Uma bela formação recifal com contornos
do órgão humano em sua forma lúdica, bem no complexo de recifes do
Parque de Coroa Alta, em Santa Cruz Cabrália, surpreende biólogos e
estudiosos marinhos
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| Desenho do conjunto de corais intrigou
pesquisadores que fazem mapeamento marinho nesta região da Bahia e
analisam também de que forma as mudanças climáticas afetam as colônias
coralíneas |
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Localização no mapa do complexo de recifes:
diferentemente das formações brasileiras mais comuns, este é fundo e tem
paredes retas
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Santa Cruz Cabrália
ganhou notoriedade por ter sido a casa da Seleção Alemã de futebol,
campeã do mundo na Copa realizada no Brasil. Localizada na Costa do
Descobrimento, a cidade, porém, poderia estar no lugar de Porto Seguro
nos livros de história. O jornalista e escritor gaúcho Eduardo Bueno, em
sua obra A viagem do descobrimento, levanta a hipótese de os
portugueses terem atracado na localidade ou na vizinha Prado, ao
contrário do que aprendemos no colégio. Permeada por toda essa
“mística”, Cabrália ainda “herdou” da natureza uma belíssima formação
recifal, com contornos de um coração no complexo de recifes do Parque de
Coroa Alta, formato que só foi descoberto recentemente pelo biólogo
marinho e coordenador-executivo do Projeto Coral Vivo Gustavo Duarte,
enquanto checava alguns mapas.
Os contornos lúdicos do coração –
e não no formato bruto do órgão responsável por bombear sangue para
todo o organismo – foram descobertos pelo biólogo, quando fazia a
avaliação de algumas imagens de satélite, relacionadas ao mapeamento
físico dos recifes do Parque Municipal Marinho Coroa Alta. “Além de
coordenador do projeto, atuo na pesquisa de como as mudanças climáticas
afetam os corais. Estava, por acaso, dando uma revisada nos mapeamentos e
percebi que havia esse recife com formato de coração. Como está voltado
para o Leste, estava de lado na imagem e dificultava um pouco a
percepção”, comenta Duarte.
A formação está localizada
especificamente na região dos Alagados (não confunda com a área de mesmo
nome em Salvador), ao Sul do complexo recifal citado. Nos paredões, o
coral casca-de-jaca (Montastraea cavernosa) se faz presente em suas
grandes colônias. Ademais, róseas algas calcárias cobrem as paredes
quase verticais, e garoupas têm no local sua morada. “Diferentemente dos
recifes brasileiros, ele é muito fundo e tem paredes retas. Parece ter
sido cortado com uma forma de biscoitos, naquele formato específico”,
brinca o pesquisador.
PROFUNDIDADE O recife “coração” teve sua
profundidade máxima aferida em 10 metros, enquanto a mínima ficou nos
três. Isso foi constatado na primeira fase de levantamento batimétrico,
ou seja, a medição de fundura dos oceanos, rios e lagos. Para o
processo, os pesquisadores utilizam a ecossonda, instalada no casco da
embarcação, e também o Strata scan – equipamento adquirido recentemente
pelo projeto. O primeiro atua como um sonar, emitindo um som. O tempo
que ele leva, de sua emissão da superfície até a recepção, é o
determinante para medir a profundidade. Já o segundo atua escaneando o
fundo do mar, transmitindo as nuances do solo. O aparelho consegue
especificar onde há lama, areia, corais ou rochas. O mapeamento servirá
para mostrar o relevo do recife em três dimensões.
A embarcação
utilizada para auxiliar no processo é o catamarã Iamany (Senhora das
Águas, na língua pataxó) – com certas adaptações para facilitar as
pesquisas. Como a estrutura da embarcação fica pouco dentro d’água, há a
facilidade de “passear” pelos recifes, com mais tranquilidade para
fazer o levantamento batimétrico deles. No entanto, o processo não é tão
simples quanto parece. “Temos que mapear lentamente, pois o motor da
embarcação não pode funcionar a plena potência. Além disso, quando o mar
está revolto, não há chances de se trabalhar”, comenta o pesquisador do
Coral Vivo Jhone Araújo, mestrando de geologia no Instituto de
Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Interação com a comunidade
A
formação recifal sequer havia sido notada pelos pescadores locais. “Foi
uma surpresa até para eles. O pessoal achou muito bacana quando
mostramos o mapeamento”, afirma Jhone Araújo. O Projeto Coral Vivo
procura interagir com as comunidades e trabalhar sempre junto a elas. “A
interação é muito boa. Temos, inclusive, uma política de contratação de
moradores das comunidades, que trazem sua experiência, suas interações
coralíneas desde pequenos, para nós. É uma troca de conhecimento muito
grande”, salienta Gustavo Duarte.
A expectativa é de que o
mapeamento físico completo dos recifes da Coroa Alta seja finalizado no
próximo ano e entregue às prefeituras de Santa Cruz Cabrália e
adjacências, que poderão trabalhar em conjunto com o Coral Vivo e
comunidades para a preservação da área. A pesquisa ficará disponível
também no site do projeto (
www.coralvivo.org.br). O coração de Cabrália
pode tornar-se parte integrante do turismo da região.
“Tenho a
expectativa de que a área fique apta à visitação. Nosso coração tem 350
metros de diâmetro e um fundo de areia de coral. Além disso, há a
formação de ondas em seu contorno. Mesmo distante da costa, seria
interessante que surfistas checassem se a área é surfável”, comenta
Duarte. Além disso, o mergulho é uma atividade que também pode ser
explorada. Tudo depende do plano de manejo realizado pelo Instituto
Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Toda unidade de
conservação (UC) deve ter esse plano e o prazo máximo de elaboração,
segundo o Ministério do Meio Ambiente, é de cinco anos.
De acordo
com Araújo, a região sofreria muito mais com a atividade turística, não
fosse a atuação dos guias. “O volume de pessoas que visita o parque é
muito grande, mas o ambiente não é tão maltratado, graças aos guias
turísticos que instruem, por exemplo, os visitantes a não retirarem um
coral, mesmo que este esteja morto”, diz.
BIOMAR
O
Projeto Coral Vivo integra a Rede Biomar – Rede de Projetos de
Biodiversidade Marinha. Os projetos Tamar, Baleia Jubarte, Golfinho
Rotador e Albatroz também fazem parte. Todos eles são patrocinados pela
Petrobras, por meio do programa Petrobras Ambiental, com o intuito de
conservar a biodiversidade marinha do Brasil, atuando nas áreas de
proteção e de pesquisa das espécies e dos hábitats relacionados. As
ações do Coral Vivo são viabilizadas também graças ao copatrocínio do
Arraial d’Ajuda Eco Parque. Além de Gustavo Duarte e Jhone Araújo, atuam
no mapeamento o geólogo José Carlos Seoane, coordenador do trabalho, o
piloto e monitor do Coral Vivo Márcio José, nativo da região, e os
alunos de graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Bia
Sabino e Ian Fortes.