domingo, 10 de março de 2013

Elio Gaspari

folha de são paulo

O quartel da PE e a morte de Rubens Paiva
Depois do quase meio século de silêncio, a responsabilidade pelos crimes da ditadura desliza para os mortos
O SILÊNCIO dos comandantes militares em torno dos crimes cometidos em quartéis por oficiais que cumpriam ordens dos hierarcas da ditadura teve três efeitos sucessivos:
No primeiro, negando que as torturas e os assassinatos tenham ocorrido, contaminaram as instituições militares nacionais. (Salvo para quem acredita que cerca de 40 guerrilheiros do Araguaia desapareceram a partir de outubro de 1973 sem que o Exército tenha conseguido capturar um só deles. Em maio de 1945 havia cerca de 20 pessoas no bunker de Hitler em Berlim, sumiu só uma.)
Noutro efeito, mais recente, a responsabilidade nominal e exclusiva deslizou para oficiais que à época eram, no máximo, coronéis. Na maioria dos casos, capitães ou majores com cerca de 30 anos. Todos condecorados com a Medalha do Pacificador pelos ministros Lyra Tavares, Orlando Geisel, Dale Coutinho e Sylvio Frota. Não há notícia de oficial repreendido por prática de torturas ou de execuções.
Percebe-se agora um terceiro efeito: o deslizamento para a memória de oficiais mortos. Exemplo dessa tendência é o envolvimento do então coronel Ney Fernandes Antunes, comandante do Batalhão da Polícia do Exército do Rio, na morte do ex-deputado Rubens Paiva, no DOI do 1º Exército, que funcionava no mesmo quartel, na rua Barão de Mesquita.
Essa associação remonta aos anos 80 e partiu do tenente-médico Amilcar Lobo, preciosa testemunha da agonia do preso, na madrugada de 22 de janeiro de 1971. Diante do silêncio dos chefes militares, ressoam as denúncias de que ele presenciou torturas. Uma coisa é certa: se não sabia de tudo o que acontecia lá, sabia o suficiente para perceber a extensão dos crimes ali praticados. Ele e todos os seus chefes.
O coronel morreu nos anos 70, não pode se defender nem se explicar.
O comandante do 1º Batalhão da PE não tinha jurisdição sobre o DOI, que funcionava num pavilhão dentro do seu quartel. Cláudio Fonteles, membro da Comissão da Verdade, produziu um documento dizendo que o assassinato de Paiva foi "consumado no Pelotão de Investigações Criminais -PIC- do DOI/Codi do 1º Exército". É um detalhe, mas não existia PIC do DOI. O PIC era do batalhão da PE. Funcionava no mesmo pavilhão que o DOI, e seus oficiais circulavam pela central de suplícios. Em São Paulo, não se associa o quartel do 8º Batalhão da PE com as torturas do DOI porque o destacamento funcionava noutro prédio, a centenas de metros de distância, em área urbana civil.
Rubens Paiva foi examinado por Amilcar Lobo numa cela da carceragem, quando agonizava. Pela sua narrativa, acompanhava-o um major do DOI e, no dia seguinte, o tenente Armando Avólio Filho, do PIC, disse-lhe que o preso morrera. Na tarde anterior, um militar do batalhão teria visto Rubens Paiva sendo espancado por um oficial do DOI. Esse testemunho está ao alcance da Comissão da Verdade e de suas averiguações.
Entre outubro de 1970 e junho de 1971, o DOI foi comandado pelo major José Antonio Nogueira Belham. Um documento datilografado, com data de 21 de janeiro de 1971, quando Paiva chegou ao DOI, tem uma nota manuscrita informando que "dois cadernos de anotações" do preso foram entregues ao "maj [major] Belham" e devolvidos. Ele poderia estar de férias nesses dias e a anotação ter sido posterior. Nesse caso, na madrugada dos mistérios, o DOI estaria sob a chefia do subcomandante, o major Francisco Demiurgo Santos Cardoso, que está morto.
