domingo, 11 de janeiro de 2015

Viver é fácil - Ana Clara Brante

"Viver é fácil" Às vésperas de festejar seus 100 anos, a intelectual Elza de Moura exige mais atenção à educação e à cultura. Discípula de Helena Antipoff, ela diz que a escola pode salvar o país


Ana Clara Brant
Estado de Minas: 11/01/2015




Elza de Moura guarda o retrato da mestra Helena Antipoff em sua biblioteca, no Santa Efigênia (Beto Novaes/EM/D.A Press)
Elza de Moura guarda o retrato da mestra Helena Antipoff em sua biblioteca, no Santa Efigênia


Num casarão da Rua Tenente Anastácio de Moura, antiga Rua Rio das Velhas, no Bairro Santa Efigênia, a professora, musicista, cientista e regente Elza de Moura vive desde que nasceu. Em agosto, ela vai completar 100 anos. Elza é a única colaboradora viva da pedagoga russa Helena Antipoff, que revolucionou a educação mineira a partir dos anos 1930.


Cheia de saúde e disposição, Elza conta que a rua onde mora leva o nome do pai, militar morto com apenas 42 anos, durante a Revolução de 1932. Nascida numa época em que as mulheres, quando muito, só podiam ser professoras, ela se formou no grupo Henrique Diniz. Em seguida, o tenente Anastácio a matriculou na Escola Normal Modelo, onde hoje está o Instituto de Educação, que preparava moças para o magistério. “Papai nem me perguntou se queria ser professora, mas acertou. Fiz um curso maravilhoso”, recorda.

Diretora de colégio durante 25 anos, a professora lamenta a forma como o ensino brasileiro degringolou – palavra dela – e critica os atuais cursos de pedagogia. “Há um erro tremendo neles. Gente que nunca viu uma sala de aula vai fazer pedagogia e depois se gaba de ser muito importante, mas não é. Não sabem nada, está tudo tão teórico. De vez em quando dou palestras para alunos da Universidade Federal de Minas Gerais e a gente vê aquelas moças que trabalham o dia todo chegando à noite na sala, comendo sanduíche. A que horas elas vão ter cultura? Quando vão estudar? Deveriam modificar a legislação. Não condeno quem trabalha e estuda, mas essas pessoas deveriam dedicar pelo menos um dia da semana à literatura e à cultura dentro do próprio estabelecimento de ensino”, sugere.

Elza credita sua formação aos educadores com quem conviveu: Abgar Renault (que chegou a ministro da Educação e da Cultura), Mário Campos e, claro, Helena Antipoff. As duas se conheceram em meados dos anos 1940. “Dona Helena aplicou uma psicologia completamente diferente daquela que a gente via e ouvia por aí. Ela não adotava livro, mas colocava as alunas em situações de descoberta. Um dia, perguntou: ‘Sabe quantos degraus as senhoras sobem aqui na escola?’. Ninguém sabia. Essas coisas que escapam da gente, as coisas miúdas, transformam-se em grandes. Ela nos colocava em situações de pensamento, de observação”, relembra.

A pedagoga russa se interessou por alunos e docentes da roça, criando uma escola rural em Ibirité, na Região Metropolitana de BH, o famoso Complexo Educacional Fazenda do Rosário. Elza foi uma das ex-alunas convidadas para lecionar lá. Era professora de canto. “A Escola Normal Rural foi uma coisa extraordinária. Dona Helena tinha visão. As meninas vinham de escolas fracas da zona rural, mas passavam por baterias de testes e dona Helena sempre acertava na hora de selecioná-las. As moças tinham acesso à formação completa antes de se tornar professoras”, acrescenta.

Elza diz que nunca teve fama de brava, mas se irrita com a falta de interesse e a ignorância. Ela tem se decepcionado com boa parte das crianças e dos jovens do século 21. “A educação brasileira está no fundo do poço. Precisamos de bons educadores, de mil Helenas Antipoffs, de mil Abgares Renault, mil Mários Casasantas. Dona Helena costumava dizer: quando tudo está perdido, existe a escola. É uma grande verdade”, reitera.

