segunda-feira, 7 de julho de 2014

Partidos para mudar ou para governar - Renato Janine Ribeiro

Valor Econômico - 07/07/2014 

Será a Rede Sustentabilidade um partido para mudar, como ela se propôs - e como foi o PT, antes de chegar ao poder?


Estas eleições estão montadas numa contradição. Uma pesquisa, meses atrás, mostrou que dois terços do eleitorado querem "mudanças", mas metade dos votantes queria sufragar a presidenta Dilma Rousseff, que representaria a continuidade - e não é óbvio que Aécio Neves ou Eduardo Campos seriam a "mudança". É preciso começar a discutir a fundo o que significa esta contradição entre desejo e voto, e o que ela anuncia para a nossa política.

Há partidos que nascem para governar. Foi o caso do PSDB, fundado em 1988 como uma dissidência do PMDB. Reunia políticos tarimbados e intelectuais competentes, cujo acesso ao poder tinha sido bloqueado por duas décadas de ditadura e que se sentiram sem muito lugar nos primeiros anos da democracia, quando o PMDB fisiológico prevaleceu sobre o ideológico. "Muito cacique e pouco índio", dizia-se dos tucanos, que realmente tinham mais líderes que militantes. Em apenas seis anos, chegavam à presidência da República: não por acaso, FHC era um intelectual convertido em político, não um político de origem. Os tucanos eram os mais "insiders" dos "outsiders", os mais qualificados para governar.

Partidos que nascem para governar sabem exatamente o que fazer. São ou se consideram "the best and the brightest". Têm o diagnóstico exato dos problemas e das soluções. Constituem-se como uma força de intervenção rápida; se o Brasil estava na UTI, que partido poderíamos esperar de melhor? Olhando retroativamente, Collor foi a caricatura, prévia, do futuro governo PSDB: o golpe certeiro de judô que abateria a inflação, o voluntarismo do presidente jovem, tudo isso virou piada perto da sofisticação do Plano Real. Collor revelou seu plano na surpresa; já o Real foi sendo exposto, votado, digerido ao longo de mais de seis meses. Collor marqueteou a juventude, FHC o saber e sabedoria. Mas o PSDB não foi muito além disso; passados 20 anos, ainda se apresenta como o partido do Plano Real e das privatizações - isso num país que não mais teme a hiperinflação e no qual seria anátema privatizar Petrobras, Correios, Caixa e Banco do Brasil. Os tucanos mudaram o país porque queriam governar. Hoje, não está claro que mudança propõem, além da economia, que para a maioria é uma ciência incompreendida.

A política precisa de quem acene com o novo

O PT foi nosso grande partido para mudar. A prova dos nove para os que querem mesmo mudar é: entre chegar ao poder abrindo mão de princípios essenciais e preferir a derrota, o que você faz? A segunda opção é árdua, mas o PT a tomou várias vezes. Reunia grupos os mais variados, descontentes com o statu quo, que tinham em comum uma preocupação ética e política com a injustiça social (O PSDB também lutou contra as injustiças, mas tinha soluções prontas para elas; o PT explorava alternativas, não fechava rápido as decisões). Para chegar ao poder, fez mil ensaios e erros de suas propostas, em campanhas e eleições. (O PSDB, querendo o eficaz, querendo-o logo, não ia tão longe na discussão do que é justo). Daí, claro, o maior radicalismo, a maior ambição do PT.

Quem, hoje, é partido para governar, quem para mudar? Para mudar, hoje temos meio partido, que poderá tornar-se inteiro nos próximos anos: a Rede Sustentabilidade. Repete características do PT. Tem forte ingrediente ético. Parece ter militantes ou ativistas não pagos, o que foi um distintivo petista. E, claro, tem diferenças internas. Contudo, se a preocupação social não está fora de seu horizonte, ela não é sua prioridade. A Rede nasce da defesa do meio-ambiente. Seus líderes não têm, ou não têm mais, o foco na injustiça social. Sua plataforma não é de classe, mas da vida - enquanto "zoe", a vida animal, mais do que "bios", a vida humana. E da defesa da natureza a Rede foi caminhando para um foco mais largo, e também mais vago: o sustentável. Esse adjetivo tem vários sentidos, inclusive o da sustentabilidade dos negócios (É este salto da vida natural para o econômico que a faz perder um tanto de vista o social). Mas, em que pese esse salto, hoje é o partido mais disposto a abrir agendas de discussão novas e a introduzir algum idealismo na política. Digo "algum" porque nunca fica claro o bastante qual o seu vínculo com o mundo empresarial. De todo modo, é o elemento inovador em nosso quadro político.

