quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Números - Eduardo Almeida Reis

Há leis tão idiotas que depõem contra o bom senso, a lógica e a saúde mental dos legisladores, não somente no Brasil como no resto do mundo"


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas 18/02/2015


 (Son Salvador)

Se afanar é roubar, o país do ufanismo transformado em afanismo tem os seguintes indicadores, que copio do blog de Marcia Lobo: acesso à educação básica: 69º; acesso à universidade: 85º; qualidade de ensino universitário: 121º; qualidade de ensino básico: 129º; mortalidade infantil: 74º; expectativa de vida: 78º; cientistas e engenheiros em relação a toda população: 112º; qualidade do ensino de matemática e ciências: 136º; exportações em relação ao tamanho da economia: 145º. Marcia teve como fonte o Fórum Econômico Mundial.

A partir desses números, tire o leitor as conclusões que quiser, porque escrevo num domingo e é hora de esquentar o almocinho deixado na geladeira para comadre. Pela atenção, muitíssimo obrigado.

Criminologia
Há leis tão idiotas que depõem contra o bom senso, a lógica e a saúde mental dos legisladores, não somente no Brasil como no resto do mundo. Vários dos mais de 50 estados norte-americanos costumam condenar à prisão professoras que transam com os seus alunos, lei de uma imbecilidade que espanta e irrita qualquer cavalheiro com um mínimo de informação.

Resumindo: não pode existir crime quando uma professora se relaciona com aluno ou alunos púberes. É muito melhor, mais saudável e divertido transar com a tia do que deixar o menino se masturbando no banheiro pensando na professora: todo menino pensa. Deve ser coisa aparentada com a Síndrome de Estocolmo (atração do dominado pelo dominador), do aluno púbere pela mestra, mesmo que ela não seja um tipo de beleza.

No país dos meus sonhos, meninos e mestras seriam muito mais felizes se fizessem amor, desde que “proibido”. Sim, porque a proibição dá sabor ao sexo. Proibição entre aspas, sem essa imbecilidade de prender as professoras, como aconteceu em Louisiana e vai ocorrer na Califórnia com duas mestras não muito bonitas, mas perfeitamente desejáveis por menores de 18 anos.

Foram presas domingo, 18 de janeiro, depois de transar com ao menos dois alunos durante viagens à praia de San Clemente, naquele estado da costa oeste norte-americana, como informou o jornal The Mirror. Melody Lippert, de 38 anos, viajou pela primeira vez com um grupo de jovens e manteve relações com um deles. Depois de algumas semanas, levou uma amiga, também professora da South Hills High School, em outra excursão, quando as duas beberam e transaram com ao menos dois alunos. As duas foram detidas e levadas à corte quarta-feira, 21 de janeiro, para responder pelo “crime”.

Que crime? Desde quando uma loura de 38 anos e sua colega morena, sósia de uma senhora que governou um estado brasileiro até dezembro de 2014, não podem tomar uns drinques e transar com os seus alunos? Crime é traficar cocaína, é cometer homicídio, é assaltar a Petrobras. Deitar-se com aluno é educação sexual, alegria, satisfação mútua. Tenho dito.

Maratonistas
No mundo inteiro, qualquer corrida de alguma expressão, que distribua prêmios razoáveis em dinheiro, pode contar com a inscrição de uma dúzia de cidadãos africanos, metade homens, metade mulheres. Só não inscrevem 50 para não diluir os prêmios por muita gente, porque é certo que vão chegar na frente dos demais concorrentes. São magros, longilíneos, da Etiópia ao Quênia, passando pelos outros países africanos. A esmagadora maioria passou fome na infância. Enquanto philosopho, tenho explicação para o fenômeno.

Há estados brasileiros em que milhões de patrícios brancos, negros, mulatos, cafuzos passam fome na infância antes de migrar para o Sudeste. Nem por isso nossos patrícios são fundistas. Os africanos tiveram seleção ao longo dos séculos fugindo de seus conterrâneos, que desejavam capturá-los para vendê-los como escravos aos portugueses, espanhóis, ingleses & cia.

De botas, barrigudos, bigodudos, empanzinados da comezaina e vinhaça, os portugueses não saíam correndo atrás dos africanos para escravizá-los. Se corressem, não teriam capturado um único escravo, serviço que sempre ficou por conta dos sobas, chefes do povo e de pequenos estados africanos, que os capturavam e vendiam aos europeus.

