domingo, 21 de outubro de 2012

Mauricio Stycer




Paranoia americana

"Homeland" cativou público e crítica por lidar de forma original com um pesadelo dos EUA

Há duas maneiras de entender o sucesso de "Homeland", um dos mais premiados seriados de 2012, cuja segunda temporada começa neste domingo no Brasil (canal FX, às 23h).
Trata-se, em primeiro lugar, de uma competente história de suspense. Mais significativo, na minha opinião, é o fato de ser um exemplo ousado de transformação daquela que talvez seja, hoje, a maior paranoia americana em entretenimento de qualidade.
A primeira temporada do seriado gira em torno da suspeita de que um soldado norte-americano, preso durante oito anos no Oriente Médio, possa ter sido "convertido" e treinado pela Al Qaeda para agir "em casa", no coração do poder da América.
A ideia de um "inimigo infiltrado", real ou imaginário, capaz de roubar segredos, sabotar planos ou mesmo assassinar, não constitui novidade na mente de roteiristas de cinema e televisão nos Estados Unidos.
O atrativo de "Homeland" é sugerir ao espectador que este suposto "convertido" possa fazer algo semelhante ao que os americanos viram em 11 de setembro de 2001. Ou seja, que os EUA permanecem tão vulneráveis quanto estavam, sem saber, onze anos atrás.
A história opõe o sargento Nicholas Brody, vivido por Damian Lewis (curiosamente, um ator britânico), à agente da CIA Carrie Mathison, interpretada por Claire Danes. A atriz está colecionando prêmios com uma interpretação, a meu ver, limitada a três caretas e dois olhares "expressivos".
O roteiro não foge muito ao bê-á-bá das séries de suspense, salpicando pistas, verdadeiras ou falsas, a cada capítulo. Excesso de informação, ou falta dela, em alguns momentos, também ajudam a capturar a atenção do espectador.
Com grande habilidade, desde o programa-piloto, os roteiristas levam o público a questionar tanto o heroísmo do soldado quanto a competência da agente.
Mais interessante, "Homeland" arrisca-se numa crítica não muito sutil à burocracia e aos métodos da CIA, expõe a rivalidade do serviço de inteligência com o FBI, discute erros e atrocidades cometidas na chamada "guerra ao terror" e, por fim, ridiculariza a ambição de um político de faturar com a situação.
Barack Obama, reza a lenda, é fã do seriado. Dizem também que gosta de "Modern Family" e "Boardwalk Empire". No caso de "Homeland", a simpatia do presidente dos Estados Unidos pode ser uma maneira de dizer que não se sente atingido pelas críticas.
Uma curiosidade: "Homeland" é a versão americana de uma série israelense, chamada "Prisioneiros de Guerra", que trata da reintegração de soldados israelenses, mantidos em cativeiro por anos. Outra série israelense de muito sucesso, adaptada até no Brasil, é "Sessão de Terapia".
No final de setembro, "Homeland" conquistou o seu maior troféu, o Emmy de melhor série dramática do ano, derrotando "Boardwalk Empire", "Breaking Bad", "Downton Abbey", "Mad Men" e "Game of Thrones". Já havia ganhado o Globo de Ouro, dado pelos correspondentes estrangeiros em Hollywood, na mesma categoria.
Fosse apenas uma excelente série de suspense, "Homeland" não teria faturado estas duas estatuetas. A série está longe de ter a densidade, sofisticação ou riqueza dramática de suas concorrentes, mas cativou público e crítica justamente por lidar de forma original com este pesadelo americano.

Ferreira Gullar


FERREIRA GULLAR

Piada de salão

O tiro saiu pela culatra, e o partido da ética na política consagrou-se como um exemplo de corrupção