Mas resulta difícil, tantos meses depois de sua ligação ao PSB, entender como a união dos dois faz sentido, para além da eleição de outubro. Nenhum dos traços que acima expus se aplica aos pessebistas. Aliás, nem mesmo dá para chamar de "socialistas" os membros do PSB, exceto Roberto Amaral e poucos outros. Em resumo, a Rede parece um PT ainda fraco, como era nos anos 80, mas com uma pressa tucana de chegar ao poder e implantar o que possa de sua agenda. Há algo surpreendente na Rede: Marina teve uma votação enorme em 2010, como Lula em 1989, o partido é idealista, como era o PT - mas ela e o partido se aliaram a um candidato e um partido bem menos inovadores. A Rede é o braço que quer mudar, o PSB o braço que quer a presidência (mas sem ter a enorme aptidão dos quadros tucanos de 1994). Será frutífera esta união? Dará para somar, assim, o idealismo da Rede e o utilitarismo do PSB? Se funcionar, muito bem. Pessoalmente, penso que, para mudar, é melhor aguentar uma longa travessia do deserto. Ela aprofunda e amadurece. Mas nosso propósito é apenas analisar, não é ditar soluções. O Brasil precisa de partidos para governá-lo, mas também para mudá-lo - e este segundo lugar está mais ou menos vago, desde que o PT, no governo, teve de fazer, também ele, Realpolitik.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. 
E-mail: rjanine@usp.br


TeVê

TV PAGA » Beleza profunda

Estado de Minas: 07/07/2014



 (Paris Filmes/Divulgação)


Bela e talentosa, Amanda Seyfried (foto) não teve receio algum ao aceitar o papel da atriz pornô Linda Lovelace no longa-metragem biográfico realizado por Rob Epstein no ano passado. Estreia de hoje, às 22h, no Telecine Premium, o drama Lovelace mostra como a moça de uma família tradicional se tornou a protagonista de Garganta profunda, um dos mais famosos filmes pornô de todos os tempos. O elenco conta ainda com Peter Sarsgaard e James Franco.

Muitas alternativas na
programação de filmes


Na mesma faixa das 22h, o assinante tem pelo menos outras cinco boas opções: S.W.A.T.: Comando Especial, no MGM; Fúria de titãs 2, na HBO 2; Citadel, no Max Prime; Wolverine – Imortal, no Telecine Pipoca; e Trama macabra, no Telecine Cult. E ainda: Antônia, às 19h, no Film&Arts; O virgem de 40 anos, às 19h55, no Universal Channel; Eu, Anna, às 20h, no Max; Guerra é guerra, às 22h30, na Fox; e Edison – Poder e corrupção, às 23h, no Cinemax.

Pegue carona num giro
pela costa da Califórnia

Turistas do mundo todo têm o desejo de viajar pela estrada do litoral da Califórnia, para aproveitar as belezas naturais ao longo da costa do Pacífico. É isso que o assinante vai ver no último episódio da segunda temporada de Oficina Motor, às 22h, no canal +Globosat. Lipe Paíga, Henrique Koifman e Michelle de Jesus escolheram para isso três carros clássicos: o Buick Enclave, o Land Rover LR4 e o Cherokee. Boa viagem!

Uma atração para quem
é apaixonado pelo mar


Dirigido por Nildo Ferreira e Paula Luana Maia, o documentário Aloha é o destaque de hoje do Sala de notícias, às 14h35, no canal Futura. O filme mostra como os avanços tecnológicos acabaram com as barreiras entre surfistas com necessidades especiais e a paixão pelo mar. Uma história sobre superação, alma e surfe.

