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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Copiar nem sempre prejudica a criatividade; na verdade, estimula

folha de são paulo
ENTREVISTA DA 2ª KAL RAUSTIALA E CHRISTOPHER SPRIGMAN
Para especialistas em propriedade intelectual, liberdade para imitar muitas vezes resulta em inovação e permite que os pobres desfrutem de símbolos do consumo
MARCELO NINIODE PEQUIMDemonizada pelos que defendem a ampliação das leis de patentes, a cópia nem sempre é inimiga da inovação. Ao contrário: com frequência, é a mãe da invenção.
É o que afirmam dois especialistas em propriedade intelectual, os norte-americanos Kal Raustiala e Christopher Sprigman, autores de "The Knockoff Economy" ("A Economia da Cópia", ainda não editado em português).
Remando contra a corrente das críticas à indústria da cópia, sobretudo a da China, eles dizem que há casos de sobra em que a liberdade para imitar resultou em inovação, como nos setores do software e da moda.
Leia trechos da entrevista que eles concederam à Folha, por e-mail.
Folha - A cópia e a criatividade podem coexistir?
Kal Raustiala e Christopher Sprigman - A opinião convencional é que copiar é ruim. Já que usualmente é mais barato copiar do que criar, copiar solaparia o incentivo à criação. É para isso que existem as leis de direitos autorais.
Na realidade, porém, copiar nem sempre prejudica a criatividade, e em certos casos até a estimula.
Um grande exemplo é a indústria da moda norte-americana. Nos EUA, é legal copiar designs de moda. Mas isso não impede que os estilistas desenhem coisas novas. Na verdade, a liberdade de cópia gera maior criatividade.
Quando cópias são feitas, o design original se torna uma tendência. Como todos sabemos, as tendências de moda um dia morrem, e o mercado exige novos designs para tomar seu lugar.
A liberdade de copiar faz com que esse ciclo gire mais rápido, dando-nos mais criatividade e opções de estilo.
Muitos outros setores são parecidos. Se compreendermos como o processo de cópia funciona, poderemos criar uma sociedade mais inovadora e criativa.
Em que casos os direitos de propriedade intelectual bloqueiam a inovação?
Quando dificultam a melhora de uma invenção. Boa parte das inovações ocorre gradualmente. Com o tempo, invenções são alteradas e refinadas para gerar produtos cada vez melhores.
Mas patentes e direitos autorais com termos excessivamente amplos podem tirar de cena os elementos básicos de um projeto ou invenção e, ao fazê-lo, tornar muito difícil ou dispendioso para terceiros a melhora de uma invenção.
A China é o maior alvo dos críticos. Vocês citariam um exemplo de cópia chinesa que resultou em inovação?
A Xiaomi é uma das fabricantes chinesas de celular com crescimento mais rápido. Criada menos de três anos atrás, a Xiaomi já vendeu 7 milhões de celulares e faturou 10 bilhões de yuans (cerca de R$ 3,8 bilhões). Os celulares da Xiaomi parecem muito familiares, porque o design imita o iPhone.
Superficialmente, a Xiaomi parece ser só mais uma imitadora chinesa. Mas isso desconsidera o aspecto mais importante da ascensão da companhia e uma importante tendência no estilo chinês de "imitação inovadora".
A Xiaomi se tornou uma força na China em parte por se parecer muito com a Apple. Mas seu sucesso na verdade se deve ao fato de ela ser o oposto da Apple.
A gigante americana é famosa pela abordagem "fechada" quanto à tecnologia. A Apple mantém controle fastidioso sobre o design de seus produtos e acredita que sabe melhor que o consumidor o que este deseja.
Enquanto a Apple se comporta de modo ditatorial, a Xiaomi é bastante democrática. Confia muito nas reações dos consumidores.
A cada sexta-feira, a companhia lança atualizações de seu sistema operacional, baseado no Android. Em poucas horas, milhares de frequentadores dos fóruns da empresa sugerem novos recursos e ajudam a resolver defeitos no software.
Assim, a Xiaomi combinou efetivamente o design da Apple e o espírito colaborativo do movimento do software aberto. A Xiaomi é claramente imitadora. Mas também inovadora.
Os senhores argumentam que a ansiedade dos EUA quanto à pirataria chinesa é "um equívoco". A proteção da propriedade intelectual não é de interesse nacional?
Alguns setores prosperam sem proteção à propriedade intelectual. Ampliar essa proteção não necessariamente significa mais sucesso ou crescimento econômico.
Veja o setor de banco de dados. Nos EUA, os bancos de dados não contam com forte proteção de copyrights. Na Europa a situação é a oposta, devido a uma mudança nas leis na década de 1990.
Mas, nos anos transcorridos desde então, o setor vem crescendo mais nos EUA que na Europa. A questão não é a propriedade intelectual, mas a inovação e o crescimento. A propriedade intelectual pode representar uma barreira para isso.
Qual é a importância social da liberdade de copiar?
A China continua a ser um país pobre, mas está crescendo com extrema rapidez. Também é uma das nações com mais desigualdade no planeta, ao lado do Brasil.
Em países com alta desigualdade, as cópias dão aos pobres a oportunidade de desfrutar de alguns dos símbolos de uma sociedade de consumo. Assim, as cópias são uma forma de aliviar ao menos em parte as pressões causadas pela desigualdade.
Isso é importante porque explica a resistência chinesa em impedir as cópias.
A tolerância da população chinesa facilita a prosperidade da indústria da cópia?
"Shanzhai", como é conhecida a cópia de baixo custo na China, significa literalmente "baluarte de bandidos". Mas na China moderna denota um tipo inteligente de cópia que toma um modelo dispendioso e o muda um pouquinho para atender ao consumidor médio.
O governo reconhece esse ponto, considerando alguns dos "shanzhai" como bons exemplos da engenhosidade do povo chinês.
Em que casos a cópia beneficia o produto original?
Bill Gates tinha razão quando disse que, "se eles pretendem roubar, melhor que roubem o nosso produto". O software, especialmente, é um bem dotado do que economistas denominam "externalidades de rede".
Isso significa que, se apenas uma pessoa usar o Microsoft Word, usá-lo não será útil para você. Mas, se todo mundo em seu escritório usar o programa, ele será muito útil e é mais provável que você opte por ele do que por um formato concorrente.
Assim, permitir cópias expande a fatia de mercado, e isso pode se tornar valioso no futuro, mesmo se as cópias atuais forem piratas.
Os senhores sugerem que os EUA deveriam levar sua história de pirataria em conta e "relaxar". Por quê?
No século 19, os EUA eram grandes copiadores, e a superpotência econômica que reinava no período, o Reino Unido, odiava isso.
Mas, com o tempo, todas aquelas cópias terminaram por ajudar muitos britânicos e criaram imenso mercado para bens britânicos. Hoje os EUA se tornaram a maior força para a expansão das leis de propriedade intelectual.
Com o tempo, a China seguirá caminho semelhante.
Sabemos que países passam a dedicar mais atenção à propriedade intelectual à medida que enriquecem e desenvolvem conhecimentos especializados, mas isso pode tomar muito tempo.
Assim, seria sábio que os EUA pensassem no futuro e reconhecessem que a China não mudará assim tão cedo e que copiar não é assim tão ruim quanto muita gente foi levada a crer.
    RAIO-X
    KAL RAUSTIALA, 47
    Atuação: diretor do Centro Burkle de Relações Internacionais e professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles
    Especialidades: direito internacional e propriedade intelectual
    CHRISTOPHER SPRIGMAN, 47
    Atuação: professor de direito da Universidade da Virgínia
    Especialidades: lei de propriedade intelectual, políticas de competição e direito constitucional

