sábado, 29 de novembro de 2014

HQ é o que há - João Paulo

Novos álbuns em quadrinhos mostram a força da arte sequencial, com adaptações de clássicos, romance de guerra e até mesmo a breve história do golpe civil-militar de 1964


João Paulo
Estado de Minas : 29/11/2014



As histórias em quadrinhos têm história. Das revistas infantis às adaptações de clássicos, passando por obras feitas especialmente para a linguagem sequencial de texto e desenhos, hoje se constituem num setor de destaque da indústria editorial. Não se trata mais de um artifício ou de uma possibilidade, mas de um território próprio, cada vez mais autônomo, criativo e original. A nova safra de produções nacionais e internacionais que acaba de chegar às livrarias é um bom exemplo deste movimento.

O primeiro destaque fica para a Barricada, segmento ligado à Editora Boitempo dedicado especialmente aos quadrinhos. Com conselho editorial formado por Luís Gê, Ronaldo Bressane, Rafael Campos e Gilberto Maringoni, o selo, como o nome indica, está voltado para títulos que tenham conteúdo libertário. Um bom exemplo desse projeto (que segue a própria linha da editora-mãe, responsável pela melhor edição das obras de Karl Marx no Brasil) é o álbum Último aviso, da feminista alemã Franziska Becker, lançado este ano.

O mais recente título da Barricada é o parrudo álbum Cânone gráfico – Clássicos da literatura universal em quadrinhos, organizado por Russ Kick. Trata-se, na verdade, do primeiro volume de uma trilogia, cobrindo o período que vai da Epopeia de Gilgamesh, uma das mais antigas obras literárias da humanidade, às Ligações perigosas, de Chordelos de Laclos, romance epistolar do século 18. Entre uma obra e outra, o antologista percorreu séculos, formas literárias, estilos e continentes.

O livro reúne 51 obras que ganharam tratamento em quadrinhos por alguns dos mais conhecidos nomes do gênero, como Robert Crumb, Will Eisner, Hunt Emerson, Peter Kuper e Seymour Chwat, entre outros. Há um pouco de tudo: poemas (entre eles dois sonetos de Shakespeare), epopeias, peças de teatro, romances, livros religiosos, tragédias, comédias, contos, textos filosóficos, diários e histórias infantis. A variedade de formas é um estímulo a mais para os quadrinistas e o resultado traz uma pletora de soluções gráficas originais.

Entre as obras clássicas adaptadas por quadrinistas selecionados por Russ Kick estão Ilíada, de Homero, por Kate Dixon; Medeia, de Eurípides, em adaptação de Tori McKenna; Tao te ching, de Lao-tsé, por Fred van Lente e Ryan Dunlavey; Apocalipse, por Rick Geary; Poemas, de Rumi, por Michael Green; A divina comédia, de Dante, por Seymour Chwast; o livro sagrado quiche Popol Vuh, por Roberta Gregory; Rei Lear, de Shakespeare, por Ian Pollock; Dom Quixote, de Cervantes, por Will Eisner; e Diário londrino, de James Boswell, por Robert Crumb.

O antologista escolheu um capítulo ou parte de cada livro adaptado, que ganha uma introdução com breve explicação da obra original. Geralmente, as versões em quadrinhos de obras literárias se destacam pela busca de tradução da história em outra técnica, com atenção sobretudo ao texto. No caso do Cânone gráfico, o cuidado maior é com o desenho. Não se trata de uma mera “transcriação” de um registro em outro (da literatura para os quadrinhos), mas de uma colaboração entre artistas de épocas e expressões distintas.

É um álbum que reúne criatividade espantosa para traduzir obras tão distintas. Há histórias em quadrinhos tradicionais, experimentos gráficos, pranchas coloridas, desenhos sem texto, estética underground, emulação da arte oriental clássica, abstrações, uso do humor, da paródia e de citações da história da arte. Um catálogo completo da arte dos quadrinhos a serviço de obras-primas da literatura.

Devastação

Outro lançamento recente no mercado de graphic novels é Kapputt, obra de Curzio Malaparte, com adaptação e arte de Guazzelli (WMF Martins Fontes). O ilustrador e quadrinista brasileiro tinha um desafio e tanto pela frente. A obra do jornalista e escritor italiano é um dos clássicos sobre a Segunda Guerra e a representação do nazismo e do fascismo. Malaparte é neorrealista, mas não como os diretores de cinema. É um tipo peculiar de escritor, que mescla realidade e ficção com técnicas de reportagem, com o interesse em flagrar o mal e a miséria, fazendo uso de um profundo senso metafórico. Kapputt é por isso um livro ao mesmo tempo real a simbólico.