Documentário destaca o
melhor da música cubana


Outro documentário que merece a atenção do assinante é Música libre, de Carolina Sá, às 21h, no canal Curta!. A produção comprova a variedade de ritmos da música cubana, como o toque de santeria, a rumba, o danzon, o son e a guaracha. Já o Arte 1 apresenta, às 23h, o concerto do pianista chinês Lang Lang com a Orquestra Filarmônica de Viena conduzida pelo maestro indiano Zubin Mehta, tocando peças de Weber, Chopin e Beethoven.


CARAS & BOCAS » Passado de volta

Neidinha (Elina de Souza) ficará cara a cara com homem que a estuprou na juventude (João Miguel Júnior/TV Globo)
Neidinha (Elina de Souza) ficará cara a cara com homem que a estuprou na juventude


Nos próximos capítulos de Em família (Globo), já na reta final, a doce Neidinha (Elina de Souza) viverá momentos de terror e uma volta forçada ao passado. É que ela ficará cara a cara com o homem que a estuprou, junto com outros dois, dentro de uma van, ainda na juventude. Tudo começa durante um assalto na casa de leilões da família de Helena (Júlia Lemmertz). Por lá, estarão, além da dona do lugar, também Neidinha e sua filha, Alice (Érika Januza). Um homem anunciará o assalto e, com uma arma, ameaçará estuprá-las. Neidinha logo reconhecerá seu algoz. “É ele, Alice. É um deles”, dirá à filha. Afoita como sempre, a jovem deixará escapar que sabe que ele existe e o chamará pelo nome: Isaías. Quem acompanha a novela deve se lembrar que Alice descobriu que um dos estupradores de sua mãe está preso, por outros crimes praticados, e o outro já morreu. Com uma pista passada pelo presidiário, ficou sabendo o nome do terceiro. A moça, que se prepara para se tornar policial, lutará com o bandido. Até que a polícia aparecerá e atingirá o marginal. No hospital, Neidinha dirá tudo o que pensa ao marginal.

SEGUNDA EDIÇÃO DO JORNAL DA
ALTEROSA E O RESUMO DO DIA

Ana Cristina Pimenta comanda o Jornal da Alterosa – 2ª edição, que traz o resumo das principais notícias do dia, além de matérias especiais, de olho na Copa do Mundo e no jogão do Brasil x Alemanha, amanhã, no Mineirão.

PERSONAGEM FOFÃO VAI VIRAR
DESENHO ANIMADO NA TV PAGA

Quem foi criança nos anos 1980 certamente se lembra do personagem Fofão, vivido por Orival Pessini. Agora, ele retornará à cena, mas em desenho animado. Primeiro, deverá dar o ar da graça na internet. Depois, vai estrear em um dos canais da TV paga dedicados ao público infantil. A produção é da Farofa Studios.

SÉRIE NÃO FUI EU GANHARÁ MAIS
UMA TEMPORADA NO ANO QUE VEM

A comédia juvenil Não fui eu, exibida no Disney Channel (TV paga), conquistou uma segunda temporada, que vai estrear em 2015. A trama, estrelada por Olivia Holt, acompanha as aventuras dos gêmeos Lindy, uma garota nerd que tenta mudar o seu estilo, e Logan, um jovem confiante que planeja tornar sua passagem pela escola inesquecível. A cada episódio, eles e os amigos se envolvem em confusões, mostradas em flashbacks.

REALITY MUSICAL FICA E SERÁ
EXIBIDO NAS NOITES DE TERÇA

SuperStar (Globo) já foi confirmado na grade da Globo, para nova edição. Só que a segunda temporada, que ainda não tem data para estrear, será exibida em novo dia. Assim, o reality musical, apresentado por Fernanda Lima, sai do horário aos domingos, depois do Fantástico, para ir ao ar nas noites de terça-feira. A atração, atualmente, perde para o Programa Sílvio Santos.

EM CARNE E OSSO

Depois da escolha dos atores Scott Michael Foster e Elizabeth Lail para encarnarem Kristoff e Anna, agora foi definida que a atriz Georgina Haig será Elsa, a rainha do gelo, personagens que vêm direto da animação Frozen – Uma aventura congelante para o reino encantado da série Once upon a time, mas em carne e osso. De acordo com o site TV Line, a trama que unirá os três personagens ao mundo da série será uma continuação da história da animação, quando Elsa novamente perde o controle de seus poderes e congela sua cidade. Até que descobre que só o amor por sua irmã será capaz de dominá-los. Mas, enfrentar outros seres encantados de Storybooke, onde se passa Once upon a time, não será tão simples assim. A série é exibida no Brasil no canal Sony (TV paga).


