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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Marcos Augusto Gonçalves

folha de são paulo
"Lá fora"
É assim que os brasileiros muitas vezes se referem ao restante do mundo - e é para lá que eu vou
"Isso vai ficar pronto para a Copa?", pergunta o homem a meu lado, no assento da janela do avião. Estico o pescoço e consigo ver o paliteiro de concreto que um dia deverá se transformar no novo terminal do aeroporto de Guarulhos. "É o que dizem", respondo. Ele faz uma cara de não sei não e aproveita para dizer que mora há mais de 20 nos Estados Unidos.
"Xi, vou ter um cara querendo falar comigo durante a viagem inteira" -temi.
E ele tem vinte anos de história em Nova York para contar.
Vinte anos é bastante tempo. A migração é um impulso ancestral da espécie, que persiste, apesar dos limites materiais e simbólicos desse modelo de assentamento planetário que ainda conhecemos, o Estado-nação. Digo "ainda" sem muita convicção quanto ao futuro. É claro que assistimos à formação de um esperanto cultural globalizado e presenciamos experiências de diluição de fronteiras, como a União Europeia. Não creio que os contornos nacionais, contudo, se apagarão.
Bem, na dúvida é melhor não consultar meu colega de vôo. Ele pode ter uma teoria sobre isso. E eu não estou para conversa, apesar das evidências de que sofrerei para dormir nessa cadeira pouco reclinável do busão voador. Na verdade meu companheiro de viagem também não quer papo. Já ajustou o fone aos ouvidos e ligou a tevezinha. Melhor.
Fico fascinado com essas pessoas que vivem uma vida fora de seus países, não porque não possam voltar, mas porque não querem, já são parte de outras geografias. Certa vez Gerald Thomas comentou comigo que achava divertida a forma como os brasileiros frequentemente se referem ao restante do mundo: "lá fora". "Oi, como é viver lá fora?" "Tem arroz e feijão?".
É verdade também que algumas pessoas nascem no país errado. Ninguém escolhe nacionalidade. Conheço americanos que se encontraram no Brasil e brasileiros que se pudessem seriam alemães.
Não é o meu caso, embora goste da ideia de ser estrangeiro. Pude viver um período na Itália, do qual sempre lembro com satisfação. Morar em São Paulo já tem sido, para mim, uma longa vida como "estrangeiro", eu que me mudei para cá com 27 anos, vindo do Rio de Janeiro. Tinha vergonha de falar "farol" e achava fascinante decifrar os códigos locais, muitos realmente diferentes dos cariocas. Tornei-me um paulista, me dizem. Mas não é inteiramente verdade. Paulistas não torcem pelo Flamengo e não cozinham num "fugão". E nem carioca da gema, devo dizer, eu sou, porque nasci em Aquidauana, Mato Grosso do Sul.
São Paulo é uma cidade de estrangeiros. O famoso clichê da terra de muitos povos corresponde a uma realidade histórica. Aqui em outros tempos falou-se mais línguas estrangeiras do que o português. Com seu jeitão provinciano, São Paulo é uma metrópole cosmopolita, conectada com o mundo, que está sempre diante do outro. "São Paulo é como o mundo inteiro" -diz a canção. Anos atrás, Jorge da Cunha Lima, então secretário de Cultura da cidade, falou numa entrevista à "Ilustrada" que vivíamos numa Nova York de taipa. Achei uma boa definição.
Digo tudo isso para me despedir desse espaço e do leitor que por ventura me acompanhe. Saio para um mês de férias e novos projetos, a partir de outubro. Levarei saudades, mas vou passar um ano "lá fora".
Mandarei notícias.

    segunda-feira, 19 de agosto de 2013

    Marcos Augusto Gonçalves

    folha de são paulo
    Arco do Passado
    Haddad cancela obra viária "do futuro" prometida durante campanha; cadê meu nariz de palhaço?
    Começa o filme com o mocinho anunciando que sofremos a ameaça de um "grande colapso em futuro próximo". É que nos últimos anos, a Prefeitura de São Paulo tem sido incapaz de resolver os problemas do presente e de pensar soluções para o futuro. Por isso temos "sérios atrasos na saúde, nos transportes, na educação e na habitação".
    O mocinho vai falando e os efeitos especiais eletrônicos vão tomando a tela. "É preciso um prefeito que rompa esse imobilismo", diz ele. E como no cinema de ação de roliúde tudo explode no segundo plano, enquanto o herói do futuro caminha incólume em direção à plateia.
    Como um personagem de "Matrix", ele faz um gesto com o braço e eis que uma maquete virtual de São Paulo se ilumina em três dimensões diante de nossos olhos. Toda a encenação é pensada para que se chegue ao ápice: a apresentação do sensacional --tchan, tchan, tachan tchan!-- Arco do Futuro!
    Mais um gesto de mágico e aparece um mapa eletrônico mostrando que a linha do futuro começa na avenida Cupecê, passa pelas marginais Pinheiros e Tietê, toca Osasco e Guarulhos e vai pela avenida Jacu-Pêssego, até a divisa com Mauá... Para essa linha, explica o mocinho, "vamos atrair empresas, estimular construções e melhorar o sistema viário através de novas vias e aproveitamento das avenidas já existentes".
    E o mapinha animado (com direito a prédios que brotam sem parar pela região) vai anunciando as "grandes obras", a começar pelas duas vias de apoio, ao norte e ao sul da Marginal Tietê.
    Pena que oito meses depois de tomar posse o prefeito do futuro tenha anunciado que não vai dar para cumprir a promessa. As duas vias de apoio não vão sair do filminho --uma das peças da campanha de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo. Era só uma versão mais transada do Kassabinho ou do Fura-Fila do Pitta, o poste do aliado Paulo Maluf. Tanto faz. O que importa é ganhar a eleição.
    Cadê meu nariz de palhaço?
    O prefeito nem mesmo se deu ao trabalho de anunciar pessoalmente a volta ao passado. Foi a secretária municipal de Planejamento quem descascou o abacaxi, em meio à divulgação do Plano de Metas. "As obras são muito caras", explicou Leda Paulani.
    Ah é? E ninguém sabia? O candidato não tinha reunido a equipe de técnicos da Legião dos Super-Heróis para estudar o projeto? Eles não sabem fazer contas?
    E na esteira deste primeiro estelionato eleitoral, vêm as justificativas tortuosas. A culpa seria do recuo no aumento das tarifas, que sacrificou outras áreas. Bem, então porque recuou? A cidade está na pendura faz tempo. Haddad não sabia?
    Mais chinfrim ainda é a versão de que o cancelamento das obras viárias do ex-Arco do Futuro é para privilegiar o investimento no transporte público, em detrimento do automóvel. Quer dizer que essas vias de apoio canceladas não teriam transporte coletivo? No projeto original eram avenidas só para automóveis? Desculpe, mas isso parece conversa mole para M' Boi Mirim dormir.
    Sempre se soube, aliás, que o Arco era um lance de marketing eleitoral, uma vez que o Plano Diretor já indicava aquela área como prioridade para aproximar trabalho e habitação. Haddad ainda tem tempo pela frente. Tomara que o use melhor, porque até aqui está se mostrando um prefeito do arco da velha.

    segunda-feira, 12 de agosto de 2013

    Marcos Augusto Gonçalves

    folha de são paulo
    Chega de Twitter
    Como André Barcinski, abandonei o miniblog, onde pontificam chato-boys da militância política
    No fim de semana, numa mesa do Sagarana, o empório mineiro da Vila Romana, soube que meu colega André Barcinski havia deixado o Twitter. Desde maio. Eu era um de seus seguidores. É um cara inteligente, esperto e bem informado. Normal, portanto, que eu tenha demorado alguns meses a mais do que ele para tomar a mesma decisão. Adeus, Twitter!
    Eu também descobri coisas legais e pessoas divertidas naquele mundo virtual de 140 caracteres para cá e 140 para lá. Comecei acreditando que seria uma boa ferramenta para me ajudar profissionalmente. Era como se eu estivesse entrando num bar cheio de gente da área de comunicação, políticos, militantes, escritores, e pudesse me relacionar com alguns deles. Além do mais, estava preparando um livro sobre a Semana de 22 e imaginei que seria útil estar presente ali. E foi mesmo.
    Só que... A quantidade de gente idiota com quem tive que passar a conviver excedeu minhas expectativas e os limites de minha paciência --que não é tão pequena assim. Paulo Francis costumava dizer que nasce um otário a cada minuto. Eu diria que entra um otário no Twitter a cada minuto. Fui um deles.
    Não tenho dúvida de que a estupidez, o ressentimento e a mesquinhez, para usar três palavras citadas pelo Barcinski em sua despedida, estão por toda parte, na rua, na chuva, na fazenda. Acontece que no Twitter pessoas com essas características entram numas de interagir com você. Provocam, agridem, dão indiretas e, quase sempre, fazem comentários de uma burrice astronômica. E você, quer dizer, eu, que sou ariano e gosto de um pugilatinho, acabo mordendo o anzol.
    Barcinski conta que um dia se viu no teclado trocando 20 ou 30 frases sobre um assunto estúpido com uma pessoa mais estúpida do que ele. Quando percebeu, tinha desperdiçado mais de uma hora de sua vida. "Diabo, eu poderia estar lendo, jogando botão ou fazendo cooper, mas estava ali, discutindo a rebimboca da parafuseta com uma pessoa que eu nem sei se é de verdade."
    É uma experiência comum, pela qual muitos já passaram. Eu também. E cansei. O Twitter é o paraíso dos egonautas. O formato 140 caracteres incentiva intervenções agressivas. Já que o gênio que está ali para convencer a humanidade não tem muito espaço para argumento, o lance é tentar uma frase de efeito, de preferência que reduza o oponente a cocô do cavalo do bandido.
    Dá uma enorme preguiça ver gente esgrimindo, ingênua ou desonestamente, argumentos que já considerava fajutos há 30 anos. Refiro-me sobretudo aos maiores chato-boys da rede social, os soldadinhos de chumbo da militância política. Gente que torce para partido político como adolescente torce para time de futebol. "Cala a boca, gambá!". "Chupa, porco!". É esse o nível da coisa. Tipo religioso. O baixo clero do alinhamento automático, da cabecinha maniqueísta, que fica ali repetindo um catecismo doutrinário boboca, como coroinha da ideologia. Ainda não apaguei minha conta, mas não vou mais lá. E estou sentindo um grande alívio. Não faz a menor falta. Ao contrário, é uma ausência que preenche uma lacuna.
    Pretendo, contudo, permanecer no Facebook, onde tenho amigos e não seguidores, com a vantagem de ser um espaço mais despolitizado, sentimental, brega e, portanto, humano.