Quando o escândalo do mensalão abalou a vida política do país e, particularmente, o governo Lula e seu partido, alguns dos petistas mais ingênuos choraram em plena Câmara dos Deputados, desapontados com o que era, para eles, uma traição. Lula, assustado, declarou que havia sido traído, mas logo acertou, com seus comparsas, um modo de safar-se do desastre.
Escolheram o pobre do Delúbio Soares para assumir sozinho a culpa da falcatrua. Para convencê-lo, creio eu, asseguraram-lhe que nada lhe aconteceria, porque o Supremo estava nas mãos deles. Delúbio acreditou nisso a tal ponto que chegou a dizer, na ocasião, que o mensalão em breve se tornaria piada de salão.
Certo disso, assumiu a responsabilidade por toda a tramoia, que envolveu muitos milhões de reais na compra de deputados dos partidos que constituíam a base parlamentar do governo.
Embora fosse ele apenas um tesoureiro, afirmou que sozinho articulara os empréstimos fajutos, numa operação que envolvia do Banco do Brasil (Visanet), o Banco Rural e o Banco de Minas Gerais, e sem nada dizer a ninguém: não disse a Lula, com que privava nos churrascos dominicais, não disse a Genoino, presidente do PT, nem a José Dirceu, o ministro político do governo.
Era ele, como se vê, um tesoureiro e tanto, como jamais houve igual. Claro, tudo mentira, mas estava convencido da impunidade. A esta altura, condenado pelo STF, deve maldizer a esperteza de seus comparsas. Mas os comparsas, por sua vez, devem amaldiçoar o único que, pelo menos até agora, escapou ileso do desastre -o Lula.
Pois bem, como o tiro saiu pela culatra e o partido da ética na política consagrou-se como um exemplo de corrupção, Lula e sua turma já começaram a inventar uma versão que, se não os limpará de todo, pelo menos vai lhes permitir continuar mentindo com arrogância. O truque é velho, mas é o único que resta em situações semelhantes: posar de vítima.
E se o cara se faz de vítima, tem o direito de se indignar, já que foi injustiçado. Por isso mesmo, vimos José Genoino vir a público denunciar a punição que sofreu, muito embora tenha sido condenado por nove dos dez ministros do STF, quase por unanimidade.
A única hipótese seria, neste caso, que se trata de um complô dos ministros contra os petistas. Mas mesmo essa não se sustenta, uma vez que dos dez membros do Supremo, oito foram nomeados por Lula e Dilma.
Reação como a de Genoino era de se esperar, mesmo porque, alguns dias antes, a direção do PT publicara aquele lamentável manifesto em que afirmava ser o processo do mensalão um golpe semelhante aos que derrubaram Getúlio Vargas e João Goulart. Também a nota posterior à condenação de José Dirceu repete a mesma versão, segundo a qual os mensaleiros estão sendo condenados porque lutam por um Brasil mais justo. O STF, como se sabe, é contra isso.
Não por acaso, Lula -que reside num apartamento duplex de cobertura e veste ternos Armani- voltou a usar o mesmo vocabulário dos velhos tempos: "A burguesia não pode voltar ao poder". Sim, não pode, porque agora quem nos governa é a classe operária, aquela que já chegou ao paraíso.
Não tenho nenhum prazer em assistir a esse espetáculo degradante, quando políticos de prestígio popular, que durante algum tempo encarnaram a defesa da democracia e da justiça social em nosso país, são condenados por graves atentados à ética e aos interesses da nação. As condenações ocorreram porque não havia como o STF furtar-se às evidências: dinheiro público foi entregue ao PT, mediante empréstimos fictícios, que tornaram possível a compra de deputados para votarem com o governo. Tudo conforme a ética petista, antiburguesa.
Mas não tenhamos ilusões. Apesar de todo esse escândalo, apesar das condenações pela mais alta corte de Justiça, o PT cresceu nas últimas eleições. Tem agora mais prefeituras do que antes e talvez ganhe a de São Paulo. Nisso certamente influiu sua capacidade de mascarar a verdade, mas não só. Com a mesma falta de escrúpulos, tendo o poder nas mãos, manipula igualmente as carências dos mais necessitados e dos ressentidos.
Não vai ser fácil acharmos o rumo certo.


Malafaia vem aí


MÔNICA BERGAMO
monica.bergamo@grupofolha.com.br

Malafaia vem aí

O pastor carioca que virou tema da eleição com o "kit gay" anuncia que vai abrir igreja em SP e diz que "dá a cara a tapa": "não estou em concurso de beleza"

Tomás Rangel/Folhapress
Silas Malafaia, com a mão sobre a Bíblia, em seu escritório da Assembleia de Deus, no Rio
Silas Malafaia, com a mão sobre a Bíblia, em seu escritório da Assembleia de Deus, no Rio

