domingo, 5 de janeiro de 2014

PERFIL/MARCOS PIMENTEL » O homem do silêncio‏

PERFIL/MARCOS PIMENTEL » O homem do silêncio Obra autoral de documentarista chama a atenção em festivais no país e no exterior

Walter Sebastião
Estado de Minas: 05/01/2014


Marcos Pimentel, cineasta (Matheus Rocha/divulgação)
Marcos Pimentel, cineasta

Marcos Pimentel, de 36 anos, cruza o mundo com seus filmes. Formado em psicologia, comunicação social e cinema, com especialização na Alemanha, sua produção reúne 22 documentários rodados em uma década. Só no ano passado, o curta Sanã, filmado no Maranhão, recebeu prêmios na categoria Melhor direção em festivais e mostras realizados em Fortaleza (CE), Santos (SP) e Cabo Frio (RJ). Ele levou também o troféu concedido pela Associação Brasileira de Documentaristas de São Paulo no Festival É Tudo Verdade, além de menção honrosa do júri oficial.

“Fui me calando ao longo da vida. Dependia muito da palavra, hoje sou mais introspectivo e os filmes refletem isso. Acredito, cada vez mais, no silêncio e no poder das imagens”, afirma Marcos, ao definir Sopro, seu primeiro longa-metragem. A estreia ocorreu em abril, na mostra suíça Visions du Réel, um dos mais importantes festivais dedicados ao documentário.

Sopro foi exibido em mostras realizadas em Los Angeles (EUA), Montreal (Canadá), Nantes (França) e Bratislava (Eslováquia). O filme chamou a atenção também na Semana dos Realizadores (RJ), no Festival Primeiro Plano (Juiz de Fora) e no Festival del Nuevo Cine Latinoamericano, em Cuba.

Sons
A observação do diretor sobre o silêncio remete a aspecto que chama a atenção nos trabalhos recentes dele: suas obras dispensam diálogos e textos, mas não abre mão dos sons. Nos 73 minutos de Sopro, há apenas 90 segundos de diálogo. Pimentel põe na tela o dia a dia de uma comunidade isolada do mundo. “É um filme existencialista sobre a vida e a morte”, resume.

O longa foi rodado na região do Parque Estadual do Ibitipoca, na Zona da Mata mineira. “Devido à atmosfera de lugar remoto, teve gente jurando que as locações de Sopro ficam na Ásia. Mas é interior de Minas mesmo”, diverte-se o diretor. “Descobri-me como gente e aprendi a me relacionar com o mundo por meio do silêncio nas montanhas de Ibitipoca”, explica. Há anos ele visita o parque.

O cineasta trabalha em Juiz de Fora e em Belo Horizonte, mas passa pequenas temporadas em Havana, em Cuba. Desde 2009, leciona no departamento de documentários da Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños. Ele trabalha também em Cataguases, na Zona da Mata mineira: desde 2007, coordena a mostra de curtas Andorinha virtual do Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa.

Pimentel já filmou em vários países e recebeu convites para morar fora do Brasil, mas avisa: “Tenho atração pelas montanhas, pela terra e pessoas. Em Minas Gerais existe muita matéria-prima para filmes. Gosto do Rio e de São Paulo, mas a minha história é fugir desse eixo. Tendo aeroporto, correio, celular e internet, trabalha-se em qualquer lugar”, garante.

Cena de Sanã, filme rodado no Maranhão (Matheus Rocha/divulgação)
Cena de Sanã, filme rodado no Maranhão


Psicólogo das telas

Na adolescência e na juventude, Marcos Pimentel não pensava em uma profissão específica. Movido pela curiosidade sobre o comportamento humano, optou por psicologia. “O curso foi importante no sentido de despertar minha sensibilidade para a vida, além de me dar uma leitura do mundo e das pessoas”, conta.

