quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Aleluia! - Eduardo Almeida Reis

Aleluia! - Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas : 12/11/2014



Enfim, uma notícia boa. A gente abre os jornais, liga o televisor e pipocam notícias ruins. É a morte de um colega de turma que você não via há séculos, mas foi seu amigo na faculdade. É a missa de sétimo dia por alma de um querido amigo digno, antes e acima de tudo um cidadão honrado, como poucos houve na história deste país. Ontem, felizmente recebi ótima notícia: casal meu amigo há quase 40 anos está de mudança para Orlando, Flórida, onde já reside sua filha única.

Formado em direito, ex-fazendeiro, arquiteto genial não diplomado, o maridão vendeu tudo que tinha neste país grande e bobo, meteu seus móveis em contêineres e lá se vai de muda para a Flórida, onde comprou bela casa num condomínio vizinho do campo de golfe construído pelo campeão Arnold Palmer, alcunhado The King, um dos maiores jogadores profissionais de golfe da história dos Estados Unidos.

Aposentadoria mais que justa para um casal que não merece continuar andando em carros blindados. O marido chegou a ter três picapes Chevrolet Montana blindadas, compradas de segunda mão por uma tuta e meia de comerciantes suburbanos, que precisam delas para levar suas férias aos bancos.

Meu amigo usava as picapes nas idas ao supermercado, ao cinema, para visitar pessoas e para transportar os móveis que projetava. BH já tem um monte de gente circulando em carros blindados, cavalheiros e damas não necessariamente milionários, que o leitor conhece muito bem. Em rigor, só existe um motivo para este philosopho não andar em carro blindado: já não tenho carro.

De Orlando, o amigo promete me telefonar frequentemente: existem celulares norte-americanos que custam 100 dólares por mês e você pode ligar para o mundo inteiro falando o tempo que quiser. Invejo os moradores da Flórida e os vizinhos do condomínio projetado e construído por The King, que passam a contar com a assessoria estética e técnica de um arquiteto genial.

Horários
Este ano, o horário de verão começou no domingo, 19 de outubro, nos diversos estados em que é imposto, salvo aqui em casa, que começou três dias antes. Na quinta-feira, dia 16, aproveitei a visita do técnico em informática para pedir que adiantasse meus relógios eletrônicos, poupando-me da estrênua tarefa de xingar as mães de todos os responsáveis pela imposição do horário abjeto, xingatório que dura horas e horas porque não sei mexer com os tais relógios: incompatibilidade etária.

Na manhã seguinte, o relógio do quarto marcava 7h, eram 6h, depois de boas oito horas de sono. Desperto, quedei-me no leito sem vontade de levantar. Diagnóstico: spleen. Sou do tempo em que muita gente sofria de spleen, palavra que entrou no idioma dos Pitts e dos Chaucers no século 13, do grego splën via latim splen, di-lo o dicionário do doutor Bill Gates. Não chega a ser depressão: é uma espécie de melancolia, sentimento de vaga e doce tristeza que compraz e favorece o devaneio e a meditação.

Tentei dormir, não consegui, levantei-me e aqui estou para falar do horário de verão, que neste ano é aparentado com o acarajé de Dorival Caymmi. O baiano poetou “todo mundo gosta de acarajé” e todos os debatedores dos programas que vejo na tevê se disseram fãs do horário. Uma enquete feita por Maria Beltrão, durante o Estúdio i, provou que o negócio não é bem assim: 53% dos telespectadores disseram que não gostam do horário.

Tenho horror e não acredito na economia de energia anunciada pelo governo, que nada sabe da economia, da inflação, do pibinho, da ladroeira que ele mesmo orienta na Petrobrás, do mensalão, finge não saber de nada – e não pode avaliar a economia de energia.

Donde se conclui que a crise de spleen está explicada. Vou parando por aqui para almoçar bifes altos, farofa caprichada, espinafre ao alho, salada e uma bela dose de sorvete Häagen-Dazs. Tchau e bênção procês todos.

O mundo é uma bola
12 de novembro de 1532: termina o prazo para os moradores de Genebra declararem sua religião, sob pena de expulsão da cidade, por obra e graça de um sujeito chamado Jean Cauvin. Basta ver seu focinho nos quadros para constatar que não era boa-bisca, mas se casou com Idelette de Bure, porque mulher é danada para gostar de casamento.

