A Tarde - 20/11/2013
Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá
opoafonja@gmail.com
Este é o último artigo de uma série que escrevi desmembrando meu discurso de posse na Academia de Letras da Bahia. O único objetivo desta série foi rememorar os nomes de ilustres baianos que talvez não fossem conhecidos pela nova geração. Como coincidências não existem, a referida série está sendo encerrada no Dia da Consciência Negra, momento em que aproveito para homenagear a todos que lutaram e lutam por esta causa. Consciência não é valorização! Consciência é iluminação!
Antônio Frederico de Castro Alves é o patrono da cadeira onde me firmo. Ele entoou gritos poéticos na tentativa de despertar a sociedade brasileira para a mais cruel de todas as atitudes humanas: a privação da liberdade. Em 1868, através de seu poema Vozes d'África, ele clamou:
“Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?/ Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes/ Embuçado
nos céus?/ Há dois mil anos te mandei meu grito,/ Que embalde desde então corre o infinito.../ Onde estás, Senhor Deus?...// Qual Prometeu tu me amarraste um dia,/ Do deserto na rubra penedia/
– Infinito: galé!.../ Por abutre – me deste o sol candente,/ E a terra de Suez – foi a corrente/ Que me ligaste ao pé...”.
Se minha bisavó chegou ao Brasil presa a muitos outros negros africanos, amarrada por correntes que lhe tiraram o maior de todos os bens – a liberdade –, hoje me sinto acorrentada a todos os baianos, brasileiros, humanos, letrados ou não letrados. O Poeta dos Escravos desejava ver todos os homens tratados com igualdade de condições; queria ver os negros desacorrentados.
O baiano Castro Alves nasceu em 14 de março de 1847 na fazenda Cabaceiras, antiga freguesia de Muritiba, que é hoje a cidade de Castro Alves. Era dotado de uma constituição física frágil, mas de uma forte alma humanizada, que contestava as barbaridades típicas da época em que viveu – o século XIX. Foi corajoso o suficiente para que, comapenas 21 anos de idade, obrigasse os fazendeiros donos de escravos a escutá-lo recitar O Navio Negreiro, pois estando todos em uma comemoração cívica não seria politicamente correto retirar-se do recinto.
A poesia de caráter social de Castro Alves era típica da terceira geração do romantismo brasileiro, chamada Condoreira, pois o condor é uma ave símbolo de liberdade. Representante da burguesia liberal, Castro Alves foi o último grande poeta da geração Condoreira que, por meio da literatura, instigava o povo para exigir a abolição da escravidão e a proclamação da república, aproximando, assim, o romantismo do gênero literário seguinte – o realismo.
Se as causas sociais eram o ideal de Castro Alves, o amor era sua fonte de inspiração. E como são lindos seus poemas de amor. Escutemos com a alma seu poema As Duas Flores, que na Escola Nossa Senhora Auxiliadora, de propriedade da professora Anfrísia Santiago, eu costumava recitar para minhas colegas no horário de recreio:
“São duas flores unidas/ São duas rosas nascidas/ Talvez do mesmo arrebol,/ Vivendo, no mesmo galho/ Da mesma gota de orvalho/ Do mesmo raio de sol.// Unidas, bem como as penas/ Das duas asas pequenas/ De um passarinho do céu.../ Como um casal de rolinhas/ Como a tribo de andorinhas/ Da tarde no frouxo véu.// Unidas, bem como os prantos/ Que em parelha descem tantos/ Das profundezas do olhar.../ Como o suspiro e o desgosto/ Como as covinhas do rosto/ Como as estrelas do mar.// Unidas... Ai quem pudera/ Numa eterna primavera/ Viver, qual vive esta flor./ Juntar as rosas da vida/ Na rama verde e florida,/ Na verde rama do amor!”
Intensamente viveu Castro Alves a sua curta vida de 24 anos. Em 6 de julho de 1871 ele não pôde mais sentir na carne os prazeres do amor. Também não pôde ver os escravos desacorrentados, não pôde assistir a seu ideal concretizado. Mas sua curta vida é longa. Tanto que ainda nos deleitamos com seus versos.
