quarta-feira, 25 de março de 2015

Sete Vidas - Martha Medeiros

ZERO HORA 25/03/2015

Estreou recentemente a nova novela das 18h, Sete Vidas, que conta a história de um homem que, quando jovem, doava sêmen para se sustentar, e depois, adulto, descobre que tem sete filhos que não conhece.

Não estou assistindo, mas confio muito no taco da autora, a ótima Licia Manzo. Comecei a coluna usando esse gancho a fim de promover outro tipo de doação que também pode gerar seis, sete, várias outras vidas: a doação de órgãos. Faço questão de apoiar a campanha lançada pela Santa Casa.

Quando alguém morre, é uma vida a menos. É assim que analisamos a morte: como uma perda. Porém, a gente se esquece de que essa vida a menos pode gerar muitas vidas a mais. Basta que se doem o coração, as córneas, o pâncreas, o fígado, os rins e o que mais puder ser aproveitado.

Quem de nós não gostaria de ter serenidade e tolerância diante da morte? Pois é, porém nenhuma religião conseguiu até hoje confortar plenamente os parentes e amigos que enfrentam o desaparecimento súbito de uma pessoa querida. A ausência definitiva de alguém próximo é de uma brutalidade que encarcera a todos num luto sofrido. O tempo não cura, apenas ajuda a administrar a saudade.

Mas há paliativos. No momento em que é preciso superar uma dor extrema, a doação de órgãos pode tornar-se mais eficiente do que as missas encomendadas. É o verdadeiro ato de fé que manterá viva aquela pessoa entre nós.

Pense: o coração de alguém que morreu por causa de um aneurisma pode continuar batendo no peito de um estudante de Medicina, as córneas de quem viajou por lugares paradisíacos pode servir para um fotógrafo. É uma ressurreição possível, que sai das páginas da Bíblia para virar realidade entre nós.

Ninguém quer morrer, ninguém quer perder ninguém, ninguém quer nem mesmo tocar neste assunto, ainda mais estando tão atazanado com o trabalho e outros compromissos cotidianos. Temos tanta coisa a realizar, que necessitamos urgentemente da garantia de que viveremos por no mínimo cem anos. Mas, caso o destino resolva ser mais rápido no gatilho, é muito importante que tenhamos verbalizado para nossos familiares que somos favoráveis à ideia de sobreviver através do corpo de outra pessoa.



Anunciemos em alto e bom som: sou doador de órgãos. Deixemos a declaração por escrito, se preciso for. Não é um tema mórbido. Estamos falando de esperança, de renovação, de generosidade. De uma multiplicação milagrosa de fato: uma pessoa valendo por duas, três, sete.

Mais forte e perigosa

Estudo sobre a maconha comercializada no Colorado, EUA, revela que a droga está três vezes mais potente do que 30 anos atrás. Amostras indicaram contaminantes, como metais pesados


Bruna Sensêve
Estado de Minas: 25/03/2015 



Produtor observa vasos de maconha: cruzamento de cepas torna mais alto o nível de THC, substância responsável pela sensação de entorpecimento (Ivan Couronne/AFP - 23/10/14)
Produtor observa vasos de maconha: cruzamento de cepas torna mais alto o nível de THC, substância responsável pela sensação de entorpecimento

