sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Lição - Eduardo Almeida Reis

Rastreou o marido com aplicativo de celular, encontrou-o nuzinho, fazendo amor com a cunhada dentro do carro, expulsou-os do veículo, deixando-os pelados no meio da rua


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 30/01/2015




A chinesa Ting Su, de 29 anos, desconfiou que o marido Cheng Su, de 30, mantinha um romance com sua irmã gêmea, obviamente de 29 anos. Rastreou o marido com um aplicativo de celular, encontrou-o nuzinho fazendo amor com a cunhada dentro do carro, expulsou-os do veículo, pegou o volante e foi-se embora deixando-os pelados no meio de uma rua da cidade de Suzhou, que, como sabe o leitor, foi fundada no século V, tem mais de 6 milhões de habitantes, fica na província de Jiangsu, às margens do Grande Canal e também é conhecida como Sucheu ou Soochow. Escusado é dizer que os dois pelados foram fotografados pelos celulares de milhares de chineses e a notícia saiu no The Mirror.

Ting Su não foi original. Em Diamantina, há mais de 100 anos, um respeitado cidadão míope namorava a cunhadinha sempre que sua mulher, muito religiosa, estava na missa das 7 da matina. No dia em que a mulher se esqueceu de levar o véu, sem o qual não assistia à missa, e voltou para apanhar o tecido leve e fino usado sobre a cabeça, surpreendeu a irmã com o maridão na cama. Pegando os óculos de grossas lentes na mesinha de cabeceira, o digno diamantinense olhou para a cunhada e para a mulher, antes de dizer: “Por Deus que eu pensei que fosse você”. Claro que a esposa amantíssima acreditou no marido e expulsou a irmã de casa.

Escuta

“Você não conversa comigo... Você só me quer para fazer amor... Você devia comprar uma boneca inflamável”. “É inflável, sua boba!”, respondeu o idoso namorado, empre às voltas com as altas cousas do espírito, sem tempo de folga para ouvir as tolices da namoradinha neurótica, bafo de gim com campari, sovaquinhos graciosamente peludos, genitália idem.

Falta de escuta do parceiro é reclamação frequente das mulheres e vem de ser comprovada numa pesquisa séria. Estudo encomendado pela Ladbrokes mostrou que os homens se distraem facilmente das conversas, a não ser que estejam falando com um amigo sobre esportes ou sexo, informa o Daily Mail.

Em média, os homens se “desligam” da conversa com uma parceira em seis minutos. Entretanto, se estão ouvindo um amigo sobre esportes ou vida sexual, a atenção dura até 15 minutos.
As mulheres fazem o mesmo: são ouvintes atentas quando estão conversando com outras mulheres, atenção que não têm quando conversam com homens. Durante o papo com as amigas, o assunto predileto da maioria (55%) é sobre relacionamentos.

Entre os homens, sexo, filmes e esportes dominam as conversas. A pesquisa relevou que a pior hora para conseguir a atenção de um homem é quando ele está assistindo a algum esporte ou trocando os canais da TV, bem como quando está usando aplicativos no celular.

Alcoolismo


Ando à procura de um psiquiatra, psicólogo, psicanalista, neurocientista ou paleoantropólogo que explique sem ambages, isto é, sem rodeios, evasivas ou subterfúgios, minha relação com o álcool. Bebi cavalarmente durante séculos e parei há pouco mais de três anos sem ter parado, porque bebo de vez em quando, não tenho ressacas e gosto de um uisquinho, um vinho, uma boa cerveja.

Não creio fazer parte daqueles 12% que têm dependência alcoólica e vivem na sarjeta ou entram para o AA lutando dia a dia contra o vício. Bebi muito sem deixar de cumprir minhas obrigações, evitando o álcool quando sabia que iria dirigir. Resultado: mais de meio século de volante sem um arranhão. Alcoolizado fiz, é certo, os piores papéis: todo mundo faz. No dia seguinte, a gente se arrepende e vai em frente.

O motivo de ter parado, ou quase, continua sendo um mistério. Escrevo três dias depois de ter bebido algumas doses de Dewar’s 12 num jantar em família. Desceram bem, noite bem dormida, manhã seguinte ok. Presente de um leitor ainda em BH, vejo no Google: This 12 year old was created by the master blender at Dewars, Tom Aitken.
A Whisky Magazine, nº 68, de dezembro de 2007, disse que Aitken tinha 40 anos de experiência na indústria da bebida com gim, cachaça e licores de café. O repórter, então, fala de seu encontro com ele quando o entrevistou em Glasgow, Escócia. Aitken é craque, ama seu trabalho e o Dewar’s 12, que andava sendo vendido no Brasil por R$ 105 antes da alta do dólar, desce bem à beça.

