quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

MARTHA MEDEIROS - A maior rua que existe

Zero Hora 17/12/2014

Estava descendo uma ladeira do Chiado, em Lisboa, quando passei por um mendigo. Seria mais um entre tantos que ocupam as calçadas, mas percebi que ele estava cercado de cartazes dizendo que a esmola iria para o uísque, o vinho, a cerveja, a ressaca. Um mendigo engraçadinho. Fiquei observando. Os turistas passavam, riam e distribuíam moedas não por caridade ou desencargo de consciência. Era couvert artístico.
Quando o pessoal se afastou, me aproximei dele e conversamos rapidamente. Vi que tinha um cartaz escrito “Ao menos sou sincero”.Perguntei se ele gastava mesmo em bebida e ele disse que comia alguma coisa, claro, e gastava também em locomoção, trocava de ponto, de cidade e até de país (estivera há pouco tempo em Sevilha), mas morava na rua mesmo. Ele estava sozinho naquele momento, mas o “espetáculo” não era solo, havia mais dois ou três amigos nessa onda, e com eles formava os The Lazy Beggers. Tinham até um site.
Um site?? Sim, para donativos online, assim as pessoas não precisariam se aproximar de uns sujeitos sujos e fedorentos, podiam doar dinheiro de forma rápida e segura pelo PayPal. Bem-vindos ao século 21. É a nova geração de mendigos, disse ele.
Como tudo começou? Eram artistas de rua, faziam malabarismo, tocavam alguma música, até que um dia um vira-lata que estava por perto começou a tremer e eles, de gozação, fazendo de conta que era alguma abstinência do bicho, colocaram um chapéu e um cartaz em frente ao cão dizendo “Para cocaína”. Em poucos minutos, o cachorro ganhou mais moedas do que eles na semana inteira. Adotaram-no, cuidaram dele (conheci, chama-se Nemo) e ele virou mascote da trupe.
A quem pergunta por que eles não trabalham, a resposta vem rápida: “Como, não trabalhamos? Passamos de oito a 12 horas nas ruas fazendo os outros rirem”. À noite, eles se recostam em algum canto e muitas vezes conseguem dormir em garagens de amigos conquistados nesses últimos cinco anos em que levam sua miséria na flauta.
No site, há dicas para quem quiser pedir esmola de forma criativa. Vale tudo: tocar um instrumento invisível e expor um cartaz dizendo “roubaram minha guitarra” ou colocar uma máscara com o rosto de alguma celebridade junto a um cartaz dizendo “para outra mansão”.
Funciona mais do que cartazes dizendo que se está passando fome. Lamentos não comovem mais ninguém, ele acha. As pessoas preferem remunerar o bom humor.
Por fim: o site funciona? Ele é franco: “Pouco”. As pessoas gostam de doar pessoalmente, mas como ficar fora da web? A internet é a maior rua que existe.

Dei a ele uns trocos e pedi para tirar uma foto. Ele levantou um cartaz dizendo que fotos custavam 278 euros. Tirei a foto mesmo assim e sorri. Ele respondeu: está pago.

Férias - Eduardo Almeida Reis

Concluí que o melhor pacote natalino é a compra de cervejas belgas para ficar em casa atento ao ditado 'boa romaria faz quem em casa fica em paz'


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 17/12/2014




Para ler depois, separo os cadernos de Turismo e Viagem dos jornais que assino. A pilha vai subindo e não leio porque não gosto de viagens. Trabalhando, viajei muito. Enjoei.

Com a proximidade do Natal, resolvi passar a vista na matéria do Estadão que anunciava: “Selecionamos 81 opções para escolher de acordo com o seu perfil”. Na verdade, estava mais interessado em conhecer o meu perfil, que obviamente não se enquadra nas 81 opções selecionadas.

Pausa para explicar que ando às voltas com a internet angolana, depois que foi anunciada a oferta de compra da operadora que me serve pela bela senhora Isabel dos Santos, filha de José Eduardo dos Santos, presidente de Angola há 37 anos. Nascida em Baku, no Azerbaijão, em 1973, filha do atual presidente angolano e de sua primeira mulher, uma campeã soviética de xadrez, Isabel estudou engenharia elétrica no King’s College de Londres.