Brasília – Em 1º de janeiro de 2014, tornou-se possível comprar maconha legalmente no Colorado, nos Estados Unidos. Além de permitir o consumo recreativo da planta, o estado norte-americano também regulamentou como ela pode ser produzida, medida ainda não adotada pela maioria dos que liberaram o uso. Esse diferencial foi crucial para que cientistas tivessem maior liberdade para estudar a composição do produto que chega aos usuários, e os primeiros resultados dessas análises foram apresentados durante o 249º Encontro Nacional e Exposição da Sociedade Americana de Química, em Denver, Colorado. Entre as principais descobertas feitas está o fato de o entorpecente vendido hoje ser três vezes mais forte que o comercializado cerca de 30 anos atrás.
Segundo Andy LaFrate, presidente e diretor de pesquisa do Charas Scientific, um dos oito laboratórios certificados para fazer os testes de potência da maconha vendida no estado, o objetivo é compor um retrato fiel da composição da droga atual a partir de três fatores principais: presença de contaminantes; quantidade de canabidiol (CBD), substância que tem efeito terapêutico; e o índice de tetrahidrocanabinol (THC), responsável pelo efeito entorpecente da planta.
Há três décadas, explica o especialista, os níveis de THC estavam bem abaixo dos 10%. Essa taxa triplicou em algumas cepas, porque os produtores têm feito cruzamentos ao longo dos anos para atender às demandas dos usuários. “Tem sido surpreendente o quão forte um monte de maconha é. Vimos valores de potência perto de 30% para o THC, o que é enorme”, diz.
A substância é encontrada em todas as partes da planta, especialmente nas flores, ainda que a concentração dependa de uma série de fatores, como o tipo de solo, o clima e a época de colheita, entre outros. Esse não é o único alucinógeno presente na maconha, mas, definitivamente, o mais potente. Algumas variações da maconha, como o haxixe e o skank, têm uma concentração ainda maior do THC, causando efeitos mais prejudiciais à saúde.
Redução A presença do canabidiol, por sua vez, tem seguido a presença oposta. Normalmente, a substância constitui grande parte da planta, alcançando mais de 40% de seus extratos totais. No entanto, LaFrate conta que muitas das amostras testadas em seu laboratório têm pouco ou nenhum CBD. Retirada do caule e das folhas, a substância não é psicoativa nem tóxica e, no início deste ano, teve o uso terapêutico liberado no Brasil pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) — leia Saiba mais.
Estudos consistentes feitos ao redor do mundo demonstraram o potencial da substância em diminuir a frequência de crises convulsivas entre pacientes com doenças neurológicas graves que não respondem a tratamentos convencionais. Outras pesquisas apontam que ela também pode ajudar pessoas com doenças como Parkinson, esquizofrenia, insônia e ansiedade.
Outro fator pesquisado foi a diferença entre os tipos de planta, que não parece ser grande. “Um pode ter folhas verdes, outro, roxas. A quantidade absoluta de canabinoides também pode mudar. Mas a proporção de THC para outros canabinoides não está mudando muito”, diz LaFrate. Isso significa que há uma diferença muito pequena em como as variedades fazem a pessoa se sentir, mesmo que alguns usuários afirmem que um tipo costuma trazer mais relaxamento, enquanto um segundo os deixa mais alertas.
Para Felix Kessler, professor do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal e vice-diretor do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o aumento da porcentagem de tetrahidrocanabinol preocupa. “Uma coisa era a planta que tínhamos com 3% de THC. Hoje, esse índice chega a 6%, 10% ou 15%. É uma droga muito mais alucinógena e potente. Estudos recentes mostram que traz o triplo de chances de psicotizar (quadro grave de perda de noção da realidade).” Ele explica que, do ponto de vista médico, esse aumento drástico torna a substância outra droga. “Os efeitos são diferentes, e as chances de o indivíduo se tornar dependente muito maiores.”
Fungos e micróbios O estado do Colorado ainda não exige dos produtores testes de contaminação, mas alguns apresentaram amostras voluntariamente para esse tipo de exame. As análises coletaram resultados surpreendentes tanto para os agricultores quanto para os pesquisadores. Foram encontrados elementos biológicos, como micróbios patogênicos, e químicos, solventes e metais pesados, por exemplo. Além disso, botões de maconha que pareciam perfeitos apresentaram uma cobertura de fungos e micro-organismos muitas vezes prejudiciais à saúde.
Os cientistas garantem que a contaminação não é necessariamente uma causa de alarme, mas o resultado mostra a necessidade de estabelecer níveis seguros. “Não deixa de ser um produto natural, então, vai ter crescimento microbiano, não interessa o que você fizer. Mas devemos nos questionar qual limite é seguro e com quais contaminantes realmente precisamos nos preocupar”, defende LaFrate.

