domingo, 22 de fevereiro de 2015

Ledices II - Eduardo Almeida Reis

Monteiro Lobato adorava café com farinha de milho, rapadura e içá torrado (a bolinha traseira da formiga tanajura), além de Biotônico Fontoura



Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 22/02/2015 


Prosseguindo com as maluquices dos escritores, que copiei do site UBE/RN, vejo que, numa viagem a Portugal, Cecília Meireles marcou encontro com o poeta Fernando Pessoa no café A Brasileira, em Lisboa. Sentou-se ao meio-dia e esperou em vão até as duas horas da tarde. Decepcionada, voltou para o hotel, onde recebeu um livro autografado pelo poeta. Junto com o exemplar, a explicação para o “bolo”: Fernando Pessoa tinha lido seu horóscopo pela manhã e concluiu que não era um bom dia para o encontro. Clarice Lispector era solitária e tinha crises de insônia. Ligava para os amigos e dizia coisas perturbadoras. Imprevisível, era comum ser convidada para jantar e ir embora antes de a comida ser servida.

Monteiro Lobato adorava café com farinha de milho, rapadura e içá torrado (a bolinha traseira da formiga tanajura), além de Biotônico Fontoura: “Para ele, era licor”, diverte-se Joyce, neta do escritor. Também tinha mania de consertar tudo: “Mas, para arrumar uma coisa, sempre quebrava outra”. Manuel Bandeira sempre se gabou de um encontro com Machado de Assis, aos 10 anos, numa viagem de trem. Puxou conversa: “O senhor gosta de Camões”? Bandeira recitou uma oitava de Os Lusíadas que o mestre não lembrava. Na velhice, confessou: era mentira. Tinha inventado a história para impressionar os amigos.

Guimarães Rosa, médico recém-formado, trabalhou em lugarejos que não constavam no mapa. Cavalgava a noite inteira para atender pacientes que viviam em longínquas fazendas. As consultas eram pagas com bolo, pudim, galinha e ovos. Sentia-se culpado quando os pacientes morriam. Acabou abandonando a profissão: “Não tinha vocação. Quase desmaiava ao ver sangue”, conta a filha mais nova. Mário de Andrade provocava ciúmes no antropólogo Lévi-Strauss porque era muito amigo da mulher dele, Dina. Só depois da morte de Mário, o francês descobriu que se preocupava em vão. O escritor era homossexual.

Vinicius de Moraes, casado com Lila Bosco, no início dos anos 50 morava num minúsculo apartamento em Copacabana. Não tinha geladeira. Para aguentar o calor, chupava uma bala de hortelã e, em seguida, bebia um copo de água para ter sensação refrescante na boca. José Lins do Rego foi o primeiro a quebrar as regras na ABL, em 1955. Em vez de elogiar o antecessor, como de costume, disse que Ataulfo de Paiva não poderia ter ocupado a cadeira por faltar-lhe vocação. Jorge Amado, para autorizar a adaptação de Gabriela para a tevê, impôs  que o papel principal fosse dado a Sônia Braga. “Por quê?”, perguntaram os jornalistas. Jorge respondeu: “O motivo é simples: nós somos amantes”. Ficou todo mundo de boca aberta. O clima ficou mais pesado quando Sônia apareceu. Mas ele se levantou e, muito formal, disse: “Muito prazer, encantado”. Era piada. Os dois nem se conheciam até então. O poeta Pablo Neruda colecionava de quase tudo: conchas, navios em miniatura, garrafas e bebidas, máscaras, cachimbos, insetos.

Vladimir Maiakóvski tinha o que atualmente chamamos de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). O poeta russo tinha mania de limpeza e costumava lavar as mãos diversas vezes ao dia, numa espécie de ritual repetitivo e obsessivo. A preocupação excessiva com doenças fazia que o escritor tcheco Franz Kafka usasse roupas leves e só dormisse de janelas abertas – para que o ar circulasse –, mesmo no rigoroso inverno de Praga.

Casamento

Julgando que a residência dos pais não está à altura dos 200 convidados para a festa do seu casamento, jovem mineira resolveu alugar um sítio por  R$ 1.500 sexta, sábado e domingo. O acesso, o local e as instalações se prestam para a festa do sábado. Negócio autorizado pelos pais depois que o irmão da noiva, tenente PM, visitou o sítio. O mano se compromete a levar um grupo de colegas fardados e armados para guardar a festa.
Se isso não é sinal dos tempos, não entendo mais nada. Além de gagá, saí de moda, fiquei démodé, como se diz em francês.

