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sábado, 31 de agosto de 2013

Pequenas, mas atrevidas - Joselia Aguiar


Por Joselia Aguiar | Para o Valor, de São Paulo
Bruna Prado/Frame/Folhapress / Bruna Prado/Frame/Folhapress
A Bienal do Rio, no Riocentro, tem 950 expositores e espera 600 mil visitantes neste ano: presença das pequenas cria um curioso contraste da fase recente do mercado editorial
Evento-símbolo da indústria editorial brasileira no que tem de superlativo em volumes e cifras, a Bienal Internacional do Livro, neste ano realizada no Rio, chega às suas três décadas com orçamento de R$ 32 milhões, 950 expositores e área de 55 mil m2, onde são esperados 600 mil visitantes que vão até lá para encontrar autores de best-sellers, como James C. Hunter, de "O Monge e o Executivo", 3 milhões de exemplares vendidos só aqui.
Superlativo? Nem tudo. Como a aldeia gaulesa de Asterix que resiste aos romanos, uma diminuta área que não ultrapassa 120 metros quadrados, no mesmo pavilhão da bilheteria e entrada principal, está coberta por dez editoras independentes. É antes uma ocupação que resistência. Pois na edição passada, de 2011, eram apenas cinco. Para atender à procura, a solução foi dobrar o espaço, que existe desde 2003 com o nome de Calçada Literária e tem estandes menores, de 9 m2, ao custo médio de R$ 500 por m2 - os estandes adquiridos por editoras de grande porte alcançam 200 m2.
No instantâneo, o curioso contraste da fase recente do mercado editorial brasileiro. Quando passa pela sua maior consolidação - aquisições, com entrada de megagrupos estrangeiros -, as independentes proliferam. Nanicas, pequenas ou médias investem em formatos que vão do artesanal, com exemplares encadernados à mão e capa dura, ao ainda pouco difundido e-book. Algumas lançam revista própria gratuita ou mantêm simpáticas livrarias, outras funcionam como coletivos e adotam o crowdfunding. À medida que aumentam em número, parecem adquirir cada vez mais força.
"Força comercial, não sei se é possível dizer. Cultural, não tenho dúvida", afirma Haroldo Ceravolo, sócio da paulistana Alameda e à frente da Libre, associação que reúne iniciativas editoriais para além dos megagrupos. Organizadas a partir de catálogos coerentes e por vezes bastante focados, servem de contraponto às grandes, que, ao disputar títulos comerciais milionários, "têm construído sua força comercial no abandono de uma política editorial firme", avalia.
Cifras e volumes das independentes ainda são imprecisos. Medir o tamanho da bibliodiversidade é tarefa que a Libre tem à frente, já em discussão com a nova diretoria do Livro e da Leitura do MinC. Não é pela Calçada Literária ou pelos possíveis estandes pavilhões adentro no Riocentro que se pode avaliar o caminho das independentes. Território para grandes, as bienais não costumam ser lugar de preferência das pequenas. Uma medida pode ser a própria Libre, hoje com 117 associados, aumento de 20% em dois anos - em parte porque, segundo Ceravolo, se adotou um sistema mais ágil para avaliar os pedidos de adesão. Independentes não são novidade, expansão e retração se sucedem em ciclos, mas agora há condições técnicas mais favoráveis, com as novas tecnologias que baratearam os custos de produção e impressão e ampliaram os canais de divulgação e vendas.
A força cultural das independentes vem da disposição, e até ousadia, de investir em projetos que não disputam lugar em listas de mais vendidos. Como poesia, ensaio e humanidades, gêneros considerados pouco comerciais. Reedições de obras esgotadas, traduções de autores de idiomas pouco disseminados ou revelação de novas vozes - que, muito depois de se firmar, têm seu passe comprado pelas grandes.
Em São Paulo, a Demônio Negro lançou, por exemplo, as "greguerías" de Ramón Gómez de La Serna, da vanguarda espanhola do começo do século XX, e a primeira edição em mais de um século de "O Guesa", de Sousândrade. No catálogo da Ficções, há Augusto de Campos e Paul Valéry. A Grua traz diretamente do grego a obra de Nikos Kazantzákis, mais conhecido por seu clássico "Zorba". Estreias literárias são a principal aposta da Patuá, Lote 42, Dobra, Bateia e Edith. No Rio, A Bolha, que elege gêneros híbridos com desenho e quadrinhos, também leva a obra de Hilda Hilst para os Estados Unidos, em coedição com a Night Boat. Em Curitiba, a Arte & Letra garante para o leitor brasileiro títulos do argentino Cesar Aira, atração cult na Bienal do Rio, apinhada de "blockbusters".
