segunda-feira, 26 de maio de 2014

Inovação com restos de comida‏

Engenharia da UFMG e Methanum, empresa especializada em desenvolver tecnologias energéticas, criam plataforma que transforma resíduos de restaurante em biogás



Flávia Ayer
Estado de Minas: 26/05/2014





Em vez de irem para o lixo, restos de alimentos se transformam em biogás – biocombustível usado na produção de energia –, água e fertilizante na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A instituição de ensino abriga a primeira Plataforma de Metanização de Resíduos Orgânicos (pMethar) do Brasil. Desde dezembro, as sobras de comida do maior restaurante do câmpus Pampulha, o Setorial II, mais conhecido como Bandejão, seguem para a planta de tratamento. Diariamente, a unidade recebe cerca de 500 quilos de cascas de frutas, verduras, arroz, feijão, carne, entre outros alimentos. Em pouco tempo, a iniciativa inovadora conseguiu mostrar na prática que é possível reduzir a quantidade de resíduos enviada a locais como aterros sanitários e ainda gerar frutos. E já virou exemplo para municípios e empresas.

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), mais da metade (51,4%) de todo o lixo gerado no país é composto por matéria orgânica, sendo que apenas 1,6% recebe tratamento adequado. Uma das determinações do Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) é diminuir os resíduos orgânicos dispostos em aterros sanitários, e, dentro desse contexto, a plataforma é uma aliada. “Reduzimos a quantidade de orgânicos aterrada, diminuímos o impacto sobre o meio ambiente e ainda produzimos energia e outros subprodutos”, reforça o coordenador da pMethar, Carlos Chernicharo, professor associado do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMG.

Ao chegar à plataforma, os restos de comida vão para uma unidade de triagem, para a retirada de plásticos, metais, vidros e papéis que eventualmente estejam juntos. Depois de as sobras serem trituradas, há a adição de água. Essa mistura, que se assemelha a uma sopa, vai direto para o reator de metanização, também chamado de biodigestor. Nele, uma série de micro-organismos anaeróbios – entre eles os situados no estômago do boi – liberam enzimas e se alimentam desse substrato. O resultado é a produção de biogás, formado por gás carbônico, sulfeto de hidrogênio e, principalmente, metano. A propósito, o metano é o principal componente do gás natural usado como combustível em veículos. No lugar de carros, o biogás produzido na pMethar é usado num motor para a geração de energia elétrica e térmica. A metanização dos 500 quilos de resíduos orgânicos gera até 160 mil litros de biogás por dia e, agora, a equipe está levantando o potencial energético da plataforma.

“A intenção é usar a energia para a operação da plataforma e injetar o excedente na rede elétrica da Cemig, para diminuir a conta de luz da universidade”, diz Chernicharo, ressaltando que a pMethar não se encarrega de dar destino correto apenas ao subproduto biogás. Isso porque do biodigestor sai também um líquido com concentração de matéria orgânica aproveitado integralmente pela equipe da plataforma. A mistura segue para a unidade de separação de sólidos e líquidos, uma espécie de coador de café que separa a água do lodo biológico. O material sólido vai para um secador térmico, aquecido pela energia térmica produzida na própria unidade.

Nesse processo, o lodo é convertido em um biossólido que pode ser usado como fertilizante de solo. Já a destinação da água está ainda sendo definida pela equipe da pMethar. “Como essa água de reuso é rica em nitrogênio, pode ser usada para fertirrigação de áreas verdes no entorno da planta. Também podemos usar no abastecimento da unidade”, ressalta o professor.

TECNOLOGIA NACIONAL Orçada em  R$ 500 mil, a pMethar é uma iniciativa conjunta da Escola de Engenharia da UFMG e da Methanum, empresa especializada no desenvolvimento de tecnologias de valorização energética. “O tratamento de resíduos orgânicos em pequena escala com tecnologia nacional é muito inovador. Visitamos muitos países para desenvolver algo aplicável à realidade brasileira”, afirma a diretora de planejamento e gestão da Methanum, Tathiana Almeida Seraval. O estudo de viabilidade técnica da plataforma está em elaboração, mas a experiência já mostrou que esse é o caminho. “É claro que o custo não se compara ao de um aterro, mas a plataforma trata o resíduo de maneira adequada, atendendo ao PNRS, e ainda gera produtos de valor agregado”, reforça. A intenção é que a unidade sirva como exemplo para o tratamento descentralizado de resíduos sólidos orgânicos para municípios, outras universidades, empresas, entre outros.

