sexta-feira, 31 de maio de 2013

Travesti ativista Claudia Wonder tem vida contada em filme

folha de são paulo
RICARDO SENRA
DE SÃO PAULO

Foi no mítico bar Madame Satã, na Bela Vista, que Claudia Wonder protagonizou seu show mais famoso. Cantando músicas de Lou Reed, imersa numa banheira de groselha, a performer tirava a roupa e encharcava uma eclética plateia de intelectuais, punks, poetas, socialites e góticos. O vermelho que contaminava a todos tinha um propósito: naquela década de 1980, a Aids também chegava ao país.
A trajetória do travesti é o mote de "Meu Amigo Claudia", primeiro longa do paulista Dácio Pinheiro. Premiado como melhor documentário no festival LesGaiCineMad, em Madri, o filme estreia em São Paulo no embalo da 17ª Parada do Orgulho LGBT, no domingo.

Em 2009, uma versão preliminar do filme foi exibida em festivais temáticos como a Berlinale, na Alemanha, e o Mix Brasil, em São Paulo."O material definitivo só foi finalizado em 2012, com apoio da prefeitura", diz o diretor.
Reprodução
A cantora, atriz e militante gay Claudia Wonder em ação
A cantora, atriz e militante gay Claudia Wonder em ação
Do escritor Caio Fernando Abreu (1948-1996), autor da crônica que dá nome ao longa, Wonder ganhou o apelido de "travesti intelectual".
Ativa na campanha das Diretas, ela pressionou o Ministério da Saúde até conseguir que a classe médica descaracterizasse a homossexualidade como doença.
Em 1985, organizou o primeiro protesto de travestis pela liberdade sexual. "Mas Tancredo Neves morreu na mesma noite e não conseguimos nenhum destaque", diz no filme.
Com depoimentos de Zé Celso Martinez Corrêa, Kid Vinil, Sérgio Mamberti e Glauco Mattoso, o filme mescla registros do underground paulistano, músicas da artista e manchetes do noticiário policial.
O diretor destaca a Operação Tarântula, criada em 1987 pelo prefeito Jânio Quadros. Nos camburões da Polícia Civil, mais de 300 travestis foram tirados das ruas pelo "crime de contágio da Aids".
Na mesma época, Wonder chocava ao aparecer nua na capa de uma revista destinada a homens heterossexuais.
E não era a primeira vez. No filme "Sexo dos Anormais" (1984), de Alfredo Sternheim, fez as primeiras cenas de sexo explícito com transexuais do cinema nacional.
No teatro, participou de mais de dez montagens. Em 2007, três anos antes de morrer por uma infecção pulmonar, estreou o show "Claudia Wonder and the Laptop Boys".
Os créditos de "Meu Amigo Claudia" sobem ao som de "Funkydiscofashion". A voz rouca é indefectível: "Não me chame de madame/ sem saber o que diz/ eu não sou uma dama/ eu sou travesti".
CRÍTICA - DOCUMENTÁRIO
Produção ilumina arte e militância de pessoa nada usual
THALES DE MENEZESEDITOR-ASSISTENTE DA "ILUSTRADA""Meu Amigo Claudia" é o título de uma crônica do escritor e jornalista Caio Fernando Abreu (1948-1996) que enaltece o travesti Claudia Wonder, figura carismática do underground paulistano, notadamente na década de 1980.
Também é o nome do filme de Dácio Pinheiro que, com sucesso, traça um perfil da personagem a partir de imagens de arquivo e depoimentos de Claudia e de gente que conviveu com ela.
Pelo formato, poderia ser dito um documentário "convencional", mas fica evidente que não é aconselhável usar esse adjetivo para nada relacionado a Claudia Wonder.
Os depoimentos da cantora, atriz e militante gay, que são o fio condutor, incluem entrevistas dos anos 1980 e 1990, mas a maior parte foi colhida na década passada, antes de Claudia morrer, em 2010, aos 55 anos, após contrair uma infecção por fungos.
Essa Claudia madura, então mais dedicada a criar e manter organizações de defesa e inclusão de homossexuais, dá o tom quase cândido do filme. É alguém que se expõe consciente de seu papel libertário e contestador e, ao mesmo tempo, orgulhosa de seu trabalho artístico.
Sem discriminação, são reunidos trechos de filmes de sexo explícito que protagonizou na Boca paulistana, no início dos anos 1980, com gravações de shows, ainda na mesma década, em lugares então descolados como o lendário Madame Satã.
No palco, ou dentro de uma banheira cheia de "sangue" e outros cenários inusitados, Claudia era capaz de cantar versos de Lou Reed a Glauco Mattoso ""este um dos entrevistados mais eloquentes do filme. Ela fazia rock, cantando bem e acompanhada de bons instrumentistas.
O depoimento delirante (como usual) de Zé Celso Martinez Corrêa, relembrando a atuação de Claudia em sua apoteótica montagem de "O Homem e o Cavalo", de Oswald de Andrade, pode servir para espectadores mais "resistentes" como uma chancela de seu talento.

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