quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Chuteiras - Eduardo Almeida Reis

Dando tratos à bola, creio ter descoberto o segredo de sua ubiquidade televisiva: deve ser simpático, levar doces de caju para os editores


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas : 11/12/2014



Sutor, ne ultra crepidam é uma expressão latina que significa “Sapateiro, não acima da sandália”, usada para restringir os julgamentos à especialidade do crítico. Teria aparecido originalmente na Naturalis Historia de Plínio, o Velho [XXXV, 85 (Loeb IX, 323-325)] quando conta que o sapateiro (sutor) aproximou-se do pintor Apelles de Kos apontando um defeito na pintura de uma sandália (crepida do grego krepis), que Apelles imediatamente corrigiu. Animado com isso, o sapateiro começou a criticar outras partes da pintura, o que levou Apelles a dizer que o sapateiro não deve criticar acima da sandália.

Num livro de R. Magalhães Júnior, que não consigo encontrar (tenho dois exemplares), há explicação mais simples. Por isso recorri ao Google em inglês e tentei traduzir, missão impossível quando se sabe que não falo nem leio o idioma dos     Pitts e dos Chaucers. Depois, descobri que a página pode ser traduzida pelo próprio Google, cliquei e apareceu “Plínio da pessoa idosa” em lugar de “the Elder”, que deve ser “Plínio, o Velho”.

Desisti, porque só quero falar de um ex-craque brasileiro, campeão mundial, contratado como comentarista do SporTV. Nada impede que ex-jogadores se transformem em bons comentaristas, mas o campeão tem o gravíssimo defeito de descobrir qualidades numa porção de atletas dos times da Série B. Num jogo do Vasco descobriu tantas qualidades que parecia falar de um time formado pelos melhores jogadores do Barcelona e do Real Madrid. Parei com o jogo durante o intervalo e fui dormir triste com o campeão que sobe acima das chuteiras.

Explicação


Nunca entendi o sucesso que faz na tevê um imbecil completo, mal-ajambrado, feio, risonho, maus dentes, que só diz idiotices e vive sendo convidado para diversos programas, nos quais deve ganhar algum dinheiro, porque não sai dos estúdios. Graça não tem, como também não pode ter admiradores. Por mais que me esforce, não consigo ver no referido cavalheiro qualquer virtude. Nunca me fez mal, nem disse algo que me irritasse, até porque tudo que diz, ou nada, é a mesma coisa.
Dando tratos à bola, creio ter descoberto o segredo de sua ubiquidade televisiva: deve ser simpático, levar doces de caju para os editores. Só isso pode explicar o fato de ser convidado todos os dias, entra mês, sai mês.

Palavras
Na rubrica teologia, escatologia é a doutrina que trata do destino final do homem e do mundo; pode apresentar-se em discurso profético ou em contexto apocalíptico. Mas pode ser um tratado acerca dos excrementos, assunto que veio à balha num e-mail de querida leitora, que não conheço pessoalmente, dizendo que também amava bidês até que se mudou para apê desprovido da abençoada bacia oblonga e ficou desesperada, mas descobriu aparelhinho muito melhor.

Pensei que fosse o telefoninho de parede, consultei-a e fiquei sabendo que é um tubinho flexível, sem telefoninho na ponta, que permite serviço parecido com o dos especialistas em espeleologia, que é o estudo da formação e constituição de grutas e cavernas naturais. Sinônimo divertido: espeluncologia. Espelunca entrou em nosso idioma no século XV do latim spelunca,ae 'caverna, antro, gruta, cova', do grego spêlugks,uggos 'idem'. Tem uma porção de significados, inclusivamente esconderijo de bandidos, covil, antro, como o PT e a diretoria da Petrobras de uns tempos a esta parte.

A partir daí tiro o meu time de campo, que o tal tubinho deve ser das arábias. Philosopho pudico, não me agrada esmiuçar certos assuntos, mas aproveito esta oportunosa ensancha para dizer que existem diversas maneiras de ser perspicaz, de ter agudeza, inteligência penetrante; compreensão exata; argúcia, sagacidade, que há outros caminhos para o conhecimento sem recorrer ao adjetivo percuciente.

