quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A polarização voltou - Marcos Nobre

daqui

A polarização voltou

A disputa pela riqueza e a nova face do conservadorismo democrático
por Marcos Nobre
Um espectro rondou a eleição: a luta de classes. Foi assim que uma disputa presidencial rotineira se transformou em batalha épica. A campanha do medo foi feita pelos dois lados, mas os rituais de exorcismo foram bem diferentes. No imaginário eleitoral de oposição, Dilma Rousseff representou o projeto de uma redistribuição de renda e de riqueza para quem está embaixo à custa de quem está em cima. Era a ameaça de uma redistribuição de fato – e não apenas a melhoria geral dos padrões de vida sem concentração de renda, o pacto estabelecido por Lula. Do lado governista, a oposição foi carimbada como um retrocesso, uma ameaça de perda dos avanços dos últimos dez anos. O imaginário eleitoral da situação grudou em Aécio Neves a pecha de “playboy” e “filhinho de papai”, representante secular da exclusão.
O que está em jogo é uma conta simples de fazer. Não está mais à vista a possibilidade de que alguém melhore sem que alguém piore. A economia mundial patina. E o governo não tem mais condições de continuar se endividando para compensar a falta que faz um pibão. No grande acordo estabelecido no governo Lula, alguém só pode ganhar se todo mundo ganhar. E agora? Se esse acordo foi inviabilizado, o que garante que uma ex-guerrilheira não vá querer “quebrar o contrato” e alterar na marra a grade de classes? Esse o medo real que alimenta as fantasias delirantes de cubanização do país.
Enquanto não for possível que todo mundo melhore ao mesmo tempo, então que todo mundo fique parado onde está, sem perdas nem perdedores. Foi essa a diretriz que sustentou o imaginário oposicionista. Melhorias adicionais de padrão de vida nessas condições adversas não devem vir mais do Estado, mas unicamente da conquista individual, continua o discurso. A obrigação do Estado de melhorar a saúde, a educação e a segurança tem aí o sentido de produzir “igualdade de oportunidades”, exatamente para que “o esforço e o mérito” se sobressaiam e sejam recompensados. Nasceu, enfim, um liberalismo pós-Lula, com discurso e base social próprios: o liberalismo que o país foi capaz de produzir. Essa a grande novidade da eleição. Não por acaso, Aécio foi o primeiro candidato do PSDB, desde 2002, a enaltecer o período de governo de Fernando Henrique Cardoso.
O que não quer dizer que o eleitorado de Dilma tenha votado a favor de um acirramento da luta de classes e de um novo padrão de distribuição de renda. Isso em nenhum momento esteve em causa, não dessa maneira. O eleitorado de Dilma se divide em dois grandes grupos. Quem a escolheu o fez porque apostou na manutenção do pouco que tem (são os eleitores que formam o “rochedo lulista”, na expressão de André Singer) ou porque acreditou que a candidata poderia lhe dar condições para consolidar sua recente ascensão social (caso do andar intermediário, a chamada classe emergente). Também o imaginário situacionista do medo tem sua lógica e sua base material. Foi o trabalhismo que o país conseguiu produzir.

A divisão radical entre as candidaturas aconteceu de cima a baixo. A cisão mais visível foi a das redes sociais, entre os pitboys do Leblon e os pichadores do prédio da Veja. Mas nesse front o que houve foi apenas uma guerra de posições, cada trincheira convencendo suas próprias tropas da justeza de abater o inimigo. As batalhas decisivas para o resultado ocorreram de fato ali pelo meio da tabela de classes, na faixa do eleitorado que está além do Bolsa Família e aquém da segurança em relação à posição social recém-conquistada. É uma faixa do eleitorado que o Datafolha classifica como “classe média intermediária”, estimada em algo como um terço do eleitorado.
Não são poucas as pessoas desse meião que se sentem presas em uma espécie de armadilha social. As escolas e universidades que frequentam dão diplomas que não significam avanços reais; o emprego que têm não significa abertura de perspectivas futuras no mercado de trabalho; os salários que recebem não correspondem ao esforço que fizeram por eles. Mais grave, sabem que a melhoria de seu padrão de vida tem bases frágeis. Muitas vezes veem a si mesmos (e assim são vistos pelo andar de cima) como intrusos, exercendo funções para as quais não têm preparo, como se ocupassem uma posição social que não têm qualificação para sustentar.
A parcela desse eleitorado que aderiu à oposição tem uma visão muito particular da ameaça de regressão na escala social. Em termos de despesa do Estado, defendem que a melhoria da qualidade dos serviços públicos tenha prioridade em relação a qualquer outra despesa, inclusive em relação à ampliação de programas de distribuição de renda. O raciocínio é: se mais pessoas continuarem chegando ao lugar em que estão sem que elas mesmas consigam subir, vai haver um brutal aumento da concorrência – pelos mesmos empregos, pelas mesmas vagas na universidade – sem que novas perspectivas reais se abram. O voto pelo congelamento da grade de classes foi essencialmente defensivo, contra um novo tipo de competição social, visto como potencialmente predatório.
A parcela desse mesmo eleitorado que escolheu Dilma interpretou como ameaça mais iminente um ajuste recessivo forte e imediato, identificado com a candidatura tucana. Como seu problema não é o da subsistência – como se pode dizer do “rochedo lulista” –, mas o da fragilidade de sua ascensão social recente, o voto aqui foi orientado pelo temor de que políticas econômicas restritivas comprometam os empregos e diminuam ou eliminem programas que podem significar a única chance de consolidar a posição recém-alcançada. Foi um eleitorado que mirou diretamente alvos tão diferentes quanto a continuidade dos concursos públicos, o Pronatec, a melhoria do ensino médio e do ProUni, a manutenção do fluxo de crédito oferecido pelos bancos públicos, o Minha Casa, Minha Vida incluído.
As duas metades desse mesmo eleitorado enfrentam problemas bastante semelhantes. Mas interpretam suas dificuldades e vislumbram soluções de maneiras muito diferentes. Não por acaso, também essas duas metades irreconciliáveis estiveram lado a lado nas ruas durante as revoltas de junho de 2013. Representá-las como uma unidade, porém, não está à vista. Foi o que tentou, sem sucesso, Marina Silva.
Como a Constituição Federal, também as revoltas de junho podem ser reivindicadas por qualquer das forças políticas em disputa. Desde que se tenha em mente que só é possível representá-las como unidade se for de maneira metafórica. É preciso escolher qual “Junho” se pretende defender. As ruas revelaram polarizações que há muito tinham deixado de existir de fato no sistema político. Mostraram à esquerda a possibilidade de mobilizações de massa que pareciam improváveis; à direita, que a rua também é dela. A mesma direita que foi presença pública ostensiva na eleição, como é de se esperar de uma direita democrática.
Tudo somado, o fiel da balança foi o eleitorado que mais ascendeu em anos recentes. Tendo ou não escolhido Dilma, será um segmento crítico para o destino do próximo governo. Tem uma fatura especial a cobrar. É a faixa do eleitorado que mais facilmente poderá aderir à oposição em 2018, caso não seja convencida de que foram pagas as parcelas possíveis das promissórias feitas pela candidata. É uma faixa do eleitorado que pode vir a aderir seja ao liberalismo repaginado de Aécio, seja a uma versão reciclada de Marina. Ou a uma eventual aliança entre as duas forças.