Tendo chegado a general, depois de passar para a reserva, Belham ocupou um cargo de confiança no governo de Lula, a vice-presidência da Fundação Habitacional do Exército. Foi demitido em 2010 porque encrencou-se com as viúvas dos 18 militares mortos durante o terremoto do Haiti. Nesse episódio, explicou-se: "Posso ser veemente na defesa das minhas ideias, mas jamais estúpido, grosseiro ou mal-educado: duvido que haja alguém, homem ou mulher, que tenha convivido comigo nos 46 anos de Exército e 12 anos de Fundex, que diga isso de mim".
Aos 78 anos, Belham pode contar o que acontecia naquele pavilhão onde praticavam-se mais que grosserias contra homens e mulheres. No mínimo, lembrar quais eram os oficiais e sargentos que lá poderiam estar na madrugada de 22 de janeiro, quando o cadáver de Paiva foi retirado do prédio. (Num episódio similar, ocorrido com Chael Charles Schreier dois meses antes, o Centro de Informações do Exército operou a desova tentando, sem sucesso, internar seu cadáver no Hospital Central da corporação.)
Pela rotina de hoje, o Exército registra que, entre 1970 e 1975, um oficial ficou à disposição da Presidência da República, serviu no gabinete do ministro, ou ainda no comando do 1º Exército. O curioso olha e presume: ele esteve no Gabinete Militar do Planalto, foi oficial de gabinete do ministro e tornou-se ajudante de ordens do comandante da tropa do Rio. Nada disso, o capitão serviu no SNI, no CIE ou no DOI da Barão de Mesquita.
No caso de Paiva, simulou-se sua fuga, num teatrinho durante o qual teria sido sequestrado enquanto era levado numa diligência. No episódio, terroristas teriam incendiado o Volkswagen em que ele viajava, escoltado pelo capitão Raimundo Ronaldo Campos e dois sargentos do DOI. Todos vivos.
Se os deslizamentos não forem contidos, o caso Rubens Paiva terminará assim: ele foi massacrado na PE do coronel Ney Fernandes Antunes (que não comandava o DOI), e o responsável pode ter sido o então major Demiurgo. Quem sabe, o comboio da desova poderia ter sido organizado só pelo major Freddie Perdigão Pereira, do CIE. Todos mortos, como Rubens Paiva.
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MODOS
Ninguém está livre de ter um piti, e o doutor Joaquim Barbosa mostrou que é chegado a um descontrole.
Da próxima vez que ele mandar alguém "chafurdar no lixo" e decidir desculpar-se, poderá fazê-lo pessoalmente. Pedir desculpas por intermédio da assessoria de imprensa é coisa de barão de uma elite que se julga acima da choldra.
Em 2009, um policial de Boston foi chamado a uma cena em que um negro forçava a porta dos fundos de uma casa. Ao interpelá-lo, teria sido insultado. O negro era o professor Henry Louis Gates, professor de Harvard e dono da casa. Por causa do insulto, prendeu-o e o companheiro Obama disse que o policial agiu "estupidamente".
Ao contrário do que aconteceu com Barbosa, no episódio a bola estava dividida, mas o presidente dos Estados Unidos deu-se conta de que não devia ter dito o que dissera. Convidou Gates e o policial para tomarem uma cerveja na Casa Branca.
MADAME NATASHA
Madame Natasha zela pelo idioma e concedeu uma bolsa de estudos ao governo de São Paulo, que mantém uma "Divisão Policial de Portos, Aeroportos, Proteção ao Turista e Dignitários".
Natasha acredita que poderiam dizer "proteção ao viajante".
Do contrário, justifica-se a ação da quadrilha que roubava objetos nas malas dos passageiros no aeroporto de Cumbica. Se elas pertenciam a um simples contribuinte, estariam desprotegidas.
VENEZUELA
A próxima novidade que virá de Venezuela será uma lenta reaproximação diplomática com os Estados Unidos.
No vácuo dessa iniciativa poderá sair da sombra uma abertura com Cuba, com quem já rolam conversas.