Guazzelli captou bem o universo do escritor. Exacerbou a presença dos animais em sua obra, criando visões disformes e técnicas próprias para cada capítulo (todos têm nome de um bicho ou inseto). O resultado é devastador: ao mesmo tempo um retrato de época e um espelho da maldade humana, em que há muitos traços ainda hoje reconhecíveis. Não se trata do horror do nazifascismo, mas do pendor do homem ao mal. O tom dos desenhos é escuro, há poucas cores (aquarelas esmaecidas como memórias vagas) e o texto é quase uma legenda exata para a atmosfera destacada.

A violência ronda cada quadro. Os cenários são sempre lúgubres, as cidades parecem adormecidas, os sons mais ouvidos são de tiros. Um trem atravessa a paisagem. Sabe-se, ou intui-se, o que trazem em seus vagões de carga. Ao fim, um cadáver balança em um galho. Não é uma morte isolada, mas um alerta do que somos capazes de fazer e da indiferença que muitas vezes nos faz virar o rosto a outras violências, menos explícitas, mas igualmente próximas.
Outro clássico marcado pela proximidade com o horror, recentemente lançado em quadrinhos no Brasil, foi Coração das trevas, de Joseph Conrad, com desenhos de Catherine Anyango e roteiro de David Zane Mirowitz (Editora Veneta). O livro é mais conhecido por sua adaptação para o cinema, Apocalipse now, dirigida por Francis Ford Coppola. Aqui, também em função da atmosfera – de pesadelo e indistinção geográfica sobre onde seria de fato o “coração das trevas” – os desenhos são sombrios e os enquadramentos cinematográficos ora miram nos detalhes, ora se afastam da cena como se não a compreendesse.
O roteirista funde habilmente a narrativa com experiências do autor no Congo Belga, além de deixar aberta a trilha da imaginação para outras operações de rapina, que ainda hoje marcam o contato com o continente africano. Sem falar do racismo presente na narração conradiana, um traço de época, mas ainda vigente nas sombras da intolerância contemporânea. Sem falar da sedução algo inexplicável pelo personagem central um contrabandista de marfim. A história começa e termina nas trevas. O horror de ontem talvez não esteja tão distante do atual. Nem seus funcionários devotados menos cruéis – e admirados no cumprimento de suas metas. 

Ditadura

Lançamento recente que merece destaque é O golpe de 64, de Oscar Pillagallo e Rafael Campos Rocha (Editora Três Estrelas). Como se trata de conteúdo histórico, o maior mérito é a correção das informações. Com caráter quase didático – é um bom material de apoio para professores –, o livro se concentra mais no golpe. Dos seis capítulos, apenas o último é dedicado à ditadura e suas consequências, ainda assim de maneira mais sumária. O objetivo é traçar a gênese da quartelada de março de 1964.

O interesse dos autores foi apresentar os fatos políticos que antecederam o golpe civil-militar, retrocedendo ao suicídio de Getúlio Vargas, em 1954. A história segue com as tentativas de inviabilização do governo JK, com a pressão conservadora em torno de João Goulart, a resistência, o clima de conspiração na caserna e a atmosfera cultural do período. Pilagallo destaca os principais personagens e suas falas: as legendas e balões com dizeres são quase uma antologia de momentos marcantes do período, pela voz de seus atores mais importantes.

O golpe de 64 é quase um álbum paradidático, sobretudo pela costura sucinta dos fatos e correta seleção de interpretações mais canônicas. O desenho de Rafael Campos Rocha oferece um bom suporte para o roteiro, sobretudo pela visão sagazmente caricata das personagens, mas não chega conduzir a narrativa nem dá a ela uma dinâmica própria. A se destacar a inspiração ética que comanda a estética: a esquerda é sempre digna, os milicos uns brutamontes. Ponto para Rafael. A dupla deveria dar continuidade ao projeto, numa trilogia que abarcasse o período da ditadura e, ao fim, trouxesse a história da redemocratização do Brasil. Os leitores jovens merecem e os autores devem estar bem afiados depois do primeiro desafio. 

