sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

RETROSPECTIVA 2014 - LIVROS » Vida que segue - Carlos Herculano Lopes

RETROSPECTIVA 2014 - LIVROS » Vida que segue O ano ficou marcado pela perda de escritores queridos do povo brasileiro. A história consolida o seu espaço junto aos leitores e ao mercado editorial


Carlos Herculano Lopes
Estado de Minas: 26/12/2014




Em julho, a morte do baiano João Ubaldo Ribeiro, autor de Viva o povo brasileiro, surpreendeu o país  (TV Brasil/divulgação)
Em julho, a morte do baiano João Ubaldo Ribeiro, autor de Viva o povo brasileiro, surpreendeu o país

Se 2014 foi bom para a literatura, com o lançamento de centenas de títulos de todos os gêneros por pequenas e grandes editoras, além do fortalecimento de feiras espalhadas pelo país, o leitor chora a perda dos escritores João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna, Ivan Junqueira, Rubem Alves e Manoel de Barros. O mundo se despediu do colombiano Gabriel García Márquez e da sul-africana Nadine Gordimer, ambos vencedores do Prêmio Nobel.

Mas a vida continua e novas gerações de autores lutam por um lugar ao sol. Este ano, a internet reforçou a parceria com a literatura, sobretudo divulgando jovens talentos. Surgiram revistas literárias on-line e pequenas editoras – a maioria delas voltada para poetas e ficcionistas iniciantes.

Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade divulgou seu relatório final, listando os responsáveis por violações aos direitos humanos entre 1946 e 1988 – especialmente no período da ditadura imposta pelo golpe civil-militar de 1964. A história recente do país foi “musa inspiradora” de vários lançamentos importantes. O jornalista Paulo Markun mandou para as prateleiras os dois volumes do projeto Brado retumbante: Na lei e na marra – 1964-1968 e Farol alto sobre as diretas – 1969-1984. Lira Neto fechou a trilogia dedicada a Getúlio Vargas com o volume dedicado ao período entre 1945 e 1954.



INTERNACIONAL
O francês Patrick Modiano, autor de mais de 40 livros, entre ensaios, roteiros e romances, venceu o Prêmio Nobel de Literatura em 2014. Três de seus romances foram lançados no país – todos têm como pano de fundo a ocupação alemã na França durante a 2ª Guerra Mundial. O romance Skagboys, do escocês Irvine Welsh, fechou a trilogia formada com Trainspotting e Pornô. O capital, livro II, monumental obra de Karl Marx, também saiu no país, assim como Para entender O capital, do geógrafo britânico David Harvey. Outro que ganhou edição brasileira foi O capital no século XXI, do francês Thomas Piketty, o livro de economia mais badalado deste ano. Dois outros sucessos: A balada de Adam Henry, romance do inglês Ian McEwan, e Judas, de Amós Oz, o mais importante escritor israelense da atualidade.


EM MINAS
A lista de lançamentos em Minas Gerais comprova o fôlego de autores do estado. Chegaram às livrarias os romances Hotel Rodoviária, de Danislau; Malditas fronteiras, de João Batista Melo; Uma Denise, de Roberto Amaral, e O sono de Morfeu, de André Zambaldi. Ana Elisa Ribeiro releu a carta de Pero Vaz de Caminha em O e-mail de Caminha, e Maria Esther Maciel reuniu crônicas publicadas no Estado de Minas no livro A vida ao redor. Destacaram-se também os livros de poemas Distraídas astronautas, de Simone Teodoro, e Não se sai de árvore por meio de árvore, de Paula Vaz. O premiado casal Nelson Cruz e Marilda Castanha autografou em BH O livro do acaso e Fases da lua e outros segredos. Também chamaram a atenção Farelo de Quiat (com A terceira porta da lua), Lavínia Rocha (De olhos fechados), Raphael Vidigal (Amor de morte entre duas vidas), Nilson Silva (Um amor entre as montanhas) e Fábio Salomão (Um rio me levou de mim).