Não é só por vontade de preencher espaço deixado pelas grandes, muitas das independentes pretendem criar outro, como contam ao Valor. Assim como há as que querem crescer, há as que querem continuar do mesmo tamanho, sem ter em vista acelerar a produção ou potencializar o lucro.
"O caminho das editoras independentes não pode ser o da imitação das grandes: devem buscar um modelo próprio e singular a cada uma, seja no catálogo, no processo produtivo, na relação com os autores e leitores, de preferência nos três eixos. Pelo menos é como tentamos fazer", defende Alexandre Nodari, um dos fundadores da Cultura e Barbárie, de Florianópolis. Como "linhas de fuga ao consenso", a Edições Chão da Feira escolhe títulos que "modificam a cartografia do que é pensável, nomeável, do que é perceptível e, também, do que é possível", define Maria Carolina Fenati, uma das editoras que constituem um núcleo que se estende por Belo Horizonte, São Paulo, Rio, Lisboa e Porto. Rachel Gontijo, uma das sócias da carioca A Bolha, lembra que "comprar um livro de uma editora independente é uma forma de ativismo, assim como escrever sobre produções independentes".
Longe das bienais, as independentes investem em site próprio e, com dificuldade, conseguem entrar até em grandes livrarias. Fazem surgir os próprios lugares de encontro e venda, para tentar resolver o velho entrave, a distribuição.
Divulgação / Divulgação
Apresentação da Big Band Villa Lobos durante a Primavera dos Livros, em novembro: editoras independentes têm essa feira anual, promovida pela Libre, em São Paulo e no Rio
Uma feira só para editoras com esse formato é realizada em três cidades brasileiras, a Primavera dos Livros. Neste ano, a de Osasco vendeu mais de 150 mil exemplares, com cerca de 40 mil visitantes, informa a Libre. A do Rio está marcada para 24 a 27 de outubro no Museu da República. Ainda em fase de captação de recursos, a de São Paulo deve ser realizada em novembro, no centro. As independentes têm em São Paulo uma festa literária, a Flap, com debates gratuitos, cuja sétima edição vai de 20 e 22 de setembro na Casa das Rosas, Bibliotecas Mário de Andrade e Alceu Amoroso Lima, e no Espaço Satyros.
O calendário prossegue. Inclui eventos como a Feira de Arte Impressa Tijuana, a Feira Plana, a Turnê, a Feira de Publicações Independentes do Sesc Pompeia. Os livros chegam à Cooperifa e ao Sarau do Binho, a espaços culturais na Vila Madalena e Baixo Augusta. "Creio que a tendência bonita é esta: a literatura estar misturada a outras causas e atividades, mais próxima do leitor, mais cheia de vida", prevê Ana Rüsche, poeta e idealizadora da Flap. "Arriscaria dizer que há uma vontade do público leitor em frequentar esses lançamentos, em 'estar por dentro'."
Uma loja exclusiva para as independentes foi aberta no bairro de Pinheiros há quatro meses: a Livraria de Microeditoras, parceria da Intermeios e Demônio Negro que se estende às demais. Não é comum, mas há editoras que possuem livraria própria, como a Arte & Letra, em dois andares de um mesmo prédio, em Curitiba. "Não é mais possível pensar editora e livraria como coisas separadas", diz Thiago Tizzot, fundador. "A livraria veio depois e ajuda bastante não só como ponto de venda. Alguns projetos da editora surgiram na mesa de café e subiram a escada."
As idas à gráfica exigem outra lógica, assim como se dá na escolha dos títulos e na distribuição. Se as altas tiragens caracterizam as grandes, que podem ganhar em escala e colocar como enxurrada candidatos a best-seller nas lojas - nas grandes, os poucos comerciais saem com tiragem de 3 mil, os vendedores, com dezenas de milhares -, as independentes têm de imprimir sob medida, para não comprometer muita verba de uma só vez nem correr o risco de ter o título esgotado, algo como o "tem, mas acabou".
