segunda-feira, 30 de junho de 2014

Pode diminuir a corrupção? - Renato Janine Ribeiro

Valor Econômico 30/06/2014

Microgravadores e amores líquidos podem constituir uma forte arma para apurar a corrupção - e reduzi-la

Levanto aqui uma questão controversa: com o avanço das tecnologias de gravação e o enfraquecimento dos laços conjugais, será que ficou mais fácil desmascarar a corrupção? Essas duas mudanças, uma técnica, outra social, diminuirão o desvio de recursos públicos?
Primeiro ponto. Hoje, não há praticamente mais conversa secreta, salvo entre duas pessoas nuas na água. Fora deste caso, um dos participantes - ou uma terceira pessoa - sempre pode gravar a conversa. Esse registro poderá servir para negociar um acordo de delação premiada ou, antes mesmo, pressionar e chantagear a outra parte. Um caso exemplar é o do mensalão do DEM, quando se descobriu uma rede de corrupção no Distrito Federal. Pudemos até ver dois políticos agradecendo a Deus pelo dinheiro roubado que recebiam. Sem câmeras portáteis de vídeo, não haveria o escândalo nem o castigo.

Tivemos, no começo da Nova República, uma novela emblemática da exaustão de nossa paciência com a corrupção: "Vale Tudo" (1988). Faz já mais de um quarto de século! Nela, a vilã Odete Roitmann forçava o genro Ivan a corromper um funcionário público - mas ela mandava gravar a cena, de modo que Ivan acabava preso. Na vida real, funcionários paulistanos chantagearam o empresário Ricardo Semler - que os filmou e denunciou. A corrupção se tornou mais arriscada. Mas a tecnologia complexa que foi usada nesses casos hoje é banal. Está ao alcance de qualquer um. Qualquer smartphone registra qualquer malfeito.

O corrupto não rouba supérfluos mas o essencial

Quer dizer que todo ato de corrupção hoje é denunciado? Não. Mas a facilitação de seus registros cria um risco maior para o corrupto. Ele sabe que tudo pode ser revelado. A única forma de evitar isso é as pessoas estarem sem roupa e num lugar - como uma piscina ou o mar - em que aparelhos eletrônicos não possam ser utilizados.

A corrupção, no Brasil, foi tolerada porque parecia não prejudicar ninguém. Furtava-se dinheiro da Viúva; ora, por que dar esse nome ao Tesouro Público? Porque, se um galã leva uma viúva a festas e jantares, para pegar o dinheiro dela, não estaria prejudicando ninguém, a não ser sobrinhos ou netos que só querem que ela morra logo para herdarem um dinheiro que não merecem. Mas essa é a mesma justificativa do fiscal que, para não emitir uma multa, aceita ou cobra um agrado: todos saem ganhando, pensa ele. Ele não entende que sai perdendo o Tesouro, o dinheiro de todos, o bem comum. Esse descaso criminoso pela coisa pública só é igualado pela sua aparente inocência - um crime que seus autores não percebem como crime, que prejudica milhões de pessoas, sobretudo as mais vulneráveis, sem eles o notarem.

O dinheiro da viúva é estéril. Se eu não pegá-lo, ele não será usado. Mas a analogia não cabe com a Viúva, isto é, o tesouro público. O dinheiro de todos é, ou deve ser, tudo, menos improdutivo. Quando se rouba a Viúva, perdem-se obras, perdem-se serviços. O corrupto não furta indolentes, mas contribuintes. Não rouba o supérfluo, mas o essencial. Não tira de ninguém o que este não merece, mas sim o que poupou, pagou, constituiu. Por isso, seu crime é horrível. Por isso, a China os executa.

Mas esta consciência parece estar longe do "nosso" corrupto. Daí que tantos deles flutuem vagamente entre a corrupção deslavada e o simples descaso no trato dos dinheiros. Daí que alguns sejam simpáticos e até generosos. Daí que seu crime não seja "hediondo". O hediondo é quem afirma, na sua cara, que não preza a sua vida, ou mesmo sente prazer em matar, em torturar. Lembra a "Anedota Búlgara", de Carlos Drummond de Andrade, sobre o czar naturalista que caçava homens: "Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,/ ficou muito espantado / e achou uma barbaridade". Pois é, o corrupto pratica dois pesos e duas medidas. Ele, como o sonegador, não se reconhece como criminoso.

