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terça-feira, 27 de agosto de 2013

João Pereira Coutinho

folha de são paulo
Um rei em Washington
Se os ensinamentos da Bíblia não servem para mudar os homens, então a Bíblia serve para muito pouco
Viajo para Washington. Encontro a cidade em festa. Não admira. Cinquenta anos atrás, em 28 de agosto de 1963, Martin Luther King passou pela capital e, na presença dos 250 mil manifestantes que fizeram a Marcha sobre Washington, proferiu um dos discursos mais famosos do século 20.
Digo "famoso", mas infelizmente pouco lido. Pena. Relendo o discurso de Luther King por estes dias, entendi melhor o talento e a eficácia do homem na luta pelos direitos civis dos negros. Nada revela tão claramente uma inteligência quanto as palavras que ela escolhe.
Para começar, o texto é uma peça notável de oratória cristã. O fato é por vezes ignorado: Luther King foi sobretudo influenciado por Thoreau e Gandhi, dizem os especialistas, e a sua estratégia de resistência não violenta é tributária dos dois.
Certo, certíssimo. Mas, antes de Thoreau e Gandhi, recordo aos especialistas que Luther King foi formado na adolescência pelo teólogo Benjamin Mays, que incutiu no pupilo uma ideia revolucionária e simples: se os ensinamentos da Bíblia não servem para mudar os homens, então a Bíblia serve para muito pouco.
Luther King aprendeu a lição: primeiro, ao tornar-se também teólogo e pastor batista no Alabama. E, depois, ao aplicar o arsenal teológico à causa dos direitos civis.
A cadência e o vigor retórico de Luther King são próprios de um pastor em frente ao seu rebanho.
E o uso de metáforas --o sonho de que um dia um povo longamente escravizado chegará a um oásis de liberdade e justiça-- também só é possível em alguém que leu o Antigo Testamento e transpôs para a causa dos direitos civis as provações épicas dos israelitas nos seus múltiplos e trágicos exílios.
Mas a grandeza de Luther King não acaba aqui. Se o reverendo Luther King fosse um "Muçulmano Negro", espumando de ódio contra o "homem branco", talvez o discurso de 1963 fosse uma peça maniqueísta em que a luta pelos direitos civis seria apenas uma luta de negros contra brancos.
Luther King nunca comprou essa primária versão dos fatos. Como o próprio repetidamente afirmava, a luta não era entre negros e brancos. Era entre a justiça e a injustiça, independentemente da cor das vítimas e dos opressores.
Não é por acaso que, no discurso de 1963, o "sonho" de Luther King era chegar ao dia em que brancos e negros se sentariam na mesma "mesa da humanidade". Essa mensagem de "integração" seria impensável nas diatribes separatistas e violentas de Malcolm X e da Nação do Islã.
O que não significa que o radicalismo dos "Muçulmanos Negros" não tenha ajudado a causa de Luther King. Eis a terceira marca da sua inteligência: apresentar a luta pelos direitos civis como a "via média" entre dois extremismos gêmeos. O extremismo dos separatistas brancos. E o extremismo dos separatistas negros.
Na sua "Letter from Birmingham Jail", escrita no presídio anos antes da Marcha sobre Washington, Martin Luther King já era explícito na condenação daqueles que "perderam a fé na América"; dos que "repudiaram o cristianismo"; e dos que apresentam o homem branco como "um demônio incorrigível".
Tradução: se a América desejava evitar uma guerra civil racial, garantir direitos civis aos negros era melhor do que jogá-los na insurreição armada.
Felizmente, a América escutou Martin Luther King, não Malcolm X. Em 1964, o Congresso aprovava o Civil Rights Act, infligindo o golpe de misericórdia na segregação laboral, escolar, social. Os direitos eleitorais plenos viriam logo a seguir, em 1965. E hoje?
Fato: como relembra o "Wall Street Journal", o rendimento das famílias negras ainda representa 66% do rendimento das famílias brancas. Mas é também importante lembrar que, há 50 anos, metade da população negra vivia na pobreza. A cifra, hoje, ronda os 28%.
E, claro, escusado será dizer que, em 2013, a cor da Casa Branca não é mais branca.
Martin Luther King esteve na cidade em 1963 para imaginar o dia em que os seres humanos não seriam julgados pela cor da pele, mas pelo seu caráter.
Às vezes, as verdades mais antigas são as mais revolucionárias. E Luther King era esse admirável paradoxo: um conservador revolucionário. São os únicos revolucionários que eu respeito.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

João Pereira Coutinho

folha de são paulo
Os pássaros na meia-idade
Quem disse que o mal tinha sempre uma justificação racional, ou teológica, ou científica?
Um dos grandes mistérios de Portugal é saber por que motivo as gaivotas lusas não se assustam com os humanos. Várias vezes caminhei por entre a bicharada, que continua tranquilamente as suas rotinas.
Séculos e séculos de convívio apertado com uma pátria de marinheiros acabaram por domesticar as aves. Em Portugal, um filme de Alfred Hitchcock sobre gaivotas assassinas seria tão improvável como um filme sobre gaivotas assustadas. Elas não querem saber de nós para nada.
O mesmo não acontece com os pássaros de Hitchcock, que fazem agora 50 anos. Será preciso resumir a história do filme?
Talvez, para o auditório juvenil. Uma jovem "socialite" de São Francisco (a divina Tippi Hedren, em estreia cinéfila) conhece e apaixona-se por Mitch (Rod Taylor) numa loja de animais. Acaba por segui-lo até Bodega Bay (delicioso nome). As aves começam a atacar pouco depois. Mas por que atacam as aves, afinal? Passaram 50 anos e ninguém conseguiu explicar ainda. Existem tentativas.
Anos atrás, cientistas da Universidade de Lousiana afirmaram que os pássaros atacavam por influência de uma toxina que os enlouquecia. O próprio Hitchcock, confrontando-se com o fenômeno na década de 60, teria encontrado aí a inspiração para as suas aves assassinas. O conto de Daphne du Maurier, que serviu de base para o roteiro, não passou de um pretexto.
É uma boa tentativa de explicação. Que, como é evidente, retira o elemento mais importante do filme: o seu sinistro mistério.
As aves atacam porque atacam. É a explicação mais simplória --e inquietante. Quem disse que o mal tinha sempre uma justificação racional, ou teológica, ou científica?
Verdade que a nossa civilização não lida bem com essa possibilidade. Basta olhar para a história da cultura ocidental. O mal nasce da ignorância, diziam os clássicos gregos e seus herdeiros iluministas no século 18. O mal nasce da nossa irremediável perdição depois da Queda, dirão os doutores da igreja. O mal nasce da pobreza e da miséria, dirá o pessoal marxista de Porto Alegre.
Ou então o mal nasce de um desequilíbrio orgânico ou químico que a ciência moderna acabará por resolver. Tudo é possível, exceto admitir que o mal está entre nós sem nenhuma explicação, nenhuma justificação. Nenhuma cura ou redenção.
O primeiro som que escutamos em "Os Pássaros" é, precisamente, o som dos pássaros: na rua, quando a moça caminha; na loja, quando encontra o rapaz; e em todas as cenas do filme --o chilrear constante e vulgar, que faz parte da nossa paisagem cotidiana.
Eis a assustadora premissa de Hitchcock: e se um dia aquilo que é banal se converte em uma sombra de destruição e morte? Pior ainda: e se essa sombra emerge com a mesma ferocidade misteriosa com que se dissipa?
Mas existe uma segunda tentativa de explicação. Sabemos que as pragas bíblicas não aconteciam por acaso. Eram uma forma tangível de Deus castigar a licenciosidade dos homens.
Um moralista misógino como Hitchcock, para quem as mulheres eram essa fonte permanente de fascínio e temor, não seria insensível à hipótese: as aves atacam, primeiro que tudo, o atrevimento de Tippi Hedren na caçada do seu homem.
Não por acaso, ela é a primeira vítima de uma gaivota quando pretende seduzir Mitch.
E a punição continua: quando ela decide ficar mais uns dias no vilarejo e, finalmente, quando ela se confronta no quarto com as aves enlouquecidas. Ao desfalecer perante os golpes animalescos, é o nome de Mitch que ela pronuncia --um gemido orgástico de prazer que é Hitchcock "vintage".
Mensagem: Tippi Hedren é o agente corruptor que traz a desgraça para a comunidade. Sem surpresa, as aves só concedem uma trégua quando ela abandona a comunidade --assombroso plano final, em que o carro se afasta e as aves permanecem, guardiãs majestáticas.
No panteão dos filmes de Hitchcock, é provável que "Os Pássaros" não esteja na "pole position".
Um erro. Pela décima ou centésima vez, assisti ao filme para brindar aos seus 50 anos. E garanto que não encontrei uma única ruga nesta gloriosa meia-idade. O mesmo brilhantismo formal. E, claro, a mesma perversidade moral e metafísica.
Tudo coisas que as gaivotas de Lisboa não conhecem. Olho para elas através do vidro, passeando calmamente entre os humanos. Sim, talvez sejam imunes a toxinas. Ou, então, são umas deliciosas devassas.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

