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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Barbara Gancia

Fonte: Folha de São Paulo

Sobrou para o Ulysses

Cansei de dizer que não era para tratar como clássico de futebol. Mas, para os 50 gatos pingados que foram choramingar na frente do palácio da Dilma em Brasília na quarta, é bom lembrar que o julgamento do mensalão não acabou em pizza.
Dos 39 réus, dez já foram apenados e outros 12 terão suas penas revistas. Se há o que lamentar, a esta altura, não é a atuação do Supremo ou a suposta impunidade que está reservada a quem dispõe de meios de pagar pelo advogado que saiba cavar as garantias constitucionais estabelecidas pela lei. Afinal, essas garantias, como bem lembrou o ministro Barroso, valem para petistas, peessedebistas, torcedores do Íbis, inocentes, culpados, para seu filho, seu pai, sua sogra ou qualquer outro brasileiro que sente no banco dos réus.
Quem ora está frustrado foi quem embarcou ingenuamente na nau das falsas expectativas. Será que algum processo desse porte, com penas tão altas, poderia ter terminado sem direito a recurso? Sejamos realistas.
Você, que nestes últimos dois dias andou xingando o ministro Celso de Mello como se ele fosse juiz de futebol, será que você se dá conta de que o acusado de ser o mandante do assassinato da missionária Dorothy Stang, em 2005, está sendo julgado pela quarta vez?
Será que você esqueceu de que nossa desigualdade recordista mundial, que coloca o réu que é atendido pela Defensoria Pública em um patamar e aquele que tem meios para contratar bons advogados em outro, é a mesma que é sentida pelo estudante rico que poderá pagar seu caminho do jardim da infância até a faculdade nas melhores instituições de ensino e aquele que será excluído do sistema educacional por falta de investimento do poder público? Ou a mesmíssima diferença que há entre o doente que se vê obrigado a passar pela máquina de horrores do SUS e quem pode se tratar nos hospitais Sírio-Libanês ou Einstein? Cadê a novidade?
Por que os indignados com o resultado sobre os embargos infringentes não espumam bílis ao constatar que Celso Russomanno, Paulo Maluf, Jader Barbalho, José Sarney, Roseana Sarney, Renan Calheiros, Luiz Estevão e outros tantos circulam livremente pelos mesmíssimos motivos que os réus do mensalão? Em algum momento todos eles foram julgados, condenados e obtiveram recursos para serem julgados em outra instância, não?
É evidente que culpados por crimes de corrupção devem ser severamente punidos. Mas o problema neste caso foi a uma vulgar tendência a usar dois pesos e duas medidas por serem os acusados pessoas que causam pavor em certas classes.
Assim, perdemos de novo a oportunidade de discutir o que importa. Que seria, quem sabe, encontrar uma maneira de impor limites recursais para impedir que processos durem "ad eternum". Ou encontrar uma forma de fortalecer a ação das Defensorias Públicas ou ainda os privilégios dos legisladores que legislam em causa própria.
Mas mais do que isso, que nós tivéssemos de uma vez por todas a coragem de tirar a cabeça das nuvens e admitir que nossa gloriosa Carta Magna é nota cinco.
A Constituição de 1988, que todos louvam como se fosse um documento sagrado, foi redigida na ressaca de um regime autoritário e carrega os cacoetes e resquícios de anos de práticas não democráticas. Some-se a isso Códigos Civil e Penal da época do avião a lenha e podemos entender porque daqui a pouco a Nova Guiné será um país bem mais moderno que o nosso.
Se alguém não tiver coragem de propor a correção dos graves desvios contidos na Carta, a coisa não engrena.
Se até o papa Francisco está colocando na roda temas cabeludos como o celibato, não vejo por que não podemos começar a sonhar.
Barbara Gancia
Barbara Gancia, mito vivo do jornalismo tapuia e torcedora do Santos FC, detesta se envolver em polêmica. E já chegou na idade de ter de recusar alimentos contendo gordura animal. É colunista do caderno "Cotidiano" e da revista "sãopaulo".

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O verdadeiro valor do dinheiro - Carlos Orsi

Dinheiro é o que permite que pessoas que não se conhecem cooperem entre si dentro de grupos humanos muito grandes, diz artigo publicado no periódico PNAS. Assinado por pesquisadores dos Estados Unidos, Suíça e Itália, o trabalho tem como título Money and trust among strangers (“Dinheiro e confiança entre desconhecidos”).
Os autores especulam que, se a cooperação nas sociedades humanas evoluiu com base na interação de pessoas que viviam em pequenos grupos e se encontravam cara a cara, “há uma questão aberta sobre o quê permitiu que os humanos obtivessem sucesso em tarefas de cooperação envolvendo milhões de indivíduos”.
Para explorar o problema, os autores criaram um experimento no qual alguns participantes eram “produtores” e outros “consumidores”. A cada rodada, o produtor poderia optar por dar um presente ao consumidor, ou não fazer nada. Os papéis eram trocados aleatoriamente a cada nova interação, o que em tese deveria estimular doações, já que os papéis de produtor e consumidor poderiam inverter-se a qualquer momento.
Num dado momento do experimento, os pesquisadores incluíram uma “pedrinha”, que o consumidor poderia usar para “comprar” o presente. O resultado encontrado foi de que a troca espontânea de presentes tendia a diminuir à medida que o tamanho do grupo de voluntários aumentava – o máximo testado foi de 32 – mas que a opção de “comércio” era estável mesmo em grupos grandes. “Nossa pesquisa sugere que regras de cooperação voluntária são difíceis de usar numa sociedade de desconhecidos, a menos que mediadas por uma instituição”, escrevem os autores. “No experimento, a troca monetária (...) deu sustentação a um nível de cooperação estável em grupos grandes e pequenos. Pedrinhas sem valor intrínseco agiram como catalisadores de cooperação”.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Marcos Augusto Gonçalves

folha de são paulo
"Lá fora"
É assim que os brasileiros muitas vezes se referem ao restante do mundo - e é para lá que eu vou
"Isso vai ficar pronto para a Copa?", pergunta o homem a meu lado, no assento da janela do avião. Estico o pescoço e consigo ver o paliteiro de concreto que um dia deverá se transformar no novo terminal do aeroporto de Guarulhos. "É o que dizem", respondo. Ele faz uma cara de não sei não e aproveita para dizer que mora há mais de 20 nos Estados Unidos.
"Xi, vou ter um cara querendo falar comigo durante a viagem inteira" -temi.
E ele tem vinte anos de história em Nova York para contar.
Vinte anos é bastante tempo. A migração é um impulso ancestral da espécie, que persiste, apesar dos limites materiais e simbólicos desse modelo de assentamento planetário que ainda conhecemos, o Estado-nação. Digo "ainda" sem muita convicção quanto ao futuro. É claro que assistimos à formação de um esperanto cultural globalizado e presenciamos experiências de diluição de fronteiras, como a União Europeia. Não creio que os contornos nacionais, contudo, se apagarão.
Bem, na dúvida é melhor não consultar meu colega de vôo. Ele pode ter uma teoria sobre isso. E eu não estou para conversa, apesar das evidências de que sofrerei para dormir nessa cadeira pouco reclinável do busão voador. Na verdade meu companheiro de viagem também não quer papo. Já ajustou o fone aos ouvidos e ligou a tevezinha. Melhor.
Fico fascinado com essas pessoas que vivem uma vida fora de seus países, não porque não possam voltar, mas porque não querem, já são parte de outras geografias. Certa vez Gerald Thomas comentou comigo que achava divertida a forma como os brasileiros frequentemente se referem ao restante do mundo: "lá fora". "Oi, como é viver lá fora?" "Tem arroz e feijão?".
É verdade também que algumas pessoas nascem no país errado. Ninguém escolhe nacionalidade. Conheço americanos que se encontraram no Brasil e brasileiros que se pudessem seriam alemães.
Não é o meu caso, embora goste da ideia de ser estrangeiro. Pude viver um período na Itália, do qual sempre lembro com satisfação. Morar em São Paulo já tem sido, para mim, uma longa vida como "estrangeiro", eu que me mudei para cá com 27 anos, vindo do Rio de Janeiro. Tinha vergonha de falar "farol" e achava fascinante decifrar os códigos locais, muitos realmente diferentes dos cariocas. Tornei-me um paulista, me dizem. Mas não é inteiramente verdade. Paulistas não torcem pelo Flamengo e não cozinham num "fugão". E nem carioca da gema, devo dizer, eu sou, porque nasci em Aquidauana, Mato Grosso do Sul.
São Paulo é uma cidade de estrangeiros. O famoso clichê da terra de muitos povos corresponde a uma realidade histórica. Aqui em outros tempos falou-se mais línguas estrangeiras do que o português. Com seu jeitão provinciano, São Paulo é uma metrópole cosmopolita, conectada com o mundo, que está sempre diante do outro. "São Paulo é como o mundo inteiro" -diz a canção. Anos atrás, Jorge da Cunha Lima, então secretário de Cultura da cidade, falou numa entrevista à "Ilustrada" que vivíamos numa Nova York de taipa. Achei uma boa definição.
Digo tudo isso para me despedir desse espaço e do leitor que por ventura me acompanhe. Saio para um mês de férias e novos projetos, a partir de outubro. Levarei saudades, mas vou passar um ano "lá fora".
Mandarei notícias.

