domingo, 28 de setembro de 2014

Eduardo Almeida Reis - Despertador

Aceitei um café no botequim da praça, agradeci a todos, porque sou muito educado, e peguei a estrada para o Rio


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 28/09/2014



Todo o município paulista de Araras tem hoje 112 mil habitantes. Há 40 anos, presumo que sua parte central, a cidade de Araras, tivesse uns 30 mil. Voltando de uma fazenda quase na divisa com o MS e sabendo que o grande escritor Nelson Palma Travassos desenvolvia um método de cria e recria de bovinos no interior de São Paulo, resolvi conhecer sua fazenda. Seriam duas horas da tarde quando me identifiquei como repórter do Globo e perguntei a um motorista de táxi, na praça principal de Araras, onde ficava a fazenda de Travassos. O paulista não sabia e foi perguntar aos colegas, que dormiam em seus táxis. Desconhecimento geral, quando alguém se lembrou do presidente da Câmara Municipal, que morava ali perto.

Acordado, o vereador veio ter à praça com a notícia de que jamais ouvira falar de Travassos e da fazenda de Travassos, mas o prefeito, que era do seu partido, naturalmente conheceria a famosa propriedade rural. Prefeito que demorou um pouco para chegar, porque também dormia e sua casa ficava mais longe da praça. Tinha vaga notícia de um escritor chamado Travassos, mas nunca soube que ele tivesse fazenda em Araras, fato confirmado pelo tabelião, que também fora acordado.

Não seria exagero dizer que meia cidade girava em torno do meu fusca: ararenses educadíssimos, ninguém conhecia a fazenda. Aceitei um café no botequim da praça, agradeci a todos, porque sou muito educado, e peguei a estrada para o Rio, aonde cheguei antes da meia-noite. Manhã seguinte fui aos alfarrábios e constatei que a fazenda de Travassos ficava em Araraquara, a centenas de quilômetros de Araras.

Cidades históricas
Escritor e juiz de Direito na comarca do Araxá, o mineiro Renato Zupo voltou a visitar Diamantina, cidade que fala ao coração da mineiridade. Deu notícia da visita numa revista em que escreve regularmente e contou que ao voltar do Arraial do Tejuco esteve com sua amiga chinesa, a sra. Huang, residente no Brasil há muitos anos.

Mostrou as fotos diamantinenses e perguntou à chinesa se conhecia Diamantina e as outras cidades históricas brasileiras, bem como se gostava de cidades e coisas antigas. Com aquele sorriso tímido das orientais, a senhora Huang respondeu: “Renato, nós chineses temos cinco mil anos de história. Isso para nós não é antigo”.

Ao ler a crônica escrita pelo magistrado, lembrei-me do dia em que fui conhecer Ouro Preto, em outubro de 1971, estreando um dos piores carros que já tive, talvez o pior, uma Rural Willys 4x4. Oficialmente fundada dia 8 de julho de 1711, Ouro Preto andaria na flor dos seus 260 aninhos. Circulando de carro no final da tarde, pude ver alguma coisa do Centro Histórico com seus prédios muito bonitos.

Recolhendo ao hotel em companhia da santa que me aturava, liguei o televisor no momento em que exibia o saudoso xá Mohammad Reza Pahlavi recebendo seus convidados pelos festejos comemorativos dos 2.500 anos da cidade de Persépolis. O espetáculo persa meio que anulou meu entusiasmo pela historicidade ouro-pretana, que hoje reconheço importantíssima em Minas e no Brasil, sobretudo por ter sido o berço de Ariane Silva de Oliveira Maia, mineirinha que trabalhou lá em casa mais de cinco anos e até hoje é minha amiga e leitora.

O mundo é uma bola

28 de setembro de 1066, início da Conquista Normanda da Inglaterra: Guilherme desembarca em solo inglês com 7.000 homens. Na verdade, se chamava Guillaume II de Normandie. Pelas costas era Guillaume, le Bâtard, filho ilegítimo de Roberto I da Normandia. Le Bâtard morreu em 1087, deixando nove filhos.

Em 1106, Henrique I da Inglaterra derrota seu irmão mais velho, Roberto II da Normandia, forçando-o a abdicar do seu ducado, que é incorporado à coroa inglesa. Então como sempre, o pessoal não alisava: onde já se viu derrotar irmão mais velho?.