João Pereira Coutinho

folha de são paulo
Jornalismo amazônico
A única coisa que o jornalismo 'tradicional' tem a temer não é o fim do papel; é o fim dos leitores
Jeff Bezos, o fundador da Amazon, comprou o "Washington Post". E agora? Que futuro para o jornal? E que futuro para o jornalismo?
Calma, povo. Ponto prévio: a minha gratidão para com o sr. Bezos não tem limites. Nada mudou tanto a minha vida como a possibilidade de aceder a produtos que, em tempos mais jurássicos, eu era obrigado a carregar como um contrabandista sempre que viajava para o exterior.
Sem falar da pura extorsão que os produtos importados significavam para quem queria ler, escutar ou assistir ao que de melhor se escrevia, compunha ou filmava pelo mundo fora.
Além disso, confesso também que nunca comprei o tom catastrofista de quem vê na internet a maior ameaça para o jornalismo "tradicional".
É preciso fazer uma distinção entre o jornalismo "tradicional" e o jornalismo "impresso". Não são a mesma coisa. O primeiro indica uma forma de jornalismo onde critérios de verdade e relevância continuam a fazer sentido. A segunda, apenas uma forma de o apresentar.
Sim, a internet pode ser uma ameaça para o jornalismo "impresso". E, tal como Marshall McLuhan afirmou várias décadas atrás, é possível que um livro, uma revista ou até um jornal possam ser objetos artísticos, de luxo, próprios de colecionador, no futuro próximo.
Daqui a 20 anos, admito que esta Folha tenha menos exemplares nas bancas e mais leitores na internet. Mas também admito que os exemplares disponíveis nas bancas terão uma produção assaz refinada. Chegaremos ao cúmulo da sofisticação: comprar um jornal para ler e guardar na estante.
Nada disso significa o fim do jornalismo "tradicional". Enquanto existirem leitores do outro lado interessados em consumir informação, haverá notícias, entrevistas, crônicas ou reportagens prontas para serem servidas em vários tipos de telas.
Moral da história? A única coisa que o jornalismo "tradicional" tem a temer não é o fim do papel; é o fim dos leitores. E aqui entram os meus receios: saber até que ponto uma má adaptação do jornalismo "tradicional" para a internet não poderá alienar os próprios leitores.
Em excelente matéria para a "Veja", Rafael Sbarai levanta várias hipóteses sobre o futuro do jornalismo depois da compra de Jeff Bezos. Uma delas é Bezos aplicar ao jornal (e ao jornalismo) o mesmo critério comercial que pratica na Amazon.
Explico melhor. Sempre que entro na loja virtual, existem sugestões para mim. Sugestões de livros, discos, filmes. Alguém sabe do que eu gosto e esse alguém, como diria Flaubert sobre a sua Bovary, "c'est moi".
Parece que todas as compras ficam registradas e todos os registros criam um "perfil". Se eu gosto de cinema asiático, por exemplo, a Amazon registra a preferência. Depois, quando há novidades a Oriente, eu sou avisado a Ocidente.
Durante uns tempos, confesso, a precisão do negócio maravilhava-me. Todos os meses, todas as semanas, todos os dias havia mercadoria cultural para me tentar --e arruinar.
Mas havia também o lado negro do negócio: a minha preguiça crescente. Eu deixava de procurar porque a Amazon procurava por mim.
Em pouco tempo, eu deixei de ser um consumidor da Amazon. Passei a ser dependente dela. Dependente do mesmo tipo de livros, discos ou filmes --em repetição entediante. O que implicou ignorar outros livros, discos ou filmes que não apareceram mais no radar.
Eis a maior ameaça para o futuro do jornalismo: chegar a um ponto em que as notícias que interessam são apenas as notícias que me interessam. E em que todas as outras deixam de aparecer nesse radar.
Haverá quem pense que isso é um progresso intelectual: nós, fechados no nosso pequeno mundo, lendo apenas o que corresponde às nossas preferências e ignorando o que existe fora da nossa ilha de gostos e idiossincrasias. Sem espaço para surpresas, incertezas, até baixezas.
Pessoalmente, só posso esperar que esse cenário nunca seja real. E que os jornais, no papel ou na tela, continuem a ser esse espaço de descobertas várias por onde os leitores investem a sua curiosidade. Livremente. E sem amarras.
Um jornal amazônico que seja apenas o reflexo das preferências do leitor deixa de ser um jornal. E, a prazo, até o leitor deixa de ser um leitor.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

João Pereira Coutinho

folha de são paulo
O herege viajante
O turismo de massas é o inferno na Terra e a água canalizada, uma das grandes conquistas do homem
Tempos atrás, as Nações Unidas deixaram uma sugestão para acabar com a fome no mundo: comer insetos. Segundo a ONU, gafanhotos, formigas ou besouros são altamente nutritivos, combatem a obesidade e têm a vantagem de existir em quantidades apreciáveis.
Aliás, com o tempero certo, esses pitéus são indistinguíveis dos vulgares camarões, das sofisticadas ostras ou dos repugnantes caracóis que os meus compatriotas gostam de comer nos meses de verão pelas esplanadas de Portugal.
Não sei o que pensou o leitor dessa sugestão gastronômica e assaz ecológica da ONU. Provavelmente, escutou com respeito e, em nome do Ambiente (com maiúscula), não fez comentários.
Eu, confesso, também não fiz nenhum. Preferi correr para o vaso sanitário e despejar os três últimos jantares só com a ideia de transformar as baratas da cozinha em guisado. Estarei sozinho no meu vergonhoso eurocentrismo?
Pelos vistos, não estou. Os comediantes Ricky Gervais e Stephen Merchant, criadores do brilhantíssimo "The Office", produziram uma série para a Sky que só agora assisti.
E assisti por conselho de uma amiga que, depois de provar primeiro, disse que o prato tinha a minha cara. O nome do produto é "An Idiot Abroad" (um idiota no estrangeiro) e ainda hoje não sei se o comentário dela era um elogio ou um insulto.
Tomo como um elogio. Até porque não me lembro de ter rido tanto e tão alto nos últimos tempos com uma premissa tão simples: Ricky Gervais e Stephen Merchant enviam um amigo para viajar pelo mundo com uma reduzida equipe de filmagens.
O amigo chama-se Karl Pilkington e é o típico "Little Englander" para quem a civilização só existe no nosso bairro e o resto do planeta é a mais pura barbárie. O lado brilhante do documentário é que Pilkington não é um ator; viajar para ele é mesmo uma forma de tortura; e as opiniões sobre o mundo que ele visita são genuínas e hilariantes.
Essa autenticidade começa logo no primeiro episódio, quando o destino é a China e a gastronomia local é apresentada ao viajante Pilkington.
O viajante confronta-se com o cardápio --uma longa lista de seres rastejantes-- e depois filosofa: "O problema da China é não haver uma separação rigorosa entre comida e bichos". Continua: "Na Inglaterra, quando se descobre uma coisa dessas na cozinha, as autoridades sanitárias fecham o restaurante; na China, servem de aperitivo". E conclui: "Se uma chinesa acorda e vê uma aranha no banheiro, não é de excluir que ela pense para si própria: O croissant fica para amanhã, vou comer já isso'".
"An Idiot Abroad" é esse estranho paradoxo: um documentário sobre viagens apresentado por alguém que detesta viajar e para quem o exotismo do Outro é uma fonte constante de suplícios.
Não interessa se o cenário é milenar ou, para usar a palavra cafona da indústria do turismo, "paradisíaco". Viajando pela muralha da China, pelas pirâmides do Egito ou até pelo Rio de Janeiro em pleno Carnaval, Pilkington tem um talento único para encontrar o aberrante e o assustador. Para dissertar sobre o assunto com graça natural. E para suspirar constantemente pelo regresso a casa.
Escusado será dizer que o programa teve um sucesso imediato e que Pilkington virou uma das maiores estrelas televisivas no Reino Unido. Já existem livros sobre o assunto. A série já teve três temporadas. E ainda ninguém conseguiu explicar ao certo como é que alguém sem "superego" consegue conquistar não só o gosto do público, mas também da crítica.
Arrisco uma hipótese: porque a crítica tem "superego" a mais. E, afogada pelas cartilhas que gostam de impor um único código de pensamentos e comportamentos sobre o Outro, talvez ela sinta uma secreta admiração por alguém que destrói todos os códigos.
Porque, contas feitas, é indiferente saber se concordamos ou discordamos do viajante, embora eu concorde que o turismo de massas é o inferno na Terra e a água canalizada, uma das grandes conquistas do homem.
O que interessa é ver Karl Pilkington em ação (e em sofrimento) para recordarmos apenas como era a liberdade e mesmo a idiotia antes da fogueira das inquisições laicas.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Os falsários - João Pereira Coutinho

