sábado, 23 de março de 2013

Como se canta o baião-Bené Fonteles‏

Luiz Gonzaga, ao lado de seus parceiros mais constantes, como Zé Dantas e Humberto Teixeira, criou novo caminho para a cultura brasileira a partir dos anos 1940, com influência que chega até nossos dias 


Bené Fonteles

Estado de Minas: 23/03/2013 

Luiz Gonzaga sabia de cor e coração a cartografia ambiental e sentimental do povo e do sertão nordestino. Por isso, naturalmente deixou fluir e influir uma lírica poética que vestiu os versos tantos de seus muitos parceiros “cheirando a bode”, como ele achava que cheirava Zé Dantas. Por certo, Dantas foi o parceiro que mais sentido deu às coisas sertanejas e que, pelo conhecimento vivido, soube traduzir costumes, sentimentos e ambiências de um interior que não era só paisagem, mas o dentro do coração dos nordestinos. As canções da parceria com Dantas revelavam o corpo e alma de um itinerário lírico que partia da voz dos cantadores, dos aboiadores vaqueiros, dos poetas dos cordéis e emboladores nas feiras, das carpideiras nos velórios e das cantadeiras nas novenas, muito advindo da prosa e da poesia provençal vinda de herança da cultura ibérica e moura.

É preciso também ir fundo no canto dos menestréis nordestinos que povoaram essas mesmas festas e feiras, compuseram e cantaram benditos e ladainhas nas missas, novenas e procissões, com e para as beatas, recitaram versos nos dramas e outros eventos públicos sagrados e profanos, para chegar até o cerne e a origem do que Luiz Gonzaga sintetizou, recriou e vestiu com sua rica verve interpretativa.

Gonzaga nos encantava de forma singular, vestido de sua própria identidade, mais que regional, “entidade universal brasileira”, como bem disse Mário de Andrade. Entidade de sertanejo que existe e resiste em Cabrobó ou na Bretanha francesa. Não é à toa que Guimarães Rosa prosou um dia que sertão está em toda parte e mais no dentro da gente mesmo. Portanto, a roupa arquetípica criada por Gonzaga nos veste a todos, nos autoriza a uma linguagem universal que transcende limites regionais e tacanhos.

A universalidade das letras que seus parceiros versaram dos anos 1940 aos 1980 poderiam descrever e potencializar uma literatura de um grande sertão, veredas nordestinas insondáveis que ganharam amplas dimensões culturais e espirituais, para revelar um Brasil menosprezado e oculto por trás do preconceito da erudição acadêmica eurocêntrica, que ainda rege nossos pretensos intelectuais.

Subestimar a cultura poética de um povo matuto ou caipira é ir contra a sabedoria popular que engrandece as nações. Antonio Candido, em sua primeira tese uspiana (Os parceiros do Rio Bonito), prova o contrário, mostrando, por exemplo, que o caipira falava e cantava um português castiço, de fonte erudita, de um tempo fundador da língua e da poética portuguesa.

Afirmo que, mesmo que nada sobrasse de material sobre a terra brasileira, a vasta obra musical e interpretativa da qual Luiz Gonzaga se apropria e recria certamente traça uma cartografia que contempla a geografia ecológica de inúmeras localidades, descrevendo sua cultura paisagística do Riacho do Navio ao Rio Pajeú, do Rio Pajéu ao despejar no Rio São Francisco, e do Velho Chico a desembocar no meio do Mar Atlântico, descrevendo uma trajetória sintética e sincrética de muitas culturas amalgamadas por milhões de almas ribeirinhas ou barranqueiras que amam a figura plural e original de Gonzaga.

Esta cartografia anímica e lúdica traça os mapas da religiosidade fanática, fervorosa e autêntica que herdou de sua mãe, Santana, cantadora de benditos e ladainhas nas novenas da Fazenda Caiçara, e canta também a fauna e a flora de como nunca se imaginou na música feita no país. Só muito depois a natureza seria reverenciada na música de Tom Jobim, que também compôs baião e de quem Luiz Gonzaga gravou magistralmente a toada Caminho de pedra, da parceria com Vinicius de Moraes.

Tomemos, então, por referência, as aves asa branca, assum preto, acauã, fogo-pagou, carimbamba e outros inúmeros pássaros que viraram tema de canções extraordinárias, que servem de pretexto, mote e metáfora para falar de relações amorosas, saudades e lamentos sertanejos, desejos e sentimentos vários de sede de companhia e vasta solidão que o sertão verte à beira das estradas e, dentro dele, da caatinga ao semiárido.

