Especialista na obra de Carolina Maria de
Jesus, José Carlos Sebe Bom Meihy analisa o sucesso inicial e o
silenciamento atual em torno da literatura da escritora mineira, que
estaria completando 100 anos
Eduardo Assis Duarte
Estado de Minas: 17/05/2014
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| A escritora Carolina Maria de Jesus no ano seguinte ao lançamento de O quarto de despejo: diário de uma favelada
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O centenário de nascimento de Carolina
Maria de Jesus (1914-1977), mineira de Sacramento, no Triângulo
Mineiro, autora de Quarto de despejo: diário de uma favelada, tem
despertado interesse sobre a obra da escritora, injustamente relegada no
cânone da literatura brasileira. Descendente de escravos, Carolina
frequentou a escola apenas até o segundo ano primário. Trabalhou na
lavoura com a mãe e, como ela, foi empregada doméstica por muitos anos.
Em
São Paulo, vivendo na favela Canindé, às margens do Rio Tietê, Carolina
foi catadora de papel e escrevia suas histórias em folhas soltas,
enquanto criava seus três filhos. Por intermédio do jornalista Audálio
Dantas, publicou seu livro em 1960, com grande sucesso de público e
repercussão junto à crítica, à imprensa e outros escritores, entre eles
Clarice Lispector e Alberto Moravia, que prefaciou a edição italiana.
Quarto de despejo foi publicado em 13 línguas, em 40 países e rendeu à
autora perfis nas principais publicações internacionais. Carolina, no
entanto, nunca se adequou ao papel de escritora famosa. Morreu em
dificuldades financeiras, em 1977, aos 62 anos. Seus outros livros não
alcançaram a mesma repercussão.
Em sua visita à Faculdade de
Letras da UFMG, por ocasião do 6º Colóquio Mulheres em Letras, o
professor José Carlos Sebe Bom Meihy (Usp e Unigranrio), autor de
Cinderela negra – A saga de Carolina Maria de Jesus, em parceria com
Robert M. Levine (Editora da Uerj, 1994), proferiu a conferência de
abertura, na noite de 9 de abril, quando fez afirmações polêmicas. Além
disso, participou ativamente das discussões nas diversas mesas voltadas
para a escritora Carolina Maria de Jesus. Em entrevista aos
pesquisadores do Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade
(Neia), Bom Meihy retoma suas afirmações, analisa a importância da obra
da escritora, a relação com Audálio Dantas, o sentido político de sua
literatura frente à realidade brasileira do período, o sucesso de seu
principal livro e o silenciamento sobre as demais obras, o ostracismo
que encerrou os dias da escritora.
Eduardo de Assis Duarte – Poderia detalhar sua afirmação de que “Audálio [Dantas] matou a Carolina escritora”?
José
Carlos S. B. Meihy – Fora do contexto esta questão se mostra quase
panfletária. Diria, contudo, afirmativamente que sim: “Audálio Dantas
matou a Carolina (Maria de Jesus) escritora”. Mas isso demanda dizer
antes que foi ele quem criou Carolina Maria de Jesus, autora dos
fragmentos famosos contidos no Quarto de despejo: diário de uma
favelada, publicado em primeira edição na abertura da década de 1960.
Este foi um feito grandioso, pois, não fora ele, seria bastante difícil
supor que estaríamos agora falando dessa mulher singular.
Profissionalmente preocupado com a informação, o então jovem jornalista
revelou um achado: as páginas do diário, escrito em cadernos recolhidos
nas ruas, com anotações frequentes revelando os interiores de uma favela
e nela as agruras de segmentos de pobres na cidade de São Paulo. Desde
1954, com os eventos da celebração do “quarto centenário da cidade que
mais cresce no mundo”, a pobreza urbana deixava de ser tema periférico
na reflexão sociológica. A centralidade do assunto ganhava força no
ambiente da contracultura, que tinha a modernização urbana como ameaça
que colocava a vida do campo com a produção agrícola nacional numa
berlinda desafiadora. O testemunho de vítimas diretas desse processo, a
leva imensa de migrantes que buscava os grandes centros, por sua vez,
atestava a existência de um grupo até então invisível, mas ameaçador.
