu do banco para o PT. Saiu como empréstimo a uma das empresas de Marcos Valério e foi por ele encaminhado ao destinatário indicado, como diz o processo, por Delúbio Soares. Tanto que coube a uma funcionária de confiança em empresa de Valério, Simone Vasconcelos, a condenação de desproporcionais 12 anos por cumprir as ordens patronais de levar importâncias aos favorecidos. Em outras operações, o dinheiro, da mesma maneira, chegou aos destinatários por indicação feita a Marcos Valério e passando por outras empresas, não pelo PT.
Às empresas de Marcos Valério competia contabilizar os empréstimos recebidos. O PT não podia contabilizar o que utilizou, mas não recebeu em seu caixa. O que saiu do banco para esse caixa foi por operação formal de empréstimo, com as assinaturas do tesoureiro Delúbio Soares e do presidente José Genoino. Empréstimo renovado, posto sob cobrança e quitado, já depois do escândalo.
O mensalão transcorreu por fora da configuração oficial do PT. Se fizesse idênticas transações com outros partidos e políticos, mas pela via legal de empréstimos e doações, estas até por intermédio do mecanismo entre Marcos Valério e bancos, talvez contornasse a ilegalidade. Ou, no mínimo, tornasse menos numerosas as suas incidências.
ADAPTAÇÃO
A Igreja Católica beatificou nova "Mãe dos Pobres", Nhá Chica, brasileira e filha de escravos. Negra. Mas sua imagem, usada na beatificação em Baependi, Minas, ostenta a tez pálida de certo tipo branco.

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