ÓPERA A música teve papel especial na trajetória de Elza. Influenciada pelo pai, que tocava vários instrumentos, desde menina ela ouviu o que havia de melhor. Estudou canto e piano, regeu corais, chegou a cantar ópera ao lado da Orquestra Sinfônica da Polícia Militar. “O piano já foi muito útil, mas virou objeto de decoração. Não tenho tempo para estudar. Dou palestras, escrevo artigos, cuido da casa e, há pouco tempo, fiz um curso de cinema. E olha que sou aposentada, hein?”, conta.

Ela não abre mão das reuniões mensais da Arcádia de Minas Gerais. Nessa academia de letras, artes e ciências humanas, que funciona no Edifício Maletta, médicos, escritores, advogados, arquitetos e pintores se encontram para debater os mais variados assuntos. Elza publicou livros de ciências para as crianças, além de ensaios sobre literatura, música e educação.
A mestra não planeja nada de especial para 4 de agosto, quando vai completar um século de vida. Está pensando até em fugir para o Mato Grosso, onde moram os sobrinhos. “Isso é uma tremenda bobagem. Todo dia é dia de aniversário, é mais um dia de vida”, diz. A professora não se casou. “Tenho mais de mil filhos. São os meus ex-alunos, que até hoje me procuram”, explica. E diz não ter segredos para chegar tão bem aos 100 anos. “Trabalhei no que gosto, defino a hora para almoçar, jantar, dormir e o que comer. Essa coisa de falar que isso e aquilo fazem mal é bobagem. Adoro torresmo e coisas gordurentas, tomo uma latinha de cerveja de vez em quando. A maioria das pessoas acha que velho só pensa em doença. Eu não. Discuto filosofia e literatura. Viver é fácil”, conclui.

Minha madrinha

Affonso Romano de Sant’Anna

“Meu pai, Jorge Sant’Anna, e o pai de Elza, o tenente Anastácio de Moura, eram oficiais da Polícia Militar de Minas Gerais, vizinhos em Santa Efigênia. Tornaram-se amigos, por isso a escolha da Elza como minha madrinha. Desde menino, ela me mandava livros, cartões nos aniversários e sempre esteve presente. Todas as semanas ligo para ela. Nos anos 1960, morei com a Elza e foi um período ótimo na minha vida. Ela desenvolvia seu trabalho na mítica Fazenda do Rosário com dona Helena Antipoff, que conheci. Minha madrinha é uma pessoa única, extremamente generosa, meio renascentista, com uma cultura impressionante. Sabe tudo de música, de ópera, e, curiosamente, nunca viajou para fora do país. Até hoje é uma pessoa extremamente ativa. Dá palestras, participa de encontros e não para em casa. Elza de Moura é a última sobrevivente de uma época que, infelizmente, não existe mais, e de toda uma geração que revolucionou a educação em Minas Gerais.”


A PIONEIRA

A psicóloga e pedagoga russa Helena Antipoff se mudou para o Brasil em 1929, a convite do governo de Minas Gerais. Na época, articulava-se a Reforma Francisco Campos/Mário Casasanta, que revolucionou o ensino do estado. Pesquisadora atenta à criança portadora de deficiência, foi pioneira na introdução da educação especial no Brasil. Ela fundou a primeira Sociedade Pestalozzi.
A Fundação Helena Antipoff, com sede em Ibirité, na Grande BH, dá prosseguimento às suas ideias. 

sábado, 10 de janeiro de 2015

Tecnologia - Eduardo Almeida Reis

Você pede uma pizza, sinal de que tem mau gosto, porque pizza é comida horrível, e a pizzaria manda um drone levar a encomenda até sua casa


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 10/01/2015




Antemanhã urbana, aves festejando o dealbar na mata vizinha, philosopho philosophando adoidado no leito. Tema: tecnologia. Pausa para explicar que o verbo dealbar, “tornar branco, clarear”, é puro latim, entrou em nosso idioma no ano de 1619 e tem hora e vez num texto caprichado para calar os bocós metidos a ensinar a arte de cronicar, que vivem recomendando palavras simples do conhecimento geral. Besteira. Não existe conhecimento geral. Escrevo para uma faixa de leitores que é ampla e esclarecida. Tem funcionado.