Esse quadro significava “notícia” e, assim, Audálio dimensionou um fato
caracterizado como “realidade”. Acontece que Carolina não era apenas
autora do surpreendente diário, não. Em sua concepção de “poeta” – como
Carolina se julgava –, ela produziu muito mais. Poemas, peças de teatro,
provérbios, contos e romances foram gêneros que, contudo, infelizmente,
foram eclipsados pela aceitação do Quarto de despejo. O brilho do livro
eclipsou os demais escritos da profícua escritora que ficou relegada a
autora do Quarto de despejo.
Gustavo Tanus e Pedro Henrique Souza
– O jornalista Audálio Dantas afirmou em entrevista ter tido a
pretensão de não deixar que a Cinderela Negra, que saíra da favela e
fora para o palácio, se perdesse. Haveria nessa tentativa de tutela
algum resquício do paternalismo de outros tempos? E qual foi o resultado
dessa “proteção” dada a Carolina?
Não creio que o esforço de
proteção empreendido por Audálio fosse algo próximo de algum
paternalismo. Objetivamente falando, temos que separar o produto
artístico de Carolina de sua vida prática. Ao jornalista interessava o
recorte da notícia e isto ele tinha conseguido com enorme sucesso. Em
termos de atenção ao resto da obra de Carolina, a ele pouco – ou nada –
interessava. Em termos humanos, como “descobridor”, profissional de um
mundo articulado e integrado, conhecedor do sistema, ele procurou ajudar
Carolina com instruções comportamentais. A pobre mulher saída da
favela, revelada da noite para o dia, transformada na pessoa mais
noticiada do país e vista pelo mundo, era alguém que sequer possuía
documentos de identidade. Como manejar o dinheiro? O que decidir sobre
convites que se amiudavam? Como lidar com a imprensa? E com os antigos
companheiros de infortúnio, que fazer? Juntando as duas pontas,
pergunta-se: até onde iriam as responsabilidades de Audálio? Por certo
há outros elementos que fermentam a questão: os direitos autorais, por
exemplo, mas neste território temos que ser prudentes e pensar tanto nas
questões éticas – afinal, quem é quem nessa relação? Dela ou dele seria
a autoria do livro? Quais os arranjos dos direitos autorais? Não seria
justo esquecer que Carolina era pessoa de temperamento difícil e isso
com certeza dificultou as relações de comando do jornalista. Não vejo
resquício e paternalismo, não.
Rafaela Pereira – No artigo
“Carolina Maria de Jesus: emblema do silêncio”, o senhor fala de um
silenciamento das obras da autora. Em sua opinião, qual foi o principal
elemento motivador desse silenciamento?
Primeiro veio o
surpreendente sucesso. O país nunca tinha visto nada igual. A opinião
pública estava tomada de assalto pelo fato novo: uma favelada tida como o
nome mais comentado do país, mexendo na ordem crítica da literatura e
produção cultural nacionais. Sua condição de alguém que com seus
escritos afrontava a norma culta e mesmo assim era acolhida como
escritora seria algo a ser conferido pela crítica literária. Diria que,
naturalmente, nos círculos conservadores, grassavam antipatias e
dúvidas. E nenhuma veio mais feroz e ácida do que a de Wilson Martins,
que, aliás, deixou seguidores como Marilene Felinto. O submundo da
crítica seria naturalmente um fator de silêncio. A força solar do
Quarto…, foi também uma espécie de “autoveneno”, pois mesmo os poucos e
ralos livros publicados da autora que se seguiram foram de pouco vigor,
apagados pelo primeiro. Pesou também, muito, o momento político que se
seguiu ao lançamento do Quarto de despejo. O advento da ditadura militar
intimidou qualquer divulgação que pudesse ser vista como "subversiva", e
a obra de Carolina o era. Não ousaria dizer que houve um (único) maior
motivo para tal silenciamento, creio que, mais que tudo, a combinação
desses aspectos com o desgaste natural da autora selaram o sucesso.