O mundo é uma bola

11 de dezembro de 1792: iniciado em Paris o julgamento de Luís XVI, rei deposto da França, que seria condenado por alta traição e guilhotinado. Curiosas, na Revolução Francesa, foram as suas consequências e o curtíssimo período em que as coisas funcionaram a seu modo. Pouco tempo depois, Napoleão Bonaparte era coroado imperador com a sua Josefina. E hoje a torcida se divide, no Stade de France, entre o desejo de torcer pela seleção nacional e a realidade de uma equipa composta de craques nigérrimos, quase todos nascidos nas ex-colônias que a França teve em África.

Em 1816, Indiana se torna o 19º estado norte-americano, fato que não teria a menor importância para o resto do planeta não fossem as 500 Milhas de Indianápolis. Em 1876, agora sim uma notícia importantíssima, que deve ter alterado a história do mundo e consta da Wikipédia com destaque: São Miguel desmembra-se de Pau dos Ferros e se torna novo município do Rio Grande do Norte, fazendo que os pau-ferrenses pudessem contar com a companhia próxima dos são-miguelenses, todos empenhados em derrotar o candidato a governador, o deputado Henriquinho Alves, ainda presidente da Câmara Federal.

Em 1909, fundado o Aero Club de Portugal. Em 1936, o rei Eduardo VIII, do Reino Unido, abdica em favor de seu irmão Jorge VI para se casar com Wallis Simpson, uma norte-americana divorciada. Hoje é o Dia do Engenheiro, do Agrimensor e das APAEs, Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais.

Ruminanças

“O verdadeiro escritor nada tem a dizer. O que ele tem é apenas uma maneira de dizê-lo” (Alain Robbe-Grillet, 1922-2008).

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Divórcio - Eduardo Almeida Reis

Divórcio Com o advento do computador, nunca mais usei a IBM... Se os netos prometerem não brigar com o avô, será belo presente de Natal


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 10/12/2014




O mundo internético desabou com a notícia de que o jogador Kaká, ainda no São Paulo, separou-se da bela Carol Celico depois de nove anos de casamento que lhes deu dois filhos. Caroline Celico nasceu em São Paulo, em julho de 1987. Em rigor, é assunto que só interessa aos dois e não discrepa do fato de ser o casamento muito difícil: famílias diferentes, educações diferentes, sexos diferentes. Se me fosse dado palpitar, diria como philosopho que o casamento deles começou a desmoronar quando romperam com a bispa Sônia e o apóstolo Estevam Hernandes Filho, proprietários da Igreja Apostólica Renascer em Cristo. Sônia Haddad Morais Hernandes, a bispa Sônia, é empresária, escritora, compositora e apresentadora de televisão, nascida em novembro de 1958. Em setembro de 2006, a Justiça bloqueou os bens dos fundadores da Renascer em Cristo, acusados de estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Dois meses depois, O Ministério Público de São Paulo pediu a prisão preventiva do santo casal e de três outros integrantes da quadrilha religiosa.

Dia 9 de janeiro de 2007, o FBI (a polícia federal dos Estados Unidos) prendeu o casal em Miami por ingressar no país com US$ 56 mil em dinheiro, depois de declarar à alfândega que não tinha mais que 10 mil dólares, contrariando a regulamentação do Serviço de Imigração dos EUA. Foram parar no Federal Detention Center de Miami, Fl, EUA. Nesse tempo, Kaká trocava pontapés com outros jogadores para ganhar os cobres que rendiam dízimos à bispa e ao apóstolo, com a entusiasmada participação de Caroline Celico.

A partir daí, tudo é compreensível, sem que nos diga respeito. É muito de desejar que ambos sejam felizes e aprendam que, em matéria de dízimos, boa mesma é a Igreja Internacional da Graça de Deus, propriedade do bispo R. R. Soares, cunhado do bispo Edir Macedo, tio do bispo Marcelo Crivella, candidato derrotado ao governo do estado do Rio. Na igreja do bispo R. R. Soares, você pode deixar os dízimos em cobrança bancária e sabe que o piedoso pastor é especializado em desencapetamento total. Sem capeta, salvo melhor juízo, não há divórcio.