Com o controle da inflação pelo Plano Real, a desigualdade enfim ocupou o centro da agenda política. No governo Lula, houve crescimento sem concentração de renda (ao contrário do que havia ocorrido nos anos de crescimento econômico acelerado da ditadura, por exemplo), o que favoreceu sobretudo a melhoria do padrão de vida dos mais pobres. A partir de agora, o que está em jogo é a própria grade de classes, a estrutura distributiva. Exceto em condições econômicas excepcionalmente favoráveis, melhorar o padrão de vida de quem está embaixo envolve mexer nas distâncias entre os andares sociais. Ou não. Essa é a luta de classes que o país conseguiu produzir. Junho de 2013 foi o marco inaugural dessa nova fase.
Assim como em junho de 2013, ao longo de 2014 muita gente se espantou com a virulência dos ataques e das defesas das diferentes posições. Muita gente se espantou com a própria virulência, aliás. Talvez essa agressividade toda encontre formas de expressão menos brutais do que se viu nessa eleição. Seria um grande avanço na convivência democrática. O que não dá para esperar é que a virulência desapareça, dada a dimensão e a agudeza dos conflitos envolvidos. E, vamos e venhamos, o que aconteceu foi que o país da cordialidade finalmente resolveu abrir seu coração em público. Pode-se não gostar da própria imagem no espelho. Mas é um sinal inequívoco de vitalidade democrática. A presença pública ostensiva da direita aí incluída.
Marina ainda quis convencer na base da “união das pessoas de bem”. Mas, quando o espectro da luta de classes assombra as escolhas, Mahatma Gandhi é só um retrato na parede. Marina apostou no retrato. E ficou fora do segundo turno. Foi Aécio quem se mostrou à altura da tarefa. Bateu quando e como foi necessário. À diferença de Alckmin em 2006 ou de Serra em 2010, teve de disputar com Marina um lugar no segundo turno. Não hesitou em participar da pancadaria contra a candidata do PSB, de maneira a mostrar que era ele o adversário à altura de Dilma. Claro que abusou do perfil clássico do conservadorismo brasileiro, sem classes nem luta; abusou da conversa de fio de bigode do “conciliador”. Mas mostrou ser um político que entendeu muito bem que esse figurino é apenas uma parte do papel, aquele que embrulha para presente o cerne racional da virulência atual, que é distributivo.

