domingo, 26 de janeiro de 2014

Em compasso de espera - Ailton Magioli

Em compasso de espera 
 
Novo filme da diretora Ana Carolina, A primeira missa ou tristes tropeços, enganos e urucum, coprodução luso-brasileira, já lançado em Lisboa, só deve estrear no Brasil em março ou abril 

Ailton Magioli
Estado de Minas: 26/01/2014


A primeira missa ou tristes tropeços, enganos e urucum foi rodado em estúdio que reproduz a mata atlântica, obra do artista Valdy Lopes JN (Renata Castelo Branco/Divulgação)
A primeira missa ou tristes tropeços, enganos e urucum foi rodado em estúdio que reproduz a mata atlântica, obra do artista Valdy Lopes JN
 A cineasta Ana Carolina constrói imagem exótica para falar da distribuição de seu mais recente filme no mercado brasileiro. “Estou com o meu caminhãozinho na fila de espera para carregamento.” A primeira missa ou tristes tropeços, enganos e urucum deverá chegar ao eixo Rio-São Paulo entre março e abril, depois de pré-estreia em Lisboa, Portugal, no fim de 2013.

Coprodução luso-brasileira com a participação de artistas portugueses (Beto Coville, Rui Unas, Marcantonio Del Carlo e Pedro Barreiro) e brasileiros (Fernanda Montenegro, Rita Lee, Alessandra Maestrini, Oscar Magrini), o filme da paulistana radicada no Rio é classificado por ela mesmo como “tragicomédia ácida”.

Inspirado no célebre quadro de Victor Meirelles (1832-1903), que retrata a primeira celebração religiosa em terras tupiniquins, o longa se desenvolve a partir de duas ações simultâneas, em que a diretora retrata o aspecto histórico da imagem romântica, do século 19, paralelamente à análise do cinema, hoje, no país.

 Desde que viu o quadro do pintor catarinense pela primeira vez, Ana Carolina diz ter sentido uma “vontade romântica de começar o Brasil de novo”. “Está muito esquisito”, analisa a realidade, admitindo que os brasileiros nos conhecemos muito pouco historicamente. “Escamoteamos tudo”, avalia a diretora, salientando que o longa, na verdade, é uma digressão, reflexão sobre o tema.

Ana Carolina sempre tenta fazer filmes sobre questões que a mobilizam. “Como é o país em que vivo? Não dá para postergar mais, essa é a questão que me mobiliza desde sempre”, garante. Há mais de uma década tentando filmar A primeira missa..., a diretora atribui a demora à complexidade do setor, que virou um “caminho de rato”.

“Mas isso se reflete em todas as áreas: navegação, ferrovia, tráfego, fronteira, desmatamento, contaminação das águas”, lista alguns dos problemas brasileiros, incluindo na relação o Porto de Paranaguá (PR), no qual estaria estacionado o tal caminhãozinho dela. Na opinião de Ana Carolina, no caso específico do cinema há até uma legislação própria, com engenharia e jurisprudência. “Mas o Brasil é deformado. Sempre fomos servidores de dois amos: servimos ao mercado e ao poder”, contesta.

CINEMA DE CICLOS Getúlio Vargas (1974), Mar de rosas (1978), Das tripas coração (1983), Sonho de valsa (1988), Amélia (1999) e Gregório de Mattos (2003) são os principais títulos da filmografia da diretora, que, durante um período, chegou a se dedicar à direção de óperas (Ariadne auf naxos, de 1988, e Salomé, de 2003), além de teatro (Fraldas da providência, de 1992).

“O cinema brasileiro vive de ciclos, que morrem claramente. Há sempre o recuar e o observar. Agora, por exemplo, é o ciclo do mercado. Ele é mutantis, o mesmo da pornochanchada dos anos 1970”, critica, acrescentando que o que dá dinheiro, atualmente, fica na vitrine. Nas poucas vezes em que teria ido ao cinema, nos últimos anos, Ana Carolina diz ter visto filmes interessantes como Central do Brasil, de Walter Salles; Durval Discos, de Ana Muylaert; Estômago, de Marcos Jorge; A música segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos, e, mais recentemente, Tatuagem, de Hilton Lacerda.

“Mas as coisas de que gosto não estão visíveis no momento”, desconversa, manifestando desejo de voltar a fazer ópera ou teatro, “que tenha comentário musical bom”. Cria da escola alemã, a diretora lembra ter tido boa formação musical desde a infância. Mas, como em sua opinião toda criação está obstruída no Brasil, “fica difícil reagir”. “Se você parar para pensar que Eleazar de Carvalho (1912-1996) foi mestre dos grandes maestros contemporâneos – Claudio Abbado (1933-2014), Zubin Meta e Seiji Ozawa – e morreu anônimo em São Paulo, lutando para ensaiar sua orquestra, fica difícil”, conclui, decepcionada.

