domingo, 19 de outubro de 2014

MARTHA MEDEIROS A fantasia de jogar tudo para o alto

Zero Hora 19/10/2014

Me chame de louca e me ganhe para sempre.” Tá, não é bem assim, mas parecido. Quanto mais cresce e se estabiliza a campanha pelo politicamente correto, mais as pessoas gostam de serem chamadas de loucas. Mulheres, quase todas. Principalmente as que não são.
Mulheres em geral são responsáveis, centradas, focadas, sabem bem o que querem e o que não querem: uma maneira de dominar a loucura intrínseca que as tenta. Ainda por cima, mulheres são mães, o que elimina de vez a chance de saírem da casinha (a não ser que a criatura seja louca MESMO). Todas carregam dentro o gene da insensatez, mas a maioria se controla, precisa amamentar de duas em duas horas, não esquecer de buscar as crianças no colégio, providenciar arroz e feijão à mesa todo dia, como despirocar?
Então elas abafam o desatino (aquele mesmo desatino que quem não se responsabiliza por ninguém extravasa) e ficam ali curtindo a fantasia da demência em silêncio, imaginando: “E se?”.
E se eu fizesse minha mala, dissesse bye-bye para a família e fosse passar um ano meditando na Índia?
E se eu fizesse minha mala, dissesse bye-bye para a família e fosse morar sozinha num quarto-e-sala no centro da cidade?
E se eu fizesse minha mala e aceitasse aquele emprego em São Paulo? E se eu fizesse minha mala e fosse cursar teatro em Nova York? E se eu fizesse minha mala e comprasse um sítio para ter a horta, o pomar e o jardim com que sempre sonhei? E se eu fizesse minha mala e me alistasse num projeto voluntário para finalmente dar um sentido a minha existência?
Tem sempre uma mala a ser feita no mundo das mulheres pseudoloucas.
Ou mais grave: um homem.
E se eu casar com ele mesmo ciente de que ele tem três ex-mulheres e oito filhos? E se eu fugir com esse desmiolado que só sabe tocar violão e mais nada? E se eu me arrepender de largar esse esquizoide que me fez mais feliz do que todos os homens sensatos que conheci?
Loucura e amor são parentes consanguíneos.
Quem olha de soslaio para uma mulher, jura que ela é confiável. Quase sempre é mesmo. Mas chame-a de louca, mesmo ela não sendo de fato, e terás uma mulher secretamente realizada em seus braços. Loucas, era tudo o que desejávamos ser, não fôssemos obrigadas a levar a vida tão a sério. Afinal, alguém tem que monitorar essa baderna aí fora.

Almorreimas - Eduardo Almeida Reis

Na Fórmula 1, pilotos geniais às vezes deixam para frear tarde demais, não conseguem fazer a curva e se dão por felizes quando não trombam numa barreira de pneus


Eduardo Almeida Reis
Estado de MInas: 19/10/2014


Médico, escritor, comunicador e empresário vitorioso, o paulistano Drauzio Varella, na flor dos seus 73 aninhos, é uma unanimidade nacional. Sócio de João Carlos Di Genio, alcunhado O Professor, na UNIP, que começou como cursinho do Grupo Objetivo, Varella se destacou depois de garantir uma côdea de pão e uma pouca de manteiga para lhe barrar por cima, como dizia um personagem do Eça. Certos voos exigem que o aviador, primeiro, amarre seu burro à sombra, e Varella cuidou disso, no que obrou muitíssimo bem.
Mesmo os gênios nas mais diversas profissões, contudo, estão sujeitos a passar do giro. Na Fórmula 1, pilotos geniais às vezes deixam para frear tarde demais, não conseguem fazer a curva e se dão por muito felizes quando não trombam numa barreira de pneus. Dia 20 de setembro, em artigo para a Folha, animado pela proximidade da primavera, que é a aurora, o tempo primordial, nosso belo Varella passou do giro num texto sobre almorreimas, Prosaicas, porém relevantes, começando assim: “O hábito de ler jornal no vaso sanitário, forçando a evacuação, é péssimo; banheiro não é biblioteca. Milhões de pessoas sofrem de hemorroidas”.
E o negócio vai por aí numa lição técnico-científica de assustar gregos, troianos e pessoas que passam a vista nos jornais assentadas nos tronos, quando seria muito mais simples dizer que o melhor remédio para evitar almorreimas chama-se bidê ou bidé, do francês bidet.
Ali por volta de 1950, quando Varella tinha 9 aninhos, eminente brasileiro foi aos Estados Unidos operar-se com renomado especialista, onde ouviu do cirurgião americano: “Se o nosso país tivesse bidês eu mudava de profissão”. Varella informa: “O uso do papel higiênico traumatiza a mucosa retal, inflama os tecidos hemorroidários e agrava o quadro. A higiene deve ser feita com água, sabão e delicadeza”. Pois fique o doutor Varella sabendo que o bidê dispensa o sabão e a delicadeza. Que coisa!, doutor, esse negócio de envolver delicadeza, “atributo do que é delicado”, naquela região da anatomia humana. Soa mal.

