quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Conforto - Eduardo Almeida Reis

Pensei comprar um condicionador de ar, 10 prestações de R$ 200, mas acabei descobrindo um jeito de ter conforto térmico. Como? Janelas abertas


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas : 25/02/2015




No Rio, estudando e trabalhando engravatado, conheci o Dr. Rezende, médico mineiro que pesquisava na área de clima da Organização Mundial de Saúde (OMS) e me disse que os ternos claros diminuíam a sensação térmica dos engravatados em três graus e que os sujeitos de camisa esporte baixavam dois graus na sensação se tivessem as camisas para fora das calças. Deu para entender?

Com a onda de calor de janeiro, que assustou os habitantes deste país grande e bobo, muitas repartições cariocas autorizaram seus operosos funcionários a trabalharem de bermudas. A providência vai de encontro – isto é, se choca, contraria – àexperiência milenar dos cavalheiros e damas que residem nos desertos muito quentes durante os dias, muito frios durante as noites. Por isso, as pessoas usam aqueles camisolões brancos que as protegem do calor diurno mantendo seus corpos em temperaturas “normais”, de mesmo passo em que as protegem à noite do frio excessivo.

Devo ter escrito um monte de besteiras nas primeiras 159 palavras deste belo suelto, mas o fato é que sofri com o calor excessivo que se abateu sobre o meu tugúrio. A partir de duas horas da tarde pelo horário brasileiro de verão, 29 ou 30 graus no termômetro da sala. Detesto frio depois de morar quatro anos numa das fazendas mais frias do planeta, mas descobri que 29ºC estão acima de minha zona de conforto térmico.

Pensei comprar um condicionador de ar, 10 prestações de R$ 200, para funcionar 15 dias por ano, mas acabei descobrindo um jeito de ter conforto térmico 12 horas por dia, entre as 10h da noite e as 10h da manhã. Como? Janelas abertas. O sistema funcionou, apesar das advertências de um querido amigo, Ph.D em medicina, que me advertia pelo interurbano: “Cuidado com a chikungunya! Cuidado com o morcego hematófago!”. Em medicina, professores doutores podem ser assustadores.

Missão

Fenômeno raro na administração pública brasileira, a nova presidente da Copasa é bonita e alfabetizada. Os mineiros desejam que seja bem-sucedida na função que lhe foi confiada. Captação, tratamento e distribuição de água, coleta e tratamento de esgotos são processos conhecidos e praticados no mundo civilizado. Missão difícil, mesmo, será acomodar o ilustre mineiro Tilden Santiago num cargo à altura de sua reputação. Sugiro uma diretoria de Assuntos Celestiais que ponha o padre Tilden em contato com o Criador, responsável, em última análise, pelas chuvas nos lugares e nas horas certas, sem as quais é impossível captar, tratar e distribuir águas.

Nascido para supremo pontífice, que deveria anteceder o papa Francisco na função de primeiro papa sul-americano, padre Tilden foi atraído pelos prazeres da carne, da política partidária e se destacou. Embaixador brasileiro em Cuba de 2003 a 2006, durante o primeiro mandato do pai do Lulinha, encantou os cubanos, agilitou as malas diplomáticas, elogiou o fuzilamento de três ilhéus capturados quando tentavam fugir de Cuba.

O governo Rousseff, que condena o fuzilamento de traficantes na Indonésia, país de população maior que a nossa, com uma taxa de homicídios por 100 mil habitantes muito menor que a brasileira, não apoia os elogios do embaixador do pai do Lulinha, padre que justificava o abate de fugitivos do paraíso, de mesmo passo em que agilitava as malas diplomáticas.

Deputado federal (PT-MG) de 1991 a 2003, PSB de 2008 até hoje, Tilden José Santiago é mais que um cidadão brasileiro, é uma instituição nacional e como tal deve ser aproveitado para o bem de todos e felicidade geral da nação. Tenho dito e mais não digo para evitar que se conspurque este espaço imaculado de nossa mídia impressa.
 
O mundo é uma bola


25 de fevereiro de 1308: coroação de Edward II como rei da Inglaterra. O xará foi um dos responsáveis pela divisão do Parlamento Britânico em Casa dos Comuns e Casa dos Lordes. Em 1551, o papa Júlio III cria a diocese de Salvador, Bahia. Em 1570, o papa Pio V excomunga a rainha Elizabeth I da Inglaterra. Excomungada, a rainha viveu até março de 1603, a Inglaterra conheceu o Período Elisabetano e o mundo herdou William Shakespeare e Christopher Marlowe (1564-1593) renovador do teatro com a introdução de versos brancos, estrutura que seria utilizada por Shakespeare. Marlowe foi assassinado ainda jovem numa briga de taberna. Só aí tivemos Júlio III criando a diocese soteropolitana e Pio V excomungando Elizabeth I. Hoje, nosso belo papa Francisco fala pelos cotovelos.