Em 1823, o imperador Pedro I manda o Exército invadir o plenário da Assembleia Constituinte prendendo e exilando diversos deputados. E olhem que foi 191 anos antes de o Brasil saber dos parlamentares comprados no escândalo da Petrobras.

Em 1906, o 14-Bis volta a voar, percorrendo 220 metros em menos de 22 segundos. Releva notar que não foi em 1006, mas em 1906, há pouco mais de um século. Em 1993, sai da linha de montagem última unidade do Chevrolet Chevette e já saiu tarde, porque era uma titica de carro, dos piores que já tive. Hoje é o Dia do Diretor de Escola, profissão de risco diante da ferocidade dos atuais alunos.

Ruminanças
“Uma escola onde os alunos mandassem seria uma escola triste. A luz, a moralidade e a arte serão sempre representadas na humanidade por um conjunto de mestres, uma minoria que guarda a tradição do verdadeiro, do bem e do belo” (Renan, 1823-1892).

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Graça infinita A gente faz o que eles mandam a gente fazer.


Graça infinita

A gente faz o que eles mandam a gente fazer. Eles dizem que aqui é Orgulho sem Bagulho

David Foster Wallace


Na noite seguinte ao piquenique gelado e meio constrangedor de celebração conjunta do Dia da Interdependência para a Casa Ennet de Recuperação de Drogas e Álcool de Enfield, da Phoenix House de Somerville e da tristeza que era a reabilitação juvenil Nova Escolha de Dorchester, a funcionária da Ennet Johnette Foltz levou Ken Erdedy e Kate Gompert com ela para uma Discussão para Novatos do NA em que o tema era sempre a maconha: como cada viciado da reunião tinha se arranjado problemas terríveis de vício da maconha já desde o primeiro baseado, ou como tinham ficado ligados a drogas mais pesadas e tinham tentado mudar para a erva para largar as drogas originais e mas aí tinham ficado com problemas ainda mais terríveis com a erva do que tinham com as coisas pesadas originais. Essa era supostamente a única reunião do NA da Grande Boston explicitamente devotada à maconha. Johnette Foltz disse que queria que Erdedy e Gompert vissem o quanto estavam completamente não isolados e não solitários em termos da Substância que tinha derrubado os dois.






























Havia coisa de talvez duas dúzias de viciados novatos em recuperação ali na sacristia anecoica de uma igreja chique do que Erdedy imaginou só podia ser ou West Belmont ou East Waltham. As cadeiras estavam dispostas no tradicional círculo amplo do NA, sem mesas e com todo mundo equilibrando cinzeiros no colo e acidentalmente chutando copinhos de café. Todo mundo que levantava a mão concordava sobre as formas insidiosas com que a maconha tinha detonado seu corpo, mente e espírito: a maconha destrói lenta mas totalmente era o consenso. O pé balouçante de Ken Erdedy derrubou o seu café não uma mas duas vezes enquanto os NAs se revezavam para concordar sobre a pavorosa decadência psíquica que tinham suportado tanto durante a dependência ativa da maconha quanto durante a desintoxicação de maconha: o isolamento social, a lassidão angustiada e a hiperautoconsciência que então reforçava a antissocialidade e a angústia – a alienação emocional cada vez maior, a pobreza afetiva e depois a catalepsia emocional plena –, a análise obsessiva de tudo e finalmente a estase paralítica que resulta da análise obsessiva de todas as implicações possíveis tanto de levantar do sofá quanto de não levantar do sofá – e aí a dura via sintomática infinda da Abstinência de delta-9-tetra-hidrocanabinol: i. e. desintoxicação de ganja: a perda de apetite, a mania, a insônia, a fadiga crônica, os pesadelos, a impotência, a interrupção de ciclos menstruais e da lactação, a arritmia circadiana, os súbitos suores tipo-sauna, a confusão mental, os tremores motores finos, o excesso particularmente desagradável de produção de saliva – vários novatos ainda segurando copinhos institucionais de baba embaixo do queixo –, a angústia generalizada, os agouros, o pavor e a vergonha de sentir que nem os doutores nem os próprios nas das drogas pesadas tinham muita empatia ou compaixão pelo “viciado” derrubado pelo que todos achavam ser o barato mais modesto da mãe natureza, a Substância mais benigna que existia.
Ken Erdedy percebeu que ninguém ia lá de uma vez e empregava os termos melancolia ou anedonia ou depressão, muito menos depressão clínica; mas esse, o pior dos sintomas, esse logaritmo de todo o sofrimento, parecia, conquanto tácito, pender como uma névoa logo acima das cabeças do cômodo, vagar entre as colunas do peristilo e sobre os astrolábios e velas decorativas que ficavam em longos braços de castiçais, imitações medievais e declarações emolduradas dos princípios dos Cavaleiros de Colombo, um plasma gasoso tão temido que novato nenhum suportava olhar para cima e dar-lhe um nome. Kate Gompert ficava olhando para o chão e fazendo um revólver com o indicador e o polegar e se dando tiros na têmpora, depois soprando pólvora de brincadeirinha da ponta do cano até Johnette Foltz sussurrar para ela parar com aquilo já.
Como era costume dele nas reuniões, Ken Erdedy não abriu a boca e ficou observando todo mundo muito atentamente, estralando os dedos e balançando o pé. Como no NA um “Novato” é tecnicamente qualquer um com menos de um ano de sobriedade, havia graus variados de negação, perturbação e falta de noção generalizada nessa acolhedora sacristia chique. A reunião tinha a seção demográfica ampla de sempre, mas a maioria desse pessoal destruído pela erva lhe parecia urbana, dura, ferrada e vestida sem nenhuma noção de cores, gente que você não tinha dificuldade para imaginar esbofeteando o filho num supermercado ou à espreita com um porrete feito em casa na escuridão de uma ruela do centro. Igual no AA. A desrespeitabilidade mais variegada era tipo norma ali, além de olhos vidrados e excesso de cuspe. Alguns novatos ainda estavam com as pulseirinhas de identificação de plástico leitoso das alas psiquiátricas que tinham esquecido de cortar ou que ainda não tinham reunido forças para cortar.
Ao contrário do AA de Boston, o NA de Boston não tem pausa para a rifa no meio da reunião e dura só uma hora. No encerramento da Reunião de Novatos de Segunda-Feira todo mundo levantou, se deu as mãos em círculo e recitou o “Só Hoje” aprovado pela Conferência do NA, depois todos recitaram o Pai-Nosso, não exatamente em uníssono. Kate Gompert depois jurou que ouviu nitidamente o cara mais velho e esfarrapado ao lado dela dizer “E não nos deixeis cair nessa Estação” durante o Pai-Nosso.

