domingo, 13 de outubro de 2013

Muito alem da Implicância

O Dia 13/10/2013

Bullying entre irmãos causa mais sofrimento à vítima que o ocorrido na escola, já que a família deveria ser seu porto seguro



BEATRIZ SALOMÃO

O bullying, problema frequentemente associado aoambiente escolar, também pode acontecer dentro de casa.E o pior: entre irmãos. Pesquisa publicada na revista americana ‘Pediatrics’, com3.599 pessoas, revelou que 32% sofrem do mal. Foram entrevistados, por telefone, cuidadores ou responsáveis por crianças de até 9 anos,além de adolescentes entre 10 e 17. Todos os analisados tinham pelo menos um irmão também menor de 18 anos morando na mesma casa. De acordo com os pesquisadores, as
vítimas  do ‘bullying fraterno’ apresentaram sérios danos na saúde mental, como depressão e ansiedade. Entre as ações sofridas foram citadas: agressão física, lesão com ou sem arma de fogo, roubo e furto, dano de pertences da vítima de propósito, além de palavras que fizeram a criança se sentir mal, com medo ou não querida.

“Cabe aos pais ficarem atentos a qualquer sinal de mudança de comportamento na criança e agir rápido. Eles também devem ser bons exemplos”, disse o pediatra Moises Chencinski. A pesquisa foi publicada em julho. Cerca de 70% dos jovens moravam com pai e mãe e 20% com apenas um dos dois.

O estudo ressaltou ainda que, enquanto a agressão na escola é reconhecida socialmente, a intimidação dentro de casa, muitas vezes, é considerda ‘normal’ e ‘aceitável’. O psiquiatra Ricardo Krause, da Santa Casa de Misericórdia, alerta que o bullying entre irmãos é mais nocivo, já que a família é o local de segurança e acolhimento.

“Quando ocorre na escola, a criança tem a família para recorrer e receber apoio.Mas o bullying dentro de casa sinaliza incapacidade dos pais em protegê-la. Ela se sente sem lugar no mundo”, aponta.



Segundo ele, há casos de bullying praticado por irmãos e responsáveis em conjunto, normalmente quando a criança não atende às expectativas dos pais ou quando apresenta um temperamento diferente dos demais moradores da casa. “Isso é muito danoso e pode gerar até depressão”, declara.

O que diferencia as tradicionais implicâncias entre os irmãos do bullying? Para o especialista, danos na vida da criança,como queda do rendimento escolar, retração e tristeza são as características mais comuns de que a brincadeira passou dos limites.

“Em todo grupo social há competição e a família não é diferente. Uma criança que foi filha única por muitos anos pode sofrer ao perder esse posto com a chegada d um mais novo”, explica.



Satanás rindo - Marcos de Castro

O Globo - 13/10/2013

Fontenelle não parava de
rir enquanto amarrava
meus dedos aos fios
do telefone elétrico

No meu segundo dia de DOI-Codi, nos fundos do quartel da PE da Rua Barão de Mesquita, no Rio, foram me buscar na cela onde eu tinha sido jogado na véspera sem entender os motivos daquela prisão. Bem, eram tempos complicados, o embaixador americano no Rio tinha sido sequestrado (estamos em setembro de 1969), a ditadura levara um susto. Fácil de imaginar, mostrara-se incapaz de garantir segurança para o embaixador do país mais rico do mundo.

O diplomata, Charles Burke Elbrik, fora levado de Botafogo para o Rio Comprido, isto é, da Zona Sul para a Zona Norte da cidade, sem que ninguém reparasse naquela carga valiosa. Uma demonstração de incompetência impressionante, do governo brasileiro e da própria Embaixada dos Estados Unidos. Agora era a caça desesperada para consertar de algum modo o desastre.  Sem me chamar Joaquim nem morar em Niterói, fui preso logo na noite seguinte em meio a essa caçada.

