quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A idade das digitais

Brasileiros apresentam em revista internacional estudo sobre técnica que permite medir há quanto tempo uma marca das mãos ou dos dedos foi feita. A metodologia surgiu durante a investigação de um crime em Brasília


Bruna Sensêve


 Estado de Minas: 19/09/2013


Brasília – Diferentemente do que mostram as longas e árduas investigações da série de televisão norte-americana CSI, a identificação de uma impressão digital, palmar ou da planta dos pés é suficiente para solucionar um caso policial. Isso porque, muitas vezes, o vestígio pertence a uma pessoa que não tem acesso legítimo ao local do crime, e a comprovação de que ela esteve ali facilita imensamente o trabalho dos investigadores. No entanto, nem sempre o autor é alguém desconhecido das vítimas, e as impressões encontradas são todas de indivíduos que costumam ir ao local. Nessas situações, a investigação tende a se complicar, e a informação sobre o momento em que determinada impressão foi marcada na cena — antes, durante ou depois do crime — pode ser crucial para elucidar a história.
Foi um desses casos que chegou, em 2009, à equipe do Laboratório de Perícia Papiloscópica do Instituto de Identificação da Polícia Civil do Distrito Federal (II-PCDF). Ao investigar o homicídio do ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Guilherme Villela, de sua mulher e da empregada da casa, os responsáveis pelo caso não acharam nenhuma impressão digital estranha. Chegou-se, então, à necessidade de confirmar quando a marca de uma palma da mão havia sido feita em um móvel do apartamento, na 113 Sul, em Brasíia (DF). O objetivo era descobrir em qual período o dono daquela impressão palmar tinha passado pelo local. Frente a esse desafio, o papiloscopista brasiliense Rodrigo Meneses de Barros, que ficou encarregado da missão, desenvolveu um método para chegar à resposta. Replicada em um experimento na Universidade de Brasília (UnB), a técnica foi descrita na última edição da respeitada revista forense internacional Science and Justice.
A demanda era nova para o laboratório. O grupo se reuniu e buscou, na bibliografia especializada, apoio científico para a análise. Um dos trabalhos mais expressivos sobre o tema é o da cientista Krystyna Baniuk, publicado na Forensic Science International em 1990. Segundo ela, as cristas observadas em uma impressão sofrem uma redução de espessura com o passar do tempo, fenômeno que pode ser detectado com microscópio. O conjunto de cristas e sulcos é deixado por uma secreção da pele sobre o objeto tocado. Na palma das mãos e dos pés, está presente somente a secreção originária de glândulas sudoríparas. No restante do corpo, glândulas sebáceas também produzem um resíduo.
“Uma impressão digital é uma mistura de secreções, já que estamos constantemente levando a mão a diversos locais do corpo, como o rosto e o cabelo. É essa mistura que sofre alterações com o tempo”, explica Barros. As modificações contribuem para a diminuição registrada na largura das cristas. “Outra característica que analisamos foi o percentual de cristas visíveis. Elas se tornam menos nítidas e algumas desaparecem”, completa.
O trabalho da pesquisadora pioneira também abria a possibilidade de analisar a evolução de impressões digitais em laboratório, recriando as condições da cena do crime.
Com esses dados à disposição, a equipe da PCDF partiu para as análises. Novas impressões do suspeito foram colhidas e armazenadas em uma câmara climatizada, que replicava as condições ambientais encontradas no apartamento. Registros das mudanças nas características das digitais foram feitos diariamente. As marcas levadas ao laboratório foram, então, comparadas com a da impressão achada na cena do crime. Isso deu uma boa estimativa de quando aquela mão havia se apoiada no móvel – portanto, de quando o suspeito havia estado no apartamento onde os Villela foram mortos. Sem revelar qual foi o resultado da análise, Barros diz que o estudo foi muito bem-sucedido.

Na UnB A experiência positiva foi levada à academia. O especialista apresentou um estudo sistematizado dessa metodologia como dissertação de mestrado na Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília em março. Para isso, precisou repetir os experimentos, com uma nova equipe, formada pelas pesquisadoras Bruna Faria e Selma Kuckelhaus, que também assinam o artigo publicado na Science and Justice.
Vinte voluntários, sendo 10 mulheres e 10 homens, permitiram que suas impressões digitais fossem colhidas. O material foi, em seguida, mantido sob condições ambientais controladas. Um estudo morfométrico foi realizado nas marcas, utilizando um pó magnético que torna os detalhes mais visíveis, em sete diferentes intervalos de tempo após deposição: zero, cinco, 10, 15, 20, 25 e 30 dias. As avaliações consideraram um número de 60 cristas para cada digital.
“Em um período de 30 dias pudemos observar diferenças bastante significativas. Os atributos de largura das cristas e o percentual de cristas visíveis tornam possível fazer uma estimativa de quando foram depositados os vestígios”, afirma Barros.