Africanos espadaúdos, atléticos, que corriam 200 metros e cansavam eram capturados pelos sobas, como aqueles que foram parar na Jamaica, primeiro espanhola, depois inglesa, e são hoje campeões mundiais de corridas curtas (Usain Bolt & colegas). Os magrinhos corriam quilômetros, léguas, escapavam dos sobas, permaneceram em África e hoje abiscoitam todas as maratonas, meias maratonas, São Silvestre e competições do mesmo tipo. Processo de seleção ao longo dos séculos. Só isso.

O mundo é uma bola
18 de fevereiro de 1979: neva no Deserto do Saara. No mesmo dia, mas em 1962, fundação do PCdoB, o Partido Comunista do Brasil, cisão do Partido Comunista Brasileiro. Código eleitoral 65, faz parte da base aliada do desgoverno federal. Em 2006, show dos Rolling Stones em Copacabana. Em 1836, nasceu Gadadhar Chattopadhyay, um dos mais importantes líderes religiosos da Índia, reverenciado por milhões de hindus e não hindus como mensageiro de Deus. Morreu em agosto de 1886, conhecido como Ramakrishna Paramahamsa. Em 1945, nasceu Edir Macedo Bezerra, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da Rede Record de Televisão. Foi-lhe outorgada a Medalha Tiradentes, a mais alta condecoração concedida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

Ruminanças
“Não aguento mais a estupidez e a ignorância dos fundamentalistas religiosos – de qualquer credo” (Cora Rónai).

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Cinza é e cor mais quente - Mariana Peixoto

Cinza é e cor mais quente 

  A crítica pode chiar, os polemistas de plantão podem reclamar, mas o açucarado romance sadomasô Cinquenta tons de cinza não sai da ordem do dia. Menos de uma semana após sua estreia, o filme já arrecadou US$ 240 milhões %u2013 US$ 81,7 milhões nos Estados Unidos e US$ 158 milhões no resto do mundo. Isso é apenas a metade do que preveem analistas de mercado, que acreditam que o filme possa atingir US$ 500 milhões. A produção custou %u201Capenas%u201D US$ 40 milhões, vale lembrar. Acompanhe abaixo como as fantasias de uma dona de casa de meia-idade britânica viraram a cabeça de meio mundo e se tornaram um negócio milionário.


Mariana Peixoto
Estado de Minas: 17/02/2015






Antes do livro

Snowqueens Icedragon era uma usuária superativa em sites de fan-fic, a chamada ficção criada por fãs. Em 2009, criou Master of the universe. Fã da tetralogia Crepúsculo, ela deu um tom mais adulto à saga amorosa, adicionando boa dose de sexo. Como era uma história baseada em outra, seus personagens também se chamavam Edward e Bella. Assim que os encontros sexuais se tornaram mais pesados, ela teve que mudar os nomes dos personagens: nasciam Christian Grey e Anastasia Steele. Quando os comentários sobre a “indecência” do texto cresceram, ela criou seu próprio endereço virtual: FiftyShades.com

A autora

“Sou velha o bastante para saber das coisas, mas topo experimentar tudo pelo menos uma vez, exceto incesto e dança folclórica.” Essa foi uma das postagens de Snowqueens Icedragon, na verdade E. L. James, pseudônimo de Erika Leonard James, ex-executiva britânica de TV, filha de chilena e escocês, casada, mãe de dois adolescentes, que cria o romance Cinquenta tons     de cinza. Hoje com 52 anos, James, com um único livro, foi considerada, em 2012, uma das 100 pessoas mais influentes do mundo.

O livro

Cinquenta tons de cinza nasceu na internet, porém não demorou a ser publicado. Com a repercussão on-line, uma editora australiana, The Writer's Coffee Shop, editou o romance tanto em e-book quanto em livro físico. Quando começou a vender que nem pão quente, a Vintage Books, subdivisão da gigante editoral Random House, adquiriu o livro, num contrato de sete dígitos.     Até hoje, foram vendidos 100 milhões de exemplares,     cinco milhões no Brasil.