Assim conheci a verdadeira sucursal do inferno em que se transformara aquele centro de torturas, numa variedade que ia das mais primárias às mais brutais. Amigo de um dos idealizadores do sequestro eu era, sim, mas, no momento de minha prisão, não o vira pelo menos nos seis meses anteriores, não sabia rigorosamente nada de suas atividades recentes.

Não tinha a menor ideia de seu envolvimento com o sequestro. Mas isso era de pouca importância para o pessoal do DOI-Codi. Caçar era o que eles queriam, assim mostravam serviço.  Só depois da primeira noite na cadeia do DOI-Codi, no 2° andar, é que me chamaram para interrogatório. Desci certo de que tudo se explicaria em dois minutos e eu seria libertado. Apresentaram-me a um certo tenente cujo nome não cheguei a saber, pois no DOI-Codi ninguém usava o nome no uniforme, ao contrário de todo o resto do Exército. O tenente apontou-me uma  porta e disse que o interrogatório  seria na sala a que  ela dava acesso.

Mandou-me seguir à frente, ele iria  atrás. Depois de meia dúzia  de passos deu-me um golpe  tão violento no ouvido direito, com a mão em concha, que até hoje ouço  mal desse ouvido, garantindo-me meu otorrino que a causa foi esse golpe brutal, a que lá chamavam de “telefone’. Foi o cartão de visitas para mim.  O interrogatório não seria com esse competentíssimo tenente. Na sala de interrogatório entregou-me ao comandante do DOI-Codi, Francisco Moacir Méier Fontenelle, tenente-coronel, se não faço confusão com essas qualificações complicadas.

Depois de rápidas formalidades, ele me disse que eu só sairia dali se desse  o nome dos sequestradores do embaixador americano e as circunstâncias do sequestro. Enquanto eu ia explicando que não sabia o nome de nenhum sequestrador, muito menos as circunstâncias do episódio, ele ia amarrando os fios de um telefone de campanha em quatro dos dedos da minha mão direita, dando folga ao dedão.  E enquanto amarrava, ria, ria gostosamente, o que me fez lembrar o porão do “Navio Negreiro’  de Castro Alves, as chicotadas zunindo nas costas dos negros caçados na África para serem escravos no Brasil. “E ri-se Satanás” diz o poeta.

E Fontenelle não parava de rir enquanto amarrava meus dedos aos fios do telefone  elétrico. “E ri-se Satanás” eu repetia comigo mesmo, sem imaginar nem de longe a força de um choque de fios elétricos ligados a um telefone de campanha. Não vou descrever aqui os pulos e berros que dei, que qualquer um dá, com aqueles choques. A impressão que se tem é que se trata de um choque mortal. Impossível dizer quantos minutos aquilo durou, ao fim dos quais ele me assegurou que repetiria a dose muitas vezes, diariamente, até que eu desse o nome dos sequestradores.

Seguiram-se dias tão tumultuados no Brasil, ao fim dos quais o general Garrastazu Médici assumiu a Presidência, para um período em  que a tortura iria virar método institucional. Tortura e assassinato. Naquele mesmo DOI-Codi de Fontenelle foram assassinados Mário Alves e Rubens Paiva. Mas chegou o momento de tornar tudo claro em relação às torturas e aos crimes no Brasil da ditadura militar.
A Comissão da Verdade do Rio faz um trabalho extraordinário.  Um torturador é o mais baixo dos seres humanos, pois a tortura é por definição covarde, aplicada sempre a alguém indefeso, não poucas vezes gente de pés e mãos amarradas. Nossa Comissão da Verdade quer transformar o local onde foi o DOI-Codi, na Tijuca, num Centro de Memória. Nada mais patriótico.

Um país que foge de sua verdade é um país de mentira. Há um certo Bolsonaro que parece ser contra a revelação dessa infâmia. Deixemo-lo investir contra a verdade, ficar a favor da covardia.  Tudo que pretendo com este depoimento simples é dar mais um passo a favor da Verdade, assim mesmo, com maiúscula. Verdade histórica, pois um país não pode fugir de sua História, ou jamais há de encontrar-se com um destino maior e mais digno.


