quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Alerta - Eduardo Almeida Reis

Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 08/01/2015 




No dia em que levei os móveis para o meu primeiro apartamento, um pequeno duplex de 94m2 e segunda mão, comprado com financiamento da Caixa, fui almoçar no badalado restaurante Nino, de Copacabana, e pedi filé de linguado à belle meunière. Nunca fui amigo de peixes, mas o dia era festivo e o linguado desceu bem. Como sabe o leitor, ou devia saber se consultasse a Wikipédia, linguados nascem como peixes normais, com um olho em cada lado da cabeça. Conforme crescem, aderem à condição dextrógira ou levógira, similar às pessoas canhotas e destras. Legógiros são aqueles com migração do olho para o lado esquerdo da cabeça durante seu desenvolvimento, e dextrógiros são aqueles com migração do olho para o lado direito da cabeça. É espécie de grande valor comercial. Houaiss, que era gourmet, disse que os olhos do linguado ficam do lado esquerdo da cabeça. Daquele dia para cá, transcorridos quase 100 anos, devo ter comido linguados duas ou três vezes, mas dei beijos linguados a montões e a mancheias, porque fui muito beijoqueiro.

Eis, senão, quando, bumba! – recebo e-mail de um amigo, membro titular da Academia Brasileira de Medicina Veterinária, alertando sobre o “linguado” que está sendo vendido nos supermercados portugueses e talvez esteja à venda nos brasileiros. Um cavalheiro expert em alimentos estranhou o peixe que botou em seu prato num restaurante self-service.

Ao abrir a posta do peixe, notou que estava impregnada de filamentos. Retirou uma amostra e levou para análise, quando constatou que os filamentos, na verdade, eram vermes de até dois centímetros de comprimento. Procurou informar-se e descobriu que se tratava de peixe panga ou peixe-gato, um peixe asiático de água-doce proveniente de rios extremamente poluídos de excrementos, dejetos e toda sorte de poluição biológica, física e química devida, entre fatores diversos, à maciça ocupação dos barcos que servem de moradia a pessoas carentes de serviços sanitários. As pessoas que vivem por lá têm nojo dos peixes que vivem naquelas águas, enquanto os especuladores conseguem realizar farta pescaria para vender seus produtos pelo mundo.

Filés muito branquinhos, congelados, sem espinhas podem ser encontrados nos supermercados. O sabor não é dos melhores e a pesquisa feita pelo expert levou-o ao blog de Isa From Aveiro, de Aveiro, Portugal, onde viu que o panga é um peixe de cultura intensiva/industrial no Vietnã, mais exatamente no delta do Rio Mekong, que invade os mercados devido ao seu baixo preço.

Os pangas estão infestados de venenos e bactérias, arsênico dos efluentes industriais, metais pesados, bifenilos policlorados (PCB), DDT e seus DDTs, cloratos e compostos relacionados (CHLs), hexaclorocicloexano isômeros (HCHs) e hexaclobenzeno (HCB). O Rio Mekong é dos mais poluídos do planeta e nele os americanos, na Guerra do Vietnã, teriam despejado o “agente laranja”, desfolhante e cancerígeno.

Os pangas são alimentados com restos de peixes mortos, ossos e solos secos (?) transformados numa farinha com mandioca e resíduos de soja e grãos. Nessas condições, crescem quatro vezes mais depressa que na natureza e suas fêmeas, com injeções de hormônios femininos derivados da desidratação de urina de mulheres grávidas, passam a produzir aproximadamente 500 mil ovos de uma vez. Basicamente, são peixes produzidos com hormônios injetáveis fabricados por uma empresa farmacêutica chinesa para acelerar o processo de reprodução e crescimento.

Nota: depois de inteirar as 540 palavras acima fui ao Google e descobri que o alerta sobre o peixe panga deve ser falso. Claro que não vou perder um trabalho, que me custou duas horas, só porque o aviso é fake. Espero que o leitor tenha ficado assustado e dê preferência ao verdadeiro linguado, que é gostoso e muito caro.