 CÂNONE GRÁFICO: CLÁSSICOS DA LITERATURA UNIVERSAL EM QUADRINHOS, VOL. 1
. Organizado por Russ Kirk
. Editrora Barricada, 456 páginas, R$ 118

KAPUTT
. De Curzio Malaparte, adaptação e arte de Guazzelli
. Editora WMF Martins Fontes, 184 páginas, R$ 59

CORAÇÃO DAS TREVAS
. De Joseph Conrad, adaptação de Catherine Anyango e David Zane Mairowitz
. Editora Veneta, 128 páginas, R$ 39,90

O GOLPE DE 64
. De Oscar Pilagallo e Rafael Campos Rocha
. Editora Três Estrelas, 120 páginas, R$ 34,90

Efeito Pearson - Eduardo Almeida Reis

O bandido que matou o chofer se vangloriou pelo celular. Não cometeu um crime e sim um ato infracional: menor, é inimputável


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 29/11/2014




Ainda que devagarinho, as últimas eleições acusaram o Efeito Pearson em diversas regiões deste país grande e bobo. A começar pelo médico Agnelo dos Santos Queiroz Filho, o radialista Anthony William Matheus de Oliveira, o ex-líder estudantil Luiz Lindbergh Farias Filho, o médico Alexandre Rocha Santos Padilha, o economista Eduardo Matarazzo Suplicy, a advogada Gleise Helena Hoffmann, o médico Cândido Elpídio de Souza Vaccarezza, o engenheiro e economista Edison Lobão Filho, a raiventa Luciana Krebs Genro, seu genitor, o advogado Tarso Fernando Herz Genro, o bispo Marcelo Crivella e vários outros brasileiros e brasileiras.

Como sabe o leitor, o Efeito Pearson resulta de uma fórmula que mistura cresóis e fenóis associados a hidrocarbonetos aromáticos na forma miscível, produzindo um tipo de emulsão essencialmente fina em diluição na água. Assegura o mais amplo espectro de ação bacteriana sobre os microorganismos Salmonella typhimurium, Pseudomonnas aeruginosa, Staphylococcus aureus, Listeria monocytogenes, Escherichia coli e sobre muitos políticos brasileiros. É a Creolina Pearson, que deve ser usada como desinfetante de instalações agropecuárias como pocilgas, galpões e estábulos, no tratamento das miíases (bicheiras) e nas urnas eletrônicas em soluções de 2% a 4% em água. Cuidado: não usar em felinos!

Crimes

Sempre que alguém queima um ônibus – em cinco dias, só em Santa Catarina, foram 17 – o telejornalismo fica preocupado com os motivos, como se houvesse motivo para botar fogo num ônibus. Virou moda no Brasil inteiro. Em São Paulo, dia desses, o fogo alcançou o motorista, que morreu dois dias depois. Em São Luís (MA), o pobre motorista teve queimaduras tão sérias que passou semanas numa UTI. O bandido que acabou matando o chofer paulista se vangloriou do homicídio em telefonema pelo celular. Não cometeu um crime e sim um ato infracional: menor, é inimputável. E tem por ele o papa Francisco recomendando que não se punam os menores, coitadinhos, o que não impede que sejam estuprados por alguns clérigos.
Duvido que a psiquiatria forense possa explicar certos crimes. Thiago, o vigilante goiano, autor confesso de 39 homicídios, assaltou dois rapazes que tomavam cerveja num bar. Chegou de moto com capacete, apontou o revólver, tomou o dinheiro e os celulares dos dois.

Em seguida, devolveu espontaneamente os celulares e o dinheiro antes de atirar num deles, que morreu. O sobrevivente contou, como vi na tevê, que Thiago estava de capacete, mas tem certeza de que foi ele, porque o reconheceu pelos olhos. Homessa! Foi exatamente pelo olhar que analisei o maluco e escrevi sobre o fato, considerando que não tem o tipo lombrosiano, mas o seu olhar de viés é indicativo do que lhe vai pelos miolos.

Coragem

Magro, bons dentes, cabelos brancos, o psicanalista Contardo Calligaris, de 68 anos, não tem medo de dizer o que pensa. Nascido na Itália, formado em letras, doutor em semiologia, doutor em psicologia clínica pela Universidade de Provença, na França, casado desde 2011 com a atriz Mônica Torres, foi muito feliz no Manhattan Connection do dia 26 de outubro, logo depois das eleições.