Em 1394, eleição do antipapa Bento XIII, nascido Pedro Martinez de Luna (1328-1423), mais conhecido como papa Luna, antipapa de origem aragonesa eleito pelos cardeais de Avignon para suceder ao antipapa Clemente VII, durante o Grande Cisma do Ocidente.

Em 1524, João Rodrigues Caprilho é o primeiro europeu a desembarcar naquele que é atualmente o estado norte-americano da Califórnia. Em 1871, no Brasil, entra em vigor a Lei do Ventre Livre; em 1885, a Lei dos Sexagenários, com a libertação de todos os escravos maiores de 60 anos. Em 1905, publicada no Annalen der Physik a Teoria da Relatividade, de Albert Einstein. Em 1958, Karol Wojtyla, futuro papa João Paulo II, é nomeado bispo de Cracóvia. Em 1988, a China explode sua primeira bomba de nêutrons. Em 1992, aberto na Câmara dos Deputados o processo de impeachment de Fernando Affonso Collor de Mello, então casado com Rosane, a princesa do Canapi, expressão máxima da aristocracia canapiense, primeira-dama que deixou saudades até o dia 1º de janeiro de 2003, quando surgiu outra melhor. Em 1895, falecia o cientista francês Louis Pasteur. Hoje é o Dia Mundial Contra a Raiva.

Ruminanças

“Depois dos 40 anos a vida é um réquiem” (Melo Morais Filho, 1844-1919). 

MARTHA MEDEIROS - Diga-me o que vestes

Zero Hora 28/09/2014

Lembro-me de uma matéria interessante que li anos atrás na revista Elle: convidaram uma estudante e uma executiva para passar 24 horas com a roupa uma da outra. Explico: a estudante, que costumava se vestir de uma maneira sexy e irreverente, teve de se vestir com o que encontrou no closet da executiva, e esta, por sua vez, teve de abandonar seu estilo sóbrio e conservador para escolher peças no closet da estudante. Resultado: viraram outra mulher por um dia.

A estudante, que adorava decote, barriga de fora e sandália de salto alto, colocou pela primeira vez um terno escuro com camisa para dentro da calça e sapato fechado. A executiva, habituada aos tailleurs bem-comportados, encarou uma saia acima do joelho, top de alcinhas, sandália gladiadora e gargantilha com crucifixo. Conclusão delas: não dá para mudar nosso jeito de ser simplesmente trocando de roupa.

Em termos, em termos. As próprias protagonistas da reportagem adotaram uma postura completamente diferente na hora de se deixar fotografar e, mesmo que tenham sido orientadas pela produtora de moda, a verdade é que a roupa conduz nossa atitude, sim. A estudante, uma clone de Miley Cyrus sempre de mãos na cintura e ar provocante, cruzou os braços docemente quando colocou o terno. A executiva, que costumava ficar encolhida em seu trajes pastéis, jogou os cabelos para trás e encarou as lentes com um olhar sedutor, digno de quem se veste para matar. Lógico que a roupa pode despertar novas facetas de nossa personalidade.

Dormir com um pijamão apeluciado e dormir com uma lingerie de renda vermelha: tanto faz? Você de legging e tênis pela manhã, de jeans e jaqueta de couro à tarde, e à noite com um vestido justo decotado nas costas. Sim, é a mesma mulher, mas são três estados de espírito diferentes.

A roupa, subliminarmente, autoriza um determinado tipo de comportamento. Os homens se sentem mais confiantes quando estão de gravata, até seu jeito de caminhar se transforma. Já as mulheres sentem-se mais joviais quando estão de camiseta e mais sensuais quando estão de preto. Coloque um longo Versace numa freira e ela subitamente esquecerá da oração da Ave-Maria, empacará em “o Senhor é convosco” e, dali em diante se pegará, cantarolando algo da Beyoncé.

