sábado, 27 de julho de 2013

Em Carta ao filho, a psicanalista Betty Milan faz da escuta e da fala instrumentos de libertação

Memorialista do afeto     


Em Carta ao filho, a psicanalista Betty Milan faz da escuta e da fala instrumentos de libertação. James Joyce e Madame de Sevigné são interlocutores nessa jornada 


Claudio Willer

Estado de Minas: 27/07/2013 


Esta é a função da memória: libertação”, escreveu T. S. Eliot em um dos Quatro quartetos. O trecho poderia ser uma epígrafe de Carta ao filho, de Betty Milan (Editora Record). E de boa parte do restante da sua obra. Não só por evocar, mas por trazer para o texto o fluxo da memória. Por isso, tem cronologia própria: aquela do afeto a despertar evocações.

A frase de Eliot poderia ter um enunciado circular: a libertação por meio da memória, sim – mas desde que a memória esteja liberada, manifestando-se de modo autônomo, para resultar em um registro original. Betty embaralha calendários, e as 160 páginas desse livro têm a forma de um amplo painel. Nele, sucedem-se os encontros e viagens; antepassados, a família, tempos estudantis; episódios e circunstâncias que se transformaram em temas de outros de seus livros.

Começa pelo nascimento, narrado de modo muito poético: “A estação das cerejeiras começou no dia em que você nasceu”. Nascimento do filho, de frutos e de uma nova identidade: “... sem você eu não existo. Desde que você nasceu, tenho o dom da ubiquidade. Me transporto para onde você estiver”. Duplo dom, exercido nesta e em outras de suas narrativas: deslocar-se no espaço, ubiquidade, e no tempo, nesse relato que vai e volta, em um jogo do presente, do tempo da própria escrita, e de sucessivos estratos, cenas e circunstâncias. Rede associativa, em que uma cena, episódio ou circunstância leva a outra, é um hipertexto – talvez toda obra literária de peso, com substância, o seja – pelo modo como remete a outros de seus escritos, assim como ao que outros também escreveram: à literatura, à palavra restituída em sua integridade.

Autores comentados, de Madame de Sevigné a James Joyce, não são apenas referências bibliográficas, textos lidos, porém personagens familiares: fala deles como se os conhecesse e tivesse conversado com eles, além de dialogar com suas obras. Interessante como, nas observações sobre esses dois autores, focaliza as relações com a família: o pai em Joyce, também um viajante, a filha em Sevigné. Enxerga neles temas fortes em sua própria obra.

Diz: “O ponto de partida para o que eu escrevo é o que eu vivo”. A vida plenamente vivida, não-burocrática, insubmissa à repetição do mesmo – suas viagens e as circunstâncias que as precederam o atestam; sua expulsão da Sociedade Brasileira de Psicanálise, bem como a demissão de uma clínica psiquiátrica em Paris são qualificações curriculares. Interessante como, em um jogo de espelhos, detém-se em dois choques do filho com instituições, uma francesa, outra alemã – a segunda, marco de mudanças pessoais.

O poema aqui citado de Eliot prossegue assim: “Libertação – não apenas amor, mas expansão/ De amor para além do desejo, como também libertação/ Do passado e do futuro”. Betty Milan responde: “Porque só o amor justifica a existência”. Por isso, foi visitar o túmulo de Inês de Castro, em Alcobaça. E uma passagem especialmente intensa do livro, ponto alto, é aquela em que relata o primeiro encontro com o futuro marido e pai, culminando com um encontro no “Train bleu” e a lua de mel em uma implausível Varsóvia.

O trecho de Quatro quartetos tem evidente raiz platônica, assim como boa parte da obra desse enorme poeta. Para o filósofo grego, anamnese é transcendência, superação da contingência, recuperação da verdadeira identidade. Mas, se em Platão a libertação é rememoração de vidas anteriores, e o verdadeiro eu é uma instância transcendental, para Betty Milan ela se realiza na vida; e através da escuta e da fala.

Falar é um imperativo. Daí seu pendor pela dramaturgia, e livros seus terem formato de narrativa epistolar, prolongamento ou ampliação do diálogo. Um de seus livros precedentes chama-se Fale com ela; outro, Quem ama, escuta. “Escutar é uma arte”, diz. Pratica-a. Cresceu ouvindo sonoridades árabes da fala de seus avós; e, logo em seguida, o inglês e o francês: “A educação pelas línguas prepara para a viagem e desperta o interesse pelo outro”. E que outro – internos no Juqueri, onde estagiou; e em Saint-Anne, o mesmo hospício onde esteve Artaud em 1939: “Porque os ‘loucos’ desafiavam continuamente a minha lógica”. Ouvindo pacientes, fez a crítica aos psiquiatras.

Betty Milan, a ouvinte. Por isso, dialogou com uma diversidade de personagens de relevo, parcela significativa da cultura do século 20, que tinham algo a dizer-lhe: Joãosinho Trinta, Carlito Maia, Zé Celso Martinez Corrêa e Jacques Lacan, entre outros, além de entrevistados em dois livros – um deles, com um título emblemático: A força da palavra.

Fez parte de uma cultura de resistência, mesmo não sendo protagonista ou militando em alguma organização. A vivência pessoal e acontecimentos relevantes das últimas décadas se confundem. Ter vivido é participar da história. Saiu do Brasil pela primeira vez por permanecer aqui ter-se tornado perigoso, além de irrespirável. Semelhante registro traz à tona uma memória individual que também é coletiva. Sendo biografia, Carta ao filho é relato histórico. Fala de si, do filho a quem se dirige, do marido, bem como do amante, da família e de outros personagens – e de seu tempo, do Brasil e de boa parte do mundo. Possibilita a anamnese de cada leitor, mesmo que não tenha tido relação ou envolvimento direto com os fatos relatados: verá mais de si e do mundo ao viajar por essa narrativa; sairá dela com maior apreço pela liberdade, sua e dos outros.

. Claudio Willer é poeta, ensaísta e tradutor



CARTA AO FILHO

. De Betty Milan
. Editora Record, 160 páginas, R$ 29,90

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