“Já recebemos a visita de representantes de algumas prefeituras e de empresas”, afirma o professor Carlos Chernicharo, que reforça que o potencial da pMethar vai muito além de restaurantes e pode receber resíduos de centros de abastecimentos, sacolões, supermercados, entre outros. A implantação da plataforma contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapemig), da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) e do Ministério das Cidades. A pMethar foi a primeira unidade a se instalar no Quarteirão 10 do câmpus Pampulha da UFMG, destinado ao desenvolvimento de projetos voltados para as áreas de energias renováveis, tecnologias e construções sustentáveis. 

Pilares da saúde e da reforma urbana - Fábio Ribeiro Baião‏

Pilares da saúde e da reforma urbana
Fábio Ribeiro Baião

Coordenador da ortopedia do Hospital da Baleia, mestre em gestão social, educação e desenvolvimento local
Estado de Minas: 26/05/2014


Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), são sete os pilares para se manter a qualidade de vida com saúde e alcançar a longevidade: evitar o tabagismo, o etilismo, não ser obeso nem sedentário, manter sob controle a pressão arterial, o colesterol e a glicose. Porém, até estudos mais recentes pouco se sabia da exata ordem de importância dessas características em cada faixa etária, uma vez que o número possível de combinações é grande. Um interessante trabalho do Jornal Britânico de Medicina Esportiva publicado em maio, de autoria de Brown et Cols, deu à luz uma série de respostas para entendermos bem essas relações. Isso é muito importante, pois para cada faixa etária devemos eleger as prioridades.

O estudo envolveu 32.154 mulheres australianas, avaliando-se quatro das sete variáveis da OMS: sedentarismo, pressão alta, tabagismo e obesidade. O fato relevante encontrado foi destacar a inatividade física como o mais importante causador de doença cardíaca.

Isso pode causar uma mudança no foco das políticas de promoção de saúde, que devem dar a atenção que esse item de fato merece. Até então, o sedentarismo vinha na quarta ordem de prioridade, sendo a seguinte a sequência clássica de relevância: obesidade, tabagismo, pressão arterial alta e inatividade física. Agora, o sedentarismo vem como fator de risco número um, seguindo-se as demais como já ranqueadas.

Estudou-se a prevalência de cada fator de risco em cada uma das faixas etárias. Por exemplo, a incidência de fumantes entre os 22 a 27 anos foi de 28%, enquanto que na população de 73 a 78 anos foi de 5%. Por outro lado, a prevalência aumentou gradativamente de 48% para 81% para sedentarismo dos 22 aos 90 anos, e de menos de 5% para 47% para pressão alta. Já o sobrepeso incidiu em 46% nas mulheres de 20 a 27 anos, 79,2% entre 59 e 64 anos, e 62,4% de 85 a 90 anos.

Analisando os dados encontrou-se que o tabagismo é o fator mais importante para a doença cardíaca para a idade até 30 anos, com um fator de risco atribuível de 59% entre os fatores listados. Mas o seu percentual de contribuição na faixa de 73 a 78 anos passa a ser de apenas 5,3%, quando as outras variáveis se tornam mais relevantes. O risco atribuível à obesidade foi de 32,7% dos 31 aos 36 anos; e de 10,7% para pressão alta dos 56 aos 64 anos.

Constatou-se ainda que 47,2% das mulheres entre 22 e 27 anos declararam baixa ou nenhuma atividade física, elevando-se para 50,9% entre 31 e 36 anos até chegar a 23,5% entre 85 e 90 anos. Estima-se que se essa população realizasse atividades físicas de esforço moderado, regulares, de pelo menos 150 minutos por semana, pelos menos 2 mil vidas poderiam ter sido poupadas em tenra idade.

Em nosso meio, precisamos disseminar essa informação. Enquanto sociedade, precisamos assimilar que mudanças serão necessárias num futuro bem próximo na forma como vivemos nos hipercentros. Num esforço para construir cidades saudáveis, grandes metrópoles como Nova York e Londres já têm alterado suas vias urbanas em determinadas regiões, alargando passeios à custa das pistas de rolamento, priorizando as vias para os pedestres e ciclistas. Em muitas cidades, inclusive Belo Horizonte, aguarda-se matéria a ser votada pelo Legislativo municipal sobre o assunto nos próximos dias. As leis impedirão de se construir novos imóveis com mais de uma vaga de garagem para tentar conter no longo prazo o caos no trânsito e sedimentar novos valores de mobilidade urbana.