    Mônica Bergamo

    folha de são paulo

    Nova atração do "CQC", Dani Calabresa diz que quer ser vista e escapar do aluguel

    DE SÃO PAULO

    "Acción", grita o produtor argentino Diego Bokser. Diante dele, Iemanjá recebe, de braços abertos, flores e colares arremessados sobre o corpo enquanto diz seu texto. E fica "indignada". "Flor de plástico? Miçanga? Não tem nenhuma joia de verdade por aí?" É Daniella Maria Giusti Adnet, 31, a Dani Calabresa, gravando uma de suas primeiras participações como nova contratada do programa "CQC", da Band. Ela estreia no próximo dia 18. Vai fazer esquetes na atração.
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    A cena da rainha do mar faz conexão entre o vídeo que mostra a modelo Daniela Cicarelli namorando em uma praia espanhola, em 2006, e o filme amador de um casal flagrado no mar de Rio das Ostras (RJ). As duas foram colegas na MTV, de onde Dani saiu em 2012, depois de cinco anos de casa.

    Dani Calabresa estreia na Band

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    Adriano Vizoni/Folhapress
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    A apresentadora Dani Calabresa veste o uniforme do programa "CQC", da Band
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    "Me perguntam se mudei de emissora por dinheiro. Não, né? Ou teria saído antes", diz a Alberto Pereira Jr.
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    Uma funcionária da Band entra no camarim. Dani precisa visitar o departamento de RH (Recursos Humanos) da empresa. Estima-se que o salário da ex-VJ da MTV saltou de R$ 10 mil mensais na antiga emissora para pelo menos R$ 30 mil no "CQC", fora o que ela pode ganhar com "merchandising" --pelo menos o dobro depois de algum tempo.
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    Dani volta com um figurinista. Ele segura um vestido vermelho que será provado para uma cena em que a humorista imitará a socialite Narcisa Tamborindeguy, do "Mulheres Ricas". A roupa precisa de ajustes -o decote revela o sutiã preto e a abertura da saia é muito grande. "Acho que deveria ser longo. Mas, se vocês quiserem que fique pelada, quem sou eu para falar...", diz.
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    Já vestida, pega uma echarpe para simular glamour. "Estrela, eu? 'Magina'", diz, fazendo caras e bocas para a câmera. "Isso é para a Sabrina Sato, que é uma linda. Vou ralar para que as 17 pessoas que viam o 'Furo MTV' [programa que ela estrelava no antigo emprego] pensem: 'Olha, que saudades, ela ainda está viva'."
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    Antes de se trocar mais uma vez e vestir o terninho preto que é o uniforme do "CQC", abre o banheiro do camarim. "Melhor ver, né? Vai que tem uma panicat pelada aqui com tudo de fora!"
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    "Toda vez que tive vontade de sair da MTV era para ser mais assistida", segue a humorista. "Fizemos um trabalho incrível lá. As pessoas podem conhecer um vídeo, uma música ou outra do Adnet [Marcelo Adnet, marido de Calabresa e que fazia com ela, na mesma emissora, o 'Comédia MTV']. Bombava na internet. Mas ele fazia isso todo dia. E dava 0.2, 0.3 ponto no Ibope. Dá vontade de ser mais visto, sabe?"
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    As propostas para mudar de rede eram rotina na vida do casal. "Com a graça do Senhor! Pouca gente sabe: antes da MTV, eu tinha feito teste para o 'Zorra Total' [Globo] e fiz reportagens para o 'Pânico' [RedeTV!]."
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    O primeiro trabalho dela na TV foi no SBT, para onde migrou depois de uma experiência no teatro. Fazia esquetes no programa "Sem Controle" e interpretava uma empregada doméstica que comentava notícias num quadro do "Ratinho".
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    "O SBT é a Disneylândia do Silvio Santos. Ele parece o prefeito de uma cidadezinha do interior", diz. "Certo dia, estava me maquiando quando avisaram que o programa tinha acabado, junto com outros seis. O Silvio tinha mandado tirar do ar!"
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    "Quando a MTV me chamou, fiquei muito feliz. Sempre senti que lá teria liberdade. Os apresentadores usam o linguajar do dia a dia. Eu não queria mudar o meu jeito. Tinha que estar lá para aprender, arriscar e testar."
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    Os rumores de que a rede do Grupo Abril estaria à venda não apressaram a mudança do casal.
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    "Essas histórias existem desde o dia em que a gente entrou lá. Já em 2008 falavam que a MTV estava mal das pernas", diz Calabresa.
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    Agora é cada um para o seu lado. Ela fica em SP. Ele, na Globo, no Rio, onde será protagonista de uma série de Fernanda Young e Alexandre Machado. "Sentimos saudades por não estarmos perto todos os dias. Estamos juntando milhas para nos vermos no fim de semana. Ainda trabalharemos muito juntos. Peça, filme. E na TV. São dois anos de contrato meu aqui e dois dele na Globo. Depois a gente se cruza."
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    "Ele fez certo ao ir para a Globo", segue ela. "E entendeu que eu queria arriscar na Band. Ainda quero trabalhar com a Fernanda Young e com o Alexandre Machado. Fomos na casa deles ler o texto da série, ela toda branca, com a boca vermelha. O Alexandre é hilário. Se botassem câmera, você parava de assistir ao 'Big Brother', diverte-se.
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    Calabresa diz que também recebeu convites da Globo. Em 2012, disse não ao "Casseta & Planeta Vai Fundo", que foi cancelado no fim do ano pela baixa audiência.
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    "Gosto da Globo. Mas nunca me vi fazendo meu humor lá. Os programas de que mais gostei, 'Os Normais' e 'Sai de Baixo', passaram e não veio nada parecido. Na Band tem o 'CQC', depois chegou o 'Pânico', o 'Agora é Tarde', do Danilo Gentili, meu amigão de Santo André."
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    "Não vim para fazer um humor pesado. Mas obviamente em algum momento alguém vai ficar chateado. Aí, peço desculpas", afirma. Políticos não estarão na mira. "Sou 'bicha' mesmo. Política e futebol não me apetecem." Diz que faz "humor para debochar de tudo e de todos, de mim. Se entrar alguém aqui e disser que está magoado comigo, choro. Sou goiaba."
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    Tatá Werneck, outra estrela da MTV, também abandonou o canal. Vai fazer novela na Globo. "Pois é! Ela não tinha nada que sair. Por que não ficou na MTV?", brinca Calabresa. Ela nega rivalidade com a ex-colega. Diz que as duas são como "Ivete Sangalo e Claudia Leitte. Elas não trabalham juntas, mas tenho certeza que se cumprimentam quando se encontram."
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    Com seu salário turbinado na Band e os dividendos do marido global, deve finalmente deixar de morar de aluguel. "Estamos esperando passar a p... dessa Copa [do Mundo em 2014] e a Olimpíada [no Rio, em 2016] porque está tudo muito caro. Um banheiro custa R$ 1 milhão. Acabamos de trocar de canal. Daqui a uns anos você me pergunta e vamos falar: 'Estamos maravilhosos'."
    Mônica Bergamo
    Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

