sábado, 3 de janeiro de 2015

ARNALDO VIANA » Seja feliz, 2015!

Estado de Minas: 03/01/2015




2015 acaba de chegar. Tem em mãos malas de recheio incógnito, bolsas de conteúdo advinhável, ou nem tanto. Está aí aos olhos de quem o vê. Toma lugar no mundo. Limpa o suor do rosto. A transição com 2014 não foi fácil. Um se foi, xingado daqui, elogiado de lá. Levou na bagagem realizações e decepções. O outro chegou, sob desconfiança e esperança. Os anos são assim: chegam cheios de expectativa e se vão com as constatações. Há quem o quis bom e o teve ruim. Há quem o esperava sem ilusões e o teve gratificante.

2015 está aí, sentado, esperando decisões. Ele não tem as rédeas do planeta, das sociedades, das regras, das normas, das ações. Está apenas de passagem, por 365 dias. Mesmo sabendo-o assim, inepto, a humanidade deposita nele desejos, sonhos. A humanidade? Não é sensato generalizar. Há quem o receba naturalmente, apenas como uma passagem de tempo, sem condicioná-lo à vivência. Então, se 2014 foi aquilo, se 2015 vai ser isso, depende dos olhos de quem o vê.

Se 2015, assim como 2014 e os 2013 anos anteriores, não tem poder de decisão, quem o tem? O homem, sim, o tem. É o dono da bola. É quem cria, desfaz, transforma, resolve, muda, destrói. Uma voz solta na multidão diz que só há um jeito de a humanidade se despedir de 2015, daqui a 362 dias, com um sorriso nos lábios: fazendo dele um ano feliz. Então, é assim, em vez de se esperar do novo ano a felicidade, o que se deve fazer é torná-lo feliz, como prega a voz das ruas? Pode ser. Mas é preciso que haja consenso, consentimento de 7 bilhões de seres, ou pelo menos da maioria.

2015, fato é, está de passagem. Esperando atitudes, para o bem ou para o mal. Quem vai resolver caminhar por um lado ou por outro é a humanidade, notadamente ignorante para uma convivência pacífica e quase suficientemente sábia para se transformar e chegar feliz a 2016. A questão é que o homem suspira, duvida de si: “Ah, mas há tanto a fazer...” A voz das praças e das esquinas prega o que não faz. Espera o milagre em vez de realizá-lo

É assim. A voz dos botecos, das padarias, das farmácias, dos supermercados, dos shoppings, dos ônibus, dos restaurantes, dos táxis, dos escritórios, das fábricas e dos gabinetes diz e se contradiz sobre o novo ano e suas responsabilidades. Mas 2015 avisa que não adianta se valer de mantras, banhos de ervas, benzeções, orações, pé esquerdo ou pé direito, sementinhas, bicho que cisca para trás ou pra frente se não houver aquiescência a uma mudança que leve à paz e a uma sociedade que compartilhe somente o que cria, gera e produz de melhor. Talvez seja esse o princípio do caminho da felicidade. Será? Quanto às realizações pessoais, isso, como diz um velho pescador, um simplório barranqueiro, “é de acordo com a faculdade de cada um”. A faculdade de pensar, claro. Por aí!

Parabéns do Negão: À Prefeitura de BH, que não deu ouvidos ao presidente daquela ONG, que diz ser o macaco símbolo de racismo e ao Ministério Público, que endossou a bobagem. O zoológico manteve a votação popular e o público batizou o filho de Imbi e Lou Lou. O nome do moleque é Jahari, “forte e poderoso”, como dizem os irmãos de África. Que vivam todos, homens e macacos, sem medo um do outro!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Monte Castelo - Eduardo Almeida Reis

Considerando que não tinha visto um alemão nem de longe, desceu antes da tropa, mas foi descoberto e saudado como principal destruidor dos exércitos de Hitler


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 02/01/2015




A comemoração dos 70 anos da Batalha de Monte Castelo, na Itália, quando os pracinhas brasileiros enfrentaram exércitos alemães, me lembra história contada pelo Pinheirinho, colega de trabalho num banco do Rio, excelente patrício, dono de um Buick verde, que me dava carona para Copacabana. Viajou para a Itália como segundo-tenente da FEB, teve apendicite supurada no navio, foi internado num hospital norte-americano e só teve alta depois que a guerra terminou.