Cada pessoa deve vestir-se de acordo com o que é, e não com o que que gostaria de aparentar, mas não é pecado experimentar um personagem fora do habitual: desejar ser menos tímida, ou mais séria, ou um pouco excêntrica. É uma transformação que deve vir de dentro, mas o visual ajuda. Um botão a mais aberto na camisa pode operar milagres numa alma introvertida.

sábado, 27 de setembro de 2014

Sem aviso prévio - José Manoel Bertolote

Estado de Minas: 27/09/2014

O ator norte-americano Robin Williams sofria de depressão e tinha diagnóstico de mal de Parkinson, duas das grandes causas de suicídio no mundo, segundo estudo da OMS
 (MAJ. ENRIQUE VASQUES - 19/12/07)
O ator norte-americano Robin Williams sofria de depressão e tinha diagnóstico de mal de Parkinson, duas das grandes causas de suicídio no mundo, segundo estudo da OMS


A recente morte do ator norte-americano Robin Williams lança uma luz sobre o suicídio. Trata-se, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), de uma das quatro principais causas de morte no mundo. Existe uma crença de que há uma relação profunda entre suicídio e depressão, como parece ter sido o caso de Williams, segundo o que foi divulgado pela imprensa. Há, mas a depressão não é a única causa. O psiquiatra José Manoel Bertolote, autor do livro O suicídio e sua prevenção, traça um retrato do que é o suicídio e aponta as alternativas de tratamento para evitar o desfecho fatal.

A relação entre o suicídio e a depressão é, para muita gente, inclusive profissionais da saúde e da psicologia, de estreita correlação, quase sinônimos. Entretanto, na suicidologia, essa relação é conhecida como "paradoxo da depressão e suicídio". O que significa isso? Em primeiro lugar, temos que saber do que estamos falando. O que é depressão? O que é suicídio? Depressão é um termo ambíguo, que pode designar desde um estado emocional momentâneo e passageiro (a "fossa", uma "deprê", "dor de cotovelo") até doenças graves (como a melancolia, caracterizada por angústia e tristeza profundas), doenças estas que podem ter causas biológicas (como alterações hormonais ou de neurotransmissores), psicológicas (frustrações, decepções ou a "raiva dirigida a si mesmo") ou sociais (situações de humilhação, de desonra). Há casos em que as três ordens de fatores atuam, obviamente aumentado a gravidade do caso. Já o suicídio é uma das quatro principais formas de óbito (as demais são as causas naturais, os acidentes e os homicídios), definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma morte resultante de um ato executado voluntariamente por um indivíduo com a intenção de pôr fim à sua existência. E como se formula esse paradoxo? Segundo ele, há uma fortíssima correlação com a depressão, a qual, contudo não se verifica na realidade.

De onde vem esse paradoxo?

Podemos atribuir a origem desse paradoxo à diferença dos pontos de partida da clínica e da epidemiologia. Psiquiatras e psicólogos clínicos partem de populações de pessoas enfermas que chegaram aos seus cuidados, grande parte dos quais portadores de depressão. Já os epidemiologistas, bem como psiquiatras, psicólogos sociais e suicidólogos, partem da população geral. De qualquer modo, seja qual for a origem desse paradoxo, ele pode ser demonstrado a partir de algumas constatações.

O primeiro aspecto desse "paradoxo da depressão e suicídio" diz respeito à frequência desse dois fenômenos. As depressões constituem uma das mais frequentes formas de transtorno mental nos países industrializados, de alta ou média renda (entre os quais se encontra o Brasil). Um importante estudo recente (São Paulo Megacity, 2011) indicou que, dos entrevistados de uma amostra representativa dos adultos residentes na Região Metropolitana de São Paulo, 10% admitiram ter estado deprimidos no ano anterior. Não temos estudos comparativos realizados em outras cidades ou regiões do Brasil, porém, se projetarmos essa porcentagem para a população brasileira, teremos no mínimo uns 10 milhões de brasileiros deprimidos.

Já o suicídio, embora seja uma das principais causas de morte em todo o mundo, é um evento relativamente raro, medido não em termos de porcentagem (número de ocorrências por 100 pessoas), como a depressão, mas em número de casos por 100 mil pessoas. Em todo caso, o suicídio é um evento muito mais raro do que a depressão. Como comparação, no mesmo ano de 2011 houve, em todo o Brasil, pouco menos de 10 mil (9.852) casos de suicídio.

O segundo aspecto se refere ao sexo, ou gênero. Praticamente em todos os estudos epidemiológicos sobre transtornos mentais, realizados no Brasil ou no exterior, os transtornos depressivos são mais frequentes em mulheres do que em homens, numa proporção que varia de duas a quatro vezes, conforme o estudo. Ora, exatamente o contrário é revelado também pela maioria dos estudos epidemiológicos sobre o suicídio: em todas as partes do mundo onde isso foi estudado, o suicídio predomina em homens, também numa proporção de duas a cinco; a única exceção conhecida vem de certas regiões rurais da China, onde a taxa de suicídio feminina é levemente superior à masculina.
 