Aí, que nem no AA, a reunião do NA terminou com todo mundo gritando para o ar em frente Continue Voltando Porque Funciona.
Mas aí, de um jeito meio pavoroso, todos lá dentro começaram a andar por ali de maneira confusa, que nem uns malucos, se abraçando. Foi como se alguém tivesse ligado um botão. Não tinha nem muita conversa. Eram só abraços, até onde dava para Erdedy ver. Uma abraçação descontrolada e indiscriminada, cujo objetivo parecia ser abraçar a maior quantidade possível de pessoas por mais que você nunca as tivesse visto na vida. Carinha ia de pessoa em pessoa, de braços abertos, se chegando. As pessoas grandes se dobravam e as baixinhas ficavam na ponta do pé. Mandíbulas roçavam mandíbulas. Os dois gêneros abraçavam os dois gêneros. E os abraços homem–homem eram abraços puros, abraços sem os vigorosos tapinhas nas costas que Erdedy sempre tinha visto como uma espécie de requisito necessário para os abraços homem–homem. Johnette Foltz era quase um borrão. Ela ia de pessoa em pessoa. Ela contabilizava uma quantidade significativa de abraços. Kate Gompert estava com a sua cara desbeiçada de sempre, de uma insatisfação macambúzia, mas até ela deu e recebeu alguns abraços. Erdedy porém – que nunca tinha gostado muito de abraços – foi para bem longe da multidão, para perto da mesa de Textos-Aprovados-pela-Conferência-do-NA, e ficou ali sozinho com as mãos nos bolsos, fingindo examinar a cafeteira com grande interesse.
Mas aí um camarada afro-americano bem alto e pesado com um incisivo de ouro e um cilindro perfeitamente vertical de cabelo afro se destacou de uma espécie de abraço grupal ali perto, ele tinha detectado a presença de Erdedy, e o camarada veio e se postou bem diante de Erdedy, abrindo os braços da jaqueta camuflada para um abraço, curvando-se levemente e se aproximando da região torácica pessoal de Erdedy.
Erdedy ergueu as mãos num gesto inane de Não Obrigado e se afastou ainda mais até espremer a bunda contra a borda da mesa de Textos-Aprovados-pela-Conferência.
“Valeu, mas eu não gosto muito de abraço”, disse.
O camarada teve que meio que engatar uma ré na sua aproximação pré-abraço e ficou ali paralisado de um jeito inibido, com os braços ainda estendidos, o que Erdedy percebeu que devia ser constrangedor e vergonhoso para o camarada. Erdedy se viu tentando calcular que região subasiática remota estaria ao maior número possível de quilômetros de distância daquele ponto preciso naquele momento preciso enquanto o camarada continuava ali parado, braços estendidos e o sorriso lhe escorrendo rosto abaixo.
“Como é que é?”, o camarada disse.
Erdedy lhe ofereceu a mão. “Ken E., Ennet, Enfield. Como vai. A sua graça?”
O camarada foi abaixando os braços devagar mas só olhava para a mão que Erdedy oferecia. Uma única piscada estíptica. “Roy Tony”, disse.
“Roy, como vai?”
“Qual é”, Roy disse. O grandão agora estava com a mão que deveria ser apertada atrás do pescoço e fingia tatear a nuca, o que Erdedy não sabia que era uma megaofensa.
“Então Roy, se é que eu posso te chamar de Roy, ou sr. Tony, se você preferir, a não ser que seja um primeiro nome composto, com hífen, ‘Roy-Tony’, e depois vem um sobrenome, mas então esse negócio de abraços, Roy, não é nada pessoal, fica tranquilo.”
“Fica tranquilo?”
O melhor sorriso desamparado de Erdedy e um dar de ombros pesaroso do anoraque de Gore-Tex. “É só que eu não gosto muito de abraço. Não sou de dar abraço. Nunca fui. Era até motivo de piada na minha fam…”