Uma senhora de 96 anos, falando sobre seu primo Castro Alves, um dia me disse: "Por amor ele viveu, por amor ele morreu. Mas quem morre por amor não morre, torna-se imortal”.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Futebol e religião: algumas observações - Carlos Caroso e Fátima Tavares
A Tarde / BA - 20/11/2013
Carlos Caroso e Fátima Tavares
Antropólogos e professores da Ufba
Como vários pesquisadores das ciências sociais têm apontando, desde o censo de 1991 o cenário das religiões no Brasil passou por mudanças.Entre estas transformações destacam-se o declínio do catolicismo, o incremento dos que se declaram evangélicos e dos “sem religião”.
Podemos observar essas macro tendências: temos um decréscimo dos católicos de 73,57% (2000) para 64,63% (2010), no Brasil; e, na Bahia, de 74% (2000) para 65,34% (2010).
Por outro lado, os evangélicos vêm crescendo a cada censo: passaram de 15,41% (2000) para 22,16% (2010) no Brasil. Na Bahia apresentam percentuais um pouco menores: eram 11,18% da população em 2000, passando, em 2010, para 17,41%. Com relação ao grupo dos “sem religião”, a dinâmica de crescimento é diferente dos evangélicos.
Comparando-se os dados dos censos de 2000 e 2010, verificamos que houve um discreto crescimento dos “sem religião”, no conjunto do país (7,35%e 8,04%) enoEstadoda Bahia (11,39%e12,05%),bem menor do que entre os censos de 1991 e 2000, quando esse segmento efetivamente ganhou relevância numérica.
Essas transformações podem ser observadas também no mundo do futebol, esporte, como sabemos, dominado por ídolos predominantemente provenientes da população pobre e negra desse país.
Essa origem social tradicionalmente evocava um imaginário popular recheado de histórias sobre disputas“mágicas” do vasto repertório das religiosidades afro-brasileiras – como os “trabalhos” ou “ebós” feitos para o sucesso dos times nas grandes decisões –, mas que vem perdendo espaço para as manifestações evangélicas – por exemplo, o “Ministério de Atletas de Cristo”.
O que se observa no mundo do futebol também vale para o conjunto do país. De fato, apesar da visibilidade social das religiões afro-brasileiras, seus números do censo não são expressivos no Brasil (0,31% no Censo de 2010).
Indagações sobre esse descompasso têm intrigado pesquisadores: seria fruto da antiga atitude sincrética do universo afro-católico,que,no censo, acabam identificando-se como católicos?
Outra questão é saber em que medida essas religiões ainda podem ser consideradas único e exclusivo “patrimônio cultural” das populações afrodescendentes.
De certa forma isso continua verdadeiro, pois quando comparamos os resultados do censo com as declarações de cor, sabemos que a grande maioria dos adeptos das religiões afro-brasileiras se declaram pretos e pardos.
Por outro lado, se invertermos a comparação, o mesmo não se verifica: a maior parte dos pretos e pardos do país não se declara adeptos daquelas religiões.
Positivamente essa é uma tendência que pode ser observada já há alguns anos, como indica o sociólogo Flávio Pierucci ao comentar, com base nos dados do Censo 2000, que estes sinalizam um claro deslocamento das tradições religiosas “afro” para o universo “black-evangelicals” entre pretos e pardos.
Carlos Caroso e Fátima Tavares
Antropólogos e professores da Ufba
Como vários pesquisadores das ciências sociais têm apontando, desde o censo de 1991 o cenário das religiões no Brasil passou por mudanças.Entre estas transformações destacam-se o declínio do catolicismo, o incremento dos que se declaram evangélicos e dos “sem religião”.
Podemos observar essas macro tendências: temos um decréscimo dos católicos de 73,57% (2000) para 64,63% (2010), no Brasil; e, na Bahia, de 74% (2000) para 65,34% (2010).
Por outro lado, os evangélicos vêm crescendo a cada censo: passaram de 15,41% (2000) para 22,16% (2010) no Brasil. Na Bahia apresentam percentuais um pouco menores: eram 11,18% da população em 2000, passando, em 2010, para 17,41%. Com relação ao grupo dos “sem religião”, a dinâmica de crescimento é diferente dos evangélicos.