Voltou fardado no navio que trouxe os heróis aguardados por “milhões” de patriotas no porto do Rio de Janeiro. Envergonhado de desembarcar com os combatentes, considerando que não tinha visto um alemão nem de longe, desceu antes da tropa e procurou sair escondido da multidão, mas foi descoberto e saudado como principal destruidor dos exércitos de Hitler.

Cautela
O turfe inglês tem o ditado “compre o craque, não o irmão do craque” circulando nos hipódromos há séculos, quando os turfistas constataram que o cavalo pode ser irmão inteiro (de pai e mãe) de um craque, criado no mesmo haras, sem que seja um craque. Fenômeno genético facílimo de explicar. Vejo na Wikipédia que o termo genética foi aplicado pela primeira vez em abril de 1908 para descrever a fisiologia da hereditariedade e da variação pelo cientista William Bateson numa carta que escreveu a Adam Sedgewick.

No turfe brasileiro, tivemos o caso do craque Goyo, vendido quando potro a um banqueiro pela família Paula Machado. O animal era reservado para correr com a farda do Haras São José & Expedictus, mas o banqueiro insistiu e a família Paula Machado concordou com a venda, porque tinha no haras um irmão inteiro do potro. Resultado: Goyo foi um craque e seu irmão inteiro nunca venceu uma corrida.

O Brasil vem-se especializando no indiciamento de irmãos de craques na política – atividade que não significa virtude, mas capacidade de ocupar altos cargos públicos. Ministros, por exemplo, são auxiliares diretos dos supremos mandatários das nações. Ministro de Estado é o cidadão escolhido e nomeado pelo presidente da República para chefiar um ministério. Recentemente, vimos três irmãos de ministros caçados por malfeitos pela Polícia Federal.

Todo animal é o resultado de seu patrimônio genético e do ambiente em que foi criado. Vacas holandesas de inmejorable pedigree, criadas na meseta mexicana, mal produziam dois litros de leite por dia. Explicação: ambiente desfavorável. Se a genética faz que o irmão do craque não seja necessariamente um craque, o ambiente pode produzir irmandades que, salvo melhor juízo, devem ser evitadas.

O mundo é uma bola


2 de janeiro de 533: Mercúrio é proclamado papa. Como seu nome evocava um deus pagão, passou a chamar-se João II. Foi o 56º papa e pontificou durante dois anos, sendo sucedido por Agapito I. Esqueci-me de dizer que, no dia 2 de janeiro de 366, os alamanos cruzaram o Rio Reno e invadiram o Império Romano. Alamanos eram povo germânico ocidental, o povo de todos os homens como diziam os romanos, mas eles preferiam chamar-se de suábios.

Em 1492, a Queda de Granada marcou a Reconquista em que os Reis Católicos recuperaram todas as terras que os mouros ocupavam na Península Ibérica. Em 1920, nasceu Isaac Asimov, escritor e bioquímico russo naturalizado americano, um dos maiores QIs de que se tem notícia.

 Ruminanças


“Inteligência é a faculdade de conhecer, compreender e aprender, faculdade que todos nós pensamos ter mais que os outros” (R. Manso Neto). 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Capivarol - Capivarol II - Eduardo Almeida Reis



Capivarol

Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas : 31/12/2014


Muita gente foi tratada com o Tônico Capivarol inventado em Juiz de Fora pelo farmacêutico Barbosa Leite, composto de catuaba, guaraná e óleo de capivara: “Sonhei com Nossa Senhora Aparecida e ela me mostrou um vidro de remédio para maleita. Graças a Deus minha filha melhorou” disse uma dona de casa do interior do Maranhão, depoimento que faz parte do texto publicitário do Tônico Capivarol, publicado no Almanaque Capivarol de 1933.

O elixir de extrato de óleo de capivara iodo-fosfatado era recomendado pelo fabricante: “Ótimo medicamento para tuberculose em 1º grau e todas as moléstias ocasionadas pelo depauperamento orgânico, escrófulas, raquitismo, reumatismo e sífilis, anemia, debilidade, moléstias nervosas etc.”