Perguntado sobre a possibilidade de contar com a senhora Rousseff como sua paciente, explicou que seria complicado, porque ela teria que ouvir alguém. Trabalhando “diuturna e noturnamente” pelo bem do Brasil, a senhora Rousseff não dispõe de tempo para ouvir ninguém. Se dispusesse, saberia que “diuturna e noturnamente” não existe em português, considerando que o adjetivo diuturno significa “que se prolonga, prorroga ou protela no tempo; prolongado, longo; demorado, que subsiste por muito tempo”. Noturnamente não existe na consulta eletrônica ao Volp da Academia Brasileira de Letras, mas a senhora Rousseff pode falar com o seu inventor, o honoris causa da Silva, que assinou o Acordo Ortográfico e deve conhecer o sufixo -mente, do latim mens,mentis 'espírito, alma', na formação de advérbios com a noção de 'maneira, modo': fielmente, regularmente, mesmo porque mente muito.

O mundo é uma bola

Veja o pacientíssimo leitor como são perigosos certos ensinamentos da Wikipédia. Descubro que no dia 29 de novembro de 1643 dom João VI criou o Ministério da Justiça no Brasil. Providência difícil, porque dom João VI, aliás João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís António Domingos Rafael de Bragança, nasceu em 1767 e foi a óbito em 1826. Nomes reais são muito compridos, enquanto os plebeus podem ser deliciosos como o da garçonete que pesava minhas marmitas no Couve-Flor: Kerollay. É dos melhores nomes que tenho visto nestes últimos 50 anos. Ainda sonho ver o Brasil entupido de Kerollays e o Google já tem 30.000 entradas para Kerollay.

Em 1877, inauguração da primeira instalação telefônica do Brasil, no Rio de Janeiro, durante o governo do neto de dom João VI. Em 1888, o físico alemão Heinrich Rudolf Hertz prova a existência das ondas eletromagnéticas. Em 1929, isto é, ainda “outro dia”, o almirante norte-americano Richard Byrd foi a primeira pessoa a sobrevoar o Polo Sul. Em minha esplendorosa ignorância pensei que Byrd, em inglês, fosse passarinho, mas é bird, que na Inglaterra também significa "gatinha".

Ruminanças


“Mau caráter: um homem cujas qualidades, preparadas para mostrar como uma caixa de frutas no mercado – as boas para cima – foram abertas do lado errado. Um cavalheiro invertido” (Ambrose Bierce, 1842-1914). 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Internet - Eduardo Almeida Reis

Em seu blog você pode escrever que não gosta de determinada artista, de determinado jornalista, que não gostou de um livro que comprou


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 28/11/2014



Volto à internet, assunto inesgotável, para conversar com o leitor sobre algumas coisas que tenho visto. Você pode ter um blogue, milhões de pessoas têm. É uma página pessoal, atualizada periodicamente, emque os internautas podem trocar experiências, comentários etc., geralmente relacionados com determinada área de interesse. Vem do inglês blog, que por seu turno veio de web-log, diary on Web site. Blogue é frescura: todomundo escreve blog.

O Brasil é o terceiro maior país em número de internautas ativos. Terminamos o ano passado com 52,5 milhões, perdendo somente para os Estados Unidos, que têm 198 milhões, e para o Japão, com 60 milhões. Entre osinternautas, o número de blogueiros cresce assustadoramente, o que não quer dizer que todos tenham muitos leitores.

Há campeões de audiência, como o http://dropsdafal.com, através do qual conheci Fabia Vitiello e seu marido, Alexandre Azevedo Cardoso, que nos deixou em 2007. Ela, sexóloga, admirável escritora, líder de audiência nos blogs; ele, primeiro lugar no ITA, vestibular de 1972, executivo de multinacional. Portanto, pode existir vida inteligente, no caso muito inteligente, na blogosfera, como também há do resto, que nem sempre é bom.

Em seu blog você pode escrever que não gosta de determinada artista, de determinado jornalista, que não gostou de um livro que comprou. Direito seu. Pedi à jovem secretária que me comprasse A vida louca dos revolucionários, de Demétrio Magnoli, e o Guia politicamente incorreto da história do mundo, de Leandro Narloch, ambos da Editora LeYa.

Devem ser ótimos, mas são ilegíveis por obra e graça do diagramador, do capista, do produtor gráfico da LeYa que inventam fontes originais, papéis de tintas de várias cores e devem ganhar com sua invenção gráfica o Nobelda imbecilidade editorial.

Volto ao seu blog para dizer que, no meu modesto entendimento, você pode escrever que não gosta de uma artista, de um determinado jornalista, mas não pode dizer que ela é uma puta e ele é venal. Talvez sejam, mas você não pode escrever: é crime. Tenho visto muitíssimos crimes desse tipo em alguns blogs que andei lendo. Que fazer?