Comparando-se os dados dos censos de 2000 e 2010, verificamos que houve um discreto crescimento dos “sem religião”, no conjunto do país (7,35%e 8,04%) enoEstadoda Bahia (11,39%e12,05%),bem menor do que entre os censos de 1991 e 2000, quando esse segmento efetivamente ganhou relevância numérica.
Essas transformações podem ser observadas também no mundo do futebol, esporte, como sabemos, dominado por ídolos predominantemente provenientes da população pobre e negra desse país.
Essa origem social tradicionalmente evocava um imaginário popular recheado de histórias sobre disputas“mágicas” do vasto repertório das religiosidades afro-brasileiras – como os “trabalhos” ou “ebós” feitos para o sucesso dos times nas grandes decisões –, mas que vem perdendo espaço para as manifestações evangélicas – por exemplo, o “Ministério de Atletas de Cristo”.
O que se observa no mundo do futebol também vale para o conjunto do país. De fato, apesar da visibilidade social das religiões afro-brasileiras, seus números do censo não são expressivos no Brasil (0,31% no Censo de 2010).
Indagações sobre esse descompasso têm intrigado pesquisadores: seria fruto da antiga atitude sincrética do universo afro-católico,que,no censo, acabam identificando-se como católicos?
Outra questão é saber em que medida essas religiões ainda podem ser consideradas único e exclusivo “patrimônio cultural” das populações afrodescendentes.
De certa forma isso continua verdadeiro, pois quando comparamos os resultados do censo com as declarações de cor, sabemos que a grande maioria dos adeptos das religiões afro-brasileiras se declaram pretos e pardos.
Por outro lado, se invertermos a comparação, o mesmo não se verifica: a maior parte dos pretos e pardos do país não se declara adeptos daquelas religiões.
Positivamente essa é uma tendência que pode ser observada já há alguns anos, como indica o sociólogo Flávio Pierucci ao comentar, com base nos dados do Censo 2000, que estes sinalizam um claro deslocamento das tradições religiosas “afro” para o universo “black-evangelicals” entre pretos e pardos.
Negro em campo é regra, mas no comando, exceção
A Tarde / BA - 22/11/2013
ANDRÉ UZÊDA E MAÍRA AZEVEDO
BARREIRA Dentre os 20 clubes que formam a elite do futebol brasileiro há apenas dois sob o comando técnico de afrodescendentes: Bahia e Flamengo
A miudeza de um colar e um chocolate são símbolos fortes para traduzir a luta por afirmação racial nos primórdios do futebol brasileiro. A conquista de lugar no campo foi ampliada, mas para cargos de comando a luta persiste.
O personagem para começar a contar essa história é Leônidas da Silva, que, de acusado pelo furto de uma joia, virou referência de arte no futebol a ponto de dar nome a um chocolate fino: Diamante Negro, uma gostosa ironia com a acusação.
Em 1932, quando o esporte ainda era regido pelas regras do amadorismo, Leônidas da Silva, então no Bonsucesso do Riode Janeiro, virou alvo de uma campanha difamatória.
Sua presença em campo era acompanhada pela vaia das arquibancadas, o coro de reprovação dos times rivais e ataques implacáveis dos jornais.
Segundo narra o jornalista Mário Filho, no clássico O Negro no Futebol Brasileiro (1947), uma mulher da alta sociedade carioca acusou o jogador, então com 18 anos, de ter furtado um colar que ela possuía.
Leônidas virou peça de chacota dos adversários, passando a conviver com os brados impiedosos
de “olha o colar”, “preto sem-vergonha” e “negro sujo”.
O Bonsucesso chegou a pagar.
