A voz do outro lado da linha, em timbre de
vigor e simpatia, tem o entusiasmo de aspirante. Nada demais não fosse
sua dona uma profissional com mais de 70 anos de carreira, com uma
centena de trabalhos no teatro, na TV e no cinema. Laura Cardoso, aos
87, é a operária da cena, a terapeuta de A última sessão, amanhã e
sexta, no Grande Teatro do Sesc Palladium.
É ela quem dá
suporte ao coletivo de veteranos, que conta ainda com Nívea Maria, Etty
Fraser, Sonia Guedes, Sylvio Zilber, Miriam Mehler, Gésio Amadeu,
Gabriela Rabelo, Yunes Chami e Marlene Collé. O espetáculo chega a Belo
Horizonte um ano depois de estrear em São Paulo.
O enredo é um
achado do ator, dramaturgo e diretor paranaense Odilon Wagner: um clube
de encontros para amigos com idades entre 75 e 85 anos. Sujeitos de
verdades e motivos velados, de desdobramentos imprevisíveis, na régua
das vivências. No almoço de domingo, humor e amargura na medida dos
significados e das revelações. Há ainda o amor às avessas no topo da
maturidade.
As conversas – a “psicoterapia”, como nomina Laura
Cardoso – são habitualmente de paz, até que um dos participantes,
angustiado com o rumo tomado na carreira e na vida, faz da comédia drama
em ponto de virada inspirado em A tempestade, de William Shakespeare. O
final, de acordo com a atriz, é uma surpresa.
“É um momento
lindo. A peça é muito bonita, com atores excelentes, muito antigos e
modernos. O ator é eterno. É um encontro de emoções numa sala de jogo.
Uma psicoterapia. O meu papel é ouvir todos… o ser humano. O ser humano é
muito eu reunido, é muito ele mesmo. É muita riqueza os desafios da
cena. Nesse trabalho, meu papel é encaminhar o outro para um final
feliz”, orgulha-se.
Laura exibe paixão pela empreitada. Diz-se
aprendiz sempre, uma “operária do ofício”. Conta que, nos palcos ou nos
sets de cinema, é sempre uma imersão diferente, de corpo e alma, a cada
trabalho. “Sou do signo de virgem… perfeccionista. Não quero competir.
Quero ganhar. E ganho sempre. Amigos, experiência e aprendizado”,
afirma.
LIÇÕES Laura suspira e dá ainda mais brilho à voz quando
é provocada a falar das lições do ofício de interpretar. “É uma
entrega. É sempre uma entrega visceral. Os meus personagens me dão muita
coisa. É uma entrega profunda do meu eu em retribuição às tantas
alegrias que as minhas criações me dão”, emociona-se. A atriz revela que
em cada processo, a cada papel, é um salto ao avesso nas recordações da
vida. “De amores, de perdas… de alegrias e de tristezas”. Força para
lidar com tamanha entrega? “Vem do amor ao trabalho, ao ofício, à
carreira. É uma energia que me fortalece nessa busca para toda a vida”,
pontua.
Revelada nas encenações dos circos nos anos 1940,
Laura se mostra vaidosa e agradecida pelo reconhecimento do público
desde o início da carreira. Ressalta o amor pela vida e pelo aprendizado
nos encontros da cena com os mais jovens. Também diz-se tomada de
vontade de fazer mais e melhor. Sempre. “Quando assumo um personagem,
passo horas pesquisando, estudando-o nos mínimos detalhes. Quero
entender seus sentimentos, seus motivos, saber tudo sobre ele. Acabo
encontrando sempre algo de maravilhoso e encantador em todos os meus
personagens”.
Alguma vilã, alguma criatura que tenha feito mal
à atriz criadora? “Não. Nunca. Aprendo muito com todos os meus papéis”,
ressalta. Exigente e cuidadosa com a carreira, Laura conta que, no
teatro, na TV ou no cinema, escolhe, cheia de critérios, as suas
empreitadas. “Naturalmente, amo o meu ofício. Tudo o que faço e quero é
estar sempre trabalhando, mas é preciso ter o que dizer. Tem que tocar o
meu coração”, justifica. Também tem conselho para os artistas mais
jovens: “Mais amor, mais respeito e mais honestidade com a carreira, com
o público, que merece toda a nossa dedicação”.
Sobre a passagem do
tempo, a atriz diz: “É uma pena que a gente vai envelhecendo. A minha
amiga Hebe Camargo vivia me dizendo: ‘Corra que o caminho é curto’.”
Atenta
ao que ocorre na teledramaturgia brasileira, Laura, que acaba de fazer
uma participação especial na recém-terminada novela Império (TV Globo),
observa que há “mais quantidade e menos qualidade”. “Não deveria haver
tanta preocupação com a audiência. Essa preocupação prejudica a
qualidade. Temos profissionais maravilhosos, que poderiam contar
histórias muito boas, mas acabam ficando reféns da audiência. A TV, o
teatro e o cinema têm a obrigação de oferecer trabalhos de qualidade ao
público. Se você oferecer coisas boas, o povo vai sempre querer coisas
boas. Vai estar preparado para isso. É o comercial a maior preocupação.
Não é a qualidade, infelizmente”, lamenta.
PRÊMIOS
Nos
cinemas, Laura Cardoso conta mais de 25 filmes. Com Através da Janela,
de 2000, ela ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema de
Miami. No teatro, a atriz faturou outros troféus importantes. Levou duas
vezes o prêmio Shell – o primeiro em 1990, com a peça Vem buscar-me que
ainda sou teu e, em 1993, com a montagem Vereda da salvação. Em 2006, a
atriz foi condecorada com a Ordem do Mérito Cultural, homenagem do
governo brasileiro pelo trabalho no teatro, televisão e cinema.
O
ator é eterno. É um encontro de emoções numa sala de jogo. Uma
psicoterapia. O meu papel é ouvir todos… o ser humano. O ser humano é
muito eu reunido, é muito ele mesmo. Nesse trabalho, meu papel é
encaminhar o outro para um final feliz”
Laura Cardoso, atriz
A última sessão
Texto e direção: Odilon Wagner. Com Laura Cardoso, Nívea Maria, Etty Fraser, Sonia Guedes, Sylvio Zilber,
Miriam
Mehler, Gésio Amadeu, Gabriela Rabelo, Yunes Chami e Marlene Collé.
Dias 19 e 20 de março (amanhã e sexta), às 20h30. Grande Teatro do SESC
Palladium (r. Rio de Janeiro, 1.046, Centro.) Classificação: 12 anos.
Duração: 90 minutos. Ingressos: de R$ 50 (inteira, plateia 3) a R$ 80
(inteira, plateia 1)