Aluno do curso de comunicação social, ele teve contato com a produção audiovisual. Ao participar da equipe do cineasta José Sette, Marcos rodou um documentário como trabalho de faculdade. “Vi que era aquilo o que queria fazer”, conta. Depois, foi aluno dos documentaristas Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. Fez cursos em Cuba e especialização na Alemanha. “Aí, pensei: chega. Quero voltar para o Brasil e filmar. Não estou documentarista, sou documentarista”, explica, taxativo.

Sua obra se vale de diferentes modalidades de documentário – filme ensaio, gêneros híbridos com a ficção e cinema verdade, por exemplo. O mineiro admira realizadores como Eduardo Coutinho, Humberto Mauro e Sergei Dvortsevoy, diretor do Cazaquistão. Os prêmios e a participação em vários festivais lhe possibilitaram rodar um filme por ano.

“Gostaria de ter a certeza de que vou fazer o meu novo projeto. Não posso reclamar, mas não tenho segurança quanto à realização do próximo filme”, conta Marcos. Alguns de seus curtas estão disponíveis no site www.temperofilmes.com.


“Não preciso falar”

Por que o silêncio em seus filmes?
Eles nascem da vontade de dizer coisas. Meus documentários não partem de entrevistas, de perguntas ou conversas, mas procuram outras formas de comunicação que não a verbal. Sou introspectivo e trabalhar assim é uma forma de dizer sem precisar falar. Entrego-me ao jogo de olhares vindo do convívio com a situação. Faço cinema observacional, mais discreto e recatado – cinema de autor. Em cada fotograma, tem coisas íntimas. É um prazer dividir silêncios com o espectador.

Você dá aula de documentário. O que é essencial a esse gênero?
Documentário é uma forma de olhar para o mundo com atenção. Histórias que podem dar bons documentários existem em todo lugar, mas é preciso enxergá-las. Tento despertar nos alunos a sensibilidade para esses aspectos. Pessoalmente, gosto muito dos filmes que, a partir de coisas simples e banais, fazem-nos ver as coisas e o mundo de outra forma.

Como você vê o cinema brasileiro atual?
O mérito é, mesmo trabalhando com pouco orçamento, conseguir fazer algo que consegue chamar a atenção para o cinema pulsante que vem sendo feito no Brasil. Cada vez mais, há mostras em outros países dedicadas à nossa produção dos últimos 10 anos. Quer dizer: foram transpostas barreiras, e o cinema brasileiro chegou a festivais onde ele era raro.

Há estímulo para a atividade?
Temos editais e podíamos ter mais. Mesmo assim, com a mudança dos meios de produção, que jogou o orçamento dos filmes para baixo, há muita gente filmando no Brasil. Entretanto, poucos filmes chegam ao público, devido ao número reduzido de salas e ao fato de elas serem controladas pelas majors. O governo já colocou muito dinheiro na produção. Agora, poderia colocar mais na exibição, em salas voltadas para o conteúdo nacional.

EM DIA COM A PSICANÁLISE » O ano novo te espera‏

EM DIA COM A PSICANáLISE » O ano novo te espera
Regina Teixeira Costa
Estado de Minas: 05/01/2014



Mais um ano começou na quarta-feira e, como dizemos, é um novo ano. A contagem do tempo nos dá a possibilidade de controlar passado, presente e futuro, organizando com marcas a nossa vida. Marcas das construções que fizemos no vivido, do ido e do muito ou pouco que nele fizemos.

Agora mesmo, estava eu inaugurando a 16ª pasta anual de artigos e me emocionei com a noção do tempo que essa contagem me causou. Dezesseis anos de escrita neste jornal! Faz tempo que conquistei este espaço e nele coloquei tantas letras, palavras, frases, textos e ideias. É quase inacreditável visualizar tantas pastas com artigos de tantos domingos. E tantos leitores que escrevem, participam e também criticam (ainda bem).

A contagem do tempo nos organiza. São marcas necessárias para nos orientar e facilitar o entendimento de um real que poderia, sem isso, ser caótico. Imagine se não soubéssemos diferenciar o antes, o agora, o depois. Ficaríamos soltos no tempo e no espaço e nada ordenaria o tempo de uma vida, de uma gestação, as idades, a duração das coisas que vivemos. Seriam apenas dias e noites contínuas sem qualquer marca simbólica permitindo a nossa localização temporal.