Volto à tecnologia para falar dos drones, veículos aéreos não tripulados, que os brasileiros resolveram chamar de vant (presumo que o plural seja vants). Estão cada vez mais eficientes e baratos. Diversas empresas prometem levar encomendas em drones às casas dos fregueses. Você pede uma pizza, sinal de que tem mau gosto, porque pizza é comida horrível, e a pizzaria manda um drone levar a encomenda até sua casa.

Pizza: iguaria de origem italiana, feita de massa de pão em geral aplainada e recoberta de queijo, tomate e diversos outros ingredientes, e cozida em forno. Atribuo meu último divórcio à pizza encomendada aos domingos. Levada por motoqueiro, é certo, pois BH não contava com os drones para fazer o serviço, mas ainda assim uma pizza. Três ou quatro anos atrás, fui convidado para fazer crônica mensal numa revista de comidas publicada em São Paulo. Pagava muitíssimo bem. No primeiro texto, meti o pau na pizza, fui censurado e informado de que a revista só falava bem de tudo e todos. Desejo que seja feliz.

Um drone barato e fácil de operar já tem condições de levar uma ou duas pistolas, talvez três ou quatro, com a respectiva munição, ao interior de um presídio. Ou três granadas, e drogas, e o mais que o leitor queira imaginar. Deu para sentir o drama? Pistola carregada na mão de um bandido consegue ser pior do que pizza à mesa de um philosopho.

E ele, drone ou vant, é somente um dos muitos avanços tecnológicos a serviço do crime organizado. Sei que é chato, muito chato mesmo, um texto pessimista como esse que você acaba de ler. Peço desculpas.
Escatologia

Aprendi outro dia e já estou repetindo neste espaço: escatologia é a doutrina das coisas que devem acontecer no fim do mundo. Na rubrica teologia é a doutrina que trata do destino final do homem e do mundo, que se pode apresentar em discurso profético ou em contexto apocalíptico.

Assunto chato para ser tratado numa coluna que se quer alegre e otimista. Há outra escatologia, também substantivo feminino, que é “o tratado acerca dos excrementos”. Coprologia é a inclusão de linguagem ou assuntos tidos como obscenos em obras literárias e afins. Excrementos, no meu modesto entendimento de philosopho, na dependência das circunstâncias podem ser obscenos, mas também são consequência de ato fisiológico natural e desejável.

A melhor e mais séria ciência estuda os coprólitos, massas fossilizadas de excrementos, através dos quais identifica fatos importantíssimos da história humana. Excrementos recentes, frescos, recém-saídos do forno, permitem que os filósofos, quando realmente philosophos, philosophem adoidados. Foi o que aconteceu com um philosopho amigo nosso, hoje cedo, assustado com o volume excrementical que ornamentava o interior do trono: “Governo petista!” exclamou em voz alta. Tristes trópicos.

Salários


Muitos comentaristas esportivos se dizem constrangidos de falar dos salários dos nossos técnicos de futebol, mas acabam falando e a gente fica sabendo que o professor Fulano ganha 700 mil reais por mês, vários professores estão na faixa dos 500 mil e o pobre professor Sicrano só recebe 300 mil. Esses números desmentem as pessoas que falam dos salários baixos do nosso magistério, como também desmente os professores que fazem passeatas e greves por melhores salários.

A faixa dos 500 mensais, que reúne diversos professores, representa 285 mil dólares por mês. Duvido que um professor de Harvard ou do MIT ganhe 185 mil dólares mensais e sei que os pós-doutores de um dos mais importantes institutos de pesquisas da Bélgica são aposentados compulsoriamente aos 65 anos com US$ 6 mil por mês, mais ou menos o que uma família gasta para aquecer sua casa no inverno belga.