Parece que o remédio ainda é fabricado no Rio pela Farmabraz Beta Atalaia. Quando tive uma porção de malárias morava em Juiz de Fora, mas ninguém sonhou com Nossa Senhora Aparecida e fui salvo por outros medicamentos. O Capivarol veio à balha, mais chique do que vir à baila, diante da notícia publicada em nossa edição de 22 de novembro sobre as “graciosas” capivaras, que continuam atenazando os frequentadores da Pampulha, justamente apavorados com o risco de contraírem a febre maculosa brasileira, doença transmitida pelo carrapato-estrela Amblyomma cajennese infectado pela bactéria Rickettsia rickttsii, carrapato encontrado em animais de grande porte, como bois e cavalos, cães, aves domésticas e, especialmente, na capivara, o maior de todos os reservatórios naturais. Não existe transmissão da doença de uma pessoa para outra.

São Paulo, Minas, Rio, Espírito Santo, Bahia e Pernambuco lideram no Brasil os casos de febre maculosa. Não existe vacina. Na maioria dos casos, os primeiros sintomas aparecem sete dias depois da picada do carrapato-estrela. A doença começa abruptamente com um conjunto de sintomas semelhantes aos de outras infecções: febre alta, dor no corpo, dor de cabeça, inapetência, desânimo. Depois, aparecem pequenas manchas avermelhadas, as máculas, que crescem e se tornam salientes, constituindo as maculopápulas. A erupção cutânea é generalizada e também se manifesta nas palmas das mãos e nas plantas dos pés. O diagnóstico precoce é importante para dar início ao tratamento porque – prestem atenção os defensores das capivaras da Pampulha – A TAXA DE LETALIDADE DA DOENÇA É ELEVADA.

Claro que estou resumindo a lição do Dr. Drauzio Varella, que copiei via Google. Um tiquinho de suspense dá sabor às crônicas do philosopho. Por isso, deixo para concluir o palpitante assunto na edição de amanhã, para começar bem o ano de 2015.

Estelionato religioso
Maior cidade do Brasil, São Paulo tem fascínio pelos falsos sacerdotes católicos e pelos verdadeiros pastores evangélicos, tanto assim que o piedoso bispo Edir Macedo Bezerra, nascido em Rio das Flores (RJ) não escolheu a cidade fluminense para construir o seu Templo de Salomão: preferiu São Paulo.

Tempos atrás, soubemos que a arquidiocese paulista considerou válidos os casamentos, batizados, comunhões e missas celebrados durante dois anos pelo falso padre Marcos Rodrigues Fontana, condenado por estelionato em São Paulo. Falante e articulado, ele atuou durante dois anos na Paróquia São Pedro e São Paulo, situada no Jardim Guedala, Região do Morumbi, aproveitando para tomar dos fiéis cerca de R$ 200 mil emprestados, além do pagamento pelas cerimônias que oficiava. Melhor que isso: condenado a um ano e dois meses de reclusão, a pena foi substituída pela prestação de serviços à comunidade, isto é, serviços parecidos com aqueles que prestava no Jardim Guedala.

Mas recentemente, a pauliceia encantou-se com alemão Wolfgang Schuler, de 70 anos, cabelos e cavanhaque brancos, que se diz cardeal nomeado pelo Vaticano para “investigar irregularidades no clero”. Não pede dinheiro, bom sinal. Também se apresenta como monge cartuxo e usa a falsa identidade do bispo de Onasbrück, Alemanha, dom Franz-Joseph Bode. Existe a diocese de Onasbrück e seu bispo de fato se chama Franz-Joseph Bode, mas sua foto é diferente do picareta, mostrando que há Bodes e Bodes.

Passando por Salvador (BA), como André Von Hohenzollern, chegou a celebrar missas e se hospedou em mosteiros da capital baiana apresentando-se como arcebispo polonês. Foi preso, extraditado para a Alemanha, voltou para o Brasil e deve ser extraditado outra vez. Um figuraço que, aparentemente, não faz mal a ninguém.

 O mundo é uma bola
31 de dezembro de 406: os vândalos cruzam o Reno para invadir a Gália. Hoje, preferem quebrar as lojas para roubar televisores e computadores. Em 1502, para se livrar dos seus inimigos, Cesar Bórgia convida-os para seu palácio de Senigallia e os assassina.