Glória

Rainha Vitória, Agatha Christie, Margaret Thatcher, Cleópatra, Catarina II, a Grande, Isabel I de Castela, Jacqueline Kennedy, Elizabeth Taylor, Marie Curie e milhares de outras mulheres que, de uma ou de outraforma, tiveram expressão política, literária, artística e científica, passaram desta para a pior sem conhecer a felicidade, a importância e a glória suprema de Bruna Reis Maia, nascida em 1995 na violenta cidade deDuque de Caxias (RJ), que usa o nome artístico de Bruna Marquezine, é evangélica e vem de ser considerada a mulher mais sexy do mundo: namorou Neymar.

Catarina II, a Grande, que gostava da coisa, teve no leito uma porção de rapazes, o último dos quais 40 anos mais novo que ela, mas não namorou Neymar. Qual a importância de ser a imperatriz de uma das maiores potências europeias, de ampliar e modernizar o Império da Rússia, sem ter tido a glória de transar com o Neymar?
No mais, só dizendo como Robinho, quando acusado de participar de um estupro coletivo na Itália: “Todos conhecem o meu caráter”.

Testemunhas

Romeiro Neto arrolou 12 prostitutas como testemunhas de defesa do seu cliente num crime cometido no Mangue, zona do mais baixo meretrício do Rio daquele tempo. Questionado pelo promotor, perguntou: “Deum crime no Mangue, às duas da manhã, o ilustrado representante do Ministério Público gostaria que a defesa arrolasse como testemunhas 12 alunas do Colégio de Sion?”.

É o que me ocorre quando vejo os depoimentos do engenheiro Paulo Roberto Costa, o Paulinho do Lula, e do operador de câmbio negro Alberto Youssef, sobre os governos petistas. Razão tem o presidente do PT, Rui Goethe Falcão da Costa Falcão, quando fala sobre jornalismo de esgoto. Alguém conhece mais o material que circula nos esgotos do que Rui Goethe, nascido em Pitangui (MG)?

O mundo é uma bola

28 de novembro de 1660: em Londres, fundação da Royal Society. Repito: em 1660. Li outro dia que o parlamento britânico custa ao povo a décima parte, isto é, 1/10 do custo do Congresso brasileiro. Em contrapartida, o parlamento britânico nunca teve a honra de ser presidido por um Renan, um Sarney.

Em 1860, emancipação do município de Franca, polo calçadista paulista. Durante anos, morando em BH e visitando regularmente Capitólio (MG), onde fica o condomínio Escarpas do Lago, ameacei dar um pulo à vizinha Franca para comprar botinas. Fiquei nas ameaças.
Em 1991, fato espantoso: declaração de independência da Ossétia do Sul. Por que espantoso? Ora, porque a Ossétia do Sul não foi reconhecida. A maioria dos países da ONU considera a Ossétia do Sul parte integrante da Georgia, mas em agosto de 2008 o parlamento e o presidente da Rússia anunciaram o reconhecimento formal da independência da região juntamente com a daAbcásia. Hoje é o Dia do Soldado Desconhecido.


Ruminanças
A burrice tem avançado muito; a burrice ganhou status de sabedoria, porque com o mundo muito complexo, os burros anseiam por um simplismo salvador” (Arnaldo Jabor).

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Só agora? - Eduardo Almeida Reis

Só agora?


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 27/11/2014




 (LELIS)


E dizer que o jornalista Walter Sebastião aguardou minha mudança para dar notícia do pintor Antônio Dionísio da Cruz, de 77 anos, residente no Bairro Jardim Atlântico, na capital de todos os mineiros ou de parte deles. Guimarães Rosa escreveu: “Minas é muitas”, assim mesmo. Descobri nas eleições de outubro, com imensa tristeza, que há mineiros e mineiros.

Volto ao pintor. Se ainda morasse em BH, descobriria onde fica o Jardim Atlântico para comprar alguns quadros do Dionísio. Sua pintura bateu com o meu gosto. Entre os muitíssimos significados do verbo bater, “estar em concordância” congemina com o que achei da pintura do artista: gostei muito e gostaria de recobrir as paredes do apê com alguns dos seus quadros.