Marcos de Castro é jornalista

Cordial - Caetano Veloso

O Globo - 13/10/2013


Aprendi, em conversas com amigos compositores, que, no cabo de guerra entre a liberdade de expressão e o direito à privacidade, muito cuidado é pouco

Tenho um coração libertário. Sou o típico coroa que foi jovem nos anos 60. Recebi anteontem o e-mail de um cara de quem gosto muito — e que é jornalista — com proposta de entrevista por escrito sobre a questão das biografias. Para refrescar minha memória, ele anexou um trecho de fala minha em 2007. Ali eu me coloco claramente contra a exigência de autorização prévia por parte de biografados. E pergunto: “Vão queimar os livros?” Achei aquilo minha cara. Todos que me conhecem sabem que essa é minha tendência. Na casa de Gil, ao fim de uma reunião com a turma da classe, eu disse, faz poucos meses, que “quem está na chuva é para se molhar” e “biografias não podem ser todas chapa-branca”. Então por que me somo a meus colegas mais cautelosos da associação Procure Saber, que submetem a liberação das obras biográficas à autorização dos biografados?

Mudei muito pouco nesse meio-tempo. Mas as pequenas mudanças podem ter resultados gritantes. Aprendi, em conversas com amigos compositores, que, no cabo de guerra entre a liberdade de expressão e o direito à privacidade, muito cuidado é pouco. E que, se queremos que o Brasil avance nessa área, o simplismo não nos ajudará. O modo como a imprensa tem tratado o tema é despropositado. De repente, Chico, Milton, Djavan, Gil, Erasmo e eu somos chamados de censores porque nos aproximamos da posição de Roberto Carlos, querendo responder ao movimento liderado pela Anel (Associação Nacional dos Editores de Livros), que criou uma Adin (ação direta de inconstitucionalidade) contra os artigos 20 e 21 do Código Civil, que protegem a intimidade de figuras públicas. Repórter da “Folha” cita trechos de algo dito por Paula Lavigne em outro contexto para responder a sua carta de leitor. Logo a “Folha”, que processou, por parodiá-la, o blog Falha de S.Paulo.

A sede com que os jornais foram ao pote terminou dando ao leitor a impressão de que meus colegas e eu desencadeamos uma ação, quando o que aconteceu foi que nos vimos no meio de uma ação deflagrada por editoras, à qual vimos que precisávamos responder com, no mínimo, um apelo à discussão. Censor, eu? Nem morta! Na verdade a avalanche de pitos, reprimendas e agressões só me estimula a combatividade.


Tenho dito a meus amigos que os autores de biografias não podem ser desrespeitados em seus direitos de informar e enriquecer a imagem que podemos ter da nossa sociedade. Pesquisam, trabalham e ganham bem menos do que nós (mas não nos esqueçamos das possibilidades do audiovisual). Não me sinto atraído pelo excesso de zelo com a vida privada e muito menos pela ideia de meus descendentes ficarem com a tarefa de manter meu nome “limpo”. Isso lhes oferece uma motivação de segunda classe para suas vidas. Também neguinho pode vir a ter um neto que seja muito careta e queira fazer dele o burguês respeitável que ele não foi nem quis ser. Mas diante dos editoriais candentes, das palavras pesadas e, sobretudo, das grosserias dirigidas a Paula Lavigne, minha empresária, ex-mulher e mãe de dois dos meus três filhos maravilhosos, tendo a ressaltar o que meu mestre Jorge Mautner sintetizou tão bem nos versos “Liberdade é bonita mas não é infinita /Me acredite: liberdade é a consciência do limite”. Mautner é pelo extremo zelo com a intimidade.