Considerada a empreendedora número 1 em África, é também a africana mais rica e poderosa com uma fortuna que, segundo a revista Forbes, passa dos 3 bilhões de dólares. Em 2002, Isabel casou-se com o colecionador de arte Sindika Dokolo, nascido na República Democrática do Congo, cerimônia a que compareceram 800 convidados, 400 dos quais parentes dos noivos. Sindika é um ano mais velho que a belíssima Isabel, mulato como ela e foi criado na Bélgica e na França. Deve adorar biscoitos belgas e Isabel é um biscoito.

Isto posto, com a internet pulsante num entra e sai chatíssimo, volto aos 81 destinos turísticos para constatar que na categoria “a sós”, isto é, dos abandonados como este philosopho, a melhor escolha no Brasil deve ser Corumbau, na Bahia, R$ 11.661 para duas pessoas, donde se conclui que o jornal inventou a categoria dois a sós. Mais adiante existe a categoria casal a sós, que presumo seja a de um casal livre de outros casais chatos. Na mesma Corumbau, há um plano de R$ 24.617. Pensei encontrar coisa melhor no exterior, isto é, mais cara: não encontrei. Depois de longos e demorados estudos, concluí que o melhor pacote natalino é a compra de cervejas belgas para ficar em casa atento ao ditado “boa romaria faz quem em casa fica em paz”.

Águas

É assustadora a notícia de que diversas cidades brasileiras pensam limpar seus esgotos para redistribuir as águas pelos respectivos serviços de abastecimento residencial. Mais assustadora ainda é a constatação de que isso vem sendo feito numa porção de cidades deste país grande e bobo.
O Rio Paraíba do Sul, antes de chegar ao Oceano Atlântico, recebe 600 milhões de litros de esgoto por dia (!) e abastece de “água” diversas cidades nos dois estados que têm as duas maiores economias do “país”. Bacharel em direito, ateu, hoje sem tísicos na família, vosso philosopho tem originalidades tais como a posse de um Dicionário Potamográfico Brasileiro de autoria do professor João Clímaco da Rocha, que acabo de localizar nas estantes.

Nele, o filho de João Maximiniano da Rocha, falecido em 1917 na colônia Suassuna, município de Jaboatão, nos ensina que o Rio Paraíba do Sul desce da Serra da Bocaina, em São Paulo, com o nome de Paraitinga, e corre para o estado do Rio, onde desemboca no Atlântico em São João da Barra, após um curso de 1.058 quilômetros, dos quais 217 são navegáveis em duas seções. O verbete é imenso e não cabe nesta coluna, mas os 600.000.000 de litros diários de esgotos ensejariam considerações oportunas se o philosopho soubesse aritmética.

Basta lembrar que um caminhão-tanque de bom tamanho transporta 30.000 litros. Dez veículos iguais transportam 300.000 mil litros. Compete ao leitor, matemático de truz, calcular quantos caminhões-tanque de esgotos seriam necessários, por dia, para despejar 600 milhões de litros de esgotos no Paraíba do Sul.

E tem mais uma coisa: potamografia é o estudo geográfico dos rios. Depois que escrevi este belo suelto, liguei a televisão e vi o mapa colorido do Rio Paraíba do Sul, com a explicação de que ele encosta em Minas, o que é verdade. No dia da reportagem, os 217 quilômetros navegáveis podiam ser navegados a pé com água pelas canelas.

O mundo é uma bola
17 de dezembro de 283, eleição do papa Caio. Nascido na Croácia, conseguiu pontificar mais que 12 anos: tinha boa cara. Em 1707: batizado em Bonn o menino Ludwig van Beethoven. Gênio. O resto só lendo sua biografia e ouvindo sua música.

Em 1777, a França é a primeira nação a reconhecer a independência dos Estados Unidos, menos porque goste dos americanos, mas porque sempre andou às turras com os ingleses. Em 1792, por ordem de Maria I, rainha de Portugal, foi fundada a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, primeira escola de engenharia das Américas e terceira do mundo. Dela descendem a Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Poli) e o Instituto Militar de Engenharia (IME).

