domingo, 7 de abril de 2013

Livro de fotos de Claudia Jaguaribe capta São Paulo vertiginosa

folha de são paulo

DAIGO OLIVA
EDITOR-ASSISTENTE DE FOTOGRAFIA
"Sobre São Paulo", novo livro da fotógrafa carioca Claudia Jaguaribe, lançado nesta semana, tem uma folha.
Montada em formato sanfona, a obra reúne uma sequência de cinco vistas panorâmicas, fotografadas e construídas digitalmente pela artista, totalizando quase 20 metros de comprimento a partir da primeira página.
As perspectivas foram registradas de helicópteros ou do topo de prédios históricos como o edifício Martinelli e a Fiesp. Manipuladas, reúnem em uma única imagem diversas fotos do mesmo espaço sob diferentes ângulos.
"A gente fica vendo pedaços de São Paulo. É difícil entender a geografia", disse ela em entrevista à Folha.
"[O livro] É como se eu pegasse um novelo de lã e fosse abrindo a cidade. Vamos ver o que é São Paulo? Aí você abre e não vê só pedacinhos, vê um conjunto."
Claudia Jaguaribe/Divulgação
Imagem do livro "Sobre Sao Paulo", da fotógrafa Claudia Jaguaribe, lançado na SP-Arte
Imagem do livro "Sobre Sao Paulo", da fotógrafa Claudia Jaguaribe, lançado na SP-Arte
NOVA NO RAMO
"Sobre São Paulo" é a primeira publicação do Estúdio Madalena, dirigido por Iatã Cannabrava e Claudi Carreras, responsáveis pelo tradicional festival de fotografia Paraty em Foco, que acontece desde 2005 na cidade do litoral fluminense.
A obra vem na sequência de "Entre Morros", livro em que Claudia abordou a relação entre a natureza e o espaço urbano no Rio. O processo utilizado foi o mesmo, de sobreposição digital para criar imagens extremamente verticais a partir de assombrosas (e vertiginosas) perspectivas.
DIGITAIS
"A exploração dessa infinitude de processos reflete na realidade o mundo contemporâneo. Isso não é um adereço, não é uma decoração que você coloca em cima da mesa. Isso é, para mim, intuitivo da forma como a gente vive", diz a fotógrafa que vive há 24 anos em São Paulo.
No verso das panorâmicas monumentais, a fotógrafa intercalou trechos de textos e músicas sobre a cidade com pequenas vistas e recortes de prédios da cidade, onde, nem assim, a presença humana se destaca.
SEM GENTE
A ausência de pessoas não foi intencional, garante a artista. É o próprio gigantismo da cidade, vista de cima, que anula a escala humana.
"Por mais próximo que esteja, visualmente não está perto. É como se fosse uma ilusão. O longe e o perto, pela própria arquitetura da cidade, não trazem o elemento da intimidade", explica ela, que pretende recuperar o mundo interior dos paulistanos num próximo livro.
Por enquanto, "Sobre São Paulo" dá conta de ilustrar o desdobramento infinito da cidade e entender que, por trás do crescimento desordenado, há uma padronização das grandes metrópoles onde tudo se encaixa.
"Arte interessante não é aquela que aponta soluções, mas caminhos de percepção. Você tem que ter um discurso visual muito forte e muito conciso.
Isso é o que faz a força do livro. Não adianta falar 30 mil coisas. Tem que dar uma visão muito clara sobre uma coisa e aquela uma coisa vai gerar 30 mil outras coisas na cabeça das pessoas."
SOBRE SÃO PAULO
AUTOR Claudia Jaguaribe
EDITORA Estúdio Madalena
QUANTO R$ 110