Pingo

Se dona Dilma tiver um pingo de gratidão, um pinguinho só, nomeará Guido Mantega embaixador do Brasil no Principatu de Múnegu, que é como se chama no dialeto monegasco o Principado de Mônaco ou, em francês, o Pincipauté de Monaco. É do conhecimento geral que no dia 8 de dezembro de 1191 membros de uma família de exilados genoveses, os Grimaldi, assentaram a pedra fundamental da praça fortificada onde hoje fica o palácio do Principado de Mônaco. É também do conhecimento geral que Guido Mantega nasceu em Gênova, talqualmente os Grimaldi. Portanto, é juntar a fome com a vontade de comer: um genovês representando o Brasil num principado fundado por genoveses. Ministro da senhora Rousseff durante séculos, Mantega deve ser craque na arte de engolir sapos, virtude muito apreciada nos meios diplomáticos.

Coleções
Thomas Jeffrey “Tom” Hanks, ator, produtor, roteirista e diretor norte-americano, nascido na Califórnia em 1956, está escrevendo um livro de contos. Só usa máquinas de escrever. É colecionador. A julgar por sua fortuna, deve ser a maior e melhor coleção do mundo.

Tenho de enfeite aqui na sala uma Remington portátil, que ganhei no meu aniversário de 12 anos. Pedi uma Harley-Davidson azul, meu pai foi à Mesbla e trouxe a Remington. Fiquei furioso. Com o passar dos meses, me acostumei, fiz curso de datilografia, fui comprando máquinas mais modernas, aderi às elétricas e devo ter comprado umas 10 até conhecer a IBM 82-C de esferas. Custava uma fortuna. Jamais consegui comprar a segunda, para ter uma no escritório e outra em casa.
Antes da IBM, quase comprei uma coleção de 50 máquinas à venda no Rio, nenhuma elétrica. Portanto, a maluquice do Tom Hanks não é novidade. Não comprei a coleção porque não tinha espaço, mesmo morando na fazenda. Com o advento do computador nunca mais usei a IBM, que lá está guardada num cômodo envolvida em papel-bolha. Se os netos prometerem não brigar com o avô, será belo presente de Natal.

Planeta

Manchete do provedor Terra, 6 de dezembro de 2014: FOTOS DA SEMANA: padres nus, briga no Congresso e mais. Semana teve ainda gato verde, crimes bárbaros e doenças raras descobertas pelo mundo. Não vi o gato verde, os crimes bárbaros e as doenças raras, mas apurei que os padres nus são ortodoxos russos posando para um calendário e a briga no Congresso foi aquela que vimos em nossos televisores.

O mundo é uma bola


10 de dezembro de 1510: Goa se rende às forças portuguesas comandadas por Afonso de Albuquerque. Em 1520, Martinho Lutero queima, na alemã Wittenberg, a bula Exsurge Domine decretada contra ele pelo papa Leão X. Em 1844, Horace Wells descobre as propriedades anestésicas do óxido nitroso.

 Em 1901, realizam-se em Estocolmo e Oslo as primeiras entregas dos Prêmios Nobel. O químico sueco Alfred Bernhard Nobel inventou a dinamite, substância explosiva de larga utilização em Minas nos assaltos aos caixas eletrônicos. Em 1948, a ONU adota a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Hoje é o Dia do Palhaço.

Ruminanças


“A palmatória passou, mas os problemas educacionais continuam os mesmos.” (Júlio Camargo, 1928-2007). 

Todos os dias em cartaz - Martha Medeiros

Zero Hora - 10/12/2014

Passei uma semana em Portugal e trouxe de lá algumas ideias para crônicas, mas elas terão que esperar, pois nesse meio-tempo fui assistir a Boyhood e se eu adiar meu comentário temo que você perca o filme. Pois é, estou assumidamente recomendando-o, o que sempre é um risco. Uma amiga foi ver Relatos Selvagens depois de ler a coluna em que eu o celebrava e saiu no meio, mas prefiro achar que ela estava num dia ruim, apenas.