      segunda-feira, 5 de agosto de 2013

      Marcos Augusto Gonçalves

      folha de são paulo
      Lisboa revisitada
      Reencontro a bela capital portuguesa em dias alegres e ensolarados, mas ainda sob o signo da crise econômica
      Estou aqui, na praça Luís de Camões, numa tarde luminosa de Lisboa, cidade bonita de pedras claras, fachadas de azulejos, boa mesa e noite agitada. É tempo de férias na Europa, e a ensolarada capital portuguesa atrai gente de todos os lugares. Brasileiros, ingleses, alemães, franceses, japoneses sobem e descem pelas ladeiras do centro histórico num burburinho que vai até a madrugada.
      Longe do formigueiro babélico dos visitantes estrangeiros, a vida transcorre em outro ritmo, bem diferente do nosso cotidiano afobado de São Paulo, onde cabe um Portugal de gente.
      "O Novo Mundo tem a energia própria dos adolescentes. As pessoas falam demasiado alto, caminham demasiado depressa. E têm pressa. Nós, europeus, temos uma relação distinta com o tempo. Não temos a noção permanente de que não temos tempo -e, nos bares da América ou nos botequins do Brasil, suspiramos pelos nossos cafés e pela nossa paisagem carregada de história e de passado", diz João Pereira Coutinho no "Diário de Notícias".
      E é em ritmo europeu que vou descendo a pé até o Cais do Sodré para pegar o comboio e visitar Belém. Ali próximo aos Jerônimos, ergue-se a nova sede do Museu Nacional dos Coches, obra, ainda a ser inaugurada, do nosso arquiteto Paulo Mendes da Rocha. O Brasil está sempre a passar por aqui, com sua face ora moderna, ora ameaçadora, ora enigmática.
      "Alguma coisa vai mal no Brasil, depois de um período de grande expansão e desenvolvimento, devido em grande parte aos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva", escreve Mário Soares num artigo de jornal. "Mas não creio que sejam da responsabilidade de Dilma Rousseff as dificuldades do Brasil atual", pondera a seguir. O que haverá então? "Os países têm dessas mudanças"
      Certo é que por aqui, sob a superfície alegre dos dias de verão, a crise econômica continua a assustar. Pequenas melhorias no horizonte parecem ainda longe de afugentar o fantasma dessa grande depressão que Soares compara aos dias terríveis da Alemanha de Bismark, "quando Hitler surgiu e ninguém esqueceu os horrores da Grande Guerra".
      O pacote de austeridade vai fulminando políticos sem apresentar os resultados prometidos. O desmanche do Estado de Bem-Estar segue seu curso e o desemprego assombra a juventude.
      Nos cafés do grande auditório do Centro Cultural Belém um só funcionário faz o caixa, tira o expresso e serve no balcão. A fila da paciência. E é noite de plateia lotada: Devendra Banhart apresenta seu novo CD acompanhado de Rodrigo Amarante. "Obrigado por esta língua linda e boa de cantar que vocês nos deram", agradece o carioca barbudo, ex-Los Hermanos, que abre o show e segue na guitarra acompanhando o popstar americano.
      Sim, a viagem é também pelo idioma, a nossa última flor do Lácio, inculta e bela, a um tempo esplendor e sepultura -como cantou Bilac. Minha pátria é minha língua, e aqui nossas fronteiras se expandem em palavras lembradas, esquecidas ou intuídas. Outras maneiras de falar, modos ao mesmo tempo estranhos e familiares de nomear as mesmas coisas. A casa de banho, a camisola do jogador de futebol, a bica na esplanada da Brasileira.
      Lisboa revisitada é sempre uma comoção, um redescobrir a si mesmo, um perder-se em espelhos.

        segunda-feira, 22 de julho de 2013

        Marcos Augusto Gonçalves

        folha de são paulo
        Retrato de Paulo Prado
        Está saindo a edição ampliada de 'Tietê, Tejo, Sena', excelente livro sobre o mecenas da Semana de 22
        "Numa terra radiosa vive um povo triste."
        A bela frase, que abre o "Retrato do Brasil", de Paulo Prado, parece nos convidar a uma fábula. E é, de certa forma, o que faz. O ensaio, publicado em 1928 por esse paulista incomum, está longe de ser uma explicação aceitável para a formação da sociedade brasileira. Mas é um interessantíssimo retrato de como se poderia fazer um retrato do Brasil na São Paulo daquela época.
        O esforço de Paulo Prado em penetrar "a selva escura da história do Brasil" tinha raízes familiares e intelectuais, nas figuras de Eduardo Prado e de Capistrano de Abreu. O primeiro era seu tio. Monarquista como o amigo Joaquim Nabuco, morou em Paris, e era íntimo do escritor português Eça de Queirós. Capistrano, historiador, auxiliou Eduardo em pesquisas sobre temas da história brasileira.
        Paulo Prado cresceu no ambiente endinheirado e aristocrático de sua família, cuja história está ligada à ascensão de São Paulo como grande força econômica e política, em finais do século 19.
        Fiador da Semana de Arte Moderna na elite paulista, procurou, nas primeiras décadas do século 20, acrescentar ao protagonismo emergente de São Paulo uma camada cultural que o projetasse como destino nacional.
        Está chegando às livrarias "o" livro para conhecer a obra desse personagem fascinante e suas conexões biográficas ou históricas. Chama-se "Tietê, Tejo, Sena" (Editora Unicamp) e foi escrito pelo professor Carlos Berriel. A primeira edição, fruto de uma tese de doutorado defendida em 1994, saiu em 2000. Agora, volta revista e ampliada.
        Foi de Ruy Castro que recebi a dica do livro, quando começava a pesquisar para escrever sobre a Semana de 1922. Dica generosa e certeira. Na contracapa da nova edição, Ruy diz que foi o melhor livro que ele leu sobre São Paulo na primeira metade do século 20 --e sobre a Semana. Eu também.
        Tive a oportunidade de entrevistar o autor na Unicamp, àquela altura mais afastado do tema, dedicando-se ao estudo das utopias.
        Tanto melhor que o relançamento venha num momento em que a obra de Paulo Prado já se tornou bem mais encontrável, graças às reedições organizadas por Carlos Augusto Calil.
        Neto de dona Veridiana e parente daquelas ruas todas de Higienópolis, Paulo Prado também morou no bairro. Os almoços no casarão da avenida Higienópolis, que já não existe, foram frequentados pelos jovens modernistas, "adotados" por ele, um cinquentão culto, fino e, segundo Mário de Andrade, pessimista. Homem de negócios, colecionador e mecenas das artes, sua atividade intelectual tornou-se mais intensa a partir de 1918, quando tinha 49 anos.
        O esquema explicativo do Brasil desenvolvido por Paulo Prado, a partir de ideias de seu tio e de Capistrano de Abreu, recorria a teses racialistas e reservava a São Paulo um papel singular.
        Em linhas gerais, os paulistas originais eram filhos "do cruzamento do forte sangue português quinhentista" (e de outros europeus) com os índios. Isolados pelo planalto, os tenazes mamelucos foram preservados da degradação litorânea e da miscigenação com africanos.
        Depois de um longo período de decadência, esse povo, que nos dera os bandeirantes (e, portanto, as amplas fronteiras do país), regenerava-se com o ciclo do café e reconhecia sua vocação para exercer a liderança econômica e intelectual na terra radiosa onde vivia um povo triste.
        A alegria ainda não era a prova dos nove.

        segunda-feira, 8 de julho de 2013

        Marcos Augusto Gonçalves

        folha de são paulo
        A violência esquecida
        Que relação haveria entre o assassinato brutal do menino boliviano e a truculência nos protestos?
        Era noite junina, a fogueira ardia na praça da Vila Madalena, a sanfona tocava bailinho, músicos se revezavam ao violão, o quentão circulava com seu cheiro de gengibre e a prosa do arraial, claro, não poderia ser outra. As manifestações, a aparição dourada e marqueteira da presidente na TV, as tentativas de entender o que estava se passando.
        Repetiam-se as dúvidas e as hipóteses conhecidas, quando alguém, considerando que as coisas no Brasil estavam piores do que a propaganda oficial tentava fazer crer, citou o assassinato de um menino boliviano, em São Paulo, que tinha ocorrido naquele dia.
        Talvez fosse forçar um pouco a barra trazer para a conversa sobre as insatisfações difusas das ruas o crime bárbaro contra uma criança indefesa, filha de estrangeiros pobres explorados por nosso subimperialismo sorridente.
        Mas talvez não fosse.
        Primeiro, porque não se trata de um caso isolado. Presenciamos uma sinistra escalada criminosa. Vítimas de assaltos são incendiadas, pessoas desarmadas são mortas no meio da rua. Depois, porque foi um aspecto importante, presente do início ao fim nas manifestações, tanto com as agressões dos chamados vândalos ("alguém precisa fazer uma letra de música com essa palavra", sugeri a amigos compositores no arraial) tanto com a intervenção desproporcional da polícia em São Paulo, um ponto de inflexão na dinâmica das ruas.
        Como notou o sociólogo Luiz Eduardo Soares, as movimentações embora não apresentassem uma plataforma unificada, mantiveram uma conexão metonímica com algumas questões centrais para o Brasil. E uma delas certamente é a violência.
        A presidente Dilma Rousseff, contudo, em sua tentativa canhestra de responder ao que acha que ouviu das ruas esqueceu o assunto. Normal. Entra governo, sai governo, as políticas públicas nessa área vão se arrastando ao sabor de medidas parciais, no plano estadual.
        Os números são enfáticos. Vivemos num dos país que comete 50 mil homicídios dolosos por ano (mais 90% dos quais permanecem sem esclarecimento) e já temos a terceira população carcerária do planeta, atrás de Estados Unidos e China. Pesquisas mostram que os novos presos são na maioria jovens pobres, predominantemente negros, de baixa escolaridade, envolvidos com venda de drogas. Não devem ter conseguido vaga no call center pra trabalhar e comprar uma moto em 72 prestações. Ou não se alistaram na polícia.
        É evidente que a violência tem causas múltiplas, mas um projeto nacional para enfrentá-la tem de prever a reforma das polícias. É preciso mudar o modelo herdado da ditadura e romper a amarra constitucional que praticamente impõe duas corporações concorrentes sob jurisdição estadual.
        Num post no Facebook, do qual compartilho um trecho aqui, Soares levantou a questão, sempre incômoda: "A classe média descobriu a brutalidade policial, que os pobres e negros nunca ignoraram. Polícia tornou-se um dos temas-chave, nas ruas. Por que a presidenta omitiu o debate em torno da mudança do modelo policial, que envolve a desmilitarização, e que vem sendo adiada desde a transição democrática? É urgente estender a transição à segurança pública. O silêncio oficial tem sido cúmplice de milhares de execuções extrajudiciais, de torturas, violações cotidianas, inclusive contra os próprios policiais."