Em 1836, o norte-americano Samuel Colt patenteia o primeiro revólver. Em termos históricos foi “outro dia”. Em 1869, abolição da escravatura em todos os domínios portugueses. No ano seguinte, o republicano Hiram R. Revels, representando o estado de Mississippi, foi o primeiro negro eleito para o Senado norte-americano. Em 1942, mais de 100 mil pessoas avistam estranhos objetos sob os céus de Los Angeles, Califórnia. O episódio ficou conhecido como Batalha de Los Angeles, porque foram disparados vários mísseis contra os objetos, sem nenhum efeito.

Ruminanças

“Nascer em certos estados brasileiros é mácula difícil de apagar” (R. Manso Neto).

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Pau de Selfie - Eduardo Almeida Reis

O assunto suscita a seguinte pergunta: como guardar o seu pau de selfie?


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 23/02/2015



Ao arrepio do resto da humanidade, ainda não comprei um pau de selfie nem vou comprar. Na imbecilérrima interação com os telespectadores, virou moda em nossos canais de tevê a exibição das fotos imbecis tiradas com os paus de selfie, com as frases não menos idiotas dos fotografados. O assunto suscita a seguinte pergunta: como guardar o seu pau de selfie? Nos aviões, não podiam viajar na cabine com os seus proprietários, mas agora podem. Separar o pau de selfie do seu dono soava como amputação.

Em casa, presumo que fiquem guardados nos armários. Presumo, outrossim, que a posição no armário ou na cômoda seja irrelevante, ao contrário do que se diz do ato sexual em que certas posições podem ser perigosíssimas. Passo a palavra ao noticiário: “RIO – Homens, cuidado! É bom ficar atento quando sua parceira – principalmente se for brasileira – sugerir que ela fique por cima durante a relação sexual. Segundo o periódico britânico The Independent, essa posição é a culpada pela metade das fraturas penianas. Os autores da pesquisa, publicada originalmente no jornal Advances in Urology, analisaram os casos de 44 pessoas em três hospitais de Campinas, São Paulo, num período de 13 anos.

Uma das justificativas é justamente o fato de a mulher estar controlando o pênis com todo o peso de seu corpo – o que torna complicada a tarefa de interromper a penetração se algo sair fora do planejado. Ela, geralmente, sai do incidente sem sequelas. Mas ele... De acordo com a pesquisa, 50% dos pacientes ouviram um estalo e sentiram dor após a ‘colisão’. A maioria consultou um médico nas próximas cinco ou seis horas seguintes. O estudo ainda informou que a posição mais segura para o homem seria a do ‘missionário’. Ou seja: quando ele está por cima. Os cientistas deixaram claro que esse tipo de lesão não é comum, mas causa um certo constrangimento”.

Putzgrila! Um certo constrangimento... Imagine o caro e preclaro leitor o tipo de lesão que possa causar real constrangimento. O texto, que transcrevi ipsis litteris, tem um monte de besteiras como “próximas cinco ou seis horas seguintes”, mas vai assim mesmo porque a notícia é preocupante.

Craques
Não sou crítico literário. Não entendo de literatura. Duvido que o leitor aponte um só trecho em que o seu philosopho se identifique, se apresente como escritor. Sempre disse que sou autor de livros, porque gosto de escrever e tenho 20 publicados. Só isso.
Acontece que recebo livros escritos por amigos e é justo que fale deles. Os últimos foram três, de uma trinca de craques, que li e gostei. Pela ordem de chegada, aqui vão. O primeiro, Casco vazio de ser humano – Crônicas de morte, foi escrito pelo médico Neif Musse, cardiologista e geriatra, professor de medicina que adora lidar com terra, produz mudas de plantas, árvores, hortaliças e flores, cultiva minhocas, cria cachorros, faz dança de salão e o seu dia dura mais que 24 horas, foi vivamente recebido e elogiado por Affonso Romano de Sant’Anna, o que diz tudo e mais alguma coisa.