folha de são paulo

Ouvir o texto
Memórias falsas. Eis a nova descoberta científica publicada em revista da especialidade. Segundo a "Science", pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology conseguiram implantar memórias falsas no cérebro de ratinhos. Já tinham cometido uma outra proeza no passado: apagar certas memórias. Agora, o desafio foi implantá-las. Conseguiram.
Ainda estamos longe do Santo Graal: apagar más memórias e, se possível, conferir a cada ser humano um passado glorioso. Mas o futuro, tal como o passado, promete. Ou não promete?
Robert Nozick (1938-2002), um dos grandes filósofos do nosso tempo, achava que não. No seu magistral "Anarchy, State, and Utopia", Nozick pedia-nos para imaginar a seguinte situação: existe uma máquina do prazer a que os seres humanos se podem ligar. E, por esse simples processo, ter prazer a vida inteira. Quem daria o primeiro passo?
Poucos. Existe algo de incômodo na ideia de uma felicidade eterna, porém falsa. E esse incômodo tem nome: verdade. Ou, para usar uma palavra cara aos românticos, "autenticidade".
Nós não queremos apenas que as nossas vidas sejam felizes. Queremos que essas vidas sejam autênticas e que a nossa felicidade seja o resultado de experiências, méritos ou virtudes reais.
Se tudo fosse resumido a critérios de prazer e desprazer, ninguém hesitaria em ligar-se à máquina de Nozick. E, no entanto, a maioria hesita.
Não conheço crítica mais devastadora ao utilitarismo nos tempos modernos. Seguindo o cálculo hedônico, o que interessa é proporcionar a maior felicidade ao maior número?
Não necessariamente, afirmava Nozick. Se a felicidade humana não é humana, ela perde qualquer valor para nós.
E o que é válido para a felicidade é válido para a infelicidade. Até porque a segunda é condição para haver a primeira.
Ironicamente, uma máquina de prazer permanente deixaria até de proporcionar prazer. Porque deixaria de haver contraste com as restantes iniquidades da existência: habitaríamos apenas um estado de normalidade entediante em que nada seria importante porque nada seria valorizado em si mesmo.
Sabemos o que é a felicidade porque sabemos o que é a infelicidade. E também porque aprendemos algo com as nossas infelicidades.
"Aprender" é o verbo: implantar memórias falsas já seria uma aberração ética. Mas apagar as más é mais que isso: é uma aberração epistemológica.
Sofremos como cães pelos erros que cometemos. Escolhas profissionais lamentáveis; amores cultivados e frustrados; atitudes egoístas, covardes, impensadas --quem atira a primeira pedra?
Mas sofremos e, com sorte, aprendemos. E existe algo de libertador (e de redentor) quando seguimos em frente e somos capazes de reconhecer os mesmos dilemas, as mesmas tentações, os mesmos traços de caráter --em nós e nos outros. E, claro, as mesmas consequências prováveis de certos atos e omissões.
É então que o passado, e sobretudo o insuportável passado, se torna nosso tutor privado: ao segredar-nos o que devemos evitar e abraçar com conhecimento de causa.
Todos precisamos de más memórias para evitar cometer os mesmos erros. Apagar essas memórias seria uma forma de nos condenarmos a sofrimentos perpétuos. E a apagamentos perpétuos. E a sofrimentos perpétuos. E a apagamentos perpétuos.
Talvez eu esteja sendo injusto. Talvez o objetivo das recentes descobertas seja outro: aliviar o sofrimento de soldados em situações de combate, por exemplo, apagando experiências traumáticas e colocando tardes de verão onde antes havia destruição e morte.
Sem falar de vítimas de crimes ou acidentes para quem um "reset" mental seria uma benesse. Sobre esses casos extremos, manda a prudência que nada diga.
Mas será preciso lembrar como as sociedades contemporâneas foram medicalizando os mais básicos sentimentos humanos --o medo, a ansiedade, a angústia-- procurando uma resposta química e imediata para eles?
Se hoje declaramos guerra às tristezas presentes, por que não declarar outra contra as tristezas passadas?
Quase todos recusamos a máquina de prazer de Nozick. Mas às vezes pergunto se o fazemos mesmo por questões de princípio --ou pela razão mais prosaica de que essa máquina não existe ainda.
João Pereira Coutinho
João Pereira Coutinho, escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do "Correio da Manhã", o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). Escreve às terças na versão impressa de "Ilustrada" e a cada duas semanas, às segundas, no site.

terça-feira, 23 de julho de 2013

João Pereira Coutinho

folha de são paulo

Terrorismo chique


Assisti a "The Newsroom", série da HBO sobre uma TV americana de notícias. Gostei. Estranhei.
A série tinha tudo para rebentar com a minha úlcera conservadora: o endeusamento de Obama; os ataques indiscriminados ao Tea Party (uma salada variada onde há tudo e o seu contrário); e aquele tom moralista que os "liberais" (no sentido americano da palavra) gostam de exibir com vaidade.
Mas depois, episódio atrás de episódio, fui mergulhando na vaidade de Aaron Sorkin, o criador e roteirista da série. A estética sempre foi o calcanhar de Aquiles da minha ética.
Sorkin escreve bem. Os seus diálogos, disparados à queima-roupa, são exemplos perfeitos de "timing" e humor, como nas melhores penas do cinema clássico de Hollywood.
A juntar ao texto, há atores que estão à altura dele: Jeff Daniels, que já não via desde "A Lula e a Baleia" (grande papel, espantoso filme de Noah Baumbach), é o âncora Will McAvoy --e nunca a palavra "âncora" foi usada com tanta ironia, sobretudo para descrever alguém que está literalmente à deriva. E à deriva por quê?
Pergunta absurda: quando um homem está sem rumo, "cherchez la femme". E a "femme" é MacKenzie McHale (divina Emily Mortimer), a ex-namorada e a atual produtora do bicho, que o atraiçoou no passado e que tenciona agora resgatá-lo no presente para um jornalismo digno desse nome.
Posso discordar, ideologicamente falando, da "agenda" de Aaron Sorkin. Mas reconheço essa "agenda" porque Sorkin é um dinossauro. Ou um apaixonado por dinossauros: ele presta homenagem ao melhor do jornalismo progressista americano.
O jornalismo que, nas emissões de Edward Murrow, destroçou o anticomunismo persecutório do senador McCarthy na década de 1950. O jornalismo que, nas matérias de Bob Woodward e Carl Bernstein, levou à queda de Richard Nixon na década de 1970. Um jornalismo que procurava ainda alguma verdade --e um certo sentido de decência.
Infelizmente, alguém devia comunicar a Aaron Sorkin que os dinossauros estão extintos. Basta olhar para a última capa da revista "Rolling Stone": vemos uma figura masculina, jovem, cabelo comprido, pose de estrela do rock. Quem será esse Jim Morrison?
Resposta: não é Jim Morrison. O nome é Dzhokhar Tsarnaev. Ou, para os íntimos, um dos carniceiros de Boston que matou e estropiou centenas de inocentes na maratona da cidade em abril passado.
A intenção da revista era fazer um perfil do criminoso. Na prática, a revista concedeu-lhe um tratamento visual icônico que é um insulto para as vítimas --e, sobretudo, um insulto para o jornalismo.
Aliás, não seria de espantar que Dzhokhar Tsarnaev, depois de ser capa da "Rolling Stone", se convertesse no novo Che Guevara das camisetas dos adolescentes retardados. E por que não? Psicopata por psicopata, pelo menos Dzhokhar Tsarnaev matou bem menos que o argentino.
Suspiros. E algumas memórias. A última vez que me confrontei com uma aberração visual e ética desse tipo foi em Israel, ao visitar o museu do terrorismo. Ali encontrei, em poster ou figurinhas, incontáveis bombistas suicidas em poses idênticas.
Parece que é uma indústria em Gaza e na Cisjordânia: antes do crime, o candidato a mártir tem direito a sessão fotográfica completa para imortalizar o nome e a imagem. Depois, quando a explosão acontece, as ruas e as escolas palestinas são inundadas pelo merchandising do herói.
Não vou discutir quem tem razão no conflito israelense-palestino. Ambos têm. Ninguém tem. Que interessa? Essa não é a questão.
A questão é que glorificar visualmente o terrorismo pertence a um outro planeta. Que, erradamente, eu julgava apenas encontrar no Oriente Médio.
Comecei por escrever contra o tom "moralista" dos progressistas americanos. Mas, pensando bem, não é o moralismo dos velhos progressistas que me incomoda. É a ausência de qualquer moralismo nos novos. É o relativismo imbecil de quem confunde um terrorista com uma estrela musical; e um atentado terrorista com um concerto de rock.
Talvez eu também seja um dinossauro. Mas, antes da extinção, confesso que prefiro o idealismo antiquado de Aaron Sorkin ao niilismo moderninho do pessoal da "Rolling Stone".
João Pereira Coutinho
João Pereira Coutinho, escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do "Correio da Manhã", o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). Escreve às terças na versão impressa de "Ilustrada" e a cada duas semanas, às segundas, no site.