Um casal também saiu no meio da sessão em que eu assistia a Boyhood, e estou certa de que eles receberam uma chamada avisando que sua casa estava em chamas, só pode. O filme é longo, mas curtíssimo se considerarmos que narra a trajetória de um garoto entre os seis e os 18 anos – com o mesmo ator. Um filme rodado durante 12 anos, acompanhando pacientemente um menino se transformar em homem, merece que fiquemos reles 165 minutos colados na poltrona do cinema. E esse é só um dos motivos.

Boyhood é daqueles filmes em que não acontece nada, a não ser a vida. É comovente assistir ao amadurecimento do garoto Mason através da sua relação com os pais divorciados, do convívio com sua irmã implicante, de seu despertar para a sexualidade através de revistas de mulher nua, do bullying na escola, das relações com padrastos indesejáveis, da necessidade de se autoafirmar junto aos amigos, do primeiro amor, do pavor de vir a reproduzir o mesmo destino trilhado pela geração passada e das dúvidas infinitas sobre o que ser quando crescer – se é que vale a pena crescer num mundo que oferece tão poucas saídas originais.
É sobre isso tudo o filme em que não acontece nada.
Saí do cinema envolvida por aqueles seres humanos que, na tela, mostram o quanto somos diferentes uns dos outros e o quanto a necessidade de se ajustar iguala a todos. Me identifiquei com os pais que buscam encurtar as distâncias com os filhos e fiquei mais tolerante com os filhos que precisam de distância para continuar a se relacionar bem com os pais.
Vi a mim mesma nos variados papéis já interpretados até aqui (filha, mãe, mulher etc.) e com papel nenhum, à deriva. Mas sem melancolia, apenas com o reconhecimento sereno de que o tempo passa, dando a impressão de que os dias se repetem idênticos, mas na verdade cada dia vivido encerra em si uma história apaixonante com começo, meio e (melhor de tudo) com um fim sempre em aberto, com continuidade amanhã.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Principais ministérios (2): Esportes - Renato Janine Ribeiro

Valor Econômico 08/12/2014


A pasta dos Esportes, com a Cultura e o Meio Ambiente, deve compor o trio de principais ministérios em qualquer país


Continuo a falar dos ministérios que considero realmente os mais importantes, os que indicam as grandes metas da vida, mas hoje ficam em último plano na estrutura de governo. Depois de tratar da Cultura e antes de encerrar com o Meio Ambiente, é a vez dos Esportes. O próprio fato de que estas pastas são as que melhor definem o futuro de cada um de nós, as que mais podem melhorar a vida - mas ainda estejam relegadas ao fim da lista, levando o que sobrar do orçamento - mostra que estamos perto de um grande salto político. Em breves anos, essas pastas serão decisivas. Por enquanto, não o são. O político que souber priorizá-las deixará sua marca na história.
Esportes e Cultura tratam das grandes atividades-fim da humanidade atual. Por milhares de anos, vivemos no reino da necessidade. As coisas "precisavam" ser feitas, "faltava" comida, fomos e muitos continuam sendo governados pelas carências. A fome é o exemplo claro disso, mas também há as doenças e tudo o que falta em termos do que ainda chamamos as "necessidades básicas" do ser humano, inclusive educação. Mas esse tempo está por acabar. Cada vez mais, somos chamados a exercer nossa liberdade, em vez de suprir nossas faltas e falhas. Deficiências de ordem material, como as mencionadas, podem ser superadas. Por exemplo, hoje a questão não é tanto a de produzir comida, é assegurar o acesso a ela. Faltam poucos anos, espero, para passarmos do mundo da necessidade para o "reino da liberdade".
Nada mais crucial, neste novo mundo, do que cuidar do corpo e do espírito, de nossa natureza e nossa cultura. E já não é o velho "mens sana in corpore sano", a mente sã em corpo são, mas uma mente livre num corpo livre. Quer dizer que já não há modelos únicos do que seriam a cultura ou o corpo saudáveis, mas muitos. É mais promissor pensar novos meios de melhorar a vida, por esses dois caminhos, do que fabricar novos produtos. Nas próximas décadas, o foco da própria economia deverá passar crescentemente para o ser humano e as várias dimensões da vida, biológica, cultural, coletiva. Quem pensar só em produzir coisas pode perder o fulcro da nova economia, assim como o da nova sociedade.
Substituir o espetáculo pela atividade física