    Michel Temer

    folha de são paulo
    Por uma democracia eficiente
    Rompemos com o ciclo histórico brasileiro que fazia com que, a cada 25 anos, tivéssemos de recriar o Estado. Este continua forte
    Na história republicana do Brasil, sempre tivemos crise institucional. A cada período de vigência de Constituição, tivesse ela ou não conteúdo democrático, crises se sucediam.
    Foi assim em 1891, logo depois do decreto nº 1, de 15 de novembro de 1889, que proclamou a Republica. Inspirada nos Estados Unidos, a Constituição era liberal, mas não evitou as crises até 1930: Guerra de Canudos, Revolta da Chibata, Guerra do Contestado, a Coluna Prestes.
    Em 1930, inaugurou-se sistema declaradamente ditatorial que perdurou até 1934, quando houve intervalo com a Constituição exigida pelo país. Em 1937, edita-se nova Constituição de feitio autoritário e centralizador. O presidente Getúlio Vargas legislou por meio de decretos-leis até 1945, com os mais variados movimentos insurrecionais.
    Sempre crise institucional. Veio a Constituição de 1946, com dizeres democráticos. Mas a crise institucional não terminou. Retornou, pela via eleitoral, Getúlio Vargas. Mesmo com a vigência de critérios democráticos derivados da Constituição de 1946, os conflitos não diminuíram e tinham repercussão nas instituições e na sociedade.
    Chegou-se ao suicídio de Vargas e sucessivas crises institucionais. Não houve paz interna até a eleição de Juscelino Kubitschek, cujo governo também enfrentou sedições.
    Veio a eleição de Jânio Quadros, que renunciou em seis meses. Nova crise, portanto, a que se seguiu outra: a posse ou não de João Goulart, vice-presidente. Para que Jango pudesse assumir, engendrou-se o parlamentarismo, com a geração de grande instabilidade política e social. Durou pouco.
    Em 1963, retornou-se ao sistema presidencialista. Jango enfrentou crise após crise. Sobreveio o golpe de 31 de março de 1964. Findava-se o período regido pela Constituição de 1946 e iniciava-se outro, cuja regência era dada pelos atos institucionais. Todos centralizando o poder na figura do presidente da República. Especialmente o AI-5 de 1968, apesar de havermos editado Constituição em 1967.
    Os conflitos se sucediam. Foram tantas as crises que o povo exigiu o retorno à democracia, não sem antes termos passado por várias perturbações institucionais.
    Vejam que remarco e insisto na expressão "crise institucional".
    A palavra merece gradação. A crise pode ser administrativa quando há má condução das atividades públicas. Pode ser econômica quando os critérios regentes da economia geram perdas para o país. Pode ser política quando, na democracia, o Executivo não tem suficiente apoio no Parlamento. E pode ser institucional. As primeiras são contornáveis. A última é a mais grave porque, no geral, exige nova ordem constitucional. Ou seja, novo Estado. Foi o que aconteceu em 1934, 1937, 1946, 1964/67.
    Em 1988, a Assembleia Constituinte produziu o Estado brasileiro atual. Na Constituição, estão preceitos do liberalismo ao lado de direitos sociais. Dou como exemplo o direito à alimentação e à moradia. Milhões de brasileiros ascenderam socialmente e atendeu-se ao princípio da "dignidade humana".
    Como todos esses preceitos vêm sendo aplicados, não temos crise institucional. Diferentemente do passado, e embora a Constituição Federal esteja completando 25 anos, não se esboça necessidade de modificação institucional.
    Recentemente, convivemos com movimento popular nas ruas, de enorme dimensão. Embora alguns se incorporassem a esses movimentos para gerar crise (é exemplo o caso dos depredadores do patrimônio público e privado), o país não se abalou. Ao contrário.
    Os Poderes do Estado atenderam ao clamor popular tomando mais rapidamente série de medidas exigidas por aqueles movimentos.
    Rompemos, assim, com o ciclo histórico brasileiro que fazia com que, a cada 20, 25 anos, tivéssemos de recriar o Estado. Este, ancorado nos preceitos da Constituição, continua forte e sobranceiro.
    Temos sido capazes de evitar crise institucional pela aplicação dos dispositivos constitucionais. Afinal, o Direito existe para regular as relações sociais em busca da harmonia entre os vários setores da nacionalidade. Em outra palavra: o Direito estabelece quais são as regras do jogo. Desde que se as obedeça, não há por que mudar.
    Explico agora as razões do movimento popular que ocupou as ruas brasileiras. Embora tenha demonstrado vigor, não abalou as instituições do Estado. Importante, em tudo, é que não nos desviemos dos critérios democráticos fixados na Constituição Federal.
    Relembro: o Estado brasileiro nasceu juridicamente com a Constituição de 1988. O texto foi escrito sob o efeito das liberdades conquistadas. Daí porque se adotaram os preceitos da democracia liberal.
    Sublinho que a democracia depois da Constituição de 1988 passou por três fases.
    A primeira foi a democracia liberal --quando as liberdades individuais e as liberdades públicas foram não só enfatizadas no texto constitucional, mas aplicadas com grande empenho.
    Seguiu-se a democracia social, quando aqueles que usufruíam das liberdades passaram a perceber que elas por si só não eram suficientes e demandaram os direitos sociais, o atendimento às necessidades mais básicas. E essa fórmula democrática permitiu extraordinária ascensão social de 35 milhões de pessoas à classe média.
    Ora, essa nova classe média passou a exigir não apenas aquilo que já havia conquistado, mas outra fórmula de democracia. A essa terceira eu chamo de democracia eficiente. Ou seja, passou-se a exigir maior qualidade nos serviços públicos prestados ao povo. Até porque quem não tinha carro e o adquiriu leva horas para chegar ao trabalho. Quando entra no metrô, em ônibus ou aviões, encontra-os superlotados e incapazes de lhe oferecer um mínimo de conforto e dignidade. Passou-se a exigir eficiência. E essa busca fez com que muitos milhares de pessoas fossem às ruas.
    Sem a compreensão das fases pelas quais passou a democracia brasileira, fica difícil entender as razões do movimento popular.
    Ao mesmo tempo em que se exigiam serviços públicos eficientes, passou-se a exigir também um comportamento político eticamente inatacável do homem público.
    A demanda pela eficiência democrática exigia também reformulações no sistema político. Geraram, por isso, movimentações no Executivo e no Legislativo para dar agilidade a processos antes apenas cogitados. Agora, eles passam a ser aplicados. Na democracia que emergiu das manifestações, a voz dos manifestantes não era rouca, mas límpida. E cobra maior eficiência de seus governantes.
    Note-se: houve grande movimentação e agitação social, mas nenhum abalo institucional. Volto a dizer: as razões da estabilidade institucional e da adequação social às realidades constitucionais derivam exatamente da obediência estrita aos padrões jurídicos fixados pela Constituição Federal.
    Portanto, devemos saudar este momento em que, sem embargo das queixas nas ruas do país, o Estado brasileiro continua funcionando com pleno vigor institucional.