Nomes
De que os tempos estão mudados, aliás muito mudados, não creio que o caro e preclaro leitor tenha a menor dúvida. Contudo, só um philosopho dedicado ao mais alto philosophar pode constatar que os nomes clássicos – Maria, Joana, Estela, Ana, Márcia, Helena e tantos outros, que serviram para batizar as meninas brasileiras ao longo dos séculos, estão sendo substituídos por nomes modernos para ficar nos conformes da nova era onomástica, o que significa dizer “coleção, lista de nomes próprios”.
Observando os créditos televisivos, anoto: Ajussimeire, Ludikelly, Itauana, Meirilu, Deani, Najara, Jociane e outras maravilhas. Enquanto isso, segundo a BBC News, “Mohammed is now the most common male name in the Norwegian capital, a census shows”. Se entendi, em Oslo, capital da Noruega, um censo mostrou que Mohammed é hoje o nome de homem mais comum no país de altíssimo IDH.
E o mais estranho é que os Maomés se matam entre eles com o mesmo entusiasmo usado para matar os não-maometanos: Al Qaeda, sunitas, xiitas, estado islâmico & cia. se detestam. Portanto, se os noruegueses aderiram ao Mohammed pensando poupar seus filhos, podem tirar seus cavalinhos da chuva, que por lá se transforma em gelo e neve.
O mundo é uma bola
19 de outubro de 1848, fundação do município de Pouso Alegre, no Sul de Minas, onde advoga o Dr. Artur Bettencourt, amigo do philosopho. Em 1797 nasceu José Joaquim de Souza Reis, o Remexido, guerrilheiro português. Homem de posses, capitão de ordenanças, recebedor do concelho, o guerrilheiro algarvio lutou por dom Miguel na guerra civil entre liberais e miguelistas. Finda a guerra, em lugar do perdão que lhe fora prometido, açoitaram-lhe a mulher com a palmatória, queimaram-lhe a casa, mataram-lhe um filho de 14 anos. Hoje é o Dia do Profissional de Informática.

Ruminanças
“Bem-aventurados os pobres de léxico, porque deles é o reino da glória!” (Eça de Queiroz, 1845-1900).

sábado, 18 de outubro de 2014

Velha novidade - Eduardo Almeida Reis

 "Só uma coisa é certa e o leitor pode anotar na agenda do seu iPhone 6: tudo terminará em águas de bacalhau"


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 18/10/2014








Transcrevo a notícia como foi publicada no portal Terra: “Cientistas das universidades de Illinois e Cornell, nos Estados Unidos, fizeram um experimento bastante polêmico, mas não tanto quanto o resultado dele. O estudo tinha como objetivo descobrir se jantar com pessoas acima de peso pode te fazer comer mais, e a resposta é: sim.

Os pesquisadores utilizaram uma atriz que ‘se vestiu’ de obesa para comer junto com um grupo de estudantes, e pediu uma grande porção de comida. Logo após, o grupo foi convidado para servir um prato, que poderia ser escolhido entre salada e massa.

De acordo com o experimento, todos os estudantes que participaram, após observar o prato da atriz, optaram pela massa. Quando ela não estava presente, o grupo ficou mais inclinado a servir uma salada. ‘O propósito desse estudo foi saber se a presença de uma pessoa acima do peso influencia ou não no comportamento saudável de uma pessoa, e saber se os efeitos são medidos pela maneira como com essa companhia se servem’, disseram os autores do experimento.

A pesquisa foi relacionada a um estudo feito pela Universidade de Liverpool, em que nove em cada 10 pessoas abordadas não conseguiam dizer quando uma pessoa está acima do peso ideal. De acordo com os pesquisadores, quanto mais amigos obesos você tem, menos capacidade de identificação desse problema você terá”.

Além da “velha novidade”, a pesquisa dos cientistas de Illinois e Cornell tem um monte de besteiras. Que é “peso ideal”? Entre os maratonistas o peso ideal difere do peso ideal dos campeões em lançamento de discos – e todos são atletas profissionais.