Mauricio Stycer

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Velhas bravatas, novas embalagens
Tal como ocorrera no evento da concorrente, as principais "novidades" da Globo já eram conhecidas
Durante um café da manhã num hotel em São Paulo, localizado diante da sede da Globo, o vice-presidente da Record, Walter Zagari, subiu ao palco para relatar: "O empresário Edir Macedo disse que, entre três e cinco anos, temos que dividir a liderança com o nosso vizinho aqui do lado".
A bravata de Zagari teve grande destaque na mídia, o que desagradou a Globo. Executivos da emissora lembraram aos colunistas que escrevem sobre televisão que a meta estabelecida por Macedo é antiga, mas nunca foi alcançada.
De tempos em tempos, esse objetivo é enunciado como se fosse novidade. Em outras palavras, na visão da líder de mercado, a Record reciclou uma meta antiga como forma de esconder o próprio fracasso no cumprimento dela.
O anúncio de Zagari ocorreu durante um encontro destinado a informar ao mercado as novidades da programação da Record em 2013. A saber: a contratação de Rafael Cortez para apresentar o show de talentos "Got Talent Brasil", um remake da novela "Dona Xepa" e a estreia do novelista Carlos Lombardi, que prepara "Pecado Mortal".
Como estas três atrações já haviam sido alardeadas anteriormente pela emissora, a fala do executivo, incluindo o efeito causado ao chamar o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus de empresário, acabou sendo a maior "novidade" do encontro.
Um dia depois do café da manhã da Record, foi a vez de a Globo promover um encontro para anunciar as suas novidades para 2013. Realizado numa casa de shows em São Paulo, o evento grandioso foi planejado para resultar num programa de televisão, exibido 24 horas depois, na noite de quinta, 28 de março.
Tal como ocorrera no evento da concorrente, as principais "novidades" da Globo já eram conhecidas: as séries "O Dentista Mascarado" e "A Teia", assim como os títulos das novelas que exibirá ao longo do ano, "Sangue Bom", "Amor à Vida", "Saramandaia" e "Joia Rara".
A principal surpresa foi o anúncio de que o ex-jogador Ronaldo, hoje dono de uma empresa de marketing, que cuida da carreira de atletas, será comentarista da emissora na Copa das Confederações. A novidade, nos dias seguintes, deu lugar a uma discussão sobre o nítido conflito de interesses que a envolve.
Antes da apresentação no palco da casa de shows, o novo diretor-geral da Globo, Carlos Henrique Schroder, deu uma entrevista, na qual abordou os desafios da sua gestão. Uma das questões de que tratou disse respeito à troca no comando da direção de Comunicação da emissora.
A substituição do jornalista Luis Erlanger pelo publicitário Sergio Valente foi explicada por Schroder como fruto da necessidade de dar um passo além no diálogo da empresa com a sociedade. "Um jeito diferente de embalar a Globo", disse o diretor-geral.
O especial "Vem Aí" rendeu à Globo audiência de 28 pontos, mais do que ela vinha obtendo no horário com o "Big Brother" -um sinal de que a proposta foi bem recebida pelo público.
São estratégias muito diferentes. A reciclagem de velhas bravatas agrada ao público mais fiel da Record, mas suspeito que não atraia novos espectadores. A nova embalagem oferecida pela Globo me parece mais adequada a este momento, em que a oferta de imagens e informações convida o público a escapar da televisão aberta.