O enredo

A história romântica-sadomasô de Christian e Anastasia é bem simples. Ele é um bilionário de Seattle de 27 anos, com passado obscuro, que só se satisfaz sexualmente quando atua como dominador. Escolhe suas submissas e elas têm que assinar um contrato para a relação. Ela é uma recém-formado em literatura inglesa de 21 anos, virgem. Os dois se apaixonam e iniciam uma relação conturbada. Ele quer dominá-la de qualquer maneira (controla até os amigos que tem), ela sonha em viver um romance convencional. Entre idas e vindas e muitas brigas, os dois protagonizam cenas tórridas de sexo. Além da cama, os dois utilizam todo tipo de apetrecho erótico no chamado “Quarto vermelho da dor”. Chicotes, amarras e plugs anais são apenas uma parte do universo de possibilidades do personagem.


A repercusão

Mania mundial, Cinquenta tons e suas continuações (Cinquenta tons mais escuros e Cinquenta tons de liberdade) acabaram nomeando o subgênero pornô para mamães. “Filho” da era do e-book, o livro de E. L. James fez com que várias outras donas de casa “saíssem do armário” e escrevessem seus próprios romances eróticos digitais. Já no mercado editorial, a série nascida a partir do boom que fez maior sucesso é Crossfire, de Sylvia Day. Escritora de livros eróticos muito antes da explosão mercadológica, ela cria personagens tal qual os de E. L. James. Só que não há o clima sadomasô. A repercussão é tanta que a trilogia inicial deu lugar a mais dois livros.


Produção do filme

Mal o livro iniciava sua dominação mundial, a Universal Pictures e a Focus Features compraram os direitos de adaptação cinematográfica. O acordo foi fechado em 2012 e E. L. James teria recebido 5 milhões de libras. Fechado o acordo, começou a correria para ver quem participaria do projeto. A diretora Sam Taylor-Johnson não foi a primeira opção. Entre os cotados estavam Joe Wright, Bill Condon e Steven Soderbergh. Quanto ao elenco, a história foi mais complicada. Fãs iniciaram campanhas on-line para escalar os protagonistas, principalmente Christian Grey. Entre os mais cotados estavam Robert Pattinson, Ian Somerhalder, Ryan Gosling e Matt Bomer. Pois em setembro de 2013 saíram os escolhidos: Charlie Hunnam e Dakota Johnson. A decepção foi geral. Pois Hunnam não durou muito tempo: um mês mais tarde, saiu do projeto, alegando que havia conflito de datas com as gravações da série Sons of anarchy. Jamie Dornan foi confirmado em outubro do mesmo ano.


Os atores

Dakota johnson

Nascida em Austin, Texas, a filha de Melanie Griffith e Don Johnson e neta, por parte de mãe, de Tippi Hedren, uma das musas de Alfred Hitchcock, tem 25 anos. Até ser escalada para o papel de Anastasia, Dakota era loira como a mãe e a avó. Não teve nenhum papel de destaque antes do filme, mas participou de projetos conhecidos. Estreou no cinema em Loucos do Alabama (1999), dirigida pelo próprio padrasto, Antonio Banderas, em papel em que era filha da própria mãe e irmã de sua meia-irmã, Stella Banderas. Na década seguinte, estudou atuação e teve seus momentos de modelo. Só voltaria ao cinema em 2010, com um pequeno papel em A rede social (2010). Ainda participou de Anjos da lei e Cinco anos de noivado (ambos de 2012). Com o blockbuster, a estrela de Dakota só fez crescer. Serão lançados este ano ou no próximo três filmes com ela, agora como protagonista.

Jame Dornan

Até chegar ao papel masculino mais falado dos últimos anos, Jamie Dornan fez de tudo um pouco. Nascido em Belfast, filho de um prestigioso médico irlandês, o ator de 32 anos já teve uma banda (Sons of Jim), foi modelo (já fez campanhas com Gisele Bündchen e Kate Moss) e foi conhecido durante um bom tempo como o namorado de Keira Knightley, com quem chegou até a dividir apartamento. No cinema, fez sua estreia numa participação ínfima no badalado Maria Antonieta (2006), de Sofia Coppola. Depois de alguns filmes e séries sem expressão, começou a aparecer como Caçador da série Once upon a time (2011). Mas o papel que foi definitivo para que ele se tornasse Christian Grey foi o psicopata Paul Spector na série The fall. Com as duas primeiras temporadas disponíveis no Netflix, é esperada uma terceira para este ano. Também em 2015, Dornan participa de outros dois filmes. E se diz um cara comportado (“o oposto de Christian Grey”), é casado com a cantora Amelia Warner e tem uma filhinha.