O segundo, Conversa/entrevista com Fernando Pessoa, foi escrito por Ricardo Arnaldo Malheiros Fiuza, querido confrade na Academia Mineira de Letras, professor de direito constitucional há mais de 40 anos, redator da constituição de Timor Leste, país vizinho da Indonésia hoje conhecida por fuzilar brasileiros traficantes de drogas. Ricardo nasceu em BH e é o mais português dos brasileiros, todo ano visita Ponte de Lima, terra dos Malheiros avoengos, e produziu obra-prima nessa conversa/entrevista com o finado Pessoa.
O terceiro, Rio da lua, tenha medo, tenha muito medo, romance da lavra do escritor Renato Zupo, magistrado no Araxá, velho amigo que não conheço pessoalmente, escritor de alevantadas qualidades intelectuais. Claro que tenho muito medo depois de ler crônicas de morte e uma conversa/entrevista com um poeta morto em 1935, quando Ricardo Fiuza ainda não tinha nascido na capital de todos os mineiros. Fica o registro.
 
O mundo é uma bola

23 de fevereiro de 1797: todos os detentores de bens da Coroa portuguesa e os herdeiros de morgados ou capelas passam a ter que servir no Exército ou na Marinha, sob pena de devolução dos bens. Algo inimaginável, hoje, num país grande e bobo, em que os detentores de meia dúzia de reais sempre dão um jeito de escapar do serviço militar.

Em 1861, o presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, chega secretamente a Washington para assumir a Ppresidência, depois de escapar de um atentado em Baltimore. Em 1911, os bispos portugueses contestam as medidas anticlericais da Primeira República: a expulsão das congregações, a lei do divórcio, a criação do registro civil e o fim do juramento religioso nos tribunais. Em 1954, o imunologista norte-americano Jonas E. Salk apresenta a vacina para a poliomielite. Hoje é o Dia da Sedução, do Boticário, do Rotariano e do Surdo, bem como do Surdo-Mudo.

Ruminanças
“O criador do Jeca (Monteiro Lobato) era um patriota da melhor marca, tanto ou mais que aqueles que o censuravam por ter apresentado em toda a sua fealdade e miséria o nosso elemento humano e subumano” (Eduardo Frieiro, 1892-1982).

A delação premiada e a ética - Renato Janine Ribeiro

Valor Econômico 23/02/2014

Usar a delação premiada, contra corruptos e criminosos, em geral é ético? A filosofia pode responder

Há uma grande, quase única maneira de acabar com quadrilhas: é a polícia ou o Ministério Público jogar um membro delas contra outro. Esse conceito está presente na delação premiada, vedete da Operação
Lava Jato, que investiga a corrupção na Petrobras. 


A chave disso é quebrar a confiança. Hoje, qualquer um que participa de um esquema corrupto sabe que pode ser pego. Desde o mensalão do DEM, o melhor é ele gravar, escondido, suas conversas – já se preparando para uma delação premiada. Há tecnologia para tanto. Há mais que isso. As relações hoje são tênues, frágeis. Baumann fala em “amores líquidos”. Todos os vínculos podem se liquefazer. Na hora H, ninguém sabe o que dirá o amigo de infância ou a esposa traída. Ora, a Justiça pode nadar de braçada nesse esgarçamento dos vínculos. Os microgravadores são apenas o meio técnico; a grande razão é essa: a confiança já não dura tanto na vida. Amigos, sobretudo entre bandidos de colarinho branco, são para as horas boas, não as más. O segredo dos investigadores é quebrar a confiança e a lealdade entre os bandidos que não matam com arma branca ou de fogo, mas com dinheiro desviado do orçamento.


O que a filosofia tem a dizer sobre isso? Em nossa área há o assim-chamado Dilema do Preso (uns dizem “do prisioneiro”). Suponhamos dois presos, suspeitos de um crime. Mas não há provas contra eles. O investigador os interroga em separado, sem terem comunicação entre si. A cada um, promete imunidade quase total se entregar o outro; mas, se ele se calar e o outro o entregar, uma pena bem alta. (Nem sabemos se cometeram o crime). A melhor saída é nenhum confessar: saem livres. A segunda melhor, para um deles, é acusar o outro – que terá uma pena severa, enquanto o acusador ficará preso alguns meses. O investigador diz o tempo todo, a cada um, que o outro está a um passo de acusá-lo. A condição para a polícia vencer é nenhum dos dois saber o que o parceiro vai fazer. Lembrem que talvez não sejam criminosos. Podem ser ambos inocentes. 


O melhor é se calar – desde que o outro também fique. Se não, o segundo melhor é ficar preso um ano, acusando o parceiro. Se eu tiver total confiança nele, e ele corresponder, saímos livres. Mas, se não houver confiança?