A inteligência da tiragem, tal como se opera na Patuá, que começou faz dois anos e meio com investimento de R$ 5 mil, lançou mais de 120 títulos e está por ora no amarelo, segundo Eduardo Lacerda, um dos fundadores: cada livro sai com cem exemplares ao custo de R$ 12 por unidade, com reimpressões a partir de 20 exemplares. Se vender apenas 50, recupera o investimento - dependendo do autor, chega a esse número no dia do lançamento. Numa tiragem de 1.500 o custo baixa para R$ 4 por unidade, mas é um volume incompatível, diz. "É mais barato mesmo ter uma tiragem maior, mas é impossível vender essa quantidade de livros, então é melhor ter um custo unitário maior, mas facilmente recuperável."
Um novo cenário para a divulgação das independentes se configurou com a internet, sobretudo as redes sociais. Como relata Rachel Gontijo, da carioca A Bolha: "Usamos 'doodles', máscaras, brinquedos, animações, fotos e outras coisas a que não saberíamos nem dar nome. Essa coisa de sair um pouco do que se é esperado, daqueles métodos que já se tornaram até invisíveis por ser utilizados quase automaticamente no mercado editorial, pode funcionar. A brincadeira entre e com linguagens nos interessa bastante". Também faz coisas fora da internet: lançou uma livraria que se move, a Bolha Itinerante, e uma feira de arte impressa, a Pão de Forma, no espaço Comuna, em Botafogo.
"Sem o digital, a Lote 42 jamais teria existido", admite João Varella, um dos sócios da editora paulista. Desde a busca de novos projetos. "Já Matei por Menos", de Juliana Cunha, e "O Pintinho", de Alexandra Moraes, são casos bem-sucedidos na web que migraram para o impresso. "E, como damos valor à web, criamos 'hot sites' para cada um dos livros, com conteúdo extra e links para os leitores continuarem a leitura por lá. Até o fim do ano, a intenção é ter uma loja virtual própria para a venda de e-books e outros itens além de livros. Queremos explorar mais o vídeo."
Entre as independentes, surgem as que atuam exclusivamente no digital, como a KBR Digital, de Petrópolis, e a Descaminhos, de São Paulo, baseadas no modelo de "Kindle singles" da Amazon. "O processo de produção de um livro digital não é nem um pouco menos trabalhoso do que o físico", esclarece Gabriela Erbetta, da novata Alpendre, que usa a distribuidora Xeriph para levar títulos a todas as lojas virtuais. Lançou já o guia "50 endereços no Brooklyn". No prelo, um similar para San Diego e, em 2004, para o Porto. "O investimento para fazer livros digitais não é muito diferente do de uma editora de impressos, com exceção, claro, dos gastos com impressão e papel."
Ao contrário de evitar crescer, a Autêntica se tornou um grupo com três, mantendo-se filiada à Libre. Quando estreou, em 1997, publicava títulos acadêmicos, como a atual "Coleção Filô", de filosofia. As duas mais recentes são a Gutenberg, de interesse geral e entretenimento, e a Nemo, de quadrinhos. A quarta, Vertigo, de romances policiais, será lançada nesta edição da Bienal do Rio. "Para preservar as características de independente, cada editora tem uma vocação, sem que necessariamente se considere apenas o resultado nas vendas", afirma Rejane Dias, editora-executiva. "Sei de editoras que não publicam livros que não tenham tônus para vender pelo menos 10 mil exemplares. Publicamos livros que não vão vender mais que mil exemplares."
De acordo com Rejane, muitos desses livros para público mais específico são sustentados pelo sucesso de outros, tanto no varejo como nas vendas para o governo. O maior se chama Paula Pimenta, de infantojuvenis, mais de 200 mil exemplares em 2013. Por causa do seu desempenho, o relacionamento com as grandes livrarias se tornou mais próximo, com o que a Autêntica consegue colocar naquelas prateleiras outros livros de menor apelo.