NO BRASIL
Veteranos da literatura nacional brindaram o leitor com novidades. Nélida Piñon publicou A camisa do marido, enquanto o mineiro Silviano Santiago lançou o romance Mil rosas roubadas. Outro mineiro, Evandro Affonso Ferreira, mandou para as livrarias Os piores dias de minha vida foram todos, com o qual fechou a Trilogia do inferno. Raphael Montes, uma das revelações da literatura brasileira este ano, publicou o ótimo Dias perfeitos. O mineiro Sérgio Rodrigues, com o romance O drible, venceu o Prêmio Portugal Telecom de Literatura, enquanto o São Paulo de Literatura foi para Ana Luisa Escorel, autora de Anel de vidro. Chico Buarque mandou para as lojas o quinto romance, O irmão alemão, autoficção baseada na história de Sergio Günther. O historiador Sérgio Buarque de Hollanda teve esse filho quando morava na Alemanha, antes de se casar com Maria Amélia, mãe do compositor.  Clássicos ganharam releituras. Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, surgiu em HQ na versão assinada por Eloar Guazelli e Rodrigo Rosa, enquanto antologia de Murilo Mendes chegou acompanhada de CD com o autor declamando seus versos.


IMORTAIS
Criada em 1897 por Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras (ABL) elegeu novos imortais: o poeta maranhense Ferreira Gullar, eleito para ocupar a vaga do poeta e ensaísta carioca Ivan Junqueira; o embaixador e historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello, que herdou a cadeira do romancista baiano João Ubaldo Ribeiro; e Zuenir Ventura, jornalista mineiro radicado no Rio, que entrou para a ABL na vaga de Ariano Suassuna. Na Academia Mineira de Letras, o romancista Benito Barreto sucedeu ao poeta e trovador Soares da Cunha.

Supimpa - Eduardo Almeida Reis

Creio ter modéstia suficiente para saber que as revistas nunca foram planejadas e publicadas visando a me aborrecer


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 26/12/2014



Desembargador no TJ-MG, José Marcos Vieira não é somente um bom pintor, é um pintor extraordinário. Pena que passe horas e horas estudando processos chatíssimos, parecidos com aqueles que me levaram a fugir da profissão depois de quatro dias como advogado do Sindicato dos Padeiros do Estado da Guanabara.

Ainda bem que o admirável pintor judica num tribunal respeitado e respeitável como o de Minas Gerais. O TJ do estado em que nasci vem de dar ao planeta doloroso exemplo de canalhice no processo movido por um juiz contra bela agente de trânsito, quando foi pilhado dirigindo sem documentos e carteira de habilitação um automóvel sem placas. O referido juiz foi casado com Alice Maria Saldanha Tamborindeguy, advogada que exerceu seis mandatos como deputada estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), senhora que tem a subida honra de ser irmã de Narcisa Cláudia Saldanha Tamborindeguy, autora do livro Ai que loucura!, estrela de um imbecilérrimo programa de tevê chamado Mulheres ricas. Moradora no Edifício Chopin da Avenida Atlântica, Narcisa Cláudia é conhecida pelas festas que promove em seu apartamento infernizando os hóspedes do vizinho Copacabana Palace. Diz a Wikipédia que a mulher rica utiliza “famoso megafone” e tem como vítimas preferidas Madonna e Jô Soares. Madonna vá lá, mas Jô deve ser mágoa porque ela mora num prédio vizinho, enquanto José Eugênio Soares, em menino, morou anos no próprio Copacabana Palace.

Não curemos do TJ-RJ – “Tratemos de coisas limpas, como homens de bem e de tino” –, como dizia Cândido de Figueiredo: por isso volto ao desembargador José Marcos Vieira para recomendar que sem embargo dos embargos, que não recebem a matéria, vistos os autos, cumpra o acórdão embargado e providencie sua aposentadoria para se dedicar exclusivamente à pintura. As belas-artes precisam do seu talento. Tenho dito e philosophado.

Revistas
Creio ter modéstia suficiente para saber que as revistas nunca foram planejadas e publicadas visando a me aborrecer. Editores, subeditores, equipes de reportagem e colaboradores não se reúnem para decidir o conteúdo da próxima edição com o propósito de aprontar 120 páginas que não interessem ao Eduardo: o público-alvo certamente é outro, mas fico chateado de não encontrar um só assunto que me interesse, ressalvado um dos cartunistas que tem traço e graça. Aí é que está: não basta o traço, é preciso que o cavalheiro tenha graça. O humor compensa o traço, ao passo que o bom traço nem sempre tem comicidade, crítica, graça.

Para complicar as coisas, dia desses o editorial de uma revista semanal, assinado pela editora, atropelou o português de maneira irremediável. Se os paramédicos no Samu estivessem na imensa oficina em que roda a revista não teriam condições de salvar o idioma, coitado. Nem se diga que o crime foi erro de digitação, coisa que acontece. Foi o sinal de que a situação está mesmo complicada, tanto assim que uma chamada de importante provedor para matéria que retratava linda odontóloga traficante de drogas e armas, com estoque de ambas em seu consultório, não se acanhou ao escrever que a loura dentista guardava quilos de cocaína e várias metralhadoras na clínica dela. Clíni...ca dela! E a odontotraficante ainda não faz parte da ABOV, Associação Brasileira de Odontologia Veterinária...