      sábado, 10 de agosto de 2013

      Tensão social gera série de ataques entre os chineses - Marcelo Ninio

      folha de são paulo
      Tensão social gera série de ataques entre os chineses
      Para ativistas, atos de violência são resposta a rígido controle do governo
      Censura estatal não consegue mais abafar completamente os casos, divulgados pelas redes sociais no país
      MARCELO NINIODE PEQUIMUm vendedor de melancias é brutalmente morto por guardas municipais. Inconformado com a política de filho único, um pai de quatro filhos mata dois funcionários públicos a facadas.
      No ultravigiado aeroporto de Pequim, um deficiente detona uma bomba caseira em protesto contra a agressão policial, que ele alega tê-lo deixado paralítico.
      Após comprar uma faca num supermercado da capital, um homem ataca várias pessoas a esmo, incluindo uma criança de dois anos.
      Uma série de atos sangrentos ocorridos na China nas últimas semanas evidencia a crescente tensão social no país, que já não pode ser mais totalmente abafada pela censura graças às redes sociais.
      Essa é a opinião de proeminentes ativistas de direitos humanos consultados pela Folha, que descrevem um panorama pouco animador da nova liderança chinesa nos primeiros cinco meses no poder.
      Eles preveem que as ações extremas se multiplicarão, alimentadas pela sensação de impotência diante do autoritarismo do governo e da inexistência do Estado de Direito na China, onde não há separação entre poderes.
      "A tensão social definitivamente está crescendo. Há uma relação direta entre os recentes atos de violência e os métodos de controle do governo", diz o dissidente Hu Jia. "Quando as pessoas não têm meios de obter justiça, resta o desespero".
      Mesmo após ficar três anos e meio preso, acusado de subversão, Hu não mede palavras contra o governo. Para ele, a política de manter a estabilidade a qualquer custo tem transformado a sociedade chinesa num "barril de pólvora".
      O incidente mais falado das últimas semanas foi o de Deng Zhengjia, 56, um fazendeiro da província de Hunan (sul) que teve um fim brutal quando tentava vender melancias.
      Segundo testemunhas, ele morreu ao ser golpeado na cabeça com um peso de sua balança por fiscais parapoliciais, os odiados "chengguan", durante discussão sobre a licença de trabalho do agricultor.
      As imagens do corpo de Deng estirado no chão se espalharam pela internet, antes que a censura oficial pudesse apagá-las.
      A frustração com o sistema legal está na origem da frustração, diz Sophie Richardson, diretora para a China da Human Rights Watch."Há tão pouca confiança na capacidade do Estado de fazer justiça que é difícil supor que não haverá protestos."
      Dois ataques a facadas em centros comerciais de Pequim em poucos dias deixaram três mortos. A polícia reagiu proibindo a venda de facas em supermercados, e o governo atribuiu os ataques a "desequilibrados mentais".
      Mas até a mídia estatal manifestou preocupação com a violência. "É importante que haja punições de acordo com a lei", disse a estatal Xinhua. "Mas o mais importante é que o governo crie um ambiente social harmonioso, com cuidado, tolerância e justiça."
      Segundo estudo da ONG americana Freedom House, o controle da internet aumentou desde a posse do novo presidente chinês, Xi Jinping.
      "A censura continua rigorosa, mas mesmo que a informação sobreviva por pouco tempo no ar, é o suficiente para que as pessoas fiquem sabendo", diz Hu Jia.
      "Xi [Jinping, presidente chinês] enfatiza o sonho chinês e o naciona-lismo, mas promove o legado de Mao [Tse-tung], em que os direitos humanos são praticamente ignorados"
      Pu Zhiqiang, advogado do artista Ai Weiwei
        ANÁLISE
        Casos de violência com camelôs na China evidenciam impacto da desaceleração
        DO "FINANCIAL TIMES"A cada ano, o verão da China leva às ruas multidões de vendedores ambulantes não licenciados. Eles muitas vezes são tratados asperamente pelas autoridades, mas este ano vem sendo especialmente sangrento, como mostra o caso de Deng Zhengjia, vendedor de melancias morto por um grupo de "chengguan".
        Para especialistas, o desemprego, especialmente no setor industrial de exportação de produtos de baixo preço, gera alta no número de camelôs, causando confrontos nas ruas.
        Além da menor disponibilidade de emprego no setor, também existe um descompasso entre os empregos disponíveis e a capacitação e ambições dos trabalhadores.
        "Para muitos camelôs, o problema não é que não consigam encontrar emprego, mas sim que não estão dispostos a trabalhar por longas horas nos empregos de alto risco do setor industrial" diz Ye Tan, colunista que costuma escrever sobre os chengguan.
        Porque as vendas ambulantes são a principal fonte de renda de muitos desses migrantes, o potencial de confronto violento é maior quando os chengguan conduzem batidas regulares contra os camelôs não licenciados.

          segunda-feira, 15 de julho de 2013

          Chinês pinta autoridades corruptas de seu país e atiça reflexão sobre censura local

          folha de são paulo
          MARCELO NINIO
          DE PEQUIM

          Um grande mapa da China enfeita uma das paredes no estúdio do artista plástico e cineasta Zhang Bingjian, na periferia de Pequim. Tudo está no lugar certo, exceto por um detalhe: o mapa está de cabeça para baixo.
          "Foram cinco anos para inverter os nomes de todas as cidades", conta o artista.
          Na sutil, mas poderosa mensagem visual, Zhang condensou sua visão das contradições da China moderna, cujo norte nem sempre é o que parece.
          Ao botar de pernas para o ar o galo de briga que os chineses enxergam com orgulho no desenho de seu mapa, Zhang imprimiu em cores vivas uma das características principais de seu trabalho: a fina crítica política.

          Zhang Bingjian

           Ver em tamanho maior »
          Marcelo Ninio/Folhapress
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          Artista plástico e cineasta Zhang Bingjian e seu painel de retratos de políticos acusados ou condenados por desvio de dinheiro na China
          Uma marca que ganhou projeção internacional graças a um projeto no qual ele deu contornos artísticos a um dos temas mais revoltantes para os chineses: a corrupção nos altos escalões do Partido Comunista.
          Depois de chocar-se ao saber pela TV estatal que 3.000 autoridades haviam sido processadas por corrupção em apenas um ano, Zhang decidiu dar caras ao problema.
          A COR DO DINHEIRO
          Começava assim o "hall da fama" da corrupção, uma galeria da vergonha que já tem quase 2 mil retratos de autoridades condenadas.
          Produzidos por Zhang Bingjian sempre em tons rosados, para lembrar a cor do dinheiro chinês (chamado iuan), os quadros são a forma que ele encontrou para dividir com o público chinês seu assombro com o contágio da corrupção no país.
          "Não penso no valor artístico. O que quero é criar um ponto de interrogação sobre a situação da China. Meu trabalho não dá respostas. Oferece uma plataforma para a reflexão", explica.
          A ambição de levar sua interrogação ao público, no entanto, esbarrou na dificuldade em expor temas sensíveis num país onde a produção cultural é objeto de rígida censura do Estado.
          Zhang enviou propostas para várias galerias do país, mas nenhuma respondeu. O hall da infâmia mantém-se limitado às paredes de seu estúdio e aos convites do exterior. Há dois meses, expôs os retratos dos corruptos chineses na Itália.
          "A corrupção é um tema universal, pode ser compreendido em qualquer parte do mundo. Não sei porque meu trabalho não foi selecionado para a Bienal de São Paulo", brinca.
          Nascido em Xangai, Zhang, 53, fez parte da primeira geração de chineses que pôde estudar arte depois dos anos de histeria coletiva da Revolução Cultural (1966-1976).
          NOVIÇA SEM BEIJO
          Apesar de ainda serem anos de forte repressão, Zhang recorda com emoção a tímida abertura política que lhe permitiu assistir pela primeira vez a um filme estrangeiro, "A Noviça Rebelde" (1965), aos 18 anos.
          "Todos esperavam uma cena de beijo, que nunca tínhamos visto. Quando ela ia acontecer, uma enorme sombra cobriu a tela. Era a mão do projecionista. Beijo era contra o padrão moral comunista", relembra o artista.
          Hoje, a censura oficial é muito mais profissional, mas nem por isso menos absurda, na visão de Zhang.
          "Se há um policial no roteiro, ele é submetido à polícia. Se tem um professor, é checado pelo departamento de educação. E assim por diante. Desse jeito, todas as classes profissionais viram parte da censura", lamenta.
          A obsessão em decepar as obras no nascedouro induz à atual produção cinematográfica insossa do país, diz ele, dominada por comédias e filmes para adolescentes.
          Os produtores não querem perder dinheiro investindo em um filme que será decepado pela censura.
          "É difícil entender a insegurança do governo. Censura é falta de confiança nas pessoas. É uma contradição. O país avança, mas continua atrasado nisso. Parece ser a natureza da China: toda vez que dá passos à frente, tem que dar outro para trás."
          Contemporâneo na academia de cinema do polêmico Ai Weiwei, o mais conhecido artista chinês, Zhang considera o amigo um modelo de como os limites da censura podem e devem ser esticados ao máximo.
          Um exemplo disso é o tragicômico documentário que dirigiu, "Readymade", sobre dois camponeses que largaram tudo para viver como imitadores de Mao Tse-tung, o fundador da China moderna.
          "No filme, Mao deixa de ser um semideus, anda de ônibus e dança com Michael Jackson. Desconstruir uma imagem às vezes é mais forte que criticá-la", diz.
          Sem permissão para ser exibido no país, porém, o filme permanece fora do alcance do público chinês.

