sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Pesquisadores analisam cascavel para construir robô capaz de subir dunas

Além de significar uma evolução para a robótica, o projeto revelou detalhes sobre a habilidade motora do animal


Roberta Machado
Estado de Minas: 17/10/2014 07:01



Para desenvolver um robô capaz de subir um instável terreno arenoso, pesquisadores se inspiraram em um bicho sem pernas. A pesquisa, publicada na edição mais recente da revista Science, descreve como os cientistas conseguiram reproduzir em uma máquina articulada a habilidade da cascavel-chifruda de se arrastar morro acima. O trabalho acabou revelando detalhes do comportamento do réptil que nem mesmo os estudiosos da natureza sabiam descrever, provando que a robótica bioinspirada pode ajudar a ciência a entender melhor o mundo animal.

 (Valdo Virgo/CB/D.A Press)


Para desvendar o mistério das cobras que escalam dunas, os pesquisadores foram a um zoológico e pegaram emprestados seis desses bichos. Eles criaram uma ladeira com areia trazida do Deserto de Yuma, do Arizona, e colocaram os animais para atravessar o caminho inclinado. Cada cobra tinha três chances de subir pela superfície, e então o equipamento era inclinado mais uma vez para tornar a tarefa ainda mais difícil. Todo o processo foi observado e registrado em vídeo.

As imagens mostraram que a cobra tem uma técnica muito particular para se arrastar pela areia, chamada sidewinding. Com ela, o animal vence o obstáculo quase de lado, levantando um segmento do corpo por vez. Primeiro, ele levanta a cabeça, e depois, desloca essa curva até a cauda, transferindo toda a estrutura para uma área mais alta do morro. É como se a cobra subisse uma escada, deixando na areia rastros que lembram degraus.


ADAPTAÇÃO Quanto mais inclinado o morro, maior é a parte do corpo que o bicho mantém firme na superfície. A técnica evita que o animal afunde ou role para baixo, como acontecia com a primeira versão do robô segmentado criado pelos pesquisadores. Outros tipos de cobras falharam no desafio, mostrando que poucas espécies são capazes de realizar a complicada manobra. Isso indica uma nova hipótese para a ciência: de que o controle neuromotor desse tipo específico de cascavel evoluiu de forma diferente e adquiriu controle muscular que a permite se locomover por terrenos difíceis.

Para as máquinas, contudo, a evolução não é um processo que leva milhões de anos. Robôs podem adquirir novas habilidades rapidamente e, assim que os pesquisadores compreenderam o sistema usado pelas cascavéis, implantaram a mesma dinâmica no robô cobra, que agora também consegue sair de um chão liso para subir dunas de areia. “Adaptabilidade é muito importante para uma boa navegação em ambientes desafiadores. O nosso robô cobra pode usar seus sensores para analisar o ambiente e ajustar os movimentos”, conta Chaohui Gong, aluno de doutorado da Universidade Carnegie Mellon e um dos autores do trabalho.

A pesquisa pode ser aplicada, de acordo com os pesquisadores, em máquinas especializadas no reconhecimento de terrenos de difícil acesso. Um robô cobra poderia, por exemplo, explorar uma mina desmoronada em busca de sobreviventes, ou fazer buscas arqueológicas. Na verdade, a máquina que deu início a esse experimento tinha exatamente esse trabalho. Elizabeth, como é chamada a máquina, falhou em analisar o interior de uma pirâmide cheia de areia. Agora, os pesquisadores esperam que ela possa cumprir a tarefa.

DIFICULDADES Há algum tempo que engenheiros voltam os olhos para a natureza em busca de soluções inteligentes para seus projetos. Robôs podem se sair muito bem na segurança do laboratório, mas o mundo real apresenta desafios que nem sempre podem ser vencidos por máquinas tradicionais. “Entender ambientes estruturados como um piso plano, escadas ou uma estrada é muito mais simples do que terrenos complexos, com areia, grama, lama ou cascalho”, afirma Auke Jan Ijspeert, professor do Laboratório de Biorrobótica da Escola Politécnica Federal de Lausana, na Suíça.