A realidade
Todavia, onde há fumaça deve haver (ou ter havido) fogo. E, se tanto se fala em associação entre suicídio e depressão, algo deve haver. E há. A maioria dos estudos científicos sobre a relação entre o suicídio e a depressão empregou e emprega o método da autópsia psicológica, que é um tipo de estudo retrospectivo que investiga, através de registros médicos e hospitalares do falecido e de entrevistas com seus familiares, amigos e colegas, a presença nele de algum tipo de transtorno ou doença mental. Trata-se de um método que, embora não totalmente isento de possíveis falhas, tem alta validade e fidedignidade, quando bem planejado e aplicado. É um tipo de estudo delicado, caro e que exige cuidadoso preparo de seus pesquisadores entrevistadores. Ademais, para que os dados de um mesmo estudo sejam comparáveis entre si, é preciso que o tempo entre o óbito e as entrevistas seja mais ou mesmo o mesmo. Em locais com baixa frequência de suicídio, isso se torna um óbice.

Em parte por esse motivo, os primeiros estudos que investigaram a relação entre suicídio e doenças mentais foram realizados na Europa, mais particularmente no Reino Unido, com poucos casos, e encontraram uma alta proporção (até 80%) de depressão nas populações estudadas. Esses dados confirmaram a impressão prévia dos psiquiatras clínicos e consolidaram a ideia de que realmente havia uma forte associação entre depressão e suicídio.

Contudo, à medida que o número de casos estudados aumentou e pesquisadores de outros países passaram a fazer mais estudos de autópsia psicológica, a proporção de casos de depressão entre pessoas que haviam se suicidado foi diminuindo. Em 2005 a OMS compilou todos os estudos de autópsia psicológica publicados em todo o mundo (mais de 16 mil casos) e constatou que, efetivamente, a depressão era o diagnóstico psiquiátrico mais frequentemente identificado em pessoas que haviam se suicidado. Não obstante, estava longe de ser encontrado na maioria dos casos: em pouco menos de apenas um terço (30%) das pessoas que haviam falecido por suicídio podia-se fazer o diagnóstico de alguma forma de depressão.

E o diagnóstico dos outros dois terços? Para surpresa de muitos (e satisfação de outros), o diagnóstico de alcoolismo foi o segundo mais frequentemente encontrado (em 18% dos casos), seguido pelo diagnóstico de esquizofrenia (em 14% dos casos). Juntos, a depressão, o alcoolismo e a esquizofrenia respondem por mais de 60% dos casos de suicídio.

Resta ainda quase um terço dos casos cujo diagnóstico se distribui entre diversas categorias, das quais a mais frequente é a de certos transtornos de personalidade que, embora sejam considerados transtornos mentais, não constituem exatamente uma doença mental.

É importante assinalar que em apenas cerca de 5% dos casos não foi possível fazer-se um diagnóstico retrospectivo de alguma forma de doença mental. Importante assinalar, ainda, que esse quadro geral foi observado tanto em estudos com populações de adultos e idosos quanto em estudos com suicídio de crianças e adolescentes.

Outras doenças

Além do peso da comorbidade - que, em medicina, designa a ocorrência concomitante de duas ou mais doenças na mesma pessoa, como hipertensão e diabetes em idosos, ou desnutrição e infecções em crianças -, existe a comorbidade com doenças físicas. Destas, as mais frequentemente associadas ao suicídio são aquelas crônicas, incuráveis, incapacitantes ou dolorosas, como certos cânceres, epilepsia, doença de Parkinson e doença de Alzheimer, em suas fases iniciais.

Voltando à questão do "paradoxo da depressão e suicídio", há outro elemento que contribui para mantê-lo, e que diz respeito ao fenômeno da comorbidade. Ocorre que depressão e alcoolismo têm uma elevada comorbidade e, quando as duas doenças estão presentes, o mais provável é que o diagnóstico de depressão seja registrado, em detrimento daquele do alcoolismo, o que inflaciona proporcionalmente o primeiro diagnóstico, reforçando, assim, a impressão inexata de uma associação mais forte entre depressão e suicídio.