Assim, como os pássaros canoros, as tantas árvores que a música Juazeiro exemplifica muito bem, de forma pungente e emocionante, em que o verso fala da sombra em que conversavam um ela e um eu que todo mundo tem dentro de si, na vontade de amar e de se reconhecer no outro.

Também a religiosidade atávica presente nos versos de muitos parceiros demonstrando a fé, a fé gonzaguiana inabalável no que fazia e acreditava ser e ter em tantas canções dedicadas a padre Cícero, frei Damião, Nossa Senhora, São João do Carneirinho, este o padroeiro da localidade cuja imagem era a primeira de santo que viu, na pequena capela da Fazenda Caiçara, onde nasceu, e que tanto lhe encantou o imaginário até que virou baião. Esta imagem foi o ponto de partida de todo o seu imaginário de fé religiosa, um São João icônico, que ele viu subir nos mastros coloridos junto a muitas fogueiras e forrós pé de serra e, a partir do Nordeste, contagiar o Sul e todo o Brasil, que no fundo é também sertanejo, da Amazônia à caatinga, do cerrado aos pampas.

Nordestinados Os letristas também dão voz a sentimentos arraigados na vocação ancestral de Luiz Gonzaga em recriar ou reinventar um Nordeste que até então era menosprezado pela cultura e pela política entre os anos 1940, 50 e 60. Ele – que segundo Câmara Cascudo não é o sertão, o sertão é que é ele – vai dar voz ativa a um povo, uma voz do Brasil oculto, mas nunca inculto e pobre. Ele é a voz do Brasil, dos exilados migrantes vindos para o Sul tentar outra sorte sem “vidas secas”. Gonzaga é o cantor do exílio, da minha terra que tem carnaúba e onde canta o acauã, e cujas aves que aqui gorjeiam não só gorjeiam, mas, como no baião Fogo-pagou, alimentaram muita fome severina.

Gonzaga deu voz a uma canção emblemática de Patativa do Assaré – o poeta máximo do Nordeste caboclo –, que é Triste partida, verdadeiro hino e miniépico desta migração de nordestinados para virar mão de obra barata, quase escrava, na construção civil de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte, ou no trabalho também árduo da lida doméstica destas mesmas cidades e das tantas das periferias dos Brasis.

São esses nordestinos que vão sentir e se identificar com a lírica gonzaguiana, ambientada em uma cartografia leal e sentimental, a cultura íntima de um povo ainda não consciente dos valores culturais que Gonzaga vai realçar e divulgar para o mundo. São eles que vão consumir e ampliar a literatura musicada e cantada com força de peito aberto por todo um Nordeste, que vai perpassar as favelas cariocas e paulistas. Um Nordeste ainda não visto em sua poética rica de verve e ritmos, ainda não sentido e estimado em suas amplas manifestações culturais e espirituais.

Releva-se daí uma poesia impregnada do barro do chão, nascida nos anos 1940 junto de Gonzaga e do cearense de Iguatu Humberto Teixeira, ampliada pelo pernambucano de Carnaíba Zé Dantas, rediviva no também pernambucano de Sumé Zé Marcolino, e noutros nordestinos de cepa, como o pernambucano de Arco Verde João Silva, seu maior parceiro em número de canções.

Houve outros tantos poetas, até então anônimos, nos quais descobriu talentos para dar corpo e sentimento a essa cartografia lírica, anímica, ambiental, espiritual, elevando a cultura do Nordeste ao patamar mais alto da alta cultura brasileira. Queiram ou não.

Nova geografia musical 



Bené Fonteles



O poeta Zé Dantas é parceiro de Gonzaga em duas canções viscerais: uma na poética da denúncia que é Vozes da seca, a primeira canção que poderíamos chamar de protesto, mais de uma década antes que Geraldo Vandré, Sergio Ricardo ou Carlos Lira lançassem suas músicas contra a ditadura militar e a grave situação social no país. Vozes da seca é a primeira canção que dá voz ao cidadão nordestino que não quer esmola, mas trabalho digno e justiça social: “Mas doutor uma esmola/ a um homem que é são/ ou lhe mata de vergonha/ ou vicia o cidadão”.

É também de Zé Dantas a letra de Siri jogando bola, inspirado nas emboladas dos cantadores nos desafios públicos, letra que requer do intérprete agilidade e destreza vocal que só Gonzaga e o genial paraibano Jackson do Pandeiro possuíam. É uma letra que fala pela primeira vez em Coca-Cola, que “dá um arroto de lascar”, muito antes de Caetano Veloso, que apenas tomava-a na marcha-rancho modernizada Alegria, alegria.