      Ruy Castro

      folha de são paulo
      Quitutes e cosméticos
      RIO DE JANEIRO - Em junho, a Câmara Municipal de Juazeiro do Norte (CE) comprou 33 mil esponjas de aço, 4.200 vassouras, 1.400 litros de água sanitária e, modestamente, 312 frascos de óleo de peroba. Esse material se destinou à limpeza da sede da Câmara, que tem 21 vereadores e se reúne duas vezes por semana. Mas não há nada de ilegal em tais compras --os próprios vereadores as autorizaram. Devem achar que é difícil manter a Câmara limpa.
      Ainda no Ceará, o governador Cid Gomes (PSB) foi criticado por contratar um serviço de buffet, para abastecer sua residência oficial e seu gabinete, no valor de R$ 3,4 milhões. O buffet, dizem, consistia de caviar, ostras, escargots, salmão, trufas, presunto de Parma e pães "exóticos", arranjos de orquídeas, taças de cristal, 700 garçons, 500 garçonetes e 15 chefs de cozinha. Seus opositores não sabem onde ele acha tempo para gozar de tanto luxo, já que vive a bordo de helicópteros e jatinhos, no Brasil e no exterior.
      Cid Gomes é o mesmo que, em janeiro, pagou R$ 650 mil a Ivete Sangalo por um show de inauguração de um hospital em Sobral (CE), sua cidade, e cuja fachada desabou um mês depois. É também um dos políticos mais ativos na campanha para abocanhar parte dos royalties do petróleo devidos ao Rio --e agora se sabe por quê: sem isso, como fazer frente a tantas despesas?
      Seu colega de PSB, Wilson Nunes Martins, governador do Piauí, também se propunha a investir R$ 6,3 milhões do dinheiro público no fornecimento de quitutes e cosméticos para seu palácio, incluindo reparadores de pontas de cabelo, gel esfoliante para o rosto, hidratante para o corpo, filtros solares, aparelhos de barbear e xampus. Mas foi aconselhado a retirar o edital. É pena --pelas fotos, parece mesmo precisar desses produtos.
      Não se veem muitos manifestantes às portas deles.

      Mônica Bergamo

      folha de são paulo

      Alckmin nomeia mulher do procurador-geral de SP para trabalhar no governo

      O governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) nomeou Carla Elias Rosa, mulher do procurador-geral de Justiça de São Paulo, Márcio Elias Rosa, para trabalhar no Palácio dos Bandeirantes. Ela integrará a assessoria jurídica do governo, na Casa Civil.
      OFICIAL
      Elias Rosa lidera o Ministério Público de SP, que tem entre suas prerrogativas investigar denúncias que envolvam o governo.
      OFICIAL
      "É uma assessoria jurídica técnica, e não política. Do Estado, e não do governador. Ela não teve aumento de salário. É procuradora desde 1987", diz Márcio Elias Rosa. Carla é funcionária de carreira da PGE (Procuradoria-Geral do Estado), que defende o Estado em ações judiciais.
      CONHECIMENTO
      Questionado se haveria problema ético na nomeação, em função da relação conjugal de Carla, o governo Alckmin afirmou que a indagação revela "profundo desconhecimento sobre o funcionamento" da PGE. Não há "qualquer conflito ético". A assessoria é órgão complementar da PGE, onde ela já trabalhava. "Eventual ação do procurador-geral de Justiça [o marido de Carla] contra o governador não tramita na assessoria jurídica do governo", diz a nota.
      CALCULADORA
      Nas contas mais pessimistas de réus do mensalão --entre eles, José Dirceu--, o STF (Supremo Tribunal Federal) pode decretar a prisão deles na véspera de 7 de setembro, Dia da Pátria. Nas mais otimistas, entre novembro e dezembro.
      TIJOLOS
      A construção de dois prédios no terreno vizinho ao Teatro Oficina será discutida em audiência pública na quinta, às 15h, no espaço cultural. Projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi, o teatro da Bela Vista "é uma obra de arte em si", diz o diretor José Celso Martinez Corrêa, que ameaça até deixar o lugar caso os edifícios sejam erguidos. A reunião foi convocada pela Assembleia Legislativa.
      TIJOLOS 2
      As construções, diz José Celso, descaracterizariam a paisagem. O Condephaat (conselho estadual de preservação), que deu aval para o empreendimento, informa que a liberação é fruto de discussão e votação.
      DE FAMÍLIA
      Filho do renomado diretor de ópera italiano Carlo Maestrini e da pianista brasileira Cesarina Rizzo, Pier Francesco Maestrini já está em São Paulo para dirigir "Don Giovanni", que estreia no Theatro Municipal no dia 12.
      DNA
      A apresentadora Sarah Oliveira faz nova dobradinha com o irmão, Esmir Filho, que produz "Na Trilha da Canção"; o documentário, que estreia na quarta, no GNT, fala das referências que influenciaram astros da MPB.
      Karime Xavier/Folhapress
      a apresentadora Sarah Oliveira e seu irmão, o cineasta Esmir Filho
      a apresentadora Sarah Oliveira e seu irmão, o cineasta Esmir Filho
      EU VOLTEI
      Dois meses após sofrer uma queda em um hotel que a deixou com o braço imobilizado, a maestrina Marin Alsop diz se sentir "75%" bem. "Espero estar 100% em alguns meses", afirma a regente titular da Osesp. Com um suporte no pulso direito, a americana voltou a reger a Orquestra Sinfônica do Estado, no último dia 23. "Sinto dor. Mas, de qualquer jeito, sigo com meu trabalho."
      EU VOLTEI
      Alsop está fazendo fisioterapia para concluir a recuperação. "No meu caso, uma mão quebrada é um problemão", brinca. Ela agradece aos amigos paulistanos pelo apoio e a compreensão. "Amo a orquestra [Osesp] e a cidade. Nada vai me afastar de São Paulo."
      BATACLÃ
      Mariana Ximenes fez canto, dança, francês e espanhol para encarnar uma dançarina de cabaré moderninha em "Joia Rara", próxima novela das seis da Globo. E foi a Paris visitar cabarés como Crazy Horse, Moulin Rouge e Chez Michou. A personagem dela entra na segunda fase da trama.
      INSTRUMENTAL NA VEIA
      O guitarrista Cris Scabello se apresentou com sua banda, o Bixiga 70, no Centro Cultural Rio Verde, no lançamento do festival de música instrumental Conexão SP. A cantora Tereza Gama e o casal de músicos Tulipa Ruiz e Rafael Castro passaram por lá.

      Abertura do Conexão SP

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      Zanone Fraissat/Folhapress
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      Os músicos Tulipa Ruiz e Rafael Castro foram ao lançamento do circuito de shows instrumentais do Conexão SP, na terça (27) no Centro Cultural Rio Verde
      EM CASA NO MUNDO
      Eduardo Knapp/Folhapress
      A cantora e violoncelista Dom La Nena
      A cantora e violoncelista Dom La Nena
      A cantora e celista brasileira Dom La Nena tem apenas 24 anos, mas currículo de gente grande. Já tocou na banda da inglesa Jane Birkin, trabalhou ao lado da atriz francesa Jeanne Moreau e se apresentou no Festival de Jazz de Montreal.
      *
      Dominique, seu nome de batismo, nasceu em Porto Alegre, onde começou a tocar piano aos cinco anos.
      *
      Após o lançamento de "Ela", seu disco de estreia, a gaúcha faz a primeira turnê no país e já passou por São Paulo e Porto Alegre. Na quarta, apresenta-se no Solar de Botafogo, no Rio. De lá, segue para Estados Unidos e Portugal.
      CURTO-CIRCUITO
      O espetáculo "Homem Não Entra", com Mel Lisboa, reestreia hoje, às 20h, na Sede Luz do Faroeste, na rua do Triunfo. 18 anos.
      A estilista Lu Monteiro lança coleção hoje, às 13h, em almoço no D.O.M., de Alex Atala, nos Jardins.
      O festival Satyrianas recebe inscrições de projetos de artes cênicas e cinema até 30 de setembro.
      A galeria White Cube abre exposição do artista americano Theaster Gates, amanhã, às 11h, na Vila Mariana.
      Os Paralamas do Sucesso comemoram 30 anos com show no Credicard Hall em 2 de novembro. 14 anos.
      Com ELIANE TRINDADE, JOELMIR TAVARES e ANA KREPP
      Mônica Bergamo
      Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