terça-feira, 16 de julho de 2013

João Pereira Coutinho

folha de são paulo
No divã de Lucian Freud
Freud reinventou a arte figurativa porque procurou fixar na tela os estados de espírito do mundo
O MASP tem exposição de Lucian Freud até 13 de outubro. Inveja dos paulistanos. E boas memórias.
Devo ter almoçado com Lucian Freud, neto de Sigmund, meia dúzia de vezes na vida. Almoçar no mesmo espaço, entenda-se, não na mesma mesa. Acontecia no Wolseley, um restaurante londrino em Piccadilly, que piorou drasticamente nos últimos tempos. Mas divago.
Freud almoçava quase sempre sozinho --figura pequena, escanzelada, a lembrar Samuel Beckett nas fotos de Cartier-Bresson-- e, sempre que o via, pensava: vou puxar conversa. Como estudante de história da arte, achava que tinha um bom álibi. Nunca tive coragem e Freud morreu em 2011.
Um dos maiores pintores do nosso tempo? Assino embaixo. E, se não posso ir a São Paulo ver a exposição, pelo menos leio sobre o bicho.
A melhor introdução à obra de Freud foi escrita por Martin Gayford em livro singular: "Man with a Blue Scarf: On Sitting for a Portrait by Lucian Freud".
Gayford, crítico de arte, foi modelo durante um ano e meio para dois retratos do mestre. Escreveu um diário a respeito, embora fosse mais correto dizer "um retrato a respeito". Enquanto Freud o pintava (com tintas), Gayford pintava Freud (com palavras).
Encontramos de tudo. As paixões de Freud em arte e literatura (anote: Ingres, Ticiano, Henry James, Thomas Hardy). Os ódios sulfúricos (Leonardo, Rafael e, sobretudo, Dante Gabriel Rossetti, "o mais próximo que a pintura chegou do mau hálito").
E, sobre política, a velha máxima anarquista: "Nunca devemos votar em ninguém que não conhecemos pessoalmente". Touché.
Depois, os hábitos de trabalho: intransigência na pontualidade dos modelos; esforço físico descomunal (aos 80, Freud pintava de pé, durante horas e horas); composição lenta; resultados dúbios. Era frequente Freud abandonar um retrato depois de meses de trabalho. Martin Gayford pergunta, repetidas vezes, nas páginas do diário: será que isso vai acontecer comigo?
Não aconteceu: no final da odisseia, o retrato lá está. E, quando o modelo se confronta com ele, há uma estranheza inicial que se dissolve no reconhecimento essencial. Aquele não sou eu. Aquele só posso ser eu.
Eis o fundamental da arte de Freud. Críticos preguiçosos dirão que Freud, tal como o seu amigo Francis Bacon, prolonga a lição de Van Gogh: a realidade não existe; o que existe é a carga dramática, e pessoalíssima, com que eu represento a realidade.
Errado. Isso pode ser válido para Bacon. Não é válido para Freud. "Imaginação é ver as coisas como elas realmente são", dizia ele. Tradução: Freud só reinventou a arte figurativa não porque plasmou no mundo os seus estados de espírito, mas porque procurou fixar na tela os estados de espírito do mundo.
Por isso era recorrente a sensação paradoxal de estranheza e reconhecimento quando os modelos viam o produto final. Martin Gayford explica o mistério: porque nós nunca sabemos como somos realmente.
Isso pode soar estranho, sobretudo quando vivemos saturados na orgia fotográfica e narcísica de nós próprios. O problema é que, em filmes, fotos ou ao espelho, nós estamos continuamente a fingir, a representar, a recriar.
E quando não estamos, o filme, a foto ou o reflexo apenas nos devolvem uma ínfima parcela do que somos: a imagem naquele momento, com aquele ânimo, naquela fase do nosso envelhecimento.
Tal não acontece nos retratos de Freud. Durante horas, durante meses, o modelo deita-se no divã do pintor. E este vai perscrutando todas as expressões, todos os momentos de serenidade, inquietude, alegria, cansaço, tristeza. É a totalidade do que somos que interessa nos retratos de Freud, não a nossa fugaz impermanência.
Não admira que o momento mais angustiante do processo aconteça na finalização do quadro. Gayford, uma vez mais, explica: em literatura, um final mediano pode não ser mortal; o leitor já conviveu, página após página, com as flutuações inevitáveis da "loucura da arte" de que falava Henry James.
Mas, no quadro, não há página após página. A forma como o pintor finaliza a obra representa a única página que leremos.
E, no retrato de Martin Gayford, é uma página feita de ironia, melancolia --e com um toque de loucura. "Faz sentido", escreve o próprio sobre o próprio.

    terça-feira, 9 de julho de 2013

    João Perreira Coutinho

    folha de são paulo
    Dois males
    Qualquer orgasmo democrático com o Egito atual corre o risco de ser apenas ejaculação precoce
    Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como dizia um conhecido conterrâneo meu. Ainda me lembro, com duas lágrimas nostálgicas, dos protestos contra Mubarak no Egito. Quem não se lembra?
    O ditador, depois de três décadas de mando, era acossado nas ruas por milhares, milhões de manifestantes. E não houve jornalista ocidental com credenciais progressistas em dia que não tenha escrito os seus poemas em homenagem à praça Tahrir.
    Eis a cabeça do progressista típico: Mubarak = Mau; Protestos = Bons; Irmandade Muçulmana = Melhor que Mubarak.
    Aqui, uma pessoa alfabetizada sentia uma leve tontura intelectual. Mubarak não era flor que se cheirasse --um ditador é um ditador é um ditador.
    Mas os progressistas conheciam mesmo a Irmandade Muçulmana, esse brilhante grupo fundado por Hassan al Banna em finais da década de 1920 que representa tudo aquilo que a inteligência progressista abomina?
    Dito de outra forma: os jornalistas que toleravam a irmandade conheciam as posições do clube sobre as relações entre o Estado e a religião, os direitos das mulheres, dos gays, das minorias religiosas, e etc. etc.?
    Conheciam os atentados terroristas promovidos pelos seus líderes ou cometidos em seu nome (o palestino Hamas é apenas o melhor exemplo)?
    E estariam dispostos a trocar um Egito autocrático por um Egito submetido aos preceitos da sharia (lei islâmica) sem pensar duas vezes?
    Perguntas sem sentido. Retorno ao pensamento circular do progressista circular: se Mubarak era mau e os protestos eram bons, a irmandade só poderia ser melhor que Mubarak.
    Pena que os egípcios não sejam tão generosos com Mohammed Mursi, agora deposto. Conta a revista "Economist" que 94% da população considera os militares a instituição mais respeitável do país.
    A mesma revista informa que o número de manifestantes que tomou novamente as ruas do Egito contra o faraó deposto oscila entre os 10 milhões e os 14 milhões (o país terá 81 milhões). Motivos para tanto ruído e fúria?
    Todos e mais alguns. A incompetência do governo Mursi. A corrupção. A venalidade. A insegurança. A fome. A falta de energia. A violência contra minorias religiosas e étnicas. Os crimes contra mulheres --não, não temos espaço nesta Folha. E que dizem os progressistas de ontem sobre as manifestações de hoje?
    Estranhamente, não vi os poetas da praça Tahrir com novos sonetos sobre os descontentamentos dos egípcios.
    Aliás, a julgar pelos textos publicados, parece que o golpe militar contra Mursi aconteceu por capricho --e não pela ruína política, econômica e social a que ele conduziu o país.
    Sem falar da ruína moral: uma das suas nomeações políticas mais notáveis foi indicar Adel al-Khayat para governador da turística cidade de Luxor. Quem é al-Khayat? Digamos apenas que é alguém que entende de turismo. Ou, mais especificamente, de como rebentar com turistas. Em 1997, na mesma cidade de Luxor, foram 58 estrangeiros e 4 nativos em atentado de grupo islamita a que al-Khayat pertence.
    Moral da história?
    Sim, o presidente Mursi foi eleito democraticamente --uma importante diferença em relação ao seu antecessor.
    Mas será que a legitimidade democrática absolve qualquer governante das suas derivas antidemocráticas? Sobretudo quando entre essas derivas está o golpe constitucional de novembro de 2012, através do qual Mursi pretendia governar autocraticamente como Mubarak antes dele?
    Ponto de ordem: não se trata aqui de defender o golpe militar. Trata-se, pelo contrário, de defender o direito a não se defender ninguém: nem Mursi, nem os militares, nem sequer Mubarak.
    Porque sem instituições democráticas fortes --tradução: separação de poderes; judiciário independente; liberdade de expressão; respeito pela iniciativa privada; e etc. etc.-- qualquer orgasmo democrático com o Egito atual corre o risco de ser apenas ejaculação precoce.
    Ao contrário do que pensam as cabeças infantis, a política não é uma luta permanente entre o bem e o mal. Às vezes, é uma luta entre dois males igualmente perversos.
    E, nestas matérias, recordo sempre a sagaz observação de Kissinger sobre a guerra Irã x Iraque: "É uma pena que não possam perder os dois."