DIGITAL Se já no roteiro do longa-metragem havia uma equipe tentando filmar a primeira missa no Brasil, por que não transportar a ação do longa para um estúdio, diante da crise econômica? Primeiro filme digital de Ana Carolina, A primeira missa no Brasil ou tristes tropeços, enganos e urucum reproduziu a exuberância da mata atlântica em pleno estúdio, como se fosse a costa da Bahia, graças ao trabalho do artista Valdy Lopes JN. “Ele entendeu muito bem o que queríamos e o resultado é lindo. Parece mata atlântica”, diz a diretora, que filmou o longa em apenas três semanas, em São Paulo.


TRÊS PERGUNTAS PARA...
. Ana Carolina
. cineasta

Que público você espera atingir com A primeira missa no Brasil ou tristes tropeços, enganos e urucum?
Tenho um público cativo ao longo de todos esses anos. A fatia acadêmica, dos 18 anos aos 30 anos, e a turma dos coroas, dos 40 aos 60.

Além do aspecto histórico, na trama você tece crítica ferrenha ao fazer cinematográfico brasileiro. Afinal, por que continuar fazendo cinema no Brasil?
Crítica é para viabilizar, não para destruir. Cinema é a coisa mais importante das nossas vidas.

Até que ponto a tecnologia digital, que você utiliza pela primeira vez, contribui para o desenvolvimento da sétima arte?
A sétima arte se alimenta também de tecnologia.

O ouro de Dhalia - Carlos Marcelo

Estado de Minas: 26/01/2014 



Heitor Dhalia não pensa em fazer comédias e diz que vai investir em filmes mais sofisticados (Paris Filmes/Divulgação)
Heitor Dhalia não pensa em fazer comédias e diz que vai investir em filmes mais sofisticados
 Quando Serra Pelada estreou nos cinemas, em outubro do ano passado, a expectativa dos produtores era atingir números grandiosos, acima de 1 milhão de espectadores. Não deu. Foram 800 mil. “Não foi o que eu esperava, mas não deixa de ser um número expressivo, ainda mais em uma época em que muitos filmes autorais têm fracassado loucamente ao chegar às salas”, contemporiza o diretor, Heitor Dhalia. Pernambucano radicado em São Paulo, Dhalia vinha de produções mais baratas e bem-sucedidas, como O cheiro do ralo (2006) e À deriva (2009). Enxergou em Serra Pelada, com custo estimado em R$ 10 milhões, o projeto ideal para o salto da barreira do milhão de ingressos.

Menos de seis meses depois da frustração, o cineasta saboreia os expressivos índices de audiência da exibição do longa-metragem em formato de minissérie de quatro capítulos na Rede Globo, superiores até às novelas da emissora. “Ser visto por 20 milhões de pessoas em uma noite mostra que as pessoas querem ver dramaturgia brasileira”, defende Dhalia, antes de comemorar: “Foi o que sempre desejei: o apelo popular, até porque boa parte dos espectadores nem sabia que houve uma Serra Pelada no Brasil”.

Para Heitor Dhalia, a decepção inicial, agora substituída pela satisfação (“acompanhei a reação dos telespectadores pelo Twitter e foi fantástica”), pode representar mais um ingrediente na necessária reflexão sobre a consolidação da monocultura do riso como única possibilidade de negócio lucrativo. “Acho que ficou evidente que o problema não está nos filmes ‘sérios’ e sim no modelo de distribuição: já temos um sintoma, mas precisamos conhecer melhor o problema”, aponta o diretor, antes de questionar: “A própria minissérie Amores roubados, uma produção ótima e que teve grande audiência na Globo. Será que, se fosse um filme, teria o mesmo retorno?”.

No seu longa-metragem, Dhalia reservou os principais papéis masculinos para nomes que despontaram no cinema autoral brasileiro antes de fazer novelas e séries – Juliano Cazarré (A concepção), Júlio Andrade (Cão sem dono), Wagner Moura (Tropa de elite), Matheus Nachtergaele (O auto da Compadecida), Jesuíta Barbosa (Tatuagem). Agora, a convite de José Alvarenga Jr., dirige para a Globo cinco episódios da série O caçador, com Cauã Reymond, assinados por Marçal Aquino (O invasor) e Fernando Bonassi (Um céu de estrelas), os mesmos de Força-tarefa. “O Brasil começou a olhar o que já acontece há algum tempo no cenário internacional: essa fusão de cinema e tevê me interessa”, admite.