    Mauricio Stycer

    folha de são paulo

    A verdadeira saia justa
    Em 2002, o mau hábito de compartilhar publicamente a intimidade ainda não estava tão disseminado
    Sinônimo de situação difícil, embaraçosa, o termo "saia justa" serviu como uma luva, em 2002, ao batizar um bate-papo descontraído, protagonizado por mulheres, na TV paga.
    Parte do encanto inicial devia-se à promessa de descobrir, naquele debate de mulheres famosas, detalhes picantes do que elas antes só revelavam em conversas íntimas.
    Muitas discussões, em especial, sobre sexo, mas também sobre dificuldades especificamente "femininas" que elas encontravam em diferentes situações da vida, ajudaram o programa a honrar o seu título.
    O cardápio de assuntos nesse terreno, porém, é inelástico. A repetição torna-se inevitável depois de algumas poucas conversas. Como provocar "saia justa" ao falar pela enésima vez sobre fingir orgasmo?
    Diante dos limites evidentes da proposta, mas precisando manter o programa no ar devido ao renovado interesse do público e dos anunciantes, a solução para o "Saia Justa" tem sido a de trocar o elenco.
    Já vacinado contra todos os possíveis constrangimentos que os temas "picantes" do programa podem causar, resta ao público o prazer de se divertir com a performance das artistas e jornalistas escolhidas para protagonizar a festa.
    A temporada 2013 radicalizou, substituindo até a apresentadora, Mônica Waldvogel, presente desde a primeira edição. Temos agora Astrid Fontenelle no comando do bate-papo, em torno das atrizes Maria Ribeiro e Mônica Martelli e da jornalista Barbara Gancia.
    Astrid e Barbara, que conheço bem, são escolhas excelentes para qualquer tipo de debate. Sou fã declarado de ambas. Maria e Monica parecem, igualmente, altamente capacitadas para discutir, divertir e provocar "saia justa".
    Por que, então, o "Saia Justa" não convence mais? Tenho uma suspeita. Em 2002, o mau hábito de compartilhar publicamente a intimidade ainda não estava tão disseminado. Não havia Facebook nem Twitter nem YouTube. O que é constrangedor hoje em dia? O que causa saia justa?
    "Excesso de cobrança" sobre a mulher, "obsessão pela magreza", "ditadura da juventude". O que há de novo para ouvir a respeito dos temas propostos na estreia? Não estou querendo dizer que a questão de gênero esteja superada, longe disso. Mas o formato, baseado nessa encenação sobre a troca de intimidades, soa cada vez mais artificial.
    Astrid encerrou a primeira edição da nova temporada com um "salve" para Rita Lee, presença no elenco original. Sigo a cantora no Twitter e confesso que algumas mensagens suas, em 140 caracteres, são muito mais "poderosas" que um bloco inteiro de "Saia Justa".
    Ainda assim, o programa do GNT consegue transmitir um interesse pelas questões que opõem mulheres a homens muito maior do que, por exemplo, a novela "Guerra dos Sexos", exibida pela Globo no seu horário das 19h.
    Lançada originalmente em 1983, a comédia de Silvio de Abreu, refeita pelo próprio em 2012, é de um anacronismo exemplar. Ouvir Paulo Autran dizer para Fernanda Montenegro, há 30 anos, que as mulheres são inferiores aos homens tinha lá a sua graça. Ver Tony Ramos repetir este texto hoje, para Irene Ravache, provoca uma verdadeira saia justa.