    terça-feira, 2 de julho de 2013

    João Pereira Coutinho

    folha de são paulo
    Amestrando proletários
    O conhecimento verdadeiro não tem cor, sexo ou classe. E, quando tem, então não é conhecimento verdadeiro
    O problema do pensamento politicamente correto é que ele nada tem de correto. Pior: na ânsia de impedir qualquer ofensa a grupos ou minorias, ele converte-se na mais grotesca ofensa que existe para esses grupos ou minorias.
    A revista alemã "Der Spiegel" relata um caso que merece partilha: parece que a Universidade Livre de Berlim decidiu publicar um guia interno para que os alunos de famílias proletárias possam ser mais facilmente integrados na vida acadêmica. E que nos diz o guia?
    Coisas sensatas. Primeiro, informa os estudantes da instituição que os coleguinhas proletários não se sentem naturalmente confortáveis em ambientes não proletários.
    Mas o guia vai mais longe e exorta os alunos de classe média a gerar o ambiente ideal para que os coleguinhas proletários se sintam em casa. Como? Por exemplo, aconselhando a classe média a não criticar ou ridicularizar nenhuma afirmação dos coleguinhas proletários.
    Para os autores do guia, os alunos proletários são como certas espécies zoológicas que é necessário proteger em "habitat" adequado. E isso implica não os assustar e, logicamente, não os alimentar com doses arcaicas de conhecimento "burguês" e "reacionário".
    Como é evidente, o pensamento politicamente correto das patrulhas parte de duas ideias profundamente ofensivas.
    A primeira ideia é a defesa explícita de que alunos de famílias proletárias estranham e definham em ambientes eruditos. Sim, seria possível fazer uma lista de intelectuais gerados pelo proletariado --de Jack London a D.H. Lawrence-- que marcaram a história da cultura ocidental.
    As patrulhas politicamente corretas não conhecem essa lista. Preferem a caricatura do filho do operário fabril que só consegue ser feliz e "autêntico" no meio da fuligem. Livros, para ele, dão soneira. Ou coceira, tanto faz.
    Mas é a segunda recomendação que impressiona pela sua evidente discriminação. Para as patrulhas, sempre que um aluno proletário abre a boca, é preciso ser condescendente para escutar as alarvidades que ele diz.
    A universidade não é uma universidade, com a missão de corrigir erros e procurar algum conhecimento válido para todos. A universidade é uma grande encenação --ou, melhor ainda, uma sessão coletiva de terapia onde ninguém está certo (ou errado) porque todos estão certos (ou errados).
    O que o pensamento politicamente correto produz não é difícil de imaginar: a perpetuação do estigma de alunos proletários e a impossibilidade de eles aprenderem alguma coisa (na universidade) para ascenderem social e economicamente (na vida profissional).
    Quando se sai da universidade exatamente como se entrou, é preciso perguntar que mecanismo de atraso explica o resultado. Ironia: o atraso é promovido por aqueles que imaginam lutar contra ele.
    Depois de críticas severas da imprensa alemã, o guia da Universidade Livre de Berlim foi retirado para "reformulação". Mas ele deveria ensinar duas lições preciosas aos fanáticos do pensamento politicamente correto.
    Para começar, ele ensina como é tirânico falar em nome de grupos inteiros. Porque não existem grupos inteiros. O proletariado não existe. Os negros não existem. Os gays, as mulheres, os anões não existem.
    O que existe são indivíduos diversos, com histórias ou interesses diversos. Haverá proletários que não gostam de livros. Haverá proletários que não vivem sem eles.
    E haverá burgueses, genuínos burgueses, para quem ler, escrever e pensar são formas medievais de tortura. Conheço vários.
    A caricatura do "proletário" como um jumento apedeuta diz mais sobre as patrulhas politicamente corretas do que sobre o proletariado que elas julgam defender.
    Por último, respeitar as pessoas não significa tratá-las como crianças. Ou como velhos dementes a quem sorrimos e aplaudimos sempre que eles tentam vestir as cuecas pela cabeça.
    O conhecimento verdadeiro não tem cor, sexo ou classe. E, quando tem, então não é conhecimento verdadeiro.
    Um guia decente para uma universidade decente só precisava de duas mensagens: "bem-vindo" e "mostra o que vales". Nada mais.

    terça-feira, 25 de junho de 2013

    João Pereira Coutinho

    folha de são paulo
    Dez impressões sobre o Brasil
    É fácil aceitar a desigualdade, a corrupção e a insegurança quando não existem termos de comparação
    1. Raramente escrevo sobre o Brasil no Brasil. Questão de cortesia. Sou convidado do país e um convidado não critica os anfitriões. Exceto quando os anfitriões deixam de ser assunto doméstico e viram fenômeno internacional.
    2. Ironia. Quinze dias atrás gravei um podcast para esta Folha no qual dizia: as grandes rebeliões da história começam quase sempre por episódios anedóticos. A minha atenção estava na Turquia e na ambição de Erdogan em arrasar com um parque em Istambul para construir um shopping. Deu no que deu.
    Quando debitava estas sábias linhas, nem reparei que São Paulo marchava contra aumentos nos transportes. Deu no que deu.
    3. Historicamente, o melhor exemplo de um episódio anedótico que precipitou uma revolução encontra-se nos Estados Unidos. No século 18, os colonos americanos não desejavam "criar" um país. Queriam, mais modestamente, não pagar impostos à metrópole britânica, uma vez que não estavam representados no Parlamento de Londres ("no taxation without representation"). Foi a intransigência do rei inglês que mudou a história moderna.
    4. Dilma parece ter alguma intuição histórica (ou será apenas bom senso?) ao não ter subido a parada da repressão. Sobretudo quando se confrontou com as consequências desastrosas das primeiras investidas policiais. Um gesto inteligente que distingue o Brasil do autoritarismo turco.
    5. Dilma discursa ao país. Promete escutar todo mundo, investir mais em educação, importar médicos etc. Mas o que pensam os brasileiros quando a presidente nada diz sobre o "pibinho pequenininho", a inflação que não desce, a queda do investimento (sobretudo estrangeiro), a perda de competitividade"¦ [continua].
    6. Portugal construiu dez estádios "padrão Fifa" para a Eurocopa de 2004. Sete anos depois o país estava falido. A Grécia cometeu iguais loucuras para as Olimpíadas do mesmo ano. Teve a honra de falir primeiro. Lição? Grandes acontecimentos desportivos nem sempre dão o retorno esperado.
    7. Comparações entre o Brasil e a Europa não funcionam? Duvido. Começo pela economia: o desastre português não se deveu apenas aos dez fatídicos estádios, que na sua maioria hoje apodrecem ao sol.
    Começou com a pior combinação econômica possível: juros baixos (com o euro), endividamento explosivo (Estado, empresas, famílias) e, golpe de misericórdia, crescimento econômico medíocre (uma década perdida abaixo de 1%). Soa familiar?
    8. Na crise europeia, existe um bloqueio político evidente: as populações não confiam nos governos, mas também não confiam nas oposições. Assim é na Grécia, em Portugal "" e, claro, na Itália, que quase elegeu um comediante (Beppe Grillo, não Berlusconi). E no Brasil?
    Suspeito que exista o mesmo bloqueio. O PT, tradicionalmente a voz de protesto do sistema, é hoje governo. Donde, quem é a voz de protesto? Quem não acredita no governo, normalmente acredita na alternativa ao governo. Donde, onde está a alternativa?
    9. Escrevo um diário desde os 16 anos. Procurei páginas passadas das minhas viagens pelo Brasil. Reli-as. Pergunta recorrente: como é possível às elites conviverem tranquilamente com a pobreza em volta?
    Para certos espíritos, essa pergunta não é própria da "direita". Erro crasso. Não há nada que um conservador mais tema do que situações potencialmente revolucionárias. E a melhor forma de as evitar é seguir o velho conselho de Edmund Burke: para que o nosso país seja amado é também preciso que ele seja amável.
    10. Revoluções. Regresso aos Estados Unidos. A guerra da independência não gerou apenas um país. Uma das consequências da guerra foi a ruína financeira da França, que apoiou os colonos. Essa ruína seria uma das causas da Revolução de 1789.
    Mas existe outro legado revolucionário que os estudiosos tendem a esquecer: os intelectuais e os soldados gauleses que participaram na guerra viram no exemplo americano a medida da sua frustração caseira. Por isso, pergunto: quantos daqueles milhares de brasileiros que tomaram pacificamente as ruas não estudaram, trabalharam ou simplesmente se informaram sobre o mundo exterior?
    É fácil aceitar a desigualdade, a corrupção e a insegurança quando não existem termos de comparação. Uma classe média mais fluente e afluente começa a fazer comparações. Brindo a isso.