          segunda-feira, 1 de julho de 2013

          Marcos Augusto Gonçalves

          folha de são paulo
          'Que se vayan todos!'
          Insatisfação com governantes mostra que PT perdeu capacidade de se descolar da "política tradicional"
          Na semana passada sugeri que o solo das insatisfações que desfilam pelas ruas do país seria sobretudo o mal-estar urbano --e as respostas, portanto, deveriam partir mais do âmbito local do que da política central. Está claro, entretanto, que a insatisfação difusa catalisada pelo aumento da tarifa e pela violência policial também se dirigiu violentamente contra governos e políticos, como demonstram as pesquisas Datafolha.
          A dúvida é se temos, nesse plano, uma rejeição mais de forma ou de conteúdo. O que se rechaça são partidos e mediações da democracia representativa ou o modo como atuam? Ou ambos?
          A "Economist" dedicou capa na semana passada aos protestos que pipocaram pelo mundo. Para a revista, as manifestações de 2011 guardam entre si muito em comum, da mesma forma que nos anos insurrecionais de 1848, 1968 e 1989.
          Num clima descrito pela reportagem como de "festa e raiva", manifestantes de São Paulo, Istambul ou Sofia estariam juntos no repúdio à corrupção, à ineficiência e à arrogância das autoridades no poder --e isso diz respeito a democracias.
          Como os protestos acontecem em países que adotam diferentes sistemas, o problema parece ser menos de reforma política e mais de fundo: seja qual for o modelo representativo, políticos e partidos perdem identidade, se dissociam das demandas da sociedade e se aferram ao poder.
          No Brasil, o PT surgiu como promessa de mudar o padrão. Mesmo que se discordasse da coloração esquerdista das propostas da sigla, havia no início uma impressão geral de que o discurso contra a "política tradicional" era uma novidade para valer.
          Mas, com a conquista do poder, também o PT esqueceu o que tinha escrito. A "realpolitik" passou a reinar, justificada pela urgência de implementar uma pauta de desenvolvimento e combate à pobreza. E de fato isso ocorreu. O país aproveitou o ciclo mundial favorável, soltou o crédito e cresceu. A oferta de emprego disparou e houve um notável processo de inclusão --menos pela cidadania e mais pelo consumo.
          Ocorre que nesse processo o PT perdeu justamente sua capacidade de se diferenciar da "política tradicional". O partido comprou o apoio dos "picaretas com anel de doutor", andou para lá e para cá com dinheiro na cueca, aliou-se a antigos inimigos e transformou o Estado num assentamento onde lobões, sarneys, collors e calheiros não têm o que temer --e podem continuar tomando conta do galinheiro.
          Falar contra a corrupção tornou-se "udenismo", categoria do tempo do Simca Chambord, e Lula nos explicou que na nossa política "até Jesus teria que se aliar a Judas". Palmas! "O que importa é que somos uma nova potência global", justificavam os militantes.
          Será?
          O tempo passou, os ventos mudaram, a economia esfriou e aumentou a percepção de que ainda estamos muito longe de chegar lá em matéria de educação, saúde, transporte, segurança. As coisas, sim, melhoraram, mas o discurso oficial criou um bônus artificial, aquilo que o sociólogo Fernando Henrique Cardoso chamou de "camada virtual de bem-estar". Como assinalou com humor o editorial de ontem desta Folha, parece que éramos infelizes e não sabíamos.
          Nesse cenário de descrédito e indiferenciação, prevalece o sentimento que se manifesta no famoso slogan: "Que se vayan todos!"

            segunda-feira, 24 de junho de 2013

            Marcos Augusto Gonçalves

            folha de são paulo

            A revolta da cidade



            Embora não se possa descartar que fatores políticos e econômicos tradicionais, como o aumento da inflação e o desgaste dos governos, tenham atuado na eclosão das manifestações, o berço dos protestos é o mal-estar na cidade. É sobretudo no processo selvagem e precário da urbanização brasileira que se deve buscar a origem da insatisfação difusa que tomou as ruas.
            A cidade é o palco onde a vida transcorre e as contradições se materializam. É no trânsito bloqueado e na viagem diária de quatro horas de busão para ir e voltar do trabalho que a ineficiência do Estado deixa de ser um tema abstrato --ou um slogan de empresários-- para apresentar-se em sua cruel concretude no cotidiano das pessoas.
            E o mesmo vale para o mau atendimento nos hospitais e postos de saúde; para a escola que não ensina; para a favela que não se saneia; e para o faroeste estúpido da insegurança pública.
            São situações que de maneira diferente afetam a todos, inclusive os felizes beneficiados pela ascensão social dos anos Lula. Neguinho já comprou TV de plasma e smartphone, mas a vida de neguinho não é só isso. Neguinho quer mais.
            Na procura por alternativas, a lógica e as mediações tradicionais nos levariam rumo à estação da política institucional --cujo ponto final é o terminal Brasília.
            Não creio, porém, que as demandas das ruas possam ser absorvidas ou equacionadas por uma pauta política de tipo federal. A resposta não é reforma política ou tributária. É preciso encurtar as mediações e buscar arranjos locais para encontrar soluções factíveis para os problemas reais --mesmo que em nenhuma hipótese elas venham da noite para o dia.
            Não, não estou aderindo à perspectiva autonomista radical do Movimento Passe Livre, ao repúdio à democracia representativa em nome de uma utopia coletivista "horizontal". O que estou dizendo é que parece possível encontrar novas formas de articulação local para decidir sobre os problemas das cidades --e depois encaminhar as demandas, se for o caso, às esferas que se mostrarem necessárias.
            Esses arranjos não partidários por certo se politizariam no debate das questões específicas, mas deveriam evitar de antemão a surrada disputa do tipo "petralhas x demotucanos" --que, aliás, tomou uma merecida surra da massa.
            No transporte, por exemplo, decisões relativas à expansão do metrô, à modernização dos trens ou aos corredores de ônibus, que dependem de investimentos do Estado e da prefeitura, precisam ser tomadas de modo coordenado, com debate e participação direta dos cidadãos.
            Vai nessa direção um documento da organização Rede Nossa São Paulo, que sugere a criação de um conselho municipal para consolidar as propostas em debate com vistas à formulação de um plano de mobilidade urbana na capital. A ideia é que as opções sejam apresentadas e o modelo final definido por referendo.
            É uma iniciativa que ampliaria a participação direta em tema crucial para o cotidiano da cidade, evitando que a decisão final ficasse nas mãos (ou nos bolsos) de parlamentares capturados pelo lobby das empre$as --uma das razões evidentes do desprestígio das instâncias representativas nos protestos. Claro que caminho análogo poderia ser seguido em outras áreas.
            Enfim: imaginação no poder, reconfiguração da cidade, mais ação e menos blá-blá-blá.
            marcos augusto gonçalves
            Marcos Augusto Gonçalves, 55, é editorialista e repórter da Folha. Escreveu o livro "1922 - A Semana Que Não Terminou" (Companhia das Letras).

            domingo, 23 de junho de 2013

            Referências visuais dos protestos extrapolam repertório típico da esquerda

            folha de são paulo
            PAULO WERNECK
            SILAS MARTÍ
            DE SÃO PAULO

            Eles saíram do Facebook, mas o Facebook não saiu deles. Nos protestos da guerra das tarifas em São Paulo, não foram poucos os cartazes que ostentavam o polegar arrebitado do "curtir" da rede social de Mark Zuckerberg. Também não faltaram palavras de ordem atreladas ao "#", símbolo usado para indexar assuntos do momento no Twitter.
            O caldeirão cultural que alimenta os protestos mistura política e publicidade, heróis da Marvel, Maio de 68 e poesia concreta. E a surrada máscara de "V de Vingança".

            Mesmo que não tenham forjado ainda uma estética nítida, os atos nas ruas juntam referências visuais que extrapolam o repertório típico das manifestações de esquerda.

