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sábado, 16 de março de 2013

Homem incomum [Philip Roth]

folha de são paulo

Aos 80 anos, completados na próxima terça, escritor americano Philip Roth se revela em documentário e exposição de fotos
FRANCISCO QUINTEIRO PIRESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA,
DE NOVA YORK
O escritor americano Philip Roth diz ter "duas grandes calamidades para enfrentar", enquanto lida com as exigências da velhice. Uma é a sua morte. A outra, a sua biografia. "Vamos esperar que a primeira chegue primeiro."
A afirmação jocosa é feita na abertura de "Philip Roth: Unmasked", documentário dirigido por Livia Manera e William Karel.
Em conjunto com uma exposição de fotografias do ficcionista e uma conferência da The Philip Roth Society -centro de estudos sobre o autor-, o filme marca o seu aniversário de 80 anos, a ser comemorado na próxima terça.
Embora tenha cultivado por décadas um comportamento reservado, Roth decidiu expor detalhes da sua vida pessoal. Ele explica que é melhor fazê-lo agora, pois ainda pode exercer certo controle sobre a sua história.
Pelo mesmo motivo, Roth começou a colaborar com Blake Bailey, designado no ano passado para ser o autor da sua biografia autorizada.
"Nos últimos anos Roth tem se mostrado mais confortável com o fato de ser uma celebridade literária", diz Aimee Pozorski, presidente da The Philip Roth Society. "Ele se cerca de amigos confiáveis e isso o acalma quando está sob escrutínio do público."
A fama de Roth teve início em 1969, quando publicou "O Complexo de Portnoy". Além de acusado de antissemita, ele foi associado ao protagonista Alexander Portnoy, causador de escândalo por falar abertamente de sexo.
À época, era comum o escritor sair à rua e ser chamado de Portnoy. A partir dali Roth seria confundido com os seus personagens -como o protagonista do romance "Homem Comum", um dos retratos cortantes sobre a velhice criados pelo autor.
Criador de uma ficção de conteúdo autobiográfico, ele é hoje considerado o maior escritor americano vivo.
"Philip Roth: Unmasked" resulta de quase 15 horas de entrevistas feitas por Manera entre 2010 e 2012.
Além de amigos de infância do autor, dão depoimentos no documentário a atriz Mia Farrow, os escritores Jonathan Franzen, Nicole Krauss e Nathan Englander.
O filme será exibido pelo canal americano PBS no dia 29 deste mês e será lançado em DVD a partir de abril.
Roth revela ter cinco pessoas de confiança para quem envia os manuscritos dos seus livros. "Elas dizem as suas impressões num gravador e depois, sozinho, eu as transcrevo", explica o escritor.
Ele avalia essas opiniões e faz as revisões de pé, debruçado sobre uma mesa alta. "Estar de pé", ele conta, "libera a imaginação".

Eventos exploram ligação de Roth com suas origens
Tour percorre lugares de cidade natal do escritor importantes em sua ficção
Livros do americano tratam Newark, localizada no Estado de Nova Jersey, como um personagem
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA,
DE NOVA YORK
Philip Roth se incomoda quando o definem como um escritor judeu. "Eu não escrevo em judaico. Eu escrevo em americano. A maior parte do meu trabalho se passa na América. Eu sou americano", diz no documentário "Philip Roth: Unmasked".
"Essa declaração", explica a diretora Livia Manera, "indica a recusa a ser limitado ao papel de escritor étnico".
Embora seja dono de um apartamento em Manhattan, Roth não tem "uma ligação sólida com Nova York". O núcleo criativo da sua ficção é Newark, cidade de Nova Jersey onde nasceu e cresceu.
Ele foi o caçula de uma família judia que entendia Manhattan, a 18 km de distância, como "um lugar tão afastado quanto a Europa".
"Philip Roth: An Exhibit of Photos from a Lifetime", organizada pela Biblioteca Pública de Newark, e "Roth@80", conferência do centro de estudos The Philip Roth Society que ocorre num hotel da cidade na segunda, exploram as origens do autor.
O escritor brasileiro Felipe Franco Munhoz é um dos participantes do evento. Munhoz lerá trechos do seu romance inédito, "Mentiras", baseado na obra do ficcionista americano. Na terça, Roth vai participar de um debate no Newark Museum.
Em cartaz até agosto, a exposição reúne cerca de cem fotos selecionadas pelo escritor a partir da sua coleção pessoal. Algumas imagens mostram a sua casa e escola no bairro de Weequahic.
"Ele pediu para ampliar os retratos em que é criança e aparece com a família", conta o curador James Lewis.
Lugares importantes para a sua ficção são contemplados pelo "Philip Roth's Newark", passeio de ônibus do The Newark Preservation and Landmarks Committee. Os integrantes do tour, do qual Roth já participou, leem trechos dos livros referentes a cada parada.
A maior parte das 31 obras de Roth -19 delas lançadas no Brasil pela Companhia das Letras- incorpora Newark a seus enredos. A cidade aparece, por exemplo, na estreia ("Adeus, Columbus", de 1959) e na publicação mais recente ("Nêmesis", de 2010).
Candidato permanente ao Prêmio Nobel, Roth recebeu as honrarias mais importantes da ficção americana, como o Pulitzer e o National Book Award, além do Man Booker International.
INSPIRAÇÃO
Ele diz ter deslanchado no fim dos anos 1950, após conhecer o trabalho de dois escritores também judeus. Saul Bellow e Bernard Malamud transformaram em ficção suas experiências em Chicago e no distrito nova-iorquino do Brooklyn, respectivamente.
Aimee Pozorski, presidente da The Philip Roth Society, que publica anualmente estudos sobre a obra do escritor, considera Newark um microcosmo dos Estados Unidos.
Segundo Pozorski, obras como "Pastoral Americana" (1997), "Casei com um Comunista" (1998) e "A Marca Humana" (2000) tratam a cidade como um personagem. Seu progresso e decadência resumem a sociedade americana.
"A cidade não revela apenas a América anterior à Segunda Guerra Mundial testemunhada por Roth, mas a evolução posterior desse autor."
Na última década, em livros como "Homem Comum" (2006) e "A Humilhação" (2009) ele tratou de velhice e morte. "Philip Roth: Unmasked" aborda esses temas.
O documentário, entretanto, omite a aposentadoria de Roth, anunciada à revista francesa "Les Inrockuptibles" em outubro passado.
Segundo Manera, ele não vai parar de escrever. "A imprensa deu à declaração um tom sensacionalista", opina ela. "Não ficaria surpresa se ele publicasse um livro em breve."
Roth comenta que "fica deprimido e ansioso" quando não escreve. Nesse intervalo de inércia, acha que a escrita perde "a sua magia."
Para Manera, ele estaria vivendo esse momento ao prometer ser "Nêmesis" a sua última ficção. Roth irá seguir o exemplo de ficcionistas como Alice Munro e Stephen King, que anunciaram a aposentadoria, mas voltaram a escrever. "Não existem ex-escritores", ela diz.