O mundo é uma bola

8 de janeiro de 1198: eleição do papa Inocêncio III, nascido Lottario dei Conti di Segni, de família nobre italiana. Inocêncio convocou o IV Concílio de Latrão, o mais importante da Idade Média, de grande relevância em diversos campos teológicos. Foi contemporâneo de São Francisco de Assis e é conhecido por ter aprovado sua recente ordem religiosa, como também é lembrado por sua defesa do primado papal. É possível, como também é provável que tenha inspirado o batismo de ilustre político nordestino, o médico Inocêncio de Oliveira (PR-PE).

Em 1297, independência de Mônaco, só recentemente consolidada quando passou a residir no principado o doutor Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno, amigo do nosso Jaeci Carvalho. Em 1805, a Colônia do Cabo, na África do Sul, torna-se colônia britânica 208 anos antes do pranteado e interminável enterramento de Nelson Mandela. Em 1889, Herman Hollerith patenteou sua máquina de tabulação, que foi usada pela primeira vez para compilar os dados de um recenseamento. Os leitores menos jovens estão decerto lembrados que holerite, substantivo feminino, era sinônimo de contracheque no tempo de antigamente: documento que comprova o depósito dos vencimentos de um funcionário em sua conta bancária, ou que o habilitava a receber na tesouraria.

Em 1963, di-lo a Wikipédia, “é adoptada a bandeira do estado de Minas Gerais”, o que faz deste 8 de janeiro um dia importante como evento vexilológico. Hoje é o Dia do Fotógrafo e da Fotografia.

Ruminanças


“O Brasil corre o risco de ficar obsoleto antes de ficar pronto” (Claude Lévi-Strauss, 1908-2009).

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

MARTHA MEDEIROS - Ela, a incorruptível

Zero Hora 07/01/2014

Terminamos 2014 sentindo vergonha do país e, ao mesmo tempo, com esperança. Vergonha pela roubalheira que veio à tona como nunca antes, mas, por outro lado, com esperança de que as acusações e punições amedrontem os que simpatizam com a prática de pagar por benefícios ilegais e de embolsar dinheiro indevido. Esperança de que essa exposição espalhafatosa dos podres do governo e de outras camadas da sociedade intimide os audazes corruptores da nação e que eles pensem duas vezes antes de continuar metendo a mão no que não lhes pertence, como fazem há séculos.
É o que nos resta: contar com a covardia deles. Estando a impunidade menos garantida, talvez já não arrisquem tanto em suas gatunagens. E deduzam o óbvio: por mais que roubem, nunca poderão subornar a morte.
Ela está logo ali em frente, aguardando seres humanos de todos os escalões, tanto os donos de jatinhos quanto os que puxam carroças. Com ela, não tem carteiraço. A morte não apresenta tabela de preço. Não premia delatores. Não adianta trazer dinheiro grudado ao corpo com fita crepe, o vexame será inútil.
Se ela encasquetar que chegou sua hora, vai pegá-lo pelo colarinho branco e arrastá-lo à força, amarrotando seu terno Armani sem dar a mínima para quanto custou. E fará o serviço sem se anunciar antes para suas secretárias, assessores, guarda-costas. Ela não trata com intermediários.
A morte não embolsa agradinhos. Não recebe propina. Não negocia prazo. Não beneficia quem paga mais. Então, de que vale o risco de sujar o próprio nome, envergonhar a família, virar dedo-duro de colegas e ser transportado em camburão, algemado como um pivete? Toda a riqueza acumulada com transações ilícitas nem mesmo leva o golpista para a morte em classe executiva.
A morte é incorruptível.
Deve ser por isso que se diz que o crime não compensa. O crime forra os bolsos da criatura temporariamente, mas tira dele o privilégio de fazer alguma diferença benéfica na vida dos outros – o sujeito passa a ser um rico que não vale nada. E morre de qualquer jeito.
Você pode, claro, usar seu tempo aqui na terra para superfaturar tudo o que vê pela frente sem se importar com as consequências indignas dessa ganância. Ao nascer, você encontra o mundo de um jeito e decide se comportar de forma a deixá-lo bem pior ao partir. É uma escolha.
Ou você pode utilizar seu tempo aqui na terra colaborando, fazendo um trabalho que beneficie a coletividade e gozando a sensação reconfortante de que abandonará o mundo deixando-o um pouquinho melhor do que quando chegou. Dessa forma, não terá vivido à toa e não se sentirá tão desesperado quando tudo terminar.