Cesare Borgia (1475-1597), Duca Valentino, foi príncipe, cardeal e nobre italiano. Abandonou a carreira religiosa para tornar-se guerreiro, casou-se com a francesa Charlotte de Albret e teve com ela uma filha, Luisa Bórgia. Conviveu com figuras como Leonardo Da Vinci e Nicolau Maquiavel, não muito amigos de sua família, e chegou a prender Da Vinci para que construísse armas para o seu exército. Seu poder e influência enfraqueceram depois da morte de seu pai, o papa Alexandre VI, sucedido pelo papa Júlio II, inimigo dos Bórgia. Foi preso, mas escapou da prisão e foi morto em batalha na cidade de Viana, Espanha. Hoje tem réveillon. Feliz ano-novo para você e todos os que lhe são caros.

Ruminanças
 “Ai de nós, os anos fogem rápidos” (Horácio, 65-8 a.C.).

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Capivarol II 

Meia dúzia de caçadores, com seus barcos e cachorros, solucionam o problema das capivaras da Pampulha numa só noite


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 01/01/2015 04:00


Na coluna de ontem, cuidávamos da febre maculosa brasileira transmitida pela picada do carrapato-estrela. A infestação desses carrapatos era muito grande nos jardins da fazenda de Candinha e Joaquim Guilherme da Silveira, vizinhos e queridos amigos nossos. A meu pedido, a Cooper-Welcome enviou seu melhor especialista em carrapatos para solucionar o problema, um veterinário português nascido em Angola, que apareceu com a mulher e dois filhos para passar o final de semana. Solucionou o problema e nos ensinou que o cavalheiro ou a dama, ao retirar um carrapato agarrado a sua pele, não deve puxar, deve torcer o ácaro. O ectoparasita hematófago é fascinante: basta dizer que a fêmea nasce virgem e o macho não tem pênis, mas tem nariz. E o negócio vai por aí, mas estou cuidando da febre maculosa, que tem cura desde que o tratamento com antibióticos (tetraciclina e cloranfenicol) seja introduzido nos primeiros dois ou três dias. O ideal, diz Drauzio Varella, é manter a medicação por 10 a 14 dias, mas logo nas primeiras doses o quadro começa e regredir e evolui para a cura total.

Precisamos torcer para o médico cubano entender de carrapatos, porque o atraso no diagnóstico e, consequentemente, no início do tratamento pode provocar complicações graves como o comprometimento do sistema nervoso central, dos rins e pulmões, das lesões vasculares e levar a óbito. Portanto, evite o contato com os carrapatos. Se estiver numa área como a Pampulha, em que eles podem existir graças à imbecilidade dos defensores das capivaras num lago urbano, Drauzio recomenda as seguintes precauções: examine seu corpo cuidadosamente a cada três horas, porque o carrapato-estrela só transmite a bactéria responsável pela febre maculosa depois de pelo menos quatro horas grudado na pele.

Use roupas claras porque permitem ver melhor os carrapatos. Ponha a barra das calças dentro das meias e calce botas de cano mais alto nas áreas que possam estar infestadas de carrapatos, como na Pampulha das capivaras protegidas. Retire, torcendo, o carrapato grudado em sua pele. Não se esqueça de que os primeiros sintomas da febre maculosa são semelhantes aos de outras infecções e requerem assistência médica imediata, de boa qualidade, diz aqui o philosopho, que aproveita esta oportunosa ensancha para philosophar: meia dúzia de caçadores, com seus barcos e cachorros, solucionam o problema das capivaras da Pampulha numa só noite.

Conheço o posto de gasolina onde se reúnem e já me prestaram serviço semelhante, quando capivaras resolveram roer os troncos das seringueiras que plantei por lá. Na Pampulha, autorizados pelo prefeito Marcio Lacerda, resolvem o problema. Basta que os moradores fiquem em suas casas protegidos pelas paredes e que o trânsito de pessoas e automóveis seja proibido durante seis horinhas numa noite.

Nomes

Adarico Negromonte Filho, nome bonito, original, indicativo do que vai por aí. Ada vem de Áda ou Adá, de uma raiz semítica que dá ideia de “ornamento, beleza”. Aparece em Plutarco, Vida de Alexandre, como pertencendo a uma rainha da Cária, região da Ásia Menor. Rico, adjetivo ou substantivo masculino, que ou aquele que possui muitos bens, muito dinheiro e/ou muitas coisas de valor. Como dinheiro das empreiteiras e da Petrobras para distribuir em espécie pelos políticos. Negromonte é monte politicamente incorreto, enquanto Filho é sinal de que há famílias que não se conformam com o primeiro Adarico.