Ruminanças


“Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos” (Porfirio Díaz, 1830-1915)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Derrapadas - Eduardo Almeida Reis

Contratado pelo Real Madrid, James Rodríguez vinha sendo elogiado até atrasar uma bola de forma bisonha, que proporcionou um gol para o Rayo Valecano


Estado de Minas: 15/12/2014




Não se pode elogiar, mas é chato limitar nossos textos diários às críticas. Há pessoas e instituições que merecem elogios, o que não as livra das derrapagens profissionais. Veja-se o jogador James Rodríguez, colombiano de 23 anos, batizado James David Rodríguez Rubio. Prefere ser chamado de Jâmes em vez do Jêimes inglesado, hipótese em que seria Jêimes Dêivid, incompatível com a cidade de Cúcuta, onde nasceu. Capital e cidade mais populosa de Norte de Santander, 370 metros acima do nível do mar, Cúcuta pede bidês por motivos que minha educação me impede de explicitar.

Contratado pelo Real Madrid para atuar numa linha de atacantes que tem Cristiano Ronaldo, Karim Benzema e Gareth Bale servidos por ninguém menos que Toni Kroos, James Rodríguez vinha sendo elogiado pelos comentaristas esportivos até atrasar uma bola de forma bisonha, que proporcionou um gol para o Rayo Valecano, time de futebol do Bairro de Vallecas, em Madrid.

Locutores da ESPN dão a entender que o nome do bairro não deve ser falado. De repente, significa palavrão como cuca, que na Nicarágua é pênis. Não que o aparelho reprodutor externo masculino seja palavrão, mas dá margem a interpretações maliciosas naquele país se você disser que o fulano tem boa cuca ou cuca fresca. O certo é que a jogada de James foi de uma bisonhice indigna de jogador da Série D do péssimo futebol visto no Brasil em 2014.

Dia desses, caí na besteira de elogiar uma cronista muito badalada neste país grande e bobo. Não é a melhor, que os dois primeiros lugares já têm donas, mas pode disputar o terceiro posto. Eis senão quando, bumba!, a referida senhora publicou seu trabalho numa revista encartada em jornal de circulação nacional, crônica de uma pobreza e de um português de quem está com TPM, carente de boa cuca. Arrependi-me do elogio. Paciência.

Verdade


O jornalista Augusto Nunes dispensa apresentações. É das cabeças mais brilhantes e pensantes da mídia brasileira. Duas vezes, quando dirigiu jornais, ousados amigos comuns recomendaram ao então diretor, sem sucesso, meu modesto nome para cronicar em suas folhas. Não lhe quero mal e continuo admirando sua lucidez.

Vejo agora que às 14h26min do dia 08/11/2014, Augusto publicou o seguinte: “Jornalista cinco estrelas e escritor maior, Moacir Japiassu consegue tempo para brilhar como garimpeiro de imagens. Titular absoluto da seleção brasileira de jornalistas, Moacir Japiassu resolveu disputar uma vaga no time dos mais brilhantes romancistas. Dois ou três livros bastaram para garantir-lhe a posse vitalícia da camisa 10, a mais cobiçada pelo elenco de craques que mereciam apresentar-se para plateias de Fla-Flu em estádios padrão Fifa. Se o Brasil fosse menos parecido com Lula, aquele que acha leitura pior que exercício em esteira, até os índios de tribos isoladas já teriam lido pelo menos uma obra desse admirável domador de palavras que vive inventando enredos capazes de sequestrar a atenção de um bebê de colo. Ainda vou descobrir como esse meu amigo irrevogável arranja tempo para localizar e recolher fotografias que melhoram o fim de semana da coluna. Confira a mais recente remessa de Moacir Japiassu”.

Seguem-se as fotos, realmente da melhor supimpitude, que não tenho como publicar neste espaço, mas posso dizer que assino de cruz as palavras de Augusto, nascido em Taquaritinga (SP), no dia 26 de setembro de 1949, quatro vezes vencedor do Prêmio Esso de Jornalismo, que tem a suprema honra de fazer parte da “lista negra” elaborada pelo vice-presidente nacional do PT, Alberto Cantalice, o maior galardão midiático para homens de bem neste país grande e bobo.

Natalinas


Faltam 10 dias para o Natal. Sei que o clima natalino não congemina com certas verdades como falar mal do irmão de um amigo. Sou amigo do Jaeci Carvalho, que se diz amigo/irmão do locutor Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno. Por isso, com as desculpas devidas ao Jaeci, constato que o Galvão é muito chato, insuportável como narrador de corridas de Fórmula 1 e de partidas de futebol. Presumo que em sua casa seja encantador, mas narrando é um castigo para o telespectador. Tenho dito.

