quarta-feira, 24 de outubro de 2012

PAINEL




VERA MAGALHÃES - painel@uol.com.br

Redução de danos
Escalada pelo PT para se contrapor ao veredicto do Supremo Tribunal Federal no mensalão, a CUT abona filiações em massa ao partido na empreitada de "afirmação" petista pós-julgamento. Em atos marcados por manifestações de desagravo aos dirigentes petistas condenados, a central sindical ajuda a vitaminar a sigla nas capitais. O principal deles ocorrerá segunda-feira, no Sindicato dos Bancários do Rio, com a presença do presidente Rui Falcão. Estão previstas 500 adesões.

Tô fora Dilma Rousseff quer distância de manifestações de apoio aos condenados pelo mensalão após o fim do julgamento. Interlocutores de réus afirmam que o PT também deverá ser comedido na organização de atos.
Lá e cá O foco prioritário da legenda, afirmam petistas, será pressionar para que o STF julgue logo o mensalão tucano de Minas Gerais.
Vai que... A AGU (Advocacia Geral da União) entende que não é sua atribuição ajuizar ação de reparação de danos contra o governo federal para reaver o dinheiro público que, como concluiu o Supremo, foi desviado.
... é sua O advogado-geral, Luís Inácio Adams, tem dito que a restituição tem de ser determinada pelo STF na própria ação penal 470 ou pedida pelo Ministério Público em ação de improbidade administrativa que corre em primeira instância. Para evitar impasse, a Procuradoria-Geral da República já pediu o cálculo da indenização total devida pelos condenados.
Coração... Um dos beneficiados pelo empate no STF, o ex-líder do PT na época do mensalão Paulo Rocha comemorou ontem sua absolvição, mas lamentou a punição de "uma geração de petistas".
... partido "É um sentimento ambíguo. Estou feliz pela conquista, mas arrasado pela condenação de José Dirceu e José Genoino'', disse ao seu advogado João Gomes.
Por escrito Diante da possibilidade de que a discussão sobre a dosimetria das penas se estenda até depois de 14 de novembro, última sessão de Ayres Britto na corte, o presidente decidiu que fará como Cezar Peluso e deixará consignadas as penas para 25 condenados.
Chamada oral O PSDB lançou ofensiva sobre eleitores que se abstiveram no primeiro turno. Mapa traçado no QG de José Serra apontou alta taxa de ausência em áreas de predominância tucana no centro da capital. Tucanos orientaram visitadores e operadores de telemarketing a persuadir este público.
Retiro Articulada por Gabriel Chalita, a reunião de Haddad com as irmãs marcelinas, que mantêm parcerias no regime de OSs na saúde da gestão Gilberto Kassab, fracassou. A irmandade preferiu manter distância de temas da campanha eleitoral.
Caso de... Crítico da operação na cracolândia, Haddad incluiu a política de combate ao crack no capítulo de segurança do seu plano de governo. Remete ao projeto federal "Crack, é possível vencer". A proposta fala três vezes em adotar "policiamento ostensivo" em áreas de uso intensivo da droga.
...polícia? O texto prevê bases da PM nos polos de distribuição de entorpecente, medida similar à adotada no centro e criticada pelo PT e pela Secretaria Nacional dos Direitos Humanos.
Rito sumário Com a adesão à campanha de Haddad, o ex-candidato a vereador Luciano Gama se antecipou ao processo de expulsão que o PSDB abriria contra ele. Aliado do secretário José Aníbal (Energia), Gama seria punido por recusar menção a Serra em sua propaganda.

TIROTEIO
"Se a decisão da comissão não agrada, é só substituir seus integrantes e está resolvida a questão. Essa é a ética petista."

CONTRAPONTO
Prevenção é tudo
Durante sabatina da ONG Nossa São Paulo, anteontem, José Serra falava sobre os exames de diagnóstico mais utilizados na rede pública. Listou tomografias e radiografias. O tucano disse que faltava um na lista:
-Não estou me lembrando do nome. É um que eu gosto de fazer sempre...
Antes que alguém fizesse piada, emendou:
-Não é de próstata, viu? Aliás, seria bom se existisse um aparelho para substituir o exame.
Na plateia, um assessor assoprou:
-É isso! Ressonância magnética. Para que fique claro.