Cena de sexo

 Para quem esperava uma explosão de sexo nas telas, a realização no cinema foi pífia. O primeiro dos três filmes de Cinquenta tons de cinza (o segundo começa a ser rodado em junho) é bem tímido nos números. São apenas quatro cenas de sexo. Não há nenhum nu frontal, apenas três parciais de Anastasia (fãs de Dornan não vão ver muito mais do que seu torso e o traseiro). A garota é amarrada por ele com cordas duas vezes, outras duas com uma gravata (cinza, claro). Ele dá cinco tapas, cinco chicotadas e meia dúzia de “cintadas” na personagem.


Muuuuito sexo

Vá à locadora mais próxima e deleite-se em casa com clássicos do gênero:
O último tango em Paris (Bernardo Bertolucci, 1972), mais conhecido como o filme em que Marlon Brando utiliza manteiga como lubrificante anal para Maria Schneider; Saló ou Os 120 dias de Sodoma (Pier Paolo Pasolini, 1975), inspirado na obra do Marquês de Sade, que utiliza toda sorte de perversão (incluindo coprofagia, necrofilia, mutilação) para falar sobre dominação social. Ou O império dos sentidos (Nasgisa Oshima, 1976), que mostra a relação obsessiva entre ex-prostituta e seu patrão no Japão pré-Segunda Guerra. A cena antológica é aquela em que um ovo cozido é colocado na protagonista, que depois o devolve ao amante. 

Livres do olhar alheio

Segundo cientistas dos EUA, as pessoas recorrem aos amuletos da sorte quando precisam executar performances que dependem da aprovação dos outros. Em casos que envolvem a aprendizagem, a superstição é deixada de lado


Isabela de Oliveira
Estado de Minas: 17/02/2015



Um pé de coelho ou uma roupa especial? Não interessa qual o amuleto, contanto que ele ajude no desafio a ser superado. Uma pesquisa recente publicada na revista Personality and Social Psychology Bulletin mostra que os recursos sobrenaturais são mais usados quando o desempenho da pessoa vai determinar o resultado dela na meta a ser alcançada, sendo que a performance costuma ser julgada pelos outros. Ou seja, o objeto de sorte sempre vem acompanhado da vontade e da necessidade de aprovação.

De acordo com os autores, das universidades de Boston e Tulane, ambas nos Estados Unidos, as pessoas costumam recorrer aos amuletos quando há um alto nível de incerteza e as metas não envolvem aprendizagem. Isso significa que o julgamento alheio, na realidade, é o maior motivador da fé no sobrenatural.

“Algumas estratégias são racionais, como o investir para ter uma aposentadoria estável ou estudar antes de uma prova. Outras estratégias são menos, por exemplo, recorrer à superstição para criar a ilusão de controle sobre resultados incertos”, diferencia o principal autor do estudo, Eric Hamerman, da Universidade de Tulane.

Encaixa-se no primeiro caso o músico que deseja se tornar competente como guitarrista e, por isso, passa horas treinando. Na segunda situação, a estratégia não é focar no aprendizado, mas em um objeto que dê sorte suficiente para o artista arrancar aplausos inflamados do público quando estiver se apresentando. As diferenças, analisam os cientistas, indicam que metas de desempenho tendem a ser motivadas por fatores externos e são percebidas como suscetíveis à influência de forças que não podem ser controladas.

Objetivos de aprendizagem, por outro lado, têm motivação interna, sendo, muitas vezes, encarados com o pensamento de que “o sucesso depende só de mim”. Hamerman e Carey Morewedge chegaram a essas conclusões após realizar uma série de experimentos para testar se o tipo de meta mudaria a probabilidade de um comportamento supersticioso.

Um dos testes examinou a dependência dos amuletos, analisando como as pessoas se relacionavam com itens associados à sorte ou ao azar. Os pesquisadores pediram que voluntários escolhessem um amuleto da sorte antes de perseguir um objetivo. Em um dos casos, os participantes foram informados de que uma caneta traria sucesso porque, em tarefas anteriores, quem a usou obteve resultados mais positivos. As pessoas foram convidadas a classificar a preferência para usar o objeto em duas situações: de desempenho ou de aprendizagem.