      Ferreira Gullar

      folha de são paulo

      O acaso e o jogo
      A função do técnico é tornar a ação dos jogadores inteiramente previsível, ou seja, anular o acaso
      Já falei aqui da influência do acaso em tudo o que fazemos e no que a vida faz da gente.
      Observei que, no amor como na arte, ele influi decisivamente, mas, apesar disso, para que não pensem que vejo a vida como um mero jogo de acasos, sobre o qual não exerceríamos qualquer influência, afirmo que, na maioria das vezes, o acaso é neutralizado ou aceito pela nossa necessidade, ou seja, o acaso não é tudo.
      Até na poesia é assim: se é verdade que a primeira palavra que escrevo na página em branco surge, às vezes, sem que eu saiba por que, ela já determina a segunda palavra, a terceira e, assim, à medida que o poema ganha corpo e sentido, só entra nele a palavra necessária. No fundo, o que fazemos quase todo o tempo é transformar o casual em necessário.
      Pois bem, outro dia percebi que o mesmo -ou quase o mesmo- ocorre nos esportes, onde o fator casual é, sem dúvida, decisivo. Pense só nisto: o tiro de escanteio, num jogo de futebol. Quantos jogadores dos dois times estão dentro da área? Sete? Oito? Dez? Como saber na cabeça de qual deles a bola cairá?
      Se for na cabeça de um jogador do time que bate a falta, pode ser gol; se for na cabeça de alguém do outro time, o gol pode ser evitado. O fato é que o grau de imprevisibilidade, nestes casos, é enorme.
      Por isso, o escanteio é um dos momentos mais críticos de qualquer partida de futebol, uma vez que é quando há menos possibilidade de controlar o acaso.
      Claro, o escanteio é um exemplo extremo, mas, durante todo o jogo, 11 contra 11, é impossível prever tudo o que pode ocorrer. A verdade, porém, é que quem der menos chance ao azar, isto é, ao acaso, ganhará a partida.
      No tênis, numa partida individual, o acaso terá, sem dúvida, menos chance, embora a coisa não seja tão simples como pode parecer; é que, se aqui a ação dos jogadores é mais previsível do que no futebol, com tanta gente atuando, em compensação, por serem apenas dois os tenistas, têm menos controle sobre os fatores de espaço e tempo implicados em cada lance. Ainda assim, o controle sobre a probabilidade é maior.
      Caso bastante especial é o do vôlei, quando duas equipes de seis jogadores disputam o controle sobre uma bola num campo dividido por uma rede.
      Por suas características, parece que o vôlei é o esporte em que se tem maior possibilidade de neutralizar o acaso, ou seja, a probabilidade. Advirto o leitor que estou pensando essas coisas, agora, pela primeira vez. Estou "sacando" quase como um jogador de vôlei e espero confirmar o meu saque.
      Se estou pensando certo, o vôlei, de todos esses esportes, parece ser aquele em que o técnico melhor consegue anular consideravelmente o incontrolável e, consequentemente, a ação do adversário. Isso se deve, creio eu, às características desse esporte e fundamentalmente ao fato de estar a quadra, que não é muito grande, dividida por uma rede.
      Como os jogadores têm de passar a bola por cima dela, isso possibilita bloquear-lhes a ação e evitar que a bola caia do lado de cá da quadra. O bloqueio é, por isso mesmo, um recurso decisivo e, consequentemente, a cortada, que procura superá-lo e fazer o ponto.
      Nisso tudo, o técnico tem papel fundamental, bem mais que, por exemplo, no futebol, cujo campo é grande demais, tornando imprevisível o deslocamento dos jogadores adversários.
      O tamanho do campo, combinado com o número de jogadores em ação, influi decisivamente na impossibilidade de o técnico prever como o adversário se comportará e, por isso mesmo, como deve ele orientar os jogadores de seu time para chegarem ao gol, evitando, ao mesmo tempo, que o outro o consiga antes ou mais vezes.
      A influência desses fatores é determinante e de tal modo que, em função dela, por exemplo, enquanto no tênis o saque favorece a quem saca, no vôlei é o contrário: quem saca mais provavelmente perde o ponto.
      Em face de todas essas "sacações", concluo afirmando que, nesses diversos esportes, a função do técnico é tornar a ação dos jogadores inteiramente previsível, do seu e do time adversário, ou seja, anular o acaso. Mas isso nem Deus consegue.