Agora um ominoso indicador de agressão-de-rua apontado, esse tal de Roy indicando primeiro o peito de Erdedy, depois o seu: “Então, meu, quer dizer que cê tá dizendo que eu sou de dar abraço? Cê tá dizendo que eu ando dando abraço por aí?”
As mãos de Erdedy estavam com as palmas viradas para cima e se sacudiam num gesto de bonomia, de quem quer eliminar qualquer possibilidade de mal-entendidos: “Não mas ó a questão aqui é que eu não ia me dar esse direito de te classificar como quem gosta ou não gosta de abraço porque eu não te conheço. Eu só estou dizendo que não é nada pessoal, que tenha a ver com você enquanto indivíduo, e eu vou ficar mais do que satisfeito de apertar a tua mão, até com um desses apertos de mão étnicos complicadões com as duas mãos e tal se você aguentar a minha inexperiência nesse tipo de aperto, mas é que eu simplesmente não fico à vontade com essa coisa de abraços.”
Quando Johnette Foltz conseguiu se liberar e ir até eles, o camarada estava segurando Erdedy pela lapela impermeável do anoraque e inclinando o rapaz por cima da borda da mesa com os textos de modo que a bota de trilha de Erdedy estava fora do chão e a cara do camarada bem em cima do rosto de Erdedy numa claríssima demonstração de agressividade.
“Você acha que eu gosto dessa porra de ficar abraçando essa negadinha daqui? Você acha que alguém aqui gosta dessa merda? A gente faz o que eles mandam a gente fazer. Eles dizem que aqui é Orgulho sem Bagulho, aqui. A gente entregou a porra da nossa vontade aqui, mano”, Roy Tony disse. “Bichinha”, acrescentou. Roy enfiou a mão entre eles para apontar o próprio peito, o que significava que ele agora estava segurando Erdedy no ar apenas com uma mão, fato que não passou despercebido pelo sistema nervoso de Erdedy. “Eu tive que dar quatro abraços na minha primeira noite aqui, e aí eu saí correndo pra porra do lixo e vomitei. Vomitei”, disse. “Não tá à vontade? Quem é que você tá pensando que é, meu? Nem venha tentar me vim com essa de dizer que eu tou aqui à vontade com isso de tentar abraçar essa tua caveira de mané com esse cheirinho de loção de barba Calvin Klein e essas roupinhas James River Traders do caralho.”
Erdedy observou uma das mulheres afro-americanas que estavam olhando bater as mãos e gritar “Ai, doeu!”
“E agora você vem me desrespeitar na frente de toda a minha galera limpa e bria bem quando eu tinha ido correr o risco de dividir a minha vulnerabilidade e o meu desconsolo com você?”
Johnette Foltz estava meio que dando tapinhas nas costas da jaqueta camuflada de Roy Tony, estremecendo mentalmente ao pensar como ficaria no Registro de Funcionários um relatório de um residente da Ennet atacado numa reunião do NA aonde ela o tinha levado pessoalmente.
“Agora”, Roy disse, puxando a mão livre e apontando para o chão da sacristia com um gesto que era uma estocada, “agora”, ele disse, “você vai correr o risco da vulnerabilidade e do desconsolo e vai abraçar o meu caveirão, ou eu vou ter que arrancar a porra da tua cabeça e dar um cagão no teu pescoço?”
Johnette Foltz segurava o casaco do dito Roy com as mãos, tentando arrancar o camarada dali, derrapando de Keds no parquê, tentando conseguir apoio, dizendo: “Ô Roy T. chegado, sussa aí, véio, Meu, Chapa, Cupincha, Mano, Dez, Do-Bem, De-Casa, Mó-Legal, Irmão mesmo, ele só é novo e tal”; mas a essa altura Erdedy estava com os braços em volta do pescoço do cara e lhe dava um abraço tão vigoroso que Kate Gompert depois disse a Joelle van Dyne que parecia que Erdedy estava tentando escalar o sujeito.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Eu e você segundo David Foster Wallace - Caetano Galindo


