sábado, 23 de maio de 2015
quarta-feira, 20 de maio de 2015
Pega-ratão - Martha Medeiros
Zero Hora 20/05/2015
Outro
dia usei uma expressão que andava sumida do meu vocabulário: pega-ratão. De
onde saiu isso?
Há quem
diga que é o mesmo que uma pegadinha, mas não vejo assim. Pegadinha é uma piada
que logo se assume como tal. Alguém envolve você numa situação que parece
verdadeira, mas no instante seguinte revela que não era pra valer, estava
apenas se divertindo com a sua reação. O objetivo era fazer todos darem risada,
uns antes (os que arquitetaram a brincadeira), e depois o pobre do mané ao
descobrir a tramoia da qual foi vítima. Qual a saída dele a não ser rir também?
Pegadinha é isso, um pega-ratinho.
Pega-ratão,
como o superlativo indica, é uma armadilha mais engenhosa e que não é revelada
nem antes nem depois: os mentores jamais admitirão que tentaram engambelar. Alegarão
que não ousariam cometer essa deselegância conosco, os ratões, pessoas bem-informadas,
que pagam ingressos caros para ver um show, para visitar uma exposição e até mesmo
para comer um determinado prato num restaurante da moda. Para pegar um ratão, é
necessária uma artimanha sofisticada e de preferência amparada pela mídia, que
também pode ter entrado de gaiata.
Salvo
exceções, considero que instalações artísticas são uma espécie de pega-ratão
com um verniz intelectualizado. Se eu estiver sendo muito provinciana, aceito
humildemente a crítica e o xingamento, mas o fato é que quase nunca entendo o
que significam aquelas latarias, ferragens, cordas caindo do teto e demais
materiais inorgânicos (às vezes, orgânicos) promovidos a arte moderna, bastando
um holofote jogado em cima.
Restaurante
minimalista, com pratos insípidos e minúsculos custando a bagatela de R$ 80: pega-ratão.
A recompensa talvez seja a publicação da foto da guloseima no Instagram e o
cliente ter o nome publicado na coluna social, o que uma macarronada honesta
num restaurante simples não proporcionaria – macarronada sacia sua fome, não
seu apetite de status.
Encontros
às escuras, anúncios de apartamentos “nobres” em que os quartos são menores do
que banheiros, filmes que se anunciam como continuação de um sucesso: tudo pega-ratão.
Está passando nos cinemas um tal Divã a 2, cujo cartaz possui a mesma programação
visual do filme baseado no meu livro Divã e que teve excelente bilheteria em 2009,
com a grande Lilia Cabral liderando o elenco, além de roteiro de Marcelo Saback
e direção de José Alvarenga Jr, todos feras.
Pois, afora esse cartaz enganoso,
o filme atual não conta com o mesmo elenco, nem a mesma equipe e não tem nada a
ver com meu livro. Por falta de estofo próprio, recorreu à armadilha de colocar
um número 2 no título para – nhac! – atrair os desavisados.
Então,
esteja avisado. Os ratos estão do outro lado do balcão.
terça-feira, 19 de maio de 2015
"Cobras" de ontem, experts de hoje
Os primeiros smarts
nasceram nos anos 1990, as lojas virtuais, em 2003. A combinação dos
dois fez surgirem os desenvolvedores, e eles mudaram o jogo para sempre
Mirelle Pinheiro
Estado de Minas: 19/05/2015“As inovações trazidas por aparelhos lançados há duas décadas possibilitaram a criação de aplicativos mais interessantes, por causa dos recursos que traziam embarcados. Também ampliaram a base de usuários potenciais. Hoje, por exemplo, temos, no mundo, mais usuários de smartphones do que de computadores tradicionais”, avalia o professor de Inteligência Artificial do Centro Universitário de Brasília (UniCeub) Paulo Rogério Foina, nesta segunda reportagem sobre aplicativos.
Em uma manhã de 1994, o mercado norte-americano acordou com o protótipo de um dispositivo que pode clamar a paternidade – nessa mesma fila há versões suecas e japonesas – dos atuais smartphones: o Simon Personal Communicator, da IBM. Ele vendeu 50 mil unidades nos Estados Unidos, até fevereiro de 1995, quando deixou de ser fabricado, tinha tela sensível ao toque e acesso rápido a e-mails, numa época em que a internet engatinhava. Custava de US$ 599 a US$ 1 mil.
Naquela época, os aplicativos eram um recheio ainda simplório de hardwares não muito mais avançados. Mais do que a velocidade de processamento e as inúmeras funcionalidades de hoje, a principal diferença estava na produção. A indústria entendia o software como propriedade de quem vendia o dispositivo, e não de terceiros. Assim, as primeiras aplicações desenvolvidas para celulares acessavam e-mails, aparelhos de fax, calendários, agendas e blocos de anotações, mas nada muito além disso, até porque a produção era restrita.