O mundo é uma bola

30 de janeiro de 1592: eleição do papa Clemente VIII, nascido Ippolito Aldobrandini. Foi o responsável pela introdução do café na Europa, bebida até então considerada muçulmana. Em 1649, o rei da Inglaterra, Carlos I, foi executado. Ontem ou anteontem, se estou lembrado, falei da morte de Edward II pela introdução de um chifre oco em seu fiofó, através do qual passaram um ferro em brasa. Edward era bissexual, tinha namorados, mas Carlos I foi capturado, julgado e condenado por não admitir a monarquia constitucional. Foi sucedido por seu filho Carlos II.

Em 1933, o presidente Paul von Hindenburg nomeia Adolf Hitler chanceler da Alemanha. Em 1938, emancipação política do município de Governador Valadares, estado de Minas Gerais, terra natal de Eike Fuhrken Batista. Hoje é o Dia do Portuário, da Saudade e da Não Violência.

Ruminanças

“Saudade é ser, depois de ter” (Guimarães Rosa, 1908-1967). 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Ministérios - Eduardo Almeida Reis

 Qualquer pessoa medianamente informada fica horrorizada com o número de ministérios de um país grande e bobo


Eduardo Almeida Reis
Publicação: 29/01/2015 04:00


De Sarajevo a Sófia são 570 quilômetros de estrada, enquanto de BH a Brasília temos 734 quilômetros de buracos. Por aí, dá para notar que a capital da Bósnia e Herzegovina é muito próxima da capital da Bulgária, o que explica um fenômeno só encontrado no Brasil e na Bósnia e Herzegovina, república federal dos Bálcãs.

Qualquer pessoa medianamente informada fica horrorizada com o número de ministérios de um país grande e bobo, que não se pejou de inventar o ministério da Pesca e o confiou a um cavalheiro que não sabe distinguir um pacu de um lambari, ocupado que sempre esteve pescando fiéis evangélicos para sustentá-lo e aos seus.

A Bulgária entra neste suelto pelas bulgarices que o leitor não ignora, e a sua proximidade com a Bósnia, país com menos de quatro milhões de habitantes, justifica os 350 (trezentos e cinquenta!) ministros bósnios, como contou ao Globo o jornalista e escritor Velibor Colic, refugiado bósnio que vive na França.

Colic disse que a Bósnia é dividida em três partes: a sérvia, a croata e a muçulmana. Cada uma tem o seu próprio governo e os seus ministros. Além disso, a União Europeia impõe um governo federal, que também tem os seus ministros. Resumindo, são 350 ministros para menos de quatro milhões de habitantes.

Notícia

Reza o jornalismo supimpa que é importante ouvir a outra parte, mas no telejornalismo petrolífero a providência é muito chata. Em sua delação premiada, o engenheiro Paulo Roberto Costa, o Paulinho do Lula, afirma que o ministro Fulano, o governador Beltrano, o senador Sicrano receberam milhões de dólares. Pronto: delatou. Ouvir a outra parte dá trabalho, demora e não convence, porque é claro, como também é lógico e evidente, que o ministro, o governador e o senador vão dizer que nunca receberam um ceitil, moeda portuguesa do tempo de D. João I (1385-1433). Toma tempo da produção do noticiário e do apresentador da tevê, bem como do telespectador, sem que a gente acredite no ministro, no governador, no senador.

Vejo no Houaiss que o substantivo masculino petrolato, na rubrica química, significa mistura pastosa de hidrocarbonetos derivados do petróleo, usada em cosméticos, em medicina etc. Na rubrica criminologia, petrolato passou a significar mistura de petróleo com peculato usada pelos governos petistas. E a turma continua solta.

O mundo é uma bola

A Wikipédia começa informando que hoje é o 29º dia do ano, fato que os leitores e o seu philosopho sabíamos sem consultar o Google. Isto posto, deixem-me dizer que neste dia, mas em 1712, iniciaram-se as negociações do Tratado de Utrech, que poria fim à guerra da sucessão espanhola.

Em 1825, é fundada a Faculdade de Medicina do Porto, onde, como vimos noutras edições, foi doutorada uma médica defendendo tese sobre as mãos dos portugueses.