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Eduardo Assis Duarte é professor da UFMG. A entrevista foi feita com a
participação dos pesquisadores Gustavo Tanus, Pedro Henrique Souza,
Rafaela Pereira, Margarete Aparecida de Oliveira, Marcos Antônio
Alexandre, Aline Alves Arruda, que integram o Núcleo de Estudos
Interdisciplinares da Alteridade (Neia).
ENTREVISTA/JOSé CARLOS SEBE BOM MEIHY »
Corpo que padece
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| Depois do sucesso de seu livro de estreia, Carolina de Jesus escreveu outras obras, mas sem a mesma repercussão |
O
professor de Literatura José Carlos S. B. Meihy, autor de Cinderela
negra – A saga de Carolina Maria de Jesus, prossegue no diálogo com os
pesquisadores do Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade
(Neia). Entre os temas tratados estão a questão das biografias de
notáveis, o método da história oral, a recepção da obra de escritora e a
polêmica em torno da estética “rica” e “pobre”. Para Bom Meihy, há
espaço para se pensar nos saberes alheios, “na consistência dos
conhecimentos griôs e no direito de expressão de diversos segmentos”.
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| A romancista se tornou uma personagem de destaque na imprensa |
Margarete
Aparecida de Oliveira – Na sua opinião, quais as razões para a escolha
do diário Quarto de despejo para a publicação, dado que, naquele
momento, ela já havia produzido em outros gêneros? E qual o impacto
dessa decisão na recepção de Carolina Maria de Jesus como escritora?
José
Carlos S. B. Meihy – Sem dúvida a oportunidade jornalística foi o motor
principal para acionar a publicação e o sucesso do Quarto de despejo.
Mas não foi só isto. O conjunto de “entradas” foi arranjado de maneira a
revelar progressivamente as tensões dominantes. Sabe-se que as páginas
do diário seriam multiplicadas se não houvesse a tesoura editorial de
Audálio Dantas. Ainda que não fosse acrescentado nada, a articulação dos
fatos narrados revelava uma unidade que dava palco a uma mulher
admirável que, mesmo na pobreza, não declinou sua visão de mundo
dividida entre o drama e a poesia. Além do fato noticioso promovido por
Audálio, apesar das frações selecionadas, os fragmentos deixam
transparecer aspectos literários originais que faziam sentido, pelo
jornalismo social. Há ainda mais um aspecto a ser revelado em favor da
aceitação dos diários. Afora grande figuras do universo da política e da
cultura, tipos sempre masculinos, a produção literária brasileira
virava as costas às biografias e diários. No âmbito da contracultura,
porém, tivemos alguns diários – puxados pelo de Carolina – que vieram à
luz. Um deles foi O inferno é Deus, de Maura Lopes Cançado; outro, de
Walmir Ayala (em dois volumes) sob os títulos Difícil é o reino (1962) e
O visível amor (1963). Cabia nesse cenário a vida de loucos, pobres,
homossexuais. Com isso, garante-se que também o fato de ser um “gênero
novo” ajudou.
Gustavo Tanus e Pedro Henrique Souza – Em Cinderela
negra, podemos ler que o sucesso de Quarto de despejo teria a ver com a
rotina que se enfastiava em “biografias [...] de notáveis, de heróis
fantásticos e mágicos viajantes alienados de uma realidade brotada da
guerra fria e da aflição pelo progresso”. Que outras razões haveria para
o sucesso do livro? E o que motiva o ostracismo posterior?
A
situação que abrigou o Quarto de despejo era de renovação de tipos
sociais. O movimento negro, por exemplo, projetava nomes que se
notabilizaram como atores, cantores e, entre tantos, podemos citar:
Grande Otelo, Elza Soares, Elizete Cardoso, Noite Ilustrada, Lupcínio
Rodrigues, Zé Keti e Cartola; jogadores de futebol, como o estreante
Pelé ou os veteranos Didi e Garrincha; mães de santo, como Menininha do
Gantois e Mãe Stela, além do sociólogo Alberto Guerreiro Ramos e do
artista plástico Abdias do Nascimento, fundador do Teatro Experimental
do Negro (TEN). Não bastasse o movimento negro, figuras femininas também
alçavam voos importantes, como é o caso de Cecília Meirelles, Lygia
Fagundes Telles e estreantes como Clarice Lispector, Nélida Piñon.