Porque vai terminar, máfia. Para todos. Sem acordão.

Brasil - Eduardo Almeida Reis

Desde o mês passado, todo mundo que morria do tabagismo, ativo ou passivo, vai continuar morrendo de outras coisas para desespero da Previdência Social


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 07/01/201




Igor, fiscal da Aneel, salário R$ 16 mil, preso quando achacava um empresário da área de energia elétrica, é a síntese da roubalheira que vai por aí. Substantivo de dois gêneros, fiscal é a pessoa que verifica o cumprimento de leis e regulamentos em estabelecimentos comerciais, industriais etc. Neste país grande e bobo, em vez de verificar o cumprimento de leis e regulamentos, muitos fiscais achacam. No vídeo veiculado pela TV, Igor é rapaz magro de 20 e poucos anos. Salário de R$ 16 mil nessa faixa etária é mais que razoável. O fiscal da Aneel exigia R$ 4 milhões e foi preso quando recebia maleta com R$ 400 mil em notas falsas. Já deve ter sido solto.

No mesmo dia, foram presos no Maranhão o superintendente e vários funcionários do Incra e do Ibama, encarregados de fiscalizar as áreas de florestas para impedir a extração e comercialização de madeiras. Áreas que têm diversas madeireiras, empresas imensas com máquinas gigantescas e instalações de bom tamanho. Aí é que está: ao contrário de um chaveiro, que se estabelece com uma portinha para lidar com pequenas chaves, a madeireira exige áreas expressivas e lida com toras gigantescas, mas os fiscais do Ibama e do Incra “esquentavam” os documentos da madeira roubada para comercialização e exportação.

E sua excelência, o então ministro de Estado da Agricultura, hein? Que me diz o leitor de sua excelência o doutor Geller, acusado de malfeitos no Mato Grosso e no Pará? Ele e seus dois irmãos. Os manos foram presos pela Polícia Federal, enquanto o ministro continuava solto dizendo não acreditar nos malfeitos da família.

Septicemia, na rubrica medicina, é tipo comum de sépsis, caracterizado por um estado infeccioso generalizado devido à presença de microrganismos patogênicos e suas toxinas na corrente sanguínea. Sépsis, substantivo feminino de dois números, é a presença de micro-organismos piogênicos e outros organismos patogênicos, ou suas toxinas, na corrente sanguínea ou nos tecidos.

Maravilha!

Nada melhor do que a notícia de que o Brasil tem nova lei antifumo. Desde o mês passado, todo mundo que morria do tabagismo, ativo ou passivo, vai continuar morrendo de outras coisas para desespero da Previdência Social obrigada a sustentar milhões de idosos que já teriam morrido se fossem fumantes.

O médico Ademar Arthur Chioro dos Reis, que felizmente não é meu parente, ministro da Saúde de dona Dilma, prestou relevantíssimo serviço ao país com as suas providências antitabaco. Se tivesse lido Jean-Louis Besson em A ilusão das estatísticas, Ademar Arthur Chioro dos Reis teria aprendido o seguinte: “(...) se admitimos a hipótese de que o fumo é responsável pelas mortes prematuras, é preciso então colocar na relação o sobrecusto social (cuidados médicos etc.) e os ganhos realizados. (...) As mortes prematuras evitam as despesas dos outros doentes, sem falar da economia nas aposentadorias!” Enquanto ao mais, ouçamos Marlene Dietrich: “As pessoas acreditam que, deixando de fumar, deixam de morrer. É falso, claro; elas morrerão de outra coisa”, cujo tratamento, evidentemente, também tem um custo, acrescenta Jean-Louis.