      Piada - Gregorio Duvivier

      folha de são paulo
      GREGORIO DUVIVIER
      Piada
      O francês teve uma ideia: nós só vamos sair daqui quando o português disser ou fizer uma estupidez
      Um português, um francês e um americano estavam no deserto quando perceberam que estavam dentro de uma piada. Foi o português quem primeiro perguntou: o que é que nós estamos fazendo aqui, ó, pá? Ao que o francês respondeu, com leve sotaque: se você está falando "ó, pá" isso só pode ser uma piada, porque nenhum português de verdade fala assim.
      Ao que o americano respondeu: e se nós que nem portugueses somos estamos falando português, e ainda por cima com esse sotaque tão malfeito, é porque isso só pode ser uma piada.
      Já estou morrendo de sede, disse o francês, precisamos sair daqui o quanto antes. Ao que o português, que não era burro e tinha ido parar ali na piada por engano, respondeu: talvez algo de engraçado precise acontecer, talvez a gente precise encontrar a graça da piada pra conseguir sair daqui.Talvez se encontrássemos uma lâmpada, disse o americano, piadas de deserto costumam envolver gênios, lâmpadas, três pedidos, e no terceiro pedido, puf: a graça.
      Os três cavaram por horas, sem qualquer vestígio de graça ou lâmpada. O francês teve uma ideia: nós só vamos sair daqui quando o português disser ou fizer uma estupidez. Ao que o português disse que era contra a perpetuação desse tipo de preconceito. Os outros dois pediram que ele batalhasse por essa causa depois que já tivessem saído da piada. E o português desandou a gritar estupidezes, a contragosto. Não teve graça. Partiu para o humor físico. Tropeçou, comeu areia, imitou um camelo. Nada.
      Foi aí que lhe veio a ideia: talvez não fosse uma piada de português. Talvez fosse uma piada de francês. Algo relacionado ao fato dele não tomar banho. O francês disse que era limpíssimo e que o mais provável era que a piada em questão recaísse sobre o americano. Este disse que nunca tinha visto uma piada de americano, que só torna essa piada melhor, respondeu o francês, porque ela é inesperada. O americano fez meia dúzia de americanices, sem efeito.
      Eis que no horizonte surge, esbaforida, uma loura. Alguém viu meu papagaio?, ela pergunta. Perfeito!, diz o francês. É nele que mora a piada. Surge o papagaio. Mas ele é do tipo que não fala. Eles desistem. Exaustos, refestelam-se na areia, moribundos. Talvez isso não seja uma piada, diz o português. Talvez isso seja só uma coluna de jornal, que não precisa de graça para acabar. Talvez acabe de repente, sem piada. O que é que a gente faz?, pergunta a loura. Espera, ele responde. Espera.

        Luiz Felipe Pondé

        folha de são paulo
        <~ Angeli
        O fascismo do PT contra os médicos
        Os judeus foram o bode expiatório dos nazistas. Nossos médicos são os "judeus do PT"
        O PT está usando uma tática de difamação contra os médicos brasileiros igual à usada pelos nazistas contra os judeus: colando neles a imagem de interesseiros e insensíveis ao sofrimento do povo e, com isso, fazendo com que as pessoas acreditem que a reação dos médicos brasileiros é fruto de reserva de mercado. Os médicos brasileiros viraram os "judeus do PT".
        Uma pergunta que não quer calar é por que justamente agora o governo "descobriu" que existem áreas do Brasil que precisam de médicos? Seria porque o governo quer aproveitar a instabilidade das manifestações para criar um bode expiatório? Pura retórica fascista e comunista.
        E por que os médicos brasileiros "não querem ir"?
        A resposta é outra pergunta: por que o governo do PT não investiu numa medicina no interior do país com sustentação técnica e de pessoal necessária, à semelhança do investimento no poder jurídico (mais barato)?
        O PT não está nem aí para quem morre de dor de barriga, só quer ganhar eleição. E, para isso, quer "contrapor" os bons cidadãos médicos comunistas (como a gente do PT) que não querem dinheiro (risadas?) aos médicos brasileiros playboys. Difamação descarada de uma classe inteira.
        A população já é desinformada sobre a vida dos médicos, achando que são todos uns milionários, quando a maioria esmagadora trabalha sob forte pressão e desvalorização salarial. A ideia de que médicos ganham muito é uma mentira. A formação é cara, longa, competitiva, incerta, violenta, difícil, estressante, e a oferta de emprego descente está aquém do investimento na formação.
        Ganha-se menos do que a profissão exige em termos de responsabilidade prática e do desgaste que a formação implica, para não falar do desgaste do cotidiano. Os médicos são obrigados a ter vários empregos e a trabalhar correndo para poder pagar suas contas e as das suas famílias.
        Trabalha-se muito, sob o olhar duro da população. As pessoas pensam que os médicos são os culpados de a saúde ser um lixo.
        Assim como os judeus foram o bode expiatório dos nazistas, os médicos brasileiros estão sendo oferecidos como causa do sofrimento da população. Um escândalo.
        É um erro achar que "um médico só faz o verão", como se uma "andorinha só fizesse o verão". Um médico não pode curar dor de barriga quando faltam gaze, equipamento, pessoal capacitado da área médica, como enfermeiras, assistentes de enfermagem, assistentes sociais, ambulâncias, estradas, leitos, remédios.
        Só o senso comum que nada entende do cotidiano médico pode pensar que a presença de um médico no meio do nada "salva vidas". Isso é coisa de cinema barato.
        E tem mais. Além do fato de os médicos cubanos serem mal formados, aliás, como tudo que é cubano, com exceção dos charutos, esses coitados vão pagar o pato pelo vazio técnico e procedimental em que serão jogados. Sem falar no fato de que não vão ganhar salário e estarão fora dos direitos trabalhistas. Tudo isso porque nosso governo é comunista como o de Cuba. Negócios entre "camaradas". Trabalho escravo a céu aberto e na cara de todo mundo.
        Quando um paciente morre numa cadeira porque o médico não tem o que fazer com ele (falta tudo a sua volta para realizar o atendimento prático), a família, a mídia e o poder jurídico não vão cobrar do Ministério da Saúde a morte daquele infeliz.
        É o médico (Dr. Fulano, Dra. Sicrana) quem paga o pato. Muitas vezes a solidão do médico é enorme, e o governo nunca esteve nem aí para isso. Agora, "arregaça as mangas" e resolve "salvar o povo".
        A difamação vai piorar quando a culpa for jogada nos órgãos profissionais da categoria, dizendo que os médicos brasileiros não querem ir para locais difíceis, mas tampouco aceitam que o governo "salvador da pátria" importe seus escravos cubanos para salvar o povo. Mais uma vez, vemos uma medida retórica tomar o lugar de um problema de infraestrutura nunca enfrentado.
        Ninguém é contra médicos estrangeiros, mas por que esses cubanos não devem passar pelas provas de validação dos diplomas como quaisquer outros? Porque vivemos sob um governo autoritário e populista.