A polarização voltou. Vai haver oposição de verdade, tanto da parte do PSDB quanto de Marina. Isso não acontecia pelo menos desde 2006, quando a oposição passou a ser só para inglês ver, atuante apenas em períodos eleitorais. O que não quer dizer que o sistema político tenha mudado radicalmente e que o Congresso agora se divida em dois blocos de partidos claramente contrapostos. A virulência da disputa social ainda não rearranjou o sistema político no sentido das ruas. No mundo da política oficial, o superbloco de apoio ao governo – de qualquer governo – continua onde sempre esteve, continua onde o PMDB sempre está. A eleição ainda está restrita ao síndico do superbloco de apoio parlamentar. Em um sistema político pemedebizado, polarização quer dizer simplesmente que a disputa pelo cargo de síndico é para valer e não só para constar.
Na reta final do primeiro turno, Marina perdeu algo como quinze pontos percentuais. Perdeu o voto útil que num primeiro momento a considerou como a única candidatura capaz de vencer Dilma. Mas manteve a votação expressiva que tinha obtido na eleição de 2010, o que é uma novidade na história das eleições presidenciais a partir de 1994. E reforçou sua determinação oposicionista ao apoiar Aécio no segundo turno. Resolveu descer do muro do seu próprio eleitorado, os 20% que não querem ver sua escolha restrita à alternativa PT ou PSDB.
A aliança com Eduardo Campos em outubro de 2013 já indicava essa mudança. Marina começou um movimento que o PT levou vinte anos e quatro eleições presidenciais para realizar: passar da “ética na política” para a “política como ela é”. Com a morte de Campos, ela foi obrigada a fazer essa travessia em menos de dois meses, sem dispor de nada parecido com a base social e a história do PT. Não conseguiu. Mas o fato de não ter passado ao segundo turno não tira a sua enorme importância política. A questão é que destino vai dar a seu cacife eleitoral.
A novidade no campo oposicionista é a convivência de duas forças políticas de relevância. O que permite prever que haverá oposição constante e efetiva ao longo do segundo mandato de Dilma é menos o histórico do PSDB nesse quesito – que é pífio – e muito mais o fato de que, se o partido não ocupar esse espaço, Marina irá fazê-lo. Vai haver competição pela liderança da oposição, o que tende a acirrar a pancadaria contra o governo a partir do segundo ano de mandato. Além disso, tanto Marina quanto Aécio não vão ocupar cargos executivos nos próximos quatro anos nem terão compromisso direto com nenhum governo. Terão muito mais margem de manobra para fazer oposição, já que reduziram consideravelmente sua dependência do governo federal.

O segundo mandato de Dilma vai sofrer o pão que o Judiciário amassou com os desdobramentos do escândalo da Petrobras. Não bastasse isso, vai ser um tempo de vacas magras, com uma economia mundial claudicante e sujeita a instabilidades crônicas. Para não falar da série de promissórias sociais que a candidata assinou durante a campanha, muito difíceis de quitar. As agruras que passará com o PMDB e com o pemedebismo do sistema político merecem um capítulo à parte.
E, no entanto, nem só de Aécio e Marina vai viver a oposição. O PSDB tem ainda Geraldo Alckmin – sem contar o indefectível José Serra, sempre alerta. Para entregar o que prometeu, Alckmin vai precisar do governo federal. Mas governa São Paulo. Porque perdeu Minas Gerais, Aécio ficou com as mãos mais livres para ser oposição. Mas também com os braços mais curtos. Sem São Paulo, está de mãos atadas. Os bastidores da formação de um novo governo são sempre interessantes de acompanhar. Mas do ponto de vista da formatação da disputa de 2018, os movimentos de bastidores decisivos serão realizados no campo oposicionista.
Marina vai negociar sua adesão a uma frente de oposição? Ou, ao contrário, vai firmar-se em raia própria, explorando as fraturas internas do PSDB? Firmará acordos com que forças? Vai usar o novo partido, o Rede Sustentabilidade, para tentar produzir um novo arco de alianças? Ou vai apostar em uma frente de oposição alternativa, a ser construída a partir do PSB?
Aécio vai tentar negociar desde já um acordo com Alckmin? Vai procurar Marina? Sem o governo de Minas Gerais, onde vai conseguir espaço para seu grupo político mais próximo? São algumas das dúvidas que só as movimentações concretas dos personagens envolvidos irão dirimir. Mas formular as perguntas corretas é essencial para procurar entender os rearranjos que o próximo mandato presidencial vai produzir. Uma coisa é certa: do ponto de vista da oposição, o risco maior está agora em uma guerra interna autodestrutiva. É uma possibilidade que não deve ser desprezada.
Do lado da situação, a principal dúvida é a relação entre Dilma e Lula. Dados os desafios listados, a presidente tem a alternativa de dividir seu governo com Lula desde já, ou ser obrigada pelo sistema político a fazê-lo, mediante as chantagens de praxe. Mas o que Lula tem a oferecer é bem mais do que um seguro contra as desestabilizações da base parlamentar, colaborando na construção do megabloco de apoio congressual que considera necessário para governar. Se a perspectiva de reeleição garantia alta governabilidade no primeiro mandato, sua impossibilidade agora reduz consideravelmente a margem de manobra no segundo. Contar desde já com o esteio de um candidato altamente competitivo para 2018 pode funcionar como substituto da perspectiva de uma recandidatura e garantir a Dilma a governabilidade que não terá de outra maneira.