Outro fator que contribui para dar a impressão de validade ao paradoxo decorre das tentativas de suicídio. Embora tanto o suicídio (óbito, logo mortalidade), quanto a tentativa de suicídio (morbidade) façam parte do processo suicida, são fenômenos bastante distintos em vários aspectos, não apenas em relação ao desfecho: morte no primeiro (logo, do campo da mortalidade) e sobrevivência no segundo (logo, da morbidade). O que acontece aqui é que as tentativas de suicídio - também associadas a quadros depressivos - são mais frequentes em mulheres jovens, que têm mais depressões que os homens.

A depressão está presente em cerca de 30% dos casos de suicídio. Recomendação da OMS é que pacientes com esse distúrbio sejam tratados pela rede básica de saúde e pelo Programa de Saúde da Família 


 (MARCOS SANTOS/USP IMAGENS
)
A depressão está presente em cerca de 30% dos casos de suicídio. Recomendação da OMS é que pacientes com esse distúrbio sejam tratados pela rede básica de saúde e pelo Programa de Saúde da Família


O que fazer?

Confirmada por inúmeros estudos e análises estatísticas, resta a evidência de que os transtornos mentais, em geral, e a depressão, o alcoolismo e a esquizofrenia, em particular, são dos mais importantes fatores de risco para o suicídio. Isso não que dizer, em absoluto, que o suicídio seja uma doença; é, tão somente, um desfecho possível de determinadas doenças, particularmente se estas não forem bem tratadas. Tampouco quer dizer que a depressão (ou o alcoolismo, ou a esquizofrenia) cause o suicídio; tão somente que é um fator predisponente ao suicídio.

Independentemente da magnitude e da robustez da associação entre depressão e suicídio, permanece o fato de que a depressão pode ser uma doença grave o suficiente para merecer atendimento médico e psicológico. A mais recente recomendação da OMS a esse respeito afirma que a depressão (assim como outros nove transtornos psiquiátricos, entre os quais o alcoolismo e a esquizofrenia) pode ser tratada em locais de cuidados não especializados, o que, no Brasil, corresponde à rede básica de saúde e ao Programa de Saúde da Família.
A população espera que as autoridades sanitárias federais, estaduais e municipais tomem as providências necessárias para que isso se torne uma realidade acessível a todos e a todas. Os benefícios serão notados não apenas na melhoria do estado da saúde, mas também na redução das taxas de suicídio.

Depois da depressão, o alcoolismo aparece em estudo da OMS como a segunda maior causa de suicídios. É preciso que as autoridades federais, estaduais e municipais de saúde estejam mais atentas aos fatores que levam uma pessoa a tirar a própria vida

 (MARCOS SANTOS/USP IMAGENS)
Depois da depressão, o alcoolismo aparece em estudo da OMS como a segunda maior causa de suicídios. É preciso que as autoridades federais, estaduais e municipais de saúde estejam mais atentas aos fatores que levam uma pessoa a tirar a própria vida


. José Manoel Bertolote é professor voluntário da Faculdade de Medicina de Botucatu, da
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e professor visitante do Instituto Australiano de Pesquisa e Prevenção do Suicídio - Griffith University, Brisbane, Austrália   

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Eduardo Almeida Reis - Arte fotográfica II

Cabeça inteira de peixe 'báltico', com olho e tudo%u2026 'Delicioso, incrível', informa o gourmet brasileiro. Sou mais o torresminho mineiro com cerveja belga


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas : 26/09/2014



Na edição de ontem, falei das mais de mil fotos que recebi de um casamento em castelo francês. Casamento em castelo francês varia do suprassumo do ridículo ao suprassumo do chiquê. Bom exemplo do primeiro foi o matrimônio do craque Ronaldo Fenômeno com La Cicarelli, união que durou dois meses. O casamento das mil e tantas fotos foi original, porque sacramentou união estável de mais de 15 anos, com direito a um filho de cinco aninhos presente à cerimônia, e teve por lá diversos parentes e amigos do philosopho.

Na falta de dinheiro para me casar em França, exigi no Rio cerimônia oficiada por um bispo. A recepção foi num bom apartamento, vizinho do Copacabana Palace, mais de 500 convidados obliterando os diversos cômodos com direito a padrinhos de fraque bebendo champanha sentados na mesa de pingue-pongue. O noivo de 28 anos, sem fraque, metido num peço a palavra cortado pelo Victor. Não é nada, não é nada, o peço a palavra pega bem à beça e à bessa. Fugi das latas amarradas ao para-choque traseiro, deixando o fusca de segunda mão estacionado na rua mais próxima. Lua de mel num alto de serra em Lambari, frio inenarrável, sexo de cabaninha, aquele em que o herói namora debaixo de quatro cobertores e um edredom.