ENTREVISTA Jorge Luís Andrade da Silva
DUVIDAM DA CAPACIDADE DE UM NEGRO PARA TRABALHAR COMO TREINADOR
Como jogador, Jorge Luís Andrade da Silva,56anos, ficou conhecido pela precisão e elegância dos passes. Em 2009, era auxiliar no Flamengo quando teve que assumir o comando após a demissão do técnico Cuca. Após uma vitória contra o Santos, o Flamengo sob o comando de Andrade fez uma arrancada histórica e conquistou o Campeonato Brasileiro. Com seis títulos nacionais – cinco como jogador e um como técnico–, além de campeão da Libertadores da América e de um Mundial de Clubes, Andrade está há um ano e seis meses desempregado. O motivo, segundo ele, é o racismo.
CLEIDIANA RAMOS
Você está há quanto tempo sem treinar um time?
Um ano e meio.
Você tem uma extensa experiência comojogador etambémcomo técnico, afinal foi campeão em 2009como clube mais popular do País, que é o Flamengo. A dificuldade é por conta do racismo?
Não tenho nenhuma dúvida. Como jogadores os negros são até bem vistos, mas na hora de assumir o comando de um clube aí aparecem as dificuldades. Duvidam da capacidade de um negro como treinador e quando está trabalhando ele é, certamente, bem mais cobrado.
Como foi a sua preparação para passar da condição de jogador a treinador?
As pessoas, geralmente, pensam que eu caí de paraquedas no Flamengo e que meu papel era administrar crises. Não é assim. Eu fiz cursos e me preparei. Como técnico comecei no CFZ, ao lado de Zico, onde treinei a base, juniores e profissional na segunda divisão do Campeonato Carioca. Tive uma passagem na Seleção Brasileira treinando o Sub-17. O grupo foi campeão sul-americano. No Flamengo fui auxiliar de 11 técnicos até assumir o comando do time em 2009 e ganhar o título.
Você fez um trabalho que era difícil no Flamengo. O grupo tinha jogadores consagrados, mas com vários problemas técnicos e também políticos.
Eu sabia do potencial dos jogadores e aliei o que pensava como esquema tático a muita conversa para que, no caso de alguns, recuperassem a confiançae no caso de outros percebessem o talento que carregavam.O resultado foi o título para o Flamengo depois de 17 anos.
Em 2010 você foi demitido doFlamengo ou quis sair?
Fui demitido com 76% de aproveitamento somando a disputa do Estadual e da Libertadores da América.
Após a saída do Flamengo onde você trabalhou?
Fiz dez ou 12 jogos com o Brasiliense (na série B); três pelo Paysandu e treinei o Boa Vista no Estadual do Rio de Janeiro por sete jogos. De lápara cá é um ano e meio sem trabalhar. Será que meu currículo não é suficiente para ter uma nova chance quando os treinadores entram e saem do comando dos clubes?
ANDRÉ UZÊDA E MAÍRA AZEVEDO
BARREIRA Dentre os 20 clubes que formam a elite do futebol brasileiro há apenas dois sob o comando técnico de afrodescendentes: Bahia e Flamengo
A miudeza de um colar e um chocolate são símbolos fortes para traduzir a luta por afirmação racial nos primórdios do futebol brasileiro. A conquista de lugar no campo foi ampliada, mas para cargos de comando a luta persiste.
O personagem para começar a contar essa história é Leônidas da Silva, que, de acusado pelo furto de uma joia, virou referência de arte no futebol a ponto de dar nome a um chocolate fino: Diamante Negro, uma gostosa ironia com a acusação.
Em 1932, quando o esporte ainda era regido pelas regras do amadorismo, Leônidas da Silva, então no Bonsucesso do Riode Janeiro, virou alvo de uma campanha difamatória.
Sua presença em campo era acompanhada pela vaia das arquibancadas, o coro de reprovação dos times rivais e ataques implacáveis dos jornais.
Segundo narra o jornalista Mário Filho, no clássico O Negro no Futebol Brasileiro (1947), uma mulher da alta sociedade carioca acusou o jogador, então com 18 anos, de ter furtado um colar que ela possuía.
Leônidas virou peça de chacota dos adversários, passando a conviver com os brados impiedosos
de “olha o colar”, “preto sem-vergonha” e “negro sujo”.
O Bonsucesso chegou a pagar.