A nomeação para o Ministério da Fazenda será o indicador mais importante de todos. É sabido que Dilma manteve Guido Mantega porque assim pôde prescrever diretamente a política econômica. É difícil imaginar que vá abrir mão de comandá-la. E é esse o caldo que pode entornar de maneira terminal para o lado do candidato Lula. A luta de classes que a eleição explicitou bate direto na canela do andar de cima do eleitorado, aquele do bordão da “credibilidade” e da “previsibilidade” para “o investimento privado”. Para um governo acusado de tentar mandar na economia, de praticar “capitalismo de Estado” e “nacional-desenvolvimentismo”, a gestão Dilma foi de um economicismo cândido. Viu o empresariado embolsar as desonerações que recebeu sem a contrapartida de aumentar em nada o investimento. Assistiu da arquibancada a um movimento mais ou menos coordenado de congelamento do investimento. Perdeu feio a queda de braço em relação às taxas de retorno de concessões de serviços públicos, depois de longos e desgastantes embates. E tudo o mais que se conhece.
Não adianta contar só com a caneta. Ou com a maturação das novas concessões e dos investimentos públicos realizados ainda no primeiro mandato, mesmo que sejam de grande relevância. Também não é suficiente saber que o movimento mais ou menos coordenado de resistência à política econômica tem limite e que não poderá continuar no segundo mandato, pelo menos em um primeiro momento. Porque a divisão de 2014 não vai se dissipar com o fim da eleição. A começar pela oposição à política econômica. É aqui que a relação entre Dilma e Lula vai ser decisiva.
No imaginário de futuro projetado por Lula a partir de seu segundo mandato, é estratégico manter a liderança do PT até 2018 por uma razão muito especial: é a partir dali que se espera que o país se torne de fato exportador líquido de petróleo. O paraíso prometido da riqueza do pré-sal continua a guiar o projeto de longo prazo do partido. É conhecida a disciplina de Dilma, sua disposição de “servir a um projeto”, de “cumprir uma missão”. Desde cedo ela teve claro que faria um governo “de transição”, que deveria servir a um projeto maior. Mas as escolhas táticas agora serão divididas com Lula. É dessa acomodação que vai depender a cara do próximo mandato.

A última piauí publicou carta de Cássio Loredan Barbosa com um simpático pedido de atualização de análises que apresentei aqui mesmo, em novembro de 2013 (“A volta da polarização?”). Como bem lembrou o leitor, propus ali a ideia de que a nova oposição representada pela aliança entre Eduardo Campos e Marina deveria ser entendida pelas lentes de uma nova tática eleitoral do PT. O partido lançava candidaturas próprias ao governo nos seis maiores colégios eleitorais do país, com nomes novos, muitos deles em consonância com a diretriz de uma troca de guarda geracional. Alexandre Padilha em São Paulo era o maior exemplo disso.
A tese do texto era simples: o PT pretendia dar um abraço de tamanduá no PMDB. Cabeças de chapa fortes em eleições estaduais puxam votos para deputados federais e senadores. O PT tinha a expectativa de eleger uma grande bancada na Câmara – falava-se em números assombrosos, 110 deputados – e pelo menos manter o equilíbrio de forças no Senado. Tudo isso, se possível, com redução da bancada do PMDB na Câmara. Se desse certo, o PT transformaria todos os demais em partidos médios, o PMDB em especial, e seria o único partido considerado grande.
O movimento complementar veio da novidade própria do governo Dilma, que jogou gasolina na fogueira de um sistema político não apenas fragmentado, mas tendente à fragmentação. O governo estimulou abertamente a formação do PSD e do PROS, com a expectativa não apenas de abrir caminho para a adesão de quadros antes identificados com a oposição, mas também, se possível, para diminuir a força do PMDB – além de, em alguma medida, tentar neutralizar a candidatura de Eduardo Campos.
A jogada consistia menos em atrair deputados do PMDB para os novos partidos do que tentar diluir sua zona de influência, bem mais ampla do que a própria base partidária. Simultaneamente, o governo procurou estimular as dissensões internas do PMDB, especialmente entre as bancadas da Câmara e do Senado. Fez acordos financeiros e eleitorais com peças importantes do PMDB no Senado, por exemplo, às costas do vice-presidente Michel Temer, que, ao perceber as manobras, imediatamente reassumiu o posto de presidente do partido, posição da qual se encontrava licenciado.
O resultado foi um fiasco eleitoral sem precedente para o PT em eleições proporcionais. E um aumento da fragmentação partidária no Congresso, sem que sequer tenha havido fortalecimento das bancadas dos maiores partidos. O Senado ficou mais ou menos igual. Em termos de governos estaduais, o PT alcançou um saldo ligeiramente positivo, dada a conquista de Minas Gerais. Mas, em Minas, o PT não apenas não enfrentou o PMDB como se aliou a ele. Levou. Nos seis maiores colégios estaduais – algo como 60% do eleitorado –, o único em que o PT enfrentou o PMDB e mesmo assim ganhou foi a Bahia. No geral, a divisão dos colégios eleitorais por partido também está mais fragmentada.
O PMDB devolveu o abraço de tamanduá do PT com um beijinho no ombro. Não só continuou no mesmo lugar, em sua posição de rochedo do pemedebismo do sistema político, como fortaleceu sua posição de polo de aglutinação do superbloco de apoio ao governo, de comissão de frente do pemedebismo generalizado. Não é de espantar que se tenham fortalecido as bancadas disso e daquilo – da bala, da bola, ruralista, evangélica, religiosa e assim por diante. Ou que sejam tão ou mais conservadoras que as anteriores, independentemente dos nomes dos partidos pelos quais se elegeram.
Fazer com que a disputa da eleição de síndico do condomínio seja para valer é melhor do que uma disputa encenada, pelo menos dá um alento para uma democracia ainda pouco democrática. Mas não resolve a questão de fundo do conservadorismo de um sistema político pemedebizado. A oposição nem sequer consegue manter uma bancada congressual que não seja mera franja de uma megabancada de apoio ao governo. É aí que a volta da polarização para a eleição de síndico pode não significar nada além de um novo impulso e de uma nova máscara para a geleia geral do pemedebismo.