O mundo é uma bola
22 de fevereiro de 1775: Pio VI é eleito o 250º papa, demonstrando que o pontificado é ocupação de alta rotatividade. Em 1819, pelo Tratado de Adams-Onís entre a Espanha e os Estados Unidos, a Flórida é cedida aos norte-americanos. Por via de consequência, cedida aos mineiros, que estão comprando tudo por lá. Hoje, mineiro adora jatinho que faça Confins–Miami sem escalas. O mineiro Eike Batista vendeu o dele, mas há vários operando na rota.

Em 1836, criação da cidade de Uberaba, onde vivi passagens curiosas que não vêm à balha, sempre mais chique do que vir à baila. Em 1939, pela primeira vez no Brasil jorra petróleo de um poço em Lobato, Bahia: pouco, mas jorrou. Transcorridos 76 aninhos, o glorioso Partido dos Trabalhadores está acabando de destruir a Petrobras.

Em 1998, desaba na Barra da Tijuca, Rio, o edifício Palace II, matando oito pessoas e arruinando a vida de muita gente. Foi “outro dia” e parece ter sido na Idade Média. Hoje é o Dia da Criação do Ibama

Ruminanças
“É mais fácil encontrar uma mulher resignada a envelhecer do que um político resignado a se retirar da cena” (Amado Nervo, 1870 -1919).

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Ledices - Eduardo Almeida Reis

Carlos Drummond de Andrade imitava com perfeição a assinatura dos outros. Falsificou a do chefe durante anos para lhe poupar trabalho


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 21/02/2015




Juro que gostaria de só publicar colunas refertas de ledices, maneira besta de escrever “cheias de alegria, de contentamento”, mas está ficando difícil. Não há dia em que amáveis leitores não me peçam para comentar assuntos desagradáveis, amargos, aparentemente insolúveis, que vão da cobrança da pena d’água nas cidades que não têm água ao ministério escolhido pela senhora que vocês reelegeram.

Escritores adoram maluquices. Felizmente, nunca fui escritor, mas simples autor de livros, o que me permite cuidar das curiosidades do meio literário transcrevendo maluquices que pesquei no Google, site da UBE/RN, União Brasileira de Escritores, de Natal, terra do ex-deputado Henriquinho.

Maluquices a montões. O escritor Wolfgang von Goethe escrevia em pé: mantinha em sua casa uma escrivaninha alta. Pedro Nava parafusava os móveis de sua casa a fim de que ninguém os tirasse do lugar. Gilberto Freyre nunca manuseou aparelhos eletrônicos. Não sabia ligar sequer uma televisão. Todas as suas obras foram escritas a bico de pena, como o mais extenso de seus livros, Ordem e Progresso, de 703 páginas. Euclides da Cunha, superintendente de Obras Públicas de São Paulo, foi engenheiro responsável pela construção de uma ponte em São José do Rio Pardo (SP). A obra demorou três anos para ficar pronta e caiu alguns meses depois de inaugurada. Euclides não se deu por vencido e a reconstruiu. Por via das dúvidas, abandonou a carreira de engenheiro. Machado de Assis ultrapassou barreiras sociais e físicas. Teve infância pobre, míope, gago, epilético. Enquanto escrevia Memórias póstumas de Brás Cubas, foi acometido por uma de suas piores crises intestinais, complicando sua frágil visão. Os médicos recomendaram três meses de descanso em Petrópolis. Sem poder ler nem escrever, ditou grande parte do romance para Carolina, sua mulher. Graciliano Ramos era ateu convicto, mas tinha uma Bíblia na cabeceira só para apreciar os ensinamentos e os elementos de retórica. Por insistência da sogra, casou-se na igreja com Maria Augusta, católica fervorosa, mas exigiu que a cerimônia ficasse restrita aos pais do casal. No segundo casamento, com Heloísa, evitou transtornos: casou-se logo no religioso.
Antes de escrever seus romances, Aluísio de Az
evedo tinha o hábito de desenhar e pintar sobre papelão as personagens principais, que mantinha em sua mesa de trabalho. José Lins do Rego era fanático por futebol. Foi diretor do Flamengo e chegou a chefiar a delegação brasileira no Campeonato Sul-Americano de 1953. Aos 17 anos, Carlos Drummond de Andrade foi expulso do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo (RJ), depois de um desentendimento com o professor de português. Imitava com perfeição a assinatura dos outros. Falsificou a do chefe durante anos para lhe poupar trabalho. Ninguém notou. Tinha a mania de picotar papel e tecidos: “Se não fizer isso, saio matando gente pela rua”. Estraçalhou uma camisa do neto nova em folha: “Experimentei, ficou apertada, achei que tinha comprado o número errado. Mas não se impressione, amanhã lhe dou outra igualzinha”. Domingo tem mais...