Sim, serão novos dias, um novo tempo e talvez possamos inaugurar novidades. Um gesto novo, palavras novas dirigidas ao outro, novos comportamentos que nos façam melhores, mais gentis e mais polidos. Quem sabe aprendamos a conversar, sem brigar, sobre o que nos desagrada? Quem sabe realizaremos velhos planos? Quem sabe as apostas relançadas possam se concretizar?

Quando desejamos um feliz ano novo, desejamos a continuidade do que já é bom e algo mais além. Nesse além há espaço para alguma inauguração e, nela, nossa figura mais atenta, mais capaz, mais sensível para o novo que nos espera a cada repetição.

A cada volta ao mesmo, a cada despertar de mais um dia, sabemos da impossibilidade de não repetir, nossa estrutura nos engessa de algum modo. Mesmo assim, a cada dia é possível ver e entender por outros ângulos com o entusiasmo de algo de novo, mesmo que pequeno. Uma fagulha de novo no mesmo.

Parafraseando o filósofo Heráclito, ninguém se banha duas vezes com a mesma água do rio. Assim é o novo: está ali, latente, a ser descoberto. Depende de a pessoa fazer diferente, dar uma resposta diferente sem medo das retaliações do outro. Tememos o abandono e a rejeição. Eles podem vir, claro, há pessoas pouco democráticas, absolutistas e caprichosas que exigem satisfação de fonte alheia. Mesmo assim, seguir em frente com dignidade, mesmo tendo perdido algo, significa encarar a vida como ela é.

Disse Lacan que ninguém deve se culpar, senão por abandonar o seu desejo. O desejo é nosso guia, não se trata de capricho fútil, nem manha – é o sentido que se quer para a vida, decidida pelo próprio sujeito, que comanda o seu e não se deixa à sorte que o destino apresentará.

Ninguém ou nada tem valor caso sejamos reféns e aprisionados. A coisa mais preciosa é a pessoa se apropriar do desejo e priorizar as pequenas coisas que a farão satisfeita consigo mesma, equilibrando a disponibilidade ao outro e o que lhe é caro. Se você teme desagradar (ninguém é unanimidade), pode se enganar: o outro agradece por ter alguém decidido, lúcido e satisfeito a seu lado. Faça esta aposta – pelo resultado, virá a certeza do acerto. Mas, primeiro, a aposta. E é sem garantia... Embarque nessa e boa sorte!

Recomeçar com Drummond pode nos trazer a leveza da poesia. Diz ele, em “Receita de ano novo”: “Para ganhar um Ano Novo/ que mereça este nome,/ você, meu caro, tem de merecê-lo,/ tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,/ mas tente, experimente, consciente./ É dentro de você que o ano novo/ cochila e espera desde sempre”.

>>  reginacosta@uai.com.br

Eduardo Almeida Reis-Emoções‏

Emoções 
 
Com o emocional em frangalhos, o que significa dizer em pandarecos, o cavalheiro e a dama se desestruturam da cabeça aos pés

Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 05/01/2014




Ao contrário do que se possa imaginar, frangalho não é bela refeição em que se mistura frango e alho. Houaiss diz que a etimologia é controversa, enquanto Aurélio informa que vem de franger (latim frangere “quebrar, despedaçar, rasgar, esmagar, comprimir”) mais possivelmente “alho”. Faz sentido: franjo, tu franges, ele frange, verbo que significa franzir, como também quebrar, partir. Aulete vai com Houaiss e diz que a origem é obscura.

Noves fora etimologias, é impressionante a ação do emocional sobre as pessoas. Com o emocional em frangalhos, o que significa dizer em pandarecos, o cavalheiro e a dama se desestruturam da cabeça aos pés. Vosso philosopho, que era cavalheiro aparentemente normal, entrou o ano passado talqualmente Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) em 1889, quando se agarrou a um cavalo que viu açoitado numa praça e passou a escrever cartas em que se assinava Dionísio.