A arte de suprimir - Martha Medeiros

Estava lendo uma longa entrevista com o escritor argentino Julio Cortázar e deparei com sua inspirada declaração sobre “literatura com franjas”, que é aquela cheia de rococós desnecessários. Segundo ele, escritor bom é escritor que se dedica a limpar o texto até chegar a uma estrutura medular. Por isso é tão importante não se dar por satisfeito e reescrever quantas vezes for preciso (para mim, atualmente, tem sido a melhor parte do ofício).
É quando temos aquele monte de palavras na nossa frente e começamos a depurar, polir, retirar tudo o que não agrega, tudo o que não serve. Não raro, é um processo dolorido, pois costumamos nos apegar a uma determinada frase ou a alguma gracinha, mas não devemos mantê-la apenas por capricho: ela pode distrair o leitor e interromper o ritmo da leitura.
É preciso severidade consigo próprio, desapegar daquilo que, mesmo que nos apaixone, compromete o resultado final. Diz Cortázar, e eu humildemente endosso: “Quando corrijo, só uma vez em 100 acrescento algo. Nas outras 99, corrigir consiste em suprimir. Qualquer um que veja um rascunho meu pode comprovar isso: muito poucos acréscimos e enormes supressões”.
Faxinar é uma arte. Vale para textos, armários, gavetas, e também para manias, lembranças, rancores. A maturidade tem muitas vantagens, entre elas a de deixarmos de ser tão sentimentais com nosso passado e promovermos um arrastão em tudo o que é excessivo. Não há mais tempo para delongas: uma vez conhecendo melhor a nós mesmos, hora de priorizar a essência – a nossa e a de tudo.
O que não impede que pessoas mais jovens comecem a se habituar desde cedo a não colecionar inutilidades, como amigos falsos, preconceitos e dramalhões. Hoje, considera-se rico aquele que tem 1 milhão de seguidores no Twitter e curtidas no Face, ou aquele que acredita que um sem-número de sapatos, bolsas e tênis acalmará sua ansiedade, afugentando o vazio. Será mesmo preciso gastar metade da vida até perder essa ilusão? O que nos dignifica não é um guarda-roupa abarrotado ou uma cabeça lotada de neuras. Simplificar, ao contrário do que se pensa, nunca foi provinciano, e sim um luxo que poucos conseguem bancar.
Acumular é que é provinciano. Nem mesmo quando relaciono esse verbo a afeto e dinheiro consigo dar a ele algum crédito, pois acúmulo nada tem a ver com suficiência. Se temos afeto e dinheiro suficientes para viver bem, com paz, conforto e alegria, para que correr atrás de mais e mais? O excesso pode conspirar contra, nos exigindo um esforço extra para manter a roda girando. O suficiente faz a roda girar sozinha.


Tempo esgotado, hora de enviar o texto para o jornal. Desconfio que ele segue com algumas franjas, mas prometo apará-las numa próxima versão.

Aleluia! - Eduardo Almeida Reis

Aleluia! - Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas : 12/11/2014



Enfim, uma notícia boa. A gente abre os jornais, liga o televisor e pipocam notícias ruins. É a morte de um colega de turma que você não via há séculos, mas foi seu amigo na faculdade. É a missa de sétimo dia por alma de um querido amigo digno, antes e acima de tudo um cidadão honrado, como poucos houve na história deste país. Ontem, felizmente recebi ótima notícia: casal meu amigo há quase 40 anos está de mudança para Orlando, Flórida, onde já reside sua filha única.

Formado em direito, ex-fazendeiro, arquiteto genial não diplomado, o maridão vendeu tudo que tinha neste país grande e bobo, meteu seus móveis em contêineres e lá se vai de muda para a Flórida, onde comprou bela casa num condomínio vizinho do campo de golfe construído pelo campeão Arnold Palmer, alcunhado The King, um dos maiores jogadores profissionais de golfe da história dos Estados Unidos.

Aposentadoria mais que justa para um casal que não merece continuar andando em carros blindados. O marido chegou a ter três picapes Chevrolet Montana blindadas, compradas de segunda mão por uma tuta e meia de comerciantes suburbanos, que precisam delas para levar suas férias aos bancos.

Meu amigo usava as picapes nas idas ao supermercado, ao cinema, para visitar pessoas e para transportar os móveis que projetava. BH já tem um monte de gente circulando em carros blindados, cavalheiros e damas não necessariamente milionários, que o leitor conhece muito bem. Em rigor, só existe um motivo para este philosopho não andar em carro blindado: já não tenho carro.

De Orlando, o amigo promete me telefonar frequentemente: existem celulares norte-americanos que custam 100 dólares por mês e você pode ligar para o mundo inteiro falando o tempo que quiser. Invejo os moradores da Flórida e os vizinhos do condomínio projetado e construído por The King, que passam a contar com a assessoria estética e técnica de um arquiteto genial.

Horários
Este ano, o horário de verão começou no domingo, 19 de outubro, nos diversos estados em que é imposto, salvo aqui em casa, que começou três dias antes. Na quinta-feira, dia 16, aproveitei a visita do técnico em informática para pedir que adiantasse meus relógios eletrônicos, poupando-me da estrênua tarefa de xingar as mães de todos os responsáveis pela imposição do horário abjeto, xingatório que dura horas e horas porque não sei mexer com os tais relógios: incompatibilidade etária.