Aliás, o “apagamento” imediatamente posterior pode também ser explicado
pela acomodação dos movimentos progressistas que insistiam nos modos
conservadores de permissão social.
Gustavo Tanus e Pedro Henrique
Souza – Poderia discorrer sobre o uso da história oral como metodologia
para a construção da biografia da autora, em contraposição às outras
formas de abordagem?
A história oral é um recurso novo, filha do
casamento das possibilidades de gravações com as modernas formas de
divulgação eletrônicas. Há quatro gêneros em história oral: temática,
testemunhal, tradição oral e história oral de vida. Esta última é ligada
à experiência existencial de pessoas e grupos e, neste sentido, se
aproxima da biografia. Outras formas de expressão dos “eus” narrativos
se distinguem pelas maneiras de composição dos relatos. No caso da
história oral de vida, vale-se mais do uso da memória de expressão oral
do que dos apoios documentais preexistentes ou que diretamente decorrem
da escrita. No caso da Cinderela negra, vali-me da história oral para
recriar o ambiente posterior à revelação do Quarto. Juntamente com um
conjunto de alunos, fomos atrás dos companheiros da aventura de
Carolina. Por meio de entrevistas, buscamos discutir aspectos capazes de
ajudar o debate em torno da autora e de sua obra mais conhecida.
Marcos
Antônio Alexandre – O corpo, enquanto instância de manutenção,
transmissão e inscrição de memórias pessoal e coletiva, se presentifica e
é personificado na obra de Carolina Maria de Jesus. Nesse sentido,
observamos que os textos da autora são travestidos por uma tessitura
corporal que ultrapassa as páginas de suas publicações. O senhor poderia
discorrer sobre a importância do corpo/palavra – visto aqui como
movimento, instituição e espaço de gestualidade e performatividade – na
construção literária da autora?
Impossível abordar a obra de
Carolina sem uma remissão direta ao uso do corpo. Tomemos como ponto de
partida duas manifestações do corpo. O corpo como obra que se expressa
nos escritos e o corpo matéria viva da escritora que perambulava pela
cidade. No primeiro caso, a forma da escrita – o tipo de letra e as
combinações de sílabas mostram um corpo consoante à sua obra, tem
originalidade distintiva: é um corpo, diferente, que escreve de seu
jeito pessoal e revela uma maneira de ser coerente com a obra deixada
naquele então. Em termos biológicos, temos a manifestação de um gênero,
mulher, mãe, que tinha desejos e se expressava por eles na escolha de
parceiros (sempre brancos, de preferência estrangeiros, pais de seus
filhos). Mas foi também um corpo que dançava, que padecia cansaço, que
dormia e se movimentava fazendo a conexão entre o corpo que escreve e o
que vive o motivo da escrita. No teatro de Carolina – e também em seus
contos e romances – as descrições do corpo e de suas presenças é
notável, mais facilmente reconhecido do que no diário que, afinal, era
dimensionado na solitude da casa, no silêncio possível da favela.
Eduardo de Assis Duarte – Por que somente o volume Quarto de despejo é encontrado nas livrarias?
Seria
fácil culpar apenas as editoras e distribuidoras pela carência de
livros “da” e “sobre” Carolina. Mas vejo algo a mais: uma combinação de
desprezo por uma obra de difícil análise e o comodismo em mexer na
crítica literária nacional. Inscrever a obra de Carolina Maria de Jesus
no plantel discursivo de nossa crítica demandaria mudar parâmetros,
relativizar critérios de seleção, admitir novidades que por seu turno
interferem em debates temáticos de demandas multidisciplinares –
racismo, feminismo, migração, composição familiar. Há, por outro ângulo,
uma cruel observação cabível como resposta para justificar o porquê do
exclusivismo do Quarto de despejo: a sensação de suficiência dada pela
recepção do livro. É como se disséssemos a nós mesmos: “Olha, já
levantamos problemas bastantes e o que temos como respostas ao Quarto já
nos basta”. Diria mais: se houvesse público, os livros estariam à
venda.