O mundo é uma bola

15 de dezembro de 1640: João IV é coroado rei de Portugal na restauração do trono contra o domínio espanhol. Em 1896, Machado de Assis é proclamado primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Em 1959, criação da Sudene com o objetivo de promover o desenvolvimento dos estados do Nordeste brasileiro, depois estendido às regiões do chamado polígono das secas. O que se roubou em nome da Sudene nunca esteve no gibi. Em 1961, o incêndio no Gran Circus Norte-Americano, em Niterói (RJ), mata mais de 500 pessoas. Destacou-se na ocasião o trabalho do jovem cirurgião plástico Ivo Pitanguy, que foi para Niterói e operou dezenas de feridos. Em 1963, no Maracanã, um Fla-Flu registra o recorde mundial de público num jogo de futebol: 194.603 pessoas. Hoje é o Dia do Esperanto.

Ruminanças

“A canalhice do petista Cantalice explica, sem justificar, a ladroeira do governo que defende” (R. Manso Neto).

Entrevista - Luiza Erundina - 'Apoio ao PSDB foi absurdo e PSB está desfigurado'

Valor Econômico - 15/12/2014

'Apoio ao PSDB foi absurdo e PSB está desfigurado', diz Erundina

Por Fernando Taquari | De São Paulo
Com 177 mil votos, Luiza Erundina (PSB-SP) foi eleita neste ano para o quinto e último mandato à Câmara. Com 80 anos recém completados, a deputada diz que é preciso ter consciência dos limites ao justificar a decisão de abandonar as disputas a partir de 2018. Nos próximos quatro anos estabeleceu como prioridade trabalhar pela reforma política, por mudanças na comunicação social do país e na punição de violadores dos direitos humanos no regime militar.

A decisão de parar, ressalta, não significará um afastamento da política. Nordestina de Uiraúna (PB) e oriunda do movimento sindical, a ex-prefeita de São Paulo foi uma das primeiras mulheres a participar ativamente da política no país. Sem o mandato daqui a quatro anos, promete manter a militância e o engajamento no avanço de reformas estruturais que permitam os mesmos direitos de cidadania a todos os brasileiros.

Isolada no PSB desde a decisão do partido de apoiar o senador Aécio Neves (PSDB-MG) no segundo turno da eleição presidencial, Erundina diz que não reconhece mais a legenda na qual se filiou em 1997, depois de deixar o PT por divergências internas. Segundo ela, o partido está desfigurado e distante de seus compromissos originais. "Faz um jogo que se confunde com a direita mais reacionária do Congresso ao mesmo tempo que diz que vai apoiar o governo Dilma em certas questões".

Com o mesmo rigor, afirma que a presidente Dilma Rousseff (PT) deixou a desejar em seu primeiro mandato ao governar de forma autoritária, centralizadora e sem diálogo com os movimentos sociais. Mesmo assim, rechaça as manifestações em favor do impeachment da petista e da volta dos militares ao poder. Sugere a Dilma que inclua a sociedade civil organizada como um terceiro interlocutor para não ficar dependente de uma base aliada fisiológica.

A seguir, os principais trechos da entrevista ao Valor.

Valor: O que motivou sua decisão de não disputar mais eleições?
Luiza Erundina: Já estou com bastante idade. Acho que a gente tem que ter consciência dos limites a partir de um certo momento da vida. Tudo tem começo e fim. Agora, o fato de eu não me candidatar mais não significa que vou me afastar da política.

Valor: Como assim?
Erundina: Posso atuar com como cidadã e assistente social. Essa foi minha origem. A questão da terra, por exemplo, está intocada. Não se avançou na reforma urbana. Vou manter o engajamento e a militância para garantir que reformas estruturais aconteçam. Nesses sentido entendo que não vou sair da política enquanto essas questões não estiverem resolvidas e dificilmente estarão no meu tempo de vida.