          Curta sobre briga de casal vira hit na rede

          folha de são paulo
          Diretor argentino filma história real a partir de fita encontrada em secretária eletrônica num mercado de pulgas
          María Teresa deixou 11 recados para Enrique, que foi morar com um amigo e não atendia o telefone após discussão
          LÍGIA MESQUITADE BUENOS AIRES"Enrique, é María Teresa, atende. Até quando tenho que esperar? Não faça isso. Não me sinto bem." Tu-tu-tu.
          "Enrique, sei que você está aí. Por que não para de mentir? Senão é melhor se internar." Barulho de fita rodando.
          "Lamentavelmente sempre falo com uma máquina [...] É sempre essa ausência. Amor, jamais. Nem uma só palavra de amor." Tu-tu-tu.
          Esses e outros 11 recados deixados em uma secretária eletrônica podem ser ouvidos ao longo dos oito minutos do curta-metragem argentino "Ni Una sola Palabra de Amor" (nem uma só palavra de amor), do diretor El Niño Rodríguez.
          No filme, a atriz Andrea Carballo interpreta María Teresa em sua tentativa solitária de conseguir falar com Enrique pelo telefone.
          Em tempos nos quais diálogos importantes acontecem cada vez mais por e-mails e torpedos, o roteiro focado na audição de uma DR (discussão de relacionamento) desperta curiosidade e nostalgia.
          Ainda mais quando o espectador descobre que nenhuma das frases ditas pela protagonista é ficção. E que María Teresa e Enrique existem e tiveram uma briga feia em 1998, que terminou com ela jogando as coisas dele pela janela. E ele indo morar no apartamento de um amigo, onde a secretária eletrônica registrou todos os apelos posteriores da mulher.
          "Um dia, recebi um e-mail com o áudio dessa fita, que estava circulando pela internet. Quando ouvi, pensei: essa história dá um filme. Mas desconfiei que fosse uma montagem", conta Rodríguez à Folha.
          Não era. A fita cassete estava dentro de uma secretária eletrônica de segunda mão comprada pelo editor de som Mariano Germán Lorca em um mercado de pulgas de Buenos Aires.
          El Niño Rodríguez (seu nome verdadeiro é Javier), desenhista e chargista do jornal "Clarín", conversou com Lorca e explicou que queria dirigir seu primeiro filme em cima daquele áudio. O dono da fita topou e, em dois dias, filmaram.
          "A primeira coisa que decidi é que a câmera seria o telefone ou Enrique. E que a atriz falaria o tempo todo com a câmera", conta Rodríguez.
          Quando o curta ficou pronto, começou uma trajetória por festivais internacionais. No Brasil, foi exibido em Porto Alegre e Florianópolis.
          Em agosto passado, o diretor decidiu disponibilizar o filme na internet. Em três semanas no YouTube, o vídeo chegou a quase 1 milhão de visualizações.
          ELOGIOS
          O curta recebeu elogios de quem entende do assunto, como Juan José Campanella, diretor de "O Segredo dos Seus Olhos", ganhador do Oscar de filme estrangeiro de 2010.
          "Que prazer poder ajudar a divulgar uma joia. Que boa ideia, que bem dirigido, que boa atriz", escreveu o cineasta no Twitter.
          Com o sucesso do filme, a pergunta "Afinal, María Teresa e Enrique ficaram juntos?" foi respondida.
          A aposentada de 70 anos, que vive em Mar del Plata, procurou o jornal "Clarín" para contar que ela era a mulher da gravação. E que, sim, ela e Enrique, hoje com 75 anos, reataram --e completaram 30 anos juntos.
          Em sua página do Facebook, María Teresa escreveu: "Não achamos que essa pequena história pudesse interessar tanto. Sou a María Teresa desse Enrique. Continuamos iguais, juntos e...ausentes! (hahaha)".

            domingo, 1 de setembro de 2013

            O documentarista do sonho - EUCLIDES SANTOS MENDES


            RESUMO O sucesso de "A Doce Vida" (1960) fez do italiano Federico Fellini um signo do cinema. Mas foi três anos depois, com "Oito e Meio", que o adjetivo "felliniano" nasceu para o mundo. O diretor deu adeus à escola neorrealista e levou o universo onírico, já presente em seus desenhos, para o centro de sua obra.
            *
            Acredita-se que alguns dos personagens mais característicos da obra de Federico Fellini (1920-93) tenham tido seu primeiro sopro de vida nas recordações que o cineasta reunia no seu "Libro dei Sogni".
            Esse "livro dos sonhos" se relaciona ao modo de criação artística por meio do inconsciente e da subjetividade.
            Ao que se supõe, há nos desenhos registrados ali impulsos profundos de criação de personagens e episódios, alguns recriados na tela cinematográfica.
            Em "Oito e Meio", filme que completa agora 50 anos, o cineasta traz o mundo onírico que anotava em seus álbuns ao primeiro plano, ao tentar explicar as motivações do protagonista, o cineasta Guido, naquilo, em suma, que o crítico italiano Ennio Bispuri qualificou, no livro "Interpretare Fellini", como "o sonho de onipotência de um impotente".
            Não se sabe ao certo se os registros imagéticos do "Livro dos Sonhos" -obra ainda a ser devidamente estudada- têm relação direta com a criação de "Oito e Meio". Vale observar, no entanto, que há uma camada onírica essencial no enredo do filme.
            Guido Anselmi (interpretado por Marcello Mastroianni, ator-fetiche de Fellini) é um cineasta que, prestes a começar seu próximo trabalho, não tem ideia de que filme fazer.
            A crise criativa mergulha o personagem em sonhos assombrados pela família, recordações da infância e mulheres que marcaram sua vida.
            A arquitetura visual arrebatadora circula pelo inconsciente de Guido, mas também avança pela memória decodificada do personagem e pelo tempo presente.
            RIMINI
            A relação de Fellini com o desenho se estabeleceu ainda na infância e na adolescência em Rimini, cidade na costa do mar Adriático onde nasceu.
            Apreciava caricaturas, charges e histórias em quadrinhos -tornou-se "fumettista" (cartunista) precocemente.
            Reprodução
            Cena do filme "Oito e Meio" (1963), do cineasta Federico Fellini
            Cena do filme "Oito e Meio" (1963), do cineasta Federico Fellini
            Foi no começo dos anos 1960 que o talento para desenhar transformou-se numa terapia. Aconselhado por um psicanalista junguiano, o berlinense Ernst Bernhard, com quem passou a se consultar, Fellini decidiu registrar graficamente os próprios sonhos.
            Quase todas as manhãs, assim que despertava, punha-se a desenhar efusivamente as lembranças da noite.
            O hábito durou até 1990; quando se deu por satisfeito, possuía três grandes álbuns preenchidos por imagens coloridas e voluptuosas, com histórias carregadas de simbolismo.
            Após a morte do diretor, em 1993, dois dos álbuns -o terceiro desapareceu- foram trancados no cofre de um banco italiano, a salvo da disputa entre os herdeiros de Fellini e os de sua mulher, a atriz Giulietta Masina (1921-94).
            Em 2006, após um acordo que envolveu a Fundação Federico Fellini (sediada em Rimini), o governo da Emilia Romagna (região italiana onde Fellini nasceu) e os herdeiros de Masina, os enigmáticos livros foram, enfim, abertos e apresentados publicamente como um precioso instrumento para ajudar a compreender a estilística e a poética do diretor de "Oito e Meio".
            Seu conjunto foi publicado de fato como livro em 2007, na França e na Itália.
            MERGULHO
            Em "8 1/2 de Fellini - O Menino Perdido e a Indústria", publicado no livro "A Sereia e o Desconfiado - Ensaios Críticos", o crítico Roberto Schwarz vê na estrutura atemporal do filme o sinal e, por conseguinte, o caminho para o mergulho simbólico na "alma" do protagonista.
            O crítico adverte, todavia, ser um artifício enganoso o espelhamento que costumeiramente se faz entre Fellini e Guido -identificação "autorizada pelos colunistas de mexerico, pelo próprio diretor, talvez, mas não pelo filme".
            "Se Fellini é Guido", escreve Schwarz, "os conflitos deste campeiam idênticos no peito daquele, que seria o bobo de suas próprias limitações, um pequeno-burguês nostálgico e fantasioso, incapaz de fazer qualquer coisa que preste".
            A potência subjetiva de "Oito e Meio" é reveladora de um gesto maior, que vai além da psicologia do diretor e que avança pelo campo do imaginário na criação artística, como um tratado poético em forma de imagens, cujo pensamento, vivo e pulsante, alcança densidade poética inigualável.
            É como se o filme e o gesto de pensá-lo criassem, em película, a experiência de uma aventura em que o mundo da memória e dos sonhos se manifesta por meio de imagens "significantes".
            No ensaio "O Salto Mortal de Fellini", publicado no livro "Exercícios de Leitura", a crítica Gilda de Mello e Souza avalia que o filme se inscreve na linha de vanguarda da narrativa contemporânea.
            Segundo a ensaísta, apesar de dúvidas e indecisões, avanços e recuos, "foi para a aventura de saltar da torre no espaço vertiginoso da arte que Guido se preparou longamente. O filme de Fellini é a fenomenologia deste gesto frágil e arriscado".
            De onde vêm, contudo, essa fragilidade e esse risco? Talvez da própria tentativa de construção imagético-discursiva do "cinema de poesia" em Fellini.
            "Cinema de poesia", tal como pensado e analisado pelo cineasta e crítico italiano Pier Paolo Pasolini no ensaio de mesmo nome, é um termo que se relaciona ao uso da "subjetiva indireta livre", meio narrativo, derivado do discurso indireto livre da literatura, em que o autor manifesta suas ideias, seus sentimentos e suas perspectivas de mundo por meio da psicologia dos personagens e da poética inerente ao discurso cinematográfico.
            A existência contraditória de Guido evidencia a experiência do impasse no filme como gesto criativo complexo.
            O personagem é o "álibi narrativo" para Fellini tecer seu argumento poético, na medida em que ele expressa em Guido condições análogas -e, por isso, enganosas numa relação direta de identificação- na cultura e na psicologia, como requintados atributos de onde ecoa sua própria voz.
            Guido, num ambiente marcado pela decadência e pelo posterior reencontro moral, talvez seja o ápice da experiência de confronto do cineasta com a criação cinematográfica tal como pensada pelo "cinema de poesia".
            É por meio da expressão ambígua e desnorteante do personagem que se evidencia o sentido da formação individual do diretor, pois "Oito e Meio" se resume nisto: é como Fellini torna-se cineasta.
            Em 1960, "A Doce Vida" havia feito de Fellini um ícone do cinema; mas foi "Oito e Meio" o filme que fez nascer para o mundo o adjetivo "felliniano".
            Federico Fellini, esse "documentarista do sonho", como diz Glauber Rocha no ensaio "Glauber Fellini", dá adeus à escola em que se formou -desde que, em 1945, colaborou como corroteirista em "Roma, Cidade Aberta", de Roberto Rosselini, filme-manifesto do neorrealismo.
            Com "Oito e Meio", Fellini mergulha na poesia de seu próprio cinema, retornando ao magma neorrealista originário, mas moldando-o como artifício da sua própria expressão, colocando o artista em confronto com sua subjetividade mais real e, por isso, também, configurando-se como um exame de maturidade.