            Protesto ilustrado

             Ver em tamanho maior »
            Victor Moriyama/Folhapress
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            A estética dos pôsteres russos dos anos 1920 inspirou este cartaz
            Com o automatismo de uma "curtida" no Facebook, manifestantes nas ruas do país se apropriaram do slogan de uma marca de uísque -"o gigante acordou"- e do jingle de um anúncio de carro -"vem pra rua, vem".
            O artista Stephan Doitschinoff viu na ação "um tipo de sabotagem" por parte dos manifestantes. "Eles hackearam uma peça publicitária para tentar fazer um bem maior", afirma. "De repente as marcas não podem mais usar esses slogans porque estão associados a atos de transgressão."
            Só que não. Depois do protesto, a TV já exibia o comercial da Fiat -"quem mais entende de rua"-, turbinado pelas imagens dos protestos.
            Doitschnoff, o galerista Baixo Ribeiro, o chef Alex Atala, a roqueira Pitty e amigos protestaram brandindo cartazes feitos à mão na galeria Choque Cultural, de Ribeiro.
            "Chamei uns amigos que têm caligrafia boa e fizemos", conta Doitschinoff. Como emblema, criaram o "V de Vinagre", em referência ao tempero que supostamente reduz os efeitos do gás lacrimogêneo, para estampar cartazes e o avental de Atala. O chef só respondeu ao pedido de entrevista com uma palavra: "Paz".
            Na mesma pegada do "faça você mesmo", uma gráfica da região central de São Paulo convocou manifestantes pelo Facebook a enviarem seus cartazes para que fossem impressos e distribuídos nas ruas. Os mais de 300 trabalhos recebidos confirmam que o cartaz ainda tem cartaz, mesmo em tempos de redes sociais.
            "Logo que abri para as pessoas mandarem seus cartazes, tivemos mais de 7.000 'curtir' no Facebook", diz Beto Galvão, da Meli-Melo. "Depois, vi que esses mesmos desenhos estavam sendo copiados por todas as partes."
            Uns trabalhos chegam a emular as vanguardas soviéticas, como um cartaz que põe o grito "vem pra rua" na boca de uma figura lembrando a garota de uma colagem de Aleksandr Ródtchenko, o fotógrafo morto em 1956.
            Outros revisitam a estética do construtivismo paulista com versos diagramados segundo a lógica espacial da poesia concreta.
            CHAVE TECNOLÓGICA
            Nas manifestações do início da semana, entre cartazes mais e menos elaborados, prédios do largo da Batata recebiam projeções pedindo em chave tecnológica "passe livre já".
            Solange Farkas, diretora do festival Videobrasil, que estava na concentração do largo da Batata, viu nas projeções um avanço em relação à estética "pueril" das manifestações nas ruas do país.
            "Essas palavras projetadas usam o próprio espaço da cidade como plataforma poderosa de comunicação", diz Farkas. "Não é só bonito, é esperto e inteligente, uma boa estratégia num universo ainda sem grande força visual."
            Nesse ponto, a web tem mais força. Reagindo à violência policial que marcou alguns atos, os publicitários Alessandro Trimarco e Paulo Eugênio inseriram super-heróis sobre imagens dos conflitos feitas pelos fotógrafos Arthur Lopes e Ig Aronovich e publicaram no Tumblr Poder e Responsabilidade.
            Nas imagens, balas de borracha ricocheteiam no peito do Superman. O Capitão América enfrenta a tropa de choque e Thor escala a rampa do Congresso Nacional.
            "A ideia veio de ver como os policiais tratavam a população com violência", diz Trimarco. "Os quadrinhos surgiram em momentos bem conturbados da política."
            Mas, mesmo turbinados por redes sociais, é na rua que os atos ganharam força, numa fusão entre digital e asfalto.
            "Queríamos algo de impacto para a passeata", diz Alexis Anastasiou, do grupo VJs pela Paz, que fez as projeções no largo da Batata. "As manifestações estão sendo ensaiadas nas mídias sociais há muitos anos, e agora é que esse foco também está migrando para as ruas e avenidas."
            Editoria de Arte/Folhapress
            ESTÉTICA DA APROPRIAÇÃO
            ESTÉTICA DA APROPRIAÇÃO
            ANÁLISE
            Atitudes e estilos vistos nas ruas revelam sentido do movimento
            MARCOS AUGUSTO GONÇALVESCOLUNISTA DA FOLHAA "estética" predominante nos protestos que tomam as ruas de São Paulo e de outras cidades brasileiras não é mais a da estrela vermelha e foice e martelo.
            Se há bandeiras de partidos com a tradicional cor socialista, como as do PSTU, elas têm sido alvo de reiterados protestos por parte dos próprios manifestantes.
            Nem mesmo Che Guevara, a imagem mais estetizada da mitologia revolucionária de esquerda, tem dado as caras nas manifestações.
            Seu rosto barbudo foi trocado pela pele de plástico de Guy Fawkes, consagrada em 2011 pela turma do #occupy. A máscara foi criada pelo desenhista David Lloyd, da HQ "V de Vingança", que virou filme em 2006 --e foi lançada em protestos em 2008 pelo movimento hacker Anonymous, contra a Igreja da Cientologia, nos EUA.
            É um sinal dos tempos e do perfil autonomista que ideólogos do Movimento Passe Livre procuram imprimir às novas manifestações.
            MOSAICO
            Embora na maior parte formadas por gente de classe média (certo, professora Marilena?), as passeatas congregam tribos diferentes, num mosaico de estilos, que tem muito da forma da indignação globalizada, desde os confrontos contra a polícia em cúpulas de chefes de Estado até os jovens das praças no mundo islâmico.
            Mesmo que o "anticoxismo" seja uma bandeira forte no quesito atitude, deu para ver até alguma "playboyzice", ao menos no "happening" da última segunda-feira, na Brigadeiro Faria Lima.
            Na outra ponta, a turma do quebra-quebra faz lembrar os caras que incendiaram as periferias de Paris, em 2005.
            E também o visual bandido das facções do tráfico ou de hooligans do futebol, com camisetas e panos amarrados para tapar o rosto. É a ala "seja marginal, seja herói" do movimento.

              segunda-feira, 17 de junho de 2013

              Marcos Augusto Gonçalves

              folha de são paulo

              Viva a vaia
              'Não é só a tarifa, estúpido', pensei comigo enquanto acompanhava a manifestação na quinta no centro da cidade
              No começo pareceu-me mais um fato estético. Uma espécie de performance que procurava mimetizar a coreografia dos movimentos jovens no mundo islâmico e das manifestações anticapitalistas dos anos 2000. Tinha dúvida se um aumento de R$ 0,20 nas tarifas seria forte o bastante para justificar passeatas e o ânimo radical dos manifestantes. Pensei que tudo se resumiria a um simulacro ruidoso, fadado a evaporar no asfalto da cidade.
              Outras marchas vieram e eis que na quinta-feira fui ver ao vivo. Acompanhei a manifestação da praça da República à rua Maria Antonia. Jovens de classe média misturados com gente das ruas, manos, punks, rastas e alguns pichadores da perifa, na bronca.
              Chamou-me a atenção o tom bem-humorado (ufa!) de alguns manifestantes e seus cartazes.: "Ô burguesia, não se assuste não, é só um protesto contra o aumento do busão"... Uma amiga contou que colegas da escola da filha dela mandaram essa: "Que vergonha, busão mais caro que maconha". "Como é bom ser jovem", teria comentado a avó prafrentex ao saber da história.;)
              E a marcha seguia, transpirando vitalidade. Vontade de manifestação. E bombas de gás sexy no ar.
              Não é só a tarifa, estúpido, pensei comigo. É uma "manifestação-ônibus", que carrega muitas causas (talvez nem por inteiro formuladas) e catalisa a insatisfação difusa que se sente no ar.
              A vaia, baby. Viva a vaia.
              Sim, tinha gente a fim de barbarizar, tacar fogo e mandar spray em agências bancárias. O "vandalismo", afinal, existe no dia a dia da cidade. Não é novidade. Quem acompanha futebol, por exemplo, sabe que o pau quebra quase que semanalmente. Vi manifestantes tentando conter os mais afoitos. E um dos coros que se repetia era "sem violência, sem violência".
              Mas no meio do caminho estava a tropa. E começou a batalha campal. O jornalista Elio Gaspari relatou nesta Folha o que eu vi. Bloqueio sem nenhum sentido na Maria Antonia, a fim de deflagrar o confronto --o que, aliás, faz parte do enredo de manifestações desse tipo desde sempre.
              O que me parecia um fato estético, já se tornou um fato político, com repercussões --e adesões-- mais amplas do que se poderia inicialmente supor. O anestesiamento dos protestos por parte do PT, que virou o PRI brasuca, está rompido. Vazou.
              Tentou-se, como de costume, enfiar a novidade no debate ideológico sem imaginação que se trava na blogosfera e na mídia. As mentes binárias que explicam tudo com meia dúzia de certezas de direita ou de esquerda.
              Os "progressistas" tentaram livrar a cara do prefeito e por toda a culpa na imprensa e na PM tucana. E os neocons começaram a repetir, nervosinhos, suas aborrecidas aulas de moral e cívica. As manifestações seriam atos de vândalos esquerdistas equivocados que só serviam para quebrar vidraças e atrapalhar a fluidez do trânsito. Lembrei-me de "Construção": "Morreu na contramão atrapalhando o tráfego".
              Bem, se há alguma coisa de estrutural que atrapalha o "direito de ir e vir" em São Paulo é a precariedade do transporte público e o incentivo de sucessivos governantes ao uso do automóvel. Ou será que a solução é construir um "Manifestódromo" fechado com patrocínio de uma marca de cerveja?
              PS-- Nos vemos hoje no largo da Batata, baby?

                segunda-feira, 10 de junho de 2013

                Marcos Augusto Gonçalves

                folha de são paulo
                Passe livre
                Pressionar a área de transporte é salutar, mas o maior problema não é o valor das tarifas
                A garota pegou o trem na estação Sumaré, entrou, procurou um assento com os olhos, hesitou por um instante, e acabou sentando-se num banco lateral, perto de onde eu estava. À nossa frente, num quadro vazio, feito para cartaz de publicidade, uma pichação reclamava do aumento da tarifa.
                Como se sabe, governo tucano e prefeitura petista se acertaram para alinhar as passagens de ônibus e metrô em R$ 3,20 --num percentual, diga-se, abaixo da inflação. A medida gerou uma onda de protestos capitaneada pelo Movimento Passe Livre.
                A garota sorriu quando viu a pichação. Sacou um tablet da bolsa e tirou uma foto. Descemos juntos na estação Consolação. Pensei em falar alguma coisa, mas ela saiu apressada e sumiu na esteira rolante apinhada de gente, a caminho da linha amarela. Será que ela era do MPL?
                Não sei, mas me lembrei das meninas que conhecia nos tempos de movimento estudantil, quando exigíamos zero de aumento nas mensalidades da PUC, queríamos ensino gratuito para todos e acreditávamos que pedir liberdades democráticas era um desvio burguês, já que a ditadura seria derrubada para dar lugar a um governo de transição para o socialismo.
                O movimento estudantil tem grande capacidade de irritar os adultos, mesmo aqueles que no passado fizeram parte dele. É que boa parte dos estudantes universitários estão naquela situação invejável da criança crescida, que ainda não é inteiramente responsável por sua vida. Ganha dinheiro da família, usufrui de benefícios públicos, tem um engajamento frouxo --quando tem-- com a esfera da produção e acredita que pode consertar o mundo com meia dúzia de clichês irrealistas de esquerda.
                Também irrito-me às vezes com tudo isso, mas tendo a ser tolerante. Não apenas porque são situações que fizeram parte de minha própria formação, mas porque acredito que faça bem à sociedade a existência de instâncias que se mobilizam por reivindicações utópicas --ou que assim possam parecer.
                Depredações e vandalismos à parte, não creio que faça mal a São Paulo a existência de um movimento que pressione a área de transporte. É verdade que de anos para cá houve ampliação, melhoria e modernização da rede, mas estamos muito aquém de atender às exigências de quem precisa se deslocar por essa megacapital da imobilidade urbana. O aumento da tarifa é sempre uma boa oportunidade para protestar. No mínimo pode-se dizer que o serviço não vale o preço do bilhete.
                É um argumento, mas na realidade o maior problema não está no valor tarifa, e sim nas condições de oferta. Ou seja, não é bilhete menos alto que vai resolver, mas investimento em novas linhas, na redução do intervalo entre os trens e na construção de novos corredores de ônibus. Subsidiar tarifa é, em tese, possível, mas significa retirar dinheiro de outras áreas. E da própria expansão do sistema. Detesto dizer isso, mas não tem almoço grátis.
                Já que os nossos militantes do Passe Livre estão dispostos a protestar, poderiam ter uma pauta menos elementar e pressionar governo e prefeitura para que mexam o traseiro e ampliem as linhas de metrô, modernizem as de trem, abram novos corredores, ofereçam ônibus automáticos que não andem aos saltos e eliminem a catraca humilhante que trata passageiro como gado.