Condições certas O especialista técnico Nadiel Dias, diretor adjunto do Instituto de Identificação da PCDF, ressalta que essa técnica não pode ser usada em todos os casos. Uma impressão digital encontrada no teto de um veículo, por exemplo, não é passível dessa metodologia, já que ela pode sumir em pouquíssimo tempo, dependendo da temperatura do local e a que condições foi exposta.
Para desenvolver esse tipo de trabalho, as condições e o local em que os vestígios foram encontrados precisam ser reproduzidos em laboratório. “O ambiente precisa dar boas condições. Se houver um local totalmente exposto ao sol, ele não é passível de ser reproduzido”, exemplifica Dias.
Geralmente, um ambiente interno protegido da chuva e da incidência direta do sol é o ideal para essa análise. “Se fizermos um experimento desse na Polônia, por exemplo, as condições são outras, porque, no frio, a bactéria que atua nesse processo não se reproduz da mesma forma. Tudo influencia, por isso deve sempre ser feito um novo experimento, no qual são reproduzidas as condições do local onde foi cometido o delito”, conclui o pesquisador. 

Ruas de junho e ironias da história

Vinícius De Bragança Müller e Oliveira

Professor de história econômica do Instituto de Ensino e Pesquisas (Insper)

Estado de Minas: 19/09/2013



Encontrar a medida certa entre a análise eventual, fruto do curto prazo e tomada por preferências e simpatias pessoais, e a análise estrutural, de prazo alongado, amparada em rigor científico e leitura cuidadosa, é uma das mais difíceis tarefas daqueles que pensam com o mínimo de profundidade os caminhos tomados pela sociedade.

As manifestações de junho que incendiaram o país são exemplos de tal dificuldade, dada a eventual adesão de parcelas da população que, a princípio, não deveriam reclamar da conjuntura; afinal, “nunca antes neste país” tivemos tantos motivos para comemorar: ascensão das classes E, D e C, Copa do Mundo e Olimpíadas no horizonte próximo, taxas de desemprego controladas e tudo isso patrocinado por um governo cujo representante maior é oriundo das classes populares, invertendo séculos de domínio da elite corrupta e encastelada na desigualdade que
a beneficia.

Pensei nisso após ouvir meu pai, logo no início das manifestações, indagar sobre os reais motivos de tanta gritaria, já que, segundo ele, não tínhamos uma crise econômica nem um governo autoritário. Indagação típica de quem viveu e lutou contra o governo militar nos anos 70 e enfrentou a hiperinflação dos anos 80.

Em ao menos três situações durante os últimos 100 anos o país viveu momentos de euforia seguida de depressão. As três estiveram historicamente ligadas a líderes de alta popularidade e fortemente personalistas: Vargas, Juscelino e Lula. Cada um promovendo, ao seu modo, a ascensão de grupos sociais escolhidos para serem os símbolos da prosperidade que caracterizaria seus respectivos governos.

A ascensão dos operários e de suas organizações sindicais marcou o governo de Vargas e foi garantida pela ampliação dos direitos políticos e sociais entre a população urbana. Tais direitos, etapas de construção do mundo ocidental pós-iluminista, tiveram no Brasil que se industrializava campo fértil, mas foi limitado pelo autoritarismo de uma das ditaduras mais ferozes que já tivemos. Quando, já nos anos 50, Vargas retomou seu projeto em ambiente democrático, seu governo terminou em uma das maiores crises políticas da história recente, culminando no suicídio de agosto de 1954.

Juscelino, por sua vez, escolheu a classe média como símbolo de seu governo, amparado como estava pela ascensão dos trabalhadores promovida por Vargas. Em outras palavras, o operário beneficiado pela política varguista transformava-se, nos anos de JK, em classe média urbana. Isso em meio ao auge dos debates ligados à Guerra Fria e, portanto, fortemente influenciado pelo que ditavam os EUA. À classe média alta, automóveis; à classe média baixa, eletrodomésticos. Juscelino foi um dos mais populares presidentes da história do Brasil, mesmo que tenha deixado as contas públicas arrasadas e não tenha conseguido eleger seu sucessor.