Em 1886, Karl Benz inventa o primeiro motor de automóvel movido a gasolina. Dia desses, recebi vídeo sobre um automóvel que se dobra, invenção do MIT, que muitos dizem ser melhor do que Harvard. Hoje em Portugal é o Dia da Incontinência Urinária.

Ruminanças

“Se o vaso não está limpo, tudo que nele derramares se azeda” (Horácio, 65-8 a.C.).

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

MARTHA MEDEIROS - Aos remos

Zero Hora 28/01/2015

Não sou só eu que tenho a impressão de que estamos sentados sobre um barril de pólvora. É só dar uma espiada nos comentários deixados nas redes sociais, em conversas de bar, nas trocas de mensagens por WhatsApp, nos telejornais. O Brasil descarrilou, e agora?
Apagões, crise hídrica, obras superfaturadas que não terminam, escândalos de corrupção em todas as esferas, ausência crônica de segurança, aumento de impostos, saúde e educação vergonhosas, desgoverno evidente e início de uma recessão de que não se conhece ainda as consequências. Uma amiga pergunta no Facebook: “Todo mundo já decidiu para onde vai se mudar?”.
Ah, se fosse fácil assim. Fazer as malas e se mandar para algum lugar em que se pudesse caminhar pelas ruas sem medo, em que os policiais fossem bem treinados, em que houvesse metrô e muitas ciclovias, em que não se racionasse nada, a luz não caísse no meio da tarde e os tributos pagos revertessem em uma vida digna. É claro que qualquer nação tem problemas, mas o Brasil abusou da prerrogativa.
Eu adoraria fechar minhas contas e zarpar. Tenho condições de que raríssimas pessoas dispõem para fazer isso, a começar pelo meu trabalho, que não depende de nada a não ser de um laptop. Ainda assim, é muito difícil deixar amigos e familiares. E é frustrante desistir. Quem deserta está colocando um ponto final na confiança que um dia teve.
Por ora, ficarei, mas me pergunto: como ajudar este raio de país? De nada adianta declarar guerra à ponderação e incitar a violência. Em termos coletivos, o melhor caminho continua a ser a defesa da imprensa livre e sair todos às ruas de forma pacífica, como fizeram recentemente os parisienses por ocasião do atentado à Charlie Hebdo, como fizeram os argentinos por ocasião da morte do promotor Alberto Nisman, como fizemos nós mesmos em 2013 – é o jeito de exercer pressão e mostrar que nosso povo não é tão mole quanto parece.
Detalhe: de cara limpa, sem máscaras, sem queimar ônibus e destruir agências bancárias. Depredações são prova de fraqueza, não de força.
Nossa indignação coletiva precisa ser fotografada, filmada e difundida para o Planalto e o planeta, sem deixarmos de lado as atitudes particulares, que são fundamentais. É hora de agir com total responsabilidade dentro de casa, apagando as luzes, fechando as torneiras, economizando os gastos do prédio, do condomínio, da empresa.

Essa corja política não merece nossos sacrifícios, eu sei, mas não podemos continuar esperando que eles resolvam hoje o que nunca os preocupou antes. Temos que tomar conta do Brasil, assumir este país que deu profundamente errado, mas que é nosso. Porque até aqui, perdemos de lavada. Eles lavavam dinheiro e nós lavávamos as mãos. Deu no que deu: escassez de água e de futuro.

Maria Sklodowska - Eduardo Almeida Reis

Também não preciso de um Nobel de sexologia para saber que as mulheres normais, de 39 e mais anos, continuam gostando das coisas boas da vida


Eduardo Almeida Reis
Estado de MInas: 28/01/2015 



Nascida em Varsóvia, Polônia, em 1867, falecida em Passy, França, em 1934, Maria Sklodowska foi a única pessoa, até hoje, a receber dois Prêmios Nobel na área científica: de física, em 1903, pelas descobertas sobre a radioatividade e de química, em 1911, pela descoberta dos elementos químicos rádio e polônio. Recebeu-os com o nome de Marie Curie, como passou a chamar-se depois de se casar com o físico francês Pierre Curie (1859-1906), laureado junto com ela com o Nobel de 1903. Tiveram duas filhas. Uma delas, Irene Joliot-Curie, premiada com o Nobel da química em 1935.

Se Pierre morreu em 1906 e Marie em 1934, não preciso de um Nobel de matemática para calcular que ficou viúva durante 28 anos, a partir dos 39 aninhos. Também não preciso de um Nobel de sexologia para saber que as mulheres normais, de 39 e mais anos, continuam gostando das coisas boas da vida.