Se entendi alguma coisa, o dispositivo que transmite mil fotos num átimo tem relação com um negócio chamado Rods via Dropbox. Você abre o treco e tem centenas, milhares de fotos do matrimônio na Borgonha, vê os vinhos, os queijos e só bota um defeito na cerimônia: o de não ter sido convidado. Se fosse, agradeceria e não iria: já passei da idade de andar de avião. Estou mais para sítio arqueológico do que para cidadão. No dia em que os arqueólogos me descobrirem, era uma vez um philosopho.

Ingesta
Texto chique é outro departamento. Escritores de meia-tigela recorreriam a outros títulos para este suelto em que trato do que foi ingerido e consumido pelo organismo. Prefiro ingesta, que é puro latim e pega bem à beça.

Linguicinhas, pururuquinhas, torresminhos, caldinhos – estes festivais de gastronomia são muito bonitos para movimentar o turismo em certas cidades, sem que tenham relação com a arte de bem comer. Comilão ou gourmand, aquele que come em quantidade, glutão, guloso, frequenta festivais; o verdadeiro gourmet, que aprecia e entende de boas mesas, de bons vinhos, que se regala com finos acepipes, vai ao melhor restaurante do mundo.

Ao contrário de Angra dos Reis, que tem 156 melhores casas, o planeta só tem um melhor restaurante, que no momento é o Noma. William Shakespeare, que morreu em abril de 1616 – por incrível coincidência um dia depois de Cervantes, mas há quem diga que foi no mesmo dia o passamento das duas expressões máximas das respectivas línguas – Shakespeare escreveu que havia algo de podre no Reino da Dinamarca. Claro que não se referia ao restaurante Noma, situado em Copenhague.

Você precisa fazer a reserva com cinco ou seis semanas, especificando cartões de crédito, garantias e confirmação 15 dias antes. No verão, quando o sol na Dinamarca se esconde por volta das 11 da noite, você vai jantar com dia claro encantado com a brigada e o passadio, antes de confirmar que o preço é salgado, mas não destoa dos cobrados pelos bons restaurantes da Europa e dos Estados Unidos.

O resto só vendo e comendo em Copenhague, como fez um empresário e gourmet brasileiro, velho amigo meu. Impressionou-me vivamente um dos pratos, que não como nem que me paguem 40 milhões de reais: cabeça inteira de peixe “báltico”, com olho e tudo, defumado na área externa do restaurante para ser destrinchado com as mãos. “Delicioso, incrível”, informa o gourmet brasileiro. Sou mais o torresminho mineiro com cerveja belga, mesmo sabendo que gosto não se discute.

O mundo é uma bola

26 de setembro de 1633: fundação da colônia inglesa de Windsor, o primeiro assentamento do estado americano de Connecticut, sinal de que o dia 26 de setembro foi pobre de eventos antes de 1633, pois a Wikipédia não fala de batalhas, eleições de papas e outros fatos de importância histórica.

Em 1907, independência da Nova Zelândia, país que estudei à beça e à bessa quando andei lendo sobre pecuária leiteira. Em 1909 – atenção, cinéfilos – fundação do Kino Pionier (Cine Pioneiro), por Albert Pitzke, na cidade alemã de Stettin, atualmente Szczcin, na Polônia, o mais antigo cinema do mundo. Em 1993, data gloriosa para a luso-brasilidade: entra em órbita o PoSAT-1, primeiro satélite português. Mais dia, menos dia, lançaremos o nosso da Base Aérea de Alcântara, no Maranhão, hoje como sempre brilhantemente administrado pelo clã Sarney.
Em 2005, Plínio de Arruda Sampaio, Hélio Bicudo e Chico Alencar, lideranças petistas, abandonam o Partido dos Trabalhadores. Em 1945 nasceu Maria da Graça Costa Penna Burgos, que você talvez conheça como Gal Costa. Hoje é o Dia Interamericano do Profissional de Relações Públicas.

Ruminanças
“Eu vou gritando: paz, paz, paz!” (Petrarca, 1304-1374).