                  segunda-feira, 27 de maio de 2013

                  Marcos Augusto Gonçalves

                  folha de são paulo
                  SP contra o crime
                  Aumento da criminalidade e desgaste da linha-dura levam Alckmin a lançar pacote que faz sentido e pode dar certo
                  Embora possa parecer apenas mais um lance de marketing político, com medidas requentadas e duvidosas, o pacote para a área de segurança anunciado na semana passada pelo governador Geraldo Alckmin faz sentido e tem boas chances de dar certo. E seria bom se isso acontecesse.
                  Não se trata apenas de reforçar efetivos e premiar o trabalho policial através de um sistema de metas, ideia que despertou justificadas apreensões. Na realidade, a proposta lançada por Alckmin e pelo secretário Fernando Grella Vieira é mais abrangente e envolve setores relevantes da sociedade --empresários, organizações não governamentais, especialistas e pesquisadores ligados à universidade.
                  O objetivo é reformular conceitos de gestão, redefinir prioridades, aperfeiçoar indicadores e traçar estratégias para mudar a qualidade desse serviço público essencial, que no Brasil costuma ser tratado como guerra.
                  O principal instrumento para dar início à mudança é o convênio firmado entre o governo e o Instituto Sou da Paz, uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) com reconhecidos trabalhos prestados na área.
                  A duração prevista da parceria é de 18 meses, período em que o instituto vai fazer estudos, revisar processos de trabalho e propor prioridades e metas de redução da criminalidade. O Estado não arca com os custos da assessoria, que será financiada por um fundo liderado por empresários de peso, como Beto Sicupira.
                  Além da própria polícia, o processo também vai mobilizar outras entidades, como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Instituto São Paulo Contra a Violência e a Fundação Seade, que deverá fazer uma revisão das estatísticas.
                  Nessa linha, há uma semana, o governo publicou uma resolução no "Diário Oficial" que cria uma câmara setorial para definir nova política de pesquisas, indicadores e informações. A ideia é instituir mecanismos que melhorem a qualidade dos números e evitem manipulações. É uma tentativa de assegurar que o sistema de metas para bonificar o desempenho da polícia não vá degenerar em falsificações.
                  Sabe-se que o governador paulista, pelo menos em matéria de segurança, não faz jus ao seu apelido de picolé de chuchu. Não tem nada de insosso. É um notório linha-dura, a favor da redução da maioridade penal e de tratar bandido com o chamado "vigor policial".
                  O problema é que o acirramento dos confrontos entre polícia e criminosos no último ano virou selvageria e escapou do controle. O aumento persistente da criminalidade poderia pôr a perder um esforço elogiável de 12 anos de queda da taxa de homicídios no Estado --ainda hoje, apesar de tudo, a menor do Brasil.
                  Costuma-se dizer que é mais fácil conservadores implementarem políticas "liberais" --e vice-versa. Não que o "São Paulo contra o Crime" (essa é a marca do programa) vá promover metodologias experimentais e arriscadas. Ao contrário, é uma linha racional e sensata --a que resta seguir.
                  Para obter um novo ganho de eficiência, a segurança pública de São Paulo precisa de reformulações. As resistências existem e continuarão a existir. É a regra do jogo. Mais ainda com eleições se aproximando.
                  Mas o fato é que a receita anterior parou de funcionar e a violência disseminou-se, não apenas com o aumento dos homicídios (que foi interrompido, aliás, em abril), mas de outros tipos de crime. Por todos os motivos, é hora de partir para outra.

                  segunda-feira, 20 de maio de 2013

                  Marcos Augusto Gonçalves

                  folha de são paulo

                  Madrugada no centro
                  É uma experiência fascinante ver a cara de SP na noite sem fim da Virada, apesar da violência nossa de cada dia
                  "Vamos ficar mais um pouco, ainda vai ter Elza Soares e Gaby Amarantos!", arriscou uma amiga, na madrugada de ontem, depois de termos assistido ao funk de George Clinton no palco Júlio Prestes da Virada Cultural -e passado por uma balada eletrônica montada num buraco da cracolândia. Estávamos numa turma disposta e, além do mais, turbinada pela energia dionisíaca do artista carioca Ernesto Neto, que veio inaugurar uma mostra de desenhos na cidade.
                  "Que horas vai ser a Elza?", perguntei, desligado do relógio. "Às seis", disse-me a amiga. "Às seis?!", quer dizer então que já são....
                  Sim, já passavam das 5h de domingo, sentia-me um zumbi e a massa continuava a transitar para lá e para cá pelas ruas do centro. Manos, minas, bibas, bobos, bêbados, pretos, brancos, mulatos, morenos, orientais, perifas, playboys, polícia, nóias. A paisagem humana e desumana de São Paulo desfilando na avenida.
                  Não é sempre que se pode ter uma experiência como essa, de ficar cara a cara com a cidade e caminhar de madrugada por aquela região, degradada, mas também pulsante, com suas referências históricas, seus belos marcos arquitetônicos e sua fascinante bizarrice. A Luz, a Pinacoteca, a Júlio Prestes, os edifícios modernistas, os cortiços... São Paulo, comoção de muitas vidas.
                  Mas ninguém em sã consciência imaginaria que um acontecimento desse tipo fosse transcorrer sem tensão e conflitos. Se um show está marcado para começar às 6h, o que esperar na plateia? Pessoas que foram dormir cedo para acordar atleticamente às 5h e chegar tinindo à Júlio Prestes? Ou gente que desde cedo já estava pilhada para virar a noite e se entregar à balada?
                  Eram ainda 14h quando fui à Sé de metrô para ver, na Caixa Cultural, a exposição do poeta multimídia Walter Silveira. E já havia àquela hora (quatro antes do início da programação de shows) um grupo de rapazes e moças tirando fotos no trem com uma garrafa de vodka vagabunda pela metade e canecas nas mãos.
                  O fato é que a Virada, ao menos implicitamente, é um um convite oficial a um porre coletivo, como o Carnaval. É aquele fim de semana em que a farra preside a vida. E pelas ruas rola de tudo, do pior álcool à pior droga -o crack, que continua a ser consumido por hordas assustadoras de dependentes, apesar das operações que prometiam "acabar com a cracolândia". "Dependente também é gente", dizia, a propósito, uma pichação que vi num muro.
                  É verdade que a maioria está ali para se divertir, mas nessas condições, excessos e casos de violência tornam-se inevitáveis. A presença do policiamento, embora ostensiva aqui e ali, parece insuficiente. E não seria num evento como a Virada que a rotina de roubos e mortes da cidade magicamente se interromperia.
                  Não é demais lembrar que no primeiro trimestre do ano os homicídios no centro da cidade passaram de 14 para 25 casos, em comparação com 2012. E nesses 90 dias, apenas nos distritos da Sé e de Santa Ifigênia, foram registrados mais de 1.600 roubos.
                  O saldo de crimes do evento, portanto, não surpreende. É uma pena, porque muita gente vai pensar três vezes se vale a pena arriscar na próxima. Talvez seja o caso de rediscutir o formato, os horários e a atuação da polícia na Virada, mas bom mesmo seria viver numa cidade e num país menos propensos à violência.

                    segunda-feira, 13 de maio de 2013

                    Marcos Augusto Gonçalves

                    folha de são paulo

                    Novos gringos
                    Ouve-se com mais frequência gente falando outras línguas em São Paulo, que já foi uma babel de imigrantes
                    No parque, no supermercado, no shopping, nas ruas. As vozes ao redor falam com mais frequência línguas estrangeiras ou estou ouvindo coisas? Embora nas estatísticas do IBGE o número de residentes nascidos fora do país decline no Estado de São Paulo, outros dados e situações confirmam a sensação de que há mais estrangeiros em circulação.
                    Cresce, por exemplo, a concessão de vistos de trabalho para gringos qualificados no Brasil. No ano passado, foram 73.022 autorizações, sendo 64.682 temporárias e 8.340 permanentes. Nos últimos três anos, vistos para profissionais com vínculo empregatício aumentaram 137%.
                    Com a crise na Europa, a presença de turistas portugueses e espanhóis caiu, mas engrossou o fluxo dos que vêm de lá em busca de trabalho. São Paulo, com sua relevância econômica, recebe grande parte desses novos imigrantes. Isso sem falar nos ilegais, que não vão a shoppings e lugares badalados, mas fazem parte da paisagem do centro da cidade, onde come-se num bom sujinho peruano instalado ao lado de um correlato árabe.
                    E só faz florescer a Little Africa, que há anos se instalou no pedaço com seus bares, restaurantes e figuras que parecem ter nascido com celulares colados nas orelhas.
                    Ultimamente os haitianos passaram a fazer companhia aos africanos, latino-americanos e asiáticos. Na semana passada, cerca de cem deles foram obrigados a abandonar, por decisão judicial, um prédio que se tornara uma espécie de "república" comunitária, onde viviam de pedreiros a sociólogos.
                    Se o Rio de Janeiro é o principal destino de turismo de lazer do país, não é demais lembrar que São Paulo recebe mais visitantes.
                    Não, obviamente, pelo balançado da garota dos Jardins, mas por possuir os principais aeroportos, ser o centro financeiro e industrial e ter uma agenda gigantesca de eventos de negócios -com uma oferta cosmopolita e boa de restaurantes, programas culturais e night.
                    Em 2012, desembarcaram em São Paulo 2,1 milhões de visitantes estrangeiros; no Rio, 1,2 milhões e no país, 5,8 milhões.
                    Diante do aperto no mercado de trabalho, o governo federal está se mexendo para facilitar e incentivar a imigração de profissionais estrangeiros. Faltam médicos, engenheiros, técnicos. O que faz lembrar os tempos em que São Paulo assumiu a liderança da importação de mão de obra europeia, na passagem do século 19 para o 20.
                    A importação de força de trabalho foi durante anos organizada por empresas, como a Sociedade Promotora de Imigração, que atendia diretamente aos interesses dos produtores de café, como a família Silva Prado. Os imigrantes eram selecionados, transportados, hospedados e encaminhados às fazendas.
                    Com a urbanização da capital e o florescimento da indústria, o fluxo explodiu e a cidade, que crescia vertiginosamente, tornou-se uma pequena babel. Falava-se italiano por todos os lados, o francês era obrigatório nas famílias educadas, e ouvia-se pela ruas gente conversando em árabe, hebraico ou alemão.
                    A perspectiva de que mais estrangeiros venham para cá faz pensar em quanto ainda estamos despreparados para recebê-los, em termos de infraestrutura, educação e informação. Dá para imaginar o que deve sofrer um gringo desenturmado em São Paulo?