“Normalmente, a locomoção ao ar livre é muito complexa, porque o movimento do robô afeta não apenas o robô, mas também o meio ambiente. Por exemplo, no movimento da água, areia ou lama. E a física dessas interações pode ser muito complexa”, ressalta Ijspeert. Para isso, pesquisadores precisam observar os animais no seu hábitat natural — ou em um cenário muito próximo a isso — e usar ferramentas como sensores no ambiente e no animal para descrever com precisão matemática o movimento que eles fazem instintivamente.

Especialistas ressaltam, contudo, que compreender os animais não é suficiente: nem sempre é possível reproduzir os incríveis talentos dos bichos em sistemas artificiais. “Não temos a combinação correta de materiais para a estrutura e a energia, nem os sistemas de controle para que mantenham o equilíbrio e façam manobras”, ressalta Jake Socha, especialista em engenharia bioinspirada e pesquisador do Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia (Virgina Tech), nos EUA. Muitas tentativas, como robôs inspirados em insetos, ainda não passam de imitações grosseiras dos seus modelos. “O fato de que uma cobra como essa pudesse ser replicada em um robô com tanta fidelidade é realmente impressionante”, avalia Socha.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Entendimento - Eduardo Almeida Reis

O almoço estava sendo feito na outra cozinha, ao nível da piscina, dois andares abaixo, porque a cozinha inaugurada não é para ser usada como cozinha


Estado de Minas: 16/10/2014 




A gente nasce, cresce, estuda, trabalha e envelhece vendo, aprendendo e entendendo uma porção de coisas, mas há coisas difíceis de entender.Fui convidado para a inauguração de uma cozinha em casa de amigos. Almoço num dia de semana. Casa bonita, lugar bonito, quatro pavimentos. Ao nível da rua, salão com a sala de jantar, escritório, lavabo, suíte de hóspedes, sala de tevê e a tal cozinha inaugurada. Realmente, ficou um espetáculo. No andar de cima quatro suítes imensas, com os respectivos closets. Um piso abaixo do nível da rua, garagens para uma porção de automóveis. No piso térreo, salão imenso para festas, belíssima piscina, banheiros e cozinha. Qualquer coisa em torno de 1.400 metros quadrados sem contar o pátio da piscina, vista espetacular para boa parte da cidade, acabamento ótimo – o tipo da residência que você, pensando, não tem coragem de começar a construir, mas compra a obra iniciada, termina devagar e estima que tenha custado menos que um milhão de reais.

Educadíssimo, elogiei a cozinha inaugurada, visitei as suítes do quarto-pavimento e aceitei um uísque. Como tenho bebido pouco, em lugar do uisquinho preferi a cerveja que também me foi oferecida, mesmo sabendo que os donos da casa são fãs da Skol. Alfim e ao cabo, uma garrafa de Skol não mata ninguém.

Qual não foi minha surpresa quando vi chegar uma ampola de Deus, Brut des Flandres, a melhor cerveja do mundo, 11,5% de álcool por volume. Respirei fundo e fui à luta, intrigado com o fato de a cozinha inaugurada, vizinha da sala de tevê, continuar virgem de barulhos e movimentos. Meu relógio, que ainda não é um smartwatch, marcava uma hora da tarde.

Aí, entra o negócio que a gente vê e não entende, mesmo já tendo visto um monte de coisas difíceis de entender: o almoço estava sendo feito na outra cozinha, ao nível da piscina, dois andares abaixo, porque a cozinha inaugurada não é para ser usada como cozinha. Por quê? Ora, porque suja com a gordura das frituras.

Almoço feito lá embaixo, que subiu na munheca pelas escadas e foi servido na imensa mesa de madeira maciça, design Le Corbusier, que fica na cozinha inaugurada. Comida deliciosa com direito ao indispensável sorvete Häagen-Dasz e café expresso destas máquinas modernas de cápsulas. Acendi imenso Cohiba, agradeci o convite e voltei para casa sem entender absolutamente nada.

Pesquisas

Longe das eleições, porcentagem, percentagem ou percentual é a proporção de uma quantidade ou grandeza em relação a uma outra avaliada sobre a centena: símbolo %. Nas pesquisas eleitorais, 95% deixam de ser 95 em 100 e passam a merecer a seguinte explicação: “o que quer dizer que, respeitada a margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, o resultado será igual em 95% dos casos”.