Na manhã seguinte, o relógio do quarto marcava 7h, eram 6h, depois de boas oito horas de sono. Desperto, quedei-me no leito sem vontade de levantar. Diagnóstico: spleen. Sou do tempo em que muita gente sofria de spleen, palavra que entrou no idioma dos Pitts e dos Chaucers no século 13, do grego splën via latim splen, di-lo o dicionário do doutor Bill Gates. Não chega a ser depressão: é uma espécie de melancolia, sentimento de vaga e doce tristeza que compraz e favorece o devaneio e a meditação.

Tentei dormir, não consegui, levantei-me e aqui estou para falar do horário de verão, que neste ano é aparentado com o acarajé de Dorival Caymmi. O baiano poetou “todo mundo gosta de acarajé” e todos os debatedores dos programas que vejo na tevê se disseram fãs do horário. Uma enquete feita por Maria Beltrão, durante o Estúdio i, provou que o negócio não é bem assim: 53% dos telespectadores disseram que não gostam do horário.

Tenho horror e não acredito na economia de energia anunciada pelo governo, que nada sabe da economia, da inflação, do pibinho, da ladroeira que ele mesmo orienta na Petrobrás, do mensalão, finge não saber de nada – e não pode avaliar a economia de energia.

Donde se conclui que a crise de spleen está explicada. Vou parando por aqui para almoçar bifes altos, farofa caprichada, espinafre ao alho, salada e uma bela dose de sorvete Häagen-Dazs. Tchau e bênção procês todos.

O mundo é uma bola
12 de novembro de 1532: termina o prazo para os moradores de Genebra declararem sua religião, sob pena de expulsão da cidade, por obra e graça de um sujeito chamado Jean Cauvin. Basta ver seu focinho nos quadros para constatar que não era boa-bisca, mas se casou com Idelette de Bure, porque mulher é danada para gostar de casamento.

Em 1823, o imperador Pedro I manda o Exército invadir o plenário da Assembleia Constituinte prendendo e exilando diversos deputados. E olhem que foi 191 anos antes de o Brasil saber dos parlamentares comprados no escândalo da Petrobras.

Em 1906, o 14-Bis volta a voar, percorrendo 220 metros em menos de 22 segundos. Releva notar que não foi em 1006, mas em 1906, há pouco mais de um século. Em 1993, sai da linha de montagem última unidade do Chevrolet Chevette e já saiu tarde, porque era uma titica de carro, dos piores que já tive. Hoje é o Dia do Diretor de Escola, profissão de risco diante da ferocidade dos atuais alunos.

Ruminanças
“Uma escola onde os alunos mandassem seria uma escola triste. A luz, a moralidade e a arte serão sempre representadas na humanidade por um conjunto de mestres, uma minoria que guarda a tradição do verdadeiro, do bem e do belo” (Renan, 1823-1892).

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Graça infinita A gente faz o que eles mandam a gente fazer.


Graça infinita

A gente faz o que eles mandam a gente fazer. Eles dizem que aqui é Orgulho sem Bagulho

David Foster Wallace


Na noite seguinte ao piquenique gelado e meio constrangedor de celebração conjunta do Dia da Interdependência para a Casa Ennet de Recuperação de Drogas e Álcool de Enfield, da Phoenix House de Somerville e da tristeza que era a reabilitação juvenil Nova Escolha de Dorchester, a funcionária da Ennet Johnette Foltz levou Ken Erdedy e Kate Gompert com ela para uma Discussão para Novatos do NA em que o tema era sempre a maconha: como cada viciado da reunião tinha se arranjado problemas terríveis de vício da maconha já desde o primeiro baseado, ou como tinham ficado ligados a drogas mais pesadas e tinham tentado mudar para a erva para largar as drogas originais e mas aí tinham ficado com problemas ainda mais terríveis com a erva do que tinham com as coisas pesadas originais. Essa era supostamente a única reunião do NA da Grande Boston explicitamente devotada à maconha. Johnette Foltz disse que queria que Erdedy e Gompert vissem o quanto estavam completamente não isolados e não solitários em termos da Substância que tinha derrubado os dois.






