O mundo é uma bola

26 de dezembro de 1778: Inconfidência Mineira, reunião conspiratória em casa do tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade. Inconfidência que nos remete aos feriados anuais de 21 de abril e à dolorosa distribuição de colares, comendas e medalhas em Ouro Preto. Duvido, mas duvide-ó-dó, que algum dos presos na Operação Lava-Jato não tenha comendas, medalhas, colares da Inconfidência. Todo bandido brasileiro tem.

Na solenidade ouro-pretana há o descompassado desfilar dos Dragões da Inconfidência, que não acertam o passo porque o brasileiro é pouco ou nada marcial, ao contrário dos alemães, dos russos, dos norte-coreanos e de tantos outros povos. Em Ouro Preto o problema é agravado pelo calçamento irregular. Dia 19 do mês passado tive a notícia, através do provedor Terra, de que os Dragões da Independência finalmente acertaram o passo em Brasília, DF. Quatro jovens militares do 1º Regimento de Cavalaria de Guardas (1º RCG), oficialmente denominado Dragões da Independência, foram presos assaltando postos de gasolina. Sua missão é guarnecer as instalações da Presidência da República, realizar o cerimonial militar representativo da Capital do Brasil, contribuir para a formação do cidadão brasileiro, manter as tradições equestres da Cavalaria; participar de missões de garantia da lei e da ordem (GLO) etc. Deixo a análise dos assaltos a critério do leitor.

Em 1792, começa em Paris o julgamento final de Luís XVI. Em 1825, é aberto o Canal de Erie, que conecta o Lago Erie ao Rio Hudson, no estado de Nova York, como acabo de aprender. Em 1845, o Texas se torna o 28º estado norte-americano. Em 1898, Marie Curie anuncia a descoberta da pechblenda, uma variedade provavelmente impura da uraninita, mas a mesma fonte informa que a pechblenda foi descoberta por Antoine Henri Becquerel, motivo pelo qual o palpitante assunto deve ser estudado pelo pacientíssimo leitor.

 Ruminanças

“Navegar é necessário; viver, não” (Pompeu, 106-48 a.C.). 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Natal - Eduardo Almeida Reis

O nosso Eike está de volta ao mundo empresarial associado a uma empresa sul-coreana especializada em medicamentos contra impotência


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 25/12/2014



Eike Batista planeja retorno com remédio para impotência. A chamada do provedor Terra pegou mal à beça, dando a entender que o rapaz nascido em Governador Valadares, MG, carente de potência sexual, planeja retornar à farra depois de tomar remédio para impotência. Na verdade, pelo bimbalhar dos sinos natalinos, nada melhor do que a notícia de que o nosso Eike está de volta ao mundo empresarial associado a uma empresa sul-coreana especializada em medicamentos contra impotência. Mais que o azulzinho, que só garante, quando garante, o pirilau em posição de sentido, o eikinho promete despertar o bilau adormecido para novas proezas inenarráveis, ainda e sempre muito mais importantes do que alcançar o posto de homem mais rico do mundo.

Só existe um homem mais rico do planeta, enquanto o eikinho fará milhões de homens mais felizes do mundo. A empresa C. L. Pharm, sediada em Seul, tem agora com o nosso Eike um “acordo de desenvolvimento” no valor de US$ 12 milhões para acabar de entupir a Terra de habitantes. Não há Estado Islâmico associado à Al-Qaeda que consiga degolar tanta gente.

Nova cruz
Influenciado pelas frases “vivendo a sua cruz”, “levando a sua cruz” e muitas outras que têm cruzes, cismei que cruz podia significar incumbência, missão, objetivo, mas errei feio. Ainda assim não vou perder a viagem e preciso contar ao leitor que as cruzes, transcritas do Google, ocuparam três páginas do computador com os respectivos desenhos coloridos. Só não encontrei a cruz que procuro e vou explicar no final deste belo suelto. O buscador tem a cruz heráldica, a cruz em trevo, a cruz da Ordem de Cristo de Portugal, a cruz recruzada, a cruz de Jerusalém, a cruz florenciada, a cruz bifurcada, a cruz de Malta, também conhecida como cruz de São João, a cruz ancorada, a cruz patonce, intermediária entre a cruz pátea e a florenciada, a cruz pátea, a cruz de Cantuária associada com a Igreja da Inglaterra, a cruz armênia, a cruz bordonada, a cruz potenteia, a cruz de Lorena, a cruz quadrática, que sofre de obesidade mórbida, a cruz românica de consagração, a cruz oca, que é uma cruz grega também conhecida como Gammadia, a cruz tetragâmica ou cruz Sérvia, a cruz de Santo André, a cruz nórdica ou cruz escandinava, a cruz ansata – tem cruzes à beça e à bessa, umas bonitas, outras horríveis. Vale consultar o Google.

