quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Um dos fenômenos mais fascinantes do 20 /11 Camila Pavanelli de Lorenzi

Um dos fenômenos mais fascinantes do 20 de novembro é o seguinte: se a cada sexta-feira e a cada feriado a internet é tomada por fotos de bebidas e baladas e posts de deus-bençôe-meu-dia-de-folga, no 20 de novembro o procedimento operacional padrão é bem diferente. Curiosamente, parece que no 20 de novembro todo mundopassa de empregado a diretor da FIESP: reclama-se que no Brasil tem feriado demais, que por conta dos feriados as empresas deixam de ganhar milhões por ano, que é por esse tipo de coisa que o Brasil não vai pra frente.

O excesso de feriados e seus danos para a indústria e o comércio no Brasil não costumam ser lembrados no Carnaval, no Natal nem no Ano Novo, mas são invocados com frequência surpreendentemente alta no Dia da Consciência Negra. São estes terríveis danos, aliás, a justificativa usada para a suspensão do feriado em Curitiba.

Eu fico só lembrando dos anúncios de "procura-se escravo fugido" em que era oferecida uma boa recompensa a quem encontrasse o fugitivo. Os escravos fugidos, afinal, representavam uma perda financeira bastante real para seus senhores.

No dia em que deveríamos lembrar a luta de alguns pela liberdade, preferimos repetir o mimimi de outros pelo dinheiro que estão deixando de ganhar.

MARTHA MEDEIROS - A grandiloquência

Zero Hora 20/11/2013

A melodia do nosso Hino Nacional é muito bonita, mas a letra ainda me constrange, como tudo o que é grandiloquente: não me acostumo com tanta retumbância, margens plácidas, raios fúlgidos, impávido colosso. Aos primeiros acordes, me levanto respeitosamente onde quer que esteja e até cantarolo se estiver num dia de bom humor, mas, internamente, suplico: “Menos, menos...”.

Não porque me falte ufanismo – na verdade, falta, mas não é essa a questão. É que fico envergonhada diante de situações, eventos e principalmente de pessoas que levam tudo tão a sério. É muita pompa para pouca circunstância. A vaidade excessiva é a maior inimiga do homem, mas muitos flertam com ela sem se darem conta do ridículo.

O poeta Fernando Pessoa declarou que toda carta de amor é ridícula porque, claro, os apaixonados são grandiloquentes. A grandiloquência é inerente ao amor, no entanto, o amor só é ridículo quando se trata da paixão dos outros – se o amor for por nós, nunca parecerá um vexame.

A arte também abusa da grandiloquência porque é da sua natureza transcender. Alguns pintores são grandiloquentes, a música clássica é grandiloquente, e até mesmo canções pop se valem, de vez em quando, de um certo tom triunfal quando desejam causar efeito, caso do Queen ao gravar Somebody to Love e outras canções com coro e arranjos épicos, e a exemplo também de We Are the Champions, a escolhida para toda cerimônia de formatura – garantia de lágrimas dos familiares na plateia. O U2 também simpatiza com a grandiloquência, tanto que chamou Pavarotti para fazer parceria na bonita Miss Sarajevo.

E o que dizer de Another Brick ih the Wall, do Pink Floyd? Diante de tanta potência, a bossa nova pia fino, ela que é tão sussurrante e reservada.

Porém, fora do showbiz, dos palcos, das óperas e dos museus, a grandiloquência é forte candidata a cafonice. Estão aí os discursos intermináveis, cheios de retórica e ignorando a plateia bocejante. O uso de joias e maquiagem em quantidade abusiva, caracterizando as peruas alérgicas a batas de algodão e chinelinhos de dedo. As casas decoradas como se fossem castelos da imperatriz Sissi. As limusines pretas e, pior, brancas! – a não ser para fazer farra com os amigos num dia específico e olhe lá. Brigas escandalosas de casais em lugares públicos. Qualquer escândalo, aliás.

Grandeza e grandiloquência não são parentes, nem mesmo primos em terceiro grau. O DNA de um não tem nada a ver com o DNA do outro. Apenas os nomes são parecidos. Um é João, o outro é Jonathan.

Grandiloquência é parente, isso sim, da inconsistência. O excesso que confirma que algo está faltando.

Tv Paga

Estado de Minas: 21/11/2013 



 (Festival Musica do Mundo/Divulgação)

A magia da música


A trupe de O Teatro Mágico (foto) participa esta noite do programa Ensaio, às 23h30, na Cultura. A proposta é fazer um apanhado do repertório de todos os seus CDs. Os integrantes do grupo contam como se tornaram um fenômeno de mídia graças às redes sociais e também sobre o trabalho feito em família, Além disso, apresentam canções inéditas de seu mais recente lançamento, Recombinando atos. Em tempo: às 21h30, no Canal Brasil, tem Leandro Lehart no Zoombido.

Canal A&E retoma série  sobre leilões de depósito


O canal A&E estreia hoje, às 22h30, a segunda temporada de Quem dá mais? Nova York, spin-off de um dos programas de maior popularidade da emissora. Sim, aquela série que mostra um bando de malandros querendo ganhar algum dinheiro em cima de tralhas esquecidas em depósitos alugados e que acabam indo a leilão por abandono ou falta de pagamento.

Os marmanjos também  têm seus brinquedinhos


Hoje, em Boys toys, às 21h, no canal History, os fãs de carros com motores potentes vão ficar de queixo caído com o Spyker C8 Aileron, um superesportivo com projeto inspirado na aviação. O mesmo episódio apresenta a inovadora BOXX, uma moto elétrica urbana com design de última geração, e o Tread 1, um relógio eletrônico moderno, sem fio e à prova de balas, com ampla variedade de funções. Já para os fanáticos por golfe, o BW1, um carro para percorrer o campo e que também funciona sobre a água.