Valor: Quais serão suas prioridades nestes próximos quatro anos?
Erundina: Vou retomar questões que lido desde o primeiro mandato, em 1999, como a reforma política e a democratização da comunicações. Se não reformarmos a política de comunicação social do país mais distante estaremos das reformas estruturais. Tem que mudar o marco institucional. Ele está superado. O código brasileiro de telecomunicações é de 1962. Além disso, vou me dedicar ao resgate da verdade e da memória para que os crimes da ditadura militar não permaneçam impunes.

Valor: Como ex-perseguida política o que a senhora achou do relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV)?
Erundina: O governo brasileiro continua em dívida com as vítimas da ditadura militar. Países como Argentina, Uruguai e Chile já tiveram suas comissões e hoje ex-presidentes e generais estão presos. Saímos com um relatório bastante mitigado, que sequer absorveu a proposta de revisão da Lei de Anistia. Não se descobriu um único desaparecido político. Quase não se avançou em nada do que já se sabia e tinha sido levantado por ONGs e familiares das vítimas. Além disso, a comissão funcionou de maneira fechada, o que gerou divergências entre os integrantes. Suas audiências não foram públicas de verdade. Os encontros com os acusados pelos crimes foram feitos em sua maioria de forma reservada, sem a presença das vítimas ou de familiares. Em resumo, a Comissão da Verdade não fez jus ao nome e ainda traiu os movimentos sociais.

Valor: Desde que foi eleita pela primeira vez à Câmara, em 1998, a senhora participou de diversas comissões sobre reforma política. Ela pode ser aprovada finalmente?
Erundina: No âmbito do Congresso não tenho expectativa. Em geral, os parlamentares fatiam a proposta, o que gera divergências sobre os mais variados temas, e não enfrentam o problema como um todo. Discutem remendos. O sistema, porém, continua carcomido. Os parlamentares não entendem ou não querem entender que a política faz parte de um sistema esgotado e obsoleto no que diz respeito às regras eleitorais, ao funcionamento dos partidos e do Estado e na relação entre poderes. Os desvios nas estatais por meio de financiamentos de campanha estão aí para provar que eles se dão por uma prática corrupta, viciada e nada republicana em que os partidos e as forças políticas são lenientes.

Valor: Qual seria a solução?
Erundina: Uma constituinte exclusiva seria o meio mais eficaz para fazer a reforma, com os constituintes eleitos só para essa finalidade. Isso daria uma legitimidade ao processo e uma condição que jamais se teve. Antes é preciso fazer plebiscito para ver se as pessoas concordam com a ideia. O projeto que apresentei com esse objetivo está engavetado.

Valor: Onde há resistência?
Erundina: Vem de cada parlamentar e de cada partido, inclusive, das legendas pequenas e de esquerda, que resistem ao fim das coligações proporcionais porque correm o risco de não terem uma cadeira, já que sozinhos muitas vezes não conseguem eleger um parlamentar.

"O PSB faz um jogo que se confunde com a direita mais reacionária e ao mesmo tempo diz que vai apoiar o governo"

Valor: O PSB foi aliado do governo petista, depois virou oposição e lançou candidatura própria e por fim a maior parte do partido se uniu ao PSDB no segundo da eleição presidencial. Qual deve ser o caminho daqui para frente?
Erundina: O PSB, primeiro, tem que voltar a ser socialista. Hoje, não é nada. Está completamente desfigurado e sem identidade pelos erros todos que cometeu. Não é aquele partido para o qual eu fui em 1997. Nas eleições fez concessões a segmentos conservadores. Agora, faz um jogo que se confunde com a direita mais reacionária do Congresso ao mesmo tempo que diz que vai apoiar o governo Dilma em certas questões. Essa dubiedade mostra que o PSB não tem um projeto para o país e, pior, está distante de se seus compromissos originais. Um partido não deve existir para disputar o poder a cada quatro anos, mas para propor soluções aos problemas estruturais do país.

Valor: Foi um erro ter candidato próprio?
Erundina: Fazia todo sentido ter candidatura própria, não necessariamente com o cálculo de vitória eleitoral. Eduardo Campos era uma liderança política carismática, reconhecida e preparada. Não fazia sentido também que Marina Silva não fosse candidata com o acidente, já que ela era a vice. Só que ela não é do PSB. Entrou no partido para se viabilizar como candidata. Mas não tinha os mesmos compromissos do PSB. Tinha em comum um programa que foi construído junto com o Eduardo Campos e com o partido de certa forma, mas na defesa desse programa ela não deu conta.