Saiba mais
Liberação no Brasil
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou o uso terapêutico do canabidiol no Brasil em 14 de janeiro deste ano. O composto deixará de fazer parte da lista de substâncias proibidas pela agência e passará para a categoria C1, de uso terapêutico permitido, mas sujeito a controle. A mudança na classificação do canabidiol foi aprovada por unanimidade pela diretoria da agência, em reunião realizada em Brasília. Segundo o órgão, a decisão abre caminho para uma pesquisa mais ampla, com vistas a desenvolver medicamentos com essa substância no país. Apesar da exclusão do canabidiol da lista de substâncias proibidas no Brasil, o processo para importar produtos à base do composto em associação a outras substâncias derivadas da maconha permanece o mesmo e exige autorização especial. A liberação do canabidiol é uma reivindicação de familiares de crianças e adolescentes que têm crises repetidas de convulsão.  

domingo, 22 de março de 2015

Psicanálise, ética e poder

O clima de beligerância na política brasileira extrapola os conflitos partidários e a crise. As cenas de ódio remetem a fantasias e impulsos primários identificados por Freud


Inez Lemos
Estado de Minas: 21/03/2015 




Entre as ações impossíveis de serem realizadas plenamente, Freud destacou a de governar. Embora a psicanálise não tenha formulado uma teoria da política e do poder, ela reforça que o governo não pode desconsiderar o sujeito desejante – sujeito fundado nas pulsões. Como inserir o sujeito no campo da ética, da política e do poder? Como conciliar as pulsões e a civilização? A problemática da política está em mediar o campo social, a ordem simbólica e mítica das relações, uma vez que cada cidadão chega atravessado por traços culturais, convicções e atavismos. Cada sujeito porta registros simbólicos que o singularizam. O pacto social exige a equivalência simbólica das forças – Estado e sociedade.

Quando os governos lançam projetos políticos que rompem com o imaginário social propondo mudanças historicamente petrificadas, sofrem forte resistência. Toda ruptura no campo psíquico provoca uma contratransferência, uma rejeição aos modelos que contrariam os códigos internalizados, seja de governos ou pessoas. Diante da proposta socialista, por exemplo, Freud, embora compartilhasse do sonho por sociedades mais justas, não acreditava na sua viabilidade, uma vez que a relação dos sujeitos com a riqueza se inscreve no circuito pulsional que regula o gozo. Perder dinheiro significa perda de gozo, e, para tanto, poucos estão preparados. A transformação do estatuto simbólico dos bens materiais implicaria mudanças culturais e de valores, como também na circulação do gozo.

A instituição de uma sociedade menos desigual pressuporia a imposição de um limite ao gozo absoluto, operando como um interdito simbólico. Quando o sujeito é interditado em suas pulsões narcísicas, diante do imperativo do gozo se instala o mal-estar. Os conflitos entre interesses, muitas vezes explicados por motivos econômicos, geraram guerras e revoltas, desconstruindo o conceito de civilização universal e progresso. Contudo, a política deve transitar entre o universal (público) e o relativo (subjetivo). Daí a governabilidade ser um desafio que nunca se realiza completamente por se contrapor às demandas de gozo do sujeito. O conflito entre interesses, classes e ideias dificulta a democracia, uma vez que o narcisismo, a pulsão e o mal-estar na civilização fundam a desarmonia entre os cidadãos.

ÓDIO Como entender o ódio que se disseminou na sociedade brasileira a partir da ultima eleição para presidente da República? A questão é aprofundar o olhar sobre o sintoma “ódio ao PT” para além da realidade, extrapolando os conflitos partidários. Corrupção deve ser sempre combatida. Embora ela sempre tenha integrado o cenário político brasileiro, como explicar a onda de moralização, o furor por denúncias justo agora? O que subjaz à crise política que vivemos extrapola análises objetivas. A felicidade de uma nação não pode ser absolutizada, não é um valor universal, mas um valor relativo que remete às exigências pulsionais. Até que ponto as diferenças individuais e pulsionais inviabilizam a construção de um pacto social? Hegemonia prevê que a maioria dos participantes se una em torno de um valor universal.

Ao criticar políticas públicas de transferência de renda, como o Bolsa-Família, devemos estender o olhar às questões subjetivas – as diferenças se singularizam entre gozo e desejo. E o desejo se fixa na fantasia, que por si só tem algo de utópico. Não há nada de absoluto no campo das subjetividades, e a política administra fantasias humanas, cuja função é atuar na produção do desejo. Quando o desejo do sujeito é reconhecido, o cidadão abandona a fantasia de excluído e adquire um lugar na pólis – conquista pertencimento. Conquistar identidade é conquistar poder.