ENTREVISTA Jorge Luís Andrade da Silva
DUVIDAM DA CAPACIDADE DE UM NEGRO PARA TRABALHAR COMO TREINADOR
Como jogador, Jorge Luís Andrade da Silva,56anos, ficou conhecido pela precisão e elegância dos passes. Em 2009, era auxiliar no Flamengo quando teve que assumir o comando após a demissão do técnico Cuca. Após uma vitória contra o Santos, o Flamengo sob o comando de Andrade fez uma arrancada histórica e conquistou o Campeonato Brasileiro. Com seis títulos nacionais – cinco como jogador e um como técnico–, além de campeão da Libertadores da América e de um Mundial de Clubes, Andrade está há um ano e seis meses desempregado. O motivo, segundo ele, é o racismo.
CLEIDIANA RAMOS
Você está há quanto tempo sem treinar um time?
Um ano e meio.
Você tem uma extensa experiência comojogador etambémcomo técnico, afinal foi campeão em 2009como clube mais popular do País, que é o Flamengo. A dificuldade é por conta do racismo?
Não tenho nenhuma dúvida. Como jogadores os negros são até bem vistos, mas na hora de assumir o comando de um clube aí aparecem as dificuldades. Duvidam da capacidade de um negro como treinador e quando está trabalhando ele é, certamente, bem mais cobrado.
Como foi a sua preparação para passar da condição de jogador a treinador?
As pessoas, geralmente, pensam que eu caí de paraquedas no Flamengo e que meu papel era administrar crises. Não é assim. Eu fiz cursos e me preparei. Como técnico comecei no CFZ, ao lado de Zico, onde treinei a base, juniores e profissional na segunda divisão do Campeonato Carioca. Tive uma passagem na Seleção Brasileira treinando o Sub-17. O grupo foi campeão sul-americano. No Flamengo fui auxiliar de 11 técnicos até assumir o comando do time em 2009 e ganhar o título.
Você fez um trabalho que era difícil no Flamengo. O grupo tinha jogadores consagrados, mas com vários problemas técnicos e também políticos.
Eu sabia do potencial dos jogadores e aliei o que pensava como esquema tático a muita conversa para que, no caso de alguns, recuperassem a confiançae no caso de outros percebessem o talento que carregavam.O resultado foi o título para o Flamengo depois de 17 anos.
Em 2010 você foi demitido doFlamengo ou quis sair?
Fui demitido com 76% de aproveitamento somando a disputa do Estadual e da Libertadores da América.
Após a saída do Flamengo onde você trabalhou?
Fiz dez ou 12 jogos com o Brasiliense (na série B); três pelo Paysandu e treinei o Boa Vista no Estadual do Rio de Janeiro por sete jogos. De lápara cá é um ano e meio sem trabalhar. Será que meu currículo não é suficiente para ter uma nova chance quando os treinadores entram e saem do comando dos clubes?
Vítimas costumam desistir de levar processos até o fim - ANDRÉ UZÊDA
A Tarde / BA - 20/11/2013
Vergonha, medo ou crença no jargão “Não vai dar em nada”, típico da impunidade. No futebol, poucos são os casos de injúria racial que terminam comsanções criminais, mesmo quando há testemunhas nas ações em curso (veja relação de casos de racismo nos campos brasileiros ao lado).
De acordo com o advogado Samuel Vida, professor e ativista do movimento negro, via de regra, poucas são as vítimas de discriminação que vão adiante com as denúncias.
“O futebol apenas reflete uma situação geral da sociedade. Mesmo sendo um crime inafiançável desde a Constituição de 1988, as atitudes racistas não têm sido coibidas pelo rigor da lei”, diz.
Um dos casos mais famosos de racismo no futebol brasileiro aconteceu em 2005, no jogo São Paulo x Quilmes, pela Libertadores da América.
O jogador argentino Desábato chegou a ser preso após ter xingado o atleta Grafite de “macaco” dentro de campo. Desábato foi detido ainda no Morumbi ficando dois dias na cadeia. Ele só foi liberado após pagar R$ 10 mil de multa.
Grafite, porém, algum tempo depois, veio a retirar a denúncia por injúria racial. “Isso acontece porque o próprio jogador acha que é danoso para sua imagem estar associado a esse lado de contestação. É um erro tremendo”, analisa o doutor em antropologia Roberto Albergaria.