                      Lei da televisão por assinatura criou safra de canais nacionais nanicos e fartos de assinantes

                      folha de são paulo

                      Tv dentro da tv
                      Lei da televisão por assinatura criou safra de canais nacionais nanicos e fartos de assinantes
                      FERNANDA REISDE SÃO PAULOKEILA JIMENEZCOLUNISTA DA FOLHA
                      Parte da safra de canais nacionais surgida após a aprovação da nova lei da TV paga (lei 12.485/11), o Curta!, assim como seus pares, nasceu com estrutura enxuta, mas dentro da programação de operadoras com milhões de assinantes.
                      O Curta! tem 15 pessoas na equipe, que trabalha freneticamente em sua sede, no Rio.
                      A regra, segundo o diretor Júlio Worcman, é: ninguém tem uma só função. Programadores são também apresentadores. E editores atualizam páginas em redes sociais e atendem à imprensa.
                      Mesmo escondido no número 113 da Net, o canal caiu no gosto dos cinéfilos com uma programação de curtas e longas nacionais dificilmente exibidos na TV.
                      No Curta! não se vê sucessos de bilheteria do momento, mas pode-se topar com documentários da década de 1970 --como "Meu Nome É Gal"-- e curtas dos anos 1980.
                      Criado com investimento de R$ 2,4 milhões para licenças de exibição de conteúdo e de "mais um tanto", nas palavras de Worcman, em equipamento, o canal estreou em novembro do ano passado.
                      O empreendimento tem um braço na internet: o site Porta Curtas, que reúne quase 8.000 curtas desde 2002.
                      Questionado sobre a audiência do canal, Worcman ri e devolve: "Você é quem poderia me dizer". Sem acesso aos dados do Ibope ("Nem vi os preços ainda", diz), ele monitora a repercussão dos programas nas redes sociais.
                      A nova lei da TV paga determina que, a cada seis canais estrangeiros (como Fox e Disney), pacotes de TV disponibilizem um canal brasileiro que exiba, em horário nobre, três horas e meia semanais de conteúdo nacional qualificado (leia ao lado).
                      BOOM DE BRASILEIRO
                      Com esta nova demanda das operadoras, houve um boom de canais brasileiros deste tipo credenciados pela Ancine (Agência Nacional do Cinema).
                      No polo oposto do cardápio de canais criados na esteira da nova lei está o Arte 1.
                      O canal de artes e cultura do Grupo Bandeirantes só saiu do papel --com investimento de R$ 10 milhões e apenas 30 pessoas na equipe-- anos após a sua concepção inicial. Foi assediado por operadoras de TV paga, mas nenhuma acenava com espaço definitivo na grade. Após a aprovação da lei, a emissora entrou na Net e na Sky.
                      "Alcançamos a marca de 10 milhões de assinantes, número que superou, e muito, as expectativas. Imaginávamos algo em torno de 2 milhões de assinantes no primeiro ano do canal", conta o diretor-geral, Rogério Gallo.
                      "Estamos nesse momento envolvidos em apresentações comerciais para grandes clientes e agências e a receptividade tem sido excelente."
                      Para Gallo, a classificação de "canal qualificado" foi o pulo do gato do Arte 1. "Se ficássemos nos pacotes premium' das operadoras teríamos, com sorte, 200 mil assinantes", estima.
                      OUTROS CANAIS
                      A lei da TV paga deu o empurrão que faltava para outros canais. Cícero Aragon, diretor dos canais Music e Prime Box Brazil, diz que a ideia de uma emissora voltada para o cinema nacional da última década é de 2005.
                      "Na época, o mercado não era receptivo à iniciativa, e a gente aguardou o momento de isso acontecer", diz.
                      O Prime Box Brazil dedica-se a longas metragens nacionais produzidos a partir dos anos 2000. O Music Box, por sua vez, alterna shows brasileiros com videoclipes.
                      "Pelas redes sociais e pelos movimentos de agências de publicidade interessadas, entramos no radar", avalia.
                      Outro que entrou no ar já com 1,2 milhão de assinantes foi o canal dedicado à pesca, Fish TV. "O mercado brasileiro de pesca esportiva é gigantesco e agora somos procurados pelas operadoras", diz o diretor Luiz Motta.
                      No caminho inverso está a TV Climatempo. O canal de meteorologia nasceu com 500 mil assinantes. Logo, foi para a Sky, pulando para 5 milhões de assinantes.
                      Em agosto de 2012, a Ancine negou à TV o carimbo de canal qualificado e, com isso, ela foi desligado da Sky, que alegou precisar do espaço no satélite para outros canais qualificados.
                      O Climatempo brigou na Justiça, mas não conseguiu reverter a decisão. Desde então, o canal demitiu 70% dos 100 funcionários e ameaça fechar.


                      OPINIÃO
                      Cinema é um território quase inexplorado nos canais de TV paga
                      INÁCIO ARAUJOCRÍTICO DA FOLHAPor incrível que pareça, dada a imensa quantidade de canais de TV paga existente, o cinema ainda é um território inexplorado.
                      É também, por isso mesmo, uma imensa brecha pela qual poderão se infiltrar os canais surgidos em decorrência da nova legislação.
                      O primeiro a se manifestar fortemente foi o Curta!. Desencavou uma série de filmes brasileiros que estavam na prateleira.
                      Trouxe séries de documentários sobre a Segunda Guerra Mundial e, ainda, restituiu ao espectador de TV os magníficos curtas chaplinianos. Há curtas brasileiros na programação também.
                      O certo, indiscutível, é que o espectador de TV paga convive hoje com um repertório a rigor diminuto de filmes reprisados uma quantidade quase infinita de vezes (caso de filmes como "Melhor É Impossível", "A Máfia Volta ao Divã", "Tropa de Elite 2" etc.).
                      Primeiro, eles são exibidos nos canais lançadores (como Telecines ou HBOs) e depois vão para os de segunda linha (Warner, Universal etc.).
                      Passemos pela assombrosa falta de imaginação dessa programação.
                      Há filmes argentinos e chilenos, portugueses e espanhóis, franceses e alemães, turcos e russos. Há o mundo inteiro a explorar e um século de filmes, ou, vá lá, pelo menos uns 80 anos de cinema sonoro.
                      Certo, muitos deles pertencem a acervos como o do TCM, que está se especializando em mostrar filmes em Panavision ou Cinemascope na tela plana, isto é: mostra mais ou menos metade do enquadramento original do filme. Ou seja, ainda: mostra outro filme que não aquele filmado.
                      Quanto ao Brasil, bastaria consultar o acervo da Cinemateca Brasileira (e outras cinematecas) para saber o que existe disponível, consultar os proprietários dos direitos e sair em busca do material.
                      Coisas que o Canal Brasil faz dentro de seus limites, que não são tão largos.
                      Mesmo para quem não queira explorar profundamente a história dessa arte, existe hoje uma produção mundial diversificada, tanto em filmes como em séries e em documentários. Quem correr atrás dificilmente não encontrará o seu público.
                      O Curta! saiu na frente e vai afirmando sua originalidade, mas o que ainda não falta é campo aberto.

                        CRÍTICA ARTE 1
                        Canal dedicado à arte tem filmes, concertos e drinks com Aperol
                        MARCOS AUGUSTO GONÇALVESCOLUNISTA DA FOLHANa expansão fragmentada do universo midiático, provocada pelo big-bang das novas tecnologias, multiplicam-se nichos de interesses em portais, sites, blogs, redes sociais e canais de televisão.
                        O canal Arte 1 é um desses novos astros em formação.
                        Seu público-alvo é a galera da cultura. Ele se apresenta como "o primeiro canal brasileiro com programação de 24 horas dedicada à arte e à cultura". Entre seus garotos-propaganda estão Antunes Filho, Zé Celso, Seu Jorge, Arthur Nestrovski, Arnaldo Antunes, Ruy Ohtake e Isaac Karabtchevsky.
                        Inaugurado em março, procura transitar por uma faixa um pouco mais exigente e especializada, sem descuidar de temas como comida, drinks, moda e decoração.
                        Assim, pode-se assistir ao "Rocco e Seus Irmãos", de Visconti, ou a uma apresentação de Dudamel Rodríguez, e depois, em ritmo de Amaury Jr., acompanhar receitas de drinks com Aperol do dono de uma casa noturna.
                        Mas a programação, de maneira geral, é interessante. O canal tem boas atrações, que recobrem o amplo espectro das artes e espetáculos --dança, cinema, música erudita e popular, teatro, artes plásticas, arquitetura etc. As pautas são com frequência legais (por exemplo, como diretores de cinema representam a passagem do tempo em seus filmes) e informativas.
                        Na contramão, a linguagem não é das mais imaginosas, a marca vocal sustentada pela voz de Salomão Schwartzman é duvidosa e falta um mínimo de perspectiva crítica. Mas dá tranquilo para colocar nos favoritos.