Outro Canal


TELEVISÃO - OUTRO CANAL

KEILA JIMENEZ
keila.jimenez@grupofolha.com.br /folha.com/outrocanal

Endemol acusa Record de plagiar "Big Brother"

A nova "Fazenda de Verão" (Record), que tem estreia prevista para o dia 31/10, vai parar na Justiça.
A Record recebeu uma notificação da produtora internacional Endemol, dona do formato "Big Brother", que diz que a nova atração, por se tratar de um confinamento de pessoas anônimas, é um plágio do "BB", o que deve gerar um processo na Justiça.
Na notificação, a Endemol solicita que a emissora não coloque "A Fazenda de Verão" no ar.
A Record foi surpreendida pelo documento. A emissora diz que seguirá com os seus planos com relação ao novo programa, que será comandado por Rodrigo Faro.
A rede também diz não ver semelhanças entre os dois formatos. Segundo a Record, "A Fazenda de Verão" é uma versão nacional de "The Farm" (Sony), que possui edições com pessoas anônimas.
A emissora afirma que a atração se passa em uma fazenda com animais, horta e regras muitos diferentes das do "Big Brother".
Na Record, a iniciativa foi vista com um ato orquestrado pela Globo. Apesar de não assinar a notificação, a emissora é parceira da Endemol no país e responsável pelo "Big Brother Brasil".
Procurada, a Globo diz não ter nada a ver com a notificação. A Endemol não comentou o assunto.
TENSÃO
Divulgação
Cena do primeiro capítulo de "Subúrbia", em que Cássio (Alex Teix), namorado da patroa de Conceição (Erika Januza), tenta abusar dela; no ar dia 1º, na Globo
Graça Diogo Portugal, ex-Globo, foi contratado como humorista e roteirista do novo "talk show" de Luciana Gimenez na RedeTV!, o "Luciana By Night", que estreia em novembro.
Impasse Ainda na RedeTV!, a direção artística quer renovar o contrato de Rafinha Bastos, mas o departamento comercial não. Há um diagnóstico de rejeição de anunciantes com relação ao humorista. A emissora quer manter o "Saturday Night Live" no ar em 2013.
O NÚMERO É...
A ressaca de "Avenida Brasil" rendeu anteontem à Globo média diária de 14 pontos. A média da rede nas segundas-feiras em outubro estava em 16 pontos. Cada ponto equivale a 60 mil domicílios na Grande SP.
Disputa "Rei Davi", que voltou em reprise anteontem na Record, registrou média de seis pontos de audiência. "Rebelde" vinha marcando três pontos na faixa horária.
Disputa 2 Em janeiro, em sua primeira exibição, "Rei Davi" marcou 12 pontos em sua estreia. O primeiro capítulo de "Salve Jorge" (Globo) registrou média de 35,1 pontos.
Rixa A Record pretende notificar o Ibope por conta de uma infração cometida pela Globo na noite de sexta-feira (19). A emissora divulgou no "Jornal da Globo" a prévia de audiência do capítulo final de "Avenida Brasil".
Rixa 2 Por contrato, os clientes do Ibope não podem divulgar audiência de programas no ar, muito menos números prévios.

Roberto Saviano fala sobre seu novo livro


Cosa nostra

Autor de "Gomorra", Roberto Saviano lança livro inspirado em programa de TV e comenta as ligações entre a máfia italiana e o Brasil

Zennaro Luca - 22.jan.11/Efe
Roberto Saviano na Universidade de Gênova (Itália)
Roberto Saviano na Universidade de Gênova (Itália)

