Fernando Pessoa se autointitulava o “supra-Camões”.
E, de fato, enquanto Os lusíadas cantou as aventuras marítimas
portuguesas da era imperial por continentes desconhecidos, Pessoa é o
poeta das aventuras do espírito, das viagens subjetivas, das navegações
cotidianas e dos acidentes da vida moderna. O caso dele é
singularíssimo. Na vida comum, empenhou-se em ser o mais anônimo dos
mortais, um burocrata autor de cartas comerciais enredado na rotina mais
trivial. A sua biografia factual é insignificante e completamente
destituída de lances espetaculares. Queria, deliberadamente, tornar-se
ninguém para ser muitos na ficção. Como escrever a biografia de um
personagem que se coloca no lugar de ninguém? Esse é o desafio que Elisa
Lucinda enfrenta no romance intitulado, significativamente, Fernando
Pessoa – O cavaleiro de nada.
O repto é, ao mesmo tempo,
verdadeiro e falso. Verdadeiro porque Elisa é, na vida real, uma espécie
de anti-Pessoa: mulher, negra, bela, exuberante, atriz e amante dos
palcos. Os poetas costumam ser personagens meio alheados dos aspectos
pragmáticos do cotidiano. Mas Pessoa radicalizou essa condição e
transformou a imagem do escritor inadaptado a um mundo de relações cada
vez mais mercantilizadas em um arquétipo de marginalização voluntária.
Lucinda
supera o primeiro desafio ao fundir a sua voz na do poeta e tornar
Pessoa um heterônimo seu: “Sinto-me viver vidas alheias em mim,
incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada, individuado por uma suma de não eus
sintetizados num eu postiço”.
O desafio é falso porque Fernando
Pessoa é íntimo de Elisa, ela conhece ou intui as leis secretas que
regem o processo de criação, as sutilezas da relação entre vida e arte,
as dissimulações e os dilemas do poeta: “Vi-me com apenas 11 anos, entre
os meninos de 13, criado para ser um gentleman vitoriano; porém
franzino por fora e infinito por dentro”, diz o narrador Fernando
Pessoa. “(Ó, é sem modéstia que o digo). Não me invejem, ser infinito
por dentro pode não ser bom”. Em outro trecho, a voz do próprio escritor
é invocada para iluminar o drama de sua vida: “Em algumas, cheguei até a
fazer estilo. Porém, nem por isso sofro menos. Um homem tanto pode
sofrer vestido de seda como coberto de um saco ou cobertor roto”.
A
narrativa de Lucinda desliza ardilosamente entre a ficção, a
autobiografia, a fotobiografia e o ensaio. Ela acompanha a vida de
Pessoa em uma sequência quase linear, do nascimento até a morte,
passando pela infância, a morte do irmão Jorge às vésperas de completar
um ano de vida, o rio da aldeia, a ilha da palavra, a amizade com Sá
Miranda, a dramaturgia dos dias. Funde a voz na de Pessoa. No entanto,
faz questão de distinguir, com muita clareza, por meio de um sinal
gráfico, o próprio discurso e as citações do poeta.
REFERÊNCIA AFETIVA
A personagem da avó, Dionísia Estrela, rotulada de louca, é uma
referência afetiva e espiritual relevante no tecido da narrativa e na
identificação do poeta inadaptado, alfabetizado no idioma inglês, mas
que tinha a língua portuguesa na condição de pátria: “Escrever versos em
inglês faz um efeito diferente na alma. Já escrever a palavra em
português dava-me um conforto de terra firme no espírito.” A avó
Dionísia tem a função quase de pitonisa grega, a desfiar comentários
delirantes e incisivos: “Sua mãe que não é rainha de nada está a
reclamar de quê? Ora, viva a sua língua, filho, e deixe que as más
línguas se mordam!”.