Eu e você segundo David Foster Wallace 

Não é preciso se fazer de sério para dar conta de assuntos dolorosos
por Caetano Galindo: daqui:
Todo grande romance é uma tentativa de encontrar uma maneira de mostrar alguma coisa nova. As invenções técnicas e formais, as inovações temáticas, as constantes reinvenções do gênero romance... tudo serve, nos melhores casos, para um escritor dar a ver coisas que a tradição, até aquele momento, deixava de lado ou não conseguia elaborar plenamente. O romance cresce, acompanha, e até abre caminho.
Mas nem sempre. Mas nem todos.
Agora, frisando, todo grande romance é uma porta nova. Uma lente. Mas escrever um grande romance é coisa, claro, que depende de talento, depende da capacidade do autor. Só que depende, também (e cada vez mais eu me convenço disso), de uma decisão prévia, de como que um ato original de orgulho trágico, de soberba, de desejo de encarar aquele algo-novo. O sujeito precisa, antes de mais nada, querer grande. E precisa, para isso tudo não ser só orgulho vazio, ter uma leitura nova, assim, da vida, do universo, de tudo.
Excelentes romances já foram escritos sem essa pretensão. Péssimos romances já surgiram dessa mesma pretensão. Agora, quando esse diagnóstico novo, a coragem de tentar e a capacidade de dar cabo do projeto se juntam, o que acontece muda a literatura. Ah, muda. E muda os leitores.
Foi o que aconteceu em 1996, quando um carinha de 34 anos publicou um romance diferente de quase tudo, fruto de talvez dez anos de tentativas, abordagens variadas e todo tipo de desenvolvimento. Um sujeito tímido, de bandana, bermudão e óculos.
Quando David Foster Wallace publicou Graça Infinita ele era tudo menos um desconhecido. Já tinha publicado, em coautoria com um colega de universidade, um livro sobre rap (um dos primeiros tratados acadêmicos sobre o assunto) e, sozinho, um volume de contos e um romance filosófico-anárquico,que nada mais era que a sua monografia de conclusão do curso universitário de escrita criativa. (Ele se formou também em filosofia, e essa outra monografia viria a ser publicada depois da sua morte.
Mas pouca gente esperava do escritor nitidamente brilhante que já aparecia nesses primeiros textos o impacto de um livro como Graça Infinita. Aliás, pouca gente esperava de qualquer escritor, naquela altura do segundo tempo do jogo, um pancadão como aquele romance.
Sim, ele sempre escreveu (assim, no miúdo, no nível da frase, da invenção verbal) melhor que quase todo mundo. Sim, é verdade, ele já dava mostras de querer abraçar o mundo e, muito especialmente, a plena sensação de viver nos Estados Unidos dos anos 80/90. Sim, todo mundo esperava muito do rapaz.
Mas Graça Infinita tinha uma escala (1 079 páginas, com centenas de notas de rodapé), uma inventividade e uma abrangência que ninguém podia prever. Mesmo que essa abrangência e o seu impacto tenham vindo à tona meio devagar.
Porque assim de cara o que as pessoas viram, por assim dizer, foi a superfície reluzente do livro. O foguetório verbal, a infinidade de vozes e de personagens, a imaginação sem fim e, muito especialmente, aquele jeito meio bizarro de ele escrever uma prosa cheia de interrupções autoconscientes, cheia de apartes, bifurcações, dúvidas, ramificações múltiplas, correções e arrependimentos eternos, que parecia, para muitos críticos, representar bem demais o que poderia ser a “voz” interna da sua geração. O barulho do mundo que a gente interioriza e verbaliza quase sem querer. O som de uma geração criada num mundo entupido de informação, que encontrava ali o sujeito capaz de transformar aquele ruído permanente numa forma de arte, em prosa literária encantadora exatamente à medida que era incômoda, exatamente à medida que nos mostrava coisas que a gente não queria ver, de um jeito absolutamente delicioso.
Mas, com o passar do tempo (e inclusive com a publicação dos outros livros de contos de Wallace, que nunca mais terminou um romance), foi ficando cada vez mais claro para toda uma geração de leitores americanos, e para toda uma geração de escritores americanos, que Graça Infinita era muito mais do que isso...