Zé Dantas só não engoliu o pão que o capeta amassou, quando o apresentador de TV Flávio Cavalcante quebrou o disco com a gravação de Gonzaga em seu polêmico programa, porque Dantas, médico culto, escreveu artigo em jornal carioca mostrando, com elegância, a ignorância do apresentador que subestimou a importância da letra e da música criticada para divulgar um ritmo e uma poética do Nordeste. E tudo com grande inovação de linguagem e uma interpretação genial e gostosa, que só Gonzaga tinha sabedoria interpretativa para aliar à poesia ou à música alheia, com sua verve criativa cheia de improviso e falas inesperadas, antes que o rap e o hip-hop invadissem a cena contemporânea.

Humberto Teixeira quando se encontra com Gonzaga, em 1947, faz com ele, de uma sentada, muitos baiões, xotes e xaxados, como Baião, verdadeiro manifesto musical em que se ensina como dançar o ritmo e lança o movimento cultural nordestino tão importante como seria décadas depois a bossa nova dos cariocas e a tropicália dos baianos. Sim, porque foi tudo muito bem arquitetado pelos dois - Gonzaga e Teixeira –, para ocorrer o que Sivuca, anos mais tarde, chamaria de “operação inversa”, ao trazer a música, os ritmos e os costumes nordestinos para o Sul, via indústria radiofônica e fonográfica, casadas para ditar a moda para todo o Brasil, como hoje faz a TV.

Os dois parceiros trouxeram com poética consistente os valores culturais e espirituais escondidos por décadas de omissão da cultura oficial sulista, como fez a política do Estado Novo com a também genial Carmem Miranda, com sua baiana estilizada para dar boas-vindas à política da boa-vizinhança com os Estados Unidos.

Seria então inaceitável a personagem emblemática que Gonzaga criaria nos anos 1940, juntando a figura do cangaceiro e do vaqueiro para representar este Brasil nada folclórico e caricatural, que os americanos adoraram na figura ousada, sensual e talentosa de Carmem Miranda. Gonzaga trazia a poética do “cabra macho” como imagem, mas que cantava docemente e sensivelmente suas dores de amores, carências e saudades de um sertão que fora abandonado por eles por questões de sobrevivência.

Cariri Gonzaga procura parceiros nordestinos do sertão brabo para dar sentido a tudo que viveu na infância e em parte da juventude em Exu, a cidade pernambucana vizinha ao maior celeiro cultural no Nordeste, que é a região do Vale do Cariri, com três cidades referenciais para sua família: Juazeiro do Norte, de padre Cícero; Crato e Barbalha, com tradição forte de artistas e artesãos, poetas da melhor qualidade como Cego Aderaldo e Patativa do Assaré, nascido não muito longe dali.

Gonzaga com dois poetas das brenhas, Teixeira e Dantas, definiria todo o conceito estético e poético de sua música e desse movimento cultural nordestino que queria instalar na cena urbana sulista, e urbanizá-la não só para conferir modernidade ao projeto, mas também para dar outra dimensão cultural ao Nordeste. São estes dois parceiros, cheirando a bode e a chão de barro batido, que lhe dão temas e versos viscerais e definitivos para que seu reinado lhe desse fôlego de décadas e vencesse o fatalismo da morte prematura. As comemorações dos 100 anos de nascimento de Gonzagão revelam o que nenhum artista brasileiro até agora teve de reconhecimento e homenagens, além de tantas recriações de sua vasta obra.

Isto se compreende melhor quando sabemos que Gonzaga influenciou e inspirou gerações de artistas dos mais importantes na música popular brasileira surgidos desde os anos 1950, de Jackson do Pandeiro a Siba, passando por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Hermeto Pascoal, Alceu Valença, Fagner, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Chico César e Lirinha, todos tributários de um rio sem fim de canções e gestos que vão além de tantos ritmos e tantas poesias.

Luiz Gonzaga, enfim, é porta-voz de uma conjunção feliz de poetas que recriaram o Nordeste, revelando uma literatura musicada ímpar no país e talvez no mundo, que cantou e canta uma região nos seus detalhes mais íntimos, com suas formas estéticas mais criativas e suas aspirações e sonhos mais profundos.

Por isso, reina absoluto e sempre nas noites mais belas de são-joão, em que anima festas na terra e no céu, onde esplendem fogos e estrelas sem começo nem fim.

Bené Fonteles é artista plástico, poeta e compositor.

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