VIVA
Flávia Freire, que segura muito bem entradas ao vivo. No sábado, à frente do Jornal Hoje (Globo), deu provas novamente de seu potencial. O que já foi visto quando apresentou o Bem-estar.

VAIA
Que cara foi aquela do Ronaldo, durante todo o tempo em que comentou o jogo Brasil x Colômbia, na Globo? Tal qual um boneco – de tão imóvel –, e sem graça, parecia contrariado de estar ali.

Células-tronco dão qualidade de vida aos animais‏

Células-tronco dão qualidade de vida aos animais Empresa nacional, Celltrovet investe na medicina regenerativa para animais de pequeno e grande portes 
 
Junia Oliveira
Estado de Minas: 07/07/2014


O veterinário Luiz Fernando Lucas Ferreira vem usando as células-tronco há um ano e já vê vários resultados positivos    (Euler Junior/EM/D.A Press)
O veterinário Luiz Fernando Lucas Ferreira vem usando as células-tronco há um ano e já vê vários resultados positivos

Lula é um cão da raça beagle que, durante muito tempo, lutou contra uma insuficiência renal. Idoso, com baixo peso e um sofrimento diário, ele estava condenado a morrer. Mas um tratamento com célula-tronco salvou sua vida e, seis meses depois, ele está feliz, ativo e até mais jovem. A terapia inédita e desenvolvida no Brasil é voltada para animais acometidos por doença renal crônica, aplasia medular, lesões tendíneas e ligamentares, sequelas neurológicas de cinomose, fraturas e não união óssea, lesão de coluna, osteoartrites e osteoartrose.

A tecnologia usa um concentrado 100% de células-tronco e foi desenvolvida pela Celltrovet, empresa que atua nas áreas de terapia com células-tronco, medicina regenerativa e engenharia tecidual para pequenos e grandes animais. No laboratório, elas são isoladas do tecido adiposo retirado de animais clínica e laboratorialmente saudáveis, de até seis meses de idade. Diversos testes estabelecidos pela comunidade científica, como de diferenciação e proliferação celular, são feitos para comprovar a qualidade do material, que é armazenado.

O presidente da empresa, Enrico Jardim Clemente Santos, explica que, como o sistema imunológico do receptor não reconhece as células-tronco, é possível aplicar o concentrado com o material de um determinado animal em outro. “Isso evita que um cão muito debilitado seja submetido a uma anestesia para a retirada do tecido adiposo, eliminando, assim, o risco de ele vir a óbito por causa dessa injeção”, diz. O procedimento de isolamento das células é propriedade industrial da empresa e é único. A Celltrovet é ainda a primeira da América Latina a trabalhar com células-tronco em animais de pequeno porte, de acordo com Santos.

 O tecido adiposo é recolhido no momento da castração ou de alguma outra cirurgia, com uma incisão de menos de cinco centímetros. Simultaneamente, é coletado o sangue do animal para fazer diversos testes moleculares, a fim de constatar que o animal não está doente. Se detectado qualquer patógeno, o material é imediatamente descartado. O tecido é processado somente depois da comprovação de qualidade. “É pedida autorização ao dono, que normalmente concorda e ainda fica feliz pelo fato de o animalzinho dele poder ajudar outros.”

Enrico Santos alerta que o concentrado só é disponibilizado ao veterinário mediante protocolos clínicos que garantem a necessidade do tratamento. As amostras são armazenadas em vários tubos de 1,5 centímetro – cada um deles tem 2 milhões de células. Nas garrafinhas de cultivo elas crescem numa quantidade infinita de células. “Até hoje, temos células de 2005 que são usadas e anualmente testadas”, diz. Enrico, que trabalha com células-tronco desde 1995, resolveu testar seus conhecimentos no assunto ligados à veterinária depois de ver, em 2005, quando terminava o doutorado na Universidade de São Paulo (USP), um site de uma empresa norte-americana que usava a metodologia para tratar cavalos. A empresa ficou incubada na USP durante quatro anos e depois saiu para comercialização.