            Exercícios de guerra - Como o Brasil poderia ser invadido

            folha de são paulo
            RICARDO BONALUME NETORESUMO Embora hoje pareça improvável uma invasão do território, as fragilidades do sistema de Defesa e a porosidade das fronteiras do país tornariam viável um ataque. Neste texto, desenham-se cinco cenários hipotéticos de invasões por terra, mar e ar, uma dos quais chegou a ser planejada pelos Estados Unidos, em 1942.
            "Si vis pacem, para bellum." "Se quer a paz, prepare a guerra", diz o clássico provérbio latino atribuído a Publius Flavius Vegetius Renatus. O romano sabia do que falava. Além de autor de um importante tratado militar, ele vivia a decadência do Império Romano do Ocidente, que cedia aos bárbaros invasores partes de seu território.
            Mesmo os EUA não estavam preparados para a Segunda Guerra Mundial; tinham uma respeitável Marinha, mas Exército e aviação ridiculamente pequenos quando Japão e Alemanha declararam guerra em 1941. E conflitos podem surgir de repente. Ninguém previu o ataque argentino a uma colônia britânica em 1982 no Atlântico Sul, as Falklands (ou "Malvinas", para os invasores). Havia menos de cem fuzileiros navais para defender a colônia habitada por cerca de 2.000 britânicos.
            Graças à diplomacia ao longo de dezenas de anos, com destaque para o barão do Rio Branco no começo do século passado, o Brasil tem as fronteiras mais tranquilas do planeta. Ninguém quer um pedaço dos seus 8.511.865 quilômetros quadrados. Ninguém ambiciona os recursos naturais do país. No entanto nem sempre foi assim, como mostra a história.
            E se os cenários mudarem? Um país com perto de 200 milhões de habitantes e apenas 325 mil militares teria como se defender? São cerca de 200 mil homens e mulheres no Exército, 60 mil na Marinha e 65 mil na Força Aérea. Mas a disponibilidade de equipamento para esse pessoal costuma ser baixa. Faltam recursos para a manutenção e operação.
            Dos cerca de cem navios da Marinha, só metade está disponível. Dos 200 aviões de combate (caça-bombardeiros), o normal é ter só uns 85 operacionais. Dos quase 300 aviões de transporte, só um terço poderia decolar agora. E dos perto de 2.000 blindados de vários tipos do Exército, só metade conseguiria sair dos quartéis.
            Existe ainda a questão da obsolescência. O único porta-aviões, de segunda mão, é de 1963 (além de passar a maior parte do tempo no porto, seus caça-bombardeiros foram projetados nos anos 1950).
            O país tem investido no desenvolvimento e compra de novos equipamentos, mas em quantidade pequena.
            Se algum inimigo hoje insuspeito atacasse de repente, hipoteticamente, o que poderia acontecer?
            Cenário 1 - Amazônia "Jovens, bem-vindos ao Amapá. Soube que entre vocês estão estudantes de várias disciplinas. História, geografia, ciência política, arquitetura, engenharia. Ótimo. Embora vocês provavelmente interajam pouco com seus colegas de outras áreas, aqui é o lugar em que um enfoque multidisciplinar faz sentido. É preciso entender um pouco de tudo para apreciar essa obra-prima, esse monumento que ajuda a explicar o motivo de a maior parte da Amazônia ser brasileira."
            Os estudantes continuam em silêncio. Alguns olham para a anatomia das colegas mais jeitosas, outros ficam pensando se foi boa ideia embarcar nessa viagem até o fim do mundo para ver um monte de pedras empilhadas, algumas moças pensam no efeito que o calor equatorial vai ter na sua maquiagem. E, surpresa, há até alguns que param para digerir o que diz o anfitrião.
            "Moças, rapazes; vocês agora têm o prazer de conhecer uma joia da arquitetura militar luso-brasileira, a fortaleza de São José de Macapá. E seu simbolismo é tão forte que seu traçado está na própria bandeira do Estado."
            Os estudantes automaticamente levantam o olhar para uma das bandeiras. Logo em seguida, olham estarrecidos na direção do mar. Uma explosão, um clarão. Novas explosões. Eles saem correndo em várias direções. Uns poucos têm o bom senso de se jogar no chão ou de se proteger atrás das muralhas da velha fortaleza. As explosões continuam. A Amazônia está sendo invadida.
            OBSTÁCULO Um historiador tinha deixado claro o papel da fortaleza: "Imensa e bem construída, esta fortificação se ajustou razoavelmente às propostas do marquês de Pombal para a região, servindo de prova efetiva e tangível de que a Coroa portuguesa era a proprietária do cabo do Norte e de que qualquer pessoa que tentasse disputar a posse teria que superar esse gigantesco obstáculo antes de atingir seu objetivo. A fortaleza passava a ser o verdadeiro fecho do Império' na foz do Amazonas".
            Continuando, o historiador Adler Homero Fonseca de Castro foi preciso: "Em 1863, um relatório que examinou as fortificações do Brasil teceu novas considerações elogiosas sobre a posição", "a mais vantajosa e interessante, por estar situada na foz do norte do Amazonas", apesar de não defender "totalmente" a entrada do rio.
            Embora esteja obsoleta há mais de um século, a fortaleza, num ataque como o descrito, não seria o alvo, a despeito de ser uma das antigas "fechaduras" da região.
            Um dos objetivos era relativamente pequeno e modesto: um navio de patrulha da classe "G" ali atracado, com deslocamento de apenas 217 toneladas, comprimento de 46,5 metros e velocidade máxima de 27 nós (50 km/h). O armamento principal é um modesto canhão de calibre 40 mm de duplo emprego (antiaéreo e antinavio). Os 12 navios de patrulha brasileiros da classe Grajaú têm todos nomes começando com "G", como Guarujá, Guanabara e Gurupi.
            Refletem uma tradição; durante a Segunda Guerra Mundial, a Marinha deu os mesmos nomes para também pequenos caça-submarinos de fabricação americana, usados para patrulhar o litoral do país contra submarinos "invasores" no mar territorial do país vindos da Alemanha e da Itália.
            É tudo muito pouco para defender o extenso litoral do país. Um invasor facilmente ocuparia as chaves da região amazônica, Macapá e Belém.
            Cenário 2 - "Amazônia azul" Para mostrar a importância do mar territorial, a Marinha criou a curiosa expressão "Amazônia azul".
            Mais ao sul, mais especificamente no sudeste do país, um dos três mais modernos navios da Marinha do Brasil estava em operação, uma missão de rotina. A Marinha adora siglas; logo, os três navios da mesma classe, Amazonas, são conhecidos como NPaOc, acrônimo para Navio Patrulha Oceânico.
            São navios modernos --os mais novos de todos, com um maior grau de informatização--, apesar de não serem os navios com maior poder de combate para seu tamanho: mesmo com mais de 2.000 toneladas completamente carregados, só têm armamento leve. Nem mísseis nem torpedos; e o canhão principal tem calibre 30 mm. Já as fragatas e corvetas da Marinha têm canhões principais de calibre 114 mm, além de ter mísseis e armas antissubmarinas.
            Os três NPaOc servem mais a uma função "policial" do que "militar". Não foram projetados para a guerra convencional contra uma marinha inimiga, mas para lidar com problemas mundanos como narcotráfico, pirataria e contrabando. A Marinha, afinal, tem que proteger instalações como as plataformas de petróleo.
            À noite, essas plataformas parecem inusitadas cidades em pleno oceano. Luzes no horizonte, contatos no radar. É difícil imaginar isso em pleno mar. Mas ali vivem e trabalham milhares de brasileiros, extraindo do fundo do mar um recurso cada vez mais raro no planeta. Isso faz as plataformas se multiplicarem e, cada vez mais, se aprofundarem em busca do combustível fóssil.
            O navio classe A estava patrulhando entre dois grandes campos de plataformas quando um marinheiro observou um clarão no horizonte. Quase simultaneamente, um sargento notou um contato no radar se aproximando rapidamente. Lembrou-se de um treinamento anterior. Parece um míssil vindo na direção do navio. Como? Não há nenhum exercício planejado!
            Seria um alvo fácil para um ataque surpresa. E o resto da esquadra, concentrada na baía da Guanabara, seria fácil de achar e atacar. Claro, apenas os americanos teriam hoje condições de fazer um ataque destes. Mas e se, em um futuro não tão distante, os chineses conseguissem bases no oeste africano e prosseguissem por algum motivo na sua busca insaciável por recursos naturais?
            Cenário 3 - Mais Amazônia O veículo, ou "viatura", como prefere o pessoal do Exército, foi chamado de VBTP-MR Guarani. Veículo (ou "Viatura") Blindado de Transporte de Pessoal, Médio, Sobre Rodas. Produzido em Minas Gerais, projeto em parceria com a empresa italiana Iveco. Alguns deles estão sendo testados em um lugar incomum: Roraima.
            Detalhes do veículo? Comprimento: 6,91 m /Altura: 2,34 m/Largura total: 2,7 m /Peso vazio: 14,5 toneladas /Peso carregado: de 17 a 20 toneladas /Velocidade máxima em estrada: 100 km/h.
            Demorou anos, mas o Exército Brasileiro, o EB, resolveu substituir seus velhos blindados sobre rodas Urutu e Cascavel, produtos da jurássica empresa (faz tempos falida) Engesa. Eram bons veículos de seis rodas, exportados para vários países, usados pelo EB em missões de paz em Angola, Moçambique, Haiti --lamentavelmente, porém, são obsoletos hoje.
            O Guarani começou a ser produzido em uma versão básica de transporte de infantaria, levando um grupo de combate de infantes, com uma metralhadora no teto, de calibre 12,7 mm, de controle remoto. Mas também se criou uma versão experimental de "veículo de combate de infantaria", com um mais parrudo canhão calibre 30 mm; e uma versão para substituir o Cascavel, um carro de reconhecimento, com canhão calibre 90 mm ou o mais poderoso 105 mm.