Até aqui temos uma história incomum e bonita. Marie sofreu o diabo para conseguir estudar. Pierre, ao que parece, tinha boa situação, nunca frequentou escolas. Estudava em casa e, aos 20 anos, já era doutor. Casaram-se, ela ganhou dois Prêmios Nobel na área de ciências, ele só ganhou um porque morreu logo depois.

Agora, vem o final da história. O astrônomo David Grinspoon, pesquisando os arquivos pessoais de Albert Einstein, encontrou uma carta que Einstein escreveu a Marie dizendo-se orgulhoso pela oportunidade de tê-la conhecido pessoalmente, de mesmo passo em que se dizia enojado com o tratamento que ela e as filhas vinham recebendo de parte da imprensa francesa, que a acusava de “destruidora de lares” pelo fato de namorar o físico Paul Langevin, que havia sido aluno de Pierre Curie. Langevin já estava separado e as cartas de amor trocadas entre ele a Marie teriam sido entregues aos jornais pela ex-mulher de Langevin. A campanha de certa imprensa contra Marie e as duas filhas foi tão forte que elas tiveram de se refugiar em casa de amigos. Ao que tudo indica, Langevin e Marie namoraram depois que ela enviuvou. E as fotos da época mostram que Marie era muito namorável.

Ainda bem que o Brasil, este impávido colosso de 8,5 milhões de km2 e mais de 200 milhões de habitantes, não conhece canalhices do gênero pelo fato de até hoje não ter sido lembrado para o Nobel que merece: o da corrupção.

Enfronhado

Como transitivo direto e pronominal, o verbo enfronhar significa tornar(-se) versado, instruir(-se), fazer tomar ou tomar conhecimento pleno de um assunto. Daí, o adjetivo enfronhado: que se enfronhou. Durante séculos, julguei-me enfronhado no assunto “produção de leite nos trópicos”, mas fui enfrouxecendo e hoje estou enfrouxecido. Pois é: o verbo enfrouxecer existe e significa fazer ficar frouxo, lasso. Não me lembro de o ter visto em letra de forma nem mesmo sobre assuntos sexuais. O pessoal prefere brochar, perder temporária ou definitivamente a capacidade de ter uma ereção, como queria o Houaiss, ou broxar, como defendia o Aurélio, dois dos nossos melhores lexicógrafos.

Não pense o leitor que me sentei diante do computador para escrever chulices ou tabuísmos, philosopho bem-intencionado que sempre fui. Sentei-me aqui para falar do verbo enfronhar no sentido de meter o travesseiro em fronha, uma das coisas mais difíceis que conheço. Escrevo num domingo, pouco antes do almoço, já assustado com a fronha que devo trocar à noite. É função complicadíssima, que já passei da idade de aprender.

Apavora-me a visão do travesseiro já desenfronhado sobre a cama ao lado da fronha lavada e passada, dobrada, à espera do artista incumbido da árdua missão. Com a comadre de folga, domingo é o diabo.

Terminado o belo suelto que você acaba de ler, desandei a philosophar e concluí que passaria a tarde inteira e boa parte da noite pensando na dificuldade que teria para enfronhar o travesseiro. Então, com a decisão de um grande comandante militar, gritei: “Avante!”. Fui ao quarto, lutei heroicamente e consegui enfronhar a peça. Foi duro, mas consegui. Depois, esquentei o almoço e passei o resto da tarde descansando da luta.

O mundo é uma bola


28 de janeiro de 1808: abertura dos portos brasileiros às nações amigas, mesmo porque não faria sentido abrir às nações inimigas. Em 1932, as forças japonesas começam a ocupação de Xangai. Em 1935, a Islândia é o primeiro país a legalizar o aborto, até hoje proibido num país grande e bobo, que prefere assistir ao nascimento dos seus anjinhos para mais tarde matá-los a tiros nas guerras do tráfico. Em 1942, presidido pelo ditador Getúlio Vargas, o Brasil rompe relações com a Alemanha e a Itália. Em 1943, Vargas e Roosevelt, em Natal (RN), iniciam as negociações que levariam à criação da FEB, Força Expedicionária Brasileira, durante a Segunda Guerra Mundial. O craque William Waack, um dos mais brilhantes jornalistas brasileiros, escreveu excelente livro sobre a FEB: As Duas Faces da Glória. Hoje é o Dia do Portuário e o Dia do Comércio Exterior.

Ruminanças

“Há em todas as cousas um sentido filosófico” (Machado de Assis, 1839-1908).