David Foster Wallace cometeu suicídio em 2008. Ninguém entende os motivos de um suicida. Ninguém. A única pessoa talvez capaz de entendê-los é morta pelo ato. Nem mesmo quase suicidas que quase morreram dão relatos muito racionais e organizados. Eu? Nem tento.
Mas no mundo literário há de sempre restar a sombra de que o projeto talvez impossível do romance com que ele vinha lidando (The Pale King) talvez tivesse alguma coisa a ver com isso tudo. Agora, que tipo de escritor pode se envolver tanto assim com um projeto de romance, a ponto de deixar fãs aloprados pelo mundo pensando se por acaso não foi o livro?
E, acima de tudo, o que esse tipo de envolvimento teria a ver com hamsters selvagens, a Estátua da Liberdade usando fralda, catapultas de lixo nuclear, teatro de bonecos, fascismo nas quadras de tênis, baratas asfixiadas, reconfiguração cartográfica, ONANismo, assassinos cadeirantes e outros temas bizarros de Graça Infinita?
O livro não é engraçado? O livro não é até meio bobo?
É... o livro é engraçado. É, você pode chamar de bobo. Mas os bobos, desde sempre, tiveram a função de dizer o que os críticos do rei não podiam declarar sem perder a cabeça.
Thomas Pynchon, o próprio James Joyce, Machado de Assis, muita gente vem mostrando há séculos que você não precisa se fazer de sério para dar conta dos assuntos mais profundos, e às vezes mais dolorosos. E eles vêm mostrando há séculos, também, que o maior papel do romance, e da literatura, afinal, pode ser precisamente o de meter o dedo nessas partes que doem, de apontar coisas que a gente não queria enxergar. E se fazer você rir primeiro é o método mais adequado, ora, então cai na gargalhada, querida... rola de rir, amigão.