Por isso, no patrimonialismo brasileiro, e em sua derivada a corrupção, o uso da crueldade parece raro, ao contrário da Máfia. A doutrina que sustenta patrimonialismo, nepotismo e corrupção é a da bondade de quem os pratica: se rouba o que é de todos, é porque é de nenhum. Daí que seja importante enfrentá-lo num de seus pontos mais fracos, a rede de confianças entre cúmplices que permite funcionar a corrupção. Ele precisa desconfiar do sócio e da mulher.

Assim, o segundo elo fraco que um bom investigador pode atacar é o enfraquecimento dos laços antes pouco dissolúveis do amor, como o casamento. O corrupto confiava na esposa, porque ela pertence a sua vida doméstica, privada, íntima, não ao mundo público. Se na política alianças se fazem e desfazem, a aliança na vida pessoal era permanente. Isso valia não só para o casamento mas, até mesmo, para o estatuto duradouro de certas amantes. Ora, acabou esse asilo íntimo contra as agruras do mundo. As mulheres deixaram de assegurar o repouso do guerreiro. A insegurança pública invadiu a alcova. Relações se desfazem com uma raiva que não poupa segredos. A crise que derrubou o senador Renan da presidência do Senado foi exemplar. Acabou o papel secundário da mulher, que sustentava acordos num meio em que a palavra era constantemente quebrada; por que arcaria ela, sozinha, com tudo?

Microgravadores e amores líquidos expõem mais a corrupção a uma investigação bem conduzida. Mas a investigação tem que ser de primeira. Tem de jogar um contra outro. Tem que dissolver as alianças, premiando a denúncia do parceiro ou mesmo do amor. É o que a legítima defesa da sociedade exige. Mas qual o impacto destas mudanças que vulneram o segredo sobre a corrupção? Espera-se que consigam reduzi-la.


Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. 
E-mail: rjanine@usp.br


TeVê

TV paga

Estado de Minas: 30/06/2014



 (Globo Filmes/Divulgação )

Mestre Cartola


Dirigido por Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, o documentário Cartola – Música para os olhos é a atração de hoje, às 19h, no Film&Arts. A produção retrata, por meio de imagens de arquivo e depoimentos, a vida de um dos compositores mais admirados da música brasileira. A maior qualidade é evitar uma simples biografia ou registro do processo criativo do artista, mas destacando a importância do personagem na própria história do samba.

Série do A&E promove
desfile de belas pin-ups


A série Caos, exibida pelo canal A&E, emenda dois episódios a partir das 21h30. No primeiro, Tibira, proprietário da loja-bar na Rua Augusta, sai pelos antiquários e feiras à procura de réplicas de armas antigas, incluindo espadas e facas. No segundo, a sócia dele, Carrô, tem a ideia de fazer uma noite de cabaré no Caos e convida um grupo de pin-ups para promover um leilão do cor set, peça básica da indumentária burlesca.

Pequi é saboroso, mas
disso o mineiro já sabia


No episódio de hoje de Fominha, às 18h, no GNT, Ana Luiza vai a Brasília investigar as origens do pequi, fruta típica do cerrado – inclusive em terras mineiras. Ela conversa ainda com a chef que comandou a cozinha do Palácio da Alvorada e prepara uma galinhada especial para o músico Dado Villa-Lobos. No mesmo canal, às 22h, Grazi Massafera recebe a atriz e apresentadora Ana Furtado, que fala sobre flacidez, no programa Superbonita.

Atriz interpreta menino
que virou um mulherão


Daniele Winits faz o papel de um transexual no episódio desta noite de As canalhas, às 22h30, no GNT. Seu personagem é Gil, que foi hostilizado na adolescência por ser gay, deixou sua cidade no interior e retorna adulto, para o enterro da mãe, mas como Gilda, sua nova identidade, louca para se vingar de seus agressores do passado. Na sequência, às 23h, em Surtadas na yoga, a academia corre o risco de fechar por causa de problemas financeiros.

Muitas alternativas na
programação de filmes


Num dia sem estreias, destaque para oportunas reprises de filmes importantes, como os anunciados para a faixa das 22h: Falsa loura, no Prime Box Brasil; Minority report – A nova lei, no MGM; Assassinato em primeiro grau, no Studio Universal; É o fim, na HBO 2; E estrelando Pancho Villa, no Max Prime; O lado bom da vida, no Telecine Premium; Gabriela, no Telecine Cult; e Um dia de cão, no TCM. Outras atrações do pacotão de cinema: Um encontro com seu ídolo, às 20h30, no Universal Channel; O palhaço, às 21h25, na TNT; e 2012, às 22h30, no Megapix.