Nomes

Leitor amigo me pede que comente as iniciativas de diversos parlamentares, como o Projeto de Lei 3.795, de 2013, do ilustrado deputado estadual Paulo Lamac (PT-MG), no sentido de que sejam retirados os nomes de pessoas ligadas aos anos de chumbo (sic) de órgãos e espaços públicos, como túneis, viadutos, pontes, estádios etc.

Para início de conversa, digo que sou a favor, porque não entendo que nomes como o do cearense Castello Branco e do mineiro Milton Campos continuem figurando em espaços públicos num país que elegeu presidentes da República o pai do Lulinha e a ex-presidente do conselho de administração da Petrobras. Tudo na vida tem limites. Brasileiros cultos e honestos, como Castello e Milton, não podem ter os seus nomes conspurcados, expostos à execração pública no país do Instituto Lula. 

Floriano Peixoto tudo bem: conseguiu fazer governo pior que o da mãe da Paula, como se fosse possível, mas parece que foi. Getúlio Vargas tudo ótimo: pai dos pobres não foi ditador, mas chefe de um negócio chamado Estado Novo. Dar ao viadutos, ruas e praças os nomes de bobos que exerceram a presidência e foram ministros sem aproveitar para roubar é desmoralizar o país. Quem foi Castello Branco que não teve um filho com o toque de Midas, fazendo ouro em tudo que tocasse? Quem foi Milton Campos que não nos deixou um filho bilionário? O deputado Lamac está certíssimo.

O mundo é uma bola


21 de fevereiro de 1431: começa o julgamento de Joana D’Arc. Em 1560, Mem de Sá chega à Baía da Guanabara para atacar o forte Coligny, atual Ilha de Villegagnon, núcleo do estabelecimento colonial francês conhecido como França Antártica (1555-1560). Em 1804, sai às ruas no País de Gales a primeira locomotiva a vapor autopropulsionada. Em 1925, lançamento da revista The New Yorker, que publicou textos de muitos dos mais respeitados escritores do século XX.

Em 1960, Fidel Castro nacionaliza todas as empresas em Cuba. Em 1976, Portugal reconhece oficialmente a República Popular de Angola. No dia 21 de fevereiro, mas em 1468, o infante dom Fernando, duque de Viseu e donatário das Ilhas dos Açores, havia concedido ao fidalgo flamengo Joss Van Hurtere a capitania da Ilha do Faial.

Ruminanças

“Roubar se preciso for; confessar, nunca!” (R. Manso Neto). 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A mãe de todas as derrotas - Alberto Carlos Almeida

Valor Econômico - 20/02/2015              

Passou o carnaval e, como estamos acostumados a afirmar, o ano começou. Feliz 2015, prezados leitores e leitoras! Aliás, passamos dois meses dizendo "feliz 2015" para todos aqueles que encontramos apenas depois do Réveillon. Do ponto de vista formal, o ano começou com a posse de Dilma. Do ponto de vista substantivo, na política, o ano começou um mês depois, em 1º de fevereiro, com a eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara. Os dois eventos se juntam agora, no início do ano pós-carnavalesco, o ano que vale para um país chamado Brasil.

A eleição de Cunha para a presidência da Câmara representa uma derrota significativa para o governo. Trata-se da "mãe de todas as derrotas" que se seguiram, e foram várias. Há duas comissões parlamentares, no âmbito da Câmara dos Deputados, que são de grande importância para o processo legislativo, em particular quando o governo Dilma terá que aprovar novas medidas econômicas, que são uma inflexão na comparação com a política macroeconômica adotada no primeiro mandato. Trata-se da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e da Comissão de Finanças e Tributação (CFT). Os parlamentares que estarão à frente das duas comissões são figuras de confiança de Cunha e, portanto, não necessariamente vão defender a posição do governo.