Porque depois da morte de Wallace a biblioteca dele foi doada para uma universidade. E entre seus livros, em geral anotadíssimos, apareceram romances e mais romances, poesia, filosofia e... livros de autoajuda! Ora, como é que pode um cara tão inteligente ler esse tipo de coisa? E as pessoas correram direto com uma explicação profissional: ele estava fazendo pesquisa.
Pode ser. Pode bem ser.
Mas ele era um sujeito angustiado. Angustiado para se entender, para entender os outros, para entender como cada um de nós pode tentar entender os outros, como cada um pode entender como os outros tentam entender os outros, e nós e (aaargh!) assim por diante.
Se há algo de quintessencialmente wallaceano são essas espirais, esses corredores de espelhos, esses caminhos circulares que levam para dentro depois de passar por dezenas de lugares, centenas. Mas, ao mesmo tempo, talvez o segundo tema mais profundamente típico da sua obra seja o paradoxo, o beco sem saída do claustrofóbico em crise preso na minúscula solitária do hospício e que só pode sair dali quando parar de gritar.
E lidar com esses dois processos, com a tentativa constante e o seu resultado frustrante, precisou, para ele, de livros, e de livros de tudo quanto era tipo. Não só lidos, mas escritos.
Ele praticamente reinventou a escrita de não ficção com ensaios imensos que não parecem nada que você tenha lido antes. Ele escreveu alguns dos contos mais originais, mais imaginativos, mais longos, densos e brilhantes que você pode ler em inglês. Ele escreveu um clássico sob forma de discurso de formatura! Ele foi o cara que conseguiu fazer o final “e era tudo apenas um sonho” virar uma pancada formal totalmente inédita! Ele escreveu um conto lindo sobre cocô, meu!
Mas o mais impressionante dessa abundância, dessa fertilidade aparentemente sem fim, dessa honestidade e desse total comprometimento com o “humano”, com a “empatia”, a “compassividade”, com as tentativas de entender a solidão, o amor, as faltas, os vícios, é que tudo está inaugurado e profundamente desenvolvido em um só livro. Graça Infinita tem mais de mil páginas, mas se você para e decide tentar avaliar a quantidade de coisas que ele estava tentando realizar, abarcar ali, percebe que o livro até parece pequeno.
Porque entre as muitas coisas que aquele sujeito queria fazer, que ele achava importante fazer, entre as muitíssimas coisas que o moviam e que eram fundamentalmente iguais às que moveram Dickens, Tolstói, Proust, Mann e companhia limitada, havia algo que pertencia exclusivissimamente a esse mundo dos Estados Unidos no fim do (saudoso?) século XX (e não se iluda: é o nosso mundo).
Porque ao mesmo tempo que Shakespeare, Homero, Terêncio e Cervantes fazem sentido precisamente porque escreviam sobre gente que não era fundamentalmente estranha a mim, a você, nós hoje passeamos por um mundo que joga coisas bem diversas na nossa cara. E a gente, por isso, anda meio diferente.
E exatamente como Wallace resolveu encarar o problema do excesso de informação simultânea na prosa mais veloz e onívora que você já leu (já se disse que não foi à toa que ele encontrou seu público especialmente na geração pós-internet), ele também precisou resolver um outro, digamos, probleminha do nosso mundo cínico, inteligente, letrado e sofisticado: Por que a gente precisa falar coisas como “humano”, três parágrafos atrás, entre aspas? Por que a gente deixou uma parcela tão imensamente importante do projeto de entender a nossa vida e a vida dos outros para algo tão barato como a literatura de autoajuda? O que foi que deu errado? Esse não era o grande papel da grande literatura? Onde foi que a ironia elegante do modernismo se transformou na ironia comercializada/institucionalizada e cool dos anos 80?
Por que que é tão difícil abraçar o Roy Tony?
E bem-vindos à Organização das Nações da América do Norte (ONAN) no Ano da Fralda Geriátrica Depend, na cidade semificcional de Enfield, subúrbio de Boston (existiu uma Enfield, no mundo real, mas hoje ela está embaixo de um lago...). Bem-vindos à companhia da família Incandenza (a família mais disfuncional da história); ao grupo dos internos da Casa Ennet de Recuperação de Drogas e Álcool (sic); a um mundo regido pelos Transtornos Obsessivos do presidente Johnny Gentle (a Voz de Veludo); à mente genial e enlouquecida de James Orin Incandenza, Sipróprio, como seus filhos o chamavam, criador da potencial arma terrorista/solipsista que é o filme Graça Infinita.
Sintam-se (quero ver...) à vontade.

A estagnação dos políticos - Renato Janine Ribeiro

VALOR ECONÔMICO - 10/11/2014

Um abismo separa o modo de vida dos políticos e o dos jovens. Não espanta que não entre sangue novo na política 

 
Uma pergunta: se nas empresas a renovação dos quadros seguisse o mesmo ritmo da política - devagar, quase parando - o que seria delas? E a mesma pergunta vale para as universidades, as artes, um pouco tudo. Da boca para fora, dois terços de brasileiros disseram a sucessivas pesquisas que queriam "mudanças". Na hora do vamos ver, deixaram quase tudo como estava. José Roberto de Toledo mostrou que, dos 27 governadores eleitos, apenas quatro representam algum tipo de renovação. Mesmo entre os deputados novos, boa parte é Filho ou Neto. Várias famílias mandam na política há gerações.


Num mundo que muda a uma velocidade surpreendente, em que a palavra "inovação" assume vários sentidos mas em todos eles constitui prioridade, das empresas à política e à vida pessoal, como entender que nossa vida eleitoral seja um forte baluarte contra o novo? Porque isso é um enorme problema para nós. A baixa renovação política - não só dos governantes, mas das lideranças e mesmo quadros - torna difícil o país se adaptar a ideias novas, a projetos diferentes, em suma, lidar com um mundo em transformação.