Os obsessivos por poder geralmente mantêm uma relação insana e perversa com a política. Manipulam e cometem crimes ao promover lobbies e garantir o “queijo intacto”. Brigam movidos por fantasias de riqueza, vaidades, poder. Há algo no psiquismo que dificulta avançar nas propostas de redução da pobreza. No Brasil, a retórica da democracia sempre se opôs às políticas públicas de amplo alcance social. Os projetos desenvolvimentistas ocorreram com dinheiro público em empreendimentos privados. Sempre convivemos com o Bolsa Boi, Bolsa Empresário, com o crédito ao agronegócio e às empresas. Contudo, o descontentamento com os investimentos do governo atual na área social deflagra a relação fálica de posse que o sujeito estabelece com os bens materiais. A lógica do lucro dificulta a aceitação, sem oposição, à expansão dos direitos sociais. Quando esses se estendem à maioria dos cidadãos, há perda de privilégios – a igualdade fere a fantasia fálica de acumulação.

OSTENTAÇÃO O gozo do sujeito contemporâneo está na ostentação da riqueza e na espetacularização da posse – a imagem de rico e poderoso. O projeto de felicidade fundado na pós-modernidade e centrado na tecnologia reforça a cultura narcísica, individualista. O ideal de acumulação em que a riqueza material ganha primazia, muitas vezes, não consegue produzir satisfação, uma vez que o viver em sociedade provoca interdições e renúncias pulsionais. É quando o sujeito se vê diante de propostas que contrariam a ordem simbólica – orientação internalizada de ostentação.

Em “Psicologia das massas e análise do eu”, Freud enuncia que o homem é um animal de horda e não um animal de massa. Há algo no sujeito que o leva a rejeitar o social, a resistir aos processos de coletivização. No meio da massa, ele se entrega aos impulsos primários, abandona as interdições e, como animal feroz, defende seu naco de carne.

Ao defender com violência o seu espaço, seu patrimônio e seu partido, o sujeito demarca território. É o narcisismo, que, ao impor singularidade, rejeita a igualdade. Freud, ao refletir sobre as guerras, cunhou a expressão “narcisismo das pequenas diferenças”. Ele explica os conflitos entre os cidadãos – fonte do ódio entre partidos, torcidas, nações. A “guerra entre partidos”, a conduta beligerante do atual Congresso Nacional expõe a obsessão pelo poder: digladiar por um lugar de destaque na arena política. A corrupção, o desejo de se locupletar de forma ilícita, inscreve-se no circuito pulsional – é sintoma que escapa. Os perversos sempre rodearam o poder, lugar onde os atos espúrios são protegidos.

Quando governos tentam inovar com políticas sociais que rompem com o ideário da elite conservadora, que sempre determinou os investimentos públicos, há que se tentar uma intervenção e transformação no sistema de valores e na produção do desejo coletivo. Não é possível entender a resistência ao Bolsa-Família – programa que não se resume a transferir renda, mas garantir educação, saúde, saneamento, eletricidade e moradia aos mais pobres – pelo viés da razão moderna. Há algo no psiquismo que inviabiliza a construção de um modelo iluminista de cidadania baseado no bem comum, uma vez que ele se oporia ao projeto universal de felicidade, quando as riquezas seriam mais bem distribuídas.

CORROSÃO Quando a política não consegue dialogar com as diferentes subjetividades, não oferece outras formas de laço social senão as clássicas inseridas pelo mercado e poder econômico, o efeito é a evidente corrosão entre Estado e tecido social. Tudo isso aponta para uma crise estrutural de valores, provocando uma dicotomia, a ruptura no ideal de nação. De um lado, os defensores do status quo – riquezas e privilégios –, de outro a população, que anseia por projetos que lhes garantam qualidade de vida. Uma população mais educada, saudável e com acesso a bens e serviços é pré-requisito ao desenvolvimento mais sustentável e menos desigual. A inclusão social e produtiva dos mais pobres é benéfica para o conjunto da sociedade.

Conclui-se que a relutância às políticas sociais, cujos impactos positivos na economia foram reconhecidos, aponta a dificuldade de se romper com a tradição simbólica que permeia as relações humanas, cristalizadas no preconceito e na resistência em conviver com a mobilidade social. Como socializar os espaços de convivência e democratizar o acesso ao patrimônio público. Quando uma classe é ameaçada de perda de privilégios, ela sofre intervenção na relação fálica de posse, é privação do gozo.