Este é o padrão do “Law and Order”: apostar na deslealdade. Só que a Lava Jato, como as investigações americanas e italianas contra a Máfia, faz isso em escala macro, complexa. Não é o Estado contra dois. É o Estado contra quadrilhas de corruptos e corruptores. Não é só saber quem matou. É uma rede complexa de negócios, que para ser desmascarada exige expertise. Os investigadores têm de ser ótimos. 


É ético usar da delação premiada? Contra o criminoso, não vejo problema ético. O desvio do dinheiro público não pode ser um crime leve. A delação só penaliza o criminoso no que ele merece. Mas a questão se coloca num outro âmbito. O delator terá a pena reduzida ou até perdoada. Isso é justo? Cúmplices menos culpados sofrerão penas maiores, só porque ele contou primeiro. Isso é duvidoso eticamente. Mas, se fosse para no final das contas calibrar as penas só pelas culpas, a delação não teria sido necessária – ou útil.


A questão remete a uma escola filosófica, o utilitarismo – a escola de pensamento mais seguida, embora pouco mencionada. Imagine que seu carro perdeu o freio. Sua única opção é atropelar cinco pessoas à direita, ou uma à esquerda. A resposta utilitarista é: faça o que matar menos. Ou na economia: você tem que escolher entre uma medida que beneficia cem mil pessoas e outra, boa para dez mil. O utilitarismo recomenda a primeira opção. É quase impossível, na política real, ter de um lado o bem perfeito e de outro, o mal absoluto. Por isso, recomenda-se o menor mal. A política, para ser ética, precisa ser utilitarista.



A delação premiada, então, escolhe o mal menor. Deixaremos solta a Máfia, porque não podemos punir todos na proporção exata da culpa? Deixaremos os corruptos livres, porque seria antiético soltar um chefão que confessou, enquanto encarceramos dez bagrinhos? Nenhuma solução é plenamente justa. Mas qualquer solução pode ser mais justa do que deixar mafiosos matando nas ruas e corruptos matando no orçamento. 


É recomendável, sempre usando termos éticos (e não jurídicos), tomar cuidado. A delação deve ser conferida. Só deve ser premiada se for plenamente veraz. Deve-se evitar soltar chefões demais, condenar bagrinhos em excesso. Mas isso não é fácil. Ganha mais quem pisca primeiro.
Repito: a chave é destruir a lealdade entre criminosos. Muita gente fala em códigos de ética de certos grupos. Dizem que a “ética da cadeia” é estuprar quem cometeu crimes de abuso sexual. Em algumas profissões, vigeu o “código” que era jamais denunciar o confrade, ainda que tivesse prejudicado o cliente ou paciente. Eu, professor de Ética que sou, me recuso a chamar de ética a tais regras de convivência entre criminosos. Mas celebro toda tentativa de introduzir a desconfiança entre os que têm sucesso em suas empresas criminosas justamente porque são desleais com a sociedade, mas extremamente leais entre si. A força da quadrilha está nessa certeza de que cada membro da Yakusa confia nos outros para o que der e vier. Mas não há virtude numa lealdade entre bandidos, que se funda na deslealdade para com a sociedade como um todo, em especial seus membros mais vulneráveis. A delação premiada, sem ser exemplo de uma ética ideal, é porém um recurso necessário para, coibindo os crimes de quadrilhas, tornar mais ética a sociedade como um todo.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Ledices II - Eduardo Almeida Reis

Monteiro Lobato adorava café com farinha de milho, rapadura e içá torrado (a bolinha traseira da formiga tanajura), além de Biotônico Fontoura



Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 22/02/2015 


Prosseguindo com as maluquices dos escritores, que copiei do site UBE/RN, vejo que, numa viagem a Portugal, Cecília Meireles marcou encontro com o poeta Fernando Pessoa no café A Brasileira, em Lisboa. Sentou-se ao meio-dia e esperou em vão até as duas horas da tarde. Decepcionada, voltou para o hotel, onde recebeu um livro autografado pelo poeta. Junto com o exemplar, a explicação para o “bolo”: Fernando Pessoa tinha lido seu horóscopo pela manhã e concluiu que não era um bom dia para o encontro. Clarice Lispector era solitária e tinha crises de insônia. Ligava para os amigos e dizia coisas perturbadoras. Imprevisível, era comum ser convidada para jantar e ir embora antes de a comida ser servida.

