terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sinal de alerta (ácido quinolínico) - Marcela Ulhôa‏

Cérebros de pacientes com depressão grave que atentaram contra a própria vida contêm altas doses de uma substância chamada ácido quinolínico. Descoberta pode melhorar formas de tratamento
 

Marcela Ulhôa
Estado de Minas: 15/01/2013 

Brasília – Para algumas pessoas, viver pode parecer penoso demais, um fardo pesado e difícil de carregar. Quando a dor rasga o peito e o grito de socorro ecoa no vazio, o que começa às vezes com uma tristeza pode virar uma tragédia sem retorno. No intuito de entender o que ocorre no cérebro daqueles que sofrem com quadros de depressão extremamente graves, a ponto de atentar contra a própria vida, pesquisadores da Universidade de Michigan se dedicaram ao estudo das alterações químicas do cérebro e encontraram importantes evidências que podem ajudar a amenizar o sofrimento desses pacientes. Os resultados foram publicados na revista científica Neuropsychopharmacology.

De acordo com Lena Brundin, principal autora do artigo, essa foi a primeira pesquisa que mostrou que no cérebro das pessoas que tentam tirar a própria vida há um nível consideravelmente maior – mais que o dobro – de uma substância chamada ácido quinolínico, produzida pelo organismo como parte da resposta imune que gera inflamação. “Há alguns anos, constatamos que, no cérebro de pacientes suicidas era comum haver uma inflamação. Começamos, então, a nos perguntar como essa irritação poderia afetar o cérebro e fazer os pacientes se sentirem deprimidos. Foi quando começamos a procurar os distúrbios químicos do cérebro e células nervosas”, explica Lena.

Os pesquisadores analisaram o líquido cefalorraquidiano (substância que passa pela medula óssea e banha o cérebro) de 100 indivíduos na Suécia, sendo que cerca de dois terços deles já haviam sido hospitalizados após tentarem se matar. O restante dos analisados era saudável. Além disso, todos os participantes foram atendidos por um psiquiatra, que os perguntou sobre seus sentimentos e anseios.

Depois da interpretação das amostras, coletadas por meio da punção lombar, os pesquisadores observaram que, em comparação com os indivíduos saudáveis, os pacientes deprimidos apresentavam mais do que o dobro de ácido quinolínico em seu fluido espinhal. Também foram notadas quantidades elevadas de glutamato, um neurotransmissor excitatório ativado pelo ácido. O estudo constatou ainda que nas pessoas que ficaram mais de seis meses sem apresentar nenhum vestígio de comportamento suicida houve uma importante diminuição nos níveis da substância.

A partir dessas evidências, os pesquisadores esperam que, no futuro, seja possível identificar a inflamação no cérebro por meio de amostras de sangue e assim agir de forma preventiva. “Isso poderia ser um marcador para um aumento no risco de suicídio em pacientes sensíveis, já que o ácido quinolínico vem da inflamação. Tais biomarcadores estão em desenvolvimento, mas, por enquanto, os pacientes ainda não podem solicitar esses testes, pois os médicos só podem ver os sinais brutos de inflamação no sangue”, revela a pesquisadora. 

Apesar das evidências químicas, Lena Brundin reforça que são vários os fatores que contribuem para que uma pessoa atente contra a própria vida e, por isso, é importante compreender também, por exemplo, por que alguns pacientes são mais sensíveis ao estresse e ao trauma do que outros. Mas se as causas que levam ao ato são muitas, ela acredita que é papel da ciência encontrar medicamentos que possam ajudar nas situações de maior vulnerabilidade. “Acho que se melhorarmos os medicamentos que afetam os sinais de glutamato os pacientes poderão obter um alívio maior dos sintomas. É claro que é importante ver também o que desencadeia a depressão e os pensamentos suicidas, mas os pacientes precisam de ajuda para diminuir o estresse e a inflamação e conselhos para lidar com os traumas”, completa. 

Complexidade Para Fábio Aurélio Leite, psiquiatra do Instituto de Neuropsiquiatria Clínica de Brasília, o estudo americano é mais uma peça de um complicado quebra-cabeça. “As pessoas não são iguais, às vezes um paciente pode ter um marcador biológico elevado mas não apresentar um comportamento suicida. O que fazer então? A gente medica só porque você julga que ele tem um risco aumentado, sendo que ele nunca teve um sintoma?”, questiona Leite.

O psiquiatra brasileiro reforça ainda que existe uma subjetividade muito grande na neuropsiquiatria, que envolve áreas até mesmo do existencialismo. Apesar de não descartar a importância do desenvolvimento de marcadores e medicamentos, Leite acredita que não é possível dissociar o físico do psicológico.

“O ser humano não é uma sopa de enzimas, ele tem uma parte somática e outra psíquica. Somos extremamente complexos, baseados em emoção, impulsividade. O psiquiatra não pode conhecer mais do remédio do que da pessoa, ele tem que, acima de tudo, gostar de gente, tentar a compreensão”, acrescenta.

Sobre o delicado assunto, a especialista em prevenção em suicídio da Universidade de Brasília (UnB) Cristina Marcos de Moura reforça que combater o preconceito da sociedade é um dos pontos principais. “Estamos falando de dois grandes tabus: a morte, um tema que todos evitam, e a incompreensão de como às vezes uma pessoa inteligente e bem-sucedida pode ter tido a coragem de colocar fim à própria vida. Tem gente que fica com raiva de quem tentou suicídio, acha que foi para chamar a atenção”, diz. 

Cristina comenta que a ideia de suicídio não ocorre por um único motivo, o fim de um namoro, por exemplo, pode ser somente “a gota d’água que fez o copo transbordar”. Segundo ela, são vários os fatores de risco e também os de proteção envolvidos, sendo que a aproximação amorosa de familiares e amigos é extremamente importante para reverter ou impedir uma situação extrema.

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