                          quarta-feira, 8 de maio de 2013

                          Lobão "neocon" alimenta debate meia-boca

                          folha de são paulo

                          CRÍTICA - ENSAIO
                          Lobão "neocon" alimenta debate meia-boca
                          "Manifesto do Nada na Terra do Nunca", novo livro do músico, tem bobagens homéricas e algumas boas tiradas
                          LOBÃO, COM SEU FLAMEJANTE OPÚSCULO, PARECE QUERER ASSUMIR O PAPEL DE BANDA DE ROCK DA CONTRARREVOLUÇÃO
                          MARCOS AUGUSTO GONÇALVESCOLUNISTA DA FOLHAAntes de tudo, graças ao rebu midiático, já sabemos de tudo. Lobão, o "rock star" hiperbólico, corrosivo e briguento, volta a atacar em seu novo livro, "Manifesto do Nada na Terra do Nunca".
                          Ataca a MPB, ataca Gilberto Gil, ataca Edu Lobo, ataca Chico Buarque, ataca Ivan Lins, ataca Gonzaguinha; ataca o rap, ataca Mano Brown, ataca roqueiros, ataca Roberto Carlos, ataca as gravadoras e músicos preguiçosos que não entendem de tecnologia de estúdio.
                          Ataca o mundo "agrobrega" e ataca também a Semana de Arte Moderna, a antropofagia e o nacionalismo --o grande mal.
                          Mas a cereja do milk-shake vem mesmo da política: Lobão volta à cena editorial definitivamente "neocon". Bem, na realidade isso também se sabia --afinal, não é de hoje que ele é chamado de "direitista hidrófobo" na internet.
                          Alguém disse, em outros tempos, que o movimento estudantil seria a banda de música da revolução socialista. Lobão, então, com seu flamejante opúsculo, parece querer assumir o papel de banda de rock da contrarrevolução.
                          Ex-petista desencantado, não deixa companheiro em cima de companheiro. De Ernesto Che Guevara, "um dos maiores e inquestionáveis assassinos do século 20", à presidente Dilma Rousseff, que teria "ficha criminal bastante ampla", passando por Lula, pelo cortejo da militância petista, pela Comissão da Verdade e pelos intelectuais de esquerda (os "carolas estatizados"), tem tomate para todo mundo.
                          Com essa dinâmica toda, é claro que o videogame pegaria instantaneamente nas redes sociais. É tiro para lá e tiro para cá.
                          MANIQUEÍSTA
                          "Patrulhas Eletrônicas contra a Ameaça Fantasma" talvez fosse um bom título para esse debate maniqueísta meia-boca que se trava na baixa blogosfera. Tudo isso, evidentemente, é um saco. E é o que o lançamento de Lobão alimenta, não por um desvio da recepção, mas por ter sido feito para isso.
                          É claro que em tais condições o julgamento do livro torna-se mera consequência da inclinação ideológica do leitor. A direita vai levar o autor para o trono, e a esquerda, buziná-lo.
                          PETARDOS
                          Não obstante, alguém dotado de senso de humor, espírito crítico e liberdade para pensar fora da caixa ideológica binária poderá encontrar, ao lado de bobagens homéricas, alguns petardos muito bem disparados, tiradas engraçadas, histórias inesperadas e considerações inteligentes.
                          Lobão faz parte de uma geração de músicos que encontrou no rock uma forma de expressão, numa fase em que o declínio da ditadura militar anunciava novos tempos e a entronização do ideário cultural nacional-popular na nascente Nova República.
                          Para boa parte dos garotos roqueiros daquela época, o intelectual nacionalista de esquerda desempenhava papel semelhante ao de seus antípodas de direita.
                          Ambos, "reaças e comunas", nutriam a mesma precaução careta e xenófoba a respeito de formas culturais "exóticas" --como era visto o rock.
                          Não é demais lembrar que tivemos no Brasil uma passeata contra o uso da guitarra elétrica puxada por supostos músicos "progressistas". Compreensível, portanto, que Lobão volte ao tema do nacionalismo como um problema a ser atacado.
                          Pena que com ideias curtas e esse bocão tão grande.

                            segunda-feira, 6 de maio de 2013

                            Bagunça na praia - Marcos Augusto Gonçalves

                            folha de são paulo

                            Parque Villa-Lobos está melhor e bem cuidado, mas não separa ciclistas e pedestres, que é básico
                            "Que palhaçada essa caxirola, que aplique!" Ia pensando eu, na manhã de quarta-feira, Dia do Trabalho, sobre esse palpitante tema nacional, enquanto caminhava na direção do parque Villa-Lobos, zona oeste de São Paulo.
                            Creio já ter dito aqui que para mim, a verdadeira praia de paulista não é o shopping, e sim o parque. Ok, o shopping é a praia indoor. O parque é a praia ao ar livre.
                            São Paulo tem ganhado mais e melhores parques nos últimos anos. O Villa-Lobos é um deles. Aquela área inóspita, de vegetação rala, que mais afugentava do que convidava as pessoas, mudou bastante. Árvores cresceram, a grama ficou bacana e o lugar está bem cuidado.
                            Para melhorar o pedaço, a avenida Prof. Fonseca Rodrigues, continuação da Pedroso de Morais, que passa em frente ao parque, ganhou uma extensa faixa compartilhada para bike e pedestres no canteiro central. No feriado, além do mais, funcionava a ciclofaixa de lazer.
                            A avenida, com tanta gente esportiva andando e correndo para lá e para cá, me fez lembrar os calçadões da orla carioca. Obviamente sem aquele marzão e aquela natureza toda. Mas estava astral, céu azul, cheio de verde e figuras transadas circulando.
                            O parque Villa-Lobos é a minha praia em São Paulo. Moro perto, vou sempre. As tribos que ali frequentam, se dividem basicamente em gente que caminha ou corre, que patina ou usa skate, que faz piquenique ou leva criança para brincar, e que anda de bicicleta. A dificuldade nos dias mais frequentados está justamente em distribuir esses usos de maneira civilizada e pacífica.
                            O principal problema, por corriqueiro que pareça, é a separação básica entre ciclistas e pedestres. Em tese, seria simples resolver, mas no país da caxirola essas coisas acabam parecendo difíceis. Não gosto da ideia de microcosmos representativos do todo, tipo "o parque como metáfora do país". Mas um pouco, pelo menos, tem a ver.
                            No caso do Villa-Lobos temos o seguinte:
                            1 "" Uma regra ambivalente. O uso exclusivo da ciclovia por ciclistas só é obrigatório nos finais de semana e feriados. Portanto, tem dia que pode andar em qualquer pista e tem dia que não pode. Nas férias escolares, por exemplo, o parque atrai mais gente nos dias de semana ""e as bicicletas disputam espaço com os pedestres em todos os lugares.
                            2 "" Informação e sinalização precárias. Embora conte com uma programação visual tipo bonitinha, a informação sobre o uso da ciclovia é discreta, difícil de ver. E a pista não é bem demarcada.
                            3 "" Falhas de arquitetura nos acessos e nos traçados. Há diversas escadas pelas quais o público entra no parque através da ciclovia! E o traçado do circuito chega ao cúmulo de cruzar de ponta a ponta a principal área de acesso, a do portão principal. Confusão generalizada. Um detalhe: o estacionamento para ciclistas na área do bar fica na pista de pedestres.
                            4 ""Na tentativa de ordenar a bagunça, que poderia ser resolvida com medidas simples, todo um aparato de gambiarras e vigilantes é mobilizado no fim de semana. Não seria preciso nenhum gênio da arquitetura para redefinir os traçados com um mínimo de funcionalidade.
                            Por que, então, isso não é feito? Será um problema só do Villa-Lobos ou a dificuldade para resolver questões simples de maneira objetiva faz parte, em sentido mais amplo, de nossa grande praia nacional?

                              91% dos paulistanos são favoráveis à meia-entrada - Cassiano Elek

                              folha de são paulo

                              TERMÔMETRO PAULISTANO
                              Datafolha aponta que limites ao benefício dividem a população da cidade
                              Mais da metade dos entrevistados se declara a favor de projetos de lei que criam cota de desconto
                              CASSIANO ELEK MACHADODE SÃO PAULOA população paulistana aprova a meia-entrada para estudantes, mas está dividida com relação aos projetos de lei atualmente no Congresso que limitam o número de ingressos que pode ser vendido com o desconto.
                              Essas são duas das conclusões principais de pesquisa Datafolha realizada na última sexta na capital paulista.
                              Foram ouvidas 600 pessoas. A margem de erro é de quatro pontos percentuais, para mais ou para menos.
                              A expressiva maioria dos entrevistados defende a manutenção do benefício. Para 91% deles, os estudantes devem ter o direito de pagar meia em cinemas, teatros, shows e outras atividades.
                              A taxa de aprovação sobe para 96% quando o desconto diz respeito ao conjunto dos maiores de 60 anos.
                              O consenso sai de cena, no entanto, quando o assunto são as mudanças na legislação que regulamenta o benefício.
                              O Senado aprovou em abril o Estatuto da Juventude, que estabelece cota de pelo menos 40% de ingressos vendidos como meia-entrada. Hoje, toda a bilheteria de um evento pode ser comercializada com o desconto.
                              A limitação do número de meias-entradas agrada a 51% dos entrevistados, enquanto 40% se declaram contrários à restrição da meia-entrada.
                              O projeto, que ainda precisa ser aprovado na Câmara, atende a reivindicações de produtores culturais, que culpam o excesso de vendas de entradas com o desconto pela alta do preço geral dos ingressos de espetáculos.
                              Além do Estatuto da Juventude, outro projeto similar também tramita na Câmara --foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça.
                              O texto inclui as pessoas com mais de 60 anos, já beneficiadas com a meia-entrada, na cota de 40% de ingressos com desconto. Diferentemente do Estatuto da Juventude, o projeto estabelece exclusividade de emissão de carteiras a certas entidades estudantis.