Depois de reconhecer os dilemas de quem vivencia encruzilhada profissional, o cineasta de 42 anos projeta novas incursões na tevê como diretor contratado e o abandono de projetos cinematográficos que custam muito tempo e muito dinheiro. “No cinema, acho que vou percorrer o caminho oposto: tentar contar histórias mais sofisticadas, até mesmo faladas em inglês, porque tenho que respeitar a minha veia de autor.” E explorar o lucrativo filão do riso? “Fazer comédia para o mercado? Não rola, nem vou tentar. A não ser que seja como as do Scorsese, tipo O lobo de Wall Street: aí tem a ver comigo.”

Eduardo Almeida Reis-Turismo‏

Turismo 
 
O Brasil teria condições excepcionais para desenvolver a indústria do turismo se tivesse aeroportos e estradas decentes 
 
Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 26/01/2014




O ano começou mostrando a pujança e as perspectivas da indústria do turismo neste país grande e bobo: o trenzinho do Corcovado enguiçou no meio da mata. Duas horas de espera, no escuro, até chegar a composição que resgatou os turistas. Não havia lanternas, exceto as luzinhas de alguns celulares. Na véspera, as câmeras internas de dois hotéis de Copacabana filmaram duas senhoras e um cavalheiro roubando bagagens de hóspedes nas recepções. Horas mais tarde, uma das senhoras, de nacionalidade peruana, foi presa ao fazer compras com o cartão roubado de um hóspede. Aí entra o locutor da televisão para dizer que a polícia ainda procura os dois outros suspeitos. Ora, suspeitos somos nós, o leitor, o philosopho, Barack Obama e o papa Francisco: os dois filmados roubando pelas câmeras são ladrões. Pantanal, Chapada dos Veadeiros, Amazônia, praias maravilhosas – o Brasil teria condições excepcionais para desenvolver a indústria do turismo se tivesse aeroportos e estradas decentes, segurança pública, ferrovias, hotéis compatíveis com as posses das diversas categorias de viajantes e outras conveniências turísticas. Por enquanto, está difícil.

Pedágios

Sempre achei o pedágio a mais justa das taxas, pelo seguinte: só paga quem usa o trecho pedagiado. Em defesa de minha tese escrevi que o caboclo da Amazônia nunca viu as estradas do Sul e do Sudeste e nelas nunca vai transitar, mas paga 81% de impostos na compra de um maço de cigarros. Portanto, não deve ter seus impostos usados na construção, duplicação, policiamento e conservação das tais estradas. Temos agora a notícia de que há pedágios inventados pelos índios nas estradas federais que cortam as suas reservas. Em alguns pontos, di-lo a tevê, o “pedágio” chegaria aos R$ 120, quantia expressiva em qualquer país. Problema dos governos municipais, estaduais, federal, da Funai e do bispo, não meu, que índio é assunto complicado em nossa mídia impressa. Disseram-me que o total de nossas reservas indígenas beira o milhão de quilômetros quadrados. Há pouquíssimos países com mais de 1 milhão de quilômetros quadrados. A França tem 543.965 km2; a Alemanha, 349.223 km2; a Noruega, 323.287 km2; a Grécia, 131.657 km2; o Japão, 372.659 km2 e a Itália, onde se refugia o petista Henrique Pizzolato, 294.020 km2. A população atual de índios no Brasil, di-lo a Funai, por meio do Google, monta a 817 mil patrícios, representando 0,4% dos brasileiros. Pela atenção, muitíssimo obrigado.

Saudade
Que fim levou o verbo escangalhar? Tem 301 anos em nosso idioma e sumiu do mapa jornalístico escangalhado pelas besteiras inventadas de uns tempos a esta parte. Ao que tudo indica, o Plano Real foi escangalhado nos últimos anos. Tenho visto um sem conto de gente dizendo que inflação da ordem de 6% é tolerável. Não é! Também escangalharam com o PIB e o otimismo do brasileiro. Existe algo mais escangalhado do que as nossas estradas federais? O escangalho, substantivo masculino, do nosso sistema prisional é um assombro. E a segurança pública parece irremediavelmente escangalhada pelo número de homicídios maior que as mortes na Síria em guerra civil. Educação escangalhada. Sistema político escangalhado, mas deve melhorar se o professor Vanderley Luxemburgo da Silva, o Luxa, for eleito senador pelo estado de Tocantins, onde tem fazenda. Afinal, mesmo sendo um legítimo da Silva, o Luxa nunca foi alcaguete do Dops. O escangalhar tem ramificações universais para alcançar o fim do casamento do cantor Ricky Martin com o doutor Carlos Gonzáles Abella. Estavam juntos desde 2011 e a assessoria de imprensa do casal disse que o divórcio foi amigável. Enrique “Ricky” Martin Morales nasceu em Porto Rico, tem nacionalidade espanhola e dois filhos do tempo em que, à moda antiga, se relacionava com mulheres. Carlos Gonzálles Abella é corretor e tratava muito bem seus enteados, ajudando Ricky na educação dos filhos.