Todas as medidas econômicas gestadas no Ministério da Fazenda, sob o comando de Joaquim Levy, terão que passar pelas duas Comissões. Uma eventual rota de conflito entre Dilma e Cunha pode ter como consequência a oposição do presidente da Câmara aos principais pontos do ajuste fiscal, e a consequente derrota do governo. Pode ser que as leis que trazem as medidas econômicas sejam desfiguradas já nas duas Comissões.

O governo também foi derrotado na formação da Comissão de Reforma Política. Seu presidente é Rodrigo Maia, do DEM, aguerrido e histórico opositor do PT. O partido de Lula vinha há anos discutindo e cultivando mudanças no sistema político brasileiro. Construir é sempre uma tarefa árdua e longa; destruir é algo rápido e certeiro. A construção do consenso a que o PT se dedicava, no que tange à reforma política, terá sido inútil após a escolha de Maia para essa comissão. As iniciativas do PT serão, de agora em diante, sumariamente destruídas.

Antes do Carnaval, foi votado e aprovado pelos deputados o assim chamado orçamento impositivo. Mais uma vez, após a eleição de Cunha para a presidência da Câmara, o governo foi derrotado. A nova lei obriga o governo a executar as emendas individuais ao orçamento da União que os parlamentares apresentam e aprovam. No passado, as emendas aprovadas tinham sua execução orçamentária barganhada entre o parlamentar interessado na emenda e o governo. Caso o parlamentar votasse contra o governo, dificilmente os recursos seriam liberados. Os fiéis ao governo, porém, tinham suas emendas devidamente executadas. A aprovação do orçamento impositivo aumentou a independência da Câmara em relação ao Poder Executivo.

A Câmara é dirigida fundamentalmente por seu presidente. Mas a mesa tem vários outros cargos: primeiro vice-presidente, primeiro secretário e suplentes, entre outros. Em todos os governos, desde Fernando Henrique, o partido do presidente sempre controlou um ou mais cargos da mesa da Câmara. Trata-se de um fato inédito o que acabou de acontecer em fevereiro: o PT não tem nenhum cargo neste importante órgão diretivo do processo legislativo.

Vem sendo divulgado pela mídia que interessa ao governo diminuir o peso relativo do PMDB. Pode ser factualmente verdade, pode não ser. O que importa é a percepção dos parlamentares do PMDB. Tudo indica que seus deputados realmente acreditam nessa intenção do governo. Um dos sinais seria a eventual criação do Partido Liberal, o PL, que poderia nascer com 30 deputados. Feito isso, caso o PL fosse incorporado por outro partido, e se esse outro partido fosse grande o suficiente, poderia surgir na Camara um partido maior que o PMDB.

Cunha já agiu para impedir ou dificultar que isso ocorra. Ele apresentou uma proposta legislativa que impede que partidos recém-criados sejam incorporados por partidos já existentes antes de cinco anos de existência. Caso essa iniciativa seja aprovada, dificultará sobremaneira o sucesso do PL. Atualmente, os novos partidos não têm mais tempo de televisão nem fundo partidário relativos aos parlamentares que neles desembarcam. Tempo de televisão e fundo partidário, só depois de disputarem e vencerem uma primeira eleição dentro de um novo partido. Assim, no curto prazo, a esperança de tais deputados seria de fato a incorporação. Uma incorporação, ou mesmo fusão, depois de cinco anos, é um grande desincentivo para que parlamentares que hoje detêm mandato migrem para um novo partido.

Não bastassem essas más notícias, ganha corpo em alguns segmentos da sociedade e da política a ideia de que seria possível tirar Dilma do governo por meios legais, pelo processo do impeachment. Vários políticos do PSDB falam nisso abertamente, um renomado jurista veio a público defender a visão de que já há fundamento legal para isso, uma manifestação nacional foi convocada com a finalidade de criar pressão popular nessa direção. Enfim, uma ideia que até pouco tempo atrás era somente uma peça de ficção acaba de entrar nos cenários possíveis elaborados por empresas e órgãos que as representam. É bem verdade que se mistura-se muito desejo com um pouco de realidade.

Estudos acadêmicos bem formulados atestam que tanto o impeachment quanto a renúncia, outro caminho legal para que um presidente deixe de exercer o mandato antes de seu término regulamentar, ocorrem somente quando quatro condições estão presentes: adoção de política econômica que resulte na perda do poder de compra da população e consequente redução da aprovação presidencial, escândalos ou denúncias de corrupção que atinjam a figura do presidente, minoria parlamentar e povo nas ruas pedindo a saída do chefe de governo. Quem viveu ou estudou o período saberá que essas quatro condições estiveram presentes no caso de Fernando Collor. O mesmo vale para Raúl Alfonsín e Fernando de La Rúa quando presidiram a Argentina. E também para Siles Zuazo quando presidiu a Bolívia. Fora de nosso continente, mas em um país emergente, o mais famoso caso no qual essas quatro condições estiveram presentes foi o de Boris Yeltsin na Rússia pós-comunista.