Havia coisa de talvez duas dúzias de viciados novatos em recuperação ali na sacristia anecoica de uma igreja chique do que Erdedy imaginou só podia ser ou West Belmont ou East Waltham. As cadeiras estavam dispostas no tradicional círculo amplo do NA, sem mesas e com todo mundo equilibrando cinzeiros no colo e acidentalmente chutando copinhos de café. Todo mundo que levantava a mão concordava sobre as formas insidiosas com que a maconha tinha detonado seu corpo, mente e espírito: a maconha destrói lenta mas totalmente era o consenso. O pé balouçante de Ken Erdedy derrubou o seu café não uma mas duas vezes enquanto os NAs se revezavam para concordar sobre a pavorosa decadência psíquica que tinham suportado tanto durante a dependência ativa da maconha quanto durante a desintoxicação de maconha: o isolamento social, a lassidão angustiada e a hiperautoconsciência que então reforçava a antissocialidade e a angústia – a alienação emocional cada vez maior, a pobreza afetiva e depois a catalepsia emocional plena –, a análise obsessiva de tudo e finalmente a estase paralítica que resulta da análise obsessiva de todas as implicações possíveis tanto de levantar do sofá quanto de não levantar do sofá – e aí a dura via sintomática infinda da Abstinência de delta-9-tetra-hidrocanabinol: i. e. desintoxicação de ganja: a perda de apetite, a mania, a insônia, a fadiga crônica, os pesadelos, a impotência, a interrupção de ciclos menstruais e da lactação, a arritmia circadiana, os súbitos suores tipo-sauna, a confusão mental, os tremores motores finos, o excesso particularmente desagradável de produção de saliva – vários novatos ainda segurando copinhos institucionais de baba embaixo do queixo –, a angústia generalizada, os agouros, o pavor e a vergonha de sentir que nem os doutores nem os próprios nas das drogas pesadas tinham muita empatia ou compaixão pelo “viciado” derrubado pelo que todos achavam ser o barato mais modesto da mãe natureza, a Substância mais benigna que existia.
Ken Erdedy percebeu que ninguém ia lá de uma vez e empregava os termos melancolia ou anedonia ou depressão, muito menos depressão clínica; mas esse, o pior dos sintomas, esse logaritmo de todo o sofrimento, parecia, conquanto tácito, pender como uma névoa logo acima das cabeças do cômodo, vagar entre as colunas do peristilo e sobre os astrolábios e velas decorativas que ficavam em longos braços de castiçais, imitações medievais e declarações emolduradas dos princípios dos Cavaleiros de Colombo, um plasma gasoso tão temido que novato nenhum suportava olhar para cima e dar-lhe um nome. Kate Gompert ficava olhando para o chão e fazendo um revólver com o indicador e o polegar e se dando tiros na têmpora, depois soprando pólvora de brincadeirinha da ponta do cano até Johnette Foltz sussurrar para ela parar com aquilo já.
Como era costume dele nas reuniões, Ken Erdedy não abriu a boca e ficou observando todo mundo muito atentamente, estralando os dedos e balançando o pé. Como no NA um “Novato” é tecnicamente qualquer um com menos de um ano de sobriedade, havia graus variados de negação, perturbação e falta de noção generalizada nessa acolhedora sacristia chique. A reunião tinha a seção demográfica ampla de sempre, mas a maioria desse pessoal destruído pela erva lhe parecia urbana, dura, ferrada e vestida sem nenhuma noção de cores, gente que você não tinha dificuldade para imaginar esbofeteando o filho num supermercado ou à espreita com um porrete feito em casa na escuridão de uma ruela do centro. Igual no AA. A desrespeitabilidade mais variegada era tipo norma ali, além de olhos vidrados e excesso de cuspe. Alguns novatos ainda estavam com as pulseirinhas de identificação de plástico leitoso das alas psiquiátricas que tinham esquecido de cortar ou que ainda não tinham reunido forças para cortar.
Ao contrário do AA de Boston, o NA de Boston não tem pausa para a rifa no meio da reunião e dura só uma hora. No encerramento da Reunião de Novatos de Segunda-Feira todo mundo levantou, se deu as mãos em círculo e recitou o “Só Hoje” aprovado pela Conferência do NA, depois todos recitaram o Pai-Nosso, não exatamente em uníssono. Kate Gompert depois jurou que ouviu nitidamente o cara mais velho e esfarrapado ao lado dela dizer “E não nos deixeis cair nessa Estação” durante o Pai-Nosso.