Como sabemos (depois de consultar a Wikipédia) Dionísio era o deus grego dos ciclos vitais, das festas, do vinho, da insânia e sobretudo da intoxicação que funde o bebedor com a deidade. É verdade que, antes disso, Nietzsche já usava um bigode maior que a soma das bigodeiras de Olívio Dutra e Luiz Eduardo Greenhalgh.

Com o emocional em pandarecos lá vou tocando na esperança de que as coisas melhorem. Otimista à beça e à bessa, fio que devem melhorar. Fio, minha gente: acreditar, confiar, esperar. O verbo fiar é puro latim e entrou no galego-português em 1009.

Estatísticas

Certos números, de tão esquisitos, fazem que a gente desconfie. Dou-lhes um exemplo publicado dia desses: “Taxas de homicídios dolosos por 100 mil habitantes em 2012”. Homicídio doloso é aquele em que há dolo. Em direito penal, dolo é a deliberação de violar a lei, por ação ou omissão, com pleno conhecimento da criminalidade do que se está fazendo. Em dúvida diante de palavra tão esquisita, a maioria dos televisivos pronuncia dôlo, mas é dólo e o crime é, aí sim, dolôso.

Na Alemanha a taxa é de 0,8, no Reino Unido é de 1 e na Venezuela é de 45,1: até aí, tudo bem. Em Portugal, segundo a mesma fonte, é de 1,2, e na Colômbia anda pelos 33,4: faz sentido. Em Nova York é de 4 e nos Estados Unidos fica em 4,1.

Boa notícia é que nas favelas cariocas com UPP o número anda pelos 8,7, contra 18 da cidade do Rio e 23,5 do estado do Rio. A taxa brasileira é de 24,3 e a sul-africana de 30,9. Espantosa, mesmo, foi a notícia de que na Argentina anda em 3,4, contra 4,1 dos Estados Unidos. Vai ver que os portenhos manobram seus homicídios dolosos (dolósos) na mesma calculadora usada para mentir sobre a inflação.

Leitores

Sem leitores não vive o cronista, mas é difícil agradar a gregos e troianos. De vez em quando um leitor se diz ofendido por qualquer observação do escriba e ameaça romper os laços leitorais. Dia desses foi divertido, porque o patrício me acusou de não falar mal do Aécio.

Ora, bolas, tenho mil e um motivos para não criticar o senador, e o primeiro deles é definitivo: meu avô e o avô dele foram amigos íntimos, fizeram política juntos durante anos. Fui nascido e criado numa família que vivia falando bem do Dr. Tristão da Cunha e do filho dele, Aécio Cunha, pai do senador Aécio Neves da Cunha.

Só aí teria motivos de sobra para não falar mal do neto do Dr. Tristão, mesmo que tivesse motivos. Não os tenho. Conheci pessoalmente o governador Aécio numa solenidade. Depois, almocei em palácio a convite do governador, porque faço parte de uma academia que foi recebida por ele: bom dia... boa tarde... como tem passado o senhor?

Havia charutos depois da sobremesa e do café. Fumei um. Muita gente fumou. Dei notícia do ágape nesta coluna. Convidado, fui barrado na guarita de acesso ao palácio. O cerimonial solucionou o problema, coisa normal num país grande e bobo. O convidado se engravata, toma um táxi e é barrado na guarita por um funcionário subalterno.

Vou mais longe: pelas relações familiais, acho que deveria ter sido convidado pelo governador Aécio para qualquer cargo no governo. Agradeceria e não aceitaria, porque gosto mesmo é de escrever para fora. Tenho dito.

O mundo é uma bola

5 de janeiro de 1785: dona Maria I, de Portugal, promulga alvará que proíbe a proliferação de indústrias no Brasil. Fez muito bem. Com as indústrias surgem a empáfia dos industriais e as federações, Fiesp, Fiemg, com seus presidentes que se julgam reis do mundo fazendo concorrência ao reinado de dona Maria I, a Louca.