No país dos meus sonhos, com todo o respeito pelos institutos que pesquisam a opinião do distinto público, as pesquisas eleitorais seriam proibidas. Por quê? Ora, porque influenciam o eleitorado. Claro que influenciam: a espécie humana é muito influenciável. Se desonesta, uma pesquisa condena Jesus e absolve o mau ladrão.

Não invento. Conheço um procurador de Justiça que, universitário, precisando reforçar seus rendimentos, fazia bicos como pesquisador do maior e mais famoso dos institutos. E me contou que à época, sendo petista, influenciava os entrevistados para que respondessem de acordo com os objetivos dele, entrevistador.

Aliás, no país dos meus sonhos o voto não seria obrigatório nem universal, no sentido de peso igual. Tenho amigos cujos votos valem cinquenta vezes mais que o meu, que já não é de se jogar fora. Do jeito que está, a governança fica difícil. Basta ver a turminha que tem sido eleita em todos os níveis “dado o alto grau de baixo nível do nosso povo, cujo índice mais verídico é o analfabetismo”, com escreveram os portugueses Mário e Fernando Vieira de Sá, pai e filho, num delicioso livro sobre vacas leiteiras.

O mundo é uma bola

16 de outubro de 1769: concessão do título de marquês de Pombal ao conde de Oeiras, Sebastião José de Carvalho e Mello, português da melhor supimpitude. Em 1798, Hipólito José da Costa embarca para os Estados Unidos com a missão de conhecer as novas técnicas industriais dos americanos e levá-las para Portugal. Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça nasceu em 1774, na Colônia de Sacramento, e morreu em Londres no ano de 1823. Três anos depois de seu nascimento a Colônia de Sacramento foi devolvida aos espanhóis, portanto o jornalista, maçom e diplomata era brasileiro, foi adolescente em Pelotas (RS) e se formou em leis, filosofia e matemática na Universidade de Coimbra.

Em 1846, marco inicial da anestesiologia com a anestesia baseada em éter etílico, substância (C4H10O) usada como solvente, como antisséptico externo e como anestésico. Em 1862, Francisco Solano López cria o congresso especialmente convocado para elegê-lo presidente da República do Paraguai. Em 1936, inauguração do Aeroporto Santos Dumont no Rio de Janeiro, o primeiro aeroporto civil brasileiro. Hoje é o Dia do Anestesiologista, da Ciência e Tecnologia, do Engenheiro de Alimentos e do Pão.

Ruminanças


“Oh! Meu Deus! Por que o pão deve ser tão caro / E a carne e o sangue tão baratos?” (Thomas Hood, 1799-1845)

Vida como ela é

Na quebrada, longa de ficção de Fernando Grostein Andrade, estreia hoje em 200 salas do país. Filme narra a trajetória de cinco jovens que vivem na periferia de São Paulo


Mariana Peixoto
Estado de Minas: 16/10/2014



Jorge Dias, filho do rapper Mano Brown, estreia no papel do jovem Gerson:
Jorge Dias, filho do rapper Mano Brown, estreia no papel do jovem Gerson: "Conheço muita gente como ele"


Alguns se salvam, muitos se perdem. Na quebrada, primeiro longa-metragem de ficção de Fernando Grostein Andrade, que estreia hoje em 200 cinemas de todo o país, não tem a pretensão de mudar o mundo. Mas busca mostrar que quando existe opção, há como encontrar uma saída. Com roteiro nascido a partir de depoimentos reais, cruza a trajetória de cinco jovens que vivem em comunidades na periferia de São Paulo: Zeca sobreviveu a uma chacina; Gerson vive com a mãe, já que o pai está preso desde que ele se conhece por gente; diferentemente de seus pais e irmão, Mônica sofre e, ao mesmo tempo, fica aliviada por isso; oprimido pelo pai, Júnior é fascinado por aparelhos eletrônicos; e Joana, que tem como referência a rua, sonha com a mãe que nunca teve. Em meio aos seus próprios dramas, os garotos têm que conviver, ainda que involuntariamente, com a marginalidade. No meio do caminho, os cinco se deparam com uma ONG que ensina os primeiros passos para o universo do audiovisual.

