Mostrando postagens com marcador cora ronai. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cora ronai. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

No reino da boçalidade - Cora Rónai

No reino da boçalidade - Cora Rónai

O aeroporto internacional Eldorado, de Bogotá, bota no chinelo o patético Galeão

E aí, um dia, a gente recebe uma carta como esta:
“Peço-lhe desculpas por chateá-la com assunto dessa natureza. Infelizmente ainda há pessoas que acreditam que não pode acontecer com elas passar por tanto constrangimento quando precisam da ‘nossa’ polícia.
“Meu sobrinho vem, há alguns anos, meio perdido na vida. Sou professora, graduada e pós-graduada, crio-o desde os sete anos (hoje está com 29) porque a mãe sumiu no mundo e o pai, meu irmão, morreu quando o menino contava apenas dois meses. Temperamento difícil somado à revolta pelo abandono levaram-no às drogas; para manter o vício, foi levado aos assaltos.
“Imagine como sofro, pois tentei dar-lhe carinho e educação. Quando pequeno, levei-o a vários médicos e terapeutas. Crescido, dizia que não tinha problema e vivia a sua maneira. Está preso, pela segunda vez. Condenado, aguarda sua transferência para Bangu em uma casa de custódia em Engenheiro Pedreira, distrito de Japeri, interior do Rio de Janeiro.
“Cheguei há pouco de lá. Estou arrasada. Não consigo entender por que alguns funcionários (infelizmente, maioria) do Sistema de Administração Penitenciária tratam-nos, parentes dos presos, com tanto sarcasmo e desrespeito. Imagino como os presos são tratados. Sei que violaram as leis, sei que muitos oferecem perigo à população, sei que não devem ter mordomias. Não deveria haver mordomia para ninguém que violasse as leis, inclusive os políticos corruptos, os criminosos de colarinho branco. Apenas acredito que, como cristãos, devemos tentar ajudar essas pessoas a viver de forma diferente. Acredito que educando, orientando para o trabalho, ocupando esses jovens, tornando-os úteis, chegaremos a uma realidade tão desejada, ou seja, construiremos e investiremos em escolas e universidades e não precisaremos construir mais presídios.
“Levei para meu sobrinho uma manta de fibra sintética, cor cinza exigida pela casa de custódia. O inspetor disse que não poderia ser entregue. Eu perguntei por quê. Ele, rindo e caçoando, recomendou-me passar pelas ruas à noite, observar bem os mendigos e roubar de um deles um dos cobertores que usam, bem ‘vagabundinhos’, que é o que pode entrar para o preso.
“Você talvez dirá que eu deva procurar a corregedoria. Não é a primeira vez que passo por constrangimentos ou que os testemunhe. Você faz ideia do que pode acontecer ao meu sobrinho se eu fizer a reclamação? Precisa responder? Que país é esse em que não se pode confiar na força policial? Em todo esse tempo de luta (mais ou menos 15 anos) tentando recuperar esse jovem, encontrei apenas alguns poucos policiais que mereciam confiança.
Apenas alguns poucos, Cora. Apenas.
Sou professora. Acredito na Educação. Sou cristã. Não desisto. Perdoe-me o desabafo. Abraços,
Norma Suely”
______
Não sei o que dizer para a Norma Suely. Não sei o que responder a uma carta assim. Não tenho coragem de recomendar que tenha paciência, porque eu não teria. Não tenho como pedir que tenha fé, porque eu não acredito. Não posso insinuar que as coisas vão melhorar, porque eu estaria mentindo: o Brasil que vejo piora a cada dia. Fizemos alguns progressos na área social, dizem que há menos miseráveis, e é possível que isso seja verdade, mas nunca tivemos uma população tão mal preparada, tão mal-educada, tão boçal. Um guarda que destrata os parentes dos presos é reflexo disso. Uma diretoria de presídio que permite este tipo de achincalhe também.
Não basta o país ter a capacidade de transformar miseráveis em pobres. Mais importante do que isso é pensar a longo prazo, é criar uma escola que funcione, da qual os jovens saiam com ferramentas de real progresso nas mãos, em vez de diplomas que, cada vez mais, valem cada vez menos. É entender que educação é, também, um conjunto de valores que forma pessoas melhores e mais humanas. O guarda que fez troça da Norma Suely aprendeu a ler e escrever, mas não sabe nada.
______
Escrevo de Bogotá. Quando o avião decolou do Rio, o comandante da Avianca fez uma homenagem emocionada à equipe de judô que participou do mundial do Rio, e que voltava para casa naquele voo. Concluiu dizendo que jovens como aqueles reafirmavam o seu orgulho de ser colombiano. O casal brasileiro que ia à minha frente deu uma risadinha: “Orgulho de ser colombiano? Ha ha!”
Espero que, ao desembarcarmos, tenham mordido a língua com bastante força: o aeroporto internacional Eldorado bota no chinelo o patético Galeão, cada vez mais deprimente. E não é só a porta de entrada que impressiona. Os anos negros da guerrilha ficaram para trás (Farc e governo estão em negociações para pôr fim ao conflito), a produção de drogas caiu drasticamente, e o país, que vive um bom momento econômico, é uma grata surpresa: Bogotá é uma cidade ao mesmo tempo sofisticada e acolhedora, que sabe preservar a sua cultura. Tem museus de padrão internacional, bibliotecas públicas de cair o queixo e ruas limpas e seguras, patrulhadas por duplas de policiais e lindos cães de todas as raças. Acima de tudo, porém, tem uma população supergentil e educada, que capricha na cortesia como estilo de vida. Eles têm mais é que ter orgulho, muito orgulho, do seu país.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Cora Rónai

o globo


Não acredito mais quando me falam em legado disso ou daquilo. Pois o atual velódromo não era ‘legado do Pan’?