          sexta-feira, 5 de julho de 2013

          Amas de leite para adultos viram moda entre ricos na China

          folha de são paulo
          Mulheres cobram em média R$ 5.680 por mês pelo fornecimento diário de leite
          MARCELO NINIODE PEQUIMNunca é tarde para apreciar as propriedades nutricionais do leite materno.
          Com essa filosofia, uma empresa da metrópole de Shenzhen, sul da China, atraiu a atenção de marmanjos dispostos a pagar caro para ter uma ama de leite de plantão, que lhes forneça o alimento direto da fonte.
          O polêmico serviço provocou uma avalanche de críticas de usuários das redes sociais chinesas, muitos enojados, outros sugerindo que trata-se de perversão sexual.
          O que mais chocou os internautas foi a possibilidade de que o cliente seja literalmente amamentado.
          "Eles podem escolher entre a amamentação direta ou por meio de um sugador", disse ao jornal "Southern Metropolis Daily" o porta-voz da empresa Xinxinyu, que oferece o serviço.
          Segundo Lin Jun, o porta-voz citado, é crescente a procura do leite materno entre adultos com muito dinheiro e pouca saúde.
          "Mas só alguns poucos mamam diretamente no peito das amas de leite", diz um dos entrevistados, que não é identificado. Ele conta que contratou a ama para morar em sua casa, a fim de garantir o fornecimento diário.
          A reportagem estima que as fornecedoras cobrem em média 16 mil yuans (R$ 5.680) por mês, quatro vezes o salário médio mensal no país. O preço pode ser mais alto se a ama for atraente e comprovadamente saudável.
          Mei Chunlai, um advogado consultado pelo jornal "China Daily", disse que, embora a lei do país proíba a venda de leite materno, a fiscalização é frouxa.
          Devido aos períodos curtos de licença maternidade, o índice de aleitamento materno na China é baixo, de 28%, segundo relatório do Unicef publicado no ano passado.

            terça-feira, 2 de julho de 2013

            Marcelo Ninio

            folha de são paulo
            FOCO
            China cria lei que obriga contato entre filhos e pais idosos para evitar abandono
            MARCELO NINIODE PEQUIM
            Os filhos desnaturados que se cuidem. Uma lei que entrou em vigor ontem na China exige que os cidadãos do país visitem seus pais idosos regularmente, ou ao menos mantenham contato com eles, sob risco de processo.
            A medida foi recebida com ceticismo e até deboche por muita gente, que rejeita a intromissão do Estado em assuntos de família e duvida que a lei possa ser aplicada.
            Para outros, essa emenda à lei de proteção aos idosos serve de alerta para os desvios que a urbanização acelerada impôs à tradição chinesa de unidade familiar.
            Somam-se a isso a política de filho único e o rápido envelhecimento da população e o resultado é um número cada vez maior de idosos abandonados.
            Ninguém parece saber muito bem como a nova lei irá melhorar a situação, já que ela não especifica a regularidade com que os pais devem ser visitados nem a punição que será aplicada aos que a ignorarem.
            Especialistas criticam o conteúdo vago da lei, observando que ela errou o alvo, já que a responsabilidade de assistência social deve ser dividida com o Estado. Segundo números oficiais, 45% dos chineses não têm plano de aposentadoria.
            "O foco deveria ser assegurar aposentadorias e benefícios sociais adequados aos idosos, algo mais fácil de implementar", disse ao jornal estatal "Global Times" o sociólogo Yu Shaoxiang.
            Casos recentes de abandono e maus-tratos a idosos causaram choque. Um dos mais comentados foi o de um agricultor da província de Jiangsu (leste), que manteve a mãe de 100 anos morando num chiqueiro.
            Ainda assim, para muitos parece absurdo usar a lei em nome da unidade familiar.
            "Cuidar dos pais é uma obrigação moral. Se isso vira uma lei, é sinal de que a situação é grave", lamenta Bai Yu, 32, que trabalha numa firma de relações públicas em Pequim.
            Natural de Helongjiang, província no extremo norte do país que fica a mais de 1.000 km da capital, ela diz que simplesmente não tem tempo nem dinheiro para visitar os pais regularmente. "Eles entendem isso", diz.

            sexta-feira, 28 de junho de 2013

            Sem censura, regime cairia em 1 dia, diz 'Assange chinês'

            folha de são paulo
            Conhecido por divulgar um esquema de corrupção do governo, jornalista Zhu Ruifeng diz que Snowden errou ao ir para Hong Kong
            MARCELO NINIODE PEQUIMO local escolhido por Zhu Ruifeng para o encontro com a Folha no centro de Pequim, um café com mesas separadas por grossas cortinas, lembra o cenário de um filme de espionagem.
            "Eu costumava marcar em outro lugar, mas o governo descobriu e passou a vigiar meus encontros", conta o jornalista independente.
            Há poucos meses, Zhu, 43, virou celebridade na China --e uma pedra no sapato do governo-- após divulgar o vídeo de um chefão do Partido Comunista fazendo sexo com uma amante de 18 anos.
            O vídeo --e outros divulgados na sequência-- acabou revelando um esquema de suborno na cidade de Chongqing (sul) e levaram à demissão de 12 autoridades.
            A fama rendeu a Zhu várias visitas da polícia, bloqueios constantes de seu site e mais de um milhão de seguidores no popular microblog Weibo, versão chinesa do Twitter.
            Alguns jornais estrangeiros chegaram a chamá-lo de "Julian Assange chinês", numa referência ao fundador do site WikiLeaks.
            Zhu rejeita a comparação. "Sou apenas um jornalista. Talvez eu pareça diferente porque toda a imprensa serve de porta-voz do governo."
            Ele vê com ironia o fato de o americano Edward Snowden ter buscado refúgio justamente em Hong Kong, território sob domínio da China, após revelar um programa secreto de espionagem do governo dos EUA.
            "Para mim Snowden é um herói", diz Zhu. "Mas foi um erro ele achar que estaria protegido em Hong Kong."
            Embora funcione sob forte restrição, a internet na China permite um fluxo de informação que seria impossível há alguns anos.
            Com o auxílio de tecnologias capazes de driblar a censura, os "netizens" (cidadãos da rede, na expressão em inglês), como Zhu, tornaram-se uma alternativa à imprensa oficialista do país.
            Para Zhu, a censura é medida de sobrevivência. "Se a internet e a imprensa fossem livres, o governo não duraria nem um dia", acredita. "Para ser franco, o Partido (Comunista) provavelmente seria destruído."
            Para monitorar um universo de quase 560 milhões de internautas, o governo mobiliza um verdadeiro Exército. Só para vigiar o Weibo, a estimativa é de 4 mil censores.
            Os usuários de internet criaram uma linguagem própria para evitar cair na vigilância do governo. Palavras sensíveis, que acionam o radar eletrônico da censura, são substituídas, diz o estudante de jornalismo e blogueiro Zhang Zhongdi, 23.
            "Em vez de escrever 4 de junho (início dos protestos antigoverno na praça da Paz Celestial, em 1989), coloco 35 de maio. Jiang Zemin (ex-presidente) vira imperador aposentado", conta. "Aos poucos os truques vão sendo descobertos e criamos outros".
            Mas há quem defenda o controle da internet. Li Hong, presidente da Associação de Controle de Armas e Desarmamento da China, acha que há um exagero nas críticas à censura. "Trata-se de uma nova mídia, e é preciso regulação para evitar o caos", diz. Para Li, o caso Snowden comprova que a China, frequentemente acusada pelos EUA de patrocinar ataques cibernéticos, é, na verdade, uma vítima da prática.
            Com o controle restrito do Estado, quem ousa pular a muralha da censura sabe que corre riscos. Zhu diz não se importar: "Quarenta e nove funcionários corruptos foram punidos graças ao que fiz. Mesmo que me matem, minha vida já valeu a pena."