Ainda bem que a propaganda e as marchas pela legalização da maconha vão de vento em popa. Virgem do cânhamo até hoje, já estou aprendendo a sinonímia da erva que serei obrigado a fumar na falta de charutos: abango, abangue, aliamba, bagulho, bango, bangue, bengue, birra, bongo, cangonha, diamba, dirígio, dirijo, fuminho, fumo, jererê, liamba, marijuana, massa, nadiamba, pango, rafi, riamba, seruma, soruma, suruma, tabanagira, umbaru.

Tipo

Já que é impossível sonhar com políticos voltados para o bem do país, é possível imaginar um tipo físico, moral e intelectual de político, que caracterize o Brasil atual. Tempora mutantur et nos in illis: novos tempos, novos costumes. Não nos custa sonhar com um político que tenha a lucidez de dona Dilma, os conhecimentos de economia do Mantega, a beleza de Ideli, o topete de Mercadante, a instrução do Lula, o nariz do Skaf, a voz maviosa daquele senador pernambucano petista e a honestidade das muitas dezenas citadas na delação premiada do engenheiro Paulo Roberto Costa.

O mundo é uma bola


7 de janeiro de 1354: Afonso IV torna-se rei de Portugal. Em 1549, criação do primeiro governo central do Brasil, chamado governo-geral, com Tomé de Souza como governador-geral. Em 1558, a França ocupa Calais, última possessão inglesa em seu território. Em 1566, Antonio Ghisleri torna-se papa o 225º papa. Tinha visual papal. Morreu em 1572 e é conhecido como são Pio V. Em 1610, Galileu Galilei observa pela primeira vez as quatro maiores luas de Júpiter, Calisto, Europa, Ganímedes e Io, conhecidas como luas galileanas.

Em 1785, o francês Jean-Pierre Blanchard e o americano John Jeffies viajam de Dover, Inglaterra, até Calais, na França, em um balão a gás, tornando-se os primeiros a cruzar o Canal da Mancha pelo ar. Em 1885, casamento de Clara e Alois Hitler, os pais de Adolf. Hoje é o Dia do Leitor.

Ruminanças

“Um leitor inteligente descobre frequentemente nos escritos alheios perfeições outras que as que neles foram postas e percebidas pelo autor, e lhes empresta sentidos e aspectos mais ricos” (Montaigne, 1533-1592).

LITERATURA » O poder da palavra

Livro traz cartas escritas ao longo da história da humanidade. Do profeta persa Zaratustra ao presidente norte-americano Barack Obama, missivistas revelam a dor e a alegria do mundo


Carlos Herculano Lopes
Estado de Minas: 07/01/2015




Correspondência do presidente norte-americano Abraham Lincoln está reunida no Arquivo Nacional, em Washington (Win MacNamee/Getty/AFP)
Correspondência do presidente norte-americano Abraham Lincoln está reunida no Arquivo Nacional, em Washington


Nestes tempos em que a comunicação a distância praticamente só se dá por meio das redes sociais, foram-se embora as cartas, tão presentes na história da humanidade. No Brasil, tornou-se célebre a correspondência de Mário de Andrade com Carlos Drummond de Andrade, Murilo Rubião e Henriqueta Lisboa, entre outros escritores. Muito oportunamente, a Geração Editorial acaba de lançar Cartas da humanidade – Civilização escrita à mão. Por meio de 141 textos editados em ordem cronológica, o leitor viaja em cinco mil anos de história.

O organizador do livro é o escritor e compositor mineiro Márcio Borges, autor de Os sonhos não envelhecem – Histórias do Clube da Esquina. Para realizar o trabalho, ele se baseou em documentação extraída de jornais, revistas, livros e da própria internet. Cartas à humanidade... é um documento precioso, que vale a pena ser conhecido. Abrange um grande período da saga humana, desde muito antes do nascimento de Cristo.

Podem ser lidas cartas trocadas por reis, políticos, artistas, intelectuais, religiosos e sábios. Estas páginas contêm de tudo um pouco: história, religião, dramas, guerras, política, filosofia, amor e ódio. O livro começa com um documento sobre o bem e o mal a partir da visão de Zaratustra, criador do zoroatrismo.