O pastor carioca Silas Malafaia, 54, está com a faca na mão. Serra ao meio uma segunda baguete enquanto anuncia sua "visão expansionista". "Vou abrir igreja no Brasil inteiro, minha filha", afirma, enquanto toma lanche no intervalo de um dos dois cultos que celebrou no fim da tarde de terça-feira, no Rio. Planeja inaugurar mil templos até 2020 -toca hoje oito obras pelo país, a um custo de R$ 25 milhões.
São Paulo é prioridade. "Logo, logo" vai "cair com tudo" na cidade. "Tenho pesquisado lugares. Não posso ter igreja para menos de 4.000 pessoas lá."
O líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, ramificação da Assembleia de Deus, maior grupo evangélico do país, lambuza o pão com margarina e corta uma fatia de queijo minas. Revela que está hoje à frente de 125 igrejas e de um rebanho de 36 mil fiéis. "Nosso crescimento é formiguinha, 'vambora', pá, pá, pá. Mas vamos chegar lá", diz, entre goles de café com leite e suco de abacaxi.
É na base do "pão, pão, queijo, queijo" que o pastor diz levar a vida. E uma proeza ele já conseguiu na capital paulista: virou a estrela da eleição municipal. Pautou o debate por uma semana ao dar apoio a José Serra, do PSDB, e dizer que iria "arrebentar" o petista Fernando Haddad por causa dos materiais para combater a homofobia preparados pelo MEC -que chama de "kit gay".
Folha revelou que o tucano distribuiu material semelhante em São Paulo quando era governador -mas nem assim Malafaia mudou seu "voto". Para ele, Serra "não é um grande orador, mas transmite sinceridade". Já Haddad é "sa-fa-do".
Ao mesmo tempo, Malafaia diz que "não é criança" para "vender seus princípios" a partido "x" ou "y". No Rio, por exemplo, é PT: apoia o senador Lindbergh Farias para o governo do Estado em 2014. Já o governador Sérgio Cabral (PMDB) recebe polegar para baixo por não vetar "leis trabalhistas que beneficiam homossexuais, monte de porcaria". Afirma se opor à "cultura de privilégios" disseminada "pelos ativistas gays".
"O pessoal pensa que sou um radical xiita? É tudo gay, vamos metralhar, 'pou, pou'? Não!", diz enquanto simula com a mão um fuzilamento. Ele quer é converter o pessoal. E defende que a igreja seja "pronto-socorro" para quem quer deixar de ser homossexual. "Deus não fez bissexuais nem andróginos, fez macho e fêmea. Sinto repulsa. Aquilo é uma perversão." Se um de seus três filhos (Silas, Talita e Taísa) fosse gay? "Amaria 100% e discordaria da prática 100%."
Em 2010, Malafaia estampou centenas de outdoors no Rio. Ao lado de sua foto, lia-se: "Em favor da família e da preservação da espécie humana". Acha que "ninguém nasce gay. Cadê a prova do cromossomo homossexual?". Essa condição seria "aprendida ou imposta pelo ser humano, um ser de 'copiagens' de comportamento".
São 19h quando Silas Malafaia termina a refeição e volta ao púlpito para o segundo culto do dia na sede de sua igreja, na periferia da cidade. Pede ao público que aplauda Anna Virginia Balloussier. "Tem uma repórter aqui da Folha. Quando jornalista pede pra vir, digo que a gente não tem nada a esconder." Cerca de 2.000 fiéis batem palmas. Alguns gritam "amém". Sua imagem aparece no telão ao discursar.
Vaidoso, se diz "pobre, mas limpinho". Revelou à coluna que fez implante no cabelo em 2011. "Tinha umas 'careca'. O tapa-buracos aqui foi legal", afirma, apalpando onde ficavam as entradas. Lembra que seu médico, de Recife, também atende José Dirceu. "Mas não tenho nenhum elo com esse cidadão, pelo amor de Jesus Cristo."
Malafaia está há três décadas na TV. Hoje compra horários na programação de Band, RedeTV! e CNT e é dublado em canais dos EUA (ele queria aprender inglês, "mas cadê tempo, com essa vida louca?"). Ele se reconhece como um dos líderes religiosos mais acessíveis à imprensa -dá o número do celular e "a cara a tapa" a quem for.
Não raramente saem faíscas dessa relação. Naquele dia, no início da pregação, citou um jornalista que falou "do absurdo da igreja em usar cartão de crédito ou débito [para pagar o dízimo]". "Engraçado, pra ir 'prum' motel pode usar cartão, pra comprar bebida também. Pra dar oferta, não? Vai ver se tô na esquina, vai plantar batata!"
Por ano, a Assembleia de Malafaia arrecada oficialmente R$ 50 milhões com ofertas. Ele calcula que 60% sejam quitadas por meio de máquinas da Cielo. "Era um preconceito miserável em relação a nós. Como se constrói templo? Como se paga despesa? Desce anjo do céu e fala, 'taqui', pastor?"