Em outro experimento, os autores associaram avatares de videogame com o sucesso ou o fracasso em uma partida. Com isso, puderam observar se os jogadores tinham alguma preferência de imagem ao participar das partidas. Na maior parte dos experimentos, as pessoas mostraram-se supersticiosas quando necessitavam atingir objetivos tanto rápido quanto de longo prazo, mas não quando precisavam concluir uma tarefa de aprendizagem.


Mais confiantes Os autores reforçam que, quando pressionadas pela incerteza — ou seja, se não se sentem confiantes —, as pessoas se apoiam mais na superstição. Por exemplo, a “caneta da sorte” fez mais sucesso do que uma caneta associada à inteligência no teste de desempenho, uma vez que as pessoas não preferiram nenhum amuleto quando precisavam simplesmente estudar.

Hamerman lembra, no entanto, que a pesquisa não investiga se a crença em superstições tem um efeito real sobre o desempenho. Mas mostra, incontestavelmente, que a confiança das pessoas aumenta quando estão munidas com os amuletos. Os autores dizem, entretanto, que o acréscimo na sensação de amparo e segurança pode aumentar as chances de um resultado positivo.

Os rituais supersticiosos costumam ser usados para aumentar a sensação de controle pessoal, fazendo com que os ansiosos sejam um grupo muito afeito à fé. Isso porque, quase como um remédio, essas crenças acalmam temores e tranquilizam. Por outro lado, quando há redução na sensação de ameaça e incerteza, as pessoas se tornam menos inclinadas a recorrer à superstição. A percepção de capacidade, ao contrário, é negativamente associada à crença de que uma força externa é a solução.


Incertezas Para Jennifer Whitson, pesquisadora da Universidade do Texas, os resultados de Hamerman têm fundamento. Segundo ela, emoções que refletem a incerteza sobre o mundo — por exemplo, preocupação, surpresa, medo, esperança — , em comparação com sentimentos simples e bem definidos — raiva, felicidade, repugnância, contentamento— , ativam a necessidade de medidas compensatórias.

Em um estudo semelhante ao de Hamerman, publicado recentemente na revista Journal of Experimental Social Psychology, a autoafirmação eliminou os efeitos das emoções incertas com controles compensatórios relacionados às superstições. “Esses estudos estabelecem uma ligação entre a experiência de emoções e o desejo de estrutura. Emoções incertas ativam uma necessidade de impregnar o mundo com ordem. Elas aumentam a defesa e a crença em conspirações governamentais, por exemplo, e também no paranormal”, diz a pesquisadora, que não participou do trabalho de Hamerman.

Em seus estudos, Whitson observou que a incerteza tem os mesmos aspectos que a falta de controle, embora ambas as emoções sejam conceitualmente distintas. “Nossas pesquisas estabelecem que as duas representam uma construção ampla, que incita a necessidade de estrutura. A incerteza, por si só, é suficiente para conduzir estratégias compensatórias de controle”, analisa a especialista.

 Para essas pessoas, portanto, as superstições são positivas, por as ajudar a lidar com as dificuldades do mundo. “Quando a ansiedade é incapacitante, comportamentos supersticiosos podem ser eficazes por aumentar a autoconfiança e melhorar as expectativas de desempenho”, explica Whitson.

Palavra de especialista

Agnaldo Cuoco Portugal, professor de filosofia da religião da Universidade de Brasília (UnB)
Termo pejorativo
“Os resultados eram esperados, pois o aprendizado, ao contrário do desempenho, é um processo mais interno. A superstição é uma tentativa de controlar elementos incertos, sendo basicamente uma crença falsa, e não fundamentada racionalmente. É importante notar que a superstição não é exatamente religiosa, e as religiões estabelecem essas crenças como algo negativo. Grandes pensadores religiosos da Idade Média entendiam que as superstições eram mais perigosas para a religião do que o ateísmo. Hoje, mesmo vivendo em uma era de grandes processos científicos, a incerteza é parte da vida e nunca vai deixar de ser. Embora a ciência diminua a ignorância, a incerteza fica e a superstição tenta cobrir essa lacuna. Na realidade, o termo superstição é pejorativo e tem carga de valoração negativa de princípios. Entretanto, do ponto de vista psicológico, é importante porque ajuda a combater a ansiedade. Mas, além disso, por oferecer uma reposta à insatisfação humana, aos elementos passageiros, incertos e pouco sólidos.” 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Doida Demais - Carolina Braga