De quebra, se ganha saúde, possibilidade de se construir com acessibilidade – um desafio arquitetônico intransponível no atual modelo –, priorizar o transporte coletivo e contribuir para diminuir a poluição do ar que respiramos, outra importante fonte de adoecimento.

Legado da Copa na mobilidade urbana só beneficiará cidades sede

Legado só para anfitriões 

Capitais sem jogos receberam R$ 751,8 milhões para obras de mobilidade urbana desde 2011, enquanto destinos das partidas tiveram R$ 2,2 bilhões 

 
Paulo de Tarso Lyra
Estado de Minas: 26/05/2014

Aeroporto internacional de Fortaleza, capital que terá seis partidas da Copa: de R$ 5 bi do PAC 2 para 21 terminais, R$ 3,27 bi ficaram nas cidades-sede (Davi Pinheiro/REUTERS %u2013 13/4/14)
Aeroporto internacional de Fortaleza, capital que terá seis partidas da Copa: de R$ 5 bi do PAC 2 para 21 terminais, R$ 3,27 bi ficaram nas cidades-sede

Brasília
– Um dos argumentos para justificar a Copa do Mundo no Brasil, o legado da mobilidade urbana gerou uma divisão entre as 12 capitais que vão sediar os jogos e as 15 demais que assistirão só pela TV. As cidades que recepcionarão jogadores e turistas tiveram verbas específicas para o Mundial, prioridade quando os recursos eram distribuídos também a outros centros, e uma fiscalização mais rigorosa para que as obras pudessem ser entregues a tempo.

Apenas dentro da rubrica Copa do Mundo, o governo disponibilizou R$ 12,85 bilhões, divididos em PAC Copa, PAC Legado da Copa e Entorno das Arenas. Todas são obras apresentadas pelo governo federal à Fifa, responsável por organizar o evento. Nos projetos estão melhorias urbanas e viárias para ajudar o trajeto dos torcedores pelas cidades, do aeroporto até o estádio, além do conforto ao redor das arenas construídas para sediar as partidas.

Além dessa verba com carimbo específico, as capitais escolhidas como sede do Mundial de 2014 também acabaram entrando à frente na fila de prioridades quando foram analisados os recursos gerais do PAC Mobilidade Urbana. Lançado ainda no primeiro ano de mandato da presidente Dilma Rousseff, o programa reservou R$ 32,49 bilhões para investimentos em cidades com população acima dos 700 mil habitantes.

Para melhor organizar os trabalhos, elas foram divididas em três grupos. No primeiro, estão nada mais nada menos do que nove das 12 cidades-sede: Salvador, Fortaleza, Brasília, Belo Horizonte, Recife, Curitiba, Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo. No segundo grupo aparece Manaus, ao lado de outras cinco cidades, sendo três capitais (Goiânia, São Luís e Belém). E no terceiro, Natal, no mesmo bloco com outros seis municípios.


Em agosto de 2012, dois meses antes das eleições municipais, o Ministério das Cidades lançou o PAC Mobilidade Urbana para médias cidades. Para atender os 75 municípios com população entre 250 mil e 700 mil habitantes, foram reservados R$ 8,06 bilhões. Nesse grupo surge a única cidade-sede da Copa do Mundo não beneficiada no lote anterior de verbas: Cuiabá.

PRESSÃO Tudo parecia ir bem até que chegaram as manifestações de junho de 2013, às vésperas da Copa das Confederações, evento teste da Fifa. Milhares de brasileiros foram às ruas protestar contra os investimentos na Copa e pedir mais recursos para educação, saúde e saneamento. Em meio ao tumulto e em plena Copa das Confederações, a presidente Dilma convocou governadores e prefeitos de capitais para reunião de emergência no Palácio do Planalto. Além de anúncios gerais, como a defesa de um plebiscito para discutir reforma política, o anúncio da vinda dos cubanos para o Mais Médicos e dos recursos do pré-sal para educação, Dilma reservou R$ 50 bilhões para o Pacto pela Mobilidade, que buscava “melhor qualidade, menor tarifa e mais transparência nos gastos na área de transporte público”.
A tarefa de discutir os projetos foi dividida em grupos. O primeiro deles incluiu oito das 12 sedes e suas respectivas regiões metropolitanas: São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Cuiabá, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Fortaleza. Natal, Brasília e Manaus ficaram para uma segunda leva de capitais envolvidas no pacto.