Velha novidade porque, no capítulo 15 “Normas para o sucesso da sua dieta” do meu livro A Dieta Inteligente, publicado em 1985, você pode ler o seguinte: FUJA DOS AMIGOS QUE ENGORDAM – A exemplo dos alimentos, alguns amigos são mais engordativos que os outros. É absolutamente necessário fugir deles nos primeiros dias de sua DIETA INTELIGENTE. Por quanto tempo? Vinte dias costumam ser suficientes.

Fuja, portanto, daqueles amigos que vivem descobrindo restaurantes fabulosos, bares fantásticos, salgadinhos mirabolantes, só falam em comida e não se importam com o problema da obesidade, já porque são gordos conformados, já porque não têm qualquer problema de excesso de peso.

A “novidade” dos cientistas americanos tem, portanto, no mínimo, 29 anos, considerando que meu livro foi publicado em 1985. Falou?

Desespero – Pelo nível de muitos e-mails que tenho recebido, os petistas estão desesperados. Ofendem, inventam mentiras extensivas a minha família, dizem que fiz isto e aquilo, coisas que jamais cogitei, os ladrões perderam o rumo. Quero mais é que todos eles vão para as vênus vulgívagas que os pariram. Dixit.

Bacalhoada


Circula na internet uma lista com os nomes dos políticos “agraciados” com a roubalheira da Petrobras. Já recebi de três fontes a mesma lista, que não repassei pelo seguinte motivo: nela encontrei os nomes de alguns conhecidos meus. Não diria amigos, mas conhecidos. Devo a um deles imenso favor. Outro me deve uma porção de favores e, quando foi eleito com um caminhão de votos, revelou-se incapaz de mandar uma secretária me telefonar para agradecer o que fiz por ele e dizer que estava em Brasília às ordens do “amigo”. Telefonema pro forma, apenas para manter as aparências: deve ter achado que era obrigação do philosopho acudir a mais de 40 consultas suas sobre frases e palavras usadas na campanha, bem como as quatro visitas que me fez em casa para perguntar sobre textos de santinhos, folders, faixas e outras peças eleitorais.

Em rigor, bastaria um telefonema de agradecimento dado pela secretária e pago pela Câmara: nada. Na lista do engenheiro Paulo Roberto Costa consta doação de R$ 300 mil para o referido político. Outros levaram mais e continuam soltos por aí. Só uma coisa é certa e o leitor pode anotar na agenda do seu iPhone 6: tudo terminará em águas de bacalhau.

O Brasil é o maior consumidor de bacalhau salgado. Por maior que seja o consumo brasileiro, nada se compara à nossa capacidade de fazer que todos os crimes políticos terminem em águas de bacalhau. O pessoal do Mensalão, quase todo, já está em casa.

O mundo é uma bola


18 de outubro de 1685: revogação do Édito de Nantes, documento histórico assinado em Nantes dia 13 de abril de 1598 por Henrique IV, rei da França, concedendo aos huguenotes a garantia de tolerância religiosa após 36 anos de perseguições e massacres por todo o país, com destaque para o Massacre da Noite de São Bartolomeu em 1572.

Em 1807, tropas francesas do general Junot invadiram a Espanha, o que significa dizer que se aproximaram de Portugal. Em 1968, John Lennon e Yoko Ono são presos em Londres portando drogas. Em 1944 nascia o dorense Nelson Freire, pianista de alta expressão mundial. E no ano 33 morreu Agrippina Maior, que não era feia, mas pariu Calígula, fruto de seu casamento com Germânico. Hoje é o Dia do Médico, do Pintor e do Estivador.

Ruminanças

“Depois da noite de quarta-feira, o Mineirão merece chamar-se Estádio Magalhães Galo” (R. Manso Neto).

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Científicas - Eduardo Almeida Reis

"Tive a nítida impressão de levitar, cena testemunhada por uma porção de pessoas às quatro horas de uma tarde de domingo, em casa de parentes"


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 17/10/2014



Por enquanto, a telepatia estava limitada à parapsicologia: comunicação direta e a distância entre duas mentes, ou conhecimento, por alguém, dos processos mentais de outrem, além dos limites da percepção ordinária. Agora, a neurociência ameaça confirmar o processo telepático.
Acredito em parapsicologia porque já levitei. Não estava bêbado e pesava cerca de 130kg. Sentei-me numa mesa de jacarandá maciço, também muito pesada, e quatro senhoras, orientadas por uma delas, que andava estudando o assunto, disseram: “Levanta, Eduardo”. Tive a nítida impressão de levitar, cena testemunhada por uma porção de pessoas às quatro horas de uma tarde de domingo, em casa de parentes meus.