Irmão de ex-ministro petista, Adarico Filho está tranquilo: tem 70 anos, advogada e residência fixa num país grande e bobo: só fazia transportar envelopes lacrados cheios de papel-moeda. Absque argento omnia vana, diziam os latinos: sem dinheiro, tudo é vão. Engraçado, diz aqui o philosopho: tenho visto o lexema Vana escrito por aí.

 O mundo é uma bola

1º de janeiro é o Dia Mundial da Paz, além de Dia da Fraternidade Universal, sendo por isso um feriado adotado por quase todos os países. Neste dia, tomam posse os presidentes do Brasil e da Suíça, sendo que no Brasil também tomam posse os governadores. Há mais de um mês, os jornais disseram que Renan Calheiros, presidente do Senado, pretende assistir à posse de Renan Filho no governo de Alagoas. Sua excelência caiu muito no meu conceito, como se fosse possível cair ainda mais. O amor paterno é sentimento nobre e universal. Brasileiro que ama seu filho não permite que ele se candidate ao governo de Alagoas.

Em 46 a.C., entra em vigor o Calendário Juliano. No ano 69, as legiões romanas do Reno se recusam a jurar lealdade a Galba, Lucius Livius Ocella Servius Sulpicius Galba (3 a.C.-69), que foi imperador romano de 8 de junho de 68 até a sua morte. Foi o primeiro imperador romano de 69, conhecido como o ano dos quatro imperadores.

Em 630, o profeta Maomé parte com seus exércitos para capturar a cidade de Meca. Em 1502, navegadores portugueses exploram a Baía de Guanabara e a confundem com a foz de um rio, daí o Rio de Janeiro, nome da segunda cidade mais populosa do Brasil. Em 1600, o Calendário Juliano entra em vigor na Escócia. Em 1727, fundação da cidade de Cuiabá (MT), onde faz calor de verdade. As cuiabanas têm sotaque delicioso: “Viadjante tchega de fora, tchupa, tchupa a boca da djente que nem cadju”.

 Ruminanças

“A verdadeira liberdade é poder tudo sobre si” (Montaigne, 1533-1592).

Mineiro VISIONÁRIO

Desenhista inovador, Alceu Penna fez a cabeça das brasileiras por 30 anos e era admirado por Millôr Fernandes e Walt Disney. O centenário de nascimento do artista é comemorado hoje


Ana Clara Brant
Estado de Minas: 01/01/2015



Artista atento às sutilezas do universo feminino, Alceu Penna trabalha em seu estúdio, em 1962 (Flávio Damm/O Cruzeiro)
Artista atento às sutilezas do universo feminino, Alceu Penna trabalha em seu estúdio, em 1962


Quando Alceu Penna nasceu, 1915 mal havia começado. Há exatamente um século, o casal Mercedes e Christiano dava à luz, em Curvelo, na Região Central do estado, o quarto de seus 11 filhos. Aquele bebê ficaria famoso: tornou-se referência do desenho brasileiro, destacou-se na moda e era admirado por Carmen Miranda, Millôr Fernandes e Walt Disney.

Desenhista, ilustrador e figurinista, o mineiro foi um dos pioneiros dos quadrinhos no país. Em linguagem HQ, adaptou clássicos da literatura para as páginas de jornal. De 1938 a 1964, sua coluna “As garotas”, publicada na revista O Cruzeiro, fez a cabeça das jovens brasileiras ao revelar nova visão da feminilidade e do corpo da mulher. Como estilista, assinou figurinos de famosas montagens do Cassino da Urca, no Rio de Janeiro.

Criança, Alceu costumava desenhar com um giz de alfaiate nas calçadas de Curvelo. “Nos tempos de colégio interno em São João del-Rei, ele aprontava com suas ilustrações”, conta a sobrinha-neta Gabriela Penna, estudiosa da obra do tio. “Há um caso curioso daquela época: o Alceu estava desenhando mulheres nuas e os colegas, receosos, avisaram que professores estavam chegando. Ele brincou: ‘Calma, gente, na hora em que eles chegarem, as moças já estarão vestidas.’ Alceu sempre teve esse humor, essa sagacidade. Era muito interessante”, observa.