O mundo é uma bola
10 de janeiro de 49 a.C., Júlio César atravessa o Rubicão, na verdade um riacho, iniciando a guerra civil que opôs suas forças às de Pompeu. A Wikipédia informa que foi neste dia que ele pronunciou a famosa frase: alea jacta est (a sorte está lançada). Claro que o leitor de Tiro&Queda não se conforma com essa cultura wikipédica, porque leu em Plutarco que César pronunciou em grego “Lance-se o dado”, frase do comediógrafo Menandro (342-291 a.C.).

Em 1403, Jean de Bettencourt (1362-1425) recebe dos reis da Espanha o senhorio das Ilhas Canárias, passando a se intitular rei.

Em 1393, Bettencourt casou-se com Jeanne de Fayel, que se queixava do mau tratamento que recebia do marido. Não tiveram filhos, mas o magano fez vários filhos fora do casamento.

Ruminanças
“Não há nada errado com o Congresso em Washington, a não ser o pessoal que lá está” (Booth Tarkington, 1869-1946).

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Receita - Eduardo Almeida Reis

Um boi feliz e sua senhora igualmente de bem com a vida produzem filés e alcatras mais gostosos


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 09/01/2015




De uns tempos a esta parte, dá para perceber que é grande a preocupação das pessoas com o bem-estar animal, a sensação de segurança, conforto, tranquilidade, condições capazes de ensejar uma existência agradável ao animal que produz alimentos como leite, ovos e lã, ou que vai ser morto para que nos alimentemos de sua carne.

Se me fosse permitido escolher, só compraria ovos de galinhas criadas à solta em parques cercados, vacinadas, arraçoadas, evitando os ovos produzidos pelas aves debicadas confinadas em gaiolas coletivas com iluminação artificial. Algo me diz que um boi feliz e sua senhora igualmente de bem com a vida produzem filés e alcatras mais gostosos.

Preocupa-me também, e muito, o bem-estar das pessoas. Gente feliz, tranquila e segura tem como resultado uma sociedade sociável, não violenta, estimada e estimável, de convivência alegre e fácil. É estranho, mas é verdade: as pessoas não são felizes porque não querem. Qual a receita? Basta copiar a felicidade alheia.

Nunca vi ninguém que não dissesse que a melhor coisa do mundo é fazer tai chi, redução de tai chi chuan, série de movimentos meditativos lentamente executados, usados originalmente pelos chineses como sistema de exercícios de relaxamento e meditação. Tão boa quanto o tai chi é a ioga, ortoépia ó ou ô, conjunto de exercícios sistemáticos, que envolvem especialmente a postura e a respiração, praticados a partir dos ensinamentos filosóficos indianos.

Só aí temos ensinamentos chineses e indianos, povos que, somados, vão a caminho dos três bilhões de terráqueos. Considerando que você não é chinês nem indiano, mas mineiro, é indispensável acrescentar ao tai chi e à ioga o método de condicionamento físico e mental chamado pilates, criado pelo alemão Joseph Pilates (1880-1967), que proporciona o alongamento e a fortificação do corpo de forma integrada e individualizada, além de melhorar a respiração, diminuir o estresse, desenvolver consciência e equilíbrio corporal, melhorar a coordenação motora e a mobilidade articular, proporcionando relaxamento. Claro que tudo isso oferecendo aos seus praticantes uma nova maneira de se relacionar com o mundo.

Se você não faz parte dos 7% de iluminados pelo ateísmo e tem necessidade de praticar uma religião, sugiro que adira ao budismo, sistema filosófico e religioso indiano fundado por Siddharta Gautama (563-483 a.C.), o Buda, que parte da constatação do sofrimento como a condição fundamental de toda existência e afirma a possibilidade de superá-lo através da obtenção de um estado de bem-aventurança integral, o nirvana. Resumindo, o budismo é uma religião que não professa a existência de nenhum deus. Se sobrar um tempinho, trabalhar naquilo que você gosta também é muito divertido e ajuda no pagamento das despesas da casa e da namorada.