Valor: Como enxergou o apoio ao PSDB no segundo turno?
Erundina: Um absurdo. Por isso fiquei sem posição. Era melhor. O Campos dizia que deveríamos quebrar a polarização para ser a terceira força. Ao optar por um dos polos, você não só preserva a polarização, como fortalece um dos lados. O ideal era ter liberado os companheiros até pelas alianças regionais que foram feitas com PT e PSDB. Discordei da posição de Marina no segundo turno, especialmente da forma como se deu. Ela até colocou o emblema do outro candidato no peito.

Valor: A liderança de Campos faz falta neste momento?
Erundina: Sim, mas um partido, sobretudo com pretensões socialistas, não pode depender de uma única figura. Isso reforça o personalismo e o caciquismo. Um partido deve ser um espaço de discussão política que suscite o surgimento de outras lideranças, que dê oportunidades para que outros pessoas possam aparecer e disputar de forma legítima os espaços de poder. Estamos na contramão disso.

Valor: Como avalia o primeiro mandato da presidente Dilma?
Erundina: A impressão é que ela não tem gosto pelo jogo político democrático. A política é um jogo no bom sentido. É uma luta de interesses. O diálogo é importante não só com aliado, mas com a oposição. O que existe hoje é só barganha através de cargos, ministérios e emendas. Isso não ajuda a construir a cidadania política ao lado do povo. Dilma deixou a desejar, sobretudo em relação ao método de gestão. Ela governou de forma centralizada e autoritária. Com isso, comprometeu o avanço da organização da sociedade civil no exercício da política. Mas isso é um processo que já vem desde o governo Lula, que contribui para o esvaziamento do movimento sindical.

Valor: Como isso se deu?
Erundina: Lula, com seu carisma, tem trânsito e uma relação pessoal com os dirigentes sindicais. Quando presidente, eles sentavam na mesa e discutiam uma pauta, mas deixavam de lado aquilo que era fator de polêmica. A prova disso é programação do 1º de maio nos últimos anos. Virou uma grande festa, com shows caríssimos, sorteio de apartamentos e carros. Não se discutiu mais a sério questões como o fim do fator previdenciário para os aposentados. Mas onde estão as contradições da relação capital-trabalho? Não existem mais? Eu acho que existem. As grandes centrais estão nas mãos de uma elite sindical que não vai mais para porta de fábrica distribuir panfleto para ajudar o trabalhador a tomar consciência de sua força. Os sindicatos de base estão completamente esvaziados e sem respaldo para sua militância nas comissões de fábricas. Não contam com o mesmo ativismo do passado.

Valor: Para o ministro Gilberto Carvalho, o governo Lula teve mais diálogo com os movimento sociais na comparação com a gestão de Dilma. Concorda?
Erundina: Tinha mais abertura, mas não digo que os movimentos se fortaleceram. A forma como se dá esse relação não foi e não é autônoma e independente. Me lembro que quando a gente militava no PT, a preocupação era exatamente não confundir o movimento sindical com o governo e o partido. Dizíamos que o sindicato não podia ser correia de transmissão de nada. Sofri com isso quando fui prefeita. O movimento sindical, sobretudo da área de transporte, levou a ferro e fogo essa autonomia ao ponto de pressionar o governo a dar uma política salarial absolutamente inviável quando a gente já tinha garantido o diálogo com eles e melhorias salariais. Lula fez essa correia de transmissão no governo quando deveria mediar o debate entre o representante dos trabalhadores e os representantes dos patrões numa mesa de negociação. Cabe ao Estado mediar essa relação e não ser parte disso.

Valor: Como a senhora vê protestos que defendem o impeachment de Dilma ou volta dos militares?

Erundina: É um absurdo, fora de época. Não existe mais ambiente para isso, por mais que tenhamos crítica ao governo Dilma. A nossa incipiente democracia foi conquistada com perdas humanas. Além disso, a ditadura não acabou para muitos brasileiros. Ainda há resquícios, como torturas nas prisões e assassinatos de jovens nas periferias das grandes cidades. Essas manifestações mostram o atraso da nossa sociedade e o vazio dos partidos.