CARAS & BOCAS » Enfim, o beijo
Simone Castro
Estado de Minas: 30/06/2014


Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Müller) trocam carinho: gravação surpresa    (TV Globo/Divulgação )
Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Müller) trocam carinho: gravação surpresa

Acabou o suspense: o casal homossexual Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Müller) troca, finalmente, o beijo. A cena será exibida no capítulo de hoje de Em família (Globo), que já está na reta final. Especulava-se que, talvez, o carinho não fosse ocorrer, visto que há uma rejeição de parte do público ao relacionamento das personagens. Na trama, a fotógrafa quer oficializar a união e compra uma aliança para a namorada. Em clima romântico, ela oferece a joia e pede que Clara a use na mão direita e mostra uma igual já no próprio dedo. Clara percebe que é um pedido de casamento e aceita. Marina põe a aliança no dedo da dona de casa e elas selam o compromisso com um beijo. A gravação teria ocorrido de surpresa para as atrizes, combinada apenas entre o autor, Manoel Carlos, e os diretores Jayme Monjardim e Leonardo Nogueira, marido de Giovanna. Vale lembrar que as atrizes não trocaram o primeiro beijo gay feminino da TV aberta, que foi registrado em 2010 na novela Amor & revolução, do SBT/Alterosa, entre as personagens de Luciana Vendramini (Marcela) e Gisele Tigre (Marina). Já na Globo, o beijo inédito entre homens foi realizado por Mateus Solano (Félix) e Thiago Fragoso (Niko) em Amor à vida, antecessora de Em família.

TUDO O QUE ROLOU EM
NOVA FASE DO MUNDIAL


O Alterosa no ataque desta segunda-feira, às 19h10, na TV Alterosa, coloca o telespectador na cara do gol mostrando – e repercutindo – tudo o que rolou em campo e nos bastidores de Brasil e Chile, no sábado, no Mineirão. E os destaques vão além, com os outros jogos das oitavas de final da Copa do Mundo no fim de semana.

TRAMA DE WALCYR SUPERA
A DE MANECO EM PORTUGAL


Amor à vida registra mais do que o dobro de audiência de Em família, ambas da Globo, em Portugal. A primeira é de Walcyr Carrasco e a outra de Manoel Carlos. As novelas são exibidas pelo canal SIC, às 22h55 e às 18h45, respectivamente. De 2 a 25 de junho, segundo o GFK, instituto que mede a audiência da TV portuguesa, a trama de Walcyr marcou 11,2 pontos de média, contra 5,4 da novela de Maneco. Em família ainda perde para Salve Jorge, de Glória Perez, por lá chamada de A guerreira, exibida à meia-noite. E só vence Senhora do destino, de Aguinaldo Silva, reprise que vai ao ar à tarde.

PERSONAGEM RETORNA
EM QUINTA TEMPORADA


Covert affairs, série do canal AXN (TV paga), vai contar com o ator Oded Fehr em sua quinta temporada. Ele retorna à atração no papel de Eyal Lavin, um ex-agente da Mossad, a divisão de inteligência de Israel. Eyal ajuda Annie Walker, jovem agente da CIA, em algumas missões arriscadas.

NOVELAS MEXICANAS NA
SUCESSÃO DE CHIQUITITAS

O SBT ainda não definiu, mas estão cotadas as tramas mexicanas Carinha de anjo e Patinho feio para substituir Chiquititas. Especula-se, no entanto, que a mudança pode demorar, pois há interesse em prorrogar o remake de Íris Abravanel durante todo o ano que vem.

GILBERTO BRAGA
NO CANAL VIVA


O dono do mundo, trama de Gilberto Braga, vai substituir História de amor, de Manoel Carlos, no canal Viva (TV paga), no ar às 15h30. No elenco, entre outros, Antônio Fagundes, Glória Pires, Malu Mader e Fernanda Montenegro. Exibida na Globo em 1991, conta a história do pedante cirurgião Felipe Barreto, personagem de Fagundes, machista e mulherengo, que decide conquistar a noiva de seu funcionário em pleno dia do casamento, a fim de transar com ela depois de descobrir que a moça é virgem. Ao perceber que foi usada, Márcia, vivida por Malu Mader, passa a tramar uma vingança contra o safado. Detalhe: O dono do mundo patinou na audiência, assombrada por um fenômeno, nada menos do que a mexicana Carrossel, exibida na época pelo SBT/Alterosa. A estreia está prevista para agosto.