              domingo, 12 de maio de 2013

              Hollywood faz filmes sob medida em busca de bilhões de chineses

              folha de são paulo

              Para agradar ao público e se adequar à censura, versões excluem sexo, violência e política e incluem atores locais
              Mercado de cinema do país cresceu 36% em 2012, faturou R$ 5,4 bilhões e se tornou o segundo maior do mundo
              MARCELO NINIODE PEQUIMCercado de enorme badalação promocional, que incluiu uma pré-estréia na icônica Cidade Proibida, o filme "Homem de Ferro 3" bate recordes de bilheteria na China com uma versão sob medida para a superpotência asiática.
              De olho num mercado de cinema bilionário, que no ano passado tornou-se o segundo maior do mundo, Hollywood cada vez mais se rende à tentação de fazer versões modificadas para a China, a fim de bajular o público e se adequar à censura.
              A tática não se limita à inclusão de "elementos chineses", como em "Homem de Ferro 3", em que uma famosa atriz local faz um papel que não será visto em nenhuma outra parte do mundo.
              Seduzido por um mercado com crescimento vertiginoso --ao ritmo de dez novas salas de cinema por dia-- Hollywood antecipa-se à censura chinesa e corta das versões originais cenas com nudez, violência e temas políticos considerados sensíveis.
              Com a curva descendente das bilheterias nos EUA, a China virou o pote de ouro mais ambicionado por Hollywood. Em 2012, o mercado de cinema do país cresceu 36%, com faturamento de US$ 2,7 bilhões (R$ 5,4 bilhões).
              A previsão é que até 2020 o mercado chinês supere o norte-americano para se tornar o maior do mundo.
              Uma das tesouradas preventivas foi aplicada em "Skyfall". Na mais recente aventura do espião James Bond, não bastaram as sequências de ação rodadas em Hong Kong e Macau.
              Quando o longa chegou à China, uma cena em que Bond mata um segurança chinês havia desaparecido, assim como um diálogo sobre exploração sexual em Macau.
              Segundo a imprensa especializada de Hollywood, ao menos outras seis produções recentes ganharam versões alternativas para a China.
              Entre elas, "Guerra Mundial Z", estrelada por Brad Pitt. No thriller, que deve estrear em junho, a epidemia de zumbis deixou de ter origem na China e passou a ser chamada de "Gripe Moscou".
              Antes de chegar às telas, filmes exibidos na China, tanto estrangeiros como locais, passam pelo crivo da censura, que costuma cortar sequências inteiras. Os critérios nem sempre são claros.
              O épico "A Viagem", com elenco encabeçado por Tom Hanks, estreou na China no início do ano com 40 minutos a menos que o original. Além de suprimir cenas de nudismo e homossexualidade masculina, os censores resolveram dar uma mãozinha ao espectador mais preguiçoso, cortando trechos que "tornavam o enredo confuso", segundo um jornal chinês.
              Às vezes nem a censura prévia adianta. O exemplo mais inusitado ocorreu no início de abril, quando a projeção de "Django Livre", primeiro filme do diretor Quentin Tarantino exibido na China, foi interrompida poucos minutos após a estreia.
              Tarantino já havia enxugado cenas de nudez e violência da versão original, mas isso não bastou para satisfazer a censura chinesa.
              A interrupção foi oficialmente justificada por "razões técnicas", mas a imprensa local sugeriu que o motivo real foram cenas de nudez que escaparam dos censores. A temática libertária do filme também teria incomodado.
              Após cortes adicionais, uma versão mais enxuta de "Django", já não tão livre, está prevista para estrear no país na próxima semana.
              Segundo o crítico Zhou Liming, da "Movie View", principal revista de cinema da China, a censura continua implacável em temas politicamente sensíveis --ou seja, que questionem de alguma forma o Partido Comunista.
              Mas tem se tornado mais aberta em relação a sexo e violência, diz ele, embora a ausência de um sistema de classificação de idade mantenha os critérios indefinidos até entre os próprios censores.
              Talvez o mais surpreendente da abrupta retirada de "Django" dos cinemas foi a revolta provocada no país, manifestada no microblog Weibo, o Twitter chinês, e que chegou à imprensa estatal.
              "Cada censor tem um critério diferente", disse ao jornal "Global Times" o vice-presidente da Associação de Cinema de Xangai. "Mas em geral a censura na China é estrita e rígida demais".
              Além disso, aponta o crítico Zhou, com a abundante oferta de filmes piratas na China, o público tem a chance de assistir às versões originais sem dificuldade. "O povo não é bobo", lembra ele.
              "As versões chinesas visam a atender o gosto do público, mas o efeito é o oposto. Ele se sente subestimado", disse Zhou à Folha.
              RESERVA DE MERCADO
              A briga por um lugar no mercado chinês é mais acirrada devido às restrições impostas pelas autoridades para proteger a indústria local. Apenas 34 filmes estrangeiros são permitidos por ano.
              A solução encontrada por alguns estúdios é a parceria com produtores locais. Foi o que fizeram os estúdios Walt Disney, que se associaram à chinesa DMG para produção de "Homem de Ferro 3".
              A estratégia da coprodução também foi adotada pela Paramount para a filmagem de "Transformers 4". A parceria foi além, anunciando um truque inédito para conquistar o coração do público chinês: um reality show estreará em breve na TV do país e os vencedores farão parte do elenco.
              O investimento é justificado pela expectativa de gordos lucros. O último filme da série, de 2011, foi a quarta maior bilheteria já registrada na China, com faturamento de US$ 165 milhões (R$ 330 milhões).

                ANIMAÇÃO
                Dreamworks fará filme sobre o Tibete
                Braço chinês da DreamWorks Animation, a Oriental Dreamworks transformará em animação os populares livros da série chinesa "Tibet Code", que se passam no Tibete do século 9. A firma americana, que terá 45% do controle da chinesa, negou que o projeto tenha intenção política. Produções de Hollywood sobre a conturbada região nunca passaram pelo crivo dos censores chineses.

                  Indústria nunca se esforçou tanto por um mercado
                  DE LOS ANGELES
                  Embora alguns dos truques usados sejam já velhos conhecidos da indústria, nunca antes na história de Hollywood tanto esforço foi feito para agradar a um mercado que não o americano. A bajulação com os chineses, em especial com a versão de "Homem de Ferro 3", desagradou especialistas nos EUA.
                  "É ultrajante e deplorável. Não consigo imaginar artistas envolvidos nestes filmes tendo prazer em lidar com executivos a serviço de uma noção equivocada de marketing, pisoteando seus trabalhos", disse o professor Richard Walter, que lidera o departamento de roteiros da Ucla (Universidade da Califórnia).
                  O professor Alex Franklin, que trabalhou em produção com diversos estúdios e hoje prepara um curso na Ucla sobre coproduções internacionais, não lembra de Hollywood gastando tanto dinheiro para criar versões modificadas para outros países.
                  "Executivos acreditam que vale a pena o gasto para poder ter acesso ao mercado chinês. Na América Latina, isto nunca foi necessário [...] e, em países árabes, não acredito que a bilheteria seja suficiente para justificar tais despesas", disse Franklin.
                  "No fundo, acho desnecessário. Esta tendência não deve durar."
                  Produtor e consultor americano envolvido com negócios na China desde os anos 1980, Robert Cain considera que os estúdios não querem fazer coproduções de verdade com os chineses, mas apenas bajular os censores.
                  "É muito difícil e há muitas regras de coprodução que diminuiriam o apelo dos longas no resto do mundo", diz Cain, que mantém o blog chinafilmbiz.com.
                  DESFILES NO RIO
                  Os estúdios usam outras estratégias mais populares para seduzir mercados estrangeiros, hoje responsáveis por até 70% dos ganhos de uma grande produção. Ao lado da China, Rússia e Brasil são outras bilheterias em expansão que fazem brilhar os olhos dos produtores.
                  Não é à toa que nos últimos anos aumentou o influxo de atores internacionais desfilando pelo Rio para lançar seus novos trabalhos, como aconteceu com Robert Downey Jr. e seu "Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras", em 2012. O próximo será o elenco de "Se Beber, Não Case! "" Parte 3", neste mês.
                  Há também mais blockbusters gravados em território nacional, como "Os Mercenários" (2010) e "Velozes & Furiosos 5" (2011).
                  Misturar aos astros de Hollywood atores pouco conhecidos do público dos EUA, mas famosos nos mercados que se almeja conquistar, é outro truque. Dificilmente os americanos sairiam de casa para ver o coreano Byung-hun Lee em "G.I. Joe: Retaliação" (2013) ou Rodrigo Santoro em "O Último Desafio" (2013).