    Ferreira Gullar

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    A teia das probabilidades
    Foi então que me lembrei de minha teoria de que grande parte do que ocorre na vida é por acaso
    Com a idade, meu relacionamento com os animais mudou muito. Quando menino, eu não dava mole para os passarinhos, cobras e lagartixas. De atiradeira em punho, o bolso cheio de pedras, saía eu a caçar os pobres coitados. E não para capturá-los, não; era para acabar mesmo com eles. Mas por que razão -me pergunto, hoje-, pelo simples prazer de matá-los?
    Não que odiasse os animais em geral, nada disso. Não havia ódio algum em minha atitude. Era, talvez, o instinto do caçador que permanece em todos nós, sem levar em conta que, para os passarinhos e lagartixas, significa o fim da vida.
    A verdade é que não pensava nisso, mesmo porque tinha um carneirinho, que meu pai dera, e eu o amava muito. Sair com ele a passear, levá-lo a pastar no capinzal, era a minha alegria.
    Gostava também de cabras, cabritos, cachorros e papagaios. Sim, e de um macaquinho de cheiro que vivia amarrado no gradil próximo à cozinha da casa. Dava-lhe banana e ficava encantado com suas mãozinhas iguais às nossas, mas tão pequeninas.
    Afora estes, não tinha a mínima simpatia ou piedade por outros bichos. Cheguei a pôr um pedaço de carne num anzol para fisgar um pobre urubu, e o fisguei. Foi um desespero, mas ele conseguiu se safar e sair voando com o anzol fincado no bico.
    Ia me esquecendo dos gatos. Sempre gostei de gatos, mas meu amor por eles só nasceu mesmo quando meu filho Paulo me fez comprar um gatinho para ele, que ganhou o nome de Ho Chi Mim e se tornou o rei da casa. Um dia se apaixonou por uma gata de rua e sumiu para sempre. Foi substituído por outro e este por outros, até que surgiu o siamês que se chamou Gatinho e me inspirou um livro de poemas.
    Morreu de velho aos 16 anos para minha tristeza, que só acabou quando Adriana me trouxe de presente uma gatinha siamesa, que ganhou o nome de Gatinha.
    Pois bem, mas coisa inesperada foi a pequenina aranha com que me deparei ao abrir o dicionário de filosofia de José Ferrater Mora. Abri na página em que ela estava e foi aquela surpresa, minha e dela: correu com suas perninhas finas e foi colocar-se no alto da página, tão surpresa quanto eu.
    Ela mais que eu, certamente, pois já conhecia aranhas e ela, nascida e criada dentro de um dicionário, jamais vira um ser humano. Fechei cuidadosamente o livro e deixei-a lá, para viver sua vida de aranha. Os anos se passaram e não é que, para minha surpresa de novo, surge uma aranhinha parecida com aquela, tecendo uma teia perto do espelho de meu banheiro?
    Os anos se passaram e não é que, para minha surpresa de novo, surge uma aranhinha parecida com aquela, tecendo uma teia perto ao espelho do banheiro? Meu primeiro impulso foi acabar com ela, pois banheiro com teia de aranha pega mal.
    Mas refleti: ela é tão inofensiva e, afinal, é um ser vivo. Por que então acabar com ela? Não, não vou fazer isso, aranha não faz mal a ninguém. Deixei-a lá e avisei à faxineira que não tocasse nela.
    - Mas o senhor vai deixar esse bicho pendurado no espelho de seu banheiro?
    - Vou.
    A faxineira me olhou espantada, soltou um muxoxo e continuou a limpeza da pia. Aquela aranha ficou ali durante semanas e um belo dia sumiu. Faz meses isso, e não é que, semana passada, ao abrir o filtro de água na cozinha, vejo ali, entre ele e a parede, outra aranha, pequenina como aquela, tecendo sua teia?
    No filtro já é demais, pensei comigo, mas deixei-a lá. E lá ela continua, no centro de sua teia. Parada, sem mover uma perninha, dias e dias, à espera de uma presa. Quanta paciência, pensei comigo. E se não aparecer presa alguma?
    Foi então que me lembrei de minha teoria de que grande parte do que ocorre na vida é por acaso. E vi que, se há alguém nesta vida, a quem essa teoria melhor se aplica, é à aranha. Veja bem, ela passa dias tecendo a sua teia, estendendo-a estrategicamente.
    É o único recurso de que dispõe para capturar a presa e devorá-la. Acredita que a presa, cedo ou tarde, cairá na armadilha, mas nada garante que isso ocorrerá. Só o acaso o determinará. E fiquei vendo-a, ali, imóvel, à espera de um mosquito incauto. Se ele cair na armadilha, ela o come e se alimenta; se não cair, ela morrerá de fome. Ninguém depende tanto do acaso quanto uma aranha.