Esquisito


Junto com o primeiro computador, um Toshiba 1.000 de segunda mão, contrabandeado, que me custou 600 dólares, comprei uma impressora matricial, também contrabandeada, nova, por 300 dólares. Com o dólar a R$ 2,70, seriam R$ 2.430,00, mas no dólar daquele tempo a dupla me custou uma fortuna.

Disparei a imprimir quilômetros de tolices na matricial, salvo engano uma Epson, e fiquei na maior felicidade quando surgiram as impressoras a jato de tinta. Gastei toneladas de pacotes de papel A-4 e outras tantas de tintas. Não foi há mil anos, mas algo em torno de vinte aninhos. Hoje tenho modesta impressora Samsung a laser e devo ter gasto, se tanto, um pacote de A4 no último ano.

Como explicar o fenômeno? Não sei. Só sei que continuo produzindo muito e passei a imprimir muito pouco. Presumo que algo parecido tenha acontecido com inúmeros leitores. A gente se entusiasma com a novidade, faz o que deve ser feito e vai desanimando com o passar dos meses. Fenômeno esquisito.

O mundo é uma bola


9 de janeiro de 1154: Sintra recebe foral de dom Afonso Henriques. Foral, diacronismo antigo, significava legislação elaborada por um rei com o intuito de regulamentar a administração de terras conquistadas e que dispunha ainda sobre a cobrança de tributos e quaisquer outros privilégios. Em 1693, um terremoto atinge cerca de 60 aldeias e povoados da Sicília, matando mais de 50 mil pessoas, ainda hoje gente à beça.

Em 1768, o inglês Philip Ashley apresentou em Londres o primeiro circo moderno, com acrobatas, palhaços e animais treinados. Conheço gente que pronuncia acróbatas e acabo de confirmar que o substantivo de dois gêneros também está dicionarizado.

Em 1822, o príncipe regente dom Pedro teria dito: “Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto: diga ao povo que fico”. Foi o Dia do Fico, mas há quem sustente que sua alteza, na hora, não disse nada: pigarreou e ficou no pigarro.

Em 1863, inauguração do primeiro trem subterrâneo do mundo, o metrô de Londres, então com sete quilômetros. Por falar em metrô, como anda o de Belo Horizonte?

Em 1872, na Guerra do Paraguai, foi assinado o tratado de paz entre o Brasil e o Paraguai. Hoje é o Dia do Fico.

Ruminanças


“A ausência de alternativas torna a mente espantosamente clara” (Henry Kissinger).

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Alerta - Eduardo Almeida Reis

Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 08/01/2015 




No dia em que levei os móveis para o meu primeiro apartamento, um pequeno duplex de 94m2 e segunda mão, comprado com financiamento da Caixa, fui almoçar no badalado restaurante Nino, de Copacabana, e pedi filé de linguado à belle meunière. Nunca fui amigo de peixes, mas o dia era festivo e o linguado desceu bem. Como sabe o leitor, ou devia saber se consultasse a Wikipédia, linguados nascem como peixes normais, com um olho em cada lado da cabeça. Conforme crescem, aderem à condição dextrógira ou levógira, similar às pessoas canhotas e destras. Legógiros são aqueles com migração do olho para o lado esquerdo da cabeça durante seu desenvolvimento, e dextrógiros são aqueles com migração do olho para o lado direito da cabeça. É espécie de grande valor comercial. Houaiss, que era gourmet, disse que os olhos do linguado ficam do lado esquerdo da cabeça. Daquele dia para cá, transcorridos quase 100 anos, devo ter comido linguados duas ou três vezes, mas dei beijos linguados a montões e a mancheias, porque fui muito beijoqueiro.

Eis, senão, quando, bumba! – recebo e-mail de um amigo, membro titular da Academia Brasileira de Medicina Veterinária, alertando sobre o “linguado” que está sendo vendido nos supermercados portugueses e talvez esteja à venda nos brasileiros. Um cavalheiro expert em alimentos estranhou o peixe que botou em seu prato num restaurante self-service.

