domingo, 31 de março de 2013

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA » Velhice está na moda‏


Estado de Minas: 31/03/2013 


Não é porque já passei dos 21 anos, mas tenho a impressão de que a velhice está na moda. Olhem o que está ocorrendo nos palcos e cinemas: acabo de assistir ao filme O quarteto, dirigido por Dustin Hoffman, narrando a vida de um grupo de velhos cantores de ópera que vão viver numa bela mansão que abriga artistas. É uma meiga e comovente comédia, que usa como atores alguns artistas que foram célebres nos palcos. No fim, até mostram fotos de como eram quando jovens. O tempo é cruel e cobra, em rugas, a pretensa sabedoria acumulada.

Muitos viram Amor, com Emmuele Rivas e Jean-Louis Tritignant, a história de um casal em torno dos 80 anos. O filme concorreu ao Oscar e mexeu com a cabeça de jovens e velhos. Muita gente preferiu não vê-lo, o que é também uma forma de não pensar no assunto.

Outro filme francês é E se vivêssemos todos juntos?. Narra como seis amigos velhos resolvem viver juntos para (alegremente) superar a velhice. Claro que em todos esses filmes fala-se de perda de memória, Alzheimer, obsessão erótica, lembranças e afetos. E uma amiga acaba de me ligar dizendo que foi ver a peça em que Maitê Proença representa várias pessoas de idade, narrando histórias reais. Trata-se de criar asas sobre o abismo da morte,

Fui olhar na internet e lá tem uma lista de 10 filmes recentes sobre velhice. Deve haver mais. Não é à toa: envelhecimento é negócio. Não é apenas um problema do INSS, dos aposentados, é algo que dá dinheiro (para os mais jovens). Por isso, é pertinente dizer que, se os anos 50/60 inventaram o “poder jovem” como nicho social e econômico, de uns tempos para cá fala-se muito dos mais velhos. Poder velho? Sempre o velho poder. E há quem diga que a idade será tão prolongada que vão acabar matando a morte. Quem sobreviver não morrerá.

Tenho em algum lugar da estante um livro da Simone de Beauvoir sobre a velhice. É ótimo. Quer dizer, tem gente, como o Pedro Nava, que amaldiçoava estar envelhecendo. Mas tem gente que pensa o contrário. Ainda outro dia recebi uma mensagem que circula na internet com belas paisagens e um texto dizendo que é isso mesmo, a natureza sabe o que faz. Os cientistas chamam esse desfecho de apoptose. No fim da definição científica diz-se: “O termo é derivado do grego, que se referia à queda das folhas das árvores no outono – um exemplo de morte programada fisiológica e apropriada, que também implica renovacão”.

Você talvez tenha ouvido alguém dizer que está doido para se aposentar para, finalmente, ler e reler os clássicos. Tive um amigo que vivia dizendo que ainda ia reler todo o Eça de Queirós. Há quem releia Machado de Assis e até defenda a tese de que ele não deve ser dado aos jovens na escola, porque não têm maturidade para entendê-lo.

Quando Drummond intensificou a escrita de seus poemas sobre velhice e morte, lembro-me de ter mandado para ele uma tradução de De senectute, de Cícero, feita por Leopoldo Pereira. Leopoldo, que nasceu no Serro, pertencia à safra de mineiros que transava os clássicos com familiaridade exemplar.

E o texto de Cícero que ele traduziu começa assim: “Resta tratar da aproximação da morte, que parece ser motivo de constante preocupação para nossa idade. De certo não poderá ela estar longe, mas triste do velho que em tão longa vida não aprendeu a afrontá-la sem temor! Portanto, ou a alma se extingue e não há razão para temer a morte, ou terá vida eternal e então devemos desejá-la. Terceira hipótese não pode haver. Por que, pois, temer a morte, se depois dela ou não teremos que sofrer ou seremos felizes?”.


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