Independentes Com lojas virtuais de aplicativos ao alcance de dois cliques nos dias de hoje, recuperar o mercado de uma década atrás ajuda a entender a evolução de todo o processo. O predecessor das atuais stores surgiu há 12 anos, mais de cinco antes da App Store, que acabou popularizando o mercado. Em 2003, foi ao ar a norte-americana Handango, uma das primeiras lojas com pequenos softwares para embrionários smartphones e PDAs (personal digital assistants). Fundada pelo texano Randy Eisenman, a Handango também contava com um programa, o Handango InHand, que tornou possível procurar e instalar apps, gratuitos ou pagos, games, temas e ringtones nos aparelhos, sem a necessidade de conectá-los a computadores.
No ano de lançamento, o InHand trouxe prateleiras virtuais para smartphones que usavam o sistema operacional Symbian, como alguns modelos da Sony Ericsson, Motorola e Nokia. Posteriormente, passou a funcionar em dispositivos que rodavam BlackBerry, Windows Mobile, Palm OS e Android, e reuniu cerca de 50 mil aplicativos em seu catálogo. Além do sistema de buscas de apps, o InHand também permitia aos usuários descrevê-los e avaliá-los.
Iniciava-se ali a era em que os programas não mais eram propriedade das empresas de hardware, e sim de desenvolvedores independentes, uma mudança que acabou consolidada, de vez, com a App Store, a partir de julho de 2008. “Foi, sem dúvida, a grande revolução. Uma loja virtual para o iPhone, com apenas 500 aplicativos, quase todos desenvolvidos por pessoas sem nenhum vinculo empregatício”, destaca o professor de desenvolvimento de sistemas, Michel Carmo Lopes, da Universidade Católica de Brasília (UCB).
A inauguração da App Store também serviu para criar dezenas de milhares de empregos em torno desta nova indústria. Segundo balanço da Apple, em apenas seis anos, o desenvolvimento do iOS ajudou a fomentar 627 mil postos de trabalho somente nos Estados Unidos e as vendas relacionadas às ofertas dos produtos que integram a plataforma passam das dezenas de bilhões de dólares. Há sete anos, nada disso existia.
“Com essa jogada, a tradicional empresa, que sempre foi conhecida por ser resguardada e pelos produtos ‘fechados’, observou um nicho no mercado que poderia mudar o mundo, o que de fato ocorreu”, acrescenta Lopes.
Do Simon a Jobs
Como o mercado de aparelhos móveis mudou adicalmente em um espaço de tempo tão curto
Modelo: Simon Personal Communicator
Fabricante: IBM
Ano de lançamento: 1994
Com tela sensível ao toque, o Simon Personal Communicator era capaz de acessar e enviar e-mails e fax, além de conter aplicativos básicos como agenda, calendário, bloco de notas, calculadora e relógio.
Vendeu 50 mil unidades e deixou de ser fabricado em 1995.
Modelo: Hagenuk MT-2000
Fabricante: Hagenuk
Ano de lançamento: 1994
Embora não seja considerado, de fato, um smartphone – não havia conexão à internet, por exemplo –, o Hagenuk MT-2000 inovou o universo dos mobiles e trouxe o primeiro jogo disponível a um aparelho móvel: uma versão especialmente produzida do tradicional Tetris. Também foi o primeiro modelo a apresentar antena interna. Pena que, em uso extremo, a bateria só
durava uma hora.
Modelo: Nokia 9000 Communicator
Fabricante: Nokia
Ano de lançamento: 1996
Com dois teclados – um alfanumérico, para ligações, e um estilo QWERTY, para navegação – e memória de 8MB, o Nokia 9000 Communicator rodava com sistema operacional GEOS 3.0. Além do acesso a e-mails e faxes, também tinha calendário, bloco de notas, calculadora, calendário, leitura e edição de arquivos
de texto e inovações no serviço de SMS.
Modelo: Ericsson R380
Fabricante: Ericsson
Ano de lançamento: 2000
Com o Ericsson R380 surgiu o título smartphone. O aparelho foi o primeiro a rodar um sistema operacional e uma interface considerados modernos, ambos da Symbian. Embora não permitisse que usuários fizessem o download de softwares, o modelo sincronizava com produtos da Microsoft, acessava internet e tinha games e aplicativos básicos. Desenvolvido na Suécia, o Ericsson R380 custava US$ 700.
Modelo: Kyocera QCP 6035
Fabricante: Kyocera
Ano de lançamento: 2001
Rodando o sistema operacional Palm OS, podia ser usado como celular e como uma espécie de palmtop, bastando abrir ou fechar o flip. Com aplicativos de escritório e conexão (lenta) à internet, foi o primeiro smartphone a desembarcar no Brasil. Por aqui, quem quisesse o brinquedo tinha de desembolsar R$ 2,8 mil à época.
Modelo: BlackBerry 6210
Fabricante: RIM
Ano de lançamento: 2003
Modelo que inovou ao trazer o BlackBerry Messenger, um upgrade no serviço de trocas de mensagens instantâneas e — por que não? – o pai do WhatsApp. O 6210 também foi um dos primeiros smartphones a fazer sucesso com pacote GSM/GPRS, tecnologia que aumenta transferência de dados e deixa a conexão mais veloz.