MORRIS KACHANI
DE SÃO PAULO

Desde 2006, pelo menos 14 policiais com dois carros blindados à disposição se alternam 24 horas por dia na escolta do escritor e jornalista italiano Roberto Saviano, 33.
Jurado de morte pela máfia, Saviano dorme em hotéis e apartamentos alugados, nunca por mais de um mês. "Não consigo imaginar meu futuro. Gostaria de ter uma vida normal, com um pouco de liberdade", afirma o autor, que não é casado nem tem filhos.
Ele se diz "às vezes" arrependido de ter escrito "Gomorra", o livro-reportagem sobre a extensão do poder das organizações criminosas que o tornou internacionalmente conhecido em 2006.
Agora, a Companhia das Letras está lançando seu mais recente livro, "A Máquina da Lama". A obra é inspirada em um programa que foi apresentado pelo próprio Saviano na TV estatal italiana, em 2010, e que chegou a uma audiência de 10 milhões de pessoas, tendo até mesmo desbancado uma partida entre Inter de Milão e Barcelona.
"Vieni Via con Me" (vem embora comigo), título do programa, escancarou as mazelas do país. Dos empreendimentos imobiliários da máfia calabresa em Milão aos lucros da Camorra e o interesse na manutenção da crise do lixo em Napóles (que já dura duas décadas).
Um programa de TV com essas características não poderia passar incólume pelas pressões políticas, que foram encabeçadas por Silvio Berlusconi, então premiê da Itália, e logo se transformariam em censura, até que saísse do ar, mas não sem deixar um rastro de polêmicas.
Saviano se transformou em um ícone da luta contra as organizações criminosas, assinando periodicamente artigos em publicações como "The New York Times", o espanhol "El País", e o italiano "La Repubblica".
O tom de denúncia e indignação que sempre predominou em seu discurso continua, mas agora acompanhado de uma certa melancolia, como se pode observar na entrevista a seguir, concedida à Folha por e-mail.
Folha - Qual é sua impressão sobre o Brasil?
Roberto Saviano - O Brasil está vivendo um momento incrível. De ex-colônia passou a esperança para colonizadores e colonizados. A Itália de hoje sonha com o que está ocorrendo no Brasil, isto é, brasileiros que emigraram voltando a sua terra para nela investir porque acreditam no curso das reformas.
Que laços há entre a máfia e facções criminosas no Brasil?
O Brasil, como a Itália, paga um preço altíssimo ao narcotráfico. Os grandes carregamentos de cocaína (produzida na maior parte na Colômbia) passam pelo Brasil e isso equivale a dizer que a bolsa da droga está em suas mãos. É no Brasil que se decide o preço do pó.
A mercadoria sai em navios para a África Ocidental, chegando à Espanha ou a Portugal. Ou vai diretamente para a Itália -e isso é prova evidente dos laços entre as organizações brasileiras e a máfia calabresa.
Como e por que o sr. se interessou pelo tema da máfia?
Viver em uma terra onde a criminalidade pode tudo impõe uma tomada de consciência. Nascer no sul da Itália significa se perguntar constantemente que lado assumir, como reagir, o que fazer. Não dá para ficar indiferente. No sul, todos, diariamente, tomam um partido.
É possível estabelecer um vínculo entre a crise financeira global e o crime organizado?