EXEMPLOS DE SUPERAÇÃO Já foram tratados mais de 300 animais com uma taxa de sucesso superior a 80%. Assim como Lula, Mel, uma buldogue de sete meses de vida e portadora de cinomose, uma doença degenerativa que acomete principalmente o sistema nervoso dos animais, também se recuperou depois do tratamento. Os veterinários já haviam indicado a eutanásia e o dono então recorreu ao tratamento de células-tronco como última opção. Hoje, a cachorrinha corre e brinca em casa.

Outro exemplo é a Hanna, uma gatinha de 5 anos que sofria de doença renal crônica e aplasia medular (quando a medula para de produzir todos os tipos celulares, células brancas, vermelhas e plaquetas). Ela também tinha os dias contados. Atualmente, Hanna é uma gata saudável, que brinca diariamente com o seu irmão. Fabio, um gato de 14 anos, acometido por doença renal crônica e insuficiência pulmonar, é hoje um animal saudável que nunca mais precisou fazer fluidoterapia para normalizar seus índices de ureia e creatinina, tampouco usar bombinha para melhorar seu quadro respiratório.

Mas a tecnologia começa a se disseminar agora, de acordo com o presidente da Celltrovet. “Nossos resultados na medicina veterinária mostram que funciona. Por enquanto trabalhamos com veterinários empreendedores, que acreditam na proposta. É um trabalho de formiguinha apresentar essa alternativa.” Ele ressalta que o tratamento é um conjunto de soluções. “As células-tronco não são milagrosas. Não se deve deixar de lado a fisioterapia ou a acupuntura, quando indicadas. A aplicação do concentrado otimiza e torna mais eficiente os outros tratamentos, ajudando veterinários e donos de animais com um serviço de maior qualidade e possibilidade de cura.”

Receio e, depois, sobrevida para vários pacientes

Publicação: 07/07/2014 04:00

O médico-veterinário Luiz Fernando Lucas Ferreira afirma que o tratamento com células-tronco é indicado principalmente para animais idosos e diagnosticados com problemas ósseos ou articulares – próprios da velhice e que impedem o bicho de andar. A aplicação representa uma melhora na qualidade de vida, permitindo uma regeneração da articulação e a redução drástica do uso de remédios para dor e anti-inflamatórios.

Da Clínica Professor Israel, no Bairro São Pedro, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, Ferreira é um dos parceiros da Celltrovet e conta que começou receoso, mas logo comprovou a eficácia do tratamento em seus pacientes. Há quase um ano usando o método, já são cerca de 20 animais tratados. “Na medicina veterinária, um cão com insuficiência renal vai morrer, porque não temos hemodiálise nem transplantes como em humanos. Com 14 ou 12 anos de idade, em no máximo seis meses esse bichinho vem a óbito. Com o transplante de células- tronco consegue-se a regeneração do órgão”, diz. “Os resultados em meus pacientes foram muito bons. Alguns fizeram o tratamento e não precisaram mais de remédios”, conta.

O médico alerta que o sucesso do tratamento, depende do organismo do animal. “Fazemos uma triagem, para não oferecer tratamento que tem custo alto para casos que não vão dar certo. O dono deve entender ainda que é uma sobrevida.” “É um tratamento inédito e que serve de base para a medicina humana olhar essa terapêutica, que realmente tem utilidade para quem necessita.”

O PROCESSO

O tecido adiposo do animal é recolhido durante a castração. A incisão é de menos de 5cm

O sangue do animal é coletado para testes moleculares que comprovarão se está ou não saudável

Se detectado algum patógeno, o material é descartado

Se for comprovado que é saudável, as células tronco são isoladas do tecido adiposo, formando um concentrado

As amostras são armazenadas em tubos de 1,5 centímetro. Cada concentrado tem 2 milhões de células tronco

Nas garrafas de cultivo, elas continuam crescendo.