“Não quis dar nenhuma solução definitiva, e sim mostrar o poder transformador da arte, cultura e educação”, afirma Fernando, que começou a desenvolver o longa a partir de sua experiência no curta Cine Rincão (2011). Exibido no Festival de Veneza, o curta foi realizado para um projeto da revista italiana Colors (iniciativa da marca Benetton) sobre iniciativas que tentavam desafiar a injustiça social em zonas de conflito armado. Cine Rincão retratava a vida de um jovem da ONG Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias, fundada pelo apresentador e empresário Luciano Huck, irmão de Fernando. Huck é um dos produtores de Na quebrada.

“Depois de três longas, estava um pouco cansado de documentários”, acrescenta o cineasta, conhecido pelos filmes Coração vagabundo (2008), sobre Caetano Veloso; Quebrando o tabu (2011), que abre a discussão sobre a guerra contra as drogas; e Breaking the taboo (2013), sua versão para o mercado externo, narrado por Morgan Freeman.

“Tenho algumas paixões que acabam ficando claras nos meus filmes. Uma delas é a lucidez combatendo as trevas. Em Coração vagabundo era o provincianismo versus o cosmopolitismo, com a mensagem do Caetano que dizia que não importa onde você vá, tem que abrir a cabeça. Já em Quebrando o tabu apresentamos medidas pragmáticas e não moralistas. É impossível radicar o tráfico, qualquer cidade do mundo tem. Mas há como prevenir o aumento do consumo por meio da educação. E quando há a interseção entre educação e cultura, você pode ajudar a prevenir algo mais grave do que a experimentação ocasional de drogas, que é a marginalização, essa a grande questão do tema”, afirma Fernando

Por meio da ficção, que bebe muito na realidade, Na quebrada traz essas questões à tona. A inclusão social, um dos vértices do debate proposto pelo cineasta, está presente não só dentro da tela, como fora dela. O codiretor do longa é Paulo Eduardo, formado na primeira turma de edição do Instituto Criar. Vinte e cinco alunos e ex-alunos da ONG também participaram do projeto. O elenco principal é formado por jovens que até então nunca haviam atuado no cinema – a exceção é o ator Jean Luis Amorim, protagonista de Capitães de areia (2011). Todos os detentos, traficantes e policiais foram interpretados por detentos que integram o grupo de teatro Do Lado de Cá, da Penitenciária Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos. Desativado até então, o projeto voltou à ativa por causa do filme.

Irmã de Jorge, Domênica vive no filme o drama de Mônica, uma garota que receia ficar cega como os pais

 (Paris Filmes/Divulgação)
Irmã de Jorge, Domênica vive no filme o drama de Mônica, uma garota que receia ficar cega como os pais


Dois filhos de Brown


Jorge e Domênica, de 18 e 15 anos, filhos de Mano Brown, líder dos Racionais MCs, estão no elenco principal de Na quebrada. Eles vivem Gérson e Mônica, dois garotos que entram para a ONG do filme. Ambos sem experiência alguma com cinema, chegaram até a produção graças à mãe, Eliane Dias, que conheceu Fernando Andrade numa palestra. “Nem queria fazer o teste, foi minha mãe quem falou para eu fazer. Nunca atuei na vida, mas quando comecei a preparação, tomei gosto”, assume Jorge. Domênica, que na época das filmagens tinha apenas 13 anos, já levava jeito para a coisa. “Indicaram meu grupo de teatro (que atua no Centro Cultural Monte Azul, Zona Sul de São Paulo) para o teste”, conta.

Moradores da Zona Sul, assim como os personagem do filme (vivem com os pais numa região entre o Campo Limpo e o Capão Redondo), Jorge e Domênica veem muito da vida real no filme. “Na periferia tem muito Gérson. Ele foi convocado (pelo tráfico), ameaçado e não conseguiu sair. Conheço muitas histórias parecidas com a dele. Mas tem gente que mesmo com o pai preso não segue o mesmo caminho. Ou que começou pelo errado e conseguiu se direcionar pelo esporte ou pela arte”, diz Jorge. E acrescenta: “Aqui tem certa disciplina, não tem morte como antes. A violência não vem do bandido, o medo é da polícia. Hoje mesmo, minha mãe ligou dizendo para eu tomar cuidado na rua pois viu o (Batalhão de) Choque abordando dois jovens.”