VIVA

Gina (Paula Barbosa), que rouba a cena de coadjuvante e acaba no posto de mocinha em Meu pedacinho de chão (Globo).


VAIA

Megan, personagem de Isabelle Drummond, precisa de uma virada em Geração Brasil (Globo). Ô garota sem noção!

LEGADO » O mais corajoso dos homens [ Bobby Womack]

LEGADO » O mais corajoso dos homens
Com a morte de Bobby Womack, a soul music perde um de seus mais influentes artistas. Cantor gravado pelos Rolling Stones mostrou capacidade de dar a volta por cima e vencer o ostracismo 

Mariana Peixoto
Estado de Minas: 30/06/2014


Bobby Womack tocou com Aretha Franklin e Ray Charles e teve canções gravadas por Janis Joplin e George Benson     (Paul Bergen/AFP)
Bobby Womack tocou com Aretha Franklin e Ray Charles e teve canções gravadas por Janis Joplin e George Benson


Ninguém se torna o homem mais corajoso do universo à toa. Bobby Womack sofreu com diabetes, conseguiu superar a cocaína e o câncer. Até o Alzheimer, que o alcançou mais recentemente, não foi capaz de tirá-lo dos palcos. Foi visto pela primeira vez no Brasil em novembro, no Rio e em São Paulo, no festival Back2Black. Mas até o homem-coragem sucumbe. Womack morreu sexta-feira, aos 70 anos. No entanto, um dos últimos grandes remanescentes da era de ouro da soul music partiu deixando um legado que vai sobreviver a ele. E um canto dos cisnes que o recuperou do ostracismo e o apresentou, da maneira devida, às novas gerações.

Lançado em 2012, The bravest man in the universe, presente em todas as listas de melhores discos de 2012, foi cria de Damon Albarn. O líder do Blur tirou Womack do limbo dois anos antes para uma participação em Plastic beach, álbum de sua segunda banda, o Gorillaz. Albarn, aqui em parceria com Richard Russell, repetiu a dobradinha de produção que também tirou outro velho herói da música americana do esquecimento. Os dois produziram I’m new here (2010), de Gil Scott-Heron. Coincidência infeliz, foi também o derradeiro disco de Scott-Heron, que morreu um ano mais tarde.

Voltando a Womack, The bravest man in the universe, seu primeiro álbum em 13 anos, começa com a faixa homônima, com a interpretação a capela, com sua voz de barítono ainda potente, porém um tanto descarnada, que explicita a acidentada biografia do cantor, compositor e guitarrista. A canção continua num clima quase trip-hop, que está em função da voz de Womack. A dupla de produtores não o atropela em momento algum, só atualizando, sem forçar a barra, uma obra que sempre foi moderna. Promove ainda encontros inusitados, como a de Womack dividindo uma canção (Dayglo reflection) com a então estrela em ascensão Lana Del Rey. E até o embate entre os monstros Womack e Scott-Heron numa pequena vinheta (Stupid introlude).

Ao longo de sete décadas, Womack renasceu várias vezes. Nascido em 4 de março de 1944, o filho de um metalúrgico de Cleveland não fugiu à regra no início de carreira. A rígida educação religiosa o levou, ainda criança, a se unir aos quatro irmãos – Cecil, Curtis, Harry e Friendly Jr. – e formar o quinteto gospel The Womack Brothers. Foi Sam Cooke, considerado o inventor da soul music, quem levou os irmãos, a contragosto do pai, para o caminho da música secular. Rapidamente, os Womack se tornaram The Valentinos. Mas a estrela de Bobby começou a brilhar realmente por meio de terceiros. Foi guitarrista da banda de Cooke e, depois do assassinato deste, os Valentinos não renderam muito tempo. Surpreendentemente, Womack, a despeito da tragédia com o mentor, não esperou muito para se casar com a viúva de Cooke, Barbara Campbell, o que deixou a comunidade R&B consternada.

Nas paradas


Como guitarrista, Womack gravou com Aretha Franklin, Ray Charles, Dusty Springfield e Wilson Pickett. Este último, por seu lado, registrou 17 canções de autoria de Womack, I’m a midnight mover entre elas. Suas composições foram também ouvidas nas vozes de George Benson (Breezin’) e Janis Joplin (Trust me). Mas foi com os Rolling Stones que Bobby chegou ao topo das paradas. O primeiro hit da banda de Mick Jagger e Keith Richards foi uma gravação de It’s all over now, que os Valentinos haviam registrado anteriormente.