Terminei a coluna da semana passada pedindo explicações ao Comitê Olímpico sobre o velódromo e o centro de treinamento de ginástica artística, que foram desativados embora estivessem novinhos; não me entra pela cabeça que equipamentos construídos para o Pan, em 2007, agora sejam considerados inadequados. Pois Claudio Motta, gerente de comunicação do COB, prontamente me mandou um e-mail:


“A desativação do atual Velódromo acontece para atender ao cronograma de obras do Parque Olímpico, com a construção de um novo Velódromo, de nível olímpico, que se constituirá em um grande legado dos Jogos Olímpicos Rio 2016 para o ciclismo da cidade e do país.
Em relação aos atletas de ginástica, o COB já tem um local para instalar o CT de Ginástica Artística, no Rio de Janeiro, que será anunciado em breve. Além disso, o COB e a Confederação Brasileira de Ginástica definiram que, até a construção do novo CT, o local de treinos da Seleção Brasileira feminina será em Três Rios (RJ). Já a masculina se dividirá entre Belo Horizonte (MG) e São Caetano (SP).


No caso do ciclismo, havendo a necessidade de treinamento de ciclistas da Seleção, o COB, em conjunto com a Confederação Brasileira de Ciclismo, enviará os atletas da modalidade para treinos no exterior.
Se persistirem dúvidas, estamos à sua disposição.”


Não posso propriamente dizer que persistem dúvidas; o que persiste é indignação. Não acredito mais quando me falam em “legado” disso ou daquilo. Pois o atual velódromo não era “legado do Pan”? Acho um desrespeito com os contribuintes a facilidade com que se joga dinheiro fora neste país. Isso para não falar no centro de treinamento de ginástica, que funcionava dentro do velódromo: em abril do ano passado, o próprio COB postou no YouTube um vídeo sobre a sua inauguração, com elogios empolgados dos nossos atletas afirmando que nunca viram nada igual (o vídeo pode ser assistido em bit.ly/Y2p4FY).


Recebi também um e-mail de Mariza Louven, que trabalha na Empresa Olímpica Municipal, da prefeitura:


“A Federação Internacional de Ciclismo (UCI), após vistoria do velódromo atual feita a pedido do Comitê Rio 2016, elaborou um parecer de que este não pode ser utilizado para os Jogos Olímpicos. A entidade citou diversos aspectos. Entre eles, o fato de a construção ter dois pilares que atrapalham a visão do público, dos telespectadores e dos árbitros; e a pista não permitir que os atletas atinjam a velocidade necessária para superar recordes olímpicos e mundiais — no velódromo atual, os atletas podem atingir até cerca de 65 km/h, enquanto um velódromo olímpico deve possibilitar o alcance de 85km/h. Além disso, há itens que impactam a segurança dos competidores e seu desempenho, como o fato de a construção atual ser aberta.”


Essa explicação mais detalhada apenas ampliou o espectro da minha indignação. Quer dizer que nos fizeram de trouxas no Pan? Nos deram um “legado” que não prestava? Imagino que um velódromo seja projetado por especialistas no assunto; mas que “especialistas” foram esses que fizeram um equipamento que não permite alcançar recordes e que “impacta a segurança” dos atletas?


Em suma: fomos ou estamos sendo passados para trás. Pagamos por um velódromo aparentemente perfeito em 2007 e vamos pagar por outro velódromo ainda mais perfeito este ano. Só nos resta agora torcer para o Rio não sediar nenhum evento de ciclismo no futuro, ou logo o “legado dos Jogos Olímpicos” será demolido para a construção de um terceiro velódromo.


Ser carioca é conviver com obras de caráter duvidoso. A Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, está sendo completamente destruída pelas obras do metrô. O governo do estado, que prometeu que ia deixar as árvores em paz, mentiu: de qualquer janela das vizinhanças se pode acompanhar a clareira que cresce a cada dia. A verdade é que o governador está pouco se lixando para as árvores, assim como está pouco se lixando para os mais de 30 mil cidadãos que assinaram uma petição em sua defesa.


Enquanto isso, no Leme, moradores estão se mobilizando para salvar o bairro do desastre que seria a implantação de uma nova estação do bondinho do Pão de Açúcar. Eles estão apavorados, e por justa causa: o Leme, que já tem uma população maior do que comporta, e que não tem vagas nem para os automóveis de quem mora lá, quem dirá para ônibus de turismo, vai perder o pouco de sossego que lhe resta se a sinistra ideia da Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar colar. Os moradores foram à rua no domingo, para protestar, e logo num primeiro momento colheram mais de 500 assinaturas.


Tomara que tenham mais sorte do que tivemos em Ipanema.