DESIGUAL Quando se fala apenas de recursos do orçamento-geral da União, levantamento feito pela liderança do DEM no Senado junto ao Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi) mostra que, entre 2011 e 2014, as cidades-sede tiveram dotação orçamentária para obras de mobilidade urbana de R$ 2,2 bilhões, dos quais R$ 353 milhões foram efetivamente pagos. No caso das não sedes, foram destinados R$ 751,8 milhões e pagos apenas R$ 5,8 milhões. Mas todas as obras de mobilidade são, como destacou o secretário nacional de Transportes e Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades, Júlio Eduardo dos Santos, compostas de maneira tripartite: um terço de orçamento do governo federal, um terço de financiamento do BNDES e um terço de contrapartida de estados e municípios.

O disparate nas obras de mobilidade se repete nas reformas e ampliações dos aeroportos. O investimento total do PAC 2 em aeroportos, de responsabilidade da Infraero, foi de R$ 5 bilhões em 21 aeroportos, sendo R$ 3,27 bilhões destinados aos 12 terminais das capitais que terão jogos.

Pressa conforme o prazo de entrega


Brasília – O secretário nacional de Transportes e Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades, Júlio Eduardo dos Santos, afirmou que é um equívoco pensar que as obras de mobilidade urbana que estão sendo feitas ao longo dos últimos três anos são exclusivamente destinadas à Copa. Assim como a presidente Dilma Rousseff afirmou em relação aos aeroportos, Júlio disse que o legado para os brasileiros está garantido. “É como quando reformamos a casa para dar uma festa aos amigos. No dia seguinte, quando todos tiverem ido embora, a casa ainda estará lá para que nós possamos desfrutar”.

Júlio afirmou que a distribuição de recursos seguiu critérios populacionais e estratégicos. E também foram alavancados por juros subsidiados para facilitar o empréstimo. “Cada prefeito e governador teve que apresentar os projetos, sem os quais o dinheiro não seria disponibilizado. E este só é liberado à medida que as obras avançam em seu cronograma de execução”, assegurou.
O secretário admite, contudo, ser inevitável uma atenção maior às obras realizadas nas cidades que sediarão os jogos. “Qual a diferença entre elas e as demais, realizadas em outras cidades brasileiras? Que as primeiras têm uma data-limite para serem entregues (o início dos jogos). As demais têm um cronograma um pouco mais flexível”, completou.

PULVERIZAÇÃO Para o cientista político Leonardo Barreto, a análise de que uma parte das cidades sairá em vantagem por sediar os jogos da Copa, em comparação com as demais, é inevitável. Mas saiu em defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que quis que a Copa fosse realizada em 12 sede espalhadas pelas cinco regiões. “De certa maneira, isso desconcentrou os investimentos dos eixos normalmente beneficiados com recursos.” Já o cientista político da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo Rui Tavares Maluf considera ser impossível falar em legado nacional em um país das dimensões do Brasil. “Minha maior preocupação é se, de fato, as obras nas cidades-sede ficarão prontas após a realização do Mundial”. (PTL)