            Sejam quais forem as decisões sobre armamento, ainda pendentes, dois grupos desses VBTP-MR foram enviados para dois possíveis locais de emprego em guerras convencionais contra vizinhos, por mais que os vizinhos da República Federativa do Brasil sejam em geral amistosos.
            Com certeza um dos destinos previstos e previsíveis foi o Rio Grande do Sul. Esse sempre foi o local de praxe paras as forças mais móveis do Exército, onde se concentrou o grosso da cavalaria e da sua versão moderna, mecanizada, os tanques (que o EB chama de "carros de combate") e os blindados de transporte de tropas. Durante muito tempo se pensou em uma "Blitzkrieg" de blindados argentinos atacando a região (Uruguai e Paraguai nunca foram ameaças sérias no século 20). Cenário cada vez mais improvável.
            Os primeiros testes com o Guarani foram feitos no Rio, no campo de provas do Exército. Depois duas pequenas unidades foram enviadas a campo. E, além do óbvio Rio Grande do Sul, outro lugar foi Roraima -- a Amazônia não inclui apenas floresta: Roraima tem campos perfeitamente adequados para veículos militares.
            CLAREIRA Um pelotão de Guaranis --quatro veículos-- fazia uma patrulha perto da fronteira. Uma opção de organização desse tipo de unidade, ainda não definitiva, inclui um veículo armado com o canhão de 30 mm, e os restantes com o tradicional 12,7 mm (a clássica metralhadora "ponto cinquenta", ou.05 polegada). De repente saem de uma clareira alguns blindados não identificados. O tenente comandante do pelotão ordena que os VBTP parem e procurem cobertura possível atrás das poucas árvores e colinas em torno. Ele abre a escotilha para observar melhor, quando vê um clarão e ouve logo em seguida uma explosão.
            O inimigo avançaria rápido por esses campos com forças blindadas. Supondo que fossem venezuelanos bolivarianos fanáticos, também tomariam a região de Essequibo, na vizinha Guiana.
            Foi pura coincidência. Alguém no Exército também resolveu testar na região uma bateria de artilharia bem especial: o sistema Astros II, da Avibrás, um sistema de foguetes de múltiplos calibres capaz de atingir alvos a distâncias entre 9 e 300 km, que logo entraria em ação, tornando o resultado do conflito menos previsível.
            Cenário 4 "" Fronteiras Em vários pontos do país existe outro produto da indústria de defesa nacional em operação no mesmo momento, um avião de transporte. Levou algum tempo para produzi-lo, um pouco mais que o previsto, mas compreensivelmente, pois o objetivo era substituir um dos aviões mais icônicos, seminais e clássicos da história, o avião de transporte americano Hercules C-130. "O substituto de um Hercules é outro Hercules", dizia a fabricante, a Lockheed. A empresa brasileira Embraer resolveu apostar que teria uma opção melhor: a aeronave de transporte e reabastecimento aéreo de combustível KC-390.
            O C-130 é um turboélice de quatro motores; o KC-390 é um bimotor a jato, o primeiro grande projeto multinacional na área de aviação em que uma empresa brasileira é a principal envolvida. E os novos aviões estavam voando pelo país em diferentes missões.
            As fronteiras do país, no mar ou em terra, costumavam ter os fortes como principais barreiras a uma invasão. Muralhas e canhões eram o principal desafio que um inimigo tinha que contornar, assim como --e principalmente-- os homens por trás das defesas.
            A ameaça passou a ter novas dimensões. Um dos novos "fechos" da Amazônia, e das fronteiras em geral, é uma outra classe de aviões da Embraer, os EMB 145 ISR --aviões-radar, de vigilância área e de sensoriamento remoto.
            A empresa usou como plataforma para o equipamento eletrônico seu bem-sucedido avião comercial ERJ 145 e criou a dupla R-99 e E-99. O EMB 145 Multi Intel, ou R-99, é voltado para sensoriamento remoto, e o EMB-145 AEW&C (do inglês "Airborne Early Warning and Control"), ou E-99, é um avião-radar de alerta aéreo antecipado e controle de tráfego aéreo.
            Aviões-radar dão informações. Mas é preciso que existam aviões de combate aptos a utilizá-las. A depender da ameaça, não precisam ser caças de última geração: aviões de traficantes e contrabandistas podem ser visados por aeronaves de ataque leve como o Embraer EMB-312 T-27 Tucano (um sucesso internacional de vendas: cerca de 650 aeronaves operando em 15 forças aéreas mundo afora) ou seu sucessor, o EMB 314 A-29 Super Tucano --ou ALX.
            O Super Tucano também tem uma função de ataque a guerrilhas, ou "insurgentes", como é moda defini-las hoje. Tem sido usado nessa função pela Força Aérea da Colômbia.
            MÍSSIL O par de Super Tucanos patrulhava a fronteira sobre a floresta. Impossível identificar qualquer coisa debaixo das árvores. O avião-radar, contudo, tem uma visão mais precisa e detalhada. É possível "enxergar" parte do que acontece no solo. De repente surge um clarão na tela. Que se repete visualmente, na direção dos dois aviões de ataque leve. Um míssil terra-ar, certamente disparado do ombro, da classe do antigo soviético SAM-7, ou do americano Stinger. Seja qual for o míssil, é barato, é simples de operar, e um grupo de narcotraficantes pode usar. Os dois Tucanos percebem a ameaça e começam manobras evasivas.
            Meio-dia, terça-feira, 26 de fevereiro de 1991; cerca de 40 homens realizam uma incursão em território brasileiro. Eles atacaram um destacamento do Exército na margem do rio Traíra, na fronteira entre Brasil e Colômbia. Durante a ação, a unidade brasileira de 17 homens teve três soldados mortos e nove feridos; armas e equipamento brasileiros foram capturados. Uma retaliação depois recuperaria parte do armamento roubado e mataria parte dos "insurgentes".
            O episódio deixa claro a "área cinzenta" entre tráfico de drogas, guerrilha e banditismo puro em partes da fronteira do país, retratada também em artigo do coronel Álvaro de Souza Pinheiro ("Guerrilla in The Brazilian Amazon", Foreign Military Studies Office, Fort Leavenworth, KS., 1995).
            HISTÓRIA Um pouco de história: em 1624 os holandeses atacaram e tomaram Salvador. Perderam no ano seguinte. Atacaram e tomaram Recife e Olinda em 1630; só foram expulsos em 1654. Mesmo antes disso, tinham iniciativas na Amazônia --pequenos fortes e feitorias--, assim como ingleses, franceses e mesmo irlandeses.
            Franceses fundaram, na prática, duas cidades brasileiras, duas capitais de Estados: Rio de Janeiro e São Luís. Foram expulsos pelos portugueses. Em 1710 e 1711, atacaram de novo o Rio, mas apenas para saquear --com sucesso, na segunda vez.
            Os holandeses queriam dominar o comércio do açúcar, e também o dos escravos necessários para sua produção (por esse mesmo motivo chegaram a dominar Luanda, em Angola, antes de serem rechaçados).
            Novos invasores podem ir atrás de outros recursos. Como o petróleo do pré-sal. Biodiversidade amazônica? Difícil; a biotecnologia resolve as coisas com mais facilidade nos laboratórios, sem precisar invadir um país para ter acesso a folhas e formigas. Recurso mais raro e valioso no futuro: a simples água doce. Na Amazônia está a maior reserva do mundo, que pode ter cada vez mais sede, dependendo do aumento da população e da mudança climática.
            Cenário 5 - Plano "Em 22 de fevereiro de 1942, dois meses e meio após o ataque japonês a Pearl Harbor, os Estados Unidos invadiram e ocuparam o Nordeste do Brasil. Após 12 dias de navegação a partir de Hampton Roads, Virgínia, EUA, uma força naval de apoio de fogo --incluindo o couraçado USS Texas (BB-35), e o 11º Grupo de Aviação dos fuzileiros navais embarcado no porta-aviões USS Ranger (CV-4), e um comboio de navios de transporte carregados de equipamento de combate para a força de desembarque de batalhões da 1 ª Divisão de Fuzileiros Navais e 9ª Divisão do Exército--, apareceu na madrugada ao largo da cidade de Natal na protuberância' a leste do Brasil", foi a descrição de um historiador da invasão que poderia ter acontecido, e foi planejada, mas não houve, graças à diplomacia ("Invade Brazil?!", por Michael Gannon, United States Naval Institute Proceedings, Vol. 125, No. 10, Oct. 1999).
            Segundo Gannon, o "problema" do governo americano com o Brasil era a ditadura liderada por Getúlio Vargas e a noção de que a maior parte das Forças Armadas, especialmente o Exército, era a favor do eixo Berlim-Roma-Tóquio.
            O curioso, como ele mostra, é que o plano de invasão poderia redundar em um grande fracasso. Nem tanto pela competência das Forças Armadas brasileiras, mas pela falta de experiência americana em desembarques anfíbios e pelas praias de difícil acesso do Nordeste por embarcações ainda não testadas. O número de tropas era pequeno para lidar com eventual insurgência. Os EUA poderiam ter tido no Brasil em 1942 o que teriam no Iraque depois de 2003.
            Preservado hoje no Estado que lhe deu o nome, o USS Texas foi veterano da Primeira Guerra Mundial e da Segunda. Seus canhões deram apoio de fogo em operações importantes, como a invasão da África do Norte em 1942, a da Normandia em 1944 (o "Dia D") e depois, no Pacífico,contra os japoneses em Iwo Jima e Okinawa, em 1945. Recebeu cinco "battle stars" ("estrelas de batalha") por operações como essas. Para sorte dos brasileiros, Natal não entrou nessa lista.