                  quinta-feira, 4 de abril de 2013

                  Coreia do Norte afirma estar pronta para ataque nuclear contra os EUA

                  folha de são paulo

                  Secretário americano da Defesa diz que ameaças norte-coreanas são perigo real para a região
                  Pentágono vai deslocar sistema antimíssil para o Pacífico; Coreia do Sul ameaça usar força para proteger trabalhadores
                  MARCELO NINIODE PEQUIMEm nova subida de tom na escalada retórica dos últimos dias, o Exército da Coreia do Norte anunciou ontem estar pronto para um ataque nuclear aos EUA, em represália à "política hostil" da Casa Branca em relação ao país e à pressão internacional contra seu programa nuclear.
                  Antes da ameaça, os EUA já haviam anunciado que enviarão nas próximas semanas um sistema avançado de defesa antimísseis para a ilha americana de Guam, no Pacífico, para defender suas bases na região.
                  "Informamos à Casa Branca e ao Pentágono que a hostilidade crescente dos EUA para com a Coreia do Norte e a sua irresponsável ameaça nuclear serão esmagadas pela força de vontade dos soldados e do povo e por (...) meios de ataque nuclear leves, diversificados e de ponta", diz a nota norte-coreana.
                  O comunicado do Estado-Maior do Exército norte-coreano, divulgado ontem pela agência estatal KCNA, prossegue: "Nesse sentido, a operação implacável das Forças Armadas revolucionárias já foi examinada e ratificada".
                  Pyongyang já anunciara anteontem, após uma série de ameaças à Coreia do Sul e aos EUA, que reativará todas as suas instalações atômicas, incluindo o reator de Yongbyon, desativado desde 2007 por acordo internacional.
                  Em resposta, o Pentágono disse que o sistema de defesa -que inclui radares, mísseis interceptadores e um caminhão lança-mísseis- será instalado em Guam para garantir a segurança dos cidadãos do país e de seus aliados na área.
                  Em palestra na Universidade de Defesa Nacional, em Washington, o secretário da Defesa, Chuck Hagel, disse que as ameaças norte-coreanas são um perigo claro e real e uma ameaça aos EUA e a toda a região Ásia-Pacífico.
                  PARQUE INDUSTRIAL
                  Em outro lance da escalada de tensão, a Coreia do Sul ameaçou ontem usar a força para proteger os trabalhadores do país no parque industrial de Kaesong, situado em território norte-coreano.
                  Cerca de 800 empregados sul-coreanos permaneceram em Kaesong depois que o regime comunista da Coreia do Norte decidiu barrar o acesso de pessoas e carga do país vizinho ao complexo.
                  O ministro da Defesa sul-coreano, Kim Kwan-jin, disse que "todas as opções" serão consideradas caso a segurança dos trabalhadores que permaneceram em Kaesong seja ameaçada.
                  Chegou a dizer que o Exército sul-coreano é capaz de destruir 70% da primeira linha de defesa do país vizinho em cinco dias. A Coreia do Norte não respondeu.
                  É a primeira vez que a opção militar é citada pelos sul-coreanos para garantir o funcionamento de Kaesong desde a sua inauguração.
                  Criado em 2003 com capital privado sul-coreano, dentro do programa de reaproximação das Coreias, o complexo de Kaesong é a única colaboração econômica entre os países, oficialmente em estado de guerra há 60 anos.
                  O complexo representa uma fonte de renda importante para a empobrecida Coreia do Norte, que se beneficia do comércio bilateral e dos salários pagos aos operários, um total estimado em US$ 80 milhões anualmente.
                  Pouco mais de 53 mil norte-coreanos trabalham no local, além dos cerca de 800 sul-coreanos. O parque produziu o equivalente a US$ 470 milhões no ano passado em bens como roupas e relógios.
                  Com agências de notícias

                    ANÁLISE
                    Dados sobre a capacidade militar do regime são pouco confiáveis
                    RICARDO BONALUME NETODE SÃO PAULOO "equilíbrio do terror" entre potências nucleares sempre foi baseado na racionalidade dos líderes. A sigla em inglês "MAD" da expressão "destruição mútua assegurada" forma a palavra "louco".
                    Mas os líderes da Coreia do Norte constantemente desafiam os limites da racionalidade, quando no passado bombardearam com artilharia uma ilha e afundaram uma corveta da rival Coreia do Sul.
                    É portanto impossível prever se o Norte de fato quer iniciar uma guerra de grandes proporções. Um país com 35 mil estátuas dos seus ditadores é algo claramente imprevisível e difícil de entender racionalmente.
                    Seria suicídio para o regime norte-coreano provocar um conflito com os Estados Unidos. Os EUA têm 4.650 armas nucleares em estoque, das quais cerca de 2.150 estão operacionais em mísseis e bombardeiros. Mesmo com armamento convencional os americanos poderiam destruir boa parte da infraestrutura e das forças militares da Coreia do Norte.
                    A retórica belicosa do jovem ditador Kim Jong-un serve tanto para consumo interno como para forçar novas concessões da Coreia do Sul e dos EUA. Mas ele está chegando no limite do tolerável.
                    Dados sobre as capacidades militares do Norte são pouco confiáveis. Não existem estimativas precisas de quantas armas nucleares ele teria, ou se seus foguetes teriam alcance para atingir território americano, ou mesmo se o país teria a tecnologia para produzir uma arma pequena o suficiente para ser instalada na ponta de um míssil.
                    Aquele que seria o míssil mais poderoso, o Taepong-2, só teve um teste até hoje, em 2006, e fracassou. As estimativas sobre seu alcance são altamente imprecisas; os especialistas falam que poderia atingir alvos entre 4.000 km a 9.000 km de distância. Teoricamente uma versão mais "turbinada" poderia atingir o Havaí ou a base americana em Guam.
                    Se defender contra mísseis balísticos com sua velocidade de milhares de metros por segundo é algo dificílimo, mas os americanos têm investido pesadamente em armas contra eles. É o caso do Thaad, sigla em inglês para Defesa de Área Terminal de Alta Altitude, que será instalado em Guam.
                    "Defesa de Área" é um termo para um míssil antiaéreo ou antimíssil capaz de proteger uma área variável e razoavelmente extensa. No caso, o Thaad tem alcance estimado de 200 km, mas pode atingir alvos a 150 km de altura.
                    Outra forma de defesa americana são cruzadores e destróieres equipados com o sistema de radar Aegis. Projetado para defender a esquadra contra ameaças múltiplas, nos últimos anos passou a ter também uma capacidade contra mísseis balísticos. Dois navios do tipo já foram deslocados para o mar em torno das Coreias.

                      quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

                      Netanyahu se reelege com vitória apertada

                      folha de são paulo

                      Partido recém-fundado por apresentador de TV centrista surpreende nas urnas e fica em 2º lugar, indicam projeções
                      Se os resultados forem confirmados, premiê terá a opção de formar governo sem influência da direita mais radical
                      MARCELO NINIODE JERUSALÉMConfirmando as previsões, o partido do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu foi o mais votado nas eleições de ontem e deve formar o novo governo de Israel, segundo pesquisas de boca de urna de três canais de TV.
                      A grande surpresa dessas projeções é um partido de centro recém-criado, comandado por uma celebridade da TV, que aparece como a segunda força política.
                      Fundado há menos de um ano pelo jornalista e apresentador Yair Lapid, o partido Yesh Atid (Há Futuro) teria entre 18 e 19 deputados, ficando com uma bancada só menor que o Likud-Beitenu, a aliança de Netanyahu, que teria entre 31 e 33.
                      Em tese, o triunfo de Lapid significa a opção de um governo mais moderado sob a liderança do premiê, sem a influência dominante dos partidos de extrema direita.
                      Também indica um Parlamento mais polarizado, com a redução da vantagem do bloco de direita, aliado natural de Netanyahu.
                      QUASE EMPATE
                      No atual Legislativo a direita tem 65 deputados contra 55 da centro-esquerda. As primeiras projeções da eleição de ontem mostram quase empate, com pequena diferença a favor da direita.
                      Em seu primeiro discurso após a divulgação das projeções que lhe davam vitória, ontem, Netanyahu disse que seu interesse é formar "o governo mais amplo possível", abrindo as portas para os partidos de centro.
                      Ao enumerar os princípios da coalizão, porém, o premiê mencionou em primeiro lugar a preocupação com temas de segurança, "incluindo a ameaça iraniana".
                      O surpreendente desempenho do Yesh Atid embaralha as cartas para a formação do próximo governo e torna difícil prever qual será sua direção nos principais temas.
                      As projeções sugerem que o premiê Netanyahu terá a possibilidade numérica de construir um gabinete só com partidos de direita.
                      Isso significaria uma posição mais dura em assuntos de segurança, como a negociação com os palestinos e a ameaça de ataque ao Irã.
                      Numa aliança de direita, um dos parceiros mais poderosos seria o partido ultranacionalista Bait Yehudi (Lar Judeu), do magnata do software Naftali Bennett, um veemente opositor de um Estado palestino.
                      Uma coalizão dominada pela direita não agrada a Netanyahu, segundo avaliação de analistas, porque se sustentaria em uma maioria frágil, além de proporcionar um aumento da pressão internacional contra Israel.
                      O desafio do premiê será conciliar a agenda de Yair Lapid, centrada em temas econômicos e no fim da isenção do serviço militar para judeus ultraortodoxos, com a de partidos religiosos.
                      Em sua campanha, Lapid prometeu que só entrará no governo caso ele se comprometa a avançar na negociação com os palestinos.
                      TEMAS DOMÉSTICOS
                      O possível êxito do Yesh Atid indica um movimento da opinião pública na direção de assuntos domésticos.
                      Lapid enfatiza temas socioeconômicos, como o encolhimento da classe média e os privilégios dos religiosos, deixando de lado os de segurança, geralmente centrais.
                      "As pessoas estão fartas de políticos profissionais, querem soluções para problemas do dia a dia", disse Danny Tsafrir, 45, que é dono de uma carpintaria na cidade de Modiin, entre Jerusalém e Tel Aviv, e eleitor de Lapid.