DOIDA DEMAIS Aos 74 anos, a atriz Teuda Bara prepara adaptação do conto A doida, de Carlos Drummond de Andrade, e é tema da biografia Comunista demais para ser chacrete, de João Santos


Carolina Braga
Estado de Minas: 16/02/2015




A atriz Teuda Bara, que recusou convite de Chacrinha para se tornar chacrete nos anos 1970 e é uma das fundadoras do Grupo Galpão, em 1982 (Paulo Filgueiras/EM/D.A.Press)
A atriz Teuda Bara, que recusou convite de Chacrinha para se tornar chacrete nos anos 1970 e é uma das fundadoras do Grupo Galpão, em 1982


Foi numa noite regada a muito uísque e cachaça, saboreados com linguiça e torresmo, debaixo de um pé de manga na Avenida do Contorno, que Abelardo Barbosa, o Chacrinha, conheceu a dona da risada mais marcante da cena teatral de Belo Horizonte.

“Ele ficava batendo a mão nas minhas coxas e falava: vamos para o Rio comigo, vamos lá para você ser chacrete”, lembra Teuda Bara, entre uma gargalhada e outra.

Era a década de 1970 e, depois de uma palestra dele na sede do DCE da UFMG, a então estudante de sociologia da Fafich estava no grupo incumbido de ciceronear o maior bufão que a comunicação brasileira conheceu. “Eu falava: ‘Não posso ser chacrete, sou gorda’. E ele: ‘Minha filha, faço programa para as classes C e D. Eles gostam de mulher peituda e coxuda’”, conta.

Teuda preferiu ficar em Minas. “Tinha acabado de entrar na universidade, descobrindo o que era aquela bagunça. Como você sai para ser chacrete?”

A verdade é que, em plena ditadura, a moça que em 1966 ouviu Caetano Veloso cantar ‘caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento’ e, literalmente, jogou seu RG pela janela, tinha ideias igualitárias demais para aceitar a proposta de quem gostava de distribuir bacalhau para a plateia.

E se Teuda Bara era comunista demais para ser chacrete, foi esse o título escolhido pelo jornalista e escritor João Luis Santos para o livro que reúne casos memoráveis da atriz, fundadora do Grupo Galpão.

Aos 74 anos, Teuda perdeu as contas de quanto tempo tem de carreira. João, não. Segundo ele, no ano que vem ela completa quatro décadas de um ofício que surgiu em sua vida por acaso. Primeiro, foram experiências com o teatro jornal (pequenas encenações a partir do noticiário), ainda na universidade, até que ela estreou profissionalmente sob a direção de Eid Ribeiro em Viva Olegário, em 1976.

Foi a partir de então que Teuda Magalhães Fernandes tornou-se Teuda Bara, uma referência - e homenagem - à estrela de Hollywood Theda Bara, de Cleópatra (1917).

“Todo mundo tem uma história da Teuda para contar. Por isso optei por não fazer uma biografia linear, mas escolher alguns casos. É um best of”, diz João Santos sobre o livro. Teuda Bara: comunista demais para ser chacrete começou como um projeto de conclusão do curso de jornalismo e se converteu na ideia do livro. Está no ar pela Variável 5 (www.variavel5.com.br) a campanha de financiamento coletivo para que a obra seja publicada neste ano.

‘TEVE AQUELA VEZ...’

Teuda tem humor peculiar ao narrar sua vida. Quando solta um “teve aquela vez...”, lá vem história, em geral contada de forma caótica e invariavelmente espalhafatosa. É assim que ela começa a se lembrar do fim do noivado de oito anos, graças a uma noitada, nos primeiros tempos da boemia no Edifício Maletta.

“Estava saindo do Instituto de Educação com o uniforme ‘Educar-se para educar’, e meu irmão me chamou para ver um show dele. Fui e adorei aquela coisa escura. Quando veio o gim tônica com o gelo iluminado pela luz negra, fiquei alucinada. No dia seguinte, fui, toda alegre, contar para o noivo, e ele ficou possesso.”