Ficou faltando a cruz (aflição) do humor, que não tem representação gráfica porque é a cruz dos que se metem a escrever colunas de humor diárias, semanais ou mensais, com a obrigação de fazer graça e de tentar que o leitor ache graça. Normalmente o resultado é pavoroso e deveria ser proibido por lei. Engraçada é a reação dos cavalheiros que apitam nas redações de revistas e jornais: se o contratado faz uma coluna de humor, deve ter graça, portanto deixa pra lá pra ver como é que fica.
Antoine de Saint-Exupéry constatou: Seul l’esprit, s’il souffle sur la glaise, peut créer l’homme. Basta trocar l’homme por l’humoriste para constatar que só o espírito, soprando sobre o barro, pode criar um Twain, um Millôr, um Marquês de Maricá, um Barão de Itararé.

Oportunosa ensancha
Aproveito a edição de hoje, dia 25 de dezembro, para desejar sinceramente, ab imo pectore, aos leitores e a todos os que lhes são caros um ótimo Natal e um glorioso 2015. A situação vai melhorar, deve melhorar, tem que melhorar, até porque não pode piorar. E o pior é que pode: pense no Estado Islâmico, no Afeganistão, no Paquistão, na Venezuela, na Argentina, no México. Bimbalhemos os sinos, caro e preclaro leitor. Bimbalhando, pensemos num 2015 livre de boa parte das mazelas que nos afligem. Saúde e paz!

O mundo é uma bola
25 de dezembro de 800: Carlos Magno é coroado imperador pelo papa Leão III, dando início ao Sacro Império Romano-Germânico, cuja linha contínua de imperadores começou em 962, com Oto, o Grande. No ano 1000, é fundado o Reino da Hungria por Estêvão I. Em 1066, Guilherme da Normandia é coroado rei da Inglaterra na Abadia de Westminster. Em 1104, Constança de França divorcia-se de Hugo I, de Champagne, Troys e Blois, ao descobrir que ele tinha uma Rose. Dois anos depois, Boemundo I de Antioquia se casou com ela, que pariu Boemundo II de Antioquia. Que se pode esperar de uma senhora que se casa com um Boemundo? Que se pode esperar de uma senhora que se divorcia só porque seu marido e senhor tem uma Rose? Na capital de um estado muito conhecido nosso não restaria sem divórcio um só matrimônio entre os ricos e famosos se as senhoras seguissem o mau exemplo de Constança de França, que devia ter piolhos à beça e à bessa, banhando-se uma vez por ano. Mas hoje é Natal, dia de boas notícias. Li por aí que em 2015 teremos feriados a montões e a mancheias.

Ruminanças

“Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade / Nem veio, nem se foi: o Erro mudou. / Temos agora outra Eternidade. / E era sempre melhor a que passou.” (Fernando Pessoa, 1888-1935).

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Família - Eduardo Almeida Reis

Família é tudo aquilo que a gente chama de família. E não se fala mais nisso


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 24/12/2014



Em nosso idioma desde o século XIII, o substantivo feminino família veio do latim familìa,ae, que significava “servidores, escravos, séquito, casa, família”. Não me lembro quem foi que disse que “definir é limitar”, verdade que pode ser vista nas várias famílias que vemos por aí: de tipos, conjugal, de orientação, de palavras, de procriação, elementar, etimológica, extensa, ideológica, léxica, linguística, natal, nuclear, radioativa, a Santa Família e o fato de ser família, isto é, ser honesto, recatado.