      terça-feira, 18 de junho de 2013

      João Pereira Coutinho

      folha de são paulo
      Estudos pornográficos
      Se escolas e editoras querem dar à pornografia estatuto intelectual, não passo de um lamentável dinossauro
      A atriz Sylvia Kristel morreu em outubro passado. Senti a notícia como uma perda pessoal. E nostálgica.
      Lembro-me bem: teria uns 12 ou 13 anos quando a conheci. Moça simpática. Foi na casa de um colega de turma que, por razões nunca suficientemente explicadas, conseguira cópias em VHS dos filmes "Emmanuelle".
      Todas as sextas à tarde havia uma peregrinação à casa do cavalheiro. E ele, qual um Grande Gatsby pré-adolescente, recebia os convidados no portão e depois cobrava ingressos à pequenada. Com o dinheiro do lanche, era possível assistir ao filme e, por gentileza do anfitrião, beber ainda um copo (de limonada). No final, os cinéfilos abandonavam a sala e caminhavam rápido na mais profunda clandestinidade. Rumo a casa.
      Assim foi durante semanas: enquanto os pais imaginavam as crianças em estudos demorados, as crianças dedicavam-se a outro tipo de aulas. Até o dia em que um delator resolveu contar o esquema à diretora da escola depois de ter sido barrado na entrada daquele clube privado. Os pais foram avisados. Houve castigos para todos os gostos e feitios --e eu, com as orelhas a arder, despedi-me de Sylvia Kristel com um beijo imaginário.
      Claro que, olhando para trás, os filminhos de "Emmanuelle" eram quase exemplos líricos de castidade. Sobretudo quando comparados com a pornografia que abunda na internet e que tem provocado discussão séria na Grã-Bretanha.
      Não será hora de ter uma profissional da indústria a ministrar aulas de educação sexual nas escolas? Aulas teóricas, entenda-se, não práticas. A sugestão foi feita por Mark Slater, 59, responsável por um colégio de elite em Cambridge.
      Diz o prof. Slater ao "Sunday Telegraph" que as crianças estão cada vez mais expostas a cenas violentas e, pormenor fundamental, irreais. Uma professora de educação sexual com conhecimento de causa poderia explicar a natureza fantasiosa das cenas, preparando os jovens para vidas de maior respeito mútuo --e, acrescento eu, sem lesões físicas desnecessárias.
      O prof. Slater não está sozinho nessa batalha. A editora Routledge, que em tempos mais bárbaros editava Karl Popper ou Friedrich Hayek, prepara-se também para lançar a primeira revista científica sobre estudos pornográficos. "Porn Studies", eis o título. Objetivo?
      Estudar o fenômeno da pornografia "sob todos os ângulos", uma ambição que já rendeu polêmica entre a comunidade científica, e não necessariamente pelas razões mais literais. Conta o jornal "Observer" que vários estudiosos da matéria criticam a revista por adotar um tom neutro sobre o assunto.
      Pornografia é coisa séria. Ela é responsável pela degradação das mulheres, pelo comportamento violento dos homens e, atendendo ao funcionamento hormonal da espécie, talvez pelo aquecimento global.
      Aliás, por falar em aquecimento global, os críticos da revista comparam o conselho científico da dita aos "negacionistas climáticos" que não concordam com o sr. Al Gore sobre o destino dos glaciares. A polêmica promete continuar.
      Não tenciono contribuir para ela. Se as melhores escolas e editoras entendem que é sua função conceder à pornografia estatuto intelectual respeitável, eu não passo de um lamentável dinossauro. Que, logicamente, nasceu no tempo errado.
      No distante século 20, eu e os meus amigos éramos uns incorrigíveis devassos. Hoje, no século 21, teria sido possível evitar todos os castigos. E sustentar, com cara séria e erudita, que aquelas tardes passadas com a sra. Sylvia Kristel eram visitas de campo --ou, melhor ainda, deveres de casa.
      Imagino mesmo os nossos pais, cobertos de orgulho, comentando uns com os outros o amor dos filhos pelo estudo e os dias inteiros passados no quarto.
      P.S.: Leitores, eu amo vocês. Depois do artigo "O colunista apodrece", da semana passada, recebi centenas de e-mails com votos de melhoras e alguns conselhos sábios para não apodrecer precocemente. Prometo seguir alguns, embora confesse que a opção vegetariana ainda não está no meu cardápio. A situação não é tão desesperada. De resto, uma palavra em especial para os médicos que partiram de vários sintomas --pedra no rim, queda de dente, dores musculares etc.-- para chegarem a diagnósticos vários, alguns deles contraditórios. Na qualidade de hipocondríaco, o meu muito obrigado.

      sábado, 15 de junho de 2013

      Critica Romance - João Pereira Coutinho

      folha de são paulo
      CRÍTICA ROMANCE
      "O Zero e o Infinito" compõe retrato agudo do totalitarismo
      Livro de Arthur Koestler narra conflito de personagem com o governo autoritário
      JOÃO PEREIRA COUTINHOCOLUNISTA DA FOLHAO escritor russo Alexander Soljenítsin (1918-2008) escreveu um dia que os piores vilões de Shakespeare já não metiam medo aos homens do século 20. Motivo?
      A consciência, claro. Nas peças do bardo, eles podem conspirar, atraiçoar, matar. Mas a consciência acaba sempre por ajustar contas com eles no final.
      Exatamente como ajustou contas com Raskólnikov, o personagem central de "Crime e Castigo", de Dostoiévski, que não aguenta dois cadáveres a boiar na consciência e se entrega às autoridades do czar. Raskólnikov é talvez o último vilão clássico a sentir ainda "o céu sobre ele e a lei moral dentro dele".
      Depois de Raskólnikov, a ideologia substituiu a consciência. E quem tem uma ideologia pode conspirar, atraiçoar e matar à vontade. Nada é pessoal. É tudo em nome do partido, ou da história, ou da raça.
      O século 20 é a prova dessa miséria moral: de como os homens deixaram de sentir "as compungidas visitas da natureza" que tanto assustavam Lady Macbeth enquanto matavam milhões em nome de um ideal.
      Mas o que acontece a um desses ideólogos quando, confrontado com as ruínas tangíveis da sua ideologia, ele volta a sentir o peso da própria consciência?
      Eis a perdição de Nicolas Rubashov, o prisioneiro de "O Zero e o Infinito". Sim, ele começou por acreditar na revolução e foi um dos mais importantes dirigentes bolcheviques. Até o dia em que deixou de usar a primeira pessoa do plural --"nós, o partido"; "nós, o Estado"; "nós, o povo"-- e começou a escutar a primeira pessoa do singular: o solitário e insubornável "eu".
      O primeiro grande crime de Rubashov é, literalmente, um crime gramatical. Mas é mais do que isso: é um crime religioso. Rubashov deixou de ter "fé" na sua "religião secular". E, como diria o filósofo, para quem provou o fruto da árvore do conhecimento, o paraíso está perdido.
      PURGAS SOVIÉTICAS
      "O Zero e o Infinito" é a obra-prima do húngaro Arthur Koestler (1905-1983). Críticos vários afirmam que o livro, ao denunciar as purgas soviéticas na década de 1930, serviu para que Koestler se despedisse do comunismo da sua juventude, desiludido com as aberrações de Stálin.
      Talvez. Mas isso não é uma fraqueza. Pelo contrário, é a principal virtude do livro: publicado em 1940, quando muitos "idiotas úteis" ainda desculpavam o indesculpável, Koestler analisava os dois lados do comunismo com conhecimento de causa. O lado dos que deixaram de acreditar, como Rubashov. E o lado dos que ainda acreditavam (como o inquisidor Ivanov e, sobretudo, o sinistro Gletkin).
      Comecei com Raskólnikov, o vilão de Dostoiévski. Termino com ele. Porque Raskólnikov é citado como exemplo por um dos inquisidores de "O Zero e o Infinito".
      Para mostrar ao herético Rubashov como a consciência só atrapalha. "A consciência se alimenta do cérebro como um câncer", afirma gelidamente Ivanov, "até que toda a matéria cinzenta seja devorada". Não conheço melhor retrato sobre a mentalidade totalitária.