Dir-se-á que fui sugestionado. É, bebé? Tanto levitei com a mesa, que um dos pés de jacarandá maciço, de bons 20cm de diâmetro, quebrou durante a “aterrissagem”. E todos nós – peço ao leitor que confirme – já vivemos episódios em que reencontramos algumas pessoas, depois de pensar nelas, que só podem ser precognição, percepção extrassensorial. Normalmente, dizemos que foi coincidência, mas é muita sincronia para ser aceita como tal.

As experiências neurocientíficas sobre transmissão de pensamento foram mostradas num programa da GloboNews por um cientista de nome complicado, que apresenta quadro rápido num telejornal vespertino. Difícil de entender e de explicar, a experiência foi mostrada aos telespectadores. Amanhã ou depois vamos saber mais sobre o assunto. Por enquanto, tive a prova da quebra do pé de jacarandá maciço.

Símbolos
Obrou muito mal o engenheiro Paulo Roberto Costa, o Paulinho do Lula, ao incluir na lista dos beneficiários da ladroeira da Petrobras os nomes ilustres de brasileiros que são símbolos da pátria, talqualmente a Bandeira, o Hino, as Armas Nacionais. Mais que um político, o jornalista Edson Lobão é um símbolo nacional. Formado em direito, trabalhou em jornais e revistas, e chefiou o departamento de jornalismo da Rede Globo no Distrito Federal, antes de se destacar como senador, governador do Maranhão e ministro de Estado. Um maranhense com a sua trajetória paira acima do bem e do mal, é inimputável, símbolo do que há de mais elevado e representativo no Piscinão de Ramos.

O vocábulo delator me parece pouco simpático. Por isso, prefiro dizer que o engenheiro Paulinho do Lula é o relator, aquele que relata, que narra o assalto aos cofres públicos organizado não por mim nem pelo leitor do Estado de Minas, mas pelo Partido dos Trabalhadores. Ao relatar, deveria poupar nossos símbolos e os brasileiros mortos, que não se podem defender dos crimes de que são acusados pelo engenheiro. Neste país grande e bobo, todo morto vira saudoso: o saudoso Lampião, o saudoso Antônio Conselheiro, o saudoso Bandido da Luz Vermelha.

É muito de desejar que a Polícia Federal tenha condições de proteger o Paulinho do Lula. Por muito menos, o prefeito Celso Daniel foi retirado de um carro blindado (!), torturado e morto. Ocupando os mais altos cargos públicos, seus assassinos continuam circulando por aí.

Textos
A ideia da Editora Contexto foi boa, mas a incumbência é complicada: livros escritos por brasileiros sobre os povos dos países em que viveram: Estados Unidos, Argentina, Índia, Japão, Irã, Portugal... Mesmo Portugal, com seus 10,5 milhões de habitantes, não deve ser fácil de padronizar. Que dizer de uma Índia, uma China ou mesmo dos Estados Unidos, que andavam em 2012 pelos 314 milhões de habitantes?

Deles todos, o japonês talvez seja o povo mais fácil de resumir num livro: são 128 milhões com certas manias incomuns no planeta, como conservar as ruas limpas e respeitar os mais velhos. No Brasil, país que o leitor conhece bem, limpeza de rua é problema dos outros e os velhos só interessam quando têm dinheiro para ajudar a família. Não precisam ter muito dinheiro: qualquer trocadinho ajuda.

Por fim, a ideia da Contexto esbarra nos textos dos autores convidados, que podem ser interessantes e divertidos, como podem ser chatos, enrolados, confusos.

O mundo é uma bola
17 de outubro de 1769: decreto português estipula penas para os atravessadores de vinho. Na falta de informações sobre o decreto, apraz-me contar-lhes que o nome Portugal apareceu entre os anos 930 e 950 da Era Cristã e começou a ser usado com mais frequência no final do século 10.
Para homenagear Anna Barbara e Antônio Martinez, latinistas de truz, informo que no século 5, durante o reinado suevo, Idácio de Chaves já escrevia sobre um local chamado Portucale, para onde fugiu Requiário: “Rechiarius ad locum qui Portucale appellatur, profugus regi Theudorico captivus adducitur” e o negócio vai por aí, mas vou parando porque dá muito trabalho copiar textos em latim.

Em 1966, Botswana e Lesoto são admitidos como Estados-Membros da ONU, organização que se esforça para ser ouvida e respeitada, mas é dirigida pelo diplomata Ban Ki-moon, cavalheiro que sempre dá a impressão de falar sorrindo, o que põe a seriedade a perder. Hoje é o Dia da Agricultura, do Eletricista, do Maquinista, do Profissional de Propaganda e da Indústria Aeronáutica Brasileira.

Ruminanças
“Prometemos segundo nossas esperanças e cumprimos segundo nossos medos” (La Rochefoucauld, 1613-1680).