      Suzana Singer - Folha Ombudsman

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      Santo ou Satanás?
      Vale a pena ouvir os leitores que consideram a cobertura sobre o deputado Feliciano parcial e preconceituosa
      Daniela Mercury, Caetano Veloso, Fernanda Montenegro, Wagner Moura, Yasmim Brunet... gente bonita e famosa já expressou, com palavras e beijos, o inconformismo com a permanência do deputado Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Cada um desses protestos ganhou amplo espaço na mídia.
      Mais difícil é ouvir argumentos a favor do pastor. A Folha publicou, na semana passada, uma entrevista com Feliciano e um artigo em que Silas Malafaia defende seu colega pastor -o próprio deputado já tinha escrito em "Tendências/Debates" em março.
      É pouco perto das dezenas de textos negativos (reportagens, colunas e editorial) publicados desde que o caso estourou. A impressão que se tem, lendo jornais, revistas e navegando na internet, é que há unanimidade contra o deputado do PSC.
      Falta dar espaço às vozes dissonantes daqueles que criticam a cobertura da mídia e se recusam a entrar na corrente "anti-Feliciano". Passo a palavra a alguns deles:
      "Vivemos uma época de patrulhamento. A imprensa elevou o deputado à categoria de pop star. Estou me lixando para ele, mas não concordo com a forma como é tratado. O jornal não cita a profissão de nenhum parlamentar, mas Feliciano é sempre 'pastor', o que impõe uma carga pejorativa à palavra. Há um estereótipo do evangélico repetido à exaustão na mídia".
      (Patrícia Marinelli, 41, advogada, São Paulo, SP)
      "Feliciano não é racista. Ele deu a sua visão teológica dos homossexuais e dos negros. Nas igrejas evangélicas, ajudamos a todos, não importa a origem ou a crença.
      A imprensa só abre espaço para as críticas e pinça palavras isoladas para criar uma imagem desfigurada do deputado.
      Feliciano foi eleito deputado pelo povo e foi escolhido para a presidência pelos seus pares. Os ativistas, nada democráticos, resistem à alternância de poder na comissão, que até então era dirigida por partidos de esquerda. Delito de opinião é o que os manifestantes estão fazendo, ao não respeitarem quem pensa diferente."
      (André Luiz Pinho Gadêlha, 52, petroleiro e pastor evangélico, Parnamirim, RN)
      "Por mais que eu discorde da postura teológica de Feliciano, acho que sua permanência na Comissão é tão legítima quanto a de Renan Calheiros na presidência do Senado, a de Henrique Alves na Câmara e a de José Genoino e João Paulo Cunha na Comissão de Constituição e Justiça. Todos foram eleitos."
      (Cristian Mesquita, 33, servidor público, Rio, RJ)
      "Se Feliciano fosse padre, a imprensa não faria esse estardalhaço. As posições do papa são até mais conservadoras, porque ele prega contra a camisinha e a pílula. Não deram ao deputado chance de trabalhar, fazer alguma coisa, mostrar quem é. Ter opinião neste país ainda é crime."
      (Samuel Lourenço, 68, servidor público aposentado, Franca, SP)
      "Há uma volta da patrulha ideológica. Tolerância e pluralidade significam debater todas as ideias.
      Existe uma campanha invisível, porém sensível, para atrelar a figura genérica de qualquer pastor e qualquer evangélico às visões do deputado. É uma Inquisição, que visa tornar o termo 'evangélico' sinônimo de intolerante."
      (Carlos Alberto de Paula, 52, tradutor, Miami, Flórida)
      "Tenho acompanhado as reuniões. A imprensa não critica a atitude dos manifestantes, que fazem de tudo para cancelar as sessões. Em nenhum momento a Folha foi atrás de saber quem são essas pessoas que estão numa quarta-feira à tarde protestando."
      (Ademir Morata, 42, assessor de imprensa, São Caetano, SP)
      Mesmo sem concordar com todas as críticas acima, é importante reconhecer que a cobertura do caso Feliciano ganhou ares de linchamento. E não há dúvida de que existe na grande imprensa brasileira uma visão estereotipada e preconceituosa dos evangélicos.