À espera de uma surpresa - Renato Janine Ribeiro



À espera de uma surpresa

Por Renato Janine Ribeiro
A campanha parece estar chegando a uma certa estabilidade na instabilidade, que dificilmente sofrerá mudanças sensíveis antes de começar - depois da Copa - o período que os pernambucanos chamam de "guia eleitoral", isto é, a propaganda na TV e no rádio. A não ser que haja um imprevisto enorme - e o problema é que estamos vulneráveis a surpresas.
O que sabemos: que Dilma Rousseff está perto de ser reeleita no primeiro turno ou de ficar para o segundo - isto é: tudo é possível, tudo está por um fio. Aécio Neves pode ganhar, se chegar ao segundo turno e conseguir a transferência dos votos de Eduardo Campos. Ou seja, o quadro só se definirá perto das eleições. Mas há um dado difícil de mudar: Eduardo não se diferenciou de Aécio. Ele se portará como um coadjuvante na eleição, salvo uma reação enérgica, que está tentando mas até agora sem êxito. PT e PSDB conseguiram marcá-lo na oposição. Os petistas o atacam, os tucanos o acolhem, mas o efeito é o mesmo: ele aparece como um sócio menor do projeto tucano. Essa situação é letal para a "terceira via". Marina Silva não teria deixado as coisas chegarem a esse ponto. Essa situação da terceira via ficar em terceiro lugar não parece fácil de alterar.
Nosso eleitorado se divide em três grupos, de tamanho próximo: um terço gordo (algo acima de 33%), que é o eleitorado seguro do PT, outro, que prefere os dois candidatos de oposição, e um "terceiro terço", que por ora não se decidiu. Esses números sobem e descem com as pesquisas, mas, descontando o impacto efêmero das circunstâncias, a realidade é essa disputa entre PT e anti-PT, a ser decidida pelos que mudam de opinião. Quem resolve nossas eleições mais disputadas não são os petistas roxos ou tucanos até embaixo d'água: são os menos animados, indecisos, inconfiáveis. Isso é bom, porque servem de termômetro para as políticas, punindo as desastradas e recompensando as felizes. Uma democracia precisa de indecisos.
Nossa política em seu momento mais vulnerável
O melhor cenário para Dilma é a vitória no primeiro turno. Não só pela razão óbvia (quanto mais cedo, melhor), mas porque seu pesadelo é perder no segundo turno, se não conseguir votos a seu favor entre os eleitores dos candidatos descartados. O melhor cenário para Aécio e Eduardo é a soma deles superar a votação dela: um deles a enfrentaria no final de outubro e o outro acumularia méritos para ter participação em seu governo.
O melhor discurso para Dilma é a ênfase nos êxitos petistas em matéria social, para Aécio é a insistência tucana nas falhas que vê na política econômica. Mas aqui a coisa se complica.
Os oposicionistas têm preferido falar a empresários - o que mereceu a crítica desse agudo observador da cena política que é Cesar Maia, lembrando que o capital não dá votos e até gera antipatia no povo; melhor fariam os dois se subissem os morros, se falassem a quem vota. (É só na eleição que todos somos iguais).
Aécio e Eduardo buscam os patrões para arrecadar fundos, mas assim expõem o flanco à crítica de descuidarem do social e de prepararem uma política, usemos o que na América Latina é um palavrão, "neoliberal". Uma eleição tem vários turnos, dos quais só o primeiro e o segundo estão na lei e têm data; durante o mandato, haverá um terceiro turno durando mais de três anos, em que capital e movimentos sociais pressionarão o eleito para atender a suas reivindicações; mas, antes disso tudo, há um "turno zero", quando as forças se reúnem, se montam as coligações, se consegue dinheiro. A chance de Aécio e Eduardo está em fecharem logo o turno zero, obtendo apoios empresariais, e aí partirem para o povão. Frequentar as elites tem "deadline" e seus rastros devem sumir antes da hora decisiva, de disputar o um-homem-um-voto.
Neste quadro, o que esperar? Não deve haver grandes mudanças nos próximos meses, salvo um incidente sério, uma surpresa na Copa ou fora dela. Mas a verdade é que estamos à mercê de surpresas. O clima político e social está tão carregado que uma fagulha pode ter efeitos devastadores - ou não. E o Brasil é um país que muda de repente. Somos mais sujeitos ao aleatório do que sociedades de perfil social e político mais rígido. Faz um ano, a violência de alguns manifestantes do Passe Livre ia voltando a população contra eles, até que a violência - em escala industrial - da polícia paulista provocou um repúdio generalizado e, em reação, o apoio às manifestações. Não fosse a sangrenta ação policial, tudo seria diferente. A truculência policial mudou o país.
Por que chegamos a um equilíbrio social e político tão vulnerável? O Brasil mudou muito em 20 anos. As privatizações de FHC transferiram a propriedade de 30% do PIB, segundo Chico de Oliveira. A inclusão social promovida pelo PT fez um quarto da população sair da grande pobreza, além de beneficiar outras classes. Nem as medidas econômicas de FHC, nem as sociais dos governos petistas, agradaram a todos. Nossa sociedade se rachou em torno não de duas interpretações dos mesmos fatos, mas do próprio relato que direita e esquerda fazem do que julgam ser a realidade factual. Perdemos a ideia de um conjunto de fatos que todos reconhecem como reais. Estamos perdendo a noção de realidade. Vivemos só com interpretações, que se expandiram a ponto de engolir o mundo real. A direita não quer nem escutar os dados sobre a inclusão social, a esquerda não quer nem ouvir a perda do apelo político do PT à sociedade. Nesta situação, ficamos à mercê de qualquer coisa. Daí que vivamos estes momentos de protestos como perigo, como ameaça, que pode queimar até aqueles que os promovem.
Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. Escreve às segundas-feiras
E-mail: rjanine@usp.br

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