Controle de enzima pode evitar que pessoas obesas desenvolvam diabetes

O resultado abre portas para novos tratamentos voltados a esses pacientes


Flávia Franco
Estado de Minas: 07/07/2014 06:00


A obesidade é uma doença que aflige pessoas em todo o planeta. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), desde 1980, o problema praticamente duplicou e, em 2008, já englobava uma larga parcela da população de adultos e crianças. Entre as principais consequências do excesso de peso, estão distúrbios metabólicos que aumentam o risco do desenvolvimento do diabetes tipo 2. Agora, um novo estudo, realizado por cientistas da Universidade Médica de Viena, na Áustria, em parceria com o Instituto Max Planck de Imunobiologia e Epigenética, na Alemanha, e outras instituições, encontrou pistas que podem esclarecer por que as pessoas com excesso de peso costumam se tornar diabéticas — e por que algumas não.

Publicado no jornal científico Cell, o estudo mostra a participação da enzima heme oxygenase-1 (HO-1) no desenvolvimento da síndrome metabólica. De acordo com Harald Esterbauer, líder da pesquisa, os fatores que levam aos problemas derivados da obesidade ainda não estão claros, mas outras pesquisas na área sugerem que uma adaptação inadequada a respostas imunes, chamada inflamação metabólica, desempenha um papel importante. Porém, pesquisas sobre o tema apresentam resultados conflitantes.



Segundo Esterbauer, acreditava-se que a HO-1 possuía propriedades anti-inflamatórias, mas, de acordo com o estudo, a ação da enzima é contrária. “Os resultados da pesquisa indicam que a HO-1 é necessária para o desenvolvimento de doenças metabólicas e revelam, também, que a enzima pode agir como um marcador para a determinação de obesidade ‘saudável’ ou não”, explica o pesquisador. Essa divergência surge do fato de que nem todo indivíduo obeso apresenta diabetes tipo 2, uma das doenças metabólicas mais associadas à obesidade. “Nem todas as pessoas obesas estão desenvolvendo diabetes tipo 2, apesar de ser um fator de risco. Há indivíduos que estão protegidos desses ‘efeitos colaterais’”, garante Esterbauer.

A perspectiva de uma forma da doença que seja saudável divide especialistas na área. Para Rosita Fontes, endocrinologista do Laboratório Exame, é possível, sim, um indivíduo ser obeso e manter os exames normais. “Alguns indivíduos não têm as alterações metabólicas que ocorrem na maioria dos casos. Essas pessoas parecem ter mecanismos genéticos que as protegem das consequências da obesidade e das doenças cardiovasculares associadas a elas”, explica. A médica afirma que, por causa dessa particularidade apresentada por alguns obesos, já existem vários testes genéticos visando a definir quais são os mais propensos a determinadas alterações.

Já para Ricardo Botticini Peres, endocrinologista do Hospital Albert Einstein, a afirmação de que existe uma forma de obesidade considerada saudável é um erro. “Não existe nenhum quadro da doença que seja saudável.  Um indivíduo não apresentar consequências agora não significa que ele vai conseguir manter esse quadro a longo prazo”, ressalva o médico. Peres reforça que a obesidade é uma doença crônica epidêmica que está se espalhando rapidamente. “Acontece de algumas pessoas não apresentarem exames alterados, mas não é possível garantir que não vá causar danos no futuro, e certamente haverá perda na qualidade de vida”, reforça.

Experimento Com o intuito de esclarecer o que difere um obeso saudável de um não saudável, Esterbauer colheu amostras do fígado e do tecido adiposo de pacientes submetidos à cirurgia bariátrica. “Todos estavam livres de medicamentos e não apresentavam diabetes ou síndromes metabólicas”, explica. “Quando medimos os níveis de HO-1, observamos que esses indivíduos apresentavam taxas elevadas e se mostraram resistentes à insulina”, diz o pesquisador.

A partir dessa constatação, Esterbauer e sua equipe levaram a pesquisa adiante e realizaram experimentos com camundongos para determinar de que forma uma possível interferência na enzima alteraria o quadro metabólico das cobaias. Para isso, criaram modelos geneticamente alterados de ratos com obesidade. “Verificamos as respostas dos camundongos a injeções de glicose e insulina por via oral. O objetivo era levar as cobaias aos extremos para colher tecidos e realizar medições. Estudamos a perda de HO-1 em células de gordura, nos músculos e também nos hepatócitos e macrófagos, que são importantes na doença metabólica”, relata o pesquisador.