Já Lula, beneficiado pela melhoria institucional dos anos que o antecederam e pela favorável conjuntura econômica internacional, apostou coerentemente na ascensão das classes E, D e C como símbolo de seu governo. Desdenhou qualquer tipo de crítica que recebia como sendo manifestação da inveja que tinham os opositores de sua popularidade e garantiu que houvesse uma sensação, muitas vezes real, de melhoria de vida da população. Telefonia celular e outros eletrônicos invadiram a vida dos brasileiros, assim como cartões de crédito e financiamentos de automóveis a perder de vista. Elegeu sua sucessora, mas não ampliou significativamente os investimentos em saúde e educação. Em suma, andar de automóvel e falar ao celular, e não ser mais educado e saudável, são os símbolos da ascensão promovida por Lula. Por isso o cartaz que vi em uma das manifestações “queremos hospitais e escolas padrão FIFA” representa o limite dessa ascensão.

Vargas, Juscelino e Lula fazem parte da mesma trajetória, mas deixaram heranças muito diversas. Longe do alarmismo, é ínfima a chance de termos o desfecho trágico como nas duas primeiras ocasiões. Contudo, isso não ocorrerá pela eficiência dos governos Lula e Dilma, e sim pela solidez institucional que, por ironia da história, foi o legado do governo anterior ao de Lula. Aquela mesma, a chamada “herança maldita”. 

ESPIONAGEM » Desconfiança com adiamento de visita Renata Tranches

Estado de MInas: 19/09/2013 



Brasília – Tratada nos últimos anos como uma parceria que amadureceu, a relação entre Brasil e Estados Unidos entrou em prova de fogo após a decisão da presidente, Dilma Rousseff, de adiar a visita de Estado a Washington, programada para outubro. O governo brasileiro concluiu que não há clima para o compromisso depois de considerar insatisfatórias as explicações da Casa Branca sobre as denúncias de espionagem no Brasil. Jornais internacionais alertaram que a medida representa um revés para o relacionamento dos países. Analistas consultados pelo Estado de Minas afirmam que a atitude de Dilma não muda nada na agenda dos dois países, enquanto o equilíbrio for mantido, mas que a situação criou um clima de desconfiança entre setores comerciais dos países.

O equilíbrio observado no tratamento ao tema, segundo o especialista da agência de análise de risco Eurasia Group (Nova York) João Augusto de Castro Neves, será fundamental a partir de agora para impedir uma deterioração nas relações. Uma tarefa que muito dependerá da presidente Dilma, que levará o assunto para seu discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU. A decisão da presidente, para ele, já levou em consideração esse equilíbrio ao usar a expressão "adiar" e não "cancelar" a visita — a primeira no segundo mandato de Obama. "É um grande desafio para ela. Pessoalmente, porque não quer afetar esse canal de negócios com os EUA, mas ao mesmo tempo tem de demonstrar altivez e autonomia ao público brasileiro, os eleitores", avaliou. O cientista político especialista nas relações entre Brasil e EUA da American University (Washington) Matthew Taylor diz que “os dois lados sabem que não há ganhos sensíveis em extrapolar na discordância" e que não convém levar esse embate às últimas consequências".

Para alguns jornais internacionais, a decisão significou um retrocesso nas relações entre os dois paíse que evoluíram nos últimos anos, como afirmou o Financial Times, graças ao investimento de capital político de Dilma e Obama. O New York Times, por sua vez, assinalou que a decisão "ameaça reverter anos de esforços de Washington para reconhecer o perfil crescente do Brasil no mundo em desenvolvimento e neutralizar a crescente influência da China".

Eduardo Almeida Reis-Democracia‏

Que culpa têm os vizinhos do governador para ter suas calçadas e suas ruas transformadas em praças de guerra?


Eduardo Almeida Reis

Estado de Minas: 19/09/2013 



Democracia

Setenta anos depois do Manifesto dos Mineiros, documento que honrou as melhores tradições de Minas Gerais, temos tido diversas manifestações de mineiros e de outros patrícios na maioria dos estados deste país grande e bobo. Muitas são democráticas, é certo, mas precisamos separar as que são realmente democráticas das outras, que já são maioria. É justo que o povo do Rio de Janeiro esteja farto dos desmandos do governador Sérgio Cabral Filho. Falei desmandos, quando poderia ter dito coisa muito pior. Daí a interditar o acesso ao apartamento em que o governador mora com a sua atual família, prejudicando a vida de centenas de vizinhos que não têm nada com os seus desmandos, vai uma grande distância. Que culpa têm os vizinhos do governador para ter suas calçadas e suas ruas transformadas em praças de guerra: gás lacrimogêneo, spray de pimenta, pedradas, pauladas, rojões, tiros com balas de borracha e mesmo com balas de metal? E o quebra-quebra nas imediações: agências bancárias, lojas comerciais, postes? 