Monteiro Lobato adorava café com farinha de milho, rapadura e içá torrado (a bolinha traseira da formiga tanajura), além de Biotônico Fontoura: “Para ele, era licor”, diverte-se Joyce, neta do escritor. Também tinha mania de consertar tudo: “Mas, para arrumar uma coisa, sempre quebrava outra”. Manuel Bandeira sempre se gabou de um encontro com Machado de Assis, aos 10 anos, numa viagem de trem. Puxou conversa: “O senhor gosta de Camões”? Bandeira recitou uma oitava de Os Lusíadas que o mestre não lembrava. Na velhice, confessou: era mentira. Tinha inventado a história para impressionar os amigos.

Guimarães Rosa, médico recém-formado, trabalhou em lugarejos que não constavam no mapa. Cavalgava a noite inteira para atender pacientes que viviam em longínquas fazendas. As consultas eram pagas com bolo, pudim, galinha e ovos. Sentia-se culpado quando os pacientes morriam. Acabou abandonando a profissão: “Não tinha vocação. Quase desmaiava ao ver sangue”, conta a filha mais nova. Mário de Andrade provocava ciúmes no antropólogo Lévi-Strauss porque era muito amigo da mulher dele, Dina. Só depois da morte de Mário, o francês descobriu que se preocupava em vão. O escritor era homossexual.

Vinicius de Moraes, casado com Lila Bosco, no início dos anos 50 morava num minúsculo apartamento em Copacabana. Não tinha geladeira. Para aguentar o calor, chupava uma bala de hortelã e, em seguida, bebia um copo de água para ter sensação refrescante na boca. José Lins do Rego foi o primeiro a quebrar as regras na ABL, em 1955. Em vez de elogiar o antecessor, como de costume, disse que Ataulfo de Paiva não poderia ter ocupado a cadeira por faltar-lhe vocação. Jorge Amado, para autorizar a adaptação de Gabriela para a tevê, impôs  que o papel principal fosse dado a Sônia Braga. “Por quê?”, perguntaram os jornalistas. Jorge respondeu: “O motivo é simples: nós somos amantes”. Ficou todo mundo de boca aberta. O clima ficou mais pesado quando Sônia apareceu. Mas ele se levantou e, muito formal, disse: “Muito prazer, encantado”. Era piada. Os dois nem se conheciam até então. O poeta Pablo Neruda colecionava de quase tudo: conchas, navios em miniatura, garrafas e bebidas, máscaras, cachimbos, insetos.

Vladimir Maiakóvski tinha o que atualmente chamamos de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). O poeta russo tinha mania de limpeza e costumava lavar as mãos diversas vezes ao dia, numa espécie de ritual repetitivo e obsessivo. A preocupação excessiva com doenças fazia que o escritor tcheco Franz Kafka usasse roupas leves e só dormisse de janelas abertas – para que o ar circulasse –, mesmo no rigoroso inverno de Praga.

Casamento

Julgando que a residência dos pais não está à altura dos 200 convidados para a festa do seu casamento, jovem mineira resolveu alugar um sítio por  R$ 1.500 sexta, sábado e domingo. O acesso, o local e as instalações se prestam para a festa do sábado. Negócio autorizado pelos pais depois que o irmão da noiva, tenente PM, visitou o sítio. O mano se compromete a levar um grupo de colegas fardados e armados para guardar a festa.
Se isso não é sinal dos tempos, não entendo mais nada. Além de gagá, saí de moda, fiquei démodé, como se diz em francês.

O mundo é uma bola
22 de fevereiro de 1775: Pio VI é eleito o 250º papa, demonstrando que o pontificado é ocupação de alta rotatividade. Em 1819, pelo Tratado de Adams-Onís entre a Espanha e os Estados Unidos, a Flórida é cedida aos norte-americanos. Por via de consequência, cedida aos mineiros, que estão comprando tudo por lá. Hoje, mineiro adora jatinho que faça Confins–Miami sem escalas. O mineiro Eike Batista vendeu o dele, mas há vários operando na rota.

Em 1836, criação da cidade de Uberaba, onde vivi passagens curiosas que não vêm à balha, sempre mais chique do que vir à baila. Em 1939, pela primeira vez no Brasil jorra petróleo de um poço em Lobato, Bahia: pouco, mas jorrou. Transcorridos 76 aninhos, o glorioso Partido dos Trabalhadores está acabando de destruir a Petrobras.

Em 1998, desaba na Barra da Tijuca, Rio, o edifício Palace II, matando oito pessoas e arruinando a vida de muita gente. Foi “outro dia” e parece ter sido na Idade Média. Hoje é o Dia da Criação do Ibama

Ruminanças
“É mais fácil encontrar uma mulher resignada a envelhecer do que um político resignado a se retirar da cena” (Amado Nervo, 1870 -1919).