Os camundongos não apresentaram nenhuma alteração nas células de gordura e nos músculos após a inibição da HO-1, mas sinais de que a insulina foi preservada e o fígado ficou protegido de danos puderam ser vistos depois do procedimento. Para Esterbauer, esses resultados indicam que, apesar de obesas, as cobaias estavam saudáveis. “Descobrimos que a HO-1 é um forte marcador biológico de obesidade metabolicamente saudável em humanos, e isso pode ajudar no prognóstico da doença”, afirma o pesquisador. “Com essa descoberta, médicos podem usar intervenções especificamente direcionadas para prevenir o avanço da doença assim que surgirem os primeiros sinais de diabetes tipo 2”, reforça.

CAUTELA O responsável pelo estudo afirma que o próximo passo da pesquisa é compreender melhor de que forma o HO-1 realiza o trabalho de controle do diabetes para, posteriormente, investir em novos medicamentos e tratamentos. Para os especialistas, é preciso cautela antes de debater o desenvolvimento de novas estratégias para combater a doença. “A conclusão dos autores é plausível à medida que, mesmo em humanos, o aumento da HO-1 é associado a algumas alterações metabólicas. É uma pesquisa promissora, mas estudos complementares precisam ser realizados, pois serão eles a definir sua aplicação clínica”, reforça Rosita Fontes.

O trabalho com a enzima, para Ricardo Botticini Peres, apresenta uma boa perspectiva de tratamento, mas no futuro. “Esses estudos são realizados a nível celular, molecular, e os testes são feitos com animais. O interessante é que abre portas para novas pesquisas encontrarem substâncias que estimulem a produção da enzima, depois, isso pode ser traduzido em tratamentos”, afirma o endocrinologista. Além do trabalho realizado por Esterbauer, Peres afirma que, por causa da crescente e preocupante manifestação da doença, existem diversos outros estudos que buscam novas formas de prevenção e combate à obesidade. “Pesquisas relacionadas à gordura marrom também são muito promissoras, porque esse tipo de gordura estimula a queima calórica”, comenta.

Em todas as idades

A estimativa realizada em 2008 pela OMS aponta para mais de 1,4 bilhão de adultos com mais de 20 anos acima do peso. Entre esses, mais de 200 milhões de homens e 300 milhões de mulheres estavam obesos. De acordo com a OMS, indivíduos com Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 25 estão com sobrepeso, e pessoas com a taxa acima de 30 são obesas. Em 2012, segundo dados reunidos pela organização, mais de 40 milhões de crianças com menos de 5 anos estavam com sobrepeso ou obesas. No Brasil, o Ministério da Saúde estima que cerca de 51% da população brasileira esteja acima do peso.

Interferência orgânica

Distúrbios metabólicos são doenças capazes de interferir nas reações orgânicas responsáveis pela manutenção da vida, pelo crescimento tecidual e pela produção de energia. O resultado de uma doença metabólica é o acúmulo ou a deficiência de determinadas substâncias, como proteínas, gorduras ou carboidratos no corpo, que, por sua vez, levam a alterações da função das células de vários órgãos e tecidos.

Enzima controlada

Pesquisa aponta para possível tratamento para a obesidade por meio de uma enzima presente em células do próprio corpo

O estudo abordou as diferenças entre características metabólicas saudáveis (sensíveis à insulina) e não saudáveis (resistentes à insulina) em pessoas obesas para determinar possíveis marcadores para a doença

Amostras do fígado e de gordura visceral foram coletadas de pacientes obesos submetidos à cirurgia bariátrica para medir a presença da enzima heme oxygenase-1 (HO-1), associada à baixa saúde metabólica

A suspeita dos pesquisadores era de envolvimento da enzima na saúde metabólica devido a propriedades anti-inflamatórias, que fazem parte do conhecimento na área

Os resultados surpreenderam os pesquisadores, mostrando que, diferentemente do que se pensava anteriormente, os níveis baixos de HO-1 são um indicativo de maior qualidade na saúde metabólica, apontando para propriedades inflamatórias da enzima