Margarete Aparecida de Oliveira – São conhecidos seus
esforços junto às editoras em favor da publicação de textos de Carolina
Maria de Jesus que não circulam, sobretudo os inéditos, mas parece que
tem encontrado dificuldades. Neste 2014 de homenagens pelo centenário,
alguma coisa mudou em relação à disposição do mercado editorial?
Seria
injusto dizer que nada mudou no agitado movimento de celebração dos 100
anos da Cinderela Negra. Pelo número de congressos e de eventos em
torno do nome de Carolina, diria que o processo de mudança da recepção
da obra dela já começou. E tomara que progrida, pois chega a ser
ofensivo pensar que um conjunto de escritos tão original e único
permaneça escondido do alcance geral. Cabe exaltar as editoras
universitárias para que prestem atenção em séries como esta e se
empenhem em cumprir o papel de valorizar autores que não têm merecido a
resposta comercial desejável. Intriga muito admitir que há mercado para o
consumo desses produtos. Não consigo entender, por exemplo, como o
movimento negro (com fundações de apoio), as feministas, os grupos de
estudos sobre migração e, com ênfase no caso específico do governo do
estado de Minas Gerais, não se assumem como patrocinadores de tão
valioso patrimônio. É verdade que há um alento: graças ao empenho de
alguns pesquisadores e do próprio Audálio Dantas, que recolheu e guardou
boa parte dos cadernos inéditos, hoje se pode dizer que a Fundação
Biblioteca Nacional coloca ao dispor boa parte do acervo geral da
Cinderela Negra. Mas há muito a ser feito. Nossa!...
Eduardo de
Assis Duarte – Afinal, o que se pode fazer para retirar Carolina Maria
de Jesus do “quarto de despejo” da literatura brasileira?
Tirar
Carolina do “quarto de despejo” da literatura brasileira implica em
primeiro lugar em mostrar que ela é muito mais do que simplesmente o que
se lê nas frações publicadas do diário. Na sequência caberia ver sua
obra completa publicada a preço e alcance acessíveis. Uma conveniente
campanha de esclarecimento sobre os critérios de leitura desse acervo
seria oportuna para abrir debates sobre temas como a pobreza, contrastes
sociais, papeis de gênero. Os estudos sobre a diversidade, por exemplo,
poderiam se beneficiar de leitores que teriam neste tipo de exercício
uma exemplificação boa. Mas eu diria que não seria suficiente tirar
Carolina do “quarto de despejo da literatura brasileira”. A sociologia, a
história, a antropologia e os demais estudos sobre urbanização, por
exemplo, poderiam ganhar bastante. E todos sairíamos mais ricos se os
pactos interdisciplinares ocorressem.
Aline Alves Arruda – Qual
importância o senhor vê na publicação dos romances inéditos de Carolina,
já que muitos consideram sua ficção “ingênua” ou “pobre” em relação à
estética?
Sob todos os pontos de vista, as publicações dos
romances de Carolina seriam convenientes. Entre todos os argumentos,
creio, o mais sensível seria pela própria originalidade dos romances.
Temos exemplos magníficos de literatos que escrevem “sobre” os pobres e a
pobreza. Mas onde estão os livros escritos pelos pobres? Onde? Chega de
ver as parcas manifestações sobre a literatura do “diferente” como
marginal. E também é preciso atualizar os conceitos de “ingênuos” ou
“pobres”. É lógico que se deve prezar a norma culta, mas vê-la em sua
unicidade hegemônica é simplificar a noção de cultura como um todo. E
isto tem desdobramentos políticos e no limite mexe com o papel das
escolas públicas e com o acesso de todos aos bancos escolares. É lógico
que há espaço também para se pensar nos saberes alheios, na consistência
dos conhecimentos griôs e no direito de expressão de diversos
segmentos. Tudo isto poderia ser discutido melhor, por exemplo, se
tivéssemos como filtro a obra de Carolina Maria de Jesus. Ademais, os
estudos sobre os romances poderiam abrir avenidas para pensar a emissão e
recepção, bem como as variações dos meios de produção de obras.