Nem gaulesa nem romana, uma estreante vai avançar pelos corredores desta Bienal do Livro com ambição de gigante. De uma vez, a carioca Valentina faz quatro lançamentos, como "Fale!", de Laurie Halse Anderson, que trata de "bullying", e "Passarinha", de Kathryn Erskine, de autismo, ambos vencedores de prêmios de prestígio e ocupantes de listas de mais vendidos nos Estados Unidos. Em um ano e meio, será investido R$ 1 milhão, anuncia um dos sócios, Rafael Goldkorn, responsável pela escolha dos títulos e veterano no currículo - por duas décadas, esteve ao lado de Ênio Silveira (1925-1996), histórico editor brasileiro, depois passou pelo Grupo Record. Para construir um catálogo que, como define, reunirá "livros transformadores", ou "entretenimento com qualidade", "feitos para o grande público, mas com temas de relevância", está disputando em leilões internacionais, transação que costuma ser evitada pelas de menor porte dado o risco do comprometimento financeiro. "Vamos brigar com os grandes em pé de igualdade.

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http://www.valor.com.br/cultura/3252472/pequenas-mas-atrevidas#ixzz2dZlZE3yp

sábado, 29 de junho de 2013

Em conta-gotas, digital forma seu oceano

Da lavra de  Joselia Aguiar | Para o Valor, de São Paulo
Reuters / Reuters
A ainda pouca oferta de títulos em português e o preço relativamente caro do leitor eletrônico são vistos como fatores para dificultar uma explosão do livro digital no Brasil
Um Graciliano remoçado aparece na Festa Literária Internacional de Paraty, que o celebra de quinta-feira a domingo. Modelado em e-book: são 15 títulos, de obras consagradas, como "Vidas Secas" e "Angústia", a novos volumes, como o de cartas inéditas. Até agora só havia três no formato, "São Bernardo", um infantil e outro com suas recém-lançadas crônicas de mocidade. Não é apenas para somar mais um lançamento, entre os tantos do calendário de homenagens ao mestre alagoano, que o grupo carioca Record anuncia a novidade. Ao transportar para as telas de e-readers e tablets um dos nomes mais importantes do seu catálogo, com venda permanente sobretudo em escolas, espera atrair o interesse de um público ainda maior. Mais que remoçar Graciliano, é ele que, na plataforma, ajudará a cativar leitores para a nova tecnologia.
Às vésperas de Paraty, a Companhia das Letras colocou no ar um e-book aperitivo gratuito, com trechos de livros de seus 11 autores que comparecem ao evento. A ocasião de fazer uma investida digital de maior monta surgiria logo depois. Em meio à recente onda de protestos em todo o país, a casa editorial paulistana anunciou um novo selo, o Breve Companhia, para e-books de textos enxutos de jornalismo, comentário político e ficção. Os dois primeiros títulos saem em ritmo veloz, como exigem os acontecimentos: nas próximas semanas, para o público conectado à rede, o mesmo que se mobilizou nas ruas. Um será assinado por Piero Locatelli, repórter detido pela PM de São Paulo pelo porte do vinagre com que pretendia amenizar os efeitos do gás lacrimogêneo durante a cobertura. O outro, por Marcos Nobre, professor da Unicamp na área de filosofia que avalia o impasse político do país da pós-democratização.
Quando os primeiros e-books começaram a ser oferecidos aqui, há cerca de dois anos, a participação do digital no mercado brasileiro, de tão ínfima, não alcançava 1%. Um pouco mais que isso, 1,5%, é o cálculo de executivos de editoras e livrarias consultados peloValor. Não é uma conta simples. Envolve dados dispersos e nem sempre divulgados, e há que se considerar que o impresso também dá sinais de que continua a expandir. As vendas cresceram 7,2%, incluindo as compras de mercado e governo, segundo o mais recente relatório CBL/Snel/Fipe, referente a 2011.
"O tamanho do mercado não é algo que nos preocupe no dia a dia", afirma Alex Szapiro, vice-presidente da Amazon Kindle
Esperava-se um tsunami digital assim que aportasse aqui a Amazon. Com o Kindle, inaugurou em novembro de 2007 um mercado nos Estados Unidos que representa entre 20% e 30% da indústria do livro, a depender do nicho - no entanto, editoras americanas divulgaram neste ano desaceleração e até leve recuo de negócios com o e-book. Seis meses depois da instalação no Brasil da gigante americana, em dezembro, a onda digital continua a se formar e pode surpreender, mas por ora pinga, em conta-gotas, no cotidiano brasileiro.