Para apaziguar a tristeza pelo término do noivado, o pai de Teuda a convidou para uma sessão do então badalado Circo Garcia. “Quando sentei para ver, pensei: ‘Que noivado, que nada’. Fiquei louca com tudo. Tinha elefante, macaco, cachorrinho, os artistas eram maravilhosos. Aí, claro que fiquei amiga do circo inteiro”, recorda. Não só amiga, mas também namorada de um certo trapezista alemão chamado Johann Grimm.

“No primeiro mês de namoro, já tinha ido a todas as boates de Belo Horizonte com ele”, conta. Quando o circo deixou Belo Horizonte, o rapaz ficou na cidade. Tornou-se bombeiro e o relacionamento não foi para a frente.
“Foi a maior besteira que eu fiz. Devia ter ido com o circo”, lamenta-se a atriz. Teuda nunca se casou. Mas como diz ser uma mulher de grandes paixões, logo já estava encantada pelas novidades que o diretor Zé Celso Martinez Corrêa aprontava com o Teatro Oficina. “Fiquei muito alucinada quando vi. Tinha certeza de que não queria fazer nada mais na vida que não fosse aquilo.”

Entrou para o Oficina, mas, logo que se descobriu grávida do segundo filho, voltou para Belo Horizonte.
No início da década de 1980, participou de oficina com integrantes do Teatro Livre de Munique. Naquela turma, conheceu Antônio Edson, Eduardo Moreira e Wanda Fernandes, com quem fundou o Grupo Galpão, em 1982. Teuda é a “mãezona” da companhia e a protagonista dos grandes casos de bastidores. Ela já parou trem na Europa e até fez militantes do Sendero Luminoso aguardarem uma ida dela ao banheiro na turnê pelo Peru.

Quando tinha 64 anos, a atriz recebeu o sedutor convite de atuar em uma montagem do Cirque du Soleil em Las Vegas, sob a direção de Robert Le Page. Mesmo sem falar uma palavra em inglês, ela foi e ficou por lá durante quatro anos. Resumindo, foi vítima da bolha imobiliária pré-crise financeira global, enfrentou falência da companhia aérea com a qual tinha o bilhete de volta e protagonizou escândalo no aeroporto para conseguir chegar ao Brasil.

Acharam que ela era doida. “Eu pirei. Juntei tudo o que eu sabia de inglês e falei: You think I’m crazy, I’m not. Eu fico crazy assim! Peguei a minha saia e levantei”, relata, usando a tradicional gargalhada como ponto final. Quando Teuda para e pensa no que já aprendeu da vida, lembra-se do amigo Paulo José, o maior exemplo de superação que tem por perto. “Aprendo todo dia. Não pode desanimar. Tem que ir. Vai arrastando, mas vai.”


Parceria inédita


Num currículo com mais de 20 peças teatrais, novelas, curtas e longas-metragens, entre eles O palhaço, com direção de Selton Mello, Teuda Bara vai acrescentar uma experiência inédita. Se tudo caminhar como o planejado, estreará neste ano a primeira peça ao lado do filho, Admar Fernandes. Será a adaptação do conto A doida, de Carlos Drummond de Andrade, com direção de Inês Peixoto. É um projeto paralelo à agenda do Grupo Galpão.  A ideia dessa montagem surgiu na época em que Teuda morava em Los Angeles, a serviço do Cirque du Soleil, para a montagem de K.A, sob a direção de Robert Le Page. Admar estava com ela e comentou o arrebatamento que sentiu ao ler conto do itabirano.  Há pelo menos cinco anos eles esperam o melhor momento para transformar o conto em uma peça.“Estava fazendo novela (Meu pedacinho de chão) com a Inês e por isso nós não entramos na última montagem (do Galpão). Aí, pensei: é a oportunidade”, diz. Por enquanto, Inês, Admar e João Santos, que foi convidado para adaptar o texto, têm-se reunido para os primeiros  estudos do conto. A história é sobre uma mulher frequentemente apedrejada por meninos travessos. “O fato é que é uma isolada, segregada”, pontua. Uma personagem que parece muito distante da Teuda Bara que todos já conhecem.