Ao abrir a posta do peixe, notou que estava impregnada de filamentos. Retirou uma amostra e levou para análise, quando constatou que os filamentos, na verdade, eram vermes de até dois centímetros de comprimento. Procurou informar-se e descobriu que se tratava de peixe panga ou peixe-gato, um peixe asiático de água-doce proveniente de rios extremamente poluídos de excrementos, dejetos e toda sorte de poluição biológica, física e química devida, entre fatores diversos, à maciça ocupação dos barcos que servem de moradia a pessoas carentes de serviços sanitários. As pessoas que vivem por lá têm nojo dos peixes que vivem naquelas águas, enquanto os especuladores conseguem realizar farta pescaria para vender seus produtos pelo mundo.

Filés muito branquinhos, congelados, sem espinhas podem ser encontrados nos supermercados. O sabor não é dos melhores e a pesquisa feita pelo expert levou-o ao blog de Isa From Aveiro, de Aveiro, Portugal, onde viu que o panga é um peixe de cultura intensiva/industrial no Vietnã, mais exatamente no delta do Rio Mekong, que invade os mercados devido ao seu baixo preço.

Os pangas estão infestados de venenos e bactérias, arsênico dos efluentes industriais, metais pesados, bifenilos policlorados (PCB), DDT e seus DDTs, cloratos e compostos relacionados (CHLs), hexaclorocicloexano isômeros (HCHs) e hexaclobenzeno (HCB). O Rio Mekong é dos mais poluídos do planeta e nele os americanos, na Guerra do Vietnã, teriam despejado o “agente laranja”, desfolhante e cancerígeno.

Os pangas são alimentados com restos de peixes mortos, ossos e solos secos (?) transformados numa farinha com mandioca e resíduos de soja e grãos. Nessas condições, crescem quatro vezes mais depressa que na natureza e suas fêmeas, com injeções de hormônios femininos derivados da desidratação de urina de mulheres grávidas, passam a produzir aproximadamente 500 mil ovos de uma vez. Basicamente, são peixes produzidos com hormônios injetáveis fabricados por uma empresa farmacêutica chinesa para acelerar o processo de reprodução e crescimento.

Nota: depois de inteirar as 540 palavras acima fui ao Google e descobri que o alerta sobre o peixe panga deve ser falso. Claro que não vou perder um trabalho, que me custou duas horas, só porque o aviso é fake. Espero que o leitor tenha ficado assustado e dê preferência ao verdadeiro linguado, que é gostoso e muito caro.

O mundo é uma bola

8 de janeiro de 1198: eleição do papa Inocêncio III, nascido Lottario dei Conti di Segni, de família nobre italiana. Inocêncio convocou o IV Concílio de Latrão, o mais importante da Idade Média, de grande relevância em diversos campos teológicos. Foi contemporâneo de São Francisco de Assis e é conhecido por ter aprovado sua recente ordem religiosa, como também é lembrado por sua defesa do primado papal. É possível, como também é provável que tenha inspirado o batismo de ilustre político nordestino, o médico Inocêncio de Oliveira (PR-PE).

Em 1297, independência de Mônaco, só recentemente consolidada quando passou a residir no principado o doutor Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno, amigo do nosso Jaeci Carvalho. Em 1805, a Colônia do Cabo, na África do Sul, torna-se colônia britânica 208 anos antes do pranteado e interminável enterramento de Nelson Mandela. Em 1889, Herman Hollerith patenteou sua máquina de tabulação, que foi usada pela primeira vez para compilar os dados de um recenseamento. Os leitores menos jovens estão decerto lembrados que holerite, substantivo feminino, era sinônimo de contracheque no tempo de antigamente: documento que comprova o depósito dos vencimentos de um funcionário em sua conta bancária, ou que o habilitava a receber na tesouraria.

Em 1963, di-lo a Wikipédia, “é adoptada a bandeira do estado de Minas Gerais”, o que faz deste 8 de janeiro um dia importante como evento vexilológico. Hoje é o Dia do Fotógrafo e da Fotografia.

Ruminanças


“O Brasil corre o risco de ficar obsoleto antes de ficar pronto” (Claude Lévi-Strauss, 1908-2009).