Como artista solo, só estreou em 1968, numa carreira discográfica cujo auge ocorreu nos anos 1970, com álbuns como Communication (1971) e Understanding (1972). Quando entrou para o Hall da Fama do Rock, em 2009, Womack declarou: “Se você é abençoado por ser capaz de esperar o que é importante para você, um monte de coisas vão mudar na vida.” Infelizmente, a morte chegou para Womack em meio à produção de seu novo álbum, projeto que contaria com a participação de Stevie Wonder e Rod Stewart. O título anunciado é The best is yet to come (O melhor ainda está por vir). Pura ironia.

Biomassa como combustível para aciaria‏

Equipe de pesquisadores mineiros apresenta uma solução na área de engenharia de materiais, com foco nas energias renováveis, e vence prêmio da Associação de Aço e Tecnologia dos Estados Unidos

Augusto Pio
Estado de Minas: 30/06/2014



A partir da esquerda, Thales Leal, Paulo Assis, Tiago Oliveira e Jaderson Ilídio (arquivo pessoal)
A partir da esquerda, Thales Leal, Paulo Assis, Tiago Oliveira e Jaderson Ilídio

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) conquistou o 3º lugar na categoria Graduate Student Poster Contest, na 10ª edição do prêmio dado pela Associação de Aço e Tecnologia dos EUA (AISTech), evento realizado em Indianápolis, nos Estados Unidos. O grupo da Ufop apresentou um projeto sobre o uso de biomassa na aciaria elétrica, que busca a utilização de fontes renováveis de combustível para geração de energia elétrica e aproveitamento dos gases de combustão na queima do material. “Os combustíveis propostos neste trabalho foram biomassas, no caso, capim-elefante, casca de arroz e casca de feijão. Esse processo trata da substituição de fontes não renováveis, como gás natural e petróleo, por renováveis, que seriam resíduos de agricultura, já que o Brasil é rico nessas fontes”, explica Jaderson Ilídio, estudante de matemática que integra o grupo, formado ainda pelo professor da Ufop e coordenador da Rede Temática em Engenharia de Materiais (Redemat) Paulo Santos Assis e pelo doutorando da Redemat Tiago Luis de Oliveira. A Redemat é fruto de uma parceria entre a Ufop e a Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg).

O projeto usa conceitos da lei da termodinâmica para realizar os cálculos. “Aplicamos diretamente a fórmula para encontrar a quantidade de energia necessária e a quantidade de material a ser utilizado, podendo avaliar, assim, o custo de material gasto para a produção de aço. Pretendemos usar, futuramente, a fumaça das caldeiras para fornecer energia térmica para outro processos da aciária elétrica. Os resíduos que servem como matéria-prima são, em geral, desperdiçados, e com sua reutilização há uma reciclagem e ganho de crédito de carbono”, ressalta o estudante.

Jaderson esclarece quer o projeto tem como pretensão apresentar vantagens para o uso de biomassas como capim-elefante, cascas de arroz e de café na geração de energia térmica e elétrica dentro da cadeia de produção do aço. A geração da energia elétrica se dá pela queima do material diretamente dentro de uma caldeira, e quanto à energia térmica, a biomassa poderia ser aplicada pela injeção desse material dentro dos fornos utilizados para refinar ou fundir o aço, como principal exemplo, e forno elétrico a arco. A indústria do aço é muito dependente do uso de gás natural e outros combustíveis de origem fóssil, como carvão mineral, e esse projeto abre as portas para a substituição desses poluentes atmosféricos por produtos renováveis, que não agridem a natureza”, acrescenta o estudante.

Aluno de iniciação científica no grupo de pesquisa do professor Paulo Assis, atualmente Jaderson Ilídio trabalha na continuidade e no aprimoramento desse projeto e colabora com mais um outro na mesma área de estudos, de energias renováveis. “Conjuntamente com os alunos de graduação em metalurgia, foi desenvolvida a pesquisa teórica sobre o tema e feita uma base para cálculo do custo de material necessário para cada 100 toneladas de aço produzida. Uma pesquisa atual dos preços de mercado das biomassas e gás natural foi feita para aplicarmos aos artigos produzidos”, diz Jaderson.