                        ISSO É BINYAMIN NETANYAHU
                        Nascimento
                        21.out.1949, em Tel Aviv
                        Cônjuge
                        Casado com Sara Ben Artzi desde 1991; divorciado de Fleur Cates
                        Educação
                        Instituto de Tecnologia de Massachusetts
                        Filiação
                        Líder do partido de direita Likud
                        Mandatos
                        Foi premiê entre 1996 e 1999 e, em seguida, entre 2009 e 2013
                        Legado
                        Visto como linha-dura na negociação com palestinos, sem concessões; constante ameaça contra o Irã, devido ao programa nuclear persa

                          FRASE
                          "O papado estava enfim seguro financeiramente. Jamais voltaria a ser pobre"


                          FRASE
                          "Ele evocou a Constituição e a Declaração de Independência, mas o fez para legitimar sua agenda, partidária e ideológica"


                          FRASES
                          "O povo se ressente da interferência do que considera normas desnecessárias e se pergunta para que serve tudo isso"
                          DAVID CAMERON
                          premiê, sobre a União Europeia, em discurso que deve ser lido hoje
                          "É um premiê fraco, conduzido pelo seu partido e não pelo interesse do país"
                          ED MILIBAND
                          líder da oposição trabalhista

                          ANÁLISE
                          Região em transformação vai testar o novo governo
                          DANIEL DOUEKESPECIAL PARA A FOLHAEm outubro de 2012, a dissolução da coalizão governamental e a convocação de eleições antecipadas em Israel pareciam ter sido planejadas pelo primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, como estratégia para a consolidação de seu projeto de poder.
                          Na época, Netanyahu desfrutava de índices elevadíssimos de aprovação e uniu seu partido ao do ultranacionalista Avigdor Lieberman.
                          O tiro, porém, saiu pela culatra. Ao apostar na "direitização" do país, ele parece ter dado fôlego a forças mais radicais que, agora, ameaçam sua hegemonia. Partidos de centro e esquerda, por sua vez, saem revigorados.
                          Caberia perguntar em que medida isso afeta a relação de Israel com os palestinos e com o Irã. No que se refere ao conflito com os palestinos, Netanyahu sustenta a tese de que, no momento, Israel não tem interlocutor, e o congelamento dos acordos de paz é responsabilidade palestina.
                          Já em relação ao Irã, o premiê defende a intensificação das campanhas por sanções econômicas, sem descartar uma ação militar para frear seu programa nuclear.
                          Se esses princípios serão seguidos, só saberemos após a formação da nova coalizão. Isso porque, no sistema parlamentarista e multipartidário israelense, as eleições são apenas o primeiro passo para a constituição do governo.
                          Se, por um lado, os arranjos necessários para acomodação dos interesses dos diferentes partidos irão definir de forma mais clara os rumos da política israelense, por outro, a campanha eleitoral deixa pouca esperança de avanço nas negociações de paz.
                          Céticos no que se refere a uma possibilidade de solução, partidos cotados para integrar o próximo governo parecem mais comprometidos em administrar conflitos do que em resolvê-los.
                          Porém, num Oriente Médio em rápida transformação e diante de um cenário em que pressões externas pelo reconhecimento da Palestina tendem a crescer, a habilidade do novo governo em lidar com eles será posta à prova.

                            domingo, 9 de dezembro de 2012

                            Hamas completa 25 anos e consolida "Estado" em Gaza


                            Na fundação, organização islâmica era vista como opção moderada ao Fatah
                            Grupo radical celebra sua força e o trunfo de ter rachado isolamento imposto pelo bloqueio dos israelenses a Gaza
                            MARCELO NINIO - Folha de São PauloENVIADO ESPECIAL A GAZAA modesta casa com teto de zinco, espremida num beco do bairro de Sabra, na cidade de Gaza, passaria despercebida não fosse a pequena placa: "Aqui viveu o mártir, Ahmed Yassin".
                            Convertida em museu, a casa é o berço do grupo radical Hamas, fundado por Yassin em 1987, e virou ícone do quase-Estado gerido pelos islamitas desde que tomaram o controle de Gaza, em 2007.
                            Exibida numa vitrine, por onde costumam passar excursões de escolas, está a cadeira de rodas retorcida em que o xeque paraplégico estava ao ser morto por um míssil israelense, em 2004.
                            Depois de sair cantando vitória do segundo grande confronto com Israel em dois anos, o Hamas completa 25 anos de uma trajetória sangrenta, que o levou do pequeno centro beneficente criado por Yassin a governo.
                            Escondidos em bunkers durante a ofensiva, seus líderes não perderam nenhuma chance de colher os louros da "vitória", apesar dos 160 mortos e dos danos causados.
                            Milhares de pessoas saudaram ontem o líder do grupo, Khaled Meshal. Sua visita a Gaza, após 45 anos no exílio, foi o ponto alto da festa pelo aniversário. "A Palestina é nossa do rio ao mar, do sul ao norte. Não cederemos nem uma polegada", disse.
                            O governo israelense debocha das comemorações, afirmando que elas ocultam o duro golpe sofrido pelo Hamas em seu poderio militar.
                            Politicamente, porém, o Hamas chega aos 25 anos mais forte do que nunca, com o governo consolidado em Gaza e o trunfo de ter rachado o isolamento imposto pelo bloqueio israelense.
                            Uma caravana de chanceleres árabes visitou Gaza durante a ofensiva, aproveitando a abertura da fronteira com o Egito -aliado natural do Hamas desde a revolução que levou a Irmandade Muçulmana ao poder.
                            "A mudança é dramática", afirmou à Folha um dos líderes do grupo, Mahmoud al-Zahar, falando da queda do ditador egípcio Hosni Mubarak, inimigo declarado da Irmandade e de seus discípulos, como o Hamas.
                            Zahar foi um dos fundadores do grupo, que teve origem no Centro Islâmico criado por Yassin nos anos 70. Por quase 20 anos, o centro dedicou-se a ações sociais e ao ensino do islã e chegou a receber fundos de Israel, que na época via em Yassin uma alternativa moderada ao nacionalismo armado de Iasser Arafat.
                            No livro "Conhecer o Hamas", o jornalista israelense Shlomi Eldar conta em detalhes a história do grupo e os erros cometidos por Israel.
                            "Um oficial israelense me disse: o Hamas foi construído pelos fracassos de Israel", contou Eldar à Folha.
                            Com 20 anos de experiência em Gaza, Eldar diz que o Hamas começou com ambições modestas. Mas o discurso radical que prega o fim de Israel já estava em sua carta fundadora, de 1987, que permanece intocada até hoje.
                            Era o começo da primeira intifada (revolta palestina), lembra Eldar, e o Hamas carregou no ódio para afastar suspeitas de que colaborava com o inimigo por ter recebido dinheiro de Israel.
                            Sem deixar de lado a ação beneficente, o grupo logo criou um braço militar que cometeria os piores atentados terroristas contra Israel, com centenas de mortos.
                            A vitória na eleição de 2006 surpreendeu os próprios líderes do Hamas. Já no ano seguinte, porém, eles expulsaram o Fatah após um violento golpe e assumiram o controle de Gaza, passando a driblar o bloqueio econômico com uma vasta rede de túneis na fronteira egípcia.
                            Para os opositores, o cerco é duplo. O Hamas não tolera dissidências e impôs um regime cada vez mais islâmico.
                            A origem humilde contrasta com a opulência que alguns membros passaram a exibir nos últimos anos, com carrões último tipo e mansões que destoam na pobreza de Gaza. "Dias antes da ofensiva israelense houve um raro protesto contra o Hamas", diz Khalil Shahin, ativista de direitos humanos. "A guerra salvou o seu prestígio."