O mundo é uma bola

26 de janeiro de 1500: segundo a Wikipédia, Vicente Yáñez Pinzón se torna o primeiro europeu a conhecer o Brasil. Em 1531, um terremoto em Lisboa deve ter vitimado 30 mil pessoas. Gente à beça, considerando a população lisboeta daquela época, mas o terremoto famoso foi no tempo do marquês de Pombal, em 1755. Em 1564, foi concluído o Concílio de Trento estabelecendo a distinção entre o catolicismo e o protestantismo. Em 1641, na Guerra dos Segadores, a Generalitat de Catalunya, que havia estabelecido a República Catalã, obtém importante vitória militar na Batalha de Montjuic. Estamos falando da região onde atua o craque Neymar no time do Barcelona. A questão catalã continua longe de ser resolvida e já se passaram 373 anos desde a Guerra dos Segadores. Em 1654, os holandeses se rendem no Recife e se retiram definitivamente de Pernambuco. Definitivamente, em termos, porque até hoje há holandeses fazendo turismo em Pernambuco. Em 1788, o britânico Arthur Phillip, líder de um grupo de colonos ingleses, estabelece em Sydney o primeiro assentamento europeu na Oceania, evento que originou a comemoração do Dia da Austrália. Em 1905, encontrado na Mina Premier, África do Sul, o maior diamante do mundo: 3.106 quilates.

Ruminanças

“O meu ofício é dizer o que penso” (Voltaire, 1694-1778).

Collor, Bresser, Verão e fantasmas - Aquiles Leonardo Diniz

Collor, Bresser, Verão e fantasmas
Aquiles Leonardo Diniz

Vice-presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi)

Estado de Minas: 26/01/2014


A hipótese de tirar o amparo constitucional das leis que deram sustentação jurídica aos planos econômicos criados nas décadas de 1980 e 1990 para combater a inflação representa um risco sistêmico aos bancos públicos e privados e pode provocar grande turbulência na economia brasileira.

Quase 400 mil ações questionam a correção monetária e pedem ressarcimento por supostas perdas na caderneta de poupança, já que as medidas congelaram e tabelaram preços. As pessoas que entraram com ações individuais pedem que a correção seja feita com base na inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC). Entidades também ingressaram com ações coletivas (ações civis públicas), que podem beneficiar os poupadores que fazem parte dessas ações.

Caso seja votada, a mudança pode colocar em xeque marcos regulatórios importantes, com perda da segurança jurídica, e gerar descrédito internacional. Até mesmo o rating do crédito soberano brasileiro pode ser rebaixado, perdendo o país o tão sonhado “investment grade”. Com isso, o custo internacional aumenta e o dólar dispara, dificultando a captação de recursos, trazendo pressão inflacionária.

O prejuízo causado às instituições financeiras pode chegar a R$ 150 bilhões, segundo estimativa do Banco Central. O custo final, porém, com a adesão de novos poupadores animados com uma eventual vitória, pode chegar a R$ 600 bilhões. Com esse rombo, a oferta de crédito no país diminuiria em pelo menos nove vezes o valor perdido, cerca de R$ 5 trilhões, e, consequentemente, haveria a redução da atividade econômica e impacto no emprego e renda.

Até fevereiro, o cenário econômico brasileiro ficará em suspense, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) julgará os processos. Dependendo dessa decisão, reflexos econômicos negativos virão nas áreas fiscais e monetárias, tendo a mesma magnitude daquelas desencadeadas pelos mais violentos choques externos, podendo levar à insolvência instituições de porte.

Enfrentar ameaças à estabilidade da economia no presente e no futuro faz parte do jogo, mas buscar no passado uma crise desestabilizadora é desmoralizar a sociedade. Como constatou Pedro Malan, ministro da Fazenda do governo Fernando Henrique Cardoso: “No Brasil, até o passado é incerto”.

Caso os bancos sejam derrotados no julgamento sobre a correção, o governo pode ser levado a aumentar impostos ou criar novas contribuições, é o que adverte a Advocacia-Geral da União (AGU). Nesse contexto, a União terá que agir para garantir a estabilidade econômica, com a certeza de que os contribuintes terão que arcar com essa conta.
Em 2000, o Supremo Tribunal Federal determinou a correção dos saldos do FGTS em apenas dois planos e, depois daquela decisão, foi criada a multa de 10% desse fundo para os casos de demissões.