A velocidade lenta preocupa? "Este é apenas um mercado de seis meses no Brasil e, de todo modo, o tamanho do mercado não é algo que nos preocupe no dia a dia", diz Alex Szapiro, vice-presidente da Amazon Kindle. O grupo é conhecido pela discrição com que divulga números e planos. Torna alguns disponíveis: para os leitores brasileiros, são mais de 19 mil títulos em português - num manancial de 1,9 milhão em outros idiomas - e destes 2.500 títulos gratuitos. Com aplicativos de leitura também gratuitos, é possível ler mesmo sem um Kindle à mão, usando tablet, smartphone ou o próprio computador. Szapiro lembra que o Kindle não é só um dispositivo, é um serviço que incentiva o próprio consumo de livros: "Vemos que as pessoas leem mais quando compram o Kindle".
As concorrentes daqui se mantêm na briga. Antecipando-se à Amazon, a Livraria Cultura lançou em outubro dispositivo de leitura exclusivo em associação com a canadense Kobo. A venda do aparelho superou, em mais que o dobro, a estimativa inicial e a de e-books, incluindo clientes que usam tablets ou smartphones, cresceu 398% em um ano, diz Sergio Herz, presidente-executivo. Números absolutos não são informados. Para uma ideia desse volume, que apesar de crescer é pequeno, tem-se o percentual que representa nas vendas totais: 3,7%. A cultura digital gera negócios por outras vias, as filiais Geek, para games, HQs e bonecos colecionáveis. A primeira foi aberta há um ano. Hoje já são quatro.
A ainda pouca oferta de títulos em português e o preço relativamente caro do leitor eletrônico - modelos mais avançados surgem também em ritmo veloz - são vistos como fatores para dificultar uma explosão do digital. "Para quem compra só seis livros por ano, o que é muito mais que a média nacional, que não chega a dois, não vale a pena o custo investido", pondera Herz. Deve-se considerar aquele que talvez seja o principal motivo para o percentual ainda baixo: trata-se, enfim, de um novo hábito de leitura. "Por costume, ainda prefiro papel." De uma queda de preço se pode fazer o hábito. À vista, um Kobo Aura HD, o mais avançado, custa R$ 599. Na Amazon, o Kindle Paperwhite, também de ponta, entre R$ 479 (wi-fi) e R$ 699 (wi-fi + 3G). Caso ocorra a prometida desoneração fiscal, o preço dos dispositivos pode cair em 40%, calcula Herz. O preço dos e-books também não caiu como se espera. Custam em média apenas 30% menos - por um "Vidas Secas" impresso, paga-se R$ 32,90, pela versão digital, R$ 23.
Em certos nichos, o digital já faz diferença. Quem conta é o diretor de compras do grupo Saraiva, Frederico Indiani: a depender do livro e do seu público, corresponde a 20% ou 30% das vendas imediatamente após um lançamento. Como exemplo, recorda quando saiu o segundo e então esperado volume da trilogia pornô soft "50 Tons de Cinza", de E.L. James. Somam-se aí um leitor conectado e ansioso pelo título, uma autora com status de mega-seller - lista que inclui também Dan Brown e Sylvia Day - e o tipo de marketing. Por sua portabilidade e ferramentas de pesquisa, o digital é também formato ideal para livros técnicos como o catatau de direito "Vade Mecum", entre os best-sellers digitais da Saraiva há dois anos, quando começou a colocar no ar os primeiros e-books. Centenário, o grupo investe em e-commerce desde 1998, e a loja digital é há tempos a segunda no ranking das 105 filiais. O crescimento é contínuo: de 83% no primeiro trimestre, na comparação com mesmo período de 2012, num total de 62 mil downloads.
Entre escritores, o digital alterou hábitos e ampliou possibilidades, mas não transformou, ao menos com a radicalidade antes prevista, aquilo que fazem em sua literatura. "A revolução literária causada pela internet não ocorreu, ou até ocorreu, mas não no sentido de modificar a maneira como escrevemos", disse Daniel Galera em coluna no "Globo".