Desistência
Outro caso de injúria racial que parou antes mesmo da sentença final ocorreu na Bahia, também no ano de 2005. E pelo mesmo motivo de desistência. O então presidente do Vitória, Paulo Carneiro, foi acusado de racismo após, supostamente, ter chamado o goleiro Felipe de “macaco”.
Felipe acionou a Justiça, mas, assim como Grafite, desistiu da ação. “Nós insistimos para levar issoadiante, pois era uma caso grave. Eu cheguei a oferecer a denúncia, mas, infelizmente, o jogador não quis prosseguir com ela. Tentamos insistir, sem sucesso”, diz Lidivaldo Britto, procurador de justiça que foi o primeiro titular da Promotoria de Combate ao Racismo do Ministério Público da Bahia, criada em 1997.
A reportagem tentou contato com o goleiro Felipe, qu está jogando pelo Flamengo, mas não houve retorno. O dirigente Paulo Carneiro também foi procurado, mas as ligações telefônicas não foram retornadas.
De acordo com a Comissão do Negro e de Assuntos Anti- Discriminatórios da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), entre os anos de 1951 e 1988, apenas nove casos de racismo foram levados para a Justiça no Brasil.
Após a Constituição, este número cresceu para cerca de 300 em todo o País. Apenas em 1998, com a regulamentação do Código Penal, foi tipificado o crime de injúria (ato ofensivo à dignidade de alguém) com o agravante do crime de preconceito racial.
“A mudança da lei, juntamente com a ação do movimento negro, tem levado a coibir manifestações racistas no Brasil. Porém, só quando as pessoas passarem a ser punidas o racismo vai acabar”, diz o advogado Samuel Vida.
CASOS DE RACISMO NO FUTEBOL BRASILEIRO
DESÁBATO X GRAFITE
O jogador argentino Desábato chamou o brasileiro Grafite de “macaco” durante jogo da Libertadores da América no ano de 2005. O argentino ficou detido por dois dias e pagou multa no valor de R$ 10 mil
TINGA
Em 2005, o volante Tinga, do Internacional, ouviu ofensas racistas vindas da torcida do Juventude, pela disputa do Campeonato Brasileiro. Toda vez que pegava na bola, era chamado de “macaco”. O atleta não chegou a registrar queixa
FELIPE X PAULO CARNEIRO
O então presidente do Esporte Clube Vitória, Paulo Carneiro, teria ofendido o goleiro do time, após a queda para a Série C, no ano de 2005. O goleiro ofereceu denúncia, mas não deu prosseguimento ao processo
DANILO X MANOEL
Os zagueiros Danilo (do Atlético-PR) e Manoel (do Palmeiras) se desentenderam durante jogo
da Copa do Brasil, no ano de 2009. O palmeirense teria cuspido no adversário e cometido injúrias raciais. O caso foi registrado como injúria qualificada por racismo e foi parar na delegacia. Os dois jogadores foram suspensos de alguns jogos
ANTÔNIO CARLOS X JEOVÂNIO
O zagueiro Antônio Carlos Zago, que já teve passagens pela Seleção Brasileira, brigou com o companheiro de time Jeovânio, durante o jogo. O caso aconteceu em 2006. Durante a discussão, Zago fez gestuais com o braço, insinuando a cor de pele do jogador. O zagueiro foi suspenso por 120 dias e disse ter se arrependido do ato racista.
Vergonha, medo ou crença no jargão “Não vai dar em nada”, típico da impunidade. No futebol, poucos são os casos de injúria racial que terminam comsanções criminais, mesmo quando há testemunhas nas ações em curso (veja relação de casos de racismo nos campos brasileiros ao lado).
De acordo com o advogado Samuel Vida, professor e ativista do movimento negro, via de regra, poucas são as vítimas de discriminação que vão adiante com as denúncias.
“O futebol apenas reflete uma situação geral da sociedade. Mesmo sendo um crime inafiançável desde a Constituição de 1988, as atitudes racistas não têm sido coibidas pelo rigor da lei”, diz.