Portugal sempre manteve relações estreitas
com a África durante o período colonial e Lucinda estabelece esse embate
com Fernando Pessoa ao contrabandear falas que colorem o drama de novas
cores: “Na subjetividade, sou o mais branco dos zulus. E também o mais
preto dos lusitanos por linhagem de mistérios. Há uma aldeia de tambores
dentro de mim. Batuques. Escrevo beirando o abismo de tudo perder o
sentido.”
A narrativa não encerra a vida de Pessoa às voltas com o
próprio umbigo. No decorrer da trajetória, a relação com Portugal é
abordada de maneira crítica e dramática: “Trágico Portugal, como és
belo! Na tarde triste ouve-se o murmúrio do Tejo, o rio de minhas
veias”. Ela explora recantos obscuros da alma portuguesa de um povo de
espírito sonhador, mas de instinto predatório, despreocupado da
construção paciente de projetos de desenvolvimento, nostálgico das
aventuras ultramarinas: “Nessa história, pelo que vejo, não produzimos é
nada. Ficamos sugando diariamente ouro, tabaco, traficando escravos e
tirando suco das colônias sem plantar riqueza aqui. A Inglaterra já
estava animada e firmando-se na onda da Revolução Industrial, nas
locomotivas etc., e nós, viciados em chupar o sangue das terras que
conquistamos, sem perceber que esse jeito de ganhar dinheiro sem fazer
esforço podia sair-nos caro no futuro. Estou nostálgico. Um misto de
saudade do que não houve de tristeza”.
DESLIMITES Esse
romance é um ato de amor de Lucinda por Fernando Pessoa. E o olhar
amoroso produz conhecimento. É um exercício de compreensão que ilumina
dimensões delicadas e obscuras do poeta. A discussão sobre os limites do
gênio e da doença percorre a trama. Fernando Pessoa se multiplicou nos
heterônimos de Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Ricardo Campos, entre
outros: “Hoje, entre uma bebedeira e outra, indago-me se sou gênio mesmo
ou se o que me falta é medicação. Talvez eu ouça vozes. E daí? O que
vale é que, dramaturgo do desfile de vozes da minh’alma, descrevo aqui a
oficina onde armei o jogo da vida”.
Em vida, Pessoa sentiu-se,
quase sempre, um estrangeiro na sua pátria e no seu tempo. Teve raros
amores e amigos. O livro é uma bela iniciação a Fernando Pessoa. A
mirada afetuosa, cálida, lúcida e lírica de Lucinda fulmina as
incompreensões coladas à imagem do poeta português, o supra-Camões das
aventuras cotidianas da modernidade: “Afinal, a melhor maneira de viajar
é sentir. Ó minha vila natal em Portugal, tão longe! Por que não morri
eu criança quando só conhecia a ti”. Lucinda protege Pessoa dos
julgamentos rasos: “Prefiro a incompreensão pelo silêncio. A minha arte é
ser eu. Eu sou muitos. Mas, com o ser muitos, sou muitos em fluidez e
imprecisão”.
É uma homenagem amorosa de poeta para poeta. Lucinda
roça a sua língua na língua de Pessoa: “A maior boca é a do Álvaro, mas
todos têm rios a nascer das línguas”, escreve o narrador de O cavaleiro
de nada. Ela sustenta o fôlego da língua elegante, fluida e
luxuosamente precisa ao longo de mais de 400 páginas. Pessoa acumulou
inúmeras biografias. Lucinda se apropriou de todo esse legado para
traduzi-lo na língua epifânica da poesia, a língua de nascimentos e
renascimentos.
Ao fim da leitura, ergue-se aos olhos do leitor um
retrato complexo, dramático e pungente do poeta português. Com O
cavaleiro de nada, Lucinda se torna uma verdadeira contemporânea de
Fernando Pessoa: “Penso às vezes que se um dia, num futuro a que eu já
não pertença, essas frases que escrevo durarem com louvor, eu teria
enfim a gente que me ‘compreenda’, os meus, a família verdadeira para
nela nascer e ser amado”, escreveu, profeticamente, o poeta.
FERNANDO PESSOA O CAVALEIRO DE NADA• De Elisa Lucinda
• Editora Record
• 403 páginas, R$ 55