Em 1825, Alexandre Dumas pai, com 23 anos, participou de seu primeiro duelo. Não se machucou seriamente, mas suas calças caíram durante a luta previamente ajustada.

Em 1867, primeiro trem urbano da América Latina: a Maxabomba do Recife. Em 1919, fundação do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, que teve a inscrição número 7 do Sr. Adolf Hitler.

Hoje é o Dia de Santo Eduardo.

Ruminanças

“A burrice tem a virtude da veracidade” (Nelson Rodrigues, 1912-1980).

O vírus que abalou o mundo moderno‏ - Bruna Sensêve

O vírus que abalou o mundo moderno 

Na década seguinte à descoberta do HIV, 10 milhões de pessoas foram diagnosticadas com Aids. Trinta anos depois, o micro-organismo ainda intriga médicos e cientistas 

Bruna Sensêve
Estado de Minas: 05/01/2014



Pouco mais de três décadas atrás, um surto de infecções oportunistas e de um tipo de câncer conhecido como sarcoma de Kaposi foi relatado em um pequeno número de homens homossexuais na Califórnia e em Nova York. As primeiras doenças são nomeadas oportunistas por se aproveitar da fraqueza do sistema imunológico do paciente para se instalar. A segunda é um tumor raro em indivíduos com as defesas do organismo íntegras, mas comum entre pacientes diagnosticados com a síndrome da imunodeficiência adquirida – ainda uma incógnita para os médicos da época. Em poucos anos, a enfermidade desconhecida tornou-se temida ao redor do mundo e amplamente conhecida pela breve sigla: Aids. Para mostrar a história da doença, o Estado de Minas inicia hoje uma série sobre o tema.

Segundo o infectologista e imunologista Esper Kallás, do Hospital Sírio-Libanês, assim que os primeiros casos da doença foram identificados, as vítimas chamaram a atenção por algumas características em comum. “A primeira delas é que a grande maioria era homem homossexual com doenças infecciosas características de pessoas que tinham deficiências graves no sistema de defesa, mas que eram previamente saudáveis”, descreve. A busca por essas convergências entre os diagnosticados com a misteriosa doença foi intensa até a descoberta de que havia um defeito na resposta imune celular desses pacientes. “Viram que uma célula do sistema de defesa conhecida como linfócito T CD4 estava muito baixa. Com essas características comuns, passaram a definir uma síndrome.”

O termo é usado para um conjunto de sinais e sintomas agrupados em torno de uma doença. “Chamaram de síndrome da imunodeficiência adquirida porque todas essas pessoas não tinham no passado qualquer histórico que evidenciasse essa deficiência no sistema de defesa”, explica Kallás. Pouco antes, em 1982, o problema foi temporariamente chamado de doença dos 5 H porque era diagnosticada em homossexuais, hemofílicos, haitianos, heroinômanos (usuários de heroína injetável) e hookers (nome em inglês dado aos profissionais do sexo).

HIV se espalha Em um ano, porém, uma epidemia heterossexual foi descrita na África Central, vitimando preferencialmente as mulheres. “Mal sabíamos na época que esse pequeno número de casos eclodiria em dezenas de milhões, resultando em uma das maiores pandemias dos tempos modernos”, diz Peter Piot, ex-diretor-executivo do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) e atual diretor da London School of Hygiene and Tropical Medicine, no Reino Unido. Em 1984, o início de uma disputa entre pesquisadores franceses e norte-americanos revelou, pela primeira vez, o agente causador do mal (veja Saiba Mais). O retrovírus mais tarde chamado de vírus da imunodeficiência humana (HIV) foi identificado em testes de diagnóstico da Aids adotados para proteger o fornecimento de sangue e apontar as pessoas infectadas.

“Foram adotadas medidas adicionais de prevenção, incluindo programas de redução de risco, aconselhamento e testagem, distribuição de preservativos e programas de troca de agulhas. No entanto, o HIV continuou a se espalhar, contaminando 10 milhões de pessoas na primeira década depois de sua identificação”, acrescenta Piot. A década seguinte foi marcada pela intensificação da epidemia em diversas áreas do mundo, como o cone sul africano, que inclui África do Sul, Angola, Moçambique, entre outras nações. Todos viram uma epidemia explosiva da infecção pelo HIV. Países da Ásia e da União Soviética também relataram um aumento expressivo da propagação do vírus.