Olhemos as fotos. Os políticos são, na grande maioria, homens. Mesmo tendo uma mulher na chefia do Estado, como Dilma Rousseff, seus colaboradores são quase todos do sexo masculino. Vestem terno e gravata. Seu descompasso visual é enorme com o país que representam. Podem variar na qualidade e estética do corte, mas as cores que predominarão em seus costumes serão as escuras. Na galeria do poder, quem destoa são os artistas ou gente da cultura - ou deixando o terno de lado, como Gilberto Gil, ou usando-o mas com cores berrantes, alegres, no paletó ou na camisa.


Por que falta sangue novo na política

Um século atrás, qualquer foto de homens da classe média para cima, num lugar público, os apresentaria de terno e chapéu. Podia haver um abismo entre representantes e representados, mas o código de vestimenta, excluídos os pobres, era parecido. Hoje, não é mais. Vejo isso nas universidades. Reitores e dirigentes usam terno. Professores, exceto na área de direito, não. Até parece que os que mandam na universidade se vestem para as instâncias de poder externas a ela, não para as instâncias de produção do saber que nela existem.

Já li a historinha que se segue narrada de várias formas. Um profissional de recursos humanos recebe um candidato, encaminhado pelo pai, que tem amizade com algum diretor. O rapaz se sente mal no terno que veste, está tenso, não cabe no lugar nem no emprego. Mas, a certa altura, o entrevistador tem um "insight" e pergunta ao jovem o que ele gosta mesmo de fazer. Os olhos brilham e o rapaz conta. Adora ouvir "heavy metal" enquanto lida com o computador. Em suma, ele é um gênio da informática ou do "design", e veste roupas confortáveis, às vezes desengonçadas, tem "piercings" e tatuagens. Foge completamente ao padrão de quem trabalha na empresa. Mas é um gênio - que o entrevistador contrata, para uma jornada ou local de trabalho que não é nada usual.

Essa historinha tem muitas versões, pode ser verdadeira ou não, mas deve ter acontecido mil vezes. Porém, sempre é contada como exceção, como surpresa. Está na hora de torná-la mais frequente. Está na hora de compreender que os costumes mudaram!

Imaginem isso na política. Os candidatos se curvam a um modelo que já está pronto. Quem quer isso? A grande maioria não quer. Nas eleições deste ano, só vi espírito jovem no PSOL - o partido supostamente radical de esquerda. Recomendo, no YouTube, o clipe "Política não é para os engravatados", da vereadora Fernanda Melchionna, de Porto Alegre. Ela discute o projeto de lei de um colega, regulamentando as vestimentas das vereadoras (!!), e ironiza a exigência de usarem gravatas.

O exemplo que dei pode não parecer feliz para os empresários, que na maioria vestem terno e gravata. Mas quis ilustrar o abismo que há na política, entre representantes e representados, não só em ideias e projetos políticos, mas principalmente no modo de ser. Nossos eleitos têm pouco a ver com o sangue novo que pulsa na sociedade. Durante muitos anos, a política recebia transfusão de sangue de figuras inesperadas, heroicas até, mas que ela vampirizava. Lembro Mário Juruna, o cacique xavante que ia ver os ministros da ditadura de gravador em punho, para depois denunciar promessas não cumpridas. Morreu pobre e esquecido, em 2002. De lá para cá, cada vez menos sangue novo chega à política. As manifestações pelo impeachment de Collor, em 1992, consagraram apenas o presidente da UNE, Lindbergh Farias, hoje senador pelo Rio. Este ano, só o PSOL parece que lançou a candidatura de participantes das manifestações de 2013. A maior parte não se elegeu.

A política é pouco atraente para quem sente latejar a criatividade. Isso me preocupa. Sei que a demanda por mudanças é muito vaga. Mas há um descontentamento difuso em nossa sociedade. Os políticos preferem dizer, contra tudo o que se conhece de protestos deste gênero desde 1968, que ninguém sabe a que se devem nossas manifestações (o que é mentira). As eleições ignoraram o mal-estar de 2013. Mas ele permanece inteiro. A modorra e a pasmaceira venceram a curto prazo, porém permanece a insatisfação. Mal surgem novos líderes na política. Um partido que raras vezes mencionei nesta coluna, o PSOL, é o único que discute esta questão. Ele pode ter mais futuro do que parece em nossas análises realistas, que triangulam a política entre PT, PSDB e o que ainda não sabemos se é Rede ou PSB. Porque é cada vez menos provável um jovem cheio de vida e de ideias ingressar na política como ela é. E nesta eleição pioramos. O descontentamento é o maior em trinta anos de democracia, os protagonistas os menos empolgantes.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. E-mail: rjanine@usp.br