                              'Reconhecimento da ONU não tem valor', afirma fundador do Hamas
                              Em entrevista à Folha, Mahmoud al Zahar diz que apenas a resistência armada terá sucesso
                              Segundo Zahar, grupo islâmico espera uma nova investida de Israel e promete responder com ainda mais força
                              Suhaib Salem/Reuters
                              Passeata em Gaza celebra aniversário de 25 anos do Hamas e visita de Khaled Meshal, seu líder político exilado no Cairo
                              Passeata em Gaza celebra aniversário de 25 anos do Hamas e visita de Khaled Meshal, seu líder político exilado no Cairo
                              DO ENVIADO A GAZAO médico palestino Mahmoud al Zahar, um dos fundadores do Hamas, não é homem de concessões.
                              Membro da alta cúpula do grupo islâmico, ele acha que o recente reconhecimento da Palestina como Estado observador na ONU não vale nada e que os 25 anos do Hamas provaram que apenas a resistência armada levará à independência palestina.
                              Cirurgião formado no Cairo, Zahar, 67, escapou de duas tentativas israelenses de assassinato, que custaram a vida de dois de seus filhos.
                              Uma delas foi em sua casa pintada de verde -a cor do Hamas-, no centro de Gaza, onde falou à Folha.
                              (MARCELO NINIO)
                              -
                              Folha - O sr. comemorou a vitória palestina na ONU?
                              Mahmoud al Zahar - Não importa o que a ONU aceita. O reconhecimento da Palestina em 22% do território por apenas 40% do povo palestino é inaceitável. A ANP (Autoridade Nacional Palestina) não representa os palestinos.
                              Se esse processo ocorresse dentro dos princípios básicos dos palestinos, nós aceitaríamos. Essas condições não foram atendidas, a começar pelo território de 1948.
                              O reconhecimento da ONU não tem nenhum valor?
                              Nenhum. A resolução não pode ser colocada em prática. Por muitos anos tentamos a resistência pacífica. Recorremos às ações militares porque ela fracassou. O Fatah negocia com Israel desde 1991 e não conseguiu nada.
                              O repúdio árabe ao plano de partilha da ONU, de 1947, foi um erro histórico?
                              Não, porque o plano deu menos que 50% do território aos palestinos. Mesmo se a partilha fosse aceita hoje, teria que ser condicional, sem o reconhecimento de Israel e sem abrir mão de nosso direito a toda a Palestina.
                              Qual o seu balanço desses 25 anos do Hamas?
                              Representamos a posição real do povo palestino. Na [última] ofensiva asseguramos que Israel pagaria caro por uma invasão. Acho que a mensagem foi entendida.
                              É hora de se concentrar na trégua e usá-la para dialogar ou se preparar para a guerra?
                              Não confiamos em Israel. Estamos esperando uma nova ofensiva israelense, mas dessa vez nossa reação será bem mais forte. Se houver resistência [armada] na Cisjordânia, acredite, Israel também sairá de lá. O problema não é só Israel, mas a ANP (Autoridade Nacional Palestina), que acredita que é possível chegar à solução por meio de negociações.
                              O Hamas planeja uma terceira intifada na Cisjordânia?
                              A população da Cisjordânia tem o direito de se defender com os meios possíveis.

                                sexta-feira, 30 de novembro de 2012

                                ONU concede à Palestina o status de Estado observador


                                ONU concede à Palestina o status de Estado observador
                                Resolução teve 138 países favoráveis, incluindo o Brasil, e 9 contrários
                                Para Israel, decisão desconsidera segurança do Estado judaico e não contribui para o processo de paz
                                Kathy Willens/Associated Press
                                O líder palestin oMahmoud Abbas (centro) após a votação
                                O líder palestin oMahmoud Abbas (centro) após a votação
                                RAUL JUSTE LORESDE NOVA YORKA Assembleia-Geral da ONU aprovou ontem a elevação do status da Autoridade Palestina de "entidade observadora" a "Estado observador não-membro" -138 países votaram a favor, 41 se abstiveram e 9 (entre eles, EUA e Israel) foram contra.
                                É algo simbólico, pelo reconhecimento como Estado, mas a Autoridade Palestina continuará ainda sem direito a voto na ONU.
                                O Brasil votou a favor da resolução e "felicitou" a Palestina, em nota do Itamaraty.
                                O secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, afirmou, após a decisão, que a resolução não significa que a organização não se preocupa com a segurança de Israel.
                                O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e o representante de Israel, Ron Prosor, fizeram discursos agressivos.
                                "Chegou o momento para o mundo dizer claramente: basta de agressão, de assentamentos, de ocupação", disse Abbas, muito aplaudido.
                                O representante israelense disse que a resolução tinha apenas um lado, o palestino, e não falava nada sobre a segurança de Israel. Referindo-se a Abbas, disparou: "O senhor não pode visitar nem metade do seu território, Gaza, que é controlado pelo Hamas, uma organização reconhecidamente terrorista".
                                "Não viemos deslegitimar um Estado estabelecido há tantos anos, que é Israel. Viemos afirmar a legitimidade do Estado que agora precisa conquistar sua independência, a Palestina", disse Abbas.
                                Mas ele passou a maior parte de seu discurso atacando Israel, dizendo que o país jogou o processo de paz na "terapia intensiva", além de fazer "limpeza étnica" e de cometer crimes de guerra.
                                Falando logo após Abbas, o representante de Israel afirmou que a resolução deveria "encorajar os palestinos a entrar em negociações diretas sem pré-condições para alcançar uma paz histórica com um Estado palestino desmilitarizado que reconheça o Estado judaico".
                                "A segurança de Israel deve ser protegida e os palestinos devem reconhecer o direito à existência de Israel. Nenhum desses pontos está presente na resolução a ser votada de hoje. Esta resolução só tem um lado", criticou, pouco antes da votação. Foi bem menos aplaudido que o palestino pela plateia.
                                Para diplomatas europeus ouvidos pela Folha, além de reforçar o status da Palestina, a decisão de ontem altera uma pendência que sobrevive desde 1947.
                                Quando a partilha foi feita, previa-se a criação de dois Estados, um judaico e um palestino. Israel foi criado, mas o Estado palestino, não.