        terça-feira, 11 de junho de 2013

        João Pereira Coutinho

        folha de são paulo
        O colunista apodrece
        Nos últimos meses, sucessão de minicatástrofes mostra que a idade física está a aproximar-se da mental
        Pedra no rim não é para qualquer um. Eu sei porque dei à luz uma. "Dar à luz": nunca uma expressão foi tão apropriada. Passei dois dias no hospital em maio e, de regresso à casa, não houve familiar ou amigo que não tivesse disparado o clichê: "Isso só é comparável à dor de parto".
        Errado, irmãos. Com uma boa epidural, eu poderia dar à luz uma pedra do rim todas as semanas. A minha admiração sincera só está com as antigas mulheres que despachavam o serviço sem anestesia. Como foi possível, meu Deus? Como foi possível que incontáveis mulheres se tenham submetido a uma dor lancinante só para que a nossa espécie crescesse e se multiplicasse?
        De bom grado entregaria a minha pedra, hoje em frasco de vidro, para que sobre ela se edificasse um monumento às parideiras desconhecidas. Se dar à luz dependesse dos homens, a história da civilização não teria passado do Paleolítico.
        Estou curado. Do rim. Não estou curado do resto. Acabo de fazer 37 anos e, nos últimos meses, uma sucessão de minicatástrofes mostra que a idade física está a aproximar-se da mental. Biologicamente, são 37; mas é preciso inverter a ordem dos números para ter um retrato do artista quando "jovem".
        Tudo começou com um almoço de domingo e um dente que não deveria estar no prato. De quem era aquele dente, perguntei, pronto para fazer piada com a cozinheira desdentada.
        Os restantes comensais olharam para mim horrorizados e uma das crianças, chorando de medo, apontou para um buraco na minha boca.
        Mas não são apenas os dentes que quebram e me abandonam. O cabelo também está a fazer as malas. Se fosse um dramaturgo, já teria escrito uma peça a respeito. Imagino a cena: o cabelo, deitado na cama e ligado a uma máquina, murmurando para mim. "Por favor, João, eu sei que sou importante na tua vida. Mas tens que me deixar ir."
        E eu, agarrando na mão do meu amigo, implorando para que ele fique mais um pouco. "Só até os 40, rapaz, só até os 40!"
        Não há 40 para ninguém. Pelo menos, sem alterar hábitos de vida. Entreguei os testes médicos ao especialista. Ele olhou para os testes. Depois para mim. Depois para os testes. Depois para mim. "Tem a certeza de que esses testes são seus?", perguntou o desgraçado.
        Sentença: anos de excessos, anos de inatividade ""e a fatura chegou. É preciso comer melhor e, sobretudo, fazer exercício físico diário.
        Obedeci. A partir de agora, usarei duas gotas de uísque Laphroaig apenas como perfume. E, sobre o exercício, perguntei na academia se existia um desporto leve, só para início de conversa. "Hidroginástica", disse-me a moça, com um inconfundível esgar de piedade.
        Experimentei. Gostei. Tenho uma piscina enorme e mais de 30 mulheres só para mim. Todas elas poderiam ser minhas avós, mas isso nunca foi um problema para quem sempre apreciou mulheres maduras.
        O ambiente é descontraído e graças a elas já conheço as melhores lojas ortopédicas de Lisboa, que me salvaram recentemente depois de mais um lamentável acidente doméstico.
        Aconteceu minutos depois de despertar, quando me entreguei a tarefas radicais que não tenciono repetir tão cedo ""no caso, subir a persiana do quarto. Um estalido nas costas transformou-me de imediato em estátua e foram precisas doses equinas de analgésicos, anti-inflamatórios e relaxantes musculares para que voltasse a caminhar sem colete cervical.
        Sou um homem novo, disposto a cuidar melhor da minha carcaça. E, hipocondríaco confesso, tentei saber tudo sobre a história da família para fazer exames preventivos. Foi assim que a palavra "colonoscopia" passou a fazer parte do meu dicionário.
        Avancei para ela sem medo, embora gostasse de lavrar aqui o meu protesto: por que motivo as batas hospitalares para doentes continuam a tapar tudo na frente e a deixar generosas frestas na retaguarda?
        Não que isso seja motivo para embaraços, claro, exceto se formos reconhecidos por alguns pacientes que também esperam a sua vez em traje igual. "Gosto muito de o ler", disse-me um. "É mais magro ao vivo que na TV", disse-me outra.
        Agradeci, encostando-me ainda mais à parede. E quando finalmente chamaram pelo meu nome, fiz uma vênia de maestro e depois fui recuando, recuando, recuando, até desaparecer pela porta do bloco.
        Nunca devemos virar as costas aos nossos fãs.

        terça-feira, 4 de junho de 2013

        João Pereira Coutinho

        folha de são paulo
        O aborto ortográfico
        Existem portugueses que escrevem de acordo com um acordo imaginário, que só existe na cabeça deles
        O acordo ortográfico é conhecido em Portugal como o aborto ortográfico. Difícil discordar dos meus compatriotas. Basta olhar em volta. Imprensa. Televisões. Documentos oficiais. Correspondência privada.
        Antes do acordo, havia um razoável consenso sobre a forma de escrever português. Depois do acordo, surgiram três "escolas" de pensamento.
        Existem aqueles que respeitam o novo acordo. Existem aqueles que não respeitam o novo acordo e permanecem fiéis à antiga ortografia.
        E depois existem aqueles que estão de acordo com o acordo e em desacordo com o acordo, escrevendo a mesma palavra de duas formas distintas, consoante o estado de espírito --e às vezes na mesma página.
        Disse três "escolas"? Peço desculpa. Pensando melhor, existem quatro. Nos últimos tempos, tenho notado que também existem portugueses que escrevem de acordo com um acordo imaginário, que obviamente só existe na cabeça deles.
        Felizmente, não estou sozinho nestas observações: Pedro Correia acaba de publicar em Portugal "Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico" (Guerra & Paz, 159 págs). Atenção, editores brasileiros: o livro é imperdível.
        E é imperdível porque Pedro Correia narra, com estilo intocável e humor que baste, como foi possível parir semelhante aberração.
        Sem surpresas, a aberração surgiu na cabeça de duas dezenas de iluminados que, em 1990, se reuniram na Academia de Ciências de Lisboa para "determinar" (atenção ao autoritarismo do verbo) como os 250 milhões de falantes da língua deveriam escrever. Qual foi a necessidade teórica ou prática do conluio?
        Mistério. Em todos os países de língua portuguesa, com a exceção do Brasil, respeitava-se o acordo de 1945. E nem mesmo as diferenças na ortografia brasileira incomodavam os portugueses (ou vice-versa).
        Nunca ninguém deixou de ler Saramago no Brasil por causa do "desacordo" ortográfico. Nunca ninguém deixou de ler Nelson Rodrigues em Portugal pelo mesmo motivo.
        Acontece que as cabeças autoritárias sempre desprezaram a riqueza da diversidade. Em 1986, no Rio de Janeiro, conta Pedro Correia que já tinha havido uma tentativa ainda mais lunática para "unificar" a língua, ou seja, para unificar 99,5% das palavras (juro). Como?
        Por uma transcrição fonética radical que gerou termos como "panelenico" (para "pan-helênico") ou "bemumurado" (para "bem-humorado"). Será preciso comentar?
        O novo acordo é menos radical desde logo porque admite "facultatividades" que respeitem a "pronúncia culta" de cada país. Deixemos de lado a questão de saber se a escrita pode ser mera transcrição fonética (não pode) ou se a etimologia deve ser ignorada nas "simplificações" acordistas (não deve).
        Uma deficiente interpretação do que significam essas "facultatividades", conta o autor, levou o governo português, no seu Orçamento do Estado para 2012 (o documento central da política lusa), a escrever a mesma palavra de formas diferentes: "ópticas" e "óticas"; "efectiva" e "efetiva"; "protecção" e "proteção"; e etc. etc.
        Mas mais hilariantes são os casos em que a aproximação portuguesa ao Brasil gerou palavras que nem no Brasil se usam. No novo acordo, "recepção" perdeu o "p"; no Brasil, o "p" continua. O mesmo para "acepção", "perspectiva" e por aí fora.
        Perante este aborto ortográfico, que fazer?
        Curiosamente, Angola e o Brasil já fizeram muito: a primeira, recusando-se a ratificá-lo; o segundo, adiando a sua aplicação.
        Só os portugueses continuam a marrar contra a parede "" e, pior, a marrar contra uma ilegalidade: o tratado original do Acordo Ortográfico de 1990 garantia que o mesmo só entraria em vigor quando todos os intervenientes o ratificassem na sua ordem jurídica. Essa intenção foi reafirmada em protocolo modificativo de 1998.
        Mas eis que, em 2004, há um segundo protocolo modificativo segundo o qual bastaria a ratificação de três países para que o acordo entrasse em vigor.
        Não é preciso ser um gênio da jurisprudência para detectar aqui um abuso grosseiro: como permitir que o segundo protocolo tenha força de lei se ele nem sequer foi ratificado por todos os países?
        O resultado é o caos. Como escreve Pedro Correia, um caos "tecnicamente insustentável, juridicamente inválido, politicamente inepto e materialmente impraticável".
        Para usar uma palavra bem portuguesa, "touché"!