A voz do orador com 30 anos de experiência ricocheteia pelo ambiente. Na primeira fila, de bata rosa estampada, está sua mulher, a pastora Elizete, 53, com quem se casou, "virgem", aos 21 anos. Às vezes aponta o dedo para o lado ao pregar, como uma versão gospel de John Travolta no musical "Grease - Nos Tempos da Brilhantina". "Tem gente que pensa que igreja é formada de 'analfabestas', um bando de idiotas manipulados pelo maior malandro possível que é o pastor. Como se ninguém aqui fosse formado em nada."
Meia hora antes, no lanche com outros pastores, aproximou a boca do gravador da repórter para criticar a Folha. "Um cara faz um editorial elogiando o 'kit gay'. Ou é demente ou é petista mesmo, com vontade. Editorial ri-dí-cu-lo!" Gesticula a ponto de quase encostar na comida seu terno de US$ 470, comprado na Flórida ("esse, no Brasil, custa entre R$ 3.000 e R$ 4.000").
A birra com "o seu Haddad" aumentou nos últimos dias. "A minha bronca é que ele agora vem com conversa fiada de que sou o submundo quando fala de misturar religião e política."
Conta que, em 2010, foi procurado pela então candidata à Presidência Dilma Rousseff. Teria passado 15 minutos com ela ao telefone explicando que não a apoiaria por causa da polêmica do aborto -ela já havia dito em entrevistas que defenderia a descriminalização, posição da qual recuou na campanha.
Foi de Serra. Mas a presidente Dilma, depois de eleita, o cativou. "Diante de mais de 3.000 prefeitos querendo redistribuir royalties do petróleo, ela não afinou, não. Gostei de ver, é estadista."
Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek são admirações. Lula também, "mas essa imagem tem caído um bocado. O cara faz acordo com [Paulo] Maluf. E descia o pau, na época de líder sindical, nesses caras da ditadura".
"Em 1989, apoiei Leonel Brizola e depois Lula, quando ele era o Diabo no meio evangélico. Na época, o [bispo Edir] Macedo chegou à igreja [Universal], abriu a camisa escrita Collor e chamou Lula de Diabo." Em 2003, virou o representante evangélico do "conselhão" de Lula, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Não foi convidado pessoalmente pelo presidente, e sim indicado por parlamentares. "Lá, eu era o cara. Agora, sou o submundo da política."
"Já viu o jogo como é? Humanistas, ateus, filósofos, operários, sindicalistas, líderes comunitários... Todo mundo pode falar. Aí os 'esquerdopatas', quando fala um pastor... 'Não mistura religião com política.' Que história é essa? Sou cidadão e pago imposto. Tenho direito de manter minhas falas baseadas nas minhas crenças."
E ele gosta de falar. Formado em teologia (Instituto Bíblico Pentecostal) e psicologia (universidade Gama Filho), aposta que é o pastor que "ganha as ofertas mais altas" para falar em conferências. "De R$ 3.000 a R$ 100 mil." Há 25 anos, diz, abriu mão de um salário da igreja. Estima que hoje estaria recebendo R$ 70 mil mensais.
De família tradicional de pastores da Assembleia de Deus, filho de um ex-combatente da Marinha e de uma pedagoga, assumiu a liderança da Vitória em Cristo em 2010, com a morte do sogro.
Ele e a mulher vivem numa casa de dois andares num condomínio na zona oeste do Rio, com a empregada "há 26 anos conosco" e uma cadela da raça labrador que Malafaia não lembra o nome. Têm como vizinhos "o coroa" (Ary Fontoura) e "aquela menina que apresenta um programa de sexo" (Fernanda Lima).
Morar em SP? "Deus me livre!" Ainda assim, a cidade é o queijo para a faca em sua mão. "Há um apelo muito grande, e eu vou chegar lá", afirma, pondo fé em sua "abrangência nacional". "Não tenho medo de dar minha cara a tapa, não estou nem aí se alguém não está gostando. Não estou em concurso de beleza."

"Deus não fez bissexuais nem andróginos. Se a família não for preservada, a raça humana acabou"

"Gosto de me arrumar porque sou exemplo. Pastor esculhambado, gravata de qualquer jeito... Sou pobre, mas sou limpinho"

Projeto de apoio à leitura recebe inscrições


LITERATURA

Projeto de apoio à leitura recebe inscrições

Estão abertas até 26/10 as inscrições para o Seminário Internacional de Bibliotecas Públicas e Comunitárias, programa de apoio a projetos de promoção da leitura, que acontece entre 21 e 23/11, no Sesc Pinheiros (r. Paes Leme, 195; tel. 0/xx/11/3095-9400). Mais informações:www.bibliotecaviva.org.br.