As organizações criminosas têm em mãos uma liquidez enorme proveniente do narcotráfico e, num momento em que isso é exatamente o que falta, fica fácil de entender qual é o vulto de seu poder de aquisição.
Se as organizações não são diretamente responsáveis pela crise econômica, é certo que agora elas estão entre os principais atores e, quando houvermos saído da crise, as economias nacionais de muitos países, entre os quais a Grécia e a Itália, serão economias totalmente infiltradas por capital criminoso.
A máfia seria um subproduto da cultura italiana?
A cultura mafiosa compõe somente uma parte da tradição italiana. E tudo isso, soa estranho dizer, se liga estreitamente ao turbocapitalismo.
Então há, de um lado, o culto à virgindade, à propriedade, à terra e a regras quase medievais; e, de outro, investimentos financeiros e vanguarda econômica. A união desses dois ingredientes é que faz o DNA extremamente forte e dominante das máfias.
O sr. acha que a máfia pode ser vencida?
O juiz Giovanni Falcone, morto em um atentado mafioso na Sicília, em 1992, dizia: "A máfia é um fenômeno humano e, como todos os fenômenos humanos, tem um princípio, uma evolução própria e terá, portanto, um fim".
Eu espero com todas as minhas forças que sim; mas, sem uma mudança radical na nossa ordem econômica, não será possível.
O que o sr. acha da profissão de repórter, diante das novas tecnologias?
A internet e as agências de notícias facilitaram muito o trabalho tradicional do repórter, modificaram-no de forma profunda, não necessariamente para o mal, como alguns sustentam.
O jornalista tem agora uma tarefa mais árdua, mas mais estimulante: reunir as peças de quebra-cabeças que estão espalhadas à vista de todos.
Tudo está à mão, mas nem tudo é inteligível. É isso: o repórter agora não é instado a encontrar a informação em primeira mão, mas também (e sobretudo) a reelaborá-la, a explicá-la.
Como é seu cotidiano?
Vivo uma vida totalmente anômala. Alterno períodos de completa solidão e isolamento a outros de máxima visibilidade, quando estou na TV ou participo de eventos públicos. Isso faz a minha vida ser completamente esquizofrênica.
O sr. se arrepende? Faria algo diferente?
Eu me arrependi mil vezes de ter escrito "Gomorra" e não outro livro, que poderia ter me dado uma vida de escritor, e não de perseguido. Odiei o livro por muito tempo. Sabia que devia muito a ele, talvez até demais, mas às vezes eu gostaria de poder voltar atrás e nunca tê-lo escrito.
O sr. se sente melancólico, claustrofóbico? O que lhe faz mais falta?
Eu me sinto assim o tempo todo. Sinto falta do meu passado, da liberdade que perdi. Às vezes queria voltar ao verão de 2006, ano em que saiu "Gomorra". Lancei o livro Itália afora, com uma mochila nas costas, passando noites em trens.
As pessoas me esperavam para falar do meu livro, do estilo, do texto, queriam saber como eu tinha reunido tantas informações. Foi a melhor época da minha vida.
Era um sonho que estava se tornando realidade: depois de tanto trabalho, o mundo cultural italiano se dava conta desse rapaz que à época tinha 26 anos e tinha tanta vontade de escrever, de dividir ideias e experiências. Se tivesse como, pararia o tempo ali.
A MÁQUINA DA LAMA
AUTOR Roberto Saviano
EDITORA Companhia das Letras
TRADUÇÃO Joana Angélica d'Avila Melo
QUANTO R$ 29,50 (160 págs.)
Leia íntegra da entrevista
folha.com/no1173715