              Masturbação e pornografia podem se tornar dependência; veja pesquisa

              folha de são paulo

              Dia do Sexo é comemorado no dia 6/9; até os animais entram na onda


               
              DE SÃO PAULO
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              SexoO Dia do Sexo é invenção recente, proposta no começo da década por uma marca de camisinha, para brincar com a sugestiva data 6/9. Nesse especial, histórias sobre quem faz (ou não), trabalha com, se inspira em ou só pensa naquilo. Porque, afinal, todo dia sempre foi dia --ou deveria.
              Para ilustrar a edição especial do Dia do Sexo, comemorado na sexta (6/9), a sãopauloselecionou fotos registrando o comportamento de animais durante o acasalamento no mundo todo.
              E não precisa estar no safári para ver os bichos na ativa. Basta uma visitinha no zoológico de São Paulo na primavera. "A maioria dos animais cruzam nessa estação. Assim, os filhotes nascem no verão, quando há mais oferta de alimentos na natureza", diz o biólogo Cauê Monticelli, chefe do setor de mamíferos do zoo.

              Sexo Animal

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              João Wainer/Folhapress
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              Leões
              Zebras, dromedários e girafas podem facilmente ser pegos no flagra. E têm uma curiosidade: ejaculam muito --dessa forma, seu sêmen prevaleceria na competição com outros machos.
              Quem ficar perto dos bichos cruzando vai ver muitos curiosos e alguns indignados. "Tem gente que acha obsceno e reclama, tira as crianças de perto", conta o biólogo.
              O zoológico faz um controle para que os bichos não reproduzam sem parar. Os leões fizeram vasectomia --se fossem castrados, perderiam a juba. "Assim, eles mantém comportamentos, como o cruzamento, sem engravidar a fêmea", conta Monticelli.
              Outras espécies, normalmente ameaçadas de extinção, são incentivadas a procriar. Os mico-leões-pretos, por exemplo, têm um "motel" só deles: um canto no parque mais dentro da mata, afastado do público, onde ficam à vontade e se esbaldam com alimentos especiais (como grilos e baratas, petiscos gordurosos). Prato cheio de energia para os amantes.


               
              ELVIS PEREIRA
              DE SÃO PAULO
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              SexoMasturbação e pornografia podem se tornar uma dependência. Desde o fim de 2010, o IPq (Instituto de Psiquiatria) do Hospital das Clínicas, em São Paulo, acompanha 86 homens com comportamento sexual compulsivo. Eles participam do primeiro estudo sobre o tema no país feito com pacientes. O objetivo é buscar evidências científicas sobre o problema e formas mais eficazes de tratá-lo, segundo Marco Scanavino, 47, principal autor da pesquisa. Os resultados iniciais foram divulgados neste ano, na revista "Psychiatry Research".

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