Depois de cursar um semestre do curso de nutrição, Jorge trancou matrícula para estudar cinema. Como seu personagem, ele também criou uma grife de roupa de hip-hop, Müe. “É uma gíria da área que moro, que pode ser usada para várias coisas. Se você for jogar futebol, pode falar: ‘Vamos müe’, jogar muito.” Já Domênica estuda teatro desde os 10 anos. Mônica, sua personagem, é filha de um casal cego devido ao glaucoma. Seu irmão acaba desenvolvendo a doença, perdendo gradativamente a visão. O grande medo da menina é que ocorra o mesmo com ela. “Não conheço nenhum deficiente visual, não sei como funciona. Mas conheci a família da Mônica (a menina cuja história inspirou a personagem), que tem uma história bonita.”

Para a garota, que vai continuar estudando teatro, mas também tentar um curso de cinema – “a atuação é muito diferente nas duas áreas” – o mais importante de Na quebrada foi o envolvimento das pessoas. “É um filme que transformou quem participou dele. Tanto para a gente, que nunca tinha feito nada, quanto para os detentos, que têm agora outra perspectiva.” Se há muito interesse dos irmãos pelo cinema, não há nenhum pelo hip-hop. “Não, não. Gosto de teatro e moda, nunca quis experimentar a música”, fala Domênica. “Só trabalho como produtor para o Mano Brown e os Racionais. Fora isso, quando era bem pequeno, cantei num grupo de rap com meu primo, mas nada de mais. Nunca tive vontade”, assume Jorge, que é a cara do pai. O garoto ri da comparação. “O pessoal fala, né?! Não tem como esconder.”

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

MARTHA MEDEIROS - Quartos de hotéis

Zero Hora - 15/10/2014


A maioria das pessoas adora hotéis. Eu também adoro quando estou acompanhada, já que é sinônimo de lua de mel, minha modalidade favorita de viagem. O mundo lá fora deixa de importar e me converto: era exatamente o que estava precisando, um tempo alienado para praticar todo o amor que houver nessa vida.

Mas nem sempre estamos acompanhados. A inspiração deste texto veio da exposição fotográfica do argentino radicado na França Daniel Mordzinski, chamada Quartos de Escrita – Retratos de Escritores em Hotéis. Ele clicou 70 escritores hospedados em diversos locais do mundo. Há quem tenha sido captado em momento íntimo e introspectivo e há os que fizeram poses bem-humoradas. O elenco é de respeito: estão entre eles Saramago, Vargas Llosa, Jorge Amado, Umberto Eco, Philip Roth, Verissimo, Nélida Piñon, García Márquez, Jorge Luis Borges, Jonathan Franzen – a nata.

Literatura e hotel formam uma dupla mística. O Pera Palace, em Istambul, até hoje é conhecido como a segunda casa de Agatha Christie. Assim como ela, muitos autores iniciaram ou terminaram seus romances entre as quatro paredes impessoais de uma espelunca de beira de estrada ou de suntuosas suítes. Romances literários e romances carnais também – num hotel, tudo acontece.

Viajo muito a trabalho e conheço bem a sensação de ser uma escritora recolhida em um quarto isolado entre centenas de outras portas: também sou envolvida pela introspecção, mas não produzo. Nem uma única linha escrevo fora do escritório que mantenho em casa. Preciso da dinâmica dos dias para me impulsionar. Num quarto de hotel, o tempo sofre uma estagnação, a falta de rotina engessa os minutos e as horas. As Horas. Nome do romance de Michael Cunningham, em que ele escreve uma das cenas mais pungentes da literatura norte-americana, a fuga de uma dona de casa para um quarto de hotel a fim de resgatar sua solidão. Que melhor lugar para esse encontro íntimo?

Não sei se paro de viver quando estou sozinha num quarto de hotel ou se estou viva demais, além do que posso suportar. Para mim, trabalhar em um quarto de hotel significaria acolhê-lo e por ele me sentir acolhida, no entanto, não consigo invocar essa familiaridade. Preciso que a mística se mantenha: eu e ele com a respiração suspensa por sermos dois estranhos sabedores do nosso curto e estéril tempo de convívio. O nada define minha estada.

Sozinha num quarto de hotel, sou ninguém. Não escrevo porque perco minhas referências. A paz vira melancolia. Tudo é lindo, limpo, confortável, mas se alguém tentasse me fotografar, me pegaria totalmente fora de foco.

*Na próxima atualização do meu site, segunda-feira, postarei algumas fotos da exposição e demais comentários, em martha-medeiros.com