FRASES
"O Brasil, como a Itália, paga um preço altíssimo ao narcotráfico. Os carregamentos de cocaína passam pelo Brasil e isso equivale a dizer que a bolsa da droga está em suas mãos. É no Brasil que se decide o preço do pó"
"Quando houvermos saído da crise, as economias nacionais de muitos países serão totalmente infiltradas por capital criminoso"
"Eu me arrependi mil vezes de ter escrito "Gomorra" e não outro livro, que poderia ter me dado uma vida de escritor, e não de perseguido"


RAIO-X - ROBERTO SAVIANO
VIDA
Nasceu em Nápoles (Itália), em 1979. Desde 2006 vive escondido e sob escolta.
CARREIRA
"Gomorra", seu principal livro, já vendeu mais de 10 milhões de exemplares e inspirou um filme homônimo premiado em Cannes. Saviano escreve para publicações como "La Repubblica", "El País" e "The New York Times", entre outras.

Marcelo Coelho



Dúvidas na Dinamarca

A inação e as famosas dúvidas do protagonista se despem, nessa montagem, de adereços existenciais

Uma peça que termina com a morte de seus principais personagens, sem contar a ocorrência de um suicídio e dois assassinatos no meio da história, certamente parece pouco indicada para o público infantil.
Mas "O Príncipe da Dinamarca", em cartaz no teatro Eva Herz, consegue total adesão das crianças, adaptando a trama de "Hamlet" à linguagem circense.
Ofélia fica sabendo que seu pai, Polônio, foi apunhalado pelo príncipe. Sofre, ademais, com a indiferença e a loucura do seu noivo.
É então que saem de seus olhos lágrimas de esguicho, molhando anarquicamente quem se senta nas primeiras filas da plateia. A palhaçada é regida pelos dois coveiros, que aparecem bem no início da peça para contar a história.
Evitam-se, assim, choques emocionais: todas as mortes já foram anunciadas, e não há ator que não seja um "clown", mal ajambrado numa fantasia de esqueleto feita para não assustar ninguém.
Hamlet, remoendo a morte de seu pai, ganha uma cabeleira de "emo", tornando-se objeto da gozação geral. Quanto ao rei Cláudio, que usurpou o trono, não há dúvidas quanto à sua vilania, e cada mentira que ele conta é denunciada pelos seus próprios gestos de fantoche.
Com bastante sabedoria psicológica, o texto de Ângelo Brandini (que também dirige o espetáculo) elimina da história a rainha Gertrudes.
Qualquer suspeita de relação edipiana entre Hamlet e sua mãe seria, com efeito, mais imprópria para as crianças do que os muitos assassinatos de brincadeira ocorridos no palco.
Imagino que a morte, propriamente dita, não seja o que mais assuste quando se tem seis ou sete anos. Lembro-me de ter muito medo de que meus pais morressem; só que esse tipo de medo não tinha relação muito clara com o que me assustava de verdade.
Eu me debatia com outra ordem de coisas: o sinistro, o monstruoso, o sobrenatural. A morte, entendida como ocorrência física, poderia não ser mais do que a queda cômica de um precipício, o tiro de festim, a bomba que cobre de fuligem o rosto do coiote.
O medo provém menos dos fatos que das ameaças, das suspeitas.
Este, com efeito, é o âmbito em que transcorre o verdadeiro "Hamlet", a peça original para adultos, de que há também uma boa montagem estreando em São Paulo, com Thiago Lacerda no papel principal.
Escrevo "verdadeiro Hamlet", mas não está certo. Mesmo uma montagem bem traduzida e fiel, como é o caso do espetáculo no Tuca, será sempre uma adaptação a esta altura do campeonato.
Os toques de "atualidade" na direção de Ron Daniels parecem forçados em alguns momentos. Para lembrar os prisioneiros de Guantánamo ou Abu Ghraib, o príncipe é submetido à tortura do afogamento até que revele o paradeiro do corpo de Polônio.
Mas se, nessa cena, o rei Cláudio se identifica com os interrogadores americanos, por que razão Fortimbrás, afinal o salvador da Dinamarca, aparece também como se fosse o chefe de uma tropa de intervenção americana, à frente do que parece ser um tanque de guerra?
E por que razão as cadeiras da corte de Elsinore parecem importadas de uma lanchonete dos tempos de Elvis Presley? Quanto ao fantasma do velho rei (a que Antonio Petrin empresta a melhor dicção do elenco), seu terno de linho branco o identifica mais a um bicheiro umbandista ou dono de "plantation" do que a um monarca assassinado.
Detalhes "contemporâneos" meio deslocados, numa encenação que apesar disso acerta ao destacar um ponto atualíssimo na trama.
É a questão da "verdade". A própria palavra, como sublinha o programa da peça, ganhou relevo na elocução dos atores.
Não é apenas Hamlet quem precisa confirmar, com novos estratagemas, a denúncia que ouviu dos lábios do fantasma. Também Cláudio e Polônio querem saber se é verdadeira ou fingida a loucura do príncipe. Rosencrantz e Guildenstern manipulam mal o jogo das versões.
A inação e as famosas dúvidas do protagonista se despem, nessa montagem, de adereços existenciais. Como agir, quando faltam peças no quebra-cabeça? Temos assim tanta certeza sobre o "conjunto probatório" em pauta, para falar como os juízes do mensalão?
O que aconteceu de fato em Guantánamo? O que aconteceu de fato em Wall Street? Os jovens se reúnem em protesto pelo mundo, que está visivelmente "fora dos eixos", como dizia Hamlet -mas suas certezas vacilam bastante.