O mal-estar que se instalou no país não pode ser explicado apenas pela corrupção na Petrobras (uma vez que ela remonta a várias décadas), tampouco pela alta do dólar e da gasolina. É efeito de algo maior e que escapa às análises econômicas – diz da demanda de gozo do sujeito. Governar, educar e analisar são profissões infindáveis e incompletas.

Inez Lemos é psicanalista.
E-mail: inezlemoss@gmail.com

Poetas são outros

No romance Fernando Pessoa - O cavaleiro de nada, Elisa Lucinda funde sua voz à do escritor para revelar a beleza dramática da obra do gênio da língua portuguesa


Severino Francisco
Estado de Minas: 21/03/2015 



 (Almada Negreiros/reprodução)
Fernando Pessoa se autointitulava o “supra-Camões”. E, de fato, enquanto Os lusíadas cantou as aventuras marítimas portuguesas da era imperial por continentes desconhecidos, Pessoa é o poeta das aventuras do espírito, das viagens subjetivas, das navegações cotidianas e dos acidentes da vida moderna. O caso dele é singularíssimo. Na vida comum, empenhou-se em ser o mais anônimo dos mortais, um burocrata autor de cartas comerciais enredado na rotina mais trivial. A sua biografia factual é insignificante e completamente destituída de lances espetaculares. Queria, deliberadamente, tornar-se ninguém para ser muitos na ficção. Como escrever a biografia de um personagem que se coloca no lugar de ninguém? Esse é o desafio que Elisa Lucinda enfrenta no romance intitulado, significativamente, Fernando Pessoa – O cavaleiro de nada.

O repto é, ao mesmo tempo, verdadeiro e falso. Verdadeiro porque Elisa é, na vida real, uma espécie de anti-Pessoa: mulher, negra, bela, exuberante, atriz e amante dos palcos. Os poetas costumam ser personagens meio alheados dos aspectos pragmáticos do cotidiano. Mas Pessoa radicalizou essa condição e transformou a imagem do escritor inadaptado a um mundo de relações cada vez mais mercantilizadas em um arquétipo de marginalização voluntária.

Lucinda supera o primeiro desafio ao fundir a sua voz na do poeta e tornar Pessoa um heterônimo seu: “Sinto-me viver vidas alheias em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada, individuado por uma suma de não eus sintetizados num eu postiço”.

O desafio é falso porque Fernando Pessoa é íntimo de Elisa, ela conhece ou intui as leis secretas que regem o processo de criação, as sutilezas da relação entre vida e arte, as dissimulações e os dilemas do poeta: “Vi-me com apenas 11 anos, entre os meninos de 13, criado para ser um gentleman vitoriano; porém franzino por fora e infinito por dentro”, diz o narrador Fernando Pessoa. “(Ó, é sem modéstia que o digo). Não me invejem, ser infinito por dentro pode não ser bom”. Em outro trecho, a voz do próprio escritor é invocada para iluminar o drama de sua vida: “Em algumas, cheguei até a fazer estilo. Porém, nem por isso sofro menos. Um homem tanto pode sofrer vestido de seda como coberto de um saco ou cobertor roto”.

A narrativa de Lucinda desliza ardilosamente entre a ficção, a autobiografia, a fotobiografia e o ensaio. Ela acompanha a vida de Pessoa em uma sequência quase linear, do nascimento até a morte, passando pela infância, a morte do irmão Jorge às vésperas de completar um ano de vida, o rio da aldeia, a ilha da palavra, a amizade com Sá Miranda, a dramaturgia dos dias. Funde a voz na de Pessoa. No entanto, faz questão de distinguir, com muita clareza, por meio de um sinal gráfico, o próprio discurso e as citações do poeta.

REFERÊNCIA AFETIVA A personagem da avó, Dionísia Estrela, rotulada de louca, é uma referência afetiva e espiritual relevante no tecido da narrativa e na identificação do poeta inadaptado, alfabetizado no idioma inglês, mas que tinha a língua portuguesa na condição de pátria: “Escrever versos em inglês faz um efeito diferente na alma. Já escrever a palavra em português dava-me um conforto de terra firme no espírito.” A avó Dionísia tem a função quase de pitonisa grega, a desfiar comentários delirantes e incisivos: “Sua mãe que não é rainha de nada está a reclamar de quê? Ora, viva a sua língua, filho, e deixe que as más línguas se mordam!”.