Fernando Sabino, brilhante cronista, disse que crônica é tudo aquilo que a gente chama de crônica. Sua definição nos serve: família é tudo aquilo que a gente chama de família. No Congresso Nacional de um país grande e bobo há dois projetos de lei (PL) que vêm dando pano para mangas, um Estatuto da Família e um Estatuto das Famílias, nomes parecidos para propostas diferentes.
Na Câmara tramita o PL 6.583/13, Estatuto da Família, relatado pelo deputado Ronaldo Fonseca (PROS-DF), que define família como o núcleo formado a partir da união entre homem e mulher por meio de casamento, união estável ou comunidade formada pelos pais e seus descendentes. No Senado tramita o Projeto de Lei Suplementar (PLS) 470/13, Estatuto das Famílias, que reconhece a relação homoafetiva como entidade familiar revendo o instituto da união estável e ampliando sua conceituação.

A partir daí a briga é muito divertida envolvendo bancada evangélica, bancada gay, bancada enrustida e outras bancadas, como se o país não tivesse centenas de coisas mais importantes com que se preocupar: PIB, violência, roubalheira, saúde, miséria, seca e os demais problemas que o leitor conhece de cor. Daí a sugestão que faço, com pureza d’alma, para adotarmos a definição de Fernando Sabino, mineiro de Belo Horizonte, amigo de infância de Ivo Pitanguy, tio de June Sabino: família é tudo aquilo que a gente chama de família. E não se fala mais nisso.

Dinamarca
Shakespeare (1564-1616) em Hamlet, sua peça mais estudada e representada até hoje, caprichou: “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, Ato I, Cena IV. A fotógrafa Benita Marcussen, de Copenhagen, na Dinamarca, que ainda é um reino, mostrou que a maluquice continua adiantada em seu país. Não basta ser maluco, é preciso mostrar a maluquice. Benita divulgou uma série de fotos baseada na vida de homens que vivem com bonecas de silicone, como informou o Daily Mail.
Com cabelos brilhantes e sedosos, maquiagens pesadas e peles perfeitas, as bonecas, em alguns casos, substituem a mulher na existência de homens dinamarqueses, que levam um estilo de vida diferente e inusitado (sic). A matéria vem com as fotos, como vi no provedor Terra e não tenho como estampar aqui, mas os dinamarqueses embonecados vêm com pseudônimos.

A fotógrafa conheceu esses homens através de fóruns na internet. Alguns têm na boneca a única companhia. Outros são casados e têm filhos. Há ainda aqueles que perderam um ente querido e usam a boneca para aliviar a dor da perda. Shadowman (pseudônimo) dorme ao lado de sua boneca Carly. Ela tem a pele mais macia e foi feita justamente para ser uma boneca companheira de cama. Shadowman é viúvo e usa a boneca para amenizar a falta que a mulher lhe faz.

Embora tenha muitos homens, a exposição de fotos também conta com mulheres que compram bonecas. Angela comprou a boneca Anna em 2014 e diz que, desde então, ela é a sua melhor amiga. Kharn, à direita numa foto em que aparece com os seus pais, tem 56 anos e encomendou a boneca Alektra baseado em uma atriz de filmes adultos norte-americanos. Kharn é divorciado há 20 anos e diz que não trata Alektra como namorada, mas gosta de tirar fotos ao lado da boneca. Afirma ainda que está à procura de um “verdadeiro amor”.

Depois que perdeu a mulher de câncer, Deerman diz que tentou conhecer outra companheira, mas não conseguiu esquecer a falecida. Por isso, comprou uma boneca semelhante a ela e vive a seu lado relembrando os momentos em que a mulher estava viva. A série Men & Dolls está em exposição na Dinamarca. As bonecas custam cerca de mil libras, algo como R$ 4 mil, e podem ser feitas sob encomenda, com as características escolhidas pelo maluco.

O mundo é uma bola

Oba!, véspera de Natal, é noite de reencontrar sua família, que deve ter, como todas as outras, primos chatos, tias complicadas, avós senis: ninguém escapa. Se há inventário, então, é hora de reencontrar inimigos ligados pelo sangue. No dia 24 de dezembro de 640 foi eleito o papa João IV. Em 1294 foi eleito o papa Bonifácio VIII. Em 1734 foram publicadas as Cartas Filosóficas de Voltaire, pensador supimpa. Em 1768 fundação em Lisboa da Imprensa Régia. Em 1779 a rainha Maria I funda a Academia Real de Ciências de Lisboa. Em 1878 elevação de Guarapari à categoria de município para alegria da mineiridade, que curte férias praianas dormindo em colchonetes e fazendo fila para comprar água mineral. Hoje é o Dia do Órfão.

Ruminanças
“Se não tivéssemos orgulho, não nos queixaríamos do orgulho dos outros” (La Rochefoucauld, 1613-1680).