sábado, 27 de abril de 2013

Cosmologia da praia - Paulo Bentancur‏

Estado de Minas - 27/04/2013

O novelista, ensaísta, roteirista, ex-editor e ex-professor de literatura Alan Pauls, argentino apesar do nome de ascendência alemã, foi festejado por ninguém menos que Roberto Bolaño, quando Pauls mal estreava e Bolaño vivia seus últimos dias. Não é preciso mesmo muito tempo para dar-se conta de que se trata, o autor de A vida descalço, de um dos mais importantes autores latino-americanos em atividade. A primeira das razões – em se tratando de um escritor – é o estilo, aquoso, soma de um exuberante fôlego para a descrição com uma capacidade proustiana de digressão. A segunda razão é que para o argentino os “pequenos” temas (que em outras mãos dariam no máximo contos, e breves) transmutam-se em grandes, alimentando novelas num ritmo poroso (nenhum detalhe se lhe escapa), analítico e musical.

Alan Pauls, que aliás cita Cortázar no livro, é da rara família dos que reinventam a literatura, a nos fazer, leitores, testemunhas surpresas com a novidade: “Então pode ser assim?”. Pode. A vida descalço é um ensaio com uma toada ficcional porque memorialística. Se não lermos a ficha catalográfica, chegaremos a um terço do volume incapazes de definir se se trata de uma narrativa ou de ensaísmo. Claro: as pistas, poucas mas consistentes, já se mostravam desde o começo, nas citações, eventuais, de filmes, de autores. Porém, como a literatura contemporânea promove a mescla de procedimentos de diversos gêneros, o tom evocativo e a funda poesia imersa na emoção com que o narrador constata esse planeta à parte – a praia – levam o texto a um registro mais que singular, único: o de Alan Pauls. Um tecido verbal totalizante, capaz de trazer à tona um mundo que nunca suporíamos submerso.

Longe, o mar

Essencial destacar que na especificidade – marca maior do autor – a praia é o território eleito, e por praia, a princípio, vem a visão do menino, recorrente porque fundadora. Que visão pode ter uma criança que não seja a fímbria da orla? Uma faixa de terra sedutora, a trazer a paz de um murmúrio que do mar emana e que altera nossa audição, nossas vozes, nossa percepção das coisas em volta. O mar é outra coisa, espaço além e nervoso, e, embora faça parte da praia, está distante demais (e assim ausente) dessa praia a que o escritor nomeia.

Por isso nela a vida que há inclui o narrador (vida que o mar ameaçaria). E por isso nessa praia a vida liberta pode ganhar terreno, descalça.

Alan Pauls não fala apenas de uma praia, mas sobre mais de uma. Em mais de um país. Praias em países quentes e praias em países frios. Com isso afirma a universal particularidade que torna, mesmo as mais diferentes praias, num espaço tão à parte no planeta. Chega a compará-las ao deserto.

Longe da praia, em plena cidade, nossos movimentos são feitos mais de costume que de liberdade.

Definitivamente, um modo absolutamente novo de escrever um ensaio, com a mente aberta ao vasto céu da praia e os pés livres para correrem com os infinitos parágrafos.


* Paulo Bentancur é escritor e crítico.


A vida descalço
. De Alan Pauls, tradução de Josely Vianna Baptista
. Editora Cosac Naify
. 96 páginas, R$ 45

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