Atração do SescTV narra a trajetória dos tropeiros

O episódio inédito da série Coleções, hoje, às 21h30, no SescTV, vai mostrar a Rota dos Tropeiros, que teve papel fundamental no surgimento de cidades e centros urbanos do Brasil. O programa conhece a cidade de Castro, no Paraná, onde há um antigo ponto de parada dos tropeiros, que negociavam animais e produtos das regiões Sudeste e Sul do Brasil. No Museu do Tropeiro, a produção recorda o início do tropeirismo, em 1730, e apresenta o vestuário do tropeiro, confeccionado de acordo com o estado de origem e as dificuldades encontradas pelos caminhos.

Documentário mostra o perfil de Claude Chabrol


A Cultura exibe hoje, às 22h, o longa Claude Chabrol, o artesão, que narra a vida e obra do cultuado cineasta francês. O que anima esse retrato é o contrário de um cenário: não procurar fazer uma retrospectiva da carreira de Chabrol (1930–2010), mas evocar sua personalidade tão densa que se extravasa na sua maneira de filmar os locais, os seres, as situações, desde seu primeiro trabalho, Le beau Serge (1958), até o último, La fleur du mal, lançado em 2003.

Drama, ação e humor na  programação de cinema


Por falar em cinema, o assinante tem oito boas opções na faixa das 22h: Feliz Natal, no Canal Brasil; Agente C – Dupla identidade, na HBO HD; Jogos vorazes, na HBO 2; O preço de uma verdade, no Max; O grande Dave, no Telecine Fun; A sombra do inimigo, no Telecine Pipoca; Noiva em fuga, no Telecine Touch; e Ethan Frome, no Sony Spin. Outras atrações da programação: Encurralada, às 20h, no Universal Channel; Jerry Maguire – A grande virada, às 23h, no Comedy Central; e X-Men 3: o confronto final, às 22h30, no Fox.

Onde o rio abre seus dedos - Marina Colasanti‏

Onde o rio abre seus dedos 
 
Marina Colasanti

Estado de Minas: 21/11/2013


 (Son Salvador)

Há cidades que são conhecidas por ter uma ponte extensa sobre um rio, ou por um antigo convento, ou por estar à beira de um lago. Parnaíba, no litoral do Piauí, é conhecida pela brisa deliciosa e constante e pelo delta. Mas como a brisa é provocada por aquela geografia de dunas e águas, Parnaíba é acima de tudo a Capital do Delta.

“O que é delta?”, me perguntou uma amiga a quem falei dele. Se eu fosse professora teria respondido que delta é um terreno de aluvião, geralmente triangular, localizado na foz dos rios. Mas não o sendo, disse que delta é a ramagem do rio, onde ele se abre para o mar como uma árvore se abre para o céu.

E, embora eu saiba que os rios se ramificam porque estando o mar, obviamente, ao nível do mar, não há declive que ajude a manter a água doce coesa, não há profundidade para o leito e o rio tem que procurar sua vazão por outros caminhos, pensei que o rio abre os seus dedos na chegada para se agarrar à terra, ser rio ainda, e doce, por algum tempo, antes de ser engolido pelo mar e sumir em tanto sal.

Que força tem o mar entrando rio adentro quando a maré sobe! Enfrentam-se os dois entre ondas, água de rio empurrando de um lado, que mais água vem atrás e ele não pode recuar, água de mar forçando do outro, que o oceano sobe e exige espaço. Pequenos barcos de vela quadrada navegam sua mansidão nessa luta de águas e algumas lanchas turistas.

Numa delas, singrei (mestre Aurélio Buarque costumava dizer que devemos dar oportunidade às palavras, para elas poderem sair do dicionário) os igarapés. Ali, naqueles veios verdes e escuros, tudo é silêncio. Vimos um grupo de macacos numa árvore e surpreendentemente gritaram para nós, excitados pela lancha vermelha, mas animais são raros. A água parece estagnada, a vegetação das margens, sem terra firme para afundar raízes, deixa as suas à mostra, pendentes como uma cerca que afunda no barro. No barro vivem os caranguejos.

Ao fim do passeio, no píer, passou por mim um homem levando por uma corda duas grandes bolas semivivas. Eram caranguejos. Ele os carregava com esforço e desatenção, como se carrega um fardo qualquer. E embora os bichos com suas pinças parecessem inertes, eu os sabia vivos, pois é o frescor que justifica o seu preço. Não sei qual técnica antiga se usa para amarrá-los daquele jeito, de modo que espremidos uns contra os outros nem possam se mover, mas há de ser dolorosa para eles que anteveem seu fim. E não sei de quem tive mais pena, se daqueles animais que mal nenhum fazem e se veem agarrados na proteção do seu hábitat, para perder a vida, ou se do homem que passa os dias metido até o peito na lama fria, afundando o braço à procura de caranguejos para ganhar a sua. Ã noite, no restaurante, foi-me impossível comer casquinha.

E no delta estão as dunas. Coisa mágica são as dunas, curvilíneas, mas com aresta no dorso por onde o vento as desloca grão a grão. É olhar para elas contra a luz e ver a quase poeira que é seu corpo sendo levada em voo. Entra na roupa, nos olhos, range nos dentes, suspeito tê-la levado sob a pele. Em Parnaíba, tentaram proteger as dunas colocando cercas para impedir o turismo predatório, mas não há como cercar o que o vento move, e já parte dos mourões e arame foi engolida.