                                OPINIÃO
                                Maioria dos paulistanos erra ao defender a armadilha cognitiva da meia-entrada
                                HÉLIO SCHWARTSMANCOLUNISTA DA FOLHAEntre 91% e 96% dos paulistanos defendem a meia-entrada, segundo o Datafolha. Esta não é a primeira nem a última vez em que uma substancial maioria se põe de acordo em relação a um tema e ela está objetivamente errada.
                                Na verdade, o fenômeno é tão rotineiro que o economista ultraliberal e bem-humorado militante libertário Bryan Caplan escreveu um livro, "The Myth of the Rational Voter" (o mito do eleitor racional, em tradução livre), para mostrar que o problema das democracias é que elas dão aos cidadãos exatamente o que eles pedem --e o que eles pedem é muitas vezes algo que os prejudica.
                                Isso ocorre porque eleitores de Estados democráticos, como todos os seres humanos, vêm de fábrica com uma série de preferências e vieses que os impelem a escolhas ruins.
                                Nesse contexto, a meia-entrada desponta como uma armadilha cognitiva quase irresistível. Pelo que parece ser um custo irrisório, temos a chance de promover a cultura, investir na formação dos jovens e, de quebra, ainda prestar reconhecimento aos mais velhos. Tudo isso fazendo justiça social. Descrito dessa forma, fica mesmo difícil opor-se ao mecanismo.
                                Para os que não acreditamos em mágica, porém, a meia-entrada representa um subsídio cruzado de resultados particularmente duvidosos. No caso dos idosos, as tabelas do IBGE mostram que as pessoas com mais de 60 anos têm renda média superior às faixas mais jovens.
                                Isso significa que subsidiá-los implica concentrar renda e não distribuí-la como parecia ser o objetivo.
                                No que diz respeito aos estudantes, o quadro é mais confuso. O desconto aqui pode beneficiar tanto ricos quanto pobres.
                                Mas, como observou o economista César Mattos num belo artigo sobre a meia-entrada publicado no site do Instituto Braudel, os grupos de maior renda tendem a passar mais tempo nas escolas e universidades, extraindo assim uma fatia maior da prebenda. Robin Hood às avessas ataca mais uma vez.
                                O resultado líquido da meia, assim, se contabiliza na forma de muitas ilusões e uma importante distorção na política de preços.
                                Minha modesta sugestão para resolver o problema é estender o benefício para toda a população. Pagando todos a metade do dobro, conseguimos preservar, a um só tempo, as fantasias de bom-mocismo e a realidade tarifária.

                                  aNÁLISE
                                  Eficácia do benefício é no mínimo discutível
                                  O poder público impõe um subsídio mas não o cobre; a consequência é a elevação do preço dos ingressos para compensar a perda
                                  MARCOS AUGUSTO GONÇALVESCOLUNISTA DA FOLHAO amplo apoio à meia-entrada entre os paulistanos expressa a consagração, talvez irrefletida, de uma instituição cuja legitimidade provém da ideia de que a sociedade deve facilitar e estimular o acesso de estudantes a bens culturais.
                                  Tratando-se de jovens, em geral fora do mercado de trabalho (e portanto "duros"), o ingresso reduzido diminuiria a barreira financeira que poderia privá-los do consumo de cultura.
                                  Essa lógica bem-intencionada tem sido questionada pelos fatos.
                                  Segundo produtores da área, a presença de estudantes verdadeiros ou falsificados nas bilheterias chegaria em média a 60%, nos cinemas, e alcançaria até 95% em festivais de música pop.
                                  Como o poder público impõe um subsídio mas não o banca, a consequência econômica é a elevação do preço dos ingressos para compensar a perda. Aparentemente, todos pagam mais, embora o não estudante pague ainda mais para financiar a generalização da suposta meia-entrada.
                                  Agora, propõe-se uma cota de 40% para o ingresso com desconto, o que, em tese, permitiria uma redução de até 35% nos valores. Não há nenhuma garantia de que isso vá acontecer.
                                  O instituto da meia-entrada data da década de 1940, quando a população estava na casa dos 50 milhões --mais ou menos a quantidade de estudantes que existe hoje no país (cerca de 57 milhões). Naquela época, não havia TV, muito menos DVD, internet ou YouTube.
                                  Com o tempo, a meia- entrada passou mais e mais a ser defendida como "conquista política" --agenciada por entidades, como a UNE (União Nacional dos Estudantes), que usam a vantagem para angariar apoio e recursos.
                                  BENEFÍCIO
                                  É no mínimo discutível a eficácia distributiva do benefício. O termo estudante define uma coletividade, mas encobre a diversidade socioeconômica de seus indivíduos. Tem estudante rico, classe média e pobre, embora todos usufruam o mesmo privilégio.
                                  É também claro que boa parte das atividades a que o estudante tem acesso subsidiado seria melhor definida como lazer ou diversão do que como cultura.
                                  Que diferença faz, afinal, do ponto de vista do enriquecimento da formação estudantil, pagar menos para assistir a um show do Cake ao vivo ou ver de graça um clipe da banda na TV?

                                    Só 1/4 acha que ingresso será mais barato
                                    Segundo Datafolha, 68% dos paulistanos consideram hoje as entradas de espetáculos de SP caras ou muito caras
                                    Entre os entrevistados, 34% dizem que essas atividades ficarão ainda mais caras --mais de 50% deles têm carteira
                                    CASSIANO ELEK MACHADODE SÃO PAULOOs ingressos de espetáculos em São Paulo são considerados caros ou muito caros por 68% dos paulistanos ouvidos pelo Datafolha. E só um quarto deles avalia que os preços dos bilhetes irão cair caso um dos projetos em lei atualmente no Congresso venha a ser aprovado.
                                    Entre os entrevistados, 35% acreditam que, se aprovadas, as leis que limitam a 40% a meia-entrada nas bilheterias de eventos culturais e esportivos não trarão mudanças nos valores cheio dos ingressos.
                                    Outros 34%, cuja metade tem hoje carteira de estudante, opinam que as entradas para essas atividades ficarão ainda mais caras.
                                    Produtores culturais e empresários ouvidos em recentes reportagens da Folha sobre a meia-entrada declararam que o atual preço dos ingressos é inflacionado por causa do excesso de vendas com o desconto.
                                    O preço do ingresso para um dia do festival Rock in Rio, por exemplo, custava R$ 92 (valores corrigidos) em 2001, e sai por R$ 260 para a edição de 2013, marcada para setembro. "Hoje se pratica um preço falso'", declarou o ator Odilon Wagner, presidente da Associação de Produtores Teatrais Independentes.
                                    "Se quero ter um tíquete médio de R$ 100 no meu bolso, cobro do consumidor R$ 200 porque sei que praticamente todos do público são estudantes", diz Leo Ganem, presidente da Geo Eventos.
                                    Evaristo Martins de Azevedo, ex-presidente da comissão de Direito às Artes da OAB-SP, teme que, com essas novas regras, os consumidores fiquem reféns da suposta transparência de bilheteiros.
                                    "O público pode ficar sem saber se o limite de meias-entradas foi realmente atingido. Além disso, não se pode restringir os direitos do idoso à meia-entrada e eu acho dificílimo que os preços caiam em razão desse limite."
                                    À reportagem, consumidores de São Paulo avaliam que o alto índice de meia-entrada nas bilheterias de eventos é incrementado pela falsificação de carteiras de estudantes.
                                    Apenas 3% dos entrevistados pelo Datafolha disseram que já usaram um documento falso para este fim, com maior incidência entre aqueles que declaram ter ensino superior e renda familiar acima de dez salários mínimos.
                                    Quando a questão é "alguém com quem você convive ou tem amizade já usou carteira de estudante falsificada para pagar meia-entrada", a resposta positiva sobe para 15% dos entrevistados.
                                    A falsificação do documento é considerada "moralmente errada" pela maioria absoluta (93%) dos entrevistados, sendo que 3% não consideram esta uma questão moral e outros 3% defendem que o ato é aceitável.

                                      Emissão de carteirinhas pela UNE pode crescer 737%
                                      Se aprovada, lei da meia-entrada privilegia documento da entidade
                                      Nova medida pode levar até 6,7 milhões de universitários a se registrar no sistema do órgão estudantil
                                      JULIANA GRAGNANICOLABORAÇÃO PARA A FOLHAAprovada há duas semanas na Câmara, a lei da meia-entrada --um dos textos que tramitam no Congresso sobre o tema-- segue para apreciação do Senado e beneficia a União Nacional dos Estudantes (UNE) e outras entidades com a exclusividade na emissão de carteirinhas estudantis.
                                      Hoje, comprovantes de matrícula, documentos escolares e até boletos são aceitos para a obtenção da meia-entrada.
                                      Se aprovada, a nova lei pode aumentar em 737% as carteirinhas emitidas pela UNE: de 800 mil documentos confeccionados em 2012 para um universo potencial de 6,7 milhões de alunos do Ensino Superior, segundo o MEC (Ministério de Educação).
                                      Com isso, a carteirinha vendida hoje a R$ 35 pode gerar à UNE até R$ 234 milhões, menos os custos da produção (não informados pela entidade). A UNE quer diminuir o preço das carteiras para R$ 20 --o que reduziria para R$ 134 milhões o total arrecadado.
                                      Daniel Iliescu, presidente da entidade, informa que incrementos na receita serão direcionados à construção de uma sede da UNE no Rio.
                                      Até 2001, a UNE e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) tinham o monopólio da emissão de carteirinhas, quando uma medida provisória revogou a exclusividade. Para a UNE, a mudança abriu precedência para fraudes na meia-entrada.
                                      A retomada da emissão apenas por certas entidades é ponto de discórdia entre UNE e associações estudantis.
                                      Para Ricardo Holz, da Associação Brasileira dos Estudantes de Ensino à Distância, quem compra carteiras de sua entidade não se sente representado pela UNE.
                                      Já Alex Fraga, da associação baiana de estudantes de educação à distância, diz que a UNE "representa mais partidos que estudantes".

                                        Prática comum, carteirinha falsa é condenada
                                        COLABORAÇÃO PARA A FOLHAO Datafolha apontou que 93% dos paulistanos consideram moralmente errado falsificar carteirinha de estudante para pagar meia-entrada.
                                        Ainda assim, 42% dos entrevistados com renda mensal de mais de dez salários mínimos conhecem alguém que já falsificou carteirinhas. O número diminui entre pessoas com renda familiar mensal mais baixa.
                                        O projeto de lei da meia-entrada pretende diminuir falsificações com um modelo nacional de documento com tecnologia da Casa da Moeda.
                                        Produtores culturais afirmam que as fraudes levam a um excesso de meias-entradas vendidas em eventos culturais. "A diminuição de fraudes irá beneficiar o consumidor final com preços mais justos", afirma Aniela Jordan, diretora executiva da Aventura Entretenimento, que produziu espetáculos como "Hair".
                                        Mas quem frauda carteirinhas afirma que o faz exatamente por causa do preço dos ingressos. "Fiz uma falsa para ir ao Lollapalooza 2013 porque a inteira daria mais de R$ 1.000", diz D.V., 24, jornalista.
                                        Ele utilizou o método mais comum: completou com seus dados um modelo falso encontrado na internet e imprimiu em uma gráfica.
                                        A assistente de produção C.F., 24, comprou por R$ 50 um documento feito de plástico. "É exatamente igual à original, nem parece cópia."
                                        Há quem recorra a métodos mais trabalhosos para obter o benefício. "Prestei vestibulinho sem intenção de frequentar o curso. Passei, peguei a carteira e cancelei a matrícula", conta R.B., 23.