domingo, 3 de março de 2013

Livro revela 10 falsificações de Rugendas


Novo catálogo aponta que aquarelas atribuídas ao alemão foram produzidas em ateliê de marchand brasileiro
Roberto Heymann contratava artistas para fazer cópias de trabalhos de pintores-viajantes renomados
MARCELO BORTOLOTICOLABORAÇÃO PARA A FOLHAO pintor e desenhista alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858) esteve no Brasil pela primeira vez em 1822, para participar de uma expedição artística e científica, e permaneceu no país retratando paisagens e cenas indígenas em jornadas que fez no interior de Minas, Bahia e Rio.
Quando regressou à Europa, em 1824, levava consigo uma pasta com cerca de 500 desenhos. Eles serviram de base para o livro de gravuras "Viagem Pitoresca Através do Brasil", que Rugendas publicou na década de 1830.
Enquanto Debret, outro conhecido artista-viajante, retratou principalmente cenas de escravidão e do cotidiano no Rio, Rugendas se embrenhou na mata e registrou como ninguém a natureza e a cultura indígena brasileira. Seu trabalho se destaca também por ser minucioso e sistemático.
Hoje, o que movimenta o mercado de arte brasileiro em torno do artista são esses desenhos originais que serviram de base para o livro de gravuras. Em sua maioria, são esboços que custam em média US$ 40 mil (R$ 79 mil).
Também haveria raras aquarelas -cerca de 15- que chegam a valer US$ 200 mil (R$ 394 mil). Este último conjunto, no entanto, acaba de ser desfalcado em dois terços.
No começo desse ano, dez dessas pinturas foram apontadas como falsificações no livro "Rugendas e o Brasil - Obra Completa", que reúne todos os seus desenhos, além de 23 quadros à óleo.
Todas pertencem a colecionadores particulares do Rio ou de São Paulo, sendo três da coleção de Paulo e Cecília Geyer, que foi doada ao Museu Imperial, subordinado ao Ministério da Cultura.
Elas retratam manifestações folclóricas, cenas urbanas e a natureza selvagem do Brasil na época.
O que chama a atenção é a procedência das peças. De acordo com o livro, todas as falsificações foram produzidas no ateliê do marchand brasileiro Roberto Heymann, que atuou em Paris na primeira metade do século 20.
FALSÁRIO
Este é o terceiro catálogo que aponta golpes cometidos por Heymann, que, além de Rugendas, falsificou aquarelas de Debret e óleos de Armand Julien Pallière.
Com esta nova leva, somam-se 57 obras falsas de sua autoria, que fazem dele o primeiro falsário brasileiro com produção identificada de forma sistemática.
"Ele foi uma mistura de marchand e bandido. Um sujeito hábil, que conhecia muito bem o mercado, e se especializou na fabricação de obras valiosas", diz o chileno Pablo Diener, autor do livro com Maria de Fátima Costa.
Esta é a segunda edição do catálogo de Rugendas produzida pela dupla. Na primeira, lançada em 2002, não havia identificação de obras falsas.
Diener explica que, embora desconfiasse de algumas aquarelas na época da primeira edição, só conseguiu ter certeza das falsificações depois que os métodos do marchand foram melhor identificados.
O primeiro livro que apontou Heymann como falsário foi o catálogo "Debret e o Brasil - Obra Completa", de Pedro Corrêa do Lago e Júlio Bandeira, publicado em 2008. Até então, ele era considerado apenas um grande fornecedor de obras relacionadas ao Brasil do século 19.
Seu método de trabalho era engenhoso. Contratava artistas habilidosos para copiar as gravuras de livros publicados por pintores viajantes como Debret ou Rugendas. As cópias eram feitas em papel antigo e levavam uma assinatura falsa.
"Heymann distorceu a identidade dos artistas que falsificou, criando linhas de produção que nunca existiram. Por isso é importante que seja desmascarado", diz Diener.

    Catálogos no Brasil não mencionam obras falsas
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHAA falsificação de obras de arte é um tema espinhoso que não costuma ser tratado abertamente no país. Nos catálogos raisonné publicados no Brasil, que reúnem a obra completa de artistas, o assunto geralmente é deixado de lado porque os editores temem complicações jurídicas.
    Foi o que aconteceu com os catálogos de Cândido Portinari (1903-1962) e Tarsila do Amaral (1886-1973).
    O primeiro, lançado em 2004, é fruto de um trabalho de 20 anos de pesquisa. Neste período, a comissão do Projeto Portinari identificou 670 obras falsas atribuídas ao pintor, que foram deixadas de fora do livro. O de Tarsila, lançado em 2008, localizou 472 falsificações, mas o tema não é explorado no catálogo.
    Este silêncio dificulta a identificação de falsários em série como Roberto Heymann.
    O próximo do gênero a ser lançado vai reunir a obra completa de Alfredo Volpi (1896-1988). Até o momento, a comissão responsável pelo livro já identificou 300 falsificações. À frente da pesquisa, o colecionador Marco Antônio Mastrobuono afirma que os falsos ficarão de fora da publicação.
    "Quem afirma que uma obra é falsa fica vulnerável porque está acusando alguém de um crime, e é muito difícil provar a falsificação", diz. Segundo ele, os editores preferem adotar uma posição defensiva, apenas deixando de fora as obras consideradas falsas.
    "O mercado e os colecionadores entendem que, se um quadro não foi incluído no livro, é porque não há elementos suficientes que indiquem que ele seja autêntico", diz Mastrobuono.
    Na contramão, a editora Capivara publica, desde 2006, catálogos de arte que trazem sempre o capítulo "Atribuições Rejeitadas", onde são identificadas as obras falsificadas e a coleção a que pertencem.
    A editora já lançou livros de artistas dos séculos 17 e 19 como Frans Post e Albert Eckhout, além de Rugendas, Debret e Pallière.
    "Seguimos o padrão internacional. Para que os falsos deixem de circular, é essencial que a pesquisa que os identificou os publique", diz o diretor da Capivara, Pedro Corrêa do Lago.

      LITERATURA
      Serrote nº 13 tem Paulo Rónai e concurso
      DE SÃO PAULO - A edição de março da revista quadrimestral do Instituto Moreira Salles, que chega às livrarias nesta semana, traz ensaio inédito de Paulo Rónai sobre Balzac e retratos do francês por Picasso. Lança, ainda, concurso de ensaios, cujo regulamento estará em www.revistaserrote.com.br.
        folha de são paulo

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