Aí, que nem no AA, a reunião do NA terminou com todo mundo gritando para o ar em frente Continue Voltando Porque Funciona.
Mas aí, de um jeito meio pavoroso, todos lá dentro começaram a andar por ali de maneira confusa, que nem uns malucos, se abraçando. Foi como se alguém tivesse ligado um botão. Não tinha nem muita conversa. Eram só abraços, até onde dava para Erdedy ver. Uma abraçação descontrolada e indiscriminada, cujo objetivo parecia ser abraçar a maior quantidade possível de pessoas por mais que você nunca as tivesse visto na vida. Carinha ia de pessoa em pessoa, de braços abertos, se chegando. As pessoas grandes se dobravam e as baixinhas ficavam na ponta do pé. Mandíbulas roçavam mandíbulas. Os dois gêneros abraçavam os dois gêneros. E os abraços homem–homem eram abraços puros, abraços sem os vigorosos tapinhas nas costas que Erdedy sempre tinha visto como uma espécie de requisito necessário para os abraços homem–homem. Johnette Foltz era quase um borrão. Ela ia de pessoa em pessoa. Ela contabilizava uma quantidade significativa de abraços. Kate Gompert estava com a sua cara desbeiçada de sempre, de uma insatisfação macambúzia, mas até ela deu e recebeu alguns abraços. Erdedy porém – que nunca tinha gostado muito de abraços – foi para bem longe da multidão, para perto da mesa de Textos-Aprovados-pela-Conferência-do-NA, e ficou ali sozinho com as mãos nos bolsos, fingindo examinar a cafeteira com grande interesse.
Mas aí um camarada afro-americano bem alto e pesado com um incisivo de ouro e um cilindro perfeitamente vertical de cabelo afro se destacou de uma espécie de abraço grupal ali perto, ele tinha detectado a presença de Erdedy, e o camarada veio e se postou bem diante de Erdedy, abrindo os braços da jaqueta camuflada para um abraço, curvando-se levemente e se aproximando da região torácica pessoal de Erdedy.
Erdedy ergueu as mãos num gesto inane de Não Obrigado e se afastou ainda mais até espremer a bunda contra a borda da mesa de Textos-Aprovados-pela-Conferência.
“Valeu, mas eu não gosto muito de abraço”, disse.
O camarada teve que meio que engatar uma ré na sua aproximação pré-abraço e ficou ali paralisado de um jeito inibido, com os braços ainda estendidos, o que Erdedy percebeu que devia ser constrangedor e vergonhoso para o camarada. Erdedy se viu tentando calcular que região subasiática remota estaria ao maior número possível de quilômetros de distância daquele ponto preciso naquele momento preciso enquanto o camarada continuava ali parado, braços estendidos e o sorriso lhe escorrendo rosto abaixo.
“Como é que é?”, o camarada disse.
Erdedy lhe ofereceu a mão. “Ken E., Ennet, Enfield. Como vai. A sua graça?”
O camarada foi abaixando os braços devagar mas só olhava para a mão que Erdedy oferecia. Uma única piscada estíptica. “Roy Tony”, disse.
“Roy, como vai?”
“Qual é”, Roy disse. O grandão agora estava com a mão que deveria ser apertada atrás do pescoço e fingia tatear a nuca, o que Erdedy não sabia que era uma megaofensa.
“Então Roy, se é que eu posso te chamar de Roy, ou sr. Tony, se você preferir, a não ser que seja um primeiro nome composto, com hífen, ‘Roy-Tony’, e depois vem um sobrenome, mas então esse negócio de abraços, Roy, não é nada pessoal, fica tranquilo.”
“Fica tranquilo?”
O melhor sorriso desamparado de Erdedy e um dar de ombros pesaroso do anoraque de Gore-Tex. “É só que eu não gosto muito de abraço. Não sou de dar abraço. Nunca fui. Era até motivo de piada na minha fam…”
Agora um ominoso indicador de agressão-de-rua apontado, esse tal de Roy indicando primeiro o peito de Erdedy, depois o seu: “Então, meu, quer dizer que cê tá dizendo que eu sou de dar abraço? Cê tá dizendo que eu ando dando abraço por aí?”
As mãos de Erdedy estavam com as palmas viradas para cima e se sacudiam num gesto de bonomia, de quem quer eliminar qualquer possibilidade de mal-entendidos: “Não mas ó a questão aqui é que eu não ia me dar esse direito de te classificar como quem gosta ou não gosta de abraço porque eu não te conheço. Eu só estou dizendo que não é nada pessoal, que tenha a ver com você enquanto indivíduo, e eu vou ficar mais do que satisfeito de apertar a tua mão, até com um desses apertos de mão étnicos complicadões com as duas mãos e tal se você aguentar a minha inexperiência nesse tipo de aperto, mas é que eu simplesmente não fico à vontade com essa coisa de abraços.”
Quando Johnette Foltz conseguiu se liberar e ir até eles, o camarada estava segurando Erdedy pela lapela impermeável do anoraque e inclinando o rapaz por cima da borda da mesa com os textos de modo que a bota de trilha de Erdedy estava fora do chão e a cara do camarada bem em cima do rosto de Erdedy numa claríssima demonstração de agressividade.
“Você acha que eu gosto dessa porra de ficar abraçando essa negadinha daqui? Você acha que alguém aqui gosta dessa merda? A gente faz o que eles mandam a gente fazer. Eles dizem que aqui é Orgulho sem Bagulho, aqui. A gente entregou a porra da nossa vontade aqui, mano”, Roy Tony disse. “Bichinha”, acrescentou. Roy enfiou a mão entre eles para apontar o próprio peito, o que significava que ele agora estava segurando Erdedy no ar apenas com uma mão, fato que não passou despercebido pelo sistema nervoso de Erdedy. “Eu tive que dar quatro abraços na minha primeira noite aqui, e aí eu saí correndo pra porra do lixo e vomitei. Vomitei”, disse. “Não tá à vontade? Quem é que você tá pensando que é, meu? Nem venha tentar me vim com essa de dizer que eu tou aqui à vontade com isso de tentar abraçar essa tua caveira de mané com esse cheirinho de loção de barba Calvin Klein e essas roupinhas James River Traders do caralho.”
Erdedy observou uma das mulheres afro-americanas que estavam olhando bater as mãos e gritar “Ai, doeu!”
“E agora você vem me desrespeitar na frente de toda a minha galera limpa e sóbria bem quando eu tinha ido correr o risco de dividir a minha vulnerabilidade e o meu desconsolo com você?”
Johnette Foltz estava meio que dando tapinhas nas costas da jaqueta camuflada de Roy Tony, estremecendo mentalmente ao pensar como ficaria no Registro de Funcionários um relatório de um residente da Ennet atacado numa reunião do NA aonde ela o tinha levado pessoalmente.
“Agora”, Roy disse, puxando a mão livre e apontando para o chão da sacristia com um gesto que era uma estocada, “agora”, ele disse, “você vai correr o risco da vulnerabilidade e do desconsolo e vai abraçar o meu caveirão, ou eu vou ter que arrancar a porra da tua cabeça e dar um cagão no teu pescoço?”
Johnette Foltz segurava o casaco do dito Roy com as mãos, tentando arrancar o camarada dali, derrapando de Keds no parquê, tentando conseguir apoio, dizendo: “Ô Roy T. chegado, sussa aí, véio, Meu, Chapa, Cupincha, Mano, Dez, Do-Bem, De-Casa, Mó-Legal, Irmão mesmo, ele só é novo e tal”; mas a essa altura Erdedy estava com os braços em volta do pescoço do cara e lhe dava um abraço tão vigoroso que Kate Gompert depois disse a Joelle van Dyne que parecia que Erdedy estava tentando escalar o sujeito.