JORNADA ROTH
Autor ganha homenagem em São Paulo
A Companhia das Letras e o Espaço Cult promovem nesta terça exibições de filmes baseados em livros de Roth e debates sobre o autor.
Veja programação em www.espacorevistacult.com.br.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Livro ganha elogios nos EUA ao ter obesa diabética como protagonista

folha de são paulo

The Middlesteins', de Jami Attenberg, aborda com compaixão a epidemia do excesso de peso
Autora mostra compreensão com a personagem, mas não a absolve da própria responsabilidade
FRANCISCO QUINTEIRO PIRESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE NYProtagonista do romance "The Middlesteins", Eddie tem um apetite incontrolável. O que constituía a única fonte certa de felicidade tornou -se o seu suicídio gradual. Obesa e diabética, Eddie engorda sem parar, enquanto sua família fragmenta-se.
"Se alguém tem um problema com comida -se come muito ou pouco-, existe um reconhecimento imediato. É um julgamento à primeira vista", diz Jami Attenberg, 41, autora de "The Middlesteins" (Grand Central Publishing, 288 págs., US$ 24,99).
A escritora norte-americana foi "gordinha" quando criança e considera a compulsão alimentar "um tema literário fértil". "Eu sempre amei comer e gostaria de abordar sem preconceito hábitos alimentares problemáticos", diz. "O inimigo de Eddie não é a comida. É a relação dela com o ato de comer."
Attenberg recebeu elogios da imprensa dos Estados Unidos e de romancistas como Jonathan Franzen ao apresentar um enredo que demonstra compaixão por um personagem afetado pela obesidade, considerada uma epidemia naquele país.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, pelo menos dois terços dos norte-americanos têm sobrepeso e 36% são obesos. No Brasil, mais de 53% das pessoas têm sobrepeso, enquanto quase 20% são obesas.
"The Middlesteins" aborda os custos emocionais e sociais do excesso de peso. Para Maureen Corrigan, professora da Universidade Georgetown, Attenberg é pioneira na ficção norte-americana por criar uma protagonista obesa.
"Livros de 'chick lit' [literatura de mulherzinha], como 'Best Friends Forever', de
Jennifer Weiner, já apresentaram personagens gordos que emagrecem ao longo da história", diz Corrigan. A diferença de 'The Middlesteins' é que "a sua autora mostra-se compreensiva com Eddie, mas não absolve a responsabilidade da personagem por seu peso e saúde".
A abordagem de Attenberg destaca-se se comparada a documentários e reality shows lançados na última década.
Após "Super Size Me - A Dieta do Palhaço" (2004), de Morgan Spurlock, que se alimentou só de McDonald's por um mês, surgiram "Forks over Knives" (2011) e "The Weight of the Nation" (2012). Baseados em pesquisas científicas, os filmes falaram dos efeitos de uma dieta balanceada e do excesso de peso.
As séries televisivas "The Biggest Loser" (NBC) e "Extreme Makeover: Weight Loss Edition" (ABC) têm em comum o fato de transformar em espetáculo o emagrecimento dos participantes obesos.
Attenberg procurou um enfoque diferente com o auxílio de duas ficções: "Olive Kitteridge", de Elizabeth Strout, e "As Correções", de Jonathan Franzen. Ambos, ela explica, "inventaram histórias de famílias pequenas e as fizeram ser universais".