Em 2010, Gabriela lançou o livro Vamos, Garotas!, que analisa a coluna publicada em O Cruzeiro e o universo juvenil carioca dos anos 1930 a 1960. O estudo mostra como o corpo e a moda se aproximam da realidade social conservadora daquele período e de que forma se desvencilham dela em direção a um outro paradigma feminino.

“Fiquei encantada com ‘As garotas’, elas podem ser consideradas as primeiras pin-ups brasileiras. A linguagem visual era muito parecida: olhos grandes, boca carnuda e marcada, aquele contorno do corpo similar e pegada meio voyeur”, compara Gabriela. As meninas de Alceu traziam um toque sensual e, ao mesmo tempo, uma dose de recato, pois eram publicadas em revista de circulação nacional voltada para a família. “Alceu conseguia manter esse equilíbrio bem orquestrado”, frisa. Paralelamente, as belas jovens surgiam com menos roupas e maduras nas folhinhas distribuídas pela empresa Moinho Santista.

As ilustrações de “As garotas” contavam com colaborações preciosas – inclusive de Millôr Fernandes, um adolescente de 17 anos. “Ele chegou a ser arte-finalista, admirava muito o meu tio, considerava-o um gênio, um mito. No meu livro, há um depoimento muito bacana do Millôr contando como dava acabamento à coluna, mas morrendo de medo de colorir e estragar o desenho do Alceu. Era uma tremenda responsabilidade. Anos depois, Millôr se tornou um dos redatores: usava até pseudônimo”, diverte-se Gabriela.

A sensualidade das garotas bem-comportadas, em O Cruzeiro (Arquivo O Cruzeiro)
A sensualidade das garotas bem-comportadas, em O Cruzeiro


BELAS-ARTES

Nos anos 1930, Alceu deixou Minas, mudou-se para o Rio de Janeiro e foi estudar na Escola Nacional de Belas-Artes (Enba). Assinou suas primeiras criações como estilista e figurinista para shows e espetáculos teatrais, além de se dedicar à decoração e à criação de fantasias para bailes de carnaval. Nessa época, ficou amigo de Carmen Miranda, tornando-se uma espécie de consultor informal de moda da estrela.

“Ele deu sua contribuição à estética da Carmen. Os dois se conheciam desde o tempo dos cassinos. Alceu chegou a desenhar figurinos para shows e filmes dela, inclusive em Hollywood”, destaca Gabriela Penna. O mineiro criou turbantes, saias coloridas e sapatos de solado grosso para a brazilian bombshell. Walt Disney admirava tanto talento. Nos anos 1940, quando o produtor e diretor norte-americano veio ao Brasil lançar o filme Fantasia, Alceu foi uma das pessoas designadas pelo Itamaraty para recepcioná-lo. Disney se impressionou tanto que o convidou para trabalhar nos Estados Unidos.

“Meu tio acabou não aceitando, porque preferia ser alguém aqui no Brasil a apenas mais um nos States. Quem me contou essas histórias foi a minha tia-avó Thereza, muito próxima do irmão e uma espécie de arquivista do Alceu. Os dois moravam juntos, ela testemunhou muita coisa”, diz Gabriela, que se dedica ao doutorado sobre o processo de criação do tio-avô.

A ousadia das garotas invade os calendários criados por Alceu Penna (Arquivo O Cruzeiro)
A ousadia das garotas invade os calendários criados por Alceu Penna


RHODIA

O universo fashion brasileiro deve muito a Alceu Penna, o homem que ditava moda para as cariocas nos anos 1940 e 1950. Na década de 1960, ele criou modelos para os famosos desfiles da Companhia Rhodia, que lançavam tendências. O estilista, que chegou a vestir a Miss Brasil Martha Rocha, foi um dos precursores do desenho de moda no Brasil. Viajava periodicamente para a Europa, trazia ideias de lá.

“Os desfiles da Rhodia eram verdadeiros espetáculos. Quando viajava, ele acabava convivendo com os principais nomes da moda, como Givenchy e Balenciaga. Além de trazer as novidades fashion para o Brasil, ele as adaptava para a nossa realidade. Alceu Penna foi pioneiro nesse sentido”, conclui Gabriela.