Autores americanos foram convocados para repisar a ferida do sub-vira-lata. Nada mais útil à campanha. (Americanos são vira-latas mas têm uma história revolucionária com a qual não nos demos o direito de competir.) Sou sim a favor de podermos ter biografias não autorizadas de Sarney ou Roberto Marinho. Mas as delicadezas do sofrimento de Gloria Perez e o perigo de proliferação de escândalos são tópicos sobre os quais o leitor deve refletir. A atitude de Roberto foi útil para nos trazer até aqui: creio que os termos do Código Civil merecem ser mudados, mas entre a chapa-branca e o risco marrom devem valer considerações como as de Francisco Bosco. Ex-roqueiros bolsonaros e matérias do GLOBO tipo olha-os-baderneiros para esconder a força que a luta dos professores ganhou na cidade me tiram a vontade de crer em opções fora da esquerda entalada. Me empobrecem. Ficaremos todos mais ricos se virmos que o direito à intimidade deve complicar o de livre expressão. E se avançarmos sem barretadas aos americanos. Ouve-se aqui minha voz individual. Quiçá perguntem: ué, os jornais deram espaço, pediram entrevistas: Tá chiando de quê? Pois é. Meu ritmo. Roberto, Chico, Milton e os outros estão mais firmes: nunca defenderam nada diferente. Esperei o Procure Saber buscar seu timbre, olhei em volta e deixei pra falar aqui.


MARTHA MEDEIROS - As balas da infância

Zero Hora - 13/10/2013

Estava num avião da TAM observando a comissária oferecer balas aos passageiros, como de costume, antes de a aeronave decolar. Nunca peguei uma, talvez porque a criança em mim se manifeste: 10h da manhã, antes do almoço? Seis da tarde, antes do jantar? Minha mãe vai dar a maior bronca!

Na verdade não fico muito tentada por aquelas balas. Se fosse Frumello ou Sete Belo, seria diferente.

Sempre tive tara por bala de morango, ou de frutas vermelhas, ou de qualquer coisa vermelha: cereja, framboesa e família. Eram as minhas preferidas entre as balas azedinhas. As azedinhas iam comigo ao cinema e adocicavam as noites de sábado em que ficava em casa – eram minha droga lícita (mesmo assim, as comia escondida, sendo filha de dentista). Meu sonho secreto? No aniversário, ganhar as azedinhas que vinham numa lata enorme. Preferiria ganhar a lata a pulseirinhas, porta-retratos, presentes de mocinha. Ganhei uma única vez, não lembro quando nem de quem, desconfio até que comprei.

Mas entre as balas vermelhas, prefiro até hoje aquelas vagabundas, as vira-latas das balas, embaladas em papel transparente, sem marca, sem pedigree. As que estão disponíveis onde menos se espera, em balcões de farmácia, ao lado dos caixas de lojas, ofertadas de graça.

Lembro das pastilhas de anis da marca Garoto - existem, ainda? Havia diversos sabores (canela, hortelã), mas as de anis eram as minhas eleitas no recreio do colégio. Daria tudo para voltar no tempo por causa daquelas pastilhas – e só por elas, acho.

Gostava de Mentex também, já que falamos de hortelã, porém mais ainda de uma pastilha oval que não lembro bem a marca, era também azedinha, refrescante, vinha numa caixa verde, que fim levou, quem pode me recordar o nome?

Tinha a bala gasosa, da qual nunca fui fã, redonda demais, grande demais, cheia de si. E quanto às de caramelo e doce de leite, blagh. Sempre fui refratária ao que é enjoativo. Preferia bala de banana, bem artesanal, pobrinha, humilde e doce como um pecado mortal.

Bala de coco era legal também. Ainda é. Mas desenvolvi uma resistência que não se explica. Dói na cárie que já não tenho, será isso? Ou é bala branca que não combina com bala?

Bala tem que ter cor, e nisso as balas Soft eram imbatíveis (escrevo “eram” sem saber se ainda são, já não circulo pelo corredor das tentações no supermercado, tenho um compromisso com a balança e o bom senso). Duras e eternas, as balas Soft – até mesmo as amarelas.

A jujuba me parecia a ralé das balas. Já as soberanas são as que finalizam essa crônica, minhas preferidas para sempre: as balas de goma. Meu Deus, as balas de goma. Morreria por elas. Mas não hoje, não agora, que agora sou adulta (em termos) e o que me interessa, mesmo, é permanecer magra.