“As influências espirituais de Zaratustra sempre afetaram o pensamento e o raciocínio humanos – sua meta, mostrar aos homens nossa conexão com uma criação e nossa ligação com a fonte única”, explica Márcio Borges. Na primeira estrofe compilada, pode-se ler: “Agora falarei com aqueles que me ouvirem/ De coisas que o iniciado deveria se lembrar/ Elogios e oração da Boa Mente ao Senhor/ E a alegria que verá na luz quem se lembrou dele – o Bem”.

Dos provérbios de Ki-en-gir (Suméria, 2600 a.C.), o autor extrai pérolas: “Quem adquiriu muitas coisas deve vigiá-las de perto”. “A raposa, tendo urinado no mar, disse: o mar inteiro é minha urina”. “Riqueza é difícil de alcançar, mas pobreza está sempre à mão”. “Quem come muito não consegue dormir”.

Um detalhe curioso torna o livro mais atraente. Não é preciso lê-lo em sequência, da primeira à última página. Abra-o na página 383, por exemplo. Lá está a famosa carta- testamento deixada pelo presidente Getúlio Vargas, divulgada depois de seu suicídio, em 1954. “Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa”, desabafa o líder gaúcho.

Outra correspondência histórica: a carta de Pero Vaz de Caminha enviada a dom Manuel, rei de Portugal, logo depois da chegada da frota de Pedro Álvares Cabral ao litoral baiano. “Senhor, posto que o capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que – para bem contra e falar – o saiba pior que todos fazer...!”, relatou o escrivão da armada.

Outro marco da história brasileira, a declaração de renúncia de Jânio Quadros à Presidência da República, em 1961, está no livro. “Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando, nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia que subordinam os interesses gerais aos apetites e às ambições de grupos ou indivíduos, inclusive do exterior. Sinto-me, porém, esmagado. Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou infamam, até com a desculpa de colaboração”, desabafa o 22º presidente do país.

A crise deflagrada por Jânio culminou na ditadura militar, que castigou o mineiro Juscelino Kubitschek, outro ex-presidente do país. Em correspondência enviada à amiga e conterrânea Vera Brant, em 1973, JK não esconde a depressão causada pelo ostracismo. “Brasília, nesses anos tempestuosos que o destino me impôs, deprimia-me quando aí, por uma circunstância ou outra, tive de estar. Possivelmente minha capacidade de assimilar vacilasse entre o esplendor do passado, quando então a construímos, e estas intermináveis horas de borrasca.”

O elenco de missivistas é multifacetado: vai de Maria Antonieta e Joana d’Arc a Orson Welles, Fernando Pessoa, Alfred Nobel, Lênin, Che Guevara, Michael Moore e Barack Obama. Coube ao atual presidente dos Estados Unidos fechar as 466 páginas. Em 2008, ao deixar o Senado para comandar a Casa Branca, assim ele se despediu do povo de Illinois, que o elegera: “Hoje termino uma jornada para começar outra”.



A GUERRA

Uma carta que se tornou famosa foi escrita em 1864 pelo presidente norte-americano Abraão Lincoln à senhora Lydia Bixby, cujos cinco filhos morreram durante a Guerra Civil americana. Anos depois, aquelas palavras inspirariam o filme
O resgate do soldado Ryan, de Steven Spielberg.

“Cara Senhora

A mim foi mostrada nos arquivos do Departamento de Guerra uma declaração do general adjunto de Massachusetts que a senhora é a mãe de cinco filhos que morreram gloriosamente no
campo de batalha.
Sinto quão fraca e infrutífera deve ser qualquer palavra minha que tente iludir a aflição de uma perda tão subjugante. Mas não posso me conter de enternecer na senhora a consolação que pode ser encontrada no agradecimento da República pela qual eles morreram para salvar.
Rezo que nosso pai divino possa suavizar a angústia de sua perda e deixe apenas a apreciada memória dos amados e perdidos, e o solene orgulho que deve ser o seu por ter deitado tão custoso sacrifício no altar da liberdade.
Seu, muito sincera e respeitosamente, sra. Bixby
A. Lincoln.”