Dito isso, vê-se que hoje são mínimas as chances de que Dilma sofra o impeachment. Mas o problema é outro: a possibilidade permanentemente colocada tende a enfraquecer o governo. É tudo que os deputados querem. Nada melhor para a Câmara e para o Senado do que um governo fraco. Quanto mais fraco ele for, mais se consegue dele.

É possível que a "mãe de todas as derrotas" não tenha sido a vitória de Cunha para a presidência da Câmara, mas o fato de o governo não ter entrado em campo em 2015 no que diz respeito às negociações entre Poder Executivo e Legislativo. Trata-se de um apagão político. A metáfora com o 7 a 1 do Brasil e Alemanha é perfeita. A diferença é que uma partida de futebol é imensamente mais curta que um mandato presidencial. Recuperar-se de um apagão político é muito mais factível do que de um apagão futebolístico.

O governo federal concentra, no Brasil, a maior parte dos recursos públicos, os cargos mais relevantes e as principais decisões. É formidável o poder em suas mãos. Mas isso não é tudo. É preciso saber utilizá-lo. É preciso que os aliados do governo sejam bem tratados. Sabemos que os seres humanos, todos, gostam de carinho. E os políticos também são humanos. Os recursos na alçada do governo federal precisam ser compartilhados com os aliados, assim como várias moedas de troca da política precisam ser utilizadas.

Dilma, ao escolher Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, acabou por se reinventar. A Dilma do segundo mandato é inteiramente diferente, na política econômica, da Dilma do primeiro mandato. A resistência à reinvenção da presidente vem somente de setores conservadores da esquerda. Conservadores em um sentido muito específico, aqueles grupos, líderes e pensadores da esquerda que são inteiramente incapazes de mudar. Conservadores não mudam.

Se Dilma foi capaz de se reinventar na economia, é possível que também consiga fazê-lo na política.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo, é diretor do Instituto Análise e autor de "A Cabeça do Brasileiro". alberto.almeida@institutoanalise.com www.twitter.com/albertocalmeida

O distritão - Maria Cristina Fernandes

           Valor Econômico - 20/02/2015

O Japão teve o mesmo sistema eleitoral por 69 anos. O país era dividido em distritos com uma média de cinco deputados. Elegiam-se os mais votados de cada distrito. Como as zonas rurais eram sobrerrepresentadas, seus deputados dominavam a Dieta, o Parlamento japonês. Os prefeitos, submetidos a um governo de forte centralização fiscal, recorriam a esses parlamentares para liberar recursos e obras. 

Muitos deputados tornaram-se donos de poderosas máquinas locais de intermediação de poder e voto. Um partido (LPD) surfou nas regras eleitorais e deu ao Japão a condição de única potência industrial do pós-guerra com 38 anos sem alternância de poder.

Seu mais famoso representante foi Kakuei Tanaka, um filho de agricultores que fez fortuna na construção civil associando-se à burocracia japonesa na compra de áreas que, posteriormente, seriam valorizadas por investimentos públicos. A ascensão de Tanaka ao cargo de primeiro-ministro e seu envolvimento na propinagem da fabricante americana de aviões Lockheed marcaram o fosso da degeneração da política japonesa.

A birra não parece ser com o sistema mas com o eleitor

Esta foi a experiência mais longeva do sistema eleitoral que o PMDB quer implantar no Brasil por nome de distritão. No Japão, sucumbiu em 1994. Uma reforma política não consertou todos os seus vícios que, lá e cá, extrapolam os limites da engenharia eleitoral.

A economia japonesa bombou nas décadas em que o clientelismo e a corrupção se entranharam em sua política. Foi sob a crise dos anos 1990 que o sistema eleitoral acabou reformado.

No Brasil, o vozerio de reforma política voltou com a soma de petrolão e pibinho. O avesso da coincidência acaba aqui.

A proposta que ganhou força com o poder redobrado do PMDB no Congresso muda uma das normas mais permanentes da política brasileira, uma Câmara dos Deputados eleita pelo voto proporcional em contraposição a um Executivo escolhido pela maioria.