Portugal sempre manteve relações estreitas com a África durante o período colonial e Lucinda estabelece esse embate com Fernando Pessoa ao contrabandear falas que colorem o drama de novas cores: “Na subjetividade, sou o mais branco dos zulus. E também o mais preto dos lusitanos por linhagem de mistérios. Há uma aldeia de tambores dentro de mim. Batuques. Escrevo beirando o abismo de tudo perder o sentido.”

A narrativa não encerra a vida de Pessoa às voltas com o próprio umbigo. No decorrer da trajetória, a relação com Portugal é abordada de maneira crítica e dramática: “Trágico Portugal, como és belo! Na tarde triste ouve-se o murmúrio do Tejo, o rio de minhas veias”. Ela explora recantos obscuros da alma portuguesa de um povo de espírito sonhador, mas de instinto predatório, despreocupado da construção paciente de projetos de desenvolvimento, nostálgico das aventuras ultramarinas: “Nessa história, pelo que vejo, não produzimos é nada. Ficamos sugando diariamente ouro, tabaco, traficando escravos e tirando suco das colônias sem plantar riqueza aqui. A Inglaterra já estava animada e firmando-se na onda da Revolução Industrial, nas locomotivas etc., e nós, viciados em chupar o sangue das terras que conquistamos, sem perceber que esse jeito de ganhar dinheiro sem fazer esforço podia sair-nos caro no futuro. Estou nostálgico. Um misto de saudade do que não houve de tristeza”.

DESLIMITES Esse romance é um ato de amor de Lucinda por Fernando Pessoa. E o olhar amoroso produz conhecimento. É um exercício de compreensão que ilumina dimensões delicadas e obscuras do poeta. A discussão sobre os limites do gênio e da doença percorre a trama. Fernando Pessoa se multiplicou nos heterônimos de Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Ricardo Campos, entre outros: “Hoje, entre uma bebedeira e outra, indago-me se sou gênio mesmo ou se o que me falta é medicação. Talvez eu ouça vozes. E daí? O que vale é que, dramaturgo do desfile de vozes da minh’alma, descrevo aqui a oficina onde armei o jogo da vida”.

Em vida, Pessoa sentiu-se, quase sempre, um estrangeiro na sua pátria e no seu tempo. Teve raros amores e amigos. O livro é uma bela iniciação a Fernando Pessoa. A mirada afetuosa, cálida, lúcida e lírica de Lucinda fulmina as incompreensões coladas à imagem do poeta português, o supra-Camões das aventuras cotidianas da modernidade: “Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. Ó minha vila natal em Portugal, tão longe! Por que não morri eu criança quando só conhecia a ti”. Lucinda protege Pessoa dos julgamentos rasos: “Prefiro a incompreensão pelo silêncio. A minha arte é ser eu. Eu sou muitos. Mas, com o ser muitos, sou muitos em fluidez e imprecisão”.

É uma homenagem amorosa de poeta para poeta. Lucinda roça a sua língua na língua de Pessoa: “A maior boca é a do Álvaro, mas todos têm rios a nascer das línguas”, escreve o narrador de O cavaleiro de nada. Ela sustenta o fôlego da língua elegante, fluida e luxuosamente precisa ao longo de mais de 400 páginas. Pessoa acumulou inúmeras biografias. Lucinda se apropriou de todo esse legado para traduzi-lo na língua epifânica da poesia, a língua de nascimentos e renascimentos.

Ao fim da leitura, ergue-se aos olhos do leitor um retrato complexo, dramático e pungente do poeta português. Com O cavaleiro de nada, Lucinda se torna uma verdadeira contemporânea de Fernando Pessoa: “Penso às vezes que se um dia, num futuro a que eu já não pertença, essas frases que escrevo durarem com louvor, eu teria enfim a gente que me ‘compreenda’, os meus, a família verdadeira para nela nascer e ser amado”, escreveu, profeticamente, o poeta.
 (RECORD/REPRODUÇÃO)

FERNANDO PESSOA O CAVALEIRO DE NADA

• De Elisa Lucinda
• Editora Record
• 403 páginas, R$ 55