Aquele quadro O Grito, de Edvard Munch, que foi vendido num leilão por US$ 119,9 milhões, não penduro na parede nem de graça. Gosto não se discute, não se explica nem se transmite por via paterna. Há 15 anos tenho escultura lindíssima, que já não tenho onde pendurar. Dei a peça a uma de minhas filhas, que até hoje não encontrou espaço em sua imensa casa para exibir o presente do pai. Fazer o quê?

Internet

Cavalheiros e damas ocupados não têm tempo de passear pela internet lendo parte do que se escreve sobre todos os assuntos. Parte: pequena porção de um todo. É tanta coisa publicada que, lendo o dia inteiro, não há tempo para acompanhar o que sai em português numa só hora.

Hoje, contudo, procurando informações sobre determinada jornalista conhecida – do tipo casamento, idade, filhos etc. –, acabei sem saber se a moça é casada, quantos anos tem, se tem filhos, e fiquei horrorizado com o que escreveram sobre ela. E a postagem, texto imenso, foi de hoje. Nunca imaginei que se pudesse escrever e lançar na internet um texto daquela ferocidade em português correto, posto que meio confuso. Como há 250 mil entradas sobre a jovem senhora – duzentos e cinquenta mil! –, presumo que muita gente fale bem e muita gente fale mal.
Que coisa, hein? E o fenômeno é recente. A transmissão do primeiro e-mail da história ocorreu no dia 29 de outubro de 1969, vejo na própria internet, mas a vulgarização do negócio tem no máximo 20 anos. Em 1996, quando me mudei para Belo Horizonte, a um quarteirão do Shopping Diamond Mall, tive internet na velocidade de jabuti preguiçoso.

Agora, o Brasil inteiro fala das redes sociais, essencialmente antissociais, que servem para tudo, até para marcar brigas de torcedores dos times de futebol. Bela sociabilidade. Estudiosos sérios sustentam que o país tem 70% de analfabetos funcionais, isto é, indivíduos cujas habilidades de leitura e escrita são insuficientes para atender às necessidades práticas do dia a dia e para promover o seu desenvolvimento pessoal e profissional.

Red discus

O mundo da pesca e do comércio de peixes ornamentais é muito maior do que se possa imaginar. Há revistas e livros especializados, produção e comércio de aquários, loucura total. Fui colega de trabalho de um brasileiro que fabricava aquários e me contou história interessante sobre o acará-disco, nome comum de todas as espécies de peixes de água doce classificadas no gênero Symphysodon, família dos ciclídeos, comuns na América do Sul nos rios amazônicos do Brasil, do Peru e da Colômbia. Têm formato discoide, cores originais, atingem 15 centímetros em média e são muito populares no mundo inteiro.

Espécie ornamental e pacífica, exigente quanto à qualidade (limpeza) da água, faz um sucesso danado. Meu colega e seus companheiros de pescaria pegaram vários acarás-discos de cor desconhecida, vermelho forte, e se apressaram a publicar as fotos numa revista internacional. Como bons brasileiros, se esqueceram de dizer que o vermelho resultava de umas frutinhas que existiam no lago amazônico em que pescaram e que o acará-disco, depois de uns dias sem comer as frutinhas, voltava às cores normais.

Pra quê? Pouco tempo depois, por meio da revista, receberam carta de um milionário americano que os convidava, citando-os pelos nomes, a viajar para o tal lago em seu jato particular, todas as despesas pagas. Viria ao Rio para apanhá-los com o seu jatinho e no Amazonas pescariam Red discus no lago, viajando em hidroavião alugado por ele, champanhe, caviar e uísque incluídos no convite. Levaram meses fugindo do milionário e da revista para não contar que o Red discus das fotos era resultado da frutinha.

O mundo é uma bola

27 de novembro de 1807, diz a Wikipédia, “a família real portuguesa foge para o Brasil na sequência da invasão do país por tropas napoleónicas”. Pelo napoleónicas dá para perceber que o texto foi escrito em Portugal. Parece-me que “foge” é pouco simpático: prefiro “transmigra”, do verbo transmigrar: mudar(-se) de uma região, país etc. para outro.

Em 1912, França e Espanha assinam um tratado segundo o qual todas as terras do que é atualmente Marrocos, ao sul do Rio Drá, passariam ao domínio espanhol; esse território teve as designações de colônia de Cabo Juby e zona sul do protetorado espanhol de Marrocos.

Hoje é o Dia do Técnico de Segurança no Trabalho.

Ruminanças

“O trabalho é a maldição das classes bebedoras” (Oscar Wilde, 1856-1900).