Também é muito justo que os moradores nas margens de diversas rodovias federais e estaduais mineiras reivindiquem a construção de passarelas, que lhes permitam atravessar as pistas sem risco de atropelamento. Daí a interditar a rodovia por 10, 12 horas, por meia hora que seja, vai uma grande distância. As pessoas que estão passando por ali têm compromissos, horários, médicos marcados, conexões com aeroplanos. Não é justo nem democrático que percam seus compromissos comerciais, suas consultas médicas, suas conexões, porque os moradores de Congonhas, de Ewbanck da Câmara e de outras localidades reivindicam a construção de passarelas.


Chicana
Do francês chicane, nos melhores dos nossos dicionários chicana é “sutileza capciosa em questões judiciais” ou “dificuldade criada, no curso de um processo judicial, pela apresentação de um argumento com base num detalhe ou num ponto irrelevante”. É muito de espantar que um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), que não é flor que se cheire, fique ofendido quando um colega diz que ele está fazendo chicana em determinado julgamento, como de fato estava: é contumaz chicaneiro. Pelo menos cinco articulistas conhecidos criticaram o presidente do STF por ter dito que o colega fazia chicana. Eventuais virtudes nas biografias dos cinco, somadas, não chegam aos pés da história de vida do doutor Joaquim Benedito Barbosa Gomes. Papel e tinta custam dinheiro, cascalho, erva, capim. Pena que o capim seja gasto para veicular  asneiras dos tais cavalheiros: no episódio em tela, melhor fariam se pastassem a graminácea.

Confusão
A mídia tem feito confusão com as palavras companheiro e namorado. Aquele cavalheiro David Miranda, que em boa hora foi preso para averiguações no aeroporto de Londres, não é companheiro do advogado/jornalista que abastece o jornal The Guardian de informações roubadas pelo traidor Snowden: é namorado. Vivem juntos e se curtem, se adoram, se cheiram, se amam. Companheiros são Aloysio Mercadante e José Eduardo Cardozo no admirável ministério Rousseff, onde contam ainda com o notável companheiro Crivella, ministro da Pesca. Namorados são casais de homens, casais de mulheres e casais daqueles que se usavam no tempo de antigamente, compostos de homem e mulher. É claro, como também é lógico e evidente, que David, namorando o jornalista, participa de suas atividades profissionais. Não teria cabimento que o norte-americano, ao escrever suas matérias, vendasse os olhos e aplicasse fones de ouvido no seu amor, para não tomar conhecimento dos assuntos que veicula. Resumindo: não gosto de perder tempo com tolices. A gloriosa polícia britânica obrou muitíssimo bem. E tem mais uma coisa: nossa imprensa precisa parar de perder tempo com os brasileiros presos no exterior. Os brasileiros beiram 200 milhões de almas e a esmagadora maioria não é flor que se cheire. Portanto, detenções de nove horas para averiguações são legais e embasadas, como disseram os ingleses. Em rigor, o doutor David Miranda só interessa ao seu namorado. Que sejam felizes.

O mundo é uma bola
19 de setembro de 1356: João II de Valois, o Bom, rei da França, é capturado pelos ingleses na Batalha de Poitiers. Filho de Filipe VI da França, João casou-se aos 13 anos com Bona de Luxemburgo, filha de João, o Cego, rei da Boêmia, com quem teve nove filhos. João II foi um dos reis franceses mais envolvidos na fase inicial da Guerra dos Cem Anos contra a Inglaterra. Em 1559, uma tempestade mata 600 pessoas nos naufrágios de navios espanhóis ao largo de Tampa, Flórida. Em 1861, Oliveira (MG) é elevada à categoria de município pelo fato de contar com o distrito do Morro do Ferro, terra da família Romano. Em 1909, a Guarda Suíça do Vaticano volta a vestir-se nos conformes do Michelangelo estilista. Em 1956, lei autoriza Juscelino Kubitschek a transferir para Brasília a capital do Brasil. Em 1985, um terremoto de 8.1 na escala Richter mata 9,5 mil, fere 35 mil e deixa 100 mil desabrigados na Cidade do México. Foi “outro dia” e ainda tem gente que gosta de fazer turismo na capital mexicana. Hoje é o Dia do Teatro e do Ortopedista.

Ruminanças
“Não há nada mais fútil, mais falso, mais vão, nada mais necessário que o teatro” (Louis Jouvet, 1877-1951).