Modelo: iPhone
Fabricante: Apple
Ano de lançamento: 2007
O iPhone de Steve Jobs mudou o modo como o mundo enxergava os smartphones. O modelo trouxe o sistema operacional iOS – veloz e potente –, e cerca de 500 aplicativos para que os usuários pudessem instalá-los ou desinstalá-los livremente, tela sensível ao toque e, o mais imporante, uma revolução em hardware que obrigou a concorrência a investir pesadamente no setor.
domingo, 17 de maio de 2015
EM DIA COM A PSICANáLISE » Um pequeno grande esclarecimento
Regina Teixeira da Costa
Estado de Minas: 17/05/2015 As crias humanas não. Precisam ser cuidadas, alimentadas e levam anos para ser lapidadas pela educação, quando o são. Primeiro, pela família, que lhes permite entender a cultura. Depois, a escola tenta completar essa educação, sempre falha, porque não aceitamos facilmente o sacrifício de nossos instintos naturais. A agressividade inata, o gosto pelo prazer, a sexualidade, o desejo edípico de amar um dos pais possessivamente e se livrar do outro – tudo isso será reprimido.
Deixar de fazer o que se quer para assumir obrigações e responsabilidades tem um alto preço, ao qual nos obriga a moral civilizada. Para suportar a vida como ela é, tornamo-nos neuróticos, na melhor das hipóteses. E não sem mal-estar. Diante de privações, frustrações e castração necessárias, muitos dos desejos primitivos devem ser esquecidos. Ou, como dizemos, recalcados. Mas eles não se esquecem de nós. Permanecem vivos no inconsciente.
Todo esse trabalho de repressão deixa rastros que chamamos sintomas. Como a febre aponta a doença, o sofrimento sinaliza as raízes inconscientes dos sintomas. Seguimos seus rastros durante o tratamento – como ocorre com a asma, as constipações, a gagueira, as dificuldades de aprendizado, etc.
Freud foi um bom investigador. Seguindo os sofrimentos, era sensível intérprete da subjetividade. A partir de seu texto sobre o narcisismo, de 1914, o eu será entendido, dessa época em diante, como objeto de possível fixação da libido do sujeito, isto é, pode ser um objeto de amor. Amor de si mesmo.
Certas partes ou funções do eu podem se separar como que por rachaduras. Se elas não se deixam notar nos indivíduos normais, aparecem abertamente nos casos patológicos, pois esses últimos nos mostram de forma exacerbada aquilo que se encontra de forma microscópica nos casos normais.
Disse Freud: se atirarmos ao chão um cristal, ele se parte, mas não em pedaços ao acaso. Ele se desfaz segundo linhas de clivagem em fragmentos cujos limites, embora invisíveis, estão “predeterminados” por estruturas do cristal. Essas estruturas são evidências da verdade esquecida, porém viva.
Além de tudo isso, o eu, mais uma vez, se divide e a uma parte dele chamamos supereu. Um vigilante juízo tirânico que nos castiga, nos obrigando ao que nem queremos, porque sabe de nossos esquecidos desejos proibidos e não se engana com a polidez adquirida pela educação.
Incapaz de perdoar os mais antigos conteúdos primitivos, ele age como se ainda os praticássemos em intenção e aplica o castigo correspondente ao ido, ao fantasiado, e não ao atual. Faz-nos repetir incansável e dolorosamente um mal-estar pelo conflito entre eu, supereu e inconsciente na forma de um sentimento de culpa moral. Pelo esquecido em estado natural, como se fôssemos livres de qualquer lapidação moralizante.
A vida em comunidade seria impossível sem os limites da lei moral, pois nos mataríamos quando desejássemos, sem nenhum remorso. Tomaríamos pela força o que quiséssemos, como as crianças, sem culpa. Sofreríamos menos? Sobreviveríamos? Viveriam os fortes como os leões. A lei é o nosso pacto garantidor. Ainda assim, alguns a recusam, ignorando a condição da sobrevivência da civilização e da espécie.
O preço que pagamos sob a égide da lei é o sentimento de culpa pelo que não recordamos, mas que se mostra por meio de sintomas. Ou por meio dos sonhos que relaxam a vigília do supereu. Isso explica a origem de muitas insônias. Quando dormimos, revelam-se distorcidos desejos condenados à luz da consciência. Por isso nos chamamos neuróticos: por esse conflito interminável em que vivemos entre a consciência, o inconsciente e o supereu. A análise é capaz de esclarecer e de nos fazer entender que não merecemos ser infelizes por eles, pois o que vale agora é o que somos e como agimos. Já pagamos o preço da vida em comum abandonando, por amor ao próximo, os instintos mais primitivos. Esse é nosso maior tributo à cultura, mesmo que de forma falha e incompleta.
Assinar:
Postagens (Atom)





