Um dos casos mais famosos de racismo no futebol brasileiro aconteceu em 2005, no jogo São Paulo x Quilmes, pela Libertadores da América.
O jogador argentino Desábato chegou a ser preso após ter xingado o atleta Grafite de “macaco” dentro de campo. Desábato foi detido ainda no Morumbi ficando dois dias na cadeia. Ele só foi liberado após pagar R$ 10 mil de multa.
Grafite, porém, algum tempo depois, veio a retirar a denúncia por injúria racial. “Isso acontece porque o próprio jogador acha que é danoso para sua imagem estar associado a esse lado de contestação. É um erro tremendo”, analisa o doutor em antropologia Roberto Albergaria.
Desistência
Outro caso de injúria racial que parou antes mesmo da sentença final ocorreu na Bahia, também no ano de 2005. E pelo mesmo motivo de desistência. O então presidente do Vitória, Paulo Carneiro, foi acusado de racismo após, supostamente, ter chamado o goleiro Felipe de “macaco”.
Felipe acionou a Justiça, mas, assim como Grafite, desistiu da ação. “Nós insistimos para levar issoadiante, pois era uma caso grave. Eu cheguei a oferecer a denúncia, mas, infelizmente, o jogador não quis prosseguir com ela. Tentamos insistir, sem sucesso”, diz Lidivaldo Britto, procurador de justiça que foi o primeiro titular da Promotoria de Combate ao Racismo do Ministério Público da Bahia, criada em 1997.
A reportagem tentou contato com o goleiro Felipe, qu está jogando pelo Flamengo, mas não houve retorno. O dirigente Paulo Carneiro também foi procurado, mas as ligações telefônicas não foram retornadas.
De acordo com a Comissão do Negro e de Assuntos Anti- Discriminatórios da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), entre os anos de 1951 e 1988, apenas nove casos de racismo foram levados para a Justiça no Brasil.
Após a Constituição, este número cresceu para cerca de 300 em todo o País. Apenas em 1998, com a regulamentação do Código Penal, foi tipificado o crime de injúria (ato ofensivo à dignidade de alguém) com o agravante do crime de preconceito racial.
“A mudança da lei, juntamente com a ação do movimento negro, tem levado a coibir manifestações racistas no Brasil. Porém, só quando as pessoas passarem a ser punidas o racismo vai acabar”, diz o advogado Samuel Vida.
CASOS DE RACISMO NO FUTEBOL BRASILEIRO
DESÁBATO X GRAFITE
O jogador argentino Desábato chamou o brasileiro Grafite de “macaco” durante jogo da Libertadores da América no ano de 2005. O argentino ficou detido por dois dias e pagou multa no valor de R$ 10 mil
TINGA
Em 2005, o volante Tinga, do Internacional, ouviu ofensas racistas vindas da torcida do Juventude, pela disputa do Campeonato Brasileiro. Toda vez que pegava na bola, era chamado de “macaco”. O atleta não chegou a registrar queixa
FELIPE X PAULO CARNEIRO
O então presidente do Esporte Clube Vitória, Paulo Carneiro, teria ofendido o goleiro do time, após a queda para a Série C, no ano de 2005. O goleiro ofereceu denúncia, mas não deu prosseguimento ao processo
DANILO X MANOEL
Os zagueiros Danilo (do Atlético-PR) e Manoel (do Palmeiras) se desentenderam durante jogo
da Copa do Brasil, no ano de 2009. O palmeirense teria cuspido no adversário e cometido injúrias raciais. O caso foi registrado como injúria qualificada por racismo e foi parar na delegacia. Os dois jogadores foram suspensos de alguns jogos
ANTÔNIO CARLOS X JEOVÂNIO
O zagueiro Antônio Carlos Zago, que já teve passagens pela Seleção Brasileira, brigou com o companheiro de time Jeovânio, durante o jogo. O caso aconteceu em 2006. Durante a discussão, Zago fez gestuais com o braço, insinuando a cor de pele do jogador. O zagueiro foi suspenso por 120 dias e disse ter se arrependido do ato racista.
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