Se a proposta do vice-presidente Michel Temer vingar, o Brasil vai acrescentar uma jabuticabeira em seu pomar. Publicação do Instituto para a Democracia e Assistência Eleitoral (www.idea.int/publications/esd/) mostra que dos 27 países que promoveram reformas eleitorais nos últimos 20 anos quase todos o fizeram no sentido de dar mais proporcionalidade a sistemas majoritários. A única exceção é Madagascar, que saiu de sistema proporcional para um misto.

O modelo brasileiro tem 70 anos. Foi criado às vésperas da Constituição de 1946 para se contrapor ao comando de ferro dos governantes da República Velha sobre seus distritos eleitorais.

A proposta do PMDB corre o risco de pegar porque é simples de explicar. Os partidos lançam seus candidatos e ganham os mais votados.

Acaba a regra em vigor que soma os votos de todos os candidatos, além daqueles dados à legenda, e divide-se por um quociente eleitoral para se chegar ao número de vagas a serem ocupadas pelo partido.

Pelo atual sistema entram os mais votados no partido. Pelo distritão, entram os mais votados no Estado.

A professora Argelina Figueiredo, do Iesp, estuda esses sistemas há quatro décadas. Não gosta de tudo que vê no modelo brasileiro, como o dinheiro que jorra das empresas nas eleições, mas custa a acreditar que a proposta do PMDB vá melhorá-lo.

A primeira pergunta que se faz é sobre quem vai formar a lista de candidatos. Em 2014, os 32 partidos lançaram 6.175 candidatos às 513 cadeiras da Câmara, uma média de 12 por vaga, mais do que os 11 que disputaram a Presidência.

Pelas normas em vigor, teriam direito esse número por quatro. Não o fizeram porque custa dinheiro recrutar, montar candidaturas e subsidiar campanhas. É um mercado no qual abocanham a maior fatia do bolo os partidos que montam as melhores estratégias.

Ainda não está claro como se daria essa escolha de candidatos no distritão. Como já não valeria mais a soma de votos obtida pelos candidatos, cresceria a competição dentro das legendas por uma vaga. Como a maioria dos partidos funciona sem eleição de seus dirigentes, é grande a chance de aumentar o caciquismo na arbitragem dessa disputa.

Argelina tem a convicção de que, se o eleitor hoje custa a reconhecer coesão programática nos partidos, não é no distritão que a encontrará. Cresceria o apelo para que os partidos lancem celebridades e candidatos cujas pautas encontram abrigo em programas de televisão de larga audiência e nas igrejas.

São Paulo elegeu uma bancada mais comprometida com a redução da maioridade penal depois de ter feito uma das maiores mobilizações de sua história, em 2013, em desagravo à violência policial. Os partidos falharam em canalizar essa indignação popular pelo atual sistema. O que aconteceria com o distritão? Daria voz ao desagravo ou à maioria conservadora que o assistiu pela televisão?

A atual legislatura dá algumas pistas. Apenas 35 parlamentares elegeram-se com seus próprios votos, dois terços dos quais ingressaram no mercado eleitoral como policiais, comunicadores, pastores e parentes de políticos.

Há maiores chances que os partidos consigam multiplicar candidaturas como a de Shéridan (primeira dama de Roraima, eleita pelo PSDB com a maior votação do seu Estado) e Feliciano (PSC-SP), do que as de Chico Alencar (PSOL-RJ) e Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), todos quatro pertencentes à seleta lista de puxadores de voto.

A votação de Tiririca, que puxou mais dois deputados para o PR explica muito do azedume com o atual sistema. É de se perguntar, no entanto, o que aconteceria se, em lugar de Tiririca, o candidato a puxar votos fosse o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa.

Como atrairia facilmente mais de um milhão de eleitores sem sair de casa, Barbosa poderia ter formado uma bancada de togados para ilustrar os debates parlamentares. Difícil imaginar que pudessem vir a ter uma votação própria superior àquela de Miguel Lombardi, o vereador de Limeira (SP) de 32 mil votos que Tiririca levou para a Câmara.

A birra não parece ser com o sistema que está aí, mas com o eleitor e suas escolhas. A Câmara poderia ser bem melhor, mas os brasileiros que não se reconhecem nela talvez também se sintam estrangeiros num vagão lotado do metrô. Nada sugere que o distritão vá acabar com esse mal-estar.