Na década de 1990, áreas foram quase dizimadas, com drásticas quedas nas taxas de expectativa de vida. “Se antes chegavam aos 60 anos de idade ou mais, de repente esse índice foi reduzido para 30”, estima o médico Edgar Hamann, professor do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB). Segundo ele, muitos países, como Burundi, Malawi e Zimbábue, perderam boa parte da população. Alguns tiveram mais de 30% dos habitantes infectados. “Era uma situação-limite. O vírus atingiu as nações em ondas e o Brasil foi afetado logo na primeira delas, com os Estados Unidos e países da Europa.”

Surge o coquetel A corrida por uma terapia eficaz, capaz de frear essa avalanche acelerada de infectados, movimentou centenas de milhões de dólares, investidos na pesquisa científica e no desenvolvimento de medicamentos. No entanto, somente em 1996 a ciência apresentou uma resposta efetiva ao devastador inimigo. Sob a abreviação de Haart (em inglês) e a alcunha, no Brasil, de coquetel, a terapia antirretroviral altamente ativa impactou a qualidade de vida e aumentou o tempo de sobrevivência dos pacientes. O sucesso está na associação de um novo medicamento à época, o inibidor de protease. Nos poucos anos que se seguiram, foi possível notar uma queda significativa nos óbitos por Aids no mundo. Se em 1996 foram mais de 15 mil mortes no Brasil, já no ano seguinte o índice caiu para 12.078 e para 10.770 em 1998.

“Isso mudou a história da epidemia. Em vez de ser uma enfermidade que matava todo mundo, passou a ser uma doença controlada com os remédios”, define Esper Kallás. Segundo o infectologista, hoje, nos casos dos pacientes que fazem o tratamento adequado e seguem as orientações médicas, a Aids pode ser considerada um mal crônico controlável. “Mas, nos parâmetros de saúde pública, estamos longe de ter a doença sob controle porque tem muita gente ainda que não tem acesso ao remédio e que não o toma direito.” Para Kallás, apesar dos esforços, ainda é alto e crescente o número de óbitos por Aids no Brasil. De acordo com o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, foram 12.044 mortes pela doença em 2011. A taxa está entre as 10 mais altas desde o primeiro caso no país, em 1980.

Exército de defesa

Os linfócitos T ou células T pertencem a um grupo de glóbulos brancos do sangue e são os principais atores da imunidade. Contêm o receptor de células T que lhes permite uma grande variedade de reconhecimento a antígenos. Há vários subgrupos, entre eles os CD4+, que coordenam a defesa imunológica contra micro-organismos principalmente pela produção e pela liberação de substâncias chamadas citocinas. Na Aids, a destruição do CD4+ pelo vírus HIV dá início à deficiência imunológica.


Saiba mais

Disputa acadêmica

A autoria da descoberta do HIV é cercada de controvérsias entre dois grupos de cientistas. De um lado o de Luc Montagnier, do Instituto Pasteur, na França; e, do outro o de Robert Gallo, do National Cancer Institute, nos EUA. Ao surgirem os primeiros casos de Aids em São Francisco e Nova York, Gallo suspeitou que um retrovírus fosse o responsável pela infecção, mesma opinião de Montagnier. Os dois chegaram a trocar amostras dos experimentos. Gallo anunciou, em abril de 1984, que havia descoberto o vírus causador da Aids, que seria diferente do identificado pelos pesquisadores franceses. Depois, soube-se que Gallo trabalhava com uma amostra contaminada no laboratório de Montagnier, e, só anos depois, as duas instituições concordaram em dividir o mérito da descoberta. Ainda assim, o Prêmio Nobel de Medicina de 2008 foi dado aos cientistas franceses Luc Montagnier e Françoise Barre-Sinoussi pela descoberta do HIV.