Dentro deste espírito, o Ministério dos Esportes talvez devesse se chamar da Atividade Física. O nome atual dá à pasta um tom de espetáculo, como na prioridade conferida à Copa do Mundo e em breve às Olimpíadas. É evidente que multidões têm prazer em assistir a jogos bons. Mas o corpo em movimento não é bonito apenas de se ver, ele é belo - e saudável - de se ter. Iniciativas notáveis são as maratonas, as ciclovias, o incentivo a jovens, adultos e idosos para praticar atividade física - enfim, tudo o que enfrenta o sedentarismo, o tabagismo, as doenças.
Honra se faça, secretarias de Esportes em todos os níveis de governo, assim como entidades como o Sesc, têm difundido essas práticas. Soube por Ana Paula Vicentin, do Sesc de São Paulo, que a entidade, além de se empenhar em ampliar o número de participantes, evita dar tom competitivo às atividades que envolvem o corpo. Aliás, em seus espaços de prática física, há pouquíssimos espelhos, ao contrário de muitas academias - e para quê? Para não incentivar o narcisismo. O objetivo não é se destacar pela performance ou beleza do corpo, mas sim aproximar, conviver, incluir. A questão não é a performance de uns poucos, mas a melhora na vida do maior número possível. Por isso, aliás, o Sesc se articula com iniciativas como o Esporte para Todos, que tem na Isca - ou Associação Internacional de Esporte e Cultura - e no Move Brasil alguns de seus protagonistas (recomendo que procurem seus sites na Internet).
Daí, minha leiga, talvez ingênua, sugestão de mudar o próprio nome do ministério, para nele destacar a atividade física de todos, não o esporte de alguns. Faz todo o sentido que a ação principal da pasta se torne a de levar todas as pessoas a se mexerem, a se moverem, de modo a ganharem em saúde e mesmo em felicidade. Todos sabemos que a atividade do corpo aumenta a endorfina, o que por sua vez amplia a sensação de bem-estar. Por isso mesmo, não tem lógica nenhuma pessoas assistirem sentadas, frequentemente se engordando com fritas e cerveja, ao esporte praticado por poucos. O esporte como espetáculo, especialmente quando é transmitido pela televisão, muitas vezes corresponde ao sedentarismo do público - o que é um contrassenso. Se mover o corpo é bom, não deve ser como entretenimento, mas como exemplo de vida. Não é ver mover-se o corpo dos outros, é mover o nosso.
Tal mudança de enfoque trará resultados positivos até para a economia, reduzindo dias perdidos de trabalho. Empresas inteligentes já patrocinam, entre seus funcionários, ginástica, esportes e iniciativas de redução de peso. A priorização da atividade física impactará a área da saúde. O Ministério da Atividade Física poderá se tornar, em relação ao da Saúde, o irmão barato, porém mais eficiente, talvez até anexando parte do que é saúde preventiva, a qual por sua vez reduz a necessidade de tratar da doença quando esta já se instalou (e fica dispendiosa, em dinheiro e em qualidade de vida). Quem sabe teremos um dia um Ministério da Saúde e da Atividade Física, com o segundo termo crescendo gradualmente em importância.
Tudo isso faz parte de uma concepção em que saúde e atividade física, cultura e educação param de atender às carências, e em vez disso definem horizontes de expansão ilimitada. Não vamos mais só curar doenças ou extinguir o analfabetismo. Vamos melhorar cada vez mais o corpo e as faculdades do espirito. Nem o céu, mais, será o limite.
Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. 
E-mail: rjanine@usp.br