        terça-feira, 28 de maio de 2013

        João Pereira Coutinho

        folha de são paulo
        Quem são os muçulmanos?
        Não existe uma relação imediata entre o Islã e o terrorismo, exceto na cabeça dos terroristas
        Dois criminosos mataram barbaramente um soldado inglês em Londres. Em nome do Islã, disseram eles. Em nome dos irmãos muçulmanos que sofrem.
        A sociedade inglesa ficou em choque. A extrema-direita prometeu vingança em várias cidades do país. Na imprensa, a pergunta habitual: que relação existe entre o Islã e o terrorismo?
        Não vou fugir à pergunta. Mas, olhando e escutando os dois criminosos, é preciso saber primeiro que relações existem entre o distúrbio mental e atos desta natureza.
        Um psiquiatra talvez seja mais útil do que um politólogo. Depois, e só depois, podemos discutir as relações entre uma religião e crimes praticados em seu nome. E a melhor forma de o fazer passa por escutar os próprios muçulmanos. O que pensam eles sobre os temas que normalmente são notícia?
        Felizmente, ainda há quem trabalhe neste mundo: o Pew Research Center, durante quatro anos, realizou a maior enquete mundial a respeito. Entrevistou presencialmente 38 mil muçulmanos, em 39 países e em mais de 80 línguas e dialetos.
        O estudo, recentemente publicado, intitula-se "The World's Muslims: Religion, Politics and Society". Qualquer interessado na matéria é obrigado a olhar para ele.
        Eu olhei: durante dois dias, encontrei surpresas (muitas) e confirmações (algumas).
        Sim, a relação entre a crença em Deus e a existência de uma vida moral, que no Ocidente foi praticamente enterrada com o iluminismo, permanece forte no Islã. Do sudeste asiático (94%) ao Oriente Médio e ao norte de África (91%), os muçulmanos entendem que uma vida moral está intimamente ligada a uma vida religiosa.
        De igual forma, a esmagadora maioria acredita que a sharia (a lei islâmica que regula todos os aspectos do cotidiano) é a palavra revelada de Deus.
        Só que as coisas começam a complicar-se quando olhamos para os detalhes. Deve haver uma única interpretação da sharia ou várias? No Oriente Médio, apenas metade defende interpretações uniformes.
        No mesmo espírito, a maioria dos muçulmanos defende que a sharia deve ser a lei fundamental dos respectivos países.
        Mas, surpreendentemente, metade defende que ela só deve ser aplicada aos próprios muçulmanos, não às restantes religiões.
        E que aspectos da sharia são importantes para levar em consideração? A maioria é favorável à aplicação da lei islâmica em assuntos familiares e disputas patrimoniais.
        São poucos os que defendem castigos corporais, embora existam exceções relevantes: 88% no Paquistão, 81% no Afeganistão e 70% no Egito não se importam com chicotadas ou amputação de membros.
        E sobre o apedrejamento de mulheres adúlteras, metade diz que sim. Sobretudo nos países atrás referidos (os mesmos que também apoiam maciçamente a pena de morte para crimes de apostasia, ou seja, de renúncia da fé islâmica).
        É inegável que a violência é intrínseca ao quadro legal de muitos países muçulmanos. Mas quando as perguntas lidam com o extremismo terrorista, a maioria rejeita-o enfaticamente. Só nos territórios palestinos (40% a favor) os números remam contra a maré.
        Aliás, não deixa de ser inquietante olhar para os números dos territórios palestinos: sem surpresas, a maioria concorda que a sharia é a palavra revelada de Deus (75%), que deve ser a base legal de um futuro país (89%) e que deve estar sujeita a uma única interpretação (51%).
        Mas os números ficam sobretudo pesados quando falamos de castigos corporais (76% a favor), apedrejamento de mulheres adúlteras (84%, idem) e morte por apostasia (66%, ibidem).
        Aborto, sexo fora do casamento e homossexualidade são aberrações (como, aliás, para a esmagadora maioria dos muçulmanos de outras regiões). E 87% dos palestinos, seguindo a tendência mundial, defendem que as mulheres devem sempre obedecer aos seus maridos.
        Conclusões? Não, não existe uma relação imediata entre o Islã e o terrorismo, exceto na cabeça dos terroristas (fato a que somos alheios).
        Mas, por outro lado, este magistral estudo mostra como as vagas de modernidade que permitiram as liberdades do Ocidente --da reforma religiosa ao iluminismo secular-- ainda não chegaram ao Islã.
        E, sem elas, será difícil resgatar essas sociedades do autoritarismo, da pobreza, da intolerância --e, em certos casos, dos extremistas que matam em nome da fé.

          terça-feira, 21 de maio de 2013

          João Pereira Coutinho

          folha de são paulo

          Felizes, mortos e enterrados
          Hoje, ninguém deseja ser feliz se a sorte o permitir; as pessoas acreditam que têm o direito de ser felizes
          Todos sabemos que o filósofo Sócrates foi condenado à morte. Poucos sabem exatamente por quê. Sim, nos bancos da escola aprendemos qualquer coisa sobre "o desrespeito pelos deuses da Cidade" e "a corrupção da juventude ateniense". Mas o que significam ao certo essas acusações? Onde estava o "desrespeito"? E onde estava a "corrupção"?
          Fiz uma enquete privada entre colegas de ofício. Gente das ciências humanas, alguns de filosofia. Ninguém deu respostas satisfatórias. No máximo, havia apenas o clichê conhecido de um Sócrates que ensinava os outros a pensar pela própria cabeça e de como isso é uma ameaça para os poderes estabelecidos, e blá-blá-blá.
          Bocejos. Sócrates não foi condenado por isso. O principal crime do filósofo foi ter subvertido para sempre a ideia de felicidade que vigorava na antiga Grécia. Há um livro de Darrin McMahon que explica o "crime" de forma inultrapassável: até Sócrates, escreve o autor em "The Pursuit of Happiness" (a busca da felicidade, em tradução livre), a ideia de felicidade estava intimamente ligada à noção de sorte.
          Para os nossos antepassados pré-socráticos, a felicidade dos homens dependia sempre dos caprichos dos deuses. Por isso, os grandes dramaturgos do mundo helênico afirmavam que a única pessoa que se poderia considerar feliz era a pessoa morta. Porque sobre ela os deuses já não podiam fazer mais nada.
          Sócrates destroçou essa concepção para afirmar, vários séculos antes do seu herdeiro Voltaire, que o paraíso é onde estamos. Eu sou senhor do meu destino, e a felicidade não é uma dádiva dos deuses. É uma construção minha, da minha razão soberana --um "direito", como escreveram depois os pais fundadores da República americana; e, sobretudo, um "dever", como escutamos nas novelas.
          Hoje, ninguém deseja ser feliz se a sorte o permitir. As pessoas acreditam que têm o direito de ser felizes --e, mais ainda, o dever. E a sorte que se lixe.
          Não vale a pena elaborar sobre a infelicidade que a "tirania da felicidade" provoca entre os contemporâneos. Pascal Bruckner já escreveu um ensaio primoroso a respeito, que recomendo ("L'Euphorie Perpétuelle", a euforia perpétua).
          Mas vale a pena olhar para o caso Angelina Jolie. Falo do caso porque Jolie entendeu torná-lo público: de forma a eliminar as altíssimas hipóteses de ter câncer de mama, a atriz cortou os males literalmente pela raiz. Agora, segundo leio, pode seguir-se o ovário. Aplausos?
          Nem aplausos, nem o seu contrário: a escolha é pessoal, e eu, confrontado com dilema semelhante, provavelmente faria o mesmo. Mas o mais interessante é acompanhar as discussões éticas que o caso provocou.
          Se a medicina oferece tratamentos radicais para doenças graves e prováveis, justificam-se esses tratamentos?
          Responder à questão implica saber primeiro que tipo de probabilidades são essas. E, já agora, que tipo de doenças. Uma hipótese de câncer próxima dos 90% não é o mesmo que uma hipótese mais modesta, facilmente quantificada em testes de DNA, para milhares de outras doenças.
          O problema é que a nossa tradição racionalista (e socrática-platônica) também não se vai contentar com valores mais modestos. No fundo, e para regressar a Sócrates, não se vai contentar que os caprichos da sorte continuem a pairar sobre o nosso direito à felicidade --e à longevidade.
          Se o paraíso é onde eu estou, também é "direito" e "dever" excluir todas as hipóteses (das mais prováveis às mais remotas) que ameaçam essa felicidade e longevidade.
          Hoje, os seios. Amanhã, o ovário. Mas por que não eliminar também outros apêndices que, por definição, são vulneráveis à doença, a qualquer doença, em qualquer altura?
          De órgão em órgão, de doença possível em doença possível, de inquietação crescente em inquietação crescente, a lista é generosa porque o corpo, imperfeito e perecível, não é. Até o dia em que nada mais resta para cortar.
          Talvez nesse dia os herdeiros de Sócrates descubram com espanto que, afinal, os pré-socráticos tinham alguma razão. E que a única forma de estarmos completamente a salvo do infortúnio é se ficarmos bem mortos e enterrados.