Identificado uma década atrás como parte da "geração internet" - o termo era usado para escritores que possuíam blogs -, é autor do recente "Barba Ensopada de Sangue", romance nada breve em suas 424 páginas. "Ocorrem mudanças profundas na maneira como lemos, consumimos e debatemos a literatura", diz ao Valor. "O fato é que um conto ainda é um conto e um romance ainda é um romance." Aquela nova literatura que se imaginou, como observa, "acabou se manifestando nas redes sociais, na maneira como conversamos e compartilhamos histórias e nossa vida nos meios eletrônicos, são essas as narrativas verdadeiramente novas do paradigma digital, o Instagram, o Facebook, o Tumblr, o Twitter."
Galera usa Kindle para ler livros e textos disponíveis em sites, mas ainda compra a mesma quantidade de livros impressos que antes. "De modo geral, me beneficio de todos os formatos ao mesmo tempo e não tenho a intenção de substituir minha biblioteca impressa por outra digital. Terei duas bibliotecas paralelas." Em Paraty, participa de mesas que aliam as duas vertentes, tradição e inovação: sobre tragédia clássica na Flip e sobre imagem e palavra na Flipzona, que ocorre em paralelo.
Da geração que surgiu com os blogs, Andrea Del Fuego estreou com narrativas breves experimentadas na internet. Integrou antologias de microcontos aqui e em Portugal e fez um livro digital, "O Replicante", recontando o filme "Blade Runner", cult da ficção científica. Para escrever seu premiado "Os Malaquias", isolou-se num sítio sem internet. O procedimento é outro: "A produção para um blog era influenciada pela rapidez, pela pressa que, antes de ser inimiga da qualidade, e muitas vezes é, também dá ao texto algo de seu próprio instrumento. Escrevi o romance de outra forma, desconectada dos meios digitais, isso influencia a mente, que se acalma e alcança outras coisas. Um sítio também é ferramenta."
Das mudanças que a internet permite à literatura, a que parece mais crescente é de fazer de todo leitor um potencial escritor, como prevê Andrea Del Fuego. "Todo leitor, se quiser, fará sua ficção, um pouco como aconteceu com a fotografia, hoje todos fotografam e publicam suas fotos. Ganha a fotografia."
Não é apenas um palpite. Amazon e Saraiva comentam com entusiasmo a procura por suas ferramentas de autopublicação. Na Amazon, chama-se KDP - Kindle Direct Publishing, usado por autores independentes ou nanoeditoras que já conseguem entrar na lista de cem mais vendidos. Na Saraiva, a Publique-se!, lançada em maio, possui quase 7 mil autores cadastrados, com mais de 200 títulos já à venda no site da Saraiva. Diante de tantos autores em potencial na rede, a curadora Giselle Zamboni teve a ideia de promover saraus literários pelo Twitter - usando a tag que identifica a comunidade literária interativa, #letras365 - e, depois, realizar exposição dos talentos recolhidos. Uma amostra do que encontrou está em #Tuiteratura, em cartaz no Sesc Santo Amaro até 4 de agosto.
As micronarrativas de 140 caracteres foram criadas por 61 autores, a maioria estreantes e alguns já consagrados, convidados para criar no formato para a exposição, como Andrea. Não foi fácil fechar o número, como conta. Em quase um ano, catalogou mais de 150 criadores e quase 1.200 frases poéticas e microcontos. A meta é fazer a mostra viajar por outras cidades. O impresso não sai do horizonte: já recebeu propostas para publicar o conteúdo. "Seria bacana perenizar a tuiteratura desses escritores todos, tornar perene a mostra em si, perenidade que todo escritor deseja e só o livro traz. Tomara aconteça."
Em 2010, a revolução digital ocupou mesas da Flip. Nesta edição, que reúne ensaístas e gente do cinema, não trata especificamente do tema, mas inclui uma ficcionista premiada por inventar sob a forma de escritos brevíssimos, a americana Lydia Davis, vencedora do Man Booker International Prize. "Acho que a Flip deve voltar ao assunto quando tiver certeza de que vai trazer algo de original para o debate", diz o curador Miguel Conde. Na Bienal do Rio, que começa em 29 de agosto, Amazon e Kobo vão participar como expositores pela primeira vez, e a nova tecnologia se faz presente em convidados internacionais como o roteirista de jogos eletrônicos Corey May, da série "Assassins Creed", lançada pela Galera Jovem, com 50 milhões de cópias vendidas no mundo, 450 mil exemplares no Brasil. Em conta-gotas, o digital forma seu oceano.


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