                                  Israel não deve se preocupar, diz negociador
                                  Palestina só acionará corte internacional se Israel cometer "novos crimes", diz Nabil Shaath, representante em conversas de paz
                                  Nabil Shaath diz que apoio do Brasil foi fundamental e que país poderia ser incluído em grupo de mediadores
                                  ISABEL COUTINHODE SÃO PAULOIsrael "não precisa se preocupar" com a adesão da Palestina como Estado observador da ONU, avisa o negociador-chefe dos palestinos, Nabil Shaath. Segundo o alto funcionário, os palestinos não pretendem acionar o TPI (Tribunal Penal Internacional) por "crimes já cometidos".
                                  "Se eles não vão cometer novos crimes, não têm com o que se preocupar", disse Shaath à Folha, durante rápida passagem por São Paulo.
                                  Shaath, que veio ao país representar o presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Mahmoud Abbas, no Fórum Social Mundial Palestina Livre, em Porto Alegre, diz que o Brasil é "importante candidato" a integrar uma eventual extensão do Quarteto para o Oriente Médio (EUA, Rússia, União Europeia e ONU).
                                  -
                                  Folha - O que realmente representa para a Palestina tornar-se Estado observador da ONU?
                                  Nabil Shaath - É um reconhecimento internacional do nosso direito de ser um Estado nas fronteiras de 1967 [Cisjordânia e faixa de Gaza, ocupadas na Guerra dos Seis Dias], com Jerusalém Oriental como capital. Mas é um reconhecimento que deveria ter vindo em 1948, quando Israel foi reconhecida pela ONU. Os israelenses consideram que a nossa terra está sob disputa -o que significa que eles podem pegar o quanto quiserem dela. O reconhecimento como Estado nega a eles o direito de pegar nossa terra.
                                  Tecnicamente, agora a Palestina pode levar Israel ante o TPI por crimes contra um 'Estado ocupado'. Há essa intenção?
                                  Nós não vamos acionar o tribunal por crimes que eles já cometeram. Se eles não vão cometer novos crimes, não têm com o que se preocupar.
                                  A ANP não participou das negociações do cessar-fogo entre Gaza e Israel. Isso a enfraquece politicamente?
                                  Claro, mas o que podemos fazer? Desde 2007, Gaza tem um regime separado porque Israel se retirou de lá e a colocou sob um cerco, separando-a totalmente da Cisjordânia. Íamos sendo informados das negociações pelo Hamas, mas quem liderou foi o Egito.
                                  A vitória na ONU pode recolocar a ANP como um ator político relevante?
                                  Isso ajuda, obviamente. E é bem possível que, como resultado dessa guerra [os ataques entre Gaza e Israel] e dessa vitória nas Nações Unidas, haja uma união entre Gaza e a Cisjordânia. Imediatamente após a guerra, o Hamas apoiou o nosso pleito na ONU. No começo, eles eram contra. E já é possível perceber mais liberdade para o Fatah atuar politicamente em Gaza e o Hamas na Cisjordânia.
                                  Dentro de um Estado, a Autoridade Palestina terá controle sobre os braços armados dos grupos de Gaza?
                                  Nós não temos controle total em Gaza, mas entre 2009 e 2011, eles não atiraram nenhum foguete [em Israel]. Se os israelenses realmente anunciarem que querem se comprometer com os acordos que já assinaram, não haverá uma bala vinda de Gaza.
                                  O Brasil fez campanha entre os vizinhos pela votação na ONU. Como veem esse apoio?
                                  Foi fundamental. O Brasil nos ajudou não só reconhecendo nosso Estado em 2010, mas instando outros países a fazer o mesmo. Desde o presidente Lula, o Brasil se tornou um grande apoiador da Palestina.
                                  Fala-se muito em expandir o Quarteto para melhorar sua eficiência. O Brasil poderia ser uma opção para integrá-lo?
                                  Totalmente. Não só o Brasil, mas Índia, África do Sul, China e Turquia são importantes candidatos para um novo "Quinteto", "Sexteto" ou "Octeto". O Quarteto sozinho não conseguiu nada.
                                  A Palestina vai tentar de novo se tornar um membro pleno?
                                  Sim, quando os americanos decidirem não usar mais o veto no Conselho de Segurança.
                                  O que deve demorar...
                                  Não necessariamente. As coisas mudam.

                                    População festeja com realismo em Ramallah
                                    MARCELO NINIOENVIADO ESPECIAL A RAMALLAHUm sentimento de orgulho, mas com os pés no chão. Foi nesse espírito que palestinos celebraram a votação na ONU que elevou o status da Palestina para Estado observador. Apesar do feriado concedido a estudantes e funcionários públicos, Ramallah viveu um dia quase normal, à espera da sessão histórica na ONU.
                                    Nada parecido com a euforia de 2011, quando uma multidão acompanhou o pedido para que a Palestina se tornasse membro pleno da ONU, que fracassou.
                                    "Sei que, na prática, nada mudará no dia seguinte, mas é importante ter o reconhecimento de que a Palestina é um país, não um grupo de terroristas", disse o técnico em tecnologia da informação Eymad Othman, 27.
                                    Um telão foi montado no centro de Ramallah e muita gente apareceu, com bandeiras e crianças vestidas com as cores palestinas. Num esforço para mostrar unidade, representantes do Hamas e Jihad Islâmico discursaram em apoio ao pleito de Abbas.
                                    Moradores de Gaza contaram à Folha que houve manifestações de partidários do Fatah, num desfile de bandeiras raramente permitido pelo Hamas.
                                    O premiê israelense, Binyamin Netanyahu, disse que o país "tem a mão estendida à paz", mas que ela só virá por meio de negociações. "A decisão não promoverá o estabelecimento de um Estado palestino, só o afastará."

                                      quarta-feira, 21 de novembro de 2012

                                      Trégua em Gaza emperra e violência cresce


                                      Hamas chega a anunciar acordo de cessar-fogo, mas Israel nega; confrontos se intensificam dos dois lados da fronteira
                                      Ao menos 135 pessoas morreram em sete dias; em Jerusalém, Hillary reafirma compromisso dos EUA com israelenses
                                      Fabio Braga/Folhapress
                                      Integrantes da comunidade judaica em São Paulo fazem protesto no vão livre do Masp, na avenida Paulista, contra o lançamento de foguetes pelo grupo radical islâmico Hamas ao território de Israel, ontem
                                      Integrantes da comunidade judaica em São Paulo fazem protesto no vão livre do Masp, na avenida Paulista, contra o lançamento de foguetes pelo grupo radical islâmico Hamas ao território de Israel, ontem

                                      MARCELO NINIOENVIADO ESPECIAL A GAZAEm meio à frenética movimentação diplomática e informações desencontradas sobre a iminência de uma trégua, os confrontos entre Israel e extremistas palestinos da faixa de Gaza se intensificaram dos dois lados ontem.
                                      Um membro do grupo islâmico Hamas envolvido nas negociações intermediadas pelo Egito, no Cairo, chegou a dizer que o acordo de cessar-fogo havia sido fechado, mas a informação foi negada pelo governo de Israel.
                                      Enquanto falavam em trégua, Israel e o Hamas intensificaram os ataques, numa indicação de que pretendem manter o inimigo acuado até que um acordo seja obtido.
                                      Quando a noite caiu em Gaza e parecia que o cessar-fogo seria anunciado no Cairo, aFolha pôde ouvir pesados bombardeios israelenses perto do litoral, ao mesmo tempo em que dezenas de foguetes palestinos eram disparados contra Israel.
                                      Foi o desfecho do sétimo dia da ofensiva israelense, que deixou pelo menos 20 pessoas mortas em Gaza. Fontes palestinas informaram que a maioria era civil, mas Israel disse que 18 eram militantes do Hamas e do grupo radical Jihad Islâmico.
                                      Em Israel, um soldado e um civil foram mortos por disparos de Gaza. Segundo o Exército israelense, seu território foi alvejado ontem por mais de 150 projéteis. "É assustador", disse ao site de notícias israelense Ynet um morador da região. "Nós esperamos que a ofensiva vá até o fim. Já sofremos demais."
                                      A atual escalada de violência já matou ao menos 130 palestinos e cinco israelenses.
                                      Além dos disparos contra as áreas próximas da fronteira israelense, que há anos é alvo da artilharia de Gaza, os palestinos voltaram a ameaçar o centro de Israel com foguetes de longa distância.
                                      Um deles atingiu um prédio na cidade de Rishon Letzion e feriu duas pessoas. Outro foi disparado contra Jerusalém, centro do poder de Israel, mas caiu em área aberta da Cisjordânia ocupada.
                                      O ataque disparou o alarme antiaéreo em Jerusalém pouco antes da chegada do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que exortou o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, a não ordenar uma ação por terra em Gaza: "A escalada de violência coloca toda a região em risco".
                                      O premiê respondeu que está disposto a aceitar uma solução diplomática. "Mas não hesitaremos em fazer o que for preciso para defender nossos cidadãos", ressalvou.
                                      Pouco depois, foi a vez de a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, se reunir com Netanyahu em Jerusalém. Ela reafirmou o compromisso dos EUA com a segurança de Israel.
                                      "Os ataques terroristas de Gaza devem parar, e a calma deve ser restaurada", afirmou. Ela não quis prever quando a trégua entrará em vigor, mas disse que está trabalhando para que "uma solução duradoura seja alcançada nos próximos dias".
                                      Ontem à noite, o Conselho de Segurança da ONU marcou reunião sobre Gaza para hoje à tarde, caso um cessar-fogo não seja acertado antes.
                                      A aviação israelense lançou panfletos ontem no norte de Gaza, recomendando à população que deixasse a região porque ela seria atacada. O alerta gerou uma longa caravana de famílias em fuga, em vans, carroças e a pé.
                                      Cerca de 300 pessoas foram abrigadas numa escola da Cidade de Gaza, que o panfleto israelense dizia estar numa área segura. "Isso não é vida. Quando os judeus vão parar de nos atacar?", gritava uma idosa.