O doutorando Tiago Oliveira salienta que o projeto tem como pano de fundo uma dissertação de mestrado em engenharia de materiais sobre o uso de biomassa como fonte energética sustentável na cadeia da fabricação do aço. “Esse artigo foi elaborado com a minha supervisão e coordenação do professor Paulo, com alunos de graduação em engenharia metalúrgica da Escola de Minas de Ouro Preto.” Sua contribuição foi orientar os estudantes Thales Leal, Ramon Pasquali, Lucas Gibram e Renan Artilha, fornecendo elementos teóricos e práticos relativos ao processo de fabricação de aço empregando um forno elétrico a arco que tem uma tecnologia de pré-aquecer sucata, usando a energia elétrica.

“Outra tecnologia é o uso de lanças no forno para injeção de oxigênio e gás natural. Tudo isso é objeto de estudo no processo de fusão e produção de aço dentro do forno. Essa tecnologia já existe e é empregada nos mais de 190 fornos dos EUA, porém a utilização de biomassa em substituição ao gás natural e integrado ao sistema ainda é inédito. Nosso objetivo é aprofundar as discussões, como no último congresso da Associação de Aço e Tecnologia dos EUA”, salienta Tiago. “Atualmente, estamos trabalhando juntos em um projeto de utilização de biomassa para geração de energia elétrica, via forno de micro-ondas”, revela.


Protocolo de Kyoto

Criado em 1997, em Kyoto, no Japão, esse documento foi assinado pela Convenção do Clima da Organização das Nações Unidas e definiu metas de redução de emissões para os países desenvolvidos, responsáveis históricos pela mudança atual do clima. Esses países se comprometeram a reduzir suas emissões totais de gases de efeito estufa a, no mínimo, 5% abaixo dos níveis de 1990, no período compreendido entre 2008 e 2012. Os países não listados no chamado Anexo I, entre eles o Brasil, tiveram estabelecidas medidas para que o crescimento necessário de suas emissões fosse limitado pela introdução de medidas apropriadas, contando, para isso, com recursos financeiros e acesso à tecnologia dos países industrializados. O protocolo entrou em vigor em fevereiro de 2005, mas nem todos os países industrializados, como os Estados Unidos, assinaram o documento.


Objetivo é associar ideia ao agronegócio

Paulo Assis esclarece que o projeto visa ainda ao aproveitamento do potencial do agronegócio em uma sinergia com o setor siderúrgico e metalúrgico. “Existe no país uma produção agrícola bastante pujante, notadamente, cana-de-açúcar, café, arroz e outros. Esses produtos, durante seu processamento, geram resíduos. Parte deles não é aproveitada e muitas vezes constituem um passivo ambiental, que além de contaminar o solo, prejudica a atmosfera, através da emissão de metano, que é 24 vezes pior que a emissão de gás carbônico.”

O professor ressalta que a contribuição do grupo foi exatamente avaliar esse potencial e encontrar alternativas de uso no setor siderúrgico, que sempre consome muita energia. As vantagens são sociais, econômicas, financeiras e ambientais e, segundo ele, a viabilidade técnica do projeto é inquestionável pelos estudos até então realizados. “Temos recebido muito apoio pela maior associação mundial de ferro e aço do mundo, que é a Association for Iron and Steel Technology, sediada nos EUA. Este ano, o grupo recebeu, pela terceira vez, o prêmio de reconhecimento técnico. Isso, em um país que tem toda a sua matriz energética fundamentada em combustíveis não renováveis, mostra que os norte-americanos estão atentos às produções científicas que estão sendo desenvolvidas no mundo para minorar o impacto ambiental de um consumo exacerbado de combustíveis não renováveis, a despeito de não terem assinado o Protocolo de Kyoto.”

Assis ressalta que o grupo envolvido nesses projetos é bastante eclético e tem trabalhado desde 2004, com as alternativas do uso da biomassa. “Inicialmente, nosso foco foi o carvão vegetal, visto que a indústria siderúrgica nacional atualmente tem uma participação desse redutor bastante notável (cerca de 25%) e posteriormente, outros materiais da biomassa foram sendo anexados ao projeto”. A produção de ferro-gusa no Brasil é dependente de dois redutores. O primeiro, o coque, é um material derivado da transformação do carvão mineral, e responsável por cerca de 75 % de toda a produção de gusa. O segundo, o carvão vegetal, derivado da carbonização da madeira (eucalipto principalmente) é o responsável pelo restante. A grande vantagem do segundo em relação ao primeiro é que ele é genuinamente